domingo, 20 de Julho de 2014

Uma surpresa... para a paz que procuramos!

 
É bom ver e ouvir isto. Sobretudo num tempo em que as civilizações têm dificuldade em encontrar-se (apesar de tudo!!!), em que a tristeza e as dúvidas invadem a sociedade, em que a história de um avião caído nos mostra a nossa vulnerabilidade e a falta de respeito pelo ser humano... Vale mesmo a pena entrar naquela multidão e acompanhar o ritmo da 9ª sinfonia e a força que Beethoven transmitiu...


 

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

A Arrábida nas imagens de Carlos Silveira


Serra-Mãe é o título que Carlos Silveira pediu emprestado a Sebastião da Gama para titular um filme de cerca de 9 minutos, que pode ser visto aqui. Imagens fortes e poderosas, com música adequada, a partir de um olhar, esta visão da Arrábida de Carlos Silveira leva o espectador ao mundo da noite, do mistério, da génese e da espiritualidade. Muito intenso, forte! A ver!

Para a agenda - D. Manuel Martins e os seus "pregões de esperança"...


... num tempo em que, cada vez mais, deles precisamos. Não sei se é a reedição da obra que saiu em 1997, editada pela Caritas Diocesana de Setúbal... mas, sendo ou não, é uma mensagem intensa como sempre foi a de D. Manuel Martins, apostada na fraternidade, na partilha, na paz, sem falsos palradores. O convite para a leitura e para a sessão fica feito. Para a agenda! Inevitavelmente! Pregões de esperança, já! Em 16 de Julho.


quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Para a agenda - Jorge Sousa Correia, autor setubalense, em Setúbal com D. João II



Jorge Sousa Correia (n. 1946), autor setubalense, vem à sua terra para apresentar publicamente a sua segunda obra, recentemente editada: o romance histórico As sombras de D. João II, que passa por momentos nesta terra do Sado. A história de um homem que foi príncipe e que nasceu como toda a gente: do "ajuntamento" de seus pais. Na Culsete, hoje, às 18h30. Para a agenda.

segunda-feira, 7 de Julho de 2014

O soldado "Milhões", herói da Grande Guerra, contado por Francisco Galope



Aníbal Augusto Milhais, o conhecido “Milhões”, nasceu em 9 de Julho de 1895 e faleceu em 3 de Junho de 1970. Ainda não tinha 22 anos na data em que embarcou para a Flandres, incorporando o Corpo Expedicionário Português (CEP), no final de Maio de 1917, como militar do Regimento de Infantaria 19.
Vindo de Valongo (a que mais tarde se juntou “de Milhais” em sua honra), no concelho de Murça, Aníbal Augusto fazia parte do grande grupo de incorporados que nunca saíra do seu torrão. Muito saberia da vida, mas não conseguia adivinhar que, com o passar dos tempos, o seu nome viraria lenda, o seu rosto de herói desafiaria a memória numa praça da sua sede de concelho e a sua vida seria resguardada numa biografia publicada no primeiro ano do centenário da Grande Guerra, aquela em que ele se expôs diariamente à fortuna e de onde conseguiu regressar, contrariamente ao que foi o fado de camaradas de armas e de amigos e vizinhos.
Francisco Galope, jornalista, encontrou-se com a narrativa do soldado “Milhões” em 2008, quando preparava uma reportagem com informação de carácter histórico para a revista Visão – História, para um número que assinalaria os 90 anos do fim da Grande Guerra e da assinatura do Tratado de Versalhes. Mas a descoberta pedia mais do que uma reportagem e, cinco anos depois dessa publicação, Francisco Galope apresenta a biografia de Aníbal Augusto Milhais, o “Milhões” da lenda, sob o título O herói português da I Guerra Mundial (Lisboa: Matéria-Prima Edições, 2014).
Curiosamente, a forma de Aníbal Augusto ter ascendido ao lugar de herói ficou a dever-se a um jornal, o Diário de Lisboa, quando corria o mês de Abril de 1924, que desencantou o combatente transmontano e o fez andar num périplo que teve vários pontos altos de reconhecimento e de vivência, como foi, por exemplo, o da presença na Batalha, quando no dia 9 desse mês ali se procedeu à inauguração do lampadário junto do túmulo do “soldado desconhecido” (criado em 1921), homenagem aos caídos na Grande Guerra, em data cara para Milhais: fora na sequência da sua acção, em 9 de Abril de 1918, ao defender-se e ao defender muitos dos seus camaradas perante o inimigo alemão, que ele se tornou numa imagem do heroísmo no campo de batalha. Posteriormente, o desabafo de um dos seus comandantes, João Maria Ferreira do Amaral, ao dizer-lhe, num jogo de palavras, que ele ”era Milhais, mas valia Milhões”, abria-lhe a porta para a memória, de tal maneira que, no pedestal de Murça, a frase do comandante surge lavrada em lápide.
Se, em 1921, Menezes Ferreira contou a história heróica dos soldados portugueses, construindo uma personagem que seria resultado das vivências de todos eles, na obra João Ninguém – Soldado da Grande Guerra (contendo tanto de épico como de humorístico como de crítico), se designações como “serrano”, “gambúzio” ou “folgadinho” assentavam na tipificação do soldado herói português que combateu na Grande Guerra, o conhecimento de “Milhões” deu um rosto, um corpo e um sentir a esse herói, várias vezes aclamado, em diversas oportunidades alcandorado a representante da valentia dos homens do CEP.
Francisco Galope marcou encontros vários com a memória de “Milhões”, fosse através da leitura do que disseram os jornais, da consulta ao arquivo da RTP (onde surge registo de entrevista com o herói de Valongo de Milhais) e nos arquivos militares, fosse por via de fontes orais de familiares do “Milhões”, fosse ainda pelo recurso à literatura memorialística portuguesa deste período (cujos títulos vão sendo referidos ao longo da obra). Todo este viajar pela pesquisa no sentido de ser reconstituída uma biografia permitiu ao autor a elaboração de uma tela completa do que pode ter sido a vida de Aníbal Milhais, sobretudo na experiência na trincheira da Flandres. Afinal, aquilo por que Milhais passou não terá sido diferente do que foi vivido pelos outros companheiros conforme registado pelo memorialismo. Assim, Francisco Galope preenche lacunas, dando a imagem possível do herói e do seu feito.
O desenvolvimento da narrativa vai sendo sujeito a reflexão do próprio narrador, que, frequentemente, se cola ao seu protagonista no sentido de o entender ou de justificar as suas atitudes, sempre com o objectivo de tornar a narrativa mais viva, quase como se uma memória se reproduzisse, não esquecendo pormenores como o da maneira de falar ou o da linguagem utilizada, sobretudo no que diz respeito a gíria militar, ou mesmo o que advém da possibilidade de adivinhar o que correria no pensamento do soldado e na sua maneira de ver o mundo.
Aníbal Milhais não sai endeusado, antes nos é apresentado um cidadão, que, perante uma experiência rara e intensa, em que havia a vida para defender, hesita, ganha, perde e luta, não visando ser herói, mas procurando a sobrevivência, agindo com a naturalidade que a vida lhe ensinou. Francisco Galope, apesar do título dado ao livro, é cauteloso no apuramento da verdade em torno do gesto que fez Milhais subir ao estatuto de “herói” (o que se terá passado em Huit Maisons em 9 de Abril e nos dias subsequentes), apresentando, no final, documentos de Ferreira do Amaral e de David Magno, um justificando o reconhecimento e a atribuição de galardão a Milhais e o outro assumindo que o feito do soldado transmontano não foi mais glorioso que o de muitos outros dos seus homens, ainda que reconhecendo Magno que a imagem do “Milhões” se transformou em “símbolo dos nossos humildes soldados”.
Uma biografia a ler. Porque dá uma imagem do que foi a vida dos portuguese nas trincheiras, porque recria com base em fontes importantes um aspecto da participação portuguesa na Flandres, porque, ainda que falando de um “herói”, o humaniza. E porque, tal como nas histórias que conhecemos, não ficamos a saber tudo sobre os heróis, apenas o essencial.

quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Sobre Sophia, dez anos depois, para sempre



Sobre Sophia. Quando passa uma década sobre a sua morte e a sua escrita nos fustiga e alimenta. Um bom documentário sobre uma das vozes mais importantes da literatura portuguesa de sempre. Realização de Pedro Clérigo, em 2007, para a RTP. Com muitos excertos de obras, muitos testemunhos, muita memória.

Para a agenda - As arruadas da Culsete, entre livros e livros



A Culsete, livraria que já passa dos 40 anos em Setúbal, leva a cabo, a partir de 4 de Julho, a sua segunda edição do programa "Arruada", gizado e orientado por Fátima Ribeiro de Medeiros. Viagem por livros, livros, livros... por saberes, pela história e pela literatura, pela leitura e pela escrita, pela música, pela vida. Para muitos gostos, para todos os gostos. Para a agenda!

Para a agenda - "As Viríadas", de Isaac Samuda



Um convite para a apresentação da edição crítica de As Viríadas, de Isaac Samuda e Jacob de Castro Sarmento, preparada por Manuel Curado. No salão nobre da Câmara Municipal de Lisboa, em 9 de Julho. Uma epopeia atravessada por Viriato. Para a agenda.

domingo, 29 de Junho de 2014

Para a agenda - Quando a poesia se encontra com a Arrábida...

 
 
Em 2002, António Mateus Vilhena e Daniel Pires publicavam, através do Centro de Estudos Bocageanos, a recolha A serra da Arrábida na poesia portuguesa.
Uma dúzia de anos passados, surge a 2ª edição, aumentada. Vai ser apresentada no salão nobre da Câmara Municipal de Setúbal por Viriato Soromenho-Marques, em sessão no dia 4 de Julho, pelas 21h30. Um evento a não perder. Para a agenda!
 


sábado, 28 de Junho de 2014

Há cem anos, Gavrilo Princep inscreve o seu nome na História... e começa uma guerra

 
O dia 28 de Junho de 1914 caiu num domingo. Em Sarajevo, o arquiduque Francisco Fernando foi assassinado por uma série de coincidências e de acasos - depois de o atentado ter falhado, uma circunstância do acaso, o engano numa rua, levou o Arquiduque ao alcance da arma de um dos homens do complot... e Gavrilo Princep não hesitou: com dois tiros, acabou com a vida do Arquiduque e da esposa. Estava dado o primeiro passo objectivo para o que veio a ser a Grande Guerra, a Primeira Guerra Mundial.

Gavrilo Princep dispara sobre o herdeiro do império austro-húngaro, arquiduque Francisco Fernando

Gavrilo Princep é preso
 
No Congresso de Berlim de 1878, o prussiano Otto Bismarck afirmou que “a grande guerra europeia nascerá de qualquer disparate nos Balcãs”. Tendo falecido vinte anos depois, não chegou a ver que esse seu prognóstico viria a transformar-se em realidade. Se adivinhou isso, não conseguiu prever, contudo, que o resultado seriam dez milhões de mortos, que vários impérios submergiriam como consequência, que o conflito atravessaria os vários continentes.
Trinta anos depois deste vaticínio bismarckiano, em 5 de Outubro de 1908, as províncias da Bósnia e da Herzegovina eram anexadas à Áustria-Hungria pelo imperador Francisco José, decisão que gerou contestação a nível internacional e que provocou forte indignação na Sérvia, mesmo porque as populações da Bósnia e da Herzegovina eram, em parte significativa, sérvias.
O dia escolhido pelo arquiduque Francisco Fernando para visitar Sarajevo, dia de S. Vito, não foi o melhor – com efeito, em 28 de Junho de 1389, os sérvios tinham sido derrotados pelos turcos na batalha do Kosovo e essa data, além de constituir um dia de memória para os sérvios, era também o Dia Nacional da Sérvia. Assim, os conspiradores, afectos ao grupo Mão Negra, achavam que a conjugação dos acontecimentos era a possibilidade de a Bósnia se libertar do poder austro-húngaro e passar a integrar a Sérvia.
Na visita do arquiduque, o atentado falha, num primeiro momento, pois o responsável por atirar a bomba assassina falha apontaria e ela cai sobre uma outra viatura, tendo originado vários feridos. O arquiduque prossegue a visita e, depois das cerimónias, decide ir ao hospital visitar as vítimas. No trajecto, o motorista engana-se, entra numa rua sem saída e, ao tentar desfazer o lapso, surge Gavrilo Princep, do movimento conspirador, que, perante a oportunidade, não hesita e dispara sobre o arquiduque e sobre a mulher.
Francisco Fernando e Sofia de Hohenberg caíam e deixavam o caminho aberto para o conflito que duraria mais de quatro anos. Justamente catorze anos antes, em 28 de Junho de 1900, Francisco Fernando assinara um documento oficial em que declarava Sofia com sua esposa. Tristes coincidências!...
Gavrilo Princep foi preso e viria a morrer na prisão em 1918 por razões de falta de saúde. Simultaneamente, entrava na História, tornando-se herói para os sérvios. Cumpria a promessa que fizera a um amigo, Spiro Maric, quando adolescente: “um dia, as pessoas vão saber o meu nome.”
 


sexta-feira, 27 de Junho de 2014

Dia da Língua Portuguesa, hoje


 
«En’o nome de Deus. Eu rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal, seendo sano e saluo, temẽte o dia de mia morte, a saude de mia alma e a proe de mia molier raina dona Orraca e de me(us) filios e de me(us) uassalos e de toido meu reino fiz mia mãda p(er) q(eu) depos mia morte mia molier e me(us) filios e meu reino e me(us) uassalos e todas aq(ue)las cousa q(eu) De(us) mi deu en poder sten en paz e en folgãcia. P(ri)meiram(en)te mãdo q(eu) meu filio infante don Sancho q(eu) ei da raina dona Orraca agia meu reino enteg(ra)m(en)te e en paz.»

Esta é a transcrição, da autoria do padre Avelino de Jesus Costa, do início daquele que é considerado o mais antigo documento oficial em língua portuguesa, assinado por D. Afonso II há 800 anos, em 27 de Junho de 1214. A transcrição integral pode ser lida aqui.
A ideia de transformar esta data no Dia da Língua Portuguesa partiu do investigador brasileiro Roberto Moreno e mereceu acolhimentos vários, bem como reprovações diversas, porque nestas coisas de se estabelecer uma data para ser considerada símbolo fundacional as opiniões atropelam-se segundo especializações, caprichos e gostos. Todos sabemos que a língua portuguesa já era falada antes da existência de tal documento, argumento que linguistas usam para manifestar discordância em relação à data. Só que, se a língua portuguesa se restringisse à oralidade, provavelmente já teria desaparecido…
A data pode ser discutível, mas, à falta de outra melhor ou irrefutável, que seja esta uma possibilidade de festa em torno da língua portuguesa que nos identifica, em torno de uma língua que é plural e diversificada, em torno de uma língua que não tem de estar presa a um Acordo Ortográfico que atrofia e descaracteriza. Como refere José Ribeiro e Castro no Público de hoje (“Língua portuguesa, recurso fabuloso”), “esta festa dos 800 anos também é a festa da vitalidade, imorredoira e crescente, da nossa língua comum de todos os falantes de Português: o Português, língua da Europa; o Português, língua das Américas; o Português, língua de África; o Português, língua do Oriente; o Português, língua do mundo.”
 

Cristina Prata visita a história dos vinhos de Palmela


 
A obra Palmela chão que dá uvas – A terra e o trabalho das gentes (1945 a 1958), de Cristina Prata (Lisboa: Edições Colibri, 2013), um dos mais recentes títulos publicados sobre história local de Palmela, para lá do seu carácter ensaístico (mesmo porque se trata de uma tese de mestrado), tem a vantagem de ter sido escrito por alguém que cresceu, habitou e se entranhou no próprio meio que decidiu estudar e conviveu com as pessoas que têm sido as responsáveis por esse “dar uvas” que a terra de Palmela tem como característica.
Com efeito, Cristina Prata começa justamente por assinalar essa ligação ao meio, afirmando a sua identidade, valendo a pena reparar nessa ligação profundamente afetuosa e sensível, mesmo que num excerto um bocadinho longo: “A escolha de estudar a agricultura terá origem nas minhas próprias raízes. Nascida em Cabanas, na freguesia de Quinta do Anjo, filha e neta de gente que trabalhou a terra, guardo nos cinco sentidos das minhas memórias de menina os sinais do movimento de cada uma das estações do ano. A Primavera, com o azul das caldas que pintava os pios, durante o tratamento das vinhas, e a chegada das flores e dos bandos de pássaros aos pomares. O Verão, na abundância da cor e do sabor dos pêssegos, das ameixas e dos figos e também do intenso calor, amenizado pela frescura da água das regas, cujos tanques tantas vezes substituíram a praia. O Outono, com a acidez das tângeras, a chuva e o cheiro da terra molhada, pronúncias de mais um ciclo de trabalhos na terra, mas também na escola. E finalmente o Inverno, sempre demasiado longo, da escuridão dos dias, da nudez das árvores e da lama da terra lavrada. Tudo isto, que é o princípio, agradeço à minha família.”
Ao longo de duas centenas de páginas, o leitor passeia pela história e pela região, lendo notícias e opiniões colhidas na imprensa local, conhecendo dados estatísticos, seguindo o estudo e análise aturados da autora, encontrando personagens e acontecimentos que fizeram a narrativa de Palmela, desfazendo mitos e descobrindo saberes, vasculhando arquivos, caminhando por terrenos como Rio Frio ou a Quinta da Torre, assistindo à criação da Adega Cooperativa e, sobretudo, ouvindo e convivendo com as pessoas que regaram a terra com o esforço e o suor, porque, afinal, “são as gentes o objecto primordial da análise”.
Mas este contar é também o relato de uma das facetas da história da agricultura, sobretudo naquela vertente da inegabilidade do princípio de que “a terra molda a vida de quem a habita”, num casamento perene com o trabalho braçal, com o esforço dado pelo saber e pelo entendimento “da” e “com” a Natureza ou no jogo de relações entre o campo e os organismos estatais como os Grémios da Lavoura ou a Junta Nacional do Vinho.
A escolha do título e do subtítulo da obra de Cristina Prata prova que as expressões populares escondem muito mais do que aquilo que são os significados das palavras. Se o título é feliz, não é apenas por afirmar uma condição do presente, antes é por mostrar que, sob o manto das frases feitas, está o labor humano, partilhado, tornando-se mesmo interessante a abordagem sociológica que a investigação vai exigindo – é que, mesmo nos trabalhos do vinho, a questão do género impunha regras: “aos homens cabem tanto as tarefas fisicamente mais duras, as lavras que revolvem as terras preparando-as para o plantio, como as mais minuciosas, traduzidas pelas podas e enxertias, cuja execução não só interfere na fertilidade da planta, como também lhe molda o desenvolvimento. (…) À mulher cabe apenas a colheita da uva e outras tarefas, cuja execução traduz quase um prolongar das competências da sua vida doméstica: limpar as vinhas dos sarmentos (…) e alimentar de água os pulverizadores com os quais os homens protegem as plantas.”
A abordagem sociológica passa ainda pelas marcas de sazonalidade ou pelo ambiente migratório que o trabalho das vinhas e do vinho exige (aspetos determinantes para o crescimento populacional do concelho), bem como por essa junção mágica responsável pela associação do trabalho e da festa, pelas identidades de “caramelos” e de “malteses” ou ainda pelas raízes e laços que se criam em função do sentimento de posse da terra.
Cristina Prata não conta apenas a história, antes a problematiza para que o leitor não seja levado a incorrer em ilusões sobre a ruralidade, sobretudo num tempo marcado pelas vertentes de lógicas nem sempre compatíveis como são a ruralidade e a industrialização. E, a terminar, a pergunta fica, repleta na sua inquietação, convidativa pela interpelação que faz a todos e a cada um dos leitores: “Hoje promovemos e perpetuamos a memória do rural mítico e bucólico, que o Estado Novo sempre encenou, ou o rural de quem realmente lá viveu, trabalhou e do qual tantos fugiram logo que o puderam fazer?”
Podemos procurar neste livro a história da região vitivinícola, os dados que transformaram esta terra num dos expoentes da produção de vinhos de qualidade elevada, a própria forma como o concelho foi evoluindo ao sabor das políticas de investimento ou de fomento. Mas mais importante parece ser o contacto com as gentes, o registo dos dizeres e dos saberes daqueles que amanham a terra e educam a vide, o saber estar e ouvir a experiência em primeira mão e o transformar esses dizeres e aprenderes em matéria de investigação, de estudo e de exemplo. É isso que Cristina Prata nos proporciona, com sensibilidade, bom gosto e ternura e em linguagem acessível.
Muitas razões para que este livro seja lido!

Para a agenda: Cristina Prata, "Palmela, chão que dá uvas"

 

Hoje, na Casa Mãe da Rota dos Vinhos, em Palmela, pelas 17h00, Cristina Prata apresenta o seu estudo Palmela - Chão que dá uvas. Uma obra escrita com confessado carinho. Para a agenda.

quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Rostos (194) de Setúbal

 




 
"Rostos de Setúbal", por  Filipe Ferreira, em Setúbal, junto à Praia da Saúde (Parque Urbano de Albarquel), obra incluída no projecto "Somos todos Alegro - Arte em toda a parte"

Para a agenda - Onésimo Teotónio Almeida em Setúbal

 

Na tarde de Sábado, Onésimo Teotónio Almeida, professor, escritor e excelente conversador, estará na Culsete, em Setúbal, para falar do seu mais recente livro, Pessoa, Portugal e o Futuro. Por certo, uma sessão a não perder! Para a agenda.

quarta-feira, 18 de Junho de 2014

Marco dos Rotários em Palmela

 
 
O movimento rotário conta com mais um marco, desta vez a assinalar a sua dinâmica em Palmela. Situado na Avenida da Liberdade, o marco do Rotary Club de Palmela foi inaugurado em 14 de Junho, em cerimónia que contou com a presença do presidente da Câmara Municipal, Álvaro Amaro, e do governador rotário Fernando Martins.


Palmela em homenagem religiosa

 
 

Desde 15 de Junho, os paroquianos de Palmela têm, à entrada da vila, marca da homenagem feita a Nossa Senhora de Fátima. A obra de arte foi benzida pelo prelado sadino, D. Gilberto Canavarro.


segunda-feira, 16 de Junho de 2014

No rasto de Gavrilo Princip

A revista Ler, da Fundação Círculo de Leitores, acaba de entrar na sua 3ª série com a recente publicação do nº 134, alusivo a Junho.
Entre as obras a merecerem divulgação nesta edição conta-se o título de Tim Butcher, O gatilho (a ser publicado brevemente com a chancela da Bertrand), de que a revista publica capítulo (páginas 106-117) sob o título “Tudo estava preparado para começar em Sarajevo”. É, obviamente, a história de Gavrilo Princip, o jovem de 20 anos que, em 1914, quando o mês de Junho estava a acabar, pôs o seu nome na História ao ter disparado sobre o arquiduque Francisco Fernando.
Nesta obra, Butcher propõe-se fazer o percurso de vida de Gavrilo a partir das suas origens, na aldeia de Obljaj, onde contactou com familiares do clã Princip. Duas descobertas importantes: numa pedra, bem próximo das ruínas do que foi a casa da família, o autor confronta-se com a inscrição “G.P. – 1909”, uma “descoberta eletrizante” de algo com a assinatura da personagem em busca da qual Butcher corre. Mais adiante, uma revelação de Mile, um familiar que não chegou a conhecer Princip (nasceu em 1930), sobre a inscrição naquela pedra: «Sempre nos contaram que, enquanto estava a fazer essa inscrição, um amigo seu chamado Spiro Maric lhe perguntou por que razão estava a fazer aquilo. Ele disse que era porque ‘um dia, as pessoas vão saber o meu nome.’»
Uma história que promete e que o narrador faz questão de tornar próxima do leitor, quase como se ambos estivessem na mesma descoberta. E somos levados a ter um olhar de simpatia sobre a personagem que motiva a história… não fosse ela a que disparou o gatilho que aceleraria o início da Primeira Guerra Mundial!
 

terça-feira, 27 de Maio de 2014

Para a agenda - Fernando Dacosta e o Estado Novo



No programa "Muito cá de casa", que o José Teófilo Duarte promove, Fernando Dacosta vai estar na sexta-feira para debater "As ilusões do Estado Novo". É já dia 30, às 22h00. Para a agenda!

Para a agenda - Mais um livro de Maria Luísa Piteira de Barros



Por entre o caminhar. Mais um livro de Maria Luísa Piteira de Barros. A ser apresentado em 31 de Maio, na Casa da Baía, em Setúbal, por Luciano Reis. É um convite.

sábado, 24 de Maio de 2014

Francisco Fanhais: entre a "Cantilena" e outros poetas e músicas



Com a edição do Público de hoje completa-se a colecção “Canto & Autores” (Levoir Marketing / “Público”), de treze títulos, com o volume dedicado a Francisco Fanhais, constituído por booklet assinado por António Pires com um texto resultante de entrevista testemunhal a Fanhais e por um cd com 17 faixas, em que a canção “Cantilena” (letra de Sebastião da Gama e música de Francisco Fanhais) ocupa a sexta posição no alinhamento. Por este cd passam ainda versos de Manuel Alegre, de Sophia de Mello Breyner, de César Pratas (n. Setúbal, 1936) e de António Aleixo, entre outros.
O poema “Cantilena”, cujo primeiro verso é “Cortaram as asas ao rouxinol”, foi escrito por Sebastião da Gama em 25 de Novembro de 1946 e, logo no ano seguinte, escolhido para o que viria a ser o segundo livro do poeta, Cabo da boa esperança (1947).
É um dos poemas clássicos da obra de Sebastião da Gama quando se quer referir a presença dos animais na poesia portuguesa, tal como se pode ver na antologia Os animais na poesia, organizada por Graça Magalhães em 2007 (Col. “1001 Livros”. Lisboa: Lisboa Editora).
No entanto, este poema também tem servido para uma leitura sobre a liberdade, interpretação para que muito contribuiu o arranjo musical e a voz de Francisco Fanhais na década de 1960. Foi, aliás, este um dos poemas que Fanhais cantou na sua intervenção no programa “Zip-Zip”, transmitido na RTP em 1969… e que o próprio cantor fez inserir numa das suas gravações discográficas. Com a mesma leitura em prol da liberdade, foi este poema inserido na antologia Lá Longe, a Paz – A Guerra em Histórias e Poemas, organizada por Manuela Fonseca, Irène Koenders, Annemie Leysen e Carol Fox (Porto: Edições Afrontamento, 2001).
Para lá de outros interesses que motivem a escolha deste cd (e podem ser vários – a música de intervenção, a poesia portuguesa, o cantor), ele constitui uma boa oportunidade para se ouvir Sebastião da Gama na voz de Fanhais!

domingo, 18 de Maio de 2014

Guerra Junqueiro, Edith Cavell e o "monstro alemão"



Edith Cavell (n. em Dezembro de 1865) tinha 49 anos na manhã de 12 de Outubro de 1915, data em que, pelas sete horas, foi executada em Bruxelas pelos alemães. A sua prisão tivera lugar em Agosto, depois de ter sido acusada de proteger a fuga de soldados aliados no país ocupado que a Bélgica era. Com efeito, calcula-se que duas centenas de combatentes do conflito que foi a Grande Guerra tiveram a possibilidade de chegar à neutral Holanda graças a Edith Cavell, acção que a enfermeira inglesa de Norfolk nunca negou.
A proclamação a dar nota da decisão do Tribunal do Conselho de Guerra Imperial Alemão, assinada nesse mesmo dia 12 de Outubro pelo governador, general Von Bissing, dava conta da condenação à morte “por traição colectiva” de seis pessoas, entre as quais Cavell, e subjugava mais quatro a quinze anos de trabalhos forçados, contendo ainda em nota final a informação de que, quanto a Cavell e a outro condenado, “o julgamento já recebeu plena execução” (Bocados de papel – Proclamações alemãs na Bélgica e em França. London: Hodder and Stoughton, 1917). Poucas horas antes de morrer, Edith Cavell confidenciou ao capelão anglicano Stirling Gahan: “Nada receio. Já vi a morte tantas vezes que a não estranho, nem me assusta. Dou graças a Deus por estas dez semanas de tranquilidade antes de morrer. Passei continuamente uma vida agitada e cheia de obstáculos e, por isso, este período de repouso o julgo uma grande mercê. Aqui foram todos bondosos para mim. Mas, no momento supremo, em face de Deus e da eternidade, eu sinto e quero dizer aos homens que o patriotismo não basta: não devemos ter ódio nem azedume para ninguém.”
Esta citação, longa, impressionou Guerra Junqueiro, que, em Barca de Alva, nesse mesmo mês de Outubro, a usou para abrir um seu escrito dedicado à memória da enfermeira e professora, opúsculo cujo produto da venda tinha como destino a enfermagem da Cruzada das Mulheres Portuguesas (Edith Cavell. Lisboa: Imprensa Nacional, 1916).
O escrito junqueiriano, em cinco páginas, não esconde a veneração pela cultura alemã ao mesmo tempo que o desprezo pela fleuma bélica e, no tom combativo, não disfarça o partido tomado na questão do conflito europeu. O parágrafo inicial é esclarecedor: “O horrendo assassínio de Miss Cavell pelo império alemão é já a crise delirante da ferocidade teutónica e demoníaca, o louco e pávido estrebuchar da bebedeira de sangue, orgulho e omnipotência, que fez da luminosa pátria de Goethe e de Beethoven a caserna ciclópica e sinistra do Kaiser, de Krupp e de Bismarck.” Na sequência, a intensificação da brutalidade e do sofrimento resulta da antítese entre o “martírio belga”, por um lado, e a “avalanche execranda, esmagadora, inexorável (…), numa raiva alcoólica e sangrenta de orgulho conquistador e canibalesco”, por outro, tendo pelo meio a “alma cristã de Miss Cavell, (…) que teve o martírio como epílogo”, depois de ter obedecido “ao dever, desafiando a morte”. Um bom retrato do ponto de vista cristão…
Guerra Junqueiro enaltece a verticalidade e a coragem de Cavell, não só pelo gesto que praticou na protecção dos seus validos, mas também, e sobretudo, pela coragem no assumir das responsabilidades, pela confissão do que fizera, sabendo que, ao mesmo tempo, aproximava a sua condenação, atitudes que levam o poeta transmontano ao retrato de desvanecimento: “Miss Cavell ergueu-se à esfera mais alta e luminosa da perfeição humana.” No lado oposto, o escrito de Junqueiro tenta descortinar o sonho do executor de Cavell, através de ideias que se acumulam gradativamente, num processo de onde não está alheia a ironia, até chegar ao seu estado máximo – “A ordem augusta vai fundar-se: Germânia, imperatriz do mundo, Berlim, capital do Universo”! Mas o poeta crê que esta é a futilidade do convencimento do carrasco, a auto-imagem que dos invasores poderia advir, algo que a última frase do escrito, num misto de esperança e de crença cristã, vai contrariar: “A justiça de Deus vai proclamar-se na terra. O monstro espantoso será desfeito e aniquilado.”
O testemunho de indignação quanto ao que foi o destino de Edith Cavell apareceu depois recolhido pelo autor no volume Prosas dispersas, em 1921 (Porto: Livraria Chardron, de Lello & Irmão), obra em que, de resto, surge um outro texto datado de 1918 sujeito ao momento histórico que foi a experiência da Primeira Grande Guerra. Sob o título de “O monstro alemão”, dedicado “à França heróica e redentora, à mãe sublime de Joana d’Arc”, o texto é datado de Março de 1918, também a partir de Barca de Alva.
Construída sobre metáforas de combatividade, este escrito de Junqueiro põe em oposição as figuras do italiano Cavour (1810-1861) e do prussiano Bismarck (1815-1898) para dizer que aquele foi um “tipo político perfeito”, enquanto este se destacou por “engrandecer a Prússia e prussianizar a Alemanha”, seguindo uma trajectória de onde não está ausente aquilo que pode ser visto como uma consequência da psicologia do invasor: “A Prússia, odiosa, invejosa e rancorosa, só domina, esmagando. Ou faz vítimas ou faz escravos. Bismarck, engrandecendo-a, exaltou um monstro.” A linguagem junqueiriana prossegue a senda da opressão e da desumanização: “O capacete prussiano deformou o cérebro da Alemanha; desumanizou-o, prussianizou-o, bestializou-o. (…) Bismarck não foi um grande homem, foi um grande prussiano. (…) A essência da alma de Bismarck  e da sua obra é esta: Quem tem a força tem o direito. O direito mede-se pela força. Krupp é o jurisconsulto do Império.”
A imagem da Alemanha e a fé no pangermanismo, recuando ao espírito da unidade alemã, segundo Junqueiro, alicerçado em Fichte (1762-1814, autor da ideia de um “pangermanismo espiritual”) e em Nietzche (1844-1900, que terá influenciado Bismarck de forma acentuada – “No fundo da Super-Alemanha de Bismarck há o Super-Homem de Nietzche”), acompanham neste texto o sonho que o cronista imaginou que já tinha sido o do carrasco de Cavell – a forte impressão ideológica de que a imagem de Átila, chefe dos Hunos e símbolo da Alemanha, viria a dominar o mundo, passando sobre valores como a civilização, a justiça ou o direito. Rapidamente Junqueiro nos dá o retrato: “Esta guerra é demoníaca e santa. É a guerra da Iniquidade com o Direito, da Besta com o Espírito, de Átila com Joana d’Arc.”
Estava-se em Março de 1918, justamente no início da Primavera que os alemães escolheram para progredirem de novo na frente oeste (haja em vista o que aconteceu em La Lys, por exemplo). A visão infernal de Junqueiro prolongar-se-ia ainda por uns meses nesse 1918. Mas o final do texto deixa antever que a vitória não será germânica, mas terá a marca de Joana d’Arc, pairando sobre todo o sofrimento a esperança cristã da paz – “Triunfa no Céu, porque da Terra varada de dor, inundada de sangue e orvalhada de lágrimas, brotam lírios de fé, lírios de chama, das campas nascem cruzes, das bocas voam preces, os joelhos dobram-se, as almas rezam e, cheias de infinita angústia, só encontram em Deus infinito amor a infinita paz!”
Este texto de Junqueiro não pode deixar de nos incomodar, atendendo às datas e aos retratos que dos povos e dos conflitos são traçados e ao que, de alguma maneira, é antecipado. Com razão José Nuno Pereira Pinto regista, a propósito desta lógica da cronologia e da quase profecia do poeta de Barca de Alva: “Esta capacidade de prognose, naquele momento, a meses do Armistício, é das páginas mais perturbadoras, pela sua capacidade profética, pela leitura não só do momento presente, como pelo prenúncio de que o apocalipse estaria para chegar.” (in À volta de Junqueiro. Henrique Manuel Pereira, org. Porto: Universidade Católica Portuguesa, 2010). O poeta virava também profeta, ao mesmo tempo que mostrava o seu compromisso cívico e também religioso.

sexta-feira, 16 de Maio de 2014

Memória: Miguel de Castro, cinco anos depois



Passam hoje cinco anos sobre a partida do poeta Miguel de Castro. Pretexto para um momento de convívio com a sua poesia. Uma mensagem destinada a Bocage, cuja primeira versão me foi disponibilizada pelo poeta, em 2006, para ser publicada na "Página Cultural" (nº 80) do Centro de Estudos Bocageanos, que, mensalmente saía n'O Setubalense. A versão que agora divulgo consta na mais recente publicação póstuma de Miguel de Castro - De silêncios e de sombras (Setúbal: Muito cá de casa / DDLX, 2013, pg. 13).

OLHA BOCAGE...
Olha Bocage - já não há Poesia!
A Poesia desapareceu.
Não faziam caso dela, e a pobrezita
Que sofria
De fome de sede e de frio,
Caiu à cama - e morreu.

Agora talvez ande a boiar no rio,
Magra e sem vestidos - nua,
Roída pelos peixes...
Coitada da Poesia!
E este estado de coisas continua...

Já não tenho alegria.

sexta-feira, 9 de Maio de 2014

Para a agenda: Memórias portuguesas da Grande Guerra


Hoje, no MAEDS. Um contributo para a memória da Grande Guerra, para as memórias portuguesas da Grande Guerra. Para a agenda!

sábado, 3 de Maio de 2014

Pedro Martins e António Reis Marques, "Agostinho da Silva em Sesimbra"



Os registos biográficos de Agostinho da Silva estão agora enriquecidos com um volume que estabelece a relação do homem de pensamento com a vila que se abriga na Arrábida, sob o título de Agostinho da Silva em Sesimbra, trabalho devido a Pedro Martins e a António Reis Marques (Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2014), apresentado por António Cândido Franco, obra que se pode dividir em três partes: a primeira, constituída por um estudo das relações de Agostinho da Silva com a “piscosa” (a propósito deste atributo camoniano dado a Sesimbra, lembro-me sempre da intenção do palmelense António Matos Fortuna de ser construída uma rede ou um pacto de geminação entre todas as terras portuguesas com nome referido em Os Lusíadas, projecto que não chegou a ter execução, infelizmente) e com algumas das suas personagens e outros vultos da cultura portuguesa que por Sesimbra passaram, levada a cabo por Pedro Martins; a segunda, formada por dois textos de cunho memorialístico devidos a António Reis Marques, acentuando as vivências de Agostinho da Silva em Sesimbra; a terceira, reproduzindo a que terá sido a última entrevista do filósofo, saída no mensário sesimbrense Raio de Luz, no último dia de Setembro de 1993, conduzida por Pedro Martins, António Ladeira e José Pedro Xavier.
Os ecos de Sesimbra em Agostinho da Silva foram contínuos e tiveram início pela década de 1930, quando ali foi levado por eminente estudioso da região – Orlando Ribeiro, na altura em que preparava a sua tese sobre a Arrábida (com primeira edição em livro em 1936 e cujo manuscrito esteve em mostra em exposição biobibliográfica que a Biblioteca Nacional dedicou ao geógrafo há poucos anos). Na escrita, a região regista-a pela primeira vez em texto de 1956, a partir de Belo Horizonte, ao mencionar os “pescadores de Setúbal” e “os faroleiros do Espichel” nesse escrito introdutório a Reflexão à margem da literatura portuguesa (Lisboa: Guimarães Editores), que é um canto de agradecimento à cultura e à terra portuguesa, num longo passeio pela memória.
Depois, foram as vindas sucessivas a Sesimbra: motivadas pelas amizades de nomes como António Telmo, António Reis Marques, Rafael Monteiro; provocadas ainda por um projecto cultural que Agostinho da Silva gizou quando corria 1973, ao destacar monumentos como o santuário de Nossa Senhora do Cabo, o castelo sesimbrense ou a Fortaleza de Santiago como pontos matriciais para uma obra que colocaria Sesimbra no mapa de estudos da memória portuguesa; construídas sobre conferências, a primeira das quais na década de 1940 e a última em 1988, na Escola Secundária de Sampaio.
Ao longo deste estudo de Pedro Martins, em que a ligação do pensador à “piscosa” se reconstrói com memórias e com alguma correspondência que entre Agostinho da Silva e a afilhada Anahy se estabeleceu, Sesimbra afigura-se como espaço a que deram privilégio nomes importantes da cultura portuguesa do século XX, entre os quais, além dos já citados, são nomeados Vergílio Ferreira, Joel Serrão, Álvaro Ribeiro e João dos Santos, todos eles, porventura, com obra que teve “Sesimbra no horizonte”.
A evocação feita por António Reis Marques assenta em dois textos, correspondentes a outras tantas intervenções públicas em que o autor lembrou o amigo (datadas de 2002 e de 2006). Ainda que ambas contenham lembranças de vivências pessoais nos sucessivos encontros entre os dois, também por isso demonstram a grandeza desta personalidade, assente sobre princípios tão antigos quanto o franciscanismo ou a liberdade. Particularmente interessante é o registo em que é evocada uma ida dos dois amigos a uma loja de companha (a pedido de Agostinho da Silva), onde, depois de lhe terem sido explicadas as tarefas da pesca, o filósofo lembra aos pescadores o seu papel na história: “Vocês são os descendentes desses sesimbrenses que correram mundo nas naus e caravelas dos Descobrimentos. Foi com pescadores como vocês que os nossos mareantes aperfeiçoaram a arte de navegar, e foi também com eles que, velas desfraldadas, conseguiram um dos maiores feitos das navegações portuguesas: aprender a navegar à bolina, ou seja, navegar contra o vento.”
Na derradeira parte do livro, na entrevista que também foi a última dada por Agostinho da Silva, surgem temas que lhe foram caros como o da missão de Portugal no mundo, a questão do iberismo, o valor do mar e, naturalmente, Sesimbra. Debatia-se, na altura, o papel a ser desempenhado pela Expo 98, com escolha do tema dominante. E o entrevistado juntava na oportunidade esse tema – que só seria visto pelo público dali a cinco anos e que ele já não veria – com o papel de Portugal no mundo: “Surgiram agora com a ideia que é uma exposição sobre os Oceanos. Seria muito interessante que se pensasse sobre este problema: foi da costa portuguesa que se fez a exposição ao mundo do Império Romano; tem a costa portuguesa alguma coisa de particular? Eu acho que tem. Não é nenhum golfo. É uma costa aberta para um mar amplo. Daqui se pode sair, dar a volta ao mundo, sem estar preso por nenhuma terra. Talvez fosse bom pensar-se nisso: nos Oceanos.”
Esta mensagem de Agostinho da Silva tem vinte anos. Os oceanos foram, de facto, o tema da Exposição Mundial de 1998 em Lisboa; e, quando são passadas duas décadas sobre esta opinião, no nosso país começa-se a viver sob o signo de “Portugal é mar”… Momentos profícuos e de privilégio os que são gastos na leitura desta obra! Pelo que se aprende, pela riqueza do percurso do biografado, pelas marcas de identidade que são lembradas, por uma escrita que nos aproxima das personagens de quem se fala.

domingo, 27 de Abril de 2014

Memória: Vasco Graça Moura (1942-2014)



“A realidade é sempre muito mais complicada. Tem sempre muito mais irisações e cambiantes do que a história que tecemos e destecemos sobre ela. Às vezes, a realidade reduz-se ao seu próprio osso, duro, despojado, impenetrável.” (Vasco Graça Moura. “Polímnia”. Morte no Retrovisor. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, pg. 206)

De Vasco Graça Moura fica uma obra longa, variada, de qualidade. A sua intervenção cívica, muitas vezes plasmada em crónicas de um estilo contundente e agressivo que nem sempre apreciei. O trabalho em prol da cultura e da história de Portugal, da nossa identidade. A oficina da palavra, num esmero que lhe deu prémios, honras, leitores e que nos deu um bom exemplo de escrita, um excelente autor da literatura portuguesa dos séculos XX-XXI.
Recordo a veemência de Vasco Graça Moura numa sessão no anfiteatro da Faculdade de Letras quando se começava a discutir o Acordo Ortográfico. Admirei-o pela verve, pela acutilância, pela qualidade da intervenção, pela argumentação expedita e culta, pela coragem, pelo “não” fundamentado a tal gesto. Uma contestação que nunca abandonou e que o levou a tomar decisões que foram contra o “establishment”, num remar certo e afirmativo, ainda que contra uma maré de oportunismo e de conveniência…
Não escondendo as suas raízes e influências literárias, Graça Moura estudou os seus mestres, traduziu-os e divulgou-os. E, como poeta grande que foi, celebrou os 50 anos da sua actividade literária (desde que, em 1963, publicou o volume de poesia Modo mudando) com uma obra que presta homenagem a um dos maiores poetas lusos, Camões – ‘Os Lusíadas’ para gente nova foi o título de 2012, numa operação de reconhecimento à literatura portuguesa e num gesto de partilha do épico com a juventude leitora de Portugal.
Suponho que o último título publicado por Graça Moura tenha sido A identidade cultural europeia (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013), ensaio brilhante, que chama a atenção para a dimensão cultural dessa identidade, ainda que o livro esteja eivado de algum pessimismo e de muitas reticências, reconhecendo que “os cidadãos não vivem, nem afectiva nem intelectualmente, uma sua pertença à Europa”.
É este espírito crítico e aberto, culto e informado, que nos fará falta. Para nos deliciar na arte da palavra, para nos elogiar e para nos criticar. Ainda bem que o poderemos continuar a ler!

sábado, 26 de Abril de 2014

Escrever 40 anos de Abril em 40 poemas



O 40º aniversário do 25 de Abril foi pretexto para uma antologia de poetas setubalenses sob o título Abril – 40 anos 40 poemas, publicamente apresentado ontem, que constitui, simultaneamente, a primeira edição da Casa da Poesia de Setúbal, movimento em formação.
O livro reúne 29 autores (a maioria dos quais com obra já publicada) – Alexandrina Pereira, Ana Wiesenberger, António Galrinho, Arlindo Mota, Carlos Rodrigues, Deolinda da Conceição, Eduarda Gonçalves, Fernanda Esteves, Fernando Guerreiro, Fernando Paulino, Filipe Gonçalves, Helena de Sousa Freitas, João Carlos Raposo, João Santiago, Joaquina Soares, José-António Chocolate, José Nobre, José Raposo, Linda Neto, Luís Filipe Estrela, Manuela Matos Silva, Maria Clementina, Maria do Carmo Branco, Maria Sol, Maurícia Teles da Silva, Miguel de Castro, Resendes Ventura, Vanda Solho e Virgínia Costa.
Os quarenta motivos para evocar Abril podem congregar-se na frase que abre o prefácio, assinado por Maria das Dores Meira, presidente da Câmara Municipal de Setúbal, ao dizer: “Abril também se fez na poesia. E pela poesia.” Esta chave será apenas metafórica, mas é exactamente desse sentimento que partem todos os dizeres, uns mais dominados por ligações afectivas e quase íntimas, outros assentando no jogo das palavras, alguns evocando o momento de há quatro décadas, uns tantos reclamando o cumprimento de Abril, muitos apoiados numa crítica resultante de alguma desilusão, vários insistindo na ideia da liberdade. Este trajecto poético pela lembrança de Abril adquire, assim, matizes de diversidade.
A predominância surge marcada por uma certa disforia, ao mesmo tempo que pelo sentir a necessidade de ser retomado o ideal. À crítica presente nos versos de José-António Chocolate, quando se interroga anaforicamente sobre o mundo da representação (“Onde nos leva esta gente que anda tão contente / como só seus olhos vissem donde a alegria lhes vem./ … / Onde nos leva esta gente que anda tão contente / como se milagre houvesse estando Deus ausente. / … / Onde nos leva esta gente que anda tão contente / como se trajasse saúde estando tão doente. / … / Onde nos leva esta gente que anda tão contente, / alheia a quem sofre, em seu ar emproado e impertinente.”), ou de José Raposo, quando se revolta com uma certa desfaçatez (“Mas há quem viva brincando / com a nossa Liberdade, / esquecendo talvez o pranto / dos que sofreram por ela, / no corpo sentindo a dor / mas lutando com fervor / Liberdade, como és bela.”), responde a intenção de Ana Wiesenberger, construída sobre a antítese da reduzida dimensão geográfica e da forte intensidade da palavra (“Portugal, meu Portugal pequenino / É urgente que as tuas gentes inundem as Praças / Que os nossos gritos sejam farpas / Que o nosso hino traje de novo / A transparência desejada / O fim dos conluios que nos arruínam / A solidez da veracidade nos caminhos”) ou de Deolinda de Jesus, com versos em jeito de palavra de ordem (“É urgente devolver a paz ao povo / E com seu poder criar um país novo / A união dum povo tem a força da razão.”).
A esperança é algo que inunda muitos dos poemas aqui presentes, alicerçada sobre o sentimento e a vivência da liberdade, como se pode ver nas palavras de Maria do Carmo Branco – “Neste país apertado de tristeza / onde a dor e o desalento se acentua, / construiremos de novo o poema, / quebraremos a força da algema, / erguendo a Palavra em cada rua…” Por estes caminhos cravados de dizeres e de expressão do que vai na alma, Alexandrina Pereira retoma a imagem do cravo e personifica-o como o elemento capaz de ser transportador da esperança – “Meu cravo de Abril com alma de povo / Volta por favor a florir de novo!”
A imagem do cravo é forte no texto de Helena de Sousa Freitas, num poema que joga com palavras e conceitos sob o título de “A (r)evolução dos (es)cravos”, cujos dois primeiros versos assumem um tom provocatório – “Cairá por evolução ou por aférese / o ‘r’ da revolução, assim decapitada?” O poema evolui no sentido de uma resposta igualmente desafiadora, presente no último terceto: “E, se nos pedem o desfalque da palavra, / nós rebatemos com perpétuos ideais. / Pois somos cravos… ainda, sempre e muito mais!” E por aqui se chega à responsabilidade que na afirmação da liberdade tem cada um, poeta ou não, como propõe João Santiago no final do seu interrogativo título “Remédio?”, a sugerir que a solução não poder vir através dos outros, mas do compromisso de todos: “No uso da liberdade / que em ninguém delego, / ouso dizer: / que a haver luz, / se luz houver, / ou é a luz a vir de ti / ou não é luz.”
Evocação e compromisso, mesmo que apenas poético, é este livro, que surge uma década depois de outro construído com o mesmo objectivo, 25 de Abril – Revolução dos Cravos – 30 anos 30 poemas (Setúbal: Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, 2004). Os dez anos que separam estas antologias (entre as quais só há seis autores comuns) podem também permitir uma leitura simultânea das duas obras, gesto que colocará o leitor perante um desafio: o que se nota que mudou no “espírito de Abril” através da palavra poética? Fica o convite para essas leituras…

sexta-feira, 25 de Abril de 2014

25 de Abril - 40 anos, hoje (2)



O 40º aniversário do 25 de Abril na leitura de Luís Afonso no Público de hoje. Resposta? Uma responsabilidade participada.

25 de Abril - 40 anos, hoje (1)



O cartaz do 40º aniversário do 25 de Abril, concebido por Júlio Pomar e Henrique Cayatte para a Associação 25 de Abril. Resposta? Uma responsabilidade participada.

quarta-feira, 23 de Abril de 2014

Dia Mundial do Livro...



... é hoje! Uma celebração que vale a pena.

terça-feira, 22 de Abril de 2014

Para a agenda: Sérgio Godinho e "A Naifa" nos 40 anos do 25 de Abril



Dois momentos importantes de espectáculo e de festa dos 40 anos do 25 de Abril em Setúbal: Sérgio Godinho, a 24, e "A Naifa", a 25. Para a agenda!

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Para a agenda: Militares, política e o 25 de Abril, em Setúbal



Para o serão de 25 de Abril, muitas das histórias que o fizeram. Militares e política - O 25 de Abril, sexta, pelas 22h00, na Casa da Cultura, com João Madeira e Luísa Tiago de Oliveira, a autora. Para a agenda.

Para a agenda - 40 poemas de Abril, pela Casa da Poesia



40 poemas para 40 anos do 25 de Abril. Uma partilha de poetas com os leitores, uma partilha do 25 de Abril, uma partilha de poesia, uma partilha. O 25 de Abril com poemas, um por cada ano da idade da data. Em 25 de Abril, pelas 17h00, no edifício da Câmara Municipal de Setúbal. Para a agenda!

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Memória: Joana Luísa da Gama (1923-2014)



Em que data conheci a Joana Luísa? Não o sei. Tenho a sensação de que a conheço desde sempre, tão aberta e certa foi a nossa relação ao longo dos tempos: da minha parte, porque queria saber sobre o Sebastião da Gama e a sua obra; da parte de Joana Luísa, porque gostava de falar sobre o seu Sebastião e a sua poesia, porque gostava de mostrar a obra do marido, porque acalentava docemente a memória e preservava fervorosamente a obra do seu poeta.
Desde que, num dia cuja data desconheço, a contactei para saber coisas sobre o poeta e a sua ligação à revista Távola Redonda (1950-1954), nunca mais nos esquecemos de contactar.
O que mais admirei na sua postura foi a atitude de franqueza e de abertura relativamente a tudo o que a Sebastião da Gama dissesse respeito e o facto de não esconder o espólio, a obra, os sentimentos, a emoção que por ele nutria.
Quando foi criada a Associação Cultural Sebastião da Gama, a que fui chamado a presidir, o apoio de Joana Luísa foi incansável. Queria que a obra do marido fosse conhecida, sentia-se feliz porque tinha uma instituição que a ajudaria a divulgar a obra e a mensagem do seu Sebastião. Fui a múltiplas sessões, em escolas e em associações, sempre tendo por companhia a pessoa de Joana Luísa, numa posição de testemunhar, de ensinar, de oferecer a partilha.
Fizemos vários quilómetros e sempre a Joana Luísa trazia um sorriso estampado depois de ajudar a apresentar o homem e o artista que se revelava através dos versos. E era vê-la, radiante e disponível, no fim de cada sessão, conversando com alunos e com professores que ainda queriam saber mais!...
Aprendi muito com Joana Luísa. Sobre os afectos e sobre a figura gigantesca que Sebastião da Gama foi, sobre o empenho cultural, sobre a intervenção cívica, sobre…
Quando, há dois anos, um avc afectou Joana Luísa, as coisas mudaram: deixei de poder contar com a sua presença, a sua tolerância e os seus ensinamentos. Fui deixando de poder contar com o seu saber e com a sua memória. As histórias foram-se apagando ao ritmo que a vida se esvaía e fui-me habituando a ter de viver sem a segurança que constituíam o saber e a experiência de Joana Luísa.
Quando ontem pela manhã, indo a caminho de Lisboa, a sobrinha Ana me telefonou a comunicar que Joana Luísa partira na noite de terça-feira, não me espantei, pois o momento era já esperado, ainda que não desejado. A falta passaria a definitiva e a tristeza desta irreversível separação dominou-me.
Se a obra de Sebastião da Gama é hoje conhecida a Joana Luísa o devemos. Ao ter vivido mais de 60 anos de viuvez divulgando a obra do marido, foi Joana Luísa quem tornou possível o conhecimento da obra do poeta e do professor. Não fosse a sua força e, hoje, talvez não soubéssemos o que tinha sido o seu Diário; não fosse o seu empenho e hoje talvez ignorássemos o ritmo e as verdades de máximas como “Pelo sonho é que vamos” ou “o segredo é amar”… Com efeito, a obra publicada como póstuma de Sebastião da Gama é também acção sua, obra sua. Legitimamente. Sebastião da Gama poderia ter sido apenas o autor dos três livros de poesia que publicou em vida e, provavelmente, seria um autor esquecido, menor no contexto da literatura portuguesa. Mas Joana Luísa manteve as amizades do marido, não escondeu o acervo legado, permitiu que se estudasse a sua obra, contribuiu enormemente para a divulgação do poeta.
Devo-lhe grande parte do que sei sobre Sebastião da Gama. Devo-lhe a amizade e o respeito. Devo-lhe essa revelação do quão grande o poeta era. É essa memória que quero conservar. Tal como quero imaginar que, agora, lhe será possível o máximo encontro com o seu poeta, o gozo da eternidade, a continuação da história que, num dia de 1946, Sebastião da Gama lhe prometeu num poema como “Madrigal”.
Obrigado, Joana Luísa!
Ler mais aqui.
[Foto: Joana Luísa, numa ida à Arrábida, em Alportuche, em Maio de 2006]

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Para a agenda: Setúbal tem 154 anos de cidade



Em 19 de Abril, Setúbal assinalará o 154º aniversário da sua elevação a cidade. O programa preparado pela Câmara Municipal faz a ponte entre o passado e uma cidade do futuro. Para a agenda!

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Monumentos aos Combatentes da Grande Guerra e do Ultramar em livro



São três centenas e meia de páginas de registo fotográfico aquelas que constituem a obra Monumentos aos Combatentes da Grande Guerra e do Ultramar, produzida pela Liga dos Combatentes (Lisboa: 2013), divulgando pouco mais de trezentas evocações de arte pública sobre o tema, sendo que um terço se relaciona com a Grande Guerra e as restantes com as campanhas no Ultramar, embora alguns dos monumentos correspondam à memória de uns e de outros.
Nas palavras do general Chito Rodrigues, presidente da Liga dos Combatentes, constantes no “Proémio”, a justificação da obra é pertinente: “que este livro seja inspirador do estudo da História, da promoção do amor à Pátria, em especial junto da juventude, bem como da defesa intransigente dos valores morais e históricos de Portugal.”
Os monumentos são documentos importantes para se atestar a memória de um povo. E praticamente não há recanto de Portugal que não possua o seu busto, a sua estátua, num desafio à acção do tempo e num perpetuar de uma obra válida. No que respeita aos combatentes, essa presença é demasiadamente evidente, associando com frequência o monumento a propósito à toponímia.
Esta obra dá conta dessa intensa presença dos combatentes na memória, construída sobre fotos existentes no acervo da Liga dos Combatentes, organizadas por distrito e, em cada um deles, por ordem alfabética das localidades, divididas essas obras de arte pública nos grupos dos combatentes da Grande Guerra e dos combatentes do Ultramar.
Interessante do ponto de vista de recolha e levantamento das obras existentes (o esforço de registo trouxe mesmo ao leitor a listagem dos monumentos portugueses no estrangeiro), o livro poderia conter alguma informação condensada sobre cada uma das obras apresentadas que fosse além da indicação do autor do projecto e do ano de inauguração, dados que nem estão presentes em todos os casos.
Da lista dos monumentos alusivos à Grande Guerra são os seguintes os marcos apresentados: a) Aveiro: Anadia (1929), Aveiro (1934), Espinho (1957), Espinho – Regimento de Engenharia 3 (sem data), Estarreja (1922), Ílhavo (1924), Murtosa (1929), Oliveira de Azeméis (1930), Oliveira do Bairro (1926), Ovar (1925), São João da Madeira (1937) e Vagos (1923); b) Braga: Barcelos (1930), Braga (s.d.), Fafe (1931), Vila Nova de Famalicão (1927) e Vila Verde (1931); c) Bragança: Bragança (1928); d) Castelo Branco: Castelo Branco (1924), Covilhã (1930) e Penamacor (1921); e) Coimbra: Coimbra (1932), Condeixa a Nova (1921), Figueira da Foz (1928), Lousã (1927), Mira (1932), Oliveira do Hospital (1935), Penacova (s.d.), Penela (s.d.), São Pedro de Alva (s.d.), Soure (1934) e Vila Nova de Oliveirinha (1941); f) Évora: Estremoz (1941), Évora (1933), Évora – Regimento de Artilharia Ligeira 3 (s.d.), Montemor o Novo (1923), Reguengos de Monsaraz (s.d.) e Vendas Novas (1927); g) Faro: Lagos (1940) e Tavira (1933); h)Guarda: Almeida (1940), Guarda (1940), Pinhel (1922) e Vila Nova de Foz Coa (s.d.); i) Leiria: Batalha (1921), Caldas da Rainha (na Escola de Sargentos do Exército, 1953), Cortes (1919, o mais antigo em Portugal, de acordo com os registos das datas indicados), Leiria (1929), Marinha Grande (1935), Monte Redondo (s.d.) e São Mamede (s.d.); j) Lisboa: Alenquer (1959), Arruda dos Vinhos (1929), Cascais (1925), Lisboa (1931), Lisboa – Alto de S. João (1929), Lisboa (Regimento de Artilharia Ligeira (1987), Lisboa – Regimento de Engenharia 1 (s.d.), Loures (1929), Oeiras (1940) e Sintra (1940); k) Portalegre: Elvas (1938) e Portalegre (1935); l) Porto: Marco de Canavezes (1927), Penafiel (1927), Porto (1928), Póvoa de Varzim (1933), Vila do Conde (1932) e Vila Nova de Gaia (1925); m) Santarém: Abrantes (1940), Cartaxo (1922), Mação (1938), Santarém (1932), Tancos – Escola Prática de Engenharia (s.d.), Tomar (1932), Torres Novas (1927) e Vila Nova da Barquinha (1936); n) Setúbal: Palmela (2012, o mais recente memorial em homenagem aos mortos da Grande Guerra, particularmente aos naturais do concelho), Seixal (1934) e Setúbal (1931); o) Viana do Castelo: Valença (1951) e Viana do Castelo (1922); p) Vila Real: Chaves (1922), Mondim de Basto (1930) e Vila Real (s.d.); q) Viseu: Lamego (1932), Tondela (s.d.) e Viseu (1928); r) Açores: Ponta Delgada (1936) e Vila do Porto (1929); s) Madeira: Funchal (1936). Na Figueira da Foz, consta ainda o monumento a António Gonçalves Curado, o primeiro soldado português a morrer na Flandres. A lista é ainda completada com os monumentos portugueses no estrangeiro: a) Angola: Gabela (s.d.), Luanda (1934), Luena (s.d.) e Môngoa (s.d.); b) França: Ambleteuse (1919, com a indicação de ser o “primeiro monumento erguido no mundo em memória dos combatentes da Grande Guerra”, iniciativa da Cruz Vermelha Portuguesa em 30 de Junho de 1919), La Couture (1928) e Richebourg – L’Avoué (dois, s.d.); c) Macau (1938); d) Moçambique: Maputo (1929) e Mecula (s.d.).
A lista dos monumentos alusivos aos combatentes do Ultramar compreende os seguintes, grande parte deles erigidos no século XXI: a) Aveiro: Anadia (sem data), Antes (2009), Arouca (2010), Castelo de Paiva (2000), Dornelas (2009), Ílhavo (2008), Oliveira de Azeméis (2001), Oliveira do Bairro (2005) e Sever do Vouga (s.d.); b) Beja: Beja (2009), Castro Verde (2002 e 2011), Cuba (1997), Mértola (2013), Moura (2010) e São Teotónio (2011); c) Braga: Barcelos – Oliveira (2008), Cabeceiras de Basto (2005), Esposende (2011), Esposende – Antas (s.d.), Fafe (2005) e Louredo (2013); d) Bragança: Bragança (2004), Mirandela (2006) e Torre de Moncorvo (2013); e) Castelo Branco: Belmonte (2005), Orjais (2008), Penamacor (2011), Silvares (1976), Teixoso (2008), Tortosendo (2002), Unhais da Serra (s.d.) e Vila Velha de Ródão (2008); f) Coimbra: Arganil (2004), Cantanhede (2005), Carapinha (2010), Coimbra (1971), Cordinhã (2009), Covas (s.d.), Figueira da Foz (2009), Góis (2005), Midões (2008), Pomares (2006) e Tábua (2007); g) Évora: Borba (2007), Mora (2010) e Reguengos de Monsaraz (2001); h) Faro: Albufeira (2008), Faro (2009), Lagoa (1993), Olhão (2013) e Vila Real de Santo António (2011); i) Guarda: Aguiar da Beira (s.d.), Forninhos (2011) Freixo (2012), Gouveia (2011), Guarda (s.d.), Horta do Douro (2012), Manteigas (2007), Mêda (2004), Sabugal (2012), Santo Estêvão (2012), Seia (2008), Seixas (2012), Vale de Espinho (s.d.) e Vila Nova de Foz Coa (2011); j) Leiria: A-do-Barbas (2009), Abiul (2012), Alcobaça (2001), Almoinha Grande (2004), Alvados (2013), Alvorninha (2013), Arrimal (2012), Atouguia da Baleia (2009), Bajouca (2012), Barreira (2010), Benedita (2010), Burinhosa (1988), Leiria (1966 e 2009), Maiorga (1973), Marinha Grande (1965), Marrazes (2011), Moita (s.d.), Monte Real (2013), Ortigosa (2010), Pataias (2005), Pedrógão Grande (s.d.), Pombal (2006), Reguengo do Fetal (s.d.), Santa Catarina da Serra (2012), São Martinho do Porto (2009) e Souto da Carpalhosa (2009); k) Lisboa: Aveiras de Cima (2002), Azambuja (1973), Azueira (2011), Cadaval (2013), Carnaxide (1972), Cascais (1972), Covas de Ferro (2013), Encarnação (2002), Igreja Nova (2009), Lisboa (1994), Lisboa – Regimento de Lanceiros (1987), Lisboa – Regimento de Transportes (1987), Lourinhã (2005), Mafra (1988), Moledo (2005), Oeiras (1997) e Torres Vedras (2003); l) Portalegre: Elvas (2008), Gavião (2009), Sousel (1964) e Vila Boim (2009); m) Porto: Águas Santas (2005), Amarante (s.d.), Arcozelo (s.d.), Ermesinde (2009), Fânzeres (1971 e 2008), Felgueiras (2009), Freamunde (s.d.), Lavra (2009), Lixa (2009), Lousada (2008), Marco de Canavezes (2005), Matosinhos (2011), Paranhos (2010), Paredes (2009), Santo Tirso (2002), Senhora da Hora (2013), Vila Chã (s.d.), Vila do Conde (2010) e Vila Meã (2012); n) Santarém: Almeirim (2009), Arronquelas (2009), Chamusca (1982), Entroncamento (2005), Fátima (1997), Glória do Ribatejo (2013), Lapa (2011), Mação (2009), Malaqueijo (2013), Marinhais (2008), Ourém (1991), Rio Maior (2005), Tancos (1968), Tomar – Regimento de Infantaria 15 (s.d.), Rodrigos (1974) e S. Sebastião (2013); o) Setúbal: Alcácer do Sal (2013), Pinhal Novo (2012) e Sesimbra (2008); p) Viana do Castelo: Barroselas (2001), Monção (2008 e 2012), Vila Nova de Cerveira (2008) e Vila Praia de Âncora (2009); q) Vila Real: Chaves – Regimento de Infantaria (s.d.), Mondim de Basto (2001), Montalegre (2005), Ribeira de Pena (2009), Sanfins do Douro (2005), Valpaços (2011) e Vila Real (2000); s) Viseu: Beijós (2008), Campia (1999), Canas de Senhorim (2009), Currelos (2007), Mangualde (2010), Nagosela (2012), Penedono (2011), Repeses (2001), Santa Comba Dão (2010), Santar (2005), Tondela (2002) e Vila Chã da Beira (1966); t) Açores: Angra do Heroísmo (2000), Horta (2005), Lagoa (2004), Lajes do Pico (2007), Madalena do Pico (2011), Ponta Delgada (2005), Praia da Vitória (1997), Santa Cruz da Graciosa (2010), S. Mateus da Calheta (2001), S. Roque do Pico (2005), Terra Chã (2004) e Vila Nova do Corvo (2004); u) Madeira: Funchal (2003), Machico (2013) e S. Vicente (2013). A lista é ainda preenchida com os monumentos portugueses no estrangeiro: a) Bósnia; b) Canadá: Toronto (2010), Winnipeg (2009); c) Estados Unidos: Lowell (2000). O monumento mais antigo será, em concordância com as datas fornecidas, o de Sousel, de 1964; no ano de 2013, várias localidades foram contempladas com um monumento em memória dos Mortos do Ultramar.
O livro fecha com a força da palavra memória, fotografada a partir de uma inscrição e registada na contracapa: "À memória de todos os soldados que morreram ao serviço de Portugal".