quinta-feira, 9 de abril de 2020

Guias para o jardim da Arrábida



A Arrábida provoca o deslumbramento com a tela da serra, como provam dois roteiros de ajuda: o primeiro, Flores da Arrábida - Guia de Campo, de José Gomes Pedro e Isabel Silva Santos (Assírio & Alvim, 2010), com primeira edição em 1998, a tempo da Expo-98, caracterizando 200 flores, traçando um retrato do habitat que a Arrábida constitui, e completando-se com esclarecedor glossário técnico e índices por nomes científicos e por nomes vulgares atribuídos às plantas; o segundo, Flora da Arrábida e Espichel - Guia de Campo, de Francisco Luís Rasteiro (Núcleo de Espeleologia da Costa Azul, 2019), que identifica 633 espécies vegetais da serra, “resultado de quinze anos de registos fotográficos” e de pesquisa botânica de três anos, apresentando igualmente índices por família e pelo nome científico.
As duas obras são interessantes pela recolha, pelo cuidado científico (descrição das formas florais, das folhas, das inflorescências, das características eco-fenológicas), pela intenção pedagógica (recomendações e conselhos sobre o uso das plantas) e pelo apontamento fotográfico de todas as plantas referidas.
Passeie o viajante na Arrábida com os guias na mão que vai descobrir muito. Por exemplo, plantas fortemente ligadas à serra - por serem endémicas, umas; por estarem ligadas a características que marcam a cultura local, outras, como o “carrasco” (hospedeiro da grã, que produz a tinta escarlate já conhecida pelos Romanos), o “cardo-do-coalho” (indispensável para o fabrico do queijo) ou a “murta” (importante para o licor arrabidino).
Mas também pode o leitor descobrir nestes guias um mundo de associações... As designações vulgares atribuídas às plantas, talvez derivadas do poder sugestivo que estas apresentam, dão interessante percurso pelo poder metafórico da linguagem. Nessas classificações, os nomes de animais ou de partes do corpo animal são frequentes, como se pode ver nos casos de: “abelhinhas” (ou “quilhão-de-galo”), “arrebenta-boi” (ou “uva-de-cão”), “barba-de-falcão”, “boca-de-lobo”, “corno-de-veado”, “cristas-de-galo” (ou “calças-de-cuco”), “erva-abelha”, “erva-borboleta”, “erva-carapau”, “erva-das-pulgas”, “erva-percevejo”, “erva-vespa”, “flor-dos-macaquinhos” (ou “flor-dos-rapazinhos”), “flor-dos-passarinhos”, “focinho-de-rato”, “língua-de-cão” (ou “orelha-de-lebre”), “língua-de-ovelha”, “olho-de-mocho”, “pé-de-burro”, “pé-de-corvo”, “pé-de-galinha”, “rabo-de-cão”, “rabo-de-lebre”, “rabo-de-raposa”, “testículo-de-cão” e “tripa-de-ovelha”. Outros nomes, com cariz mais poético, também devem ser lembrados: “beijos-de-estudante”, “bela-luz”, “bons-dias”, “cardo-beija-na-mão” ou “saudades”. A imagem fradesca igualmente perpassa pela terminologia em casos como “capuz-de-frade” e “orelha-de-monge”, ainda que esta também surja conhecida por outra designação muito pouco conventual como seja “umbigo-de-vénus”, em todo o caso uma imagem bem mais reservada do que a sugerida por “dama-nua”...
As flores povoam frequentemente a literatura e, apesar de a escolha quase não ter limites, há duas a não esquecer: a “bonina” (ou “margarida”), imagem que Camões escolheu para lembrar a face de Inês de Castro, e a “esteva”, que titulou em 2004 obra póstuma de Sebastião da Gama, que bem recheou de flores arrábidas a sua poesia.
A quantidade de flores e de plantas que vivem na Arrábida bem teria ali justificado um passeio da deusa Flora e do seu apaixonado Zéfiro pelo deslumbramento entre o casal e pelo encanto da Natureza... Na dúvida se eles por ali terão passado, façamos nós essa incursão, mesmo que através da leitura...
in O Setubalense: 2020-04-08

segunda-feira, 30 de março de 2020

Fotografias para viajar no passado - Setúbal na série "Memória de Portugal"



O fascínio das fotografias a preto e branco advém de, imediatamente, sermos transportados ao passado, numa viagem pelo tempo que suscita a comparação das épocas, das paisagens, das vidas, das pessoas. “Memória de Portugal - Dois séculos de fotografia” (Atlântico Press, 2020) é colecção de trinta títulos que tem como parceiros a Torre do Tombo, o Centro Português de Fotografia e a Visapress e acompanha as publicações Correio da Manhã e Sábado. Organizada tematicamente, é caucionada pelos trabalhos dos mais conhecidos fotógrafos portugueses, como Américo Ribeiro (1906-1992), António Passaporte (1901-1983), Artur Pastor (1922-1999), Augusto Cabrita (1923-1993), Aurélio Paz dos Reis (1862-1931), Emílio Biel (1838-1915), Joshua Benoliel (1873-1932), entre outros, ou marcas como a Fotografia Alvão ou Estúdio Horácio Novais, por exemplo. As fotografias apresentadas nos vários volumes vivem pelo que mostram, sendo acompanhadas de legenda que tem como função principal completar a informação prestada no corpo de texto do livro.
Publicados os primeiros dez volumes, Setúbal surge em quatro deles. No título inaugurador, Grandes Tradições, com texto de Helena Viegas, a mostra incide sobre festas religiosas ou cíclicas, costumes ou rituais, havendo lugar para uma fotografia da colecção de Américo Ribeiro sobre a procissão do “Enterro do Senhor”, em Sexta-Feira Santa, em Setúbal. 
No volume Praias e Turismo, de Filipe Garcia, há referência às praias da Arrábida e de Tróia, que tiveram crescimento, respectivamente, a partir das décadas de 1930 (pela criação de uma estalagem no forte, devida ao pai do poeta Sebastião da Gama) e de 1950 (pela facilidade crescente na travessia do Sado e pela influência do complexo turístico instalado em Tróia a partir de final dos anos 60). A Costa da Caparica merece também alusão como alternativa de praia para os lisboetas, sobretudo a partir de 1925, quando foi considerada estância turística. Do mesmo autor é o título Vida familiar, que apresenta a evolução das casas e dos bairros familiares no país, mostrando que, em 1911, Setúbal e mais sete distritos do litoral concentravam já 53% da população portuguesa e que, a partir de 1930, o programa de Casas Económicas foi alargado a várias cidades “onde a indústria conserveira era mais expressiva”, como, por exemplo, Setúbal. Neste volume, há ainda uma fotografia do depósito setubalense da CUF, “ao estilo das chamadas drogarias”, devida ao Estúdio Horácio Novais.
Desporto, assinado por Francisco Pinheiro, relata uma história da prática desportiva em Portugal. O crescimento da popularidade das várias modalidades permite também ver que, durante décadas, o desporto foi dominado pela figura masculina, registando-se como uma das excepções o caso da setubalense Oceana Zarco (1911-2008), “famosa desportista” e “pioneira do ciclismo feminino em Portugal”.
É evidente que quase todos os outros volumes poderiam ter referências a Setúbal. No entanto, tendo em vista os propósitos da colecção - evidenciar o testemunho fotográfico -, mesmo nos títulos em que a região está ausente cabe ao leitor ver que relações temos com os outros ou que marcas existem por cá daquilo que é mostrado. O retrato final é bom, pelo contributo para a arte fotográfica, pelas marcas de identidade que revelam muito daquilo que temos sido. Ficamos a conhecer-nos um pouco melhor!

Na rubrica "500 Palavras", em O Setubalense, hoje

segunda-feira, 23 de março de 2020

Cartas que Miguel Torga recebeu


Cartas para Miguel Torga, organizado por Carlos Mendes de Sousa (Publicações Dom Quixote, 2020), foi o livro que preencheu a crónica "500 Palavras" publicada n'O Setubalense de hoje. Um livro a ler: por quem gosta de Torga, por quem gosta de literatura portuguesa, por quem gosta de cartas.


sábado, 21 de março de 2020

Neste Dia Mundial da Poesia...


... dois poemas de que gosto muito: "As mãos", de Manuel Alegre, e "O sonho", de Sebastião da Gama, um e outro autor incontornáveis, um e outro poema igualmente incontornáveis. Dois grandes momentos da poesia portuguesa do século XX, que continuam a cumprir-se, que têm de continuar a cumprir-se!





sexta-feira, 20 de março de 2020

Vivências de Zeca Afonso em Setúbal


As ligações de José Afonso à cidade do Sado estão registadas por Albérico Afonso costa em livro publicado há poucos meses - Lugares de José Afonso na geografia de Setúbal (Associação José Afonso, 2019). É um roteiro sobre o Zeca em Setúbal, é verdade; mas é, sobretudo, uma evocação do artista e do cidadão, que vale a pena ler.
Iniciei a rubrica "500 Palavras" no jornal O Setubalense com esse livro (edição de 16 de Março), crónica que aqui reproduzo.




quinta-feira, 5 de março de 2020

Frei Agostinho da Cruz no Museu do Oriente



Acção integrada nas comemorações dos 480 anos do nascimento e nos 400 anos da morte de Frei Agostinho, que se concluirão em Maio, integra contributos provenientes de diversos depositários e constitui oportunidade única para um olhar sobre Frei Agostinho da Cruz e a espiritualidade arrábida. Serve de convite!

domingo, 5 de janeiro de 2020

Papa Francisco e o significado do presépio



No primeiro dia de Dezembro de 2019, o Papa Francisco datava, em Greccio, a sua carta apostólica O Sinal Admirável (Lisboa: Paulinas, 2019), um texto “sobre o significado e o valor do presépio”. Poucos dias antes, Francisco tinha anunciado a deslocação: “Irei a Greccio para rezar no lugar do primeiro presépio que fez São Francisco de Assis e enviar a todo o povo fiel uma carta para entender o significado do presépio". E foi ali, na região em que, em 1223, Francisco de Assis fez a primeira reconstrução do nascimento de Cristo, a cerca de uma centena de quilómetros de Roma, no santuário franciscano, que Francisco revelou ao mundo a sua leitura sobre o presépio.
A comunicação é de uma simplicidade impressionante, oscilando entre a memória e a pedagogia, mostrando o presépio como desafio para a sociedade de hoje. Num cenário envolvido pelo silêncio, o presépio é apresentado como “um apelo para seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento” e cada um dos sinais presentes no quadro merece a interpretação papal, quase num efeito de “zoom” que se vai dirigindo do mais geral para o mais particular: o céu estrelado e o silêncio para a procura de respostas “às questões decisivas sobre o sentido da nossa existência”; o contraste das representações de casas ou palácios em ruínas, marcas de decadência, com a “novidade” da mensagem natalícia da reconstrução do mundo e da vida; “as montanhas, os riachos, as ovelhas e os pastores”, representações de uma criação participante; todas as outras figuras simbólicas que cada um carrega para o “seu” presépio, demonstrando um caminho de simplicidade, de mistério e dando a entender que, “neste mundo novo inaugurado por Jesus, há espaço para tudo o que é humano e para toda a criatura”; finalmente, as imagens da gruta - Maria contemplativa e apelativa, José guardião, o Menino sorridente e de mãos estendidas para ser recebido - e as dos magos, vindos de longe na sua “sede de infinito” para representarem a alegoria das ofertas, que simbolizam a realeza, a divindade e a humanidade de Jesus.
O retrato apresentado cruza-se com as fases da vida de cada um e com o entusiasmo da infância em torno do presépio ou com o gesto de, continuamente, se armar esse mesmo presépio. E é já próximo do fim que Francisco afirma: “Não é importante a forma como se arma o Presépio; pode ser sempre igual ou modificá-lo cada ano. O que conta é que fale à nossa vida.” Ligando esta força à manifestação da fé, o Papa deixa aqui o desafio mais interessante que nos é feito por esta recriação que não abandonamos e que, iniciada por Francisco de Assis, traz um pouco dos livros sagrados para o ambiente que fazemos e construímos em cada dia.
Esta ideia do silêncio e da reconstrução a partir das imagens que fazem o presépio encontramo-la também no texto de José Tolentino Mendonça “O burro do presépio e todos os outros”, publicado recentemente na revista do semanário Expresso (nº 2454, 9.Novembro.2019). Depois de lembrar vários episódios sobre a importância do burro na história humana, o cronista chega às 163 vezes que o burro é mencionado na Bíblia (das 3594 referências a animais que ela contém) para chamar a atenção para o seu papel no quadro representativo do Natal: “O burro do presépio sempre me comoveu. (...) O mais natural é que se tratasse de um dos asnos anónimos do acampamento dos pastores e que escutou, ao mesmo tempo que eles, o pregão feito pelos anjos (...). Provavelmente, começou apenas por acompanhar a excitação dos pastores (...). Mas, depois, ele próprio se apercebeu de que no chão, diante das suas patas, surgia o rasto luminoso de uma estrela que o chamava. (...) Quando os pastores chegaram à visão do recém-nascido, ele já lá estava, como uma figura do presépio, (...) deitado por terra, protegendo com o calor do próprio pêlo a jovem parturiente e aquele filho. Os seus olhos grandes não se afastavam do pequenino, nem um segundo. E extasiados assistiam ao recomeçar do mundo.”
É neste final de contemplação e de fascínio perante o recomeço que o texto de Tolentino Mendonça vai ao encontro da carta do Papa Francisco, quando nos convida à reconstrução sobre a simplicidade. Uma e outra leitura constituem dois bons momentos de reflexão sobre o sentido do presépio, o tal “sinal admirável” que nos é oferecido para que a vida seja sempre um espaço e um tempo de encontro.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Histórias para lembrar em 2020, em Portugal, em Setúbal e no mundo



O tempo que passa também se faz com a memória. De pessoas e de acontecimentos. Que podem ser muitos, que podem ser escolhidos consoante as nossas vivências, conforme aquilo que nos marca ou o que sabemos.
Eis uma lista de acontecimentos que podem ser assinalados em 2020, um pouco na linha de lembrar os tempos redondos... Lembranças, apenas lembranças. Um grupo apenas: “Em Portugal, em Setúbal, no mundo”.

Em Portugal, em Setúbal, no mundo
1520 (500 anos) - travessia do estreito e entrada no Pacífico por Fernão de Magalhães.
1540 (480 anos) - nascimento de Frei Agostinho da Cruz.
1720 (300 anos) - criação da Academia Real de História; nascimento do setubalense João Henrique de Sousa (14 de Julho), que viria a ser o primeiro Lente da Aula do Comércio (fundada pelo Marquês de Pombal).
1770 (250 anos) - nascimento de Beethoven (17 de Dezembro).
1820 (200 anos) - nascimento de Anne Brontë(17 de Janeiro); golpe de estado no Porto, instaurando-se o regime liberal (24 de Agosto); publicação de Ivanhoe, de Walter Scott; descoberta da Vénus de Milo.
1870 (150 anos) - publicação de Mistério da Estrada de Sintra, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão.
1920 (100 anos) - nascimento de Isaac Asimov (2 de Janeiro), Federico Fellini (20 de Janeiro), José Mauro de Vasconcelos (26 de Fevereiro), João Paulo II (18 de Maio), Ruben A. (26 de Maio), Mário Sacramento (7 de Julho), Amália Rodrigues (23 de Julho), Mario Puzo (15 de Outubro), Gianni Rodari (23 de Outubro), Paul Celan (23 de Novembro), Clarice Lispector (10 de Dezembro); entra em funcionamento a Sociedade das Nações (16 de Janeiro), que será dissolvida em 1946; é entronizada em Fátima (13 de Junho) a imagem esculpida por José Ferreira Thedim (1892-1971); difusão dos primeiros programas radiofónicos; publicação de Ensaios(1º volume), de António Sérgio, e de Clepsidra, de Camilo Pessanha; greve geral de 24 horas (Abril), afectando serviços de Setúbal, Barreiro e Almada; fundação oficial do Clube Naval Setubalense (6 de Maio); inauguração do troço ferroviário Alcácer-Setúbal (24 de Maio); nascimento de Joaquim José de Campos (futebolista e dirigente do VFC, 15 de Fevereiro).
1970 (50 anos) - Francisco Sá Carneiro e Pinto Balsemão apresentam na Assembleia Nacional projecto de lei de imprensa que prevê o fim da censura prévia (22 de Abril); Salvador Allende eleito presidente do Chile (21 de Janeiro); Soljenitsyn recebe o Prémio Nobel da Literatura; Alvin Toffler publica O Choque do Futuro; pela primeira vez na história da Igreja, duas mulheres recebem o título de “doutoras da Igreja”: Santa Teresa de Ávila (27 de Setembro) e Santa Catarina de Sena (4 de Outubro); falecimento de Bertrand Russell (2 de Fevereiro), Almada Negreiros (15 de Junho), Oliveira Salazar (27 de Julho), Jimi Hendrix (18 de Setembro), Erich Maria Remarque (25 de Setembro), John dos Passos (28 de Setembro) e Charles de Gaulle (9 de Novembro); falecimento dos setubalenses Óscar Paxeco (Fevereiro), de Luís Gonzaga do Nascimento (1 de Setembro) e de João de Castro Osório (Novembro).

Francisco Borba mostra a Setúbal que D. Carlos pintou e desenhou



Este livro, Setúbal e Arredores na Obra Artística do Rei D. Carlos (Setúbal: LASA, 2019), devido à persistência e sensibilidade estética de Francisco Borba e ao estudo aturado de Raquel Henriques da Silva, precisou de cerca de 120 anos para aqui chegar, com uma história que atravessa várias fases.
Do ciclo de vida do rei D.  Carlos todos sabemos que foi curto - nascido em Setembro de 1863 no Paço da Ajuda, morreu assassinado no Terreiro do Paço em Fevereiro de 1908. Um percurso de pouco mais de 44 anos de uma figura multifacetada que, a par da governação, assumiu um estatuto próprio na cultura, fortemente marcado pela sensibilidade estética e por um espírito científico. Por 1880, começou a ter aulas de pintura não só por causa da formação cultural da sua condição de príncipe, mas também porque o desenho lhe aguçava o espírito desde a infância. E, oito anos depois, em Dezembro de 1888, participava o ainda príncipe na exposição de pintura promovida pela Associação Industrial Portuguesa com duas marinhas em aguarela. A partir daí, a sua participação em colectivas de pintura não mais parou, integrando mostras promovidas a ritmo anual pelo Grémio Artístico e pela Sociedade Nacional de Belas Artes, chegando a expor em Paris (na Société Artistique des Amateurs e na Exposição Universal de Paris), em Barcelona, em St. Louis e no Rio de Janeiro, tendo algumas das suas obras sido premiadas.
Uma produção pictórica intensa, num trajecto que se foi aprimorando e que passou por temática variada e suportes diversos, cuja qualidade foi reconhecida por vários críticos. Os elogios que foram feitos à obra de pintura e desenho de D. Carlos culminaram com o cognome de todos conhecido de “Rei Artista”, que, por si, denota o prémio do reconhecimento geral dessa sensibilidade. E, se dúvidas houvesse, bastaria a opinião de Fialho de Almeida, crítico difícil de convencer (chegou a assumir-se como dono de uns “olhos jacobinos”, precisamente a propósito de D. Carlos, quando visitou as obras que o rei mandara fazer no Outão), que, em 1892, a propósito da exposição promovida pelo Grémio Artístico nesse ano (a segunda edição), em que um quadro do rei foi premiado, registou sobre os dotes artísticos de D. Carlos que os seus quadros “passam de prenda à categoria de um verdadeiro trabalho de arte” e que “é necessário apontá-lo entre os pouquíssimos que neste país de costa verdadeiramente sentem a marinha, e entre os raros que na exposição se esforçam por pintar em português” (Os Gatos, vol. 5). Por igual diapasão se afinou outro conhecido crítico, com mais mavioso percurso, mesmo com relações de amizade que o ligavam ao rei, Ramalho Ortigão, que, em diversos textos de memória sobre D. Carlos, apreciou a sua arte e testemunhou que “as suas paisagens são comovidas evocações”, que se transformou no “pintor inesgotável dos mares portugueses” e que “foi um dos mais espontâneos e mais laboriosos pintores portugueses do seu tempo e da sua idade” (Últimas Farpas).
As viagens marítimas do rei ao longo da costa portuguesa constituíram pretexto para uma linha temática intensa da sua pintura - a arte marinha, passando pelo retratar os barcos e as paisagens marítimas. Por esse crivo passou muito intensamente a paisagem da costa de Cascais e também o espaço que desde o Espichel se alcança até Setúbal. E é assim que se entra na segunda fase da história deste livro.
Em 1963, Maria de Lourdes Bartholo, então directora do Museu Regional de Bragança, publicou o título A Obra Artística de El-Rei D. Carlos (Lisboa: Fundação da Casa de Bragança), em que, depois de um pequeno estudo introdutório, divulgou o inventário das obras do rei nos museus e palácios nacionais, tendo chegado a um total de 572 obras recenseadas a partir de 14 colecções (Palácio Ducal de Vila Viçosa, Museu Nacional de Arte Contemporânea, Museu Nacional de Soares dos Reis, Palácios Nacionais da Ajuda, da Pena, de Sintra, de Mafra e de Queluz, Aquário Vasco da Gama, Sociedade Nacional de Belas Artes, Museu da Sociedade Martins Sarmento, Museu Municipal Dr. Santos Rocha e, no estrangeiro, o Palácio do Itamarity, do Rio de Janeiro, e a Antiga Colecção Imperial da Alemanha).
Esta obra não deixou insensível o setubalense João Botelho Moniz Borba (1908-1977), que, dois anos antes, em 1961, tinha assumido o lugar de director do Museu de Setúbal (fundado em Fevereiro desse mesmo ano). Dedicado “patrimonialista de Setúbal e da sua região”, como se lhe refere Raquel Henriques da Silva, João Borba percorreu estrenuamente esse inventário na demanda de obras relacionadas com Setúbal, tendo ficado sensibilizado com o “Álbum de Apontamentos”, recolhendo anotações a lápis feitas em Lisboa, em Setúbal e a bordo do iate “Amélia”, provavelmente entre 1885 e 1890, manuscrito que integra o espólio do Museu Nacional Soares dos Reis.
A partir daí, com a meticulosidade que o norteava nas questões de um inventário artístico setubalense, João Borba solicitou reproduções fotográficas do álbum àquele museu portuense e elaborou a lista “El-Rei D. Carlos - O que ele pintou e desenhou sobre Setúbal e Arredores”, a que acrescentou cinco quadros que conhecia, três do Palácio Ducal de Vila Viçosa e dois que tinham figurado na exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes de 1903.
Podia o trabalho de pesquisa ter ficado por aqui que já teria sido importante o registo dessas referências a Setúbal para a sua história cultural e para a construção de uma certa identidade.
Alcança-se agora a terceira fase da narrativa, quando é passado mais de meio século sobre a listagem que o diligente João Borba fez na mira de recolha, de saber e de conhecimento de outros olhares sobre Setúbal. Chegados a 2019, eis que Francisco Borba, numa atitude de partilha de documentação do arquivo de família e honrando a memória familiar e setubalense, decide a publicação desta obra Setúbal e Arredores na Obra Artística do Rei D. Carlos, seguindo os passos e o roteiro do pai, aí integrando três pinturas (“A Torre do Outão”, de 1900, e “O barco da vela vermelha” e “Barcos no Sado”, ambos de 1905) e o mencionado “Álbum”.
A obra de D. Carlos teve já variados estudos, destacando-se o que, em 2007, foi publicado por Raquel Henriques da Silva na obra El-Rei Dom Carlos, Pintor (1863-1908), que acompanhou o catálogo das 411 obras existentes no Museu-Biblioteca da Casa de Bragança elaborado por Maria de Jesus Monge (Caxias: Fundação da Casa de Bragança, 2007). Nessa leitura, a autora vê a obra iconológica de D. Carlos afecta a nove áreas temáticas, ainda que algumas tenham um muito reduzido número de representações e se justifiquem por marcas de especificidade delicada e por terem uma inegável ligação a momentos ou locais que preencheram a vida do artista: marinhas, paisagens em terra, paisagens entre o rio e a terra, gentes e narrativas de trabalho, retratos, pintura da História, registos do quotidiano (incluindo desenhos científicos e naturezas mortas), homenagem ao Alentejo e apelo do mar.
As reproduções apresentadas neste livro, que não abrangem a totalidade das peças em que D. Carlos referiu Setúbal, passam por quase todas as categorias indicadas por Raquel Henriques da Silva, o que permite também fortalecer a ligação entre o rei e este território. Com efeito, por aqui passam as marinhas (os barcos e o mar) e o prolongamento da paisagem do mar para terra (Setúbal e a Comenda, o cais de embarque, Sesimbra); a população marinha (as medusas e as toninhas); o aspecto da monumentalidade (Outão, castelo de Palmela, fortes de S. Filipe e da Arrábida, S. Julião, o aqueduto, Praça de Bocage, Nossa Senhora da Conceição do Cais, porta de S. Sebastião, Bacalhoa) e das ruínas (Cetóbriga); a fisionomia costeira (desde o Espichel até ao Sado); os pormenores de construção ou de elementos decorativos (o farol, a capela do Bonfim, as marcas dos sinos, heráldica); a figura humana em ambiente de trabalho ou lazer ou no seu cargo (os pescadores, o chefe dos veteranos em Palmela, a ponte de banhos); o esboço de retrato humano (em alguns casos indicando o nome próprio revelando proximidade no trato). Há ainda espaço para o auto-retrato, para a visualização de recantos do iate “Amélia” e para uma imagem de momento de pausa de um casal, algures na paisagem junto de uma coluna em ligeira colina, ele talvez desenhando, ela talvez lendo...
O leitor deste livro, mais rigorosamente o espectador deste livro, pode assistir assim a tempos de perenidade e a instantes de vida, em que o traço varia entre a fixação do que é perdurável e a captação de instantes, de movimentos ocasionais, quase como se houvesse a reprodução do momento em que a fotografia é feita, no que essa fracção de tempo tem de irrepetível. A paisagem ou o cenário surgem sempre animados, dinâmicos, motivando a nossa contemplação, sugerindo um entrar nos ambientes, um conhecer as pessoas e os hábitos, as formas de vida e de ver. No texto de Raquel Henriques da Silva que acompanha este livro, é este fenómeno explicado quando refere: “o desenho, a aguarela e a pintura constituíram, para D. Carlos, uma busca e registo da beleza e das gentes, mas também a determinação de os conhecer e de os explicar”. E, mais adiante: “a obra artística de D. Carlos, sobretudo o seu desenho, é, no seu conjunto, uma comovente declaração de amor a Portugal - à beleza das costas marítimas, à suavidade do relevo, à antiguidade da história, à bonomia das gentes mais humildes.” Haverá elogio mais propositado para um pintor naturalista como D. Carlos foi?
Contudo, esta obra que Francisco Borba organizou e trabalhou - ou não fosse ele também um homem com sensibilidade fotográfica - faz ainda uma outra ponte com a memória, transportando-nos até à actualidade ou, pelo menos, até àquilo que a contemporaneidade preserva da memória. Lado a lado com quatro desenhos de D. Carlos referentes a monumentos, Francisco Borba pôs outras tantas fotografias recentes dessas mesmas construções, num olhar artístico que explora a dinâmica das linhas, da luz e das sombras, forma de homenagear o tempo, é verdade, mas também a arte e o próprio D. Carlos, também ele um apaixonado pela fotografia. Por estas reproduções a preto e branco passa a essencialidade do objecto retratado, revestido de toda a sua força expressiva e afirmando a sua vetustez e monumentalidade.
Setúbal e Arredores na Obra Artística do Rei D. Carlos é, assim, um livro a várias mãos e a vários tempos, que pode ser lido segundo distintas linhas - da pintura à escrita, do desenho à memória, da paixão ao documento, da cronologia à estética, do momentâneo à intimidade, exactamente assim intencionalmente mescladas, afirmando um olhar próximo, humano, límpido, fascinante, assim o leitor-observador se deixe impregnar pela aragem que se solta destes fragmentos.
(Na apresentação da obra, em 7 de Dezembro de 2019)

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Quando Bernardo Santareno encontrou o "Setúbal"



No final da década de 1950, o médico António Martinho do Rosário (1920-1980), natural de Santarém, prestava serviço nas campanhas de pesca do bacalhau como médico de frota, tendo servido o arrastão “David Melgueiro” (em 1957), o navio de pesca “Senhora do Mar” (em 1958) e o navio-hospital “Gil Eannes” (em 1959).
A participação nessas três campanhas, entre os seus 37 e 39 anos, deu-lhe experiência e conhecimento bastantes para transformar o vivido, o sentido e o ouvido em literatura, retratando os marítimos com quem contactou num conjunto de crónicas que reuniu, recorrendo ao pseudónimo de Bernardo Santareno, sob o título Nos Mares do Fim do Mundo (Lisboa: Ática, 1959), assunto que lhe motivou ainda um outro livro, também publicado em 1959, na área da dramaturgia, O Lugre.
A sua iniciação como escritor acontecera já uns anos antes, na mesma década, com publicação de títulos dedicados à poesia e ao teatro, tendo sido esta última tipologia a que mais distinguiu Santareno, muito justamente considerado um dos mais importantes dramaturgos portugueses da segunda metade do século XX.
Nos Mares do Fim do Mundo, título que acumula as noções de distância geográfica e de sofrimento, assume-se, em pequena nota do autor como o resultado de “doze meses com os pescadores bacalhoeiros portugueses, por bancos da Terra Nova e da Gronelândia”, sendo ainda explicado que “foi, em grande parte, escrito a bordo do arrastão ‘David Melgueiro’ na primeira campanha de 1957”, a primeira também em que o autor serviu “na frota bacalhoeira portuguesa, como médico”, tendo as duas campanhas seguintes servido para aprofundar o conhecimento de “todos os aspectos da vida dos pescadores bacalhoeiros portugueses”.
Alguns dos capítulos desta obra assumem uma escrita diarística, relacionada com pequenos acontecimentos (“É noite. Está mar. Mais uma vez, caiu a saboneteira no lavatório de alumínio: os meus nervos, tensos, ferem-se nos vidros quebrados deste ruído. Tudo ondula no beliche: cortinas, sobrado, tecto... Ai, esta vegetativa, esta angustiosa sensação de náusea!”), produzida por momentos de reflexão (“Serei capaz? São mil e tantos homens entregues aos meus cuidados, confiantes na minha proficiência médica... Estarei eu preparado para tal? Terei que me habituar a decidir, rápida e eficazmente, nos casos de urgência. Serei capaz? Sou tão doentiamente indeciso!”), resultante da descrição de personagens a bordo (“Pela primeira vez este ano, vai ser lançada a rede ao mar. Na ponte, o nosso capitão dirige a pesca: samarra, grossos tamancos, uma longa manta-cachecol traçada à volta do pescoço e luvas de lã. Cabelos grisalhos, revoltos e descobertos. Voz rouca, com claridades ardentes de sal e negrumes de mar sem fundo.”) ou do relato de momentos fortes da companha (“É a hora. São quatro da manhã. Os homens vão saltando dos beliches à medida que acordam e, ainda ensonados, benzendo-se, respondem ao vigia: ‘Que nos remiu em sua santa Cruz, louvado seja!’ É madrugada e as sombras que cobrem o mar recuam ante a claridade frígida, cor de pérola, que alastra sobre o Oceano. Não há brisa, é dia de pesca. Almoço frugal logo em seguida e, preparados os botes (os dóris), prontos anzóis, linha e isco: ‘Arriando, com Deus!’ Lá vão, cada qual no seu barquito, para a grande aventura quotidiana.”)
Os relatos dos dias vividos não são momentos de romantismo, antes contêm os traços da dureza, do sofrimento, das angústias, como se pode verificar no curto texto que relembra a necessidade que o médico teve de amputar um dedo a um pescador, a sangue-frio - “De repente, abriu com um pontapé a porta da enfermaria e saiu. Passou rente a mim. Pude ver-lhe bem o rosto de pedra trigueira: chorava. Foi pior que mutilar uma estátua perfeita... Muito pior.” A emoção corre nas páginas deste livro atrás das relações sociais, por vezes tensas por vezes amistosas, entre os homens; vive nas histórias pessoais, muitas vezes confidenciadas ao médico; perde-se na contemplação do mar, ora calmo, ora insultuoso; naufraga atrás das fragilidades humanas com o homem que cai ao mar... Para intensificar essa emoção, o narrador faz predominar a frase curta, muitas vezes dominada por uma pontuação eivada de reticências e de exclamações, aqui e ali condimentada com o discurso directo dos dizeres e falares dos pescadores, frequentemente mediada pelo pulsar do próprio narrador.
A figura da mulher vai perpassando ao longo da obra, muito associada à viuvez real ou à viuvez trazida pela solidão e pela ausência, mas, quase a fechar o livro, o penúltimo capítulo é dominado pela figura feminina, surja ela estampada na imagem da esposa, da filha ou da noiva, apresentada como símbolo de companhia, é certo, mas também de pilar forte para a família e para a manutenção da casa enquanto a campanha dura, mas também apresentada com fragilidades como a doença ou o adultério.
A obra encerra com o final da prestação do médico a bordo do “Gil Eannes”, num texto sugestivamente intitulado “Regresso”, aí voltando o tom da reflexão diarística: “Faço, mais uma vez, o exame da minha consciência: cumpri realmente bem? Fui o clínico seguro e decisivo, o amigo sereno e infatigável (eu ia a escrever ‘o pai’) de que estes mil e tantos homens precisavam? Nem sempre: por ignorância, por tibieza, por comodismo. No entanto, uma verdade quase me sossega: Eu amo estas gentes. E elas sentem que é assim.”
Pela experiência de vida e de escrita do médico Martinho do Rosário passou uma figura ligada às terras do Sado, com o topónimo “Setúbal” por alcunha (dando, de resto, título a capítulo). Consultando os dados facultados na página do Museu Marítimo de Ílhavo, ficamos a saber que quatro setubalenses (pelo menos) participaram nas mesmas campanhas que o médico Martinho do Rosário: da freguesia de Nossa Senhora da Anunciada, António da Cruz Paulo (n. 1931, à data residente na Fuzeta, trabalhou no “David Melgueiro” em 1957 e 1958, como “maduro”), Luís Wagner Pereira (n. 1932, operou no “David Melgueiro”, como “maduro” e “escalador”, entre 1953 e 1962) e Jorge do Carmo (n. 1917, operou no “Senhora do Mar” em 1957 e 1958, como “moço”, depois de ter trabalhado no navio “Novos Mares” naufragado em 1956 na Terra Nova, conhecido como “Olhudo”); da freguesia de Santa Maria da Graça, Francisco da Silva Borges (n. 1932, tendo trabalhado apenas no “Senhora do Mar” em 1958, como “verde”). Os pormenores referidos no texto “O Setúbal” podem indiciar que se trate de um dos homens mencionados; contudo, não ficam certezas no leitor, pois, nas fichas consultadas, constam também o apelido por que cada um era conhecido e a alcunha “Setúbal” não está registada para nenhum deles.
Mais do que saber qual o homem que foi a referência deste texto, é importante para o leitor, como o foi para o narrador, atentar no caso humano: uma década antes, numa briga em que não faltara o vinho, o “Setúbal”, sentindo-se ofendido e agredido (navalhada no pescoço), cravou uma faca no peito do adversário, que morreu. Preso o “Setúbal”, passados meses foi absolvido e ingressou na pesca do bacalhau - “Por cá anda, simiesco, duma fealdade quasimodeana, o fígado e o rosto moídos em álcool, uma palavra brejeira sempre nos lábios roxos e vultuosos, uma luz avermelhada e baça nos olhos de sapo, um permanente riso idiota nos dentes arreganhados e sujos... Coitado do ‘Setúbal’! Com mais de quarenta anos que já tem, ainda trabalha como moço no ‘Senhora do Mar’, ao lado de rapazitos com dezassete ou dezoito que, sem quebras, o apupam: ‘Ó Setúbal, queres um bagaço? Atão salta, faz mais uma cambalhota!...’” É este gesto solidário de desprezo e gozo que os outros sentem pelo “Setúbal" que indigna o narrador, ao ver “toda a miséria do mundo, na voz roufenha e entaramelada” do sadino que salta a troco do álcool e as gargalhadas “truculentas dos outros moços” e o “riso cruel dos outros”: “A minha vontade era chicoteá-los, duro e forte, até ver correr sangue! E cuidam naturalmente que o ‘Setúbal’ não se sente, que não sofre como os outros? Pois reparem nos sinais que ele tem num dos braços: feitos com fogo, a sangue-frio, cada qual marcando indelevelmente uma ofensa, uma injustiça recebida!...”
Bernardo Santareno, com este retrato de um setubalense desprezado pelos seus companheiros de trabalho, leva até ao âmago a noção do sofrimento e da dor, não só trazidos pelas condições de risco e de dureza de que a vida se formava, mas também pela irracionalidade com que o homem muitas vezes irriga a maldade, chegando a ser ele mesmo o actor (e o autor) do desprezo e da destruição de si mesmo, quando se impunha que ele interviesse em prol do bem-estar da companha e contra a solidão, aquele “poço-vertigem, aberto no centro da alma”. O conjunto de crónicas, de histórias, de registos de diário ou de apontamentos por que este livro é formado, ao debruçar-se sobre a condição humana num especial regime e período de vida, bem constitui um canto épico que valoriza o esforço, a dificuldade e a lonjura de tudo, louvando a persistência, ora individual, ora solidária, sem pintar o quotidiano dos protagonistas com as cores da conveniência, antes os revelando no seu estado de pureza, ora frágeis, ora derrotados, ora fortes, ora desiludidos e divididos, angustiados e cheios de dúvidas, mas sempre esforçados. Um livro intenso, a (re)ler, também pelo que ele representa para um tempo importante do que foi a actividade pesqueira portuguesa!
Além da edição de 1959, Nos Mares do Fim do Mundo teve uma antologia em 1997 (Col. “98 Mares”. Lisboa: Expo 98), e reedições em 2006 (Lisboa: Nova Ática) e em 2016 (Silveira: E-primatur), tendo esta última sido acrescida de dois textos de Santareno até aí inéditos. Hoje, com o diário Público, sai a publicação fac-similada da edição de 1959 na colecção “Médicos-Escritores”, que assinala o 80º aniversário da Ordem dos Médicos, a cargo da editora A Bela e o Monstro.