quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Jorge Costa e a condição do “sem-abrigo”


 

“Imaginem o que é viver constantemente na rua, sem um sítio nosso para nos sentarmos a descansar um pouco, sem uma casa de banho para nos lavarmos e fazer as nossas necessidades mais básicas, e sem acesso pessoal a energia eléctrica, sem sítio para arrumar a roupa, guardar a comida, sem nada. Expostos a tudo e a todos, sem privacidade e com uma crescente falta de dignidade.”

Este parágrafo desafiador inicia o relato que Jorge Costa (1967-2022) nos faz na obra Diário de um sem-abrigo (Oficina do Livro, 2022), com prefácios de Marcelo Rebelo de Sousa e de Nuno Markl, narrativa que retrata o quotidiano de um sem-abrigo, não seguindo o género diarístico, mas cultivando a crónica autobiográfica, em catorze textos (inicialmente publicados no jornal Mensagem de Lisboa) que peregrinam pelos dias e noites que o autor viveu nas ruas de Lisboa e pelos sentimentos que o dominaram, cada vez mais próximos daquilo que foi conhecer a ausência de dignidade.

Jorge Costa, contabilista, que não foi sem-abrigo por não ter tentado outras oportunidades (operador de caixa numa gasolineira, operário na construção civil), despedido quando já passara os cinquenta anos, desamparado pelos amigos, rapidamente se confronta com uma dura aprendizagem  - “A sociedade em que estamos inseridos ajuda quem está a subir. Quem está a descer leva um ‘empurrão’ para descer ainda mais.”, sentenças que repetirá no livro por ter sido sentida na pele, num mundo dominado pelas “leis da rua”.

Toda a narrativa é dominada pela emoção, havendo momentos mais intensos - o encontro com a personagem Zé, outro sem-abrigo, que foi “padrinho” e conselheiro; a consciência dos subterfúgios para sobreviver, dramáticos, como o da prostituição nas casas de banho da gare do Oriente; a primeira ida ao contentor do lixo para procurar algo para comer; o assalto de que foi vítima, violento, e o desprezo sentido no mundo dos sem-abrigo; a necessidade de roubar comida nas lojas, contrariando os princípios e as convicções; a constatação de que a única coisa que une os sem-abrigo “é não terem casa para morar, vivendo de forma igual e sendo observados por uma sociedade que lhe coloca uma espécie de rótulo”.

As crónicas deste Diário de um sem-abrigo não pintam as realidades com metáforas. Consegue o leitor sentir o desprezo visto nos olhares, a razão de ser da moeda que é dada, a crueza da linguagem, o abandono e a falta da capacidade de sonhar. O mundo que Jorge Costa frequentou durante oito meses, depois que deixou o seu quarto em Alverca por não ter dinheiro para pagar a mensalidade, ensinou-o a não chorar, a “não revelar aquilo que vai cá dentro”, gestos que só passou para a escrita quando, depois desse tempo, teve direito a uma casa através do projecto “Housing first”, que o mesmo foi ter encontrado um pouco do sonho que o animara no percurso - “só sonhava em viver dignamente.”

No final das catorze crónicas, Jorge Costa reconhece a crueldade da escrita - apesar do equilíbrio físico-emocional reconquistado, “foi duro, foi muito duro escrever estas crónicas”, refere na última, à maneira de balanço e de caução da sinceridade que pôs na escrita. E reconhece também que a sua identidade não podia deixar de fora o que passou nas ruas, tentando definir-se como “um sem-abrigo com casa”. E, da mesma forma que iniciou a série com um desafio ao leitor, conclui com outra provocação - “Um dia destes, dei por mim a pensar que se todos nós sentíssemos a miséria dentro de nós, talvez a miséria não existisse.”

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 903, 2022-08-03, p. 21.


quarta-feira, 27 de julho de 2022

Donzela Teodora, entre a beleza e a inteligência (3)



História da donzela Teodora não conclui sem que o rei queira ainda conversar com a jovem, prolongamento do deleite de estar na sua presença, argumentando que, “já que tanto sabia, lhe declarasse certas dúvidas que tinha, pois nisso teria grande gosto”. As perguntas, de conteúdo religioso - sobre a penitência, o valor da missa, o “dia do Juízo”, a utilidade dos sacramentos -, motivam argumentação, exemplos e lições nas respostas de Teodora.
No final, o rei manifesta o pesar de não a poder manter em sua companhia, assumindo a decisão tomada de contribuir para um final feliz: “ordenou ao seu mordomo lhe desse mais dez mil dobras de ouro e lhe desse mais um vestido de brocado e enviou a ela e a seu senhor com grande honra para a sua terra.” O narrador finaliza a história com uma garantia - “esta discreta donzela tirou a seu senhor de tanta miséria” e “outras muitas coisas fez, e mostro por experiência, as quais se não referem aqui.” E o leitor acredita neste muito conhecer de que o narrador se reveste...

O folheto História da donzela Teodora, traduzido por Carlos Ferreira Lisbonense, terá tido a sua primeira edição portuguesa, a partir do castelhano, por 1712. Não há certezas sobre a quantidade de edições (e de versões) desta história - em 2019, Sophie Coussemacker admitiu que, “desde 1498, pelo menos, a história de Teodora conheceu um tal sucesso editorial que se podem contar 59 versões”. E compreendem-se as motivações para as “versões” - as religiosas, entre o cristianismo e o islamismo; as de censura, mesmo que devida aos costumes; as da criatividade dos diversos redactores. Como exemplo, refiram-se duas edições espanholas desta obra: em 1628, em Jaén, saía uma edição que pode ter servido a tradução portuguesa, quer pela estrutura narrativa e frásica, quer pela similitude dos acontecimentos; em 1865, em Carmona, na Andaluzia, era publicada uma edição com alterações substantivas - a proposta de Teodora ao terceiro sábio, nesta edição, não tem nada a ver com o despir e a perda das roupas do vencido: “se me vencerdes, ficarei como vossa escrava enquanto viverdes e, se for eu a vencedora, havereis de me dar dez mil dobras de ouro”.

As origens desta história, que assenta sobre pares antitéticos como o saber e a ignorância, a honra e a desonra, a ostentação e a simplicidade, afirmando verdades universais, perdem-se nos tempos. Não lhes serão estranhos os contos orais (vários capítulos se iniciam com a frase “diz a história que...”) ou a “História da douta Simpatia”, inserta em As Mil e Uma Noites, em que a escrava Tawaddud (Simpatia) vence todos os sábios que a inquiriram.

A popularidade da História da donzela Teodora chegou ao Brasil, adaptada em verso, em data desconhecida,por Leandro Gomes de Barros (1865-1918), de Paraíba, em 142 sextilhas, sempre com idêntico esquema rimático (abcbdb), seguindo a versão portuguesa e concluindo com a referência ao trabalho do poeta: “Caro leitor, escrevi / Tudo que no livro achei / Só fiz rimar a história / Nada aqui acrescentei / Na história grande dela / Muitas coisas consultei.”

Teodora tornou-se assim o símbolo feminino de inteligência e beleza que o garrettiano Frei Jorge usou para classificar a jovem Maria. Mas também houve quem preferisse outra perfeição numa donzela - António Manuel Couto Viana, em 1948, na revista Atlântico, versejou sobre uma Teodora, “menina tristonha / com livros na mão”, dizendo, quase no final: “Menina que pensa / Não sabe brincar / A maior doença / Na vida: é pensar.” Teodora foi, assim, uma questão de modelos e de paradigmas...

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 898, 2022-07-27, p. 10


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Donzela Teodora, entre a beleza e a inteligência (2)



Na História da donzela Teodora, a arrogância apresentada pelo terceiro sábio para abrir a discussão contrasta com o aspecto da jovem, cujos movimentos e gestos o leitor acompanha pela voz do narrador - “levantou-se a donzela e lhe respondeu humildemente com muita vergonha”. Esta serenidade evidenciará o conteúdo do desafio que Teodora pensara, percebendo o leitor que a parada elevada implicará que o jogo das emoções tome conta da situação ou que o novo desafio intensifique a curiosidade do leitor.

Perante o auditório das testemunhas, a donzela respondeu ao sábio Abraão: “Pois já que vós dizeis serdes tão sábio, peço-vos que me façais o que vos quero dizer e é que assentemos em uma conveniência entre nós ambos, em presença de el Rei meu Senhor e de todos os cavaleiros (...) e será desta sorte: Que se vós me vencerdes a mim, logo no mesmo instante me desvestirei e despojarei de todas as minhas roupas, até a camisa, de maneira que fique nua como a hora em que nasci e será tudo para vós; e se porventura eu vos vencer também haveis de fazer o mesmo e me haveis de dar todos os vossos vestidos e haveis de ficar também nu como na hora em que nascestes.” O sábio concordou, porque “cuidava a havia de aniquilar e envergonhar” e ali foi autorizado o acordo e registado. A aposta era forte, pois, além da exposição da nudez absoluta do vencido, este também tinha de entregar as suas vestes ao vencedor.

As perguntas e as respostas surgem em ritmo rápido, em discurso directo entre as duas personagens, quase sem que o narrador se faça ouvir, se exceptuarmos as pequenas frases em torno dos verbos declarativos, para que o leitor não se perca. Questões sobre costumes sociais, valores morais, ciência, religião, pormenores e generalidades, em jeito de adivinhas ou de máximas, sucedem-se por várias páginas, sempre com resposta pronta, mesmo em momentos que parecem rasteiras intencionais à inquirida, como quando é questionado “que faz o sol de noite”, explicando Teodora que “o sol não tem noite, antes sempre alumia, ora em umas partes ora em outras do mundo”.

Após as cerca de sessenta perguntas e respectivas respostas, o terceiro sábio rende-se, aconselhando o rei a fazer “grandes mercês e honras” à jovem. Contudo, Teodora queria mais do que isso e, assim, cumprimentou o rei e disse-lhe: “Sirva-se V. Alteza de mandar a este sábio que logo sem mais demora em vossa presença e de todos estes senhores e discretos varões tire os seus panos e mos entregue.” O sábio despe-se até ficar coberto apenas “os panos interiores, para não ficar descomposto”, reclamando Teodora o cumprimento do acordado. Sem outra solução, o sábio “pôs-se de joelhos diante dela e, pegando-lhe nas mãos, lhas beijou, deitou-se a seus pés, querendo beijar-lhos, pedindo encarecidamente que não lhe fizesse passar tão grande vergonha diante de El-Rei e tão nobres cavaleiros”, prometendo-lhe “duas mil dobras” de compensação, solução aceite pela jovem.

Resolvido o desafio que Teodora comandara, faltava ainda fechar o negócio com o rei. Impressionado, Almansor “disse à donzela que pedisse, que lhe faria toda a mercê que quisesse”. Adivinha-se um final feliz para duas personagens: “Ela lhe beijou as mãos e pediu-lhe por mercê que a deixasse tornar com o seu mercador”, que considerasse a venda proposta sem efeito, pois tudo o que era devia-o ao seu protector. O rei ficou pesaroso, mas “não se pôde desdizer”. Era o acentuar do valor da palavra dada, forma de ser exemplo para os súbditos.

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 893, 2022-07-20, p. 9


quinta-feira, 14 de julho de 2022

Donzela Teodora, entre a beleza e a inteligência (1)



Na cena V do primeiro acto de Frei Luís de Sousa, a peça com que Almeida Garrett quis renovar o teatro português (1843), a adolescente Maria discursa sobre o dever de os governantes atenderem aos mais necessitados em tempo de miséria, sendo interrompida pelo tio, Frei Jorge: “A minha donzela Teodora! Assim é, filha; mas o mundo é doutro modo: que lhe havemos de fazer?” Garrett não relata a história de Teodora, mas bem podia contá-la, mesmo que transferindo esse conhecimento para o saber de Jorge; conhecia-a, por certo, ele que era dado aos romances e lendas populares, como sabemos pela publicação de Adozinda (1828) e de Romanceiro (1843 e 1853).

Poucos anos antes de ser publicado Frei Luís de Sousa, tinha havido uma edição do folheto História da donzela Teodora em que se trata da sua grande formosura e sabedoria (1827), obra “traduzida do castelhano em português” por Carlos Ferreira Lisbonense. Antes desta edição, já outras tinham existido, pelo menos nos anos de 1712, 1735, 1741 e 1749, e outras ainda apareceriam na segunda metade do século XIX (conforme registos da Biblioteca Nacional de Portugal).

Começa a história com informação sobre o espaço e a principal personagem: em Tunes, rico mercador da Hungria, visitando o mercado, vê à venda “formosa donzela cristã”, espanhola, não hesitando em comprá-la ao negociante mouro. Acordado o negócio, “mandou-a ensinar a ler e a escrever e aprender todas as artes que pudesse, a qual se inclinou tanto à virtude e estudo que excedeu a todos os homens e mulheres que naquele tempo havia, tanto em Filosofia, com em Música e outras muitas artes.”

Tempos passados, “como todas as coisas neste mundo sejam mudáveis e inconstantes”, o húngaro perdeu a fortuna, disponibilizando-se a donzela para se enfeitar adequadamente a fim de que o mercador a levasse à presença do rei Miramolim Almançor para ser por este comprada por “dez mil dobras de bom ouro vermelho”. O rei, que “estimava muito ver perfeitas e formosas donzelas”, estranhou o valor pedido, argumentando o negociante que a donzela não seria vencida por nenhum sábio em qualquer ciência e acrescentando Teodora que aprendera “as sete artes liberais, a arte de astrologia e as propriedades das pedras, águas e ervas e das qualidades que tem toda a casta de animais e aves que Deus criou no mundo” e que sabia “também cantar música e tocar instrumentos melhor que pessoa alguma.”

Criado este ambiente na narrativa, fica o leitor com curiosidade quanto ao desfecho e à sorte das personagens. Apesar da auto-confiança da jovem, o rei carecia da prova do saber, pois que a da beleza lhe estava perante os olhos. Foram assim convocados três sábios para testarem Teodora - um especialista em Leis e Mandamentos de Deus; outro, “muito letrado em toda a Ciência, Lógica, Medicina, Cirurgia e também grande Astrólogo e Filósofo e em todas as Artes muito entendido”; o terceiro, “muito sábio em Filosofia, Gramática e em todas as sete Artes Liberais”.

Os dois primeiros, questionando sobre os signos e as suas características, as qualidades do homem e da mulher, a religião e a influência dos signos na medicina, atestaram a superioridade da “muito sábia” Teodora pelas suas respostas prontas e abrangentes.

O terceiro sábio, o judeu Abraão Trovador, considerando os seus antecessores “de pouco saber”, desafiou: “não sou tão simples como os outros sábios que tão vilmente tens vencido”. A provocação foi um bom ponto de partida para a história ganhar um novo impulso e despertar ânimo no leitor, intensificado pela resposta com que Teodora vai comprometer a discussão.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 888, 2022-07-13, p. 9.


quarta-feira, 6 de julho de 2022

Setúbal em entrevistas e representação “à flor das águas”

 


Neste livro, há personagens que vão à procura de um espaço, categoria necessária para que a história exista. E assim se vai forjando a acção, que advém do caminhar pela cidade, da paragem em pontos mais ou menos estratégicos (ou simbólicos), encontro entre as pessoas e as memórias que têm para contar. É, assim, um livro de geografias, de gentes, de reconstruções a partir do passado e do vivido, teia assente sobre conversas e escritas, dando razão ao título do projecto, poeticamente chamado “Conversas Fiadeiras”.

À flor das águas - Diário de bordo é esse livro, coordenado por Patrícia Pereira Paixão e Vanessa Iglésias Amorim, recentemente surgido (Teatro Estúdio Fontenova, 2022), estruturado em duas partes: a primeira, com o resultado dessas peregrinações por Setúbal (Praias do Sado, Casal das Figueiras, “Baixa” da cidade, Parque Urbano de Albarquel, Bela Vista e miradouro de S. Sebastião), encontros com data marcada e registada (realizados entre 5 de Março e 23 de Abril), participados por várias vozes e sentires, em jeito de reportagem do visto e do ouvido, reproduzindo discursos directos, descrições, lembranças e afectos; a segunda, construção ficcional e dramatúrgica, surgida como síntese do ouvido e do partilhado, recriação dos tempos e das personagens, evidência dos ritmos que marcaram vidas, questionamento das ligações que cada um faz à cidade, roteiro para representação que o Teatro Fontenova levou a cena na primeira quinzena de Maio (o livro é acompanhado por um cd com composições de João Mota, que constituíram suporte musical da representação).

O título surge justificado por esse trabalho em progressão, contínuo, em forma de “diário de bordo”, testemunho da descoberta e da preparação, e por essa selecção operada pela memória ou pelo passar dos tempos que traz à superfície o que ficou do importante que a vida foi, camada fina e translúcida “à flor das águas”. O conjunto dos textos é uma boa motivação para um olhar sobre a cidade e o que a faz, sobre as nossas ligações a este espaço, aqui incluindo a geografia que vai até às periferias, sejam elas anteriores à cidade ou consequência do que a cidade se fez. No texto prefacial, as coordenadoras, recorrendo à sequência da linguagem náutica (“zarpar - navegar - acostar - ancorar - levantar ferro”) reconstroem metaforicamente o processo que originou este livro: “toda esta navegação tornou evidente que é necessário levantar ferro, ou seja, desancorar e voltar a zarpar para voltar a explorar estes e outros lugares”, explicação que volve desafio, pois “pensar a cidade requer mais caminhadas, mais conversas, mais observações, mais partilha de espaços, mais criação artística em espaço público, mais tempo e mais colectivo”.

As linhas entre as pessoas e os espaços cruzam-se com ideias como a identidade dos bairros (seu movimento associativo, suas fronteiras, ou os regressos que podem sugerir imagens da necessária maior proximidade entre as pessoas), a ligação da cidade ao Sado e a Tróia, a indefinição de um território que oscila entre a industrialização e o turismo (com os riscos do consumismo do “típico”), a necessidade de se pensar a cultura quando se pensam os espaços, o relacionamento entre as pessoas e o território (a vida na rua, os benefícios da vizinhança).

Há um passo do texto dramático que resume todo o processo: “Decidimos ouvir pessoas de diferentes bairros, visitar diferentes espaços e experienciá-los no corpo. Cruzámos leituras e reflexões. Fizemos performances num largo da cidade e numa ribeira dentro de um parque natural. Cada uma experienciou estes espaços de forma diferente.” Boa conclusão, em que se nota a conjugação do afecto com a reflexão!

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 883, 2022-07-06, p. 9.


quarta-feira, 29 de junho de 2022

Raul Reis e os mapas (in)visíveis da cidade



Entre 2017 e 2022, o “designer” setubalense Raul Reis (n. 1974) desenvolveu e publicou o projecto “A cidade está deserta” (No Frame Creative Publishing), numa trilogia que compreende os títulos Envia-me cartas (2017), Ninguém em casa (2018) e Em tua pele  (2022, acabado de sair), livros com registos fotográficos de orientação temática - as caixas de correio dos prédios urbanos (com a indicação de “cartas”), as campainhas da entrada das casas e as cores e revestimentos das ruas, respectivamente.

Em qualquer dos títulos, o observador-leitor respira o ar das ruas calcorreadas, confronta-se com imagens que se colam à fixação da cidade (que não das pessoas), correndo-se o risco de uma viagem à interioridade das memórias. Por estas fotografias não circulam pessoas, mas em todas há vestígios de gente ter por ali passado, ali ter permanecido, ali ter sido.

Envia-me cartas é uma peregrinação por portas e portas que ostentam a memória e a força do que foi a carta, manuscrita ou dactilografada, em que pessoas se aproximaram, vencendo distâncias e fazendo com que o presente se dilatasse pelo tempo que o correio demorava a chegar ao destinatário. Imagens de uma quase arqueologia da comunicação escrita, os letreiros com a gravação “cartas” parecem desafiar o passante para uma forma mais pessoal de contacto ou para a nostalgia dos momentos propiciados por esses compassos de espera e de desejo de receber uma carta, abrir o envelope e simular a audição das palavras do emissor por trás de uma caligrafia reconhecida ou adivinhada.

Ninguém em casa, mostrando campainhas individuais ou em bloco, afigura-se como uma provocação ao silêncio ou como uma sugestão para início de conversa, despidas do moderno videoporteiro, algumas (poucas) com sistema de voz incorporado, a larga maioria apenas botão de chamada, “clique” para conversa ou para entrada no espaço e na vida.

Em tua pele prossegue a viagem pelas ruas que nos fazem, mostrando que as texturas e as cores exteriores se podem albergar sob a força da metáfora que liga o mundo ao corpo ou vice-versa. Os olhos caem sobre fragmentos de muros, de painéis, de tintas, de cores, de azulejos, compostos e ordenados ou afectados pelo tempo e pelo desgaste e doença dos materiais, num choque com a perenidade ou em contínua descoberta de novas geometrias ou ilusões com que a vista se diverte.

Qualquer um dos elementos desta trilogia convida a um olhar sobre o mundo de forma mais circunstanciada - um parar para reparar, um diálogo com o tempo e com a história das formas e da decoração, um encontro com o que foi padrão e agora se reveste com a ironia do desgaste e da erosão tecida pelo calendário e pela alteração do gosto. O leitor do tríptico “A cidade está deserta” é impelido a tornar-se observador do quotidiano, centrando-se naquilo que, parecendo banal, desafiou a paciência cronológica para ser olhado, quase como se desse olhar despontasse uma revelação, a magia do pormenor e das pequenas coisas, a descoberta de novas formas.

No conjunto, são mais de quatrocentas imagens, radiografias do corpo da(s) cidade(s), guardiãs de histórias das gentes. Fixarmo-nos nestas imagens trazidas por Raul Reis e seguir o mapa que elas desenham é uma forma de nos encontrarmos com aquela ideia que Italo Calvino trouxe sobre a cidade: ela “não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes, entalhes.”

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 878, 2022-06-29, p. 9.


quarta-feira, 22 de junho de 2022

Aristides de Sousa Mendes biografado por Cláudia Ninhos


 

“Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente, cuja aflição era indescritível: uns tinham perdido os seus cônjuges, outros não tinham notícias dos filhos extraviados, alguns tinham visto sucumbir pessoas queridas sob os bombardeamentos alemães que todos os dias se renovavam e não poupavam os fugitivos apavorados. (...) Muitos deles eram judeus, que, já perseguidos antes, procuravam angustiosamente escapar ao horror de novas perseguições, por fim um sem-número de mulheres de todos os países invadidos que procuravam evitar ficar à mercê da brutal sensualidade teutónica.”

Assim respondeu Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) à nota de culpa resultante do processo disciplinar instaurado em 1940, por ter assinado vistos para cidadãos em fuga da perseguição nazi nos consulados de Bordéus e de Bayona. Mais adiante, afirmava ter-se inspirado “única e exclusivamente nos sentimentos de altruísmo e de generosidade de que os portugueses souberam tantas vezes dar provas eloquentes”. Depois, assumindo ter ultrapassado as ordens recebidas: “Posso ter errado, mas, se errei não o fiz com intenção, tendo procedido sempre segundo os ditames da minha consciência, que nunca deixou de me guiar no cumprimento dos meus deveres.”

A história do cônsul português que Salazar, na decisão sobre este processo disciplinar, empurrou para “a pena de um ano de inactividade, com direito a metade do vencimento da categoria, devendo de seguida ser aposentado”, vem sumariamente contada na obra O essencial sobre Aristides de Sousa Mendes (Imprensa Nacional, 2021, que a disponibiliza gratuitamente na sua página), de Cláudia Ninhos (n. 1985).

O foco deste livro está sobre a carreira diplomática do biografado, percurso relatado a partir das fontes primárias existentes nos arquivos (correspondências e os próprios processos disciplinares em que Sousa Mendes esteve envolvido), seguindo o leitor um trajecto pelos tempos de estudo em Coimbra, ingresso no Ministério dos Negócios Estrangeiros, exercício de funções na Guiana Britânica (1910), na Galiza (1911 e 1927), em Zanzibar (1911), em Curitiba (1918), em Berlim (1921), em São Francisco (1921), em Maranhão e Porto Alegre (1924), em Antuérpia (1929), em Bordéus (1938), detendo-se a biografia no último processo disciplinar que lhe foi instaurado e na vida de sofrimento e tentativa de regeneração do cônsul.

O que fica da história é a luta entre a política cega, a consciência e a ética, com a burocracia das circulares a interferir num processo a que não são alheias a polícia política e muita hipocrisia. Aristides de Sousa Mendes sempre invocou razões humanitárias para a sua decisão na assinatura dos vistos de Bordéus, aspecto nunca considerado. Contudo, Salazar, logo que finda a guerra, dizia, na Assembleia Nacional: “Quaisquer outros na nossa situação acolheriam refugiados, salvariam e agasalhariam náufragos, ajudariam a suavizar a sorte dos prisioneiros, por dever de solidariedade humana e para manter (...) a justiça e a paz. Pena foi não termos podido fazer mais.”

A lenta reabilitação de Sousa Mendes cabe também nesta história, pois apenas em 1988 a Assembleia da República decidiu em conformidade. Ainda hoje, diz Cláudia Ninhos, a memória surge dividida entre “o herói que se transformou em figura de culto e o cônsul que desobedeceu e cujo papel no salvamento de refugiados é objecto de branqueamento por alguns autores, curiosamente, diplomatas como ele.”

Lembrando a data em que, em Bordéus, Sousa Mendes decidiu assinar, em nome da sua formação, vistos para todos os refugiados (resumindo o livro a história de uma família, a do polaco Stefan Rozenfeld, a título de exemplo), o Papa Francisco instituiu, em 2020, o 17 de Junho como o “Dia da Consciência”, assim lembrando uma figura inspiradora em prol da dignidade humana.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 873, 2022-06-22, p. 10


quarta-feira, 15 de junho de 2022

Olhar a Galiza com Ramón Villares



O título, foi Ramón Villares (n. 1951) buscá-lo ao verso de Teixeira de Pascoaes que abre o livro Marânus - “Galiza, terra irmã de Portugal” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2022), ensaio sobre a identidade do noroeste espanhol e sobre as suas relações com Portugal, estendido por onze capítulos. O recurso à literatura portuguesa passará além do título, pois, em diversas ocasiões, são invocados autores lusos, tal tem sido a aproximação cultural, reconhecendo Villares que a obra foi redigida “em diálogo com a história portuguesa e com as suas principais linhas de força”.

O propósito da monografia torna-se claro logo desde a introdução - “explicar aos leitores portugueses que a Galiza não é portuguesa e que, inversamente, atravessar a fronteira para o Norte não significa entrar em Espanha, mas sim numa ‘terra irmã’ muito diferente de Castela”.

A designação “Galiza”, antiga no tempo, referia inicialmente o espaço ocupado pelos “habitantes das terras mais distantes do conjunto da Hispânia na época da conquista”. Apesar dos sucessivos movimentos históricos, a região é apresentada pelo autor como dotada de “uniformidade cultural” e de “marcada humanização da paisagem”, dando razão a Miguel de Unamuno (1864-1936), que a classificara como “natureza humanizada, feita mansão do homem” (em Por tierras de Portugal y de España). Factor importante para essa unidade tem sido a língua, o galego, durante muito tempo mantida pelo campesinato e considerada desde 1978 como uma das “demais línguas espanholas”, advinda do galaico-português, recordando Villares as razões da separação por um rio entre o galego e o português: “a língua falada e escrita a sul do Minho alcançou um grande desenvolvimento com o apoio institucional da corte de Lisboa, enquanto a língua a norte do Minho careceu de referências políticas e institucionais e começou a ser satelizada pela língua castelhana a partir do final do século XIV”. Outro factor de identidade apontado para a Galiza é o da cultura cristã, com particular enfoque em Compostela, pólo religioso intenso de construção consensual, constituindo um dos vértices da geografia espiritual europeia.

Questões determinantes para a Galiza de hoje foram, no século XX, a progressiva alteração de propriedade no mundo rural, a emigração para a América do Sul e a influência que os emigrantes tiveram na preservação da identidade e a afirmação cultural galega (através de nomes incontornáveis como Rosalía de Castro, Eduardo Pondal, Curros Enríquez, Alfonso Castelao ou Otero Pedrayo, ou por via de movimentos como as Irmandades da Fala, em 1916, a geração da revista Nós, em 1920 - título simbolicamente curioso e forte de afirmação identitária -, ou o Seminário de Estudos Galegos, de 1923).

O derradeiro capítulo, significativamente intitulado “Fronteira, irmandade e cooperação”, remete para as relações entre as margens norte e sul do rio Minho. Caberá aqui lembrar o monçanense João Verde (1866-1934), na oitava que abre o livro Ares da Raia (1902) - “Vendo-os assim tão pertinho, / A Galiza mail’o Minho, / São como dois namorados / Que o rio traz separados / Quasi desde o nascimento. / Deixá-los, pois, namorar, / Já que os pais para casar / Lhes não dão consentimento.” - versos que ecoaram Galiza fora, tendo Amador Saavedra (1864-1932respondido: “Con ou sin consentimento / D’os pais o tempo há chegar / Em que teñam que pensar / Em facer o casamento”.  As relações entre o Norte de Portugal e a Galiza, se bem que tendentes a esbaterem o distanciamento, denotam, segundo Villares, ainda os “muros simbólicos que não cairão, a menos que haja uma forte vontade política e cívica”, que pode ser um caminho de futuro.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 869, 2022-06-15, p. 9.


quarta-feira, 8 de junho de 2022

Memória: Paula Rego (1935-2022)

 


Obrigado, Paula Rego!

Memórias e aprendizagens de Violante Saramago Matos


 

“Sou filha de gente grande. Entre o orgulho que tenho no que eles foram e o medo de eu falhar, tive de aprender a ser eu, para além de ser filha de gente grande. E sempre gostei, e também precisei, de os ouvir.” Assim conclui Violante Saramago Matos (n. 1947) o seu livro De memórias nos fazemos (Edições Esgotadas, 2022), título que revela o conteúdo - momentos e aprendizagens definidores da identidade -, confessando a influência consentida recebida dos pais, ambos “gente grande” - Ilda Reis (1923-1998), pintora, e José Saramago (1922-2010), escritor.

Em quase meia centena de pequenas crónicas, a autora vai encontrando os fios que a ligam à memória dessas aprendizagens (e incorporações), num processo ajudado pela própria escrita, pois, “é certo que, quando escrevemos, arrumamos ideias, obrigamo-nos a torná-las percetíveis, num esforço para encontrar as palavras certas, as que queremos escrever”, em textos que pretendem também testemunhar - “aqui fica muito do que aprendi com ele, que é alguma coisa do que lhe cheguei a dizer.”

Se a faceta do escritor Saramago perpassa por estas páginas, a verdade é que os registos da filha tentam mostrar o equilíbrio com a figura paterna - “para além do pensador e do escritor, sempre tão justa e condignamente recordado e reconhecido, houve um pai. Com quem vivi os primeiros vinte e três anos de vida. Que me ensinou a ‘ler’ (...). Que me chamou várias vezes para conversas sérias e inesquecíveis. Que me apoiou, quando foi preciso. Que, sem retóricas nem palmadas, me ensinou valores e princípios.” -, aspecto reforçado com a reprodução de três mensagens escritas do pai para a filha no final do volume.

As aprendizagens que ficaram advêm de momentos que marcaram pela simplicidade ou pela situação vivida - a necessidade de se informar para fazer um trabalho estudantil (combatendo os “especialistas de sofá”), o encorajamento para retomar o caminho após um acontecimento grave, os primeiros livros oferecidos pelo pai (de Selma Lagerloff e de Edmundo de Amicis), a descoberta do inconformismo, o afecto pelo tacto ou pela presença, o “olhar para o interior das aparências”, a grandeza das pessoas, a capacidade para resistir (notável é o momento em que, presa em Caxias, em 1973, Violante Matos recusa o pagamento da caução, o que levará o pai a dizer-lhe: “Então, tens que ir buscar forças, nem que seja ao dedo grande do pé!”).

As visitas à Azinhaga e ao rio Almonda, pontos de origem de Saramago, preenchem também o imaginário e a escrita de Violante Matos, seja pela necessidade de uma consciência ecológica, seja pela reminiscência vinda dos tempos da “avó Zefa”, tratamento carinhoso dado a Josefa Caixinha, avó de Saramago, ficando o registo de indignação quanto à reconstrução da casa de origem - “A casa foi fechada. Quem ficou com ela, destruiu-a. (...) Ou quis mostrar que, com o dinheiro que tinha, faria melhor. Não fez! Fez uma jóia de exibicionismo, apenas, e já agora de mau gosto.” Geografia também obrigatória é Lanzarote, ponto de conversas e de revelações, encontro de adultos que mutuamente se admiram.

O livro contém uma segunda parte ligada às memórias das releituras dos livros de Saramago, em mais fundos mergulhos. Nem todos merecem texto autónomo, mas por aqui passam os que mais impressionam a autora, destacando-se A caverna (2000) por uma razão pessoal - “este é um livro em que revejo muito da ligação com o meu pai”. 

Em ano de centenário saramaguiano, estas memórias são um bom contributo para o conhecimento do homem que alimentava o escritor.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 865, 2022-06-08, p. 10.