sábado, 26 de julho de 2008

Tróia: até ver...

É um texto de Alice Brito, editado ontem, sobre assunto que anda na ordem do dia em Setúbal: o tarifário da travessia do Sado de barco.
«Se as tarifas de todos os barcos duplicarem no futuro, Tróia, aquela língua de areia, ali mesmo ao alcance dos olhos e das mãos, passará a ser um território tão distante como qualquer outra estância balnear naqueles paraísos improváveis, que a publicidade nos vende, longínquos e inacessíveis.
Na memória difusa desta cidade, de alma calejada por muitas e variadas malfeitorias, há um espaço de alegres afectos, espaço eleito, traçado a preceito pelo instinto do lazer - a praia.
Gerações sucessivas das suas gentes, durante os meses de muito verão, se encaminharam determinadas para os areais de sol de que a cidade era proprietária legítima.
Muita praia tem Setúbal a rendilhar-lhe a orla marítima em bilros líquidos e sedosos, desde a Arrábida, onde um mar de memórias esmeraldas descansa íntimo da serra, até à Figueirinha, cais onde atracam autocarros empanturrados de criançada de chapéu e balde, para não falar de Albarquel, ali à mão de semear, a dispensar transportes. E tantas outras. Galapos, Galapinhos, a Praia dos Coelhos, sucessões felizes de areia luminosa a deixar-se pisar pelos pés descalços dos habitantes da cidade.
Finalmente, Tróia, a península. (...)
»

1 comentário:

MARIA DA GLÓRIA DIAS disse...

Tróia: para sempre!
Meu pai e minha mãe, ofereciam-me anualmente, durante os poucos dias de verão de que dispunham, a praia. Desde a minha primeira infância que, atravessando o Sado a bordo dos barcos da Tróia, me habituei a percorrer o seu interior desde a proa até à popa, passando pela casa do motor onde ficava algum tempo fascinada com os movimentos, o som e o luzir dos seus elementos, para finalmente me quedar à janela, muito "quieta", a observar com encanto aqueles seres escuros, que saiam e e re-entravam na água, tão queridos, que faziam questão de acompanhar quase todo o trajecto do barco, para alegria de todos os que os comtemplavam.Os meus pais iam servindo de guias nestas inesquecíveis passeatas que me hão-de acompanhar para sempre. E eram tantos nessa altura... e tão lindos! Quando chegávamos a Tróia, o meu pai transportava-me às cavalitas até ao outro lado, o do mar. Era uma longa travessia, essa que fui aprendendo, sentido a dificuldade de quem carregava comigo, com os lanches , com os briquedos e com o guarda-fato-de praia do bébé. Sim, porque segundo rezam as crónicas, para além de não parar sossegada, depois de muito gatinhar, sempre na direcção da água, qual tartaruga saída da casca, a frequência e rapidez com que me metia naquela elemento, impunha célere mudança de roupa. Conseguida a bipedia, as coisa pioraram para os meus pais. Para mim, foram, são e serão sempre as férias na Tróia. Porque existem na minha memória.