quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Os versos de Miguel Caleiro (1)



No primeiro número do jornal O Azeitonense, de 3 de Agosto de 1919, a terceira página abre com o título “Poetas humildes”, informando, logo no primeiro parágrafo: “os versos que abaixo reproduzimos, sendo, como são, de uma alma inculta, revelam um temperamento poético, de que muito haveria a esperar se fosse cultivado.” Depois, é explicada a razão para nada ter sido alterado no texto poético: não haveria, assim, adulteração do “temperamento afectivo e bom”.

Formalmente, o texto é uma cantiga, em que uma quadra (mote) anuncia o tema a desenvolver: “Eu gosto imenso de ouvir / pela fresca madrugada / o clarim do rouxinol / dar o toque de alvorada!” Seguem quatro décimas (glosas), retomando cada uma delas no final um verso do mote, desenvolvendo o tema do prazer da vida campestre - passeios no prado, canto da pastora e sons de flauta do pastor, trabalho agrícola das ceifeiras, cantar do rouxinol, moças na escamisada ou a transportar água da fonte.

O autor de tal poema é Miguel Fernandes Caleiro (1876-1935), de Aldeia de Irmãos, figura que o padre Manuel Frango de Sousa (1919-2000) divulgou na sua folha paroquial Azeitão - A Nossa Terra, em Fevereiro de 1989, dele dizendo ser “uma figura típica”, em quem “a espontaneidade era característica” e considerando a casa que ele animou e onde se cantava fado “um monumento de Azeitão”. Na última página do referido número de “O Azeitonense”, inteiramente dedicada a anúncios, consta o “Retiro Vila Jacinta de Miguel Fernandes Caleiro”, situado “nos Brejos, Casal de Bolinhos, Estrada de Coina”, espaço de “mercearia e belo retiro com bons petiscos e deliciosos vinhos”, condições que favoreceram os encontros de fado.

A sobrevivência dos textos de Miguel Caleiro deve-se, em grande parte, à sua sobrinha Maria da Saúde (1903-1995), que os transcrevia. Ligado às Festas da Arrábida, o poeta viu, no início da década de 1920, algumas das suas rimas publicadas sob o título Versos em honra das Antigas Festas d’Arrábida que pomposamente costumam realizar-se na pitoresca Vila de Azeitão, opúsculo de 16 páginas impresso na Tipografia Simões (com “oficinas movidas a força motriz”, em Setúbal), apresentado em “duas palavras”: “os versos que vão ler-se são simples e ingénuos como a sua alma de trabalhador do campo. Miguel Caleiro não sabe ler. As inúmeras canções populares de que é autor brotam-lhe espontâneas e é sua afilhada Maria da Saúde, uma engraçada pequena de 17 anos, que Caleiro estremece como se fora sua filha”, quem as escreve. É curioso que a nota sublinhe uma ideia que já tinha sido aflorada no recorte de O Azeitonense: “Dos versos de Caleiro diria de certo o nosso genial Guerra Junqueiro, se os lesse, que são como certas rosas que florescem nos matagais incultos.” Mas esta nota torna-se também interessante por recuperar o empenho que Guerra Junqueiro (1850-1923) pôs na divulgação da poesia popular, tal como fez no caso do poeta popular setubalense António Maria Eusébio (1819-1911), conhecido como “Calafate”, ao prefaciar a recolha dos seus Versos feita por Henrique das Neves em 1916, dizendo: “Não sabendo ler nem escrever, és um grande poeta (...). A tua bondade, meu velho, exala-se das tuas cantigas sem arte, como um aroma delicioso de um matagal inculto, que nasceu entre pedras (...) Ganhaste com o suor da fronte o pão de cada dia.” As palavras de Junqueiro sobre o Calafate poderiam ser aplicadas também a Caleiro, por certo...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1245, 2024-02-22, pg. 10.


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

A força que as mãos têm

 


A universalmente conhecida escultura de Rodin intitulada “Catedral” (1908) atrai pelo entrelaçar de duas mãos, que não se tocam, numa forma que convida à aproximação, ao recolhimento, à elevação. A delicadeza que transparece esculpida deixa que o silêncio domine, num crescendo que vai muito além da visão das mãos que quase prolongam o movimento - olhamos esta obra (que, inicialmente, não teve esse título) e associamos-lhe a expressividade que a mão tem em toda a obra de Auguste Rodin (1840-1917). Não terá sido a pensar nesta escultura que João Pina de Morais (1889-1953) escreveu sobre a imagem das mãos (mesmo porque o fez quando estava como combatente na Grande Guerra) no seu diário, em 24 de Abril de 1917, mas a citação poderia constituir legenda para a peça de Rodin: “As mãos são expressivas: como são suplicantes quando se erguem a encaminhar para o céu as palavras que se vão dizendo; como são dolorosas quando cheias de dor se contorcem aflitivas, e mais e mais.” (in A quem encontrar este livro… - Diário de Guerra 1917-1918, publicado em 2015).

A mão, símbolo de acção, de poder ou de generosidade, é também objecto de leituras poéticas, por vezes reprimidas pelos poderes instituídos... Quando a censura se deparou, em 1946, com a publicação colectiva Bloco - Teatro, Poesia, Conto, não hesitou em proibir a circulação da obra, entre outros motivos por causa do poema “Cântico” (em que o censor apôs um risco vermelho), de Mário Ruivo (1927-2017), um texto contra o trabalho escravo, que proclama: “Nós não temos carabinas / nem bombas nem baionetas // Nós não temos bombardeiros / nem couraçados nem tanks // Nós não temos casamatas / nem jeeps nem cavaleiros // Nós não temos nada disso / Não temos Não // Mas temos as nossas mãos / que semeiam o trigo / e ceifam as searas / e amassam o pão // Nós temos as nossas mãos / que arrancam do subsolo / o ferro e outros metais / que estão nos vossos canhões // Nós temos as nossas mãos / que extraem do seio da terra / todo o petróleo e carvão / que faz mover vossos navios vossos carros celulares // Nós temos as nossas mãos / que constroem as turbinas / e manejam os volantes e as alavancas / dos geradores eléctricos // E as máquinas das fábricas paradas / e a cidade às escuras / e os colectores sem água / e o padeiro sem vir / e o mercado fechado / E tudo com fome E tudo com fome / E A VIDA PARADA // Nós não temos carabinas / Não temos Não // Mas temos as nossas mãos / Mas temos as nossas mãos”.

Igualmente intenso na mensagem, pelo desafio que constitui para o homem pensante, construtor e interventivo, é o poema “As Mãos”, que Manuel Alegre (n. 1936) incluiu no livro O Canto e as Armas (1965), título também apreendido pela polícia política do Estado Novo, soneto que assim se inicia: “Com mãos se faz a paz se faz a guerra. / Com mãos tudo se faz e se desfaz. / Com mãos se faz o poema - e são de terra. / Com mãos se faz a guerra - e são a paz.” Depois de mencionar o valor do trabalho e a força transformadora exercida pelo homem, o poema conclui com um terceto apelativo: “De mãos é cada flor cada cidade. / Ninguém pode vencer estas espadas: / nas tuas mãos começa a liberdade.”

Vale ainda lembrar o último romance de José Gardeazabal (n. 1966), A Mãe e o Crocodilo (de 2023), obra de questionamento sobre a vida e sobre o mundo, que refere a força das mãos, a propósito de um fenómeno social muito actual: “Os imigrantes imigram com as mãos, é uma maneira de ganhar a vida. Quando não se conhece a língua, ganha-se a vida com as mãos. Depois da língua, a melhor parte do corpo são as duas mãos.”

A expressividade da mão pode definir-nos relativamente aos outros e ao mundo, às crenças e às situações; daí, também, a quantidade de expressões feitas em que a palavra “mão” surge, dando ideia da pluralidade de dimensões que interferem na vida. E os poetas, esses, surpreendem-nos com o uso metafórico que dela fazem, como muito bem o demonstraram, por exemplo, Pedro da Silveira (1922-2003), quando, no “Pequeno poema infinito”, construiu o terceto “A mão sobre o mapa / não viaja, / interroga.” (in Fui ao mar buscar laranjas, 2019), ou Sebastião da Gama (1924-1952), que, em Cabo da Boa Esperança (1947), confiando na segurança da mão, escreveu “Nem um momento só, / largo das mãos meu leme de certeza”, ou, indo ao encontro do acto de criar, definiu o poeta - “Era nas suas mãos que terminavam / as coisas infinitas e as finitas. / Por isso as suas mãos eram abismos / aonde se perdia o Pensamento.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1235, 2024-02-07, pg. 10

** Foto: Auguste Rodin, "Catedral" - Casa-Museu Rodin, Paris

 

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira lembrados



As figuras do setubalense Paulino de Oliveira (1864-1914) e de Ana de Castro Osório (1872-1935, nascida em Mangualde), sua mulher, mereceram obra biográfica recente, assinada por Giovanni Licciardello sob o título Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira - Percursos Políticos e Literários (2023).

O trajecto e análise feitos nesta monografia estão dominados pela relação familiar do autor - sua esposa, Ana Leonor Osório de Castro, entretanto falecida, era trineta dos pais de Ana de Castro Osório, e as várias facetas destas figuras sempre foram partilhadas nas histórias familiares. No texto introdutório, a sobrinha-bisneta recordou as memórias que lhe chegaram do casal: “Desde muito pequena os nomes de Ana de Castro Osório e de Paulino de Oliveira sempre me foram familiares. Eram e ainda são chamados pelos vários membros que compõem a minha família, de ‘tia Ana’ e ‘tio Paulino’, mesmo ao fim de todos estes anos. No que diz respeito ao tio Paulino, (...) era, sobretudo, um homem de fortes convicções pessoais e políticas e um republicano dos sete costados. (...) Relativamente à tia Ana, habituei-me aos seus contos, ao longo de toda a minha primeira infância (...). Mais tarde na juventude, bem como actualmente na idade adulta, nunca dispensei a leitura regular da sua vasta e fecunda obra.”

Giovanni Licciardello constrói este livro segundo dois vectores: por um lado, a relação familiar já indicada e, por outro, a necessidade de conhecer a obra dos antepassados, num contributo para a construção da memória e de partilha das descobertas (o autor chega a confessar que o seu conhecimento sobre os dois “era manifestamente pouco”). O segundo aspecto será, aliás, responsável por alguns excursos (sobretudo relacionados com relatos históricos e opinião sobre os factos) que, embora em relação com as personagens biografadas, são muito mais caracterizadores das épocas e prova de procura de informação sobre as mesmas, desviando, por vezes, a atenção sobre estes protagonistas (de que são casos a exposição sobre o conceito e a importância das biografias, os acontecimentos em torno do Ultimato ou as considerações sobre a Grande Guerra, por exemplo).

A primeira personalidade abordada é a de Paulino de Oliveira, podendo o leitor seguir a sua intervenção contra o Ultimato no início de 1890 (que o chega a levar para a prisão), a defesa do ideal republicano, o envolvimento na revolta do Elevador da Biblioteca (1908) e consequente fuga para o Brasil, a intervenção cultural (em torno de Garrett, de António Maria Eusébio e do centenário bocagiano de 1805), a vida e os compromissos depois da instauração do regime republicano (com a situação de desconforto que criou ao agredir à chibatada várias mulheres da indústria conserveira que operavam na fábrica de uma sua familiar, situação que, mesmo explicada por carta ao director do jornal O Germinal - onde assumiu ter cometido um “estúpido crime” -, não colheu a desculpa), o assumir do cargo de cônsul no Brasil. A parte dedicada ao seu legado, em áreas como o jornalismo ou a poesia, careceria de mais amplo olhar, mesmo porque as suas obras não são de fácil acesso, continuando-se por cumprir aquilo que Fernando Pessoa lhe augurou: os seus “poemas ficarão” e “não deixarão de ser incluídos na Antologia Portuguesa definitiva”.

Quanto a Ana de Castro Osório, acompanha o leitor o seu trajecto desde a sua chegada a Setúbal em 1893 (casariam cinco anos depois), passando por momentos como a história da relação amorosa recusada a Camilo Pessanha (em troca de uma promessa antiga a um António de Meneses), o trabalho desenvolvido no âmbito da literatura para as crianças e da promoção de valores culturais locais e nacionais, a intervenção cívica (luta pela criação de um Museu Regional, defesa do papel da mulher na sociedade, activista em diversas organizações feministas, defensora da educação básica, produção panfletária em defesa das suas convicções). Relativamente à memória de Ana de Castro Osório, há ainda uma resenha de bibliografia passiva e a indignação por o seu nome ter desaparecido da lista de patronos de escola em Setúbal, num processo que não terá primado pela clareza.

Com esta obra, Giovanni Licciardello tornou viva a memória destas duas figuras (pelo seu significado local e nacional), homenageando-as de uma forma que poderia ter sido enriquecida se incluísse uma pequena antologia de textos de ambos, assim permitindo que as suas vozes fossem ouvidas e os leitores mais se aproximassem de dois nomes que não devem ser esquecidos.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1230, 2024-01-31, pg. 10

 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Raul Reis e um livro cheio de garrafas

 

            

A garrafa é objecto que, normalmente, interessa pelo seu conteúdo, servindo, por essa razão, para a construção metonímica apenas quando está cheia - em primeiro lugar, com um qualquer líquido; depois, com aquilo que lá se queira meter, destacando-se, nesta última hipótese, a possibilidade de guardar segredos ou mensagens, recurso que deu já origem a muitas histórias de aventuras e a textos literários, haja em vista, por exemplo, obras de Daniel Filipe (1925-1964) ou de Alexandre Honrado (n. 1960) que trouxeram este objecto para título de narrativas.

Raul Reis (n. 1974), designer setubalense, resolveu encher um livro com fotografias de garrafas oriundas de uma centena de marcas portuguesas de refrigerantes e de águas, quase à dimensão real, que circularam entre as décadas de 1920 e de 1990, todas da era em que o material utilizado para as produzir era o vidro e a indicação das marcas era gravada por serigrafia (impressão directa sobre vidro).

“Um livro cheio de garrafas vazias”, assim explica o subtítulo de Vasilhame (No Frame Publishing, 2023), a prestar “tributo ao design gráfico de rótulos” e a carregar também a marca das recordações e de uma certa nostalgia.

Olhamos estas fotografias, a que são acrescentados alguns elementos informativos de carácter técnico e sobre as patentes, e, além de viagens no tempo, possibilitadas pela concepção dos desenhos, pelo olhar dos números de telefone constantes nos rótulos (alguns ainda com dois algarismos), pelo formato da garrafa ou pelas marcas que já desapareceram, conseguimos também viajar no país produtor de refrigerantes - desde Monção a Vila Real de Santo António ou desde Castelo Branco a Aveiro, o continente surge coberto na sua quase totalidade, em quinze distritos (de que se exceptuam Braga, Bragança e Vila Real), sendo o que apresenta mais elevado número de marcas o de Santarém (18), seguido de Lisboa (16), Coimbra (11) e Setúbal (10).

Um olhar sobre os rótulos permite uma viagem por imaginários diversos - se a maioria apresenta figuras de fruta, certo é que, na motivação para o sabor também entram designações regionais (“Nabantina”, para Tomar, ou “Valenciana”, para Valença), motivos locais (o mosteiro, para a marca “Batalha”; os barcos e a praia, para a “Ericeirense”; o trajo regional, para a “Eramil” monçanense; a muralha, para a “Mirtilina” mertolense; o templo, para a marca vianense “Santa Luzia”), reproduções da figura feminina ou paisagens dominadas pelo sol e pelo ar livre.

Relativamente às marcas setubalenses, constam reproduções da grandolense “Foca”, das quintajenses “Frix” e “Vida & Fortuna”, da sesimbrense “Gaivota”, das barreirenses “Pérola” e “Sumo Fruto” (ambas do mesmo produtor), das setubalenses “S. João” e “Tody” e das seixalenses “S. Pedro” e “SP” (ambas do mesmo produtor).

Conta Raul Reis que a sua colecção, mais vasta do que o repositório apresentado neste volume, começou “com uma viagem ao Oeste de Portugal e com um encontro casual com uma caixa cheia de garrafas de refrigerantes com rótulos pirogravados”, que, “encostada ao vidro de uma janela ampla, servia de elemento de decoração”. Daí veio a curiosidade pela análise do grafismo dos rótulos e o início da recolha, num processo de procura de exemplares, de contacto com trabalhadores e proprietários de algumas das empresas produtoras e de troca de experiências com outros colecionadores, surgindo o livro apenas como um “contributo para memória futura”.

Vasilhame é, assim, um passeio pela arte da impressão em vidro, pelas técnicas de publicidade e vida das marcas, pela história dos materiais, pela construção do gosto estético e dos sabores. As garrafas surgem vazias, sem tampa, mas repletas de memórias a encherem um livro...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1220, 2024-01-17, pg. 10

 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Rui Garcia: O "charroquês" e o Mestre Toine



O “charroque” existe em livro desde 2010, ano em que Rui Garcia publicou Charroque da Prrofundurra - O Livrro. No ano seguinte, saía Charroque da Prrofundurra... volta à purrsefíce (que inclui um “Dicionárrio Charroque”) e as histórias e as máximas de Mestre Toine, animador da loja e da ideia “charroque da prrofundurra”, prolongaram-se por títulos como Apá Sóce... deslárrgame da mão! (2014) e Frráses Sádinas - Erra prra sairr uma frase fofinha mas saiu esta mérrda (2018). Recentemente, as narrativas em que Mestre Toine e os seus amigos são intervenientes reapareceram antologiadas sob o título Charroque da Prrofundurra - As melhórres histórrias (edição da marca Charroque da Prrofundurra).

Vale a pena retomar a apresentação feita no primeiro título: “Este livre é o suprrasúme do garrgalharr com Setúbal e em Charroquês”. A obra surgia na sequência de páginas nas redes sociais, de criação da marca e de loja (primeiro, virtual e, depois, real). E o prefaciador Charroque explicava ainda a origem do blogue: “nasceu duma grrande necessidade de acrreditarr que a nossa cidade vai sairr da obscurridão das desgrráças”, pois “há 20-30 anes nã acontcia nada e ia tudo prra Lisboa currtirr. Agorra acontece e fica tude em casa. Perrtante tames aqui com um prrublema.”

Já percebe o leitor que o Charroque usa uma linguagem própria que o leva a escrever de acordo com regras gramaticais e ortográficas relacionadas com a oralidade e com as marcas da pronúncia mais forte dos “r” (mais associada à zona setubalense de Troino, sem que se conheça a origem desta variante) ou do final das palavras (anulando o som “u”, à semelhança de algumas regiões algarvias), uma e outra consequências de cruzamentos culturais e de migrações, por certo.

O título agora aparecido, reunindo “as melhórres histórrias”, apoia-se nos textos publicados nos três primeiros volumes: 21 crónicas do livro inaugural; 12, do segundo; 17 do título editado em 2014. Este aspecto deve interferir com a leitura, na medida em que algumas referências terão de considerar o tempo em que foram feitas, muito embora estas crónicas possam (e devam) ser lidas pelo sublinhado do tom humorístico (por vezes, satírico - “garrgalharr com Setúbal”, lembremos) e da afirmação de algumas marcas identitárias.

Povoadas por “Méstrre Toine”, pescador, dono do barco “Marrgarrida do Sáde” (“a melhorr embarcação quiá”), vitoriano (“clube mai linde”), apreciador de choco frito e de umas “mines”, as histórias, com cunho de fantástico, trazem também os amigos Russe, Xique, Manel e Ptinga, todos integrando a companha do “Marrgarrida do Sáde”, e as irmãs Charroquinha e Charroquinhita, as duas filhas “caninas”. Pela cidade onde circulam o Fiat 127 “vermelhinhe” do Charroco e o “mata-velhos” do primo Chico Zarroulhe, estas personagens, que também calcorreiam a urbe, alimentam os dizeres de crítica social e de costumes, de análise de situações de dificuldade ou de abuso do poder, de cenas do quotidiano, de olhar algo cáustico sobre novas modas, sempre à mistura com muito sentido de humor, pormenor que vai amaciando a indignação quanto a indecisões ou quanto a situações ou problemas de mais difícil resolução.

Há alguns momentos fortes de narração, com vocabulário bem oportuno, cheio de graça e captação do movimento, como no episódio em que o Charroco e a família vão a um espectáculo de ballet, porque a filha era praticante da arte, e a dança impressiona fortemente o observador: “saltinhe prráqui, pirruêta prráli, biquinhes de pés prrácolá, salte desemcarrpade prró outrre láde, voltinhas a dárr cum pau” e, depois, os aplausos (“a cada fim de cena o Charroque e família semprre a bater as palminhas qué prra parrcerr bem”).

Rui Garcia não deixou de lado o factor da esperança e da confiança na cidade, um pouco a apelar à lucidez e responsabilidade do “Mestre” - por isso, no momento em que é relatado um episódio num hotel da cidade, o leitor pode acompanhar o compromisso da personagem: “eu cá vou acrreditarr em mim, vou levarr tude à frrente, mas esta cidade vai serr munta grrande, vames terr órrgulhe nêla porrque é nossa e os nósses tão cá e os nósses filhes poderrão porr cá ficarr.”

Trata-se de um livro em que impera a boa disposição, a enriquecer um mundo feito de personagens que vêem a vida na perspectiva mais prática, cruzando a realidade, mostrada na sua forma mais simplista e imediata, que se lê com prazer.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1215, 2024-01-10, pg. 9.

 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Albérico Costa e os dias de Setúbal (3)



A década setubalense de 1970, no tempo decorrido até 24 de Abril de 1974, data que marca o fim da narrativa abordada por Albérico Costa em Setúbal sob o Estado Novo - A Resistência a Salazar e a Caetano - 1950-1974, oscilou entre um “crescendo de agitação social e política” de contestação e “mais repressão” por parte do regime.

O exercício da Resistência passou pelo MOD (Movimento de Oposição Democrática), criado em 1969, numa acção contínua de forte actividade reivindicativa no sector fabril e industrial até 1974, como passou por uma concertação dos movimentos oposicionistas, de maneira a não serem cometidos nas eleições os erros estratégicos das décadas anteriores - o envolvimento da Oposição nas eleições de 1973, depois dos trabalhos desenvolvidos no III Congresso da Oposição Democrática realizado em Aveiro, foi marcado por: acção intensa relativamente ao recenseamento; elaboração de requisitos para a escolha dos futuros candidatos a deputados; campanha muito participada em torno de temas como a libertação dos presos políticos, a guerra colonial, as liberdades públicas, a situação da mulher, o papel da juventude.

Simultaneamente, ocorria a “lavagem da imagem” levada a cabo pelo marcelismo - a Censura passou a designar-se como “Exame prévio”; o partido da União Nacional viu o seu nome alterado para Acção Nacional Popular; a PIDE recebeu o nome de Direcção-Geral de Segurança (DGS). No entanto, estas mudanças nas designações pouco mais seriam do que isso mesmo, pois a repressão recrudesceu, com buscas às residências e prisões, grandemente dominadas pelo Congresso de Aveiro, pretendendo a polícia política estabelecer uma relação de colagem da Oposição com o Partido Comunista Português.

Albérico Costa recorda-nos o papel fundamental que o Círculo Cultural de Setúbal desempenhou no apoio à Resistência, espaço que a PIDE designava como “um alfobre de oposicionistas ao regime vigente”, como regista a criação de comissões sindicais nas fábricas ao longo de 1973 “para tratar dos assuntos de carácter reivindicativo junto da entidade patronal” ou as várias greves que foram sucedendo, muitas delas designadas como “greve de cera”, em que “o pessoal fingia que trabalhava, mas não trabalhava”, como aconteceu, por exemplo, no início de 1974 com as operárias da secção de manipulação da INAPA, que “baixaram a produção individual de 100 resmas por dia para 30 e 40” quando souberam que havia a intenção de a empresa proceder a despedimentos.

Na cronologia desta época, vários momentos podem ser assinalados, como a constituição da SETENAVE e o encerramento de uma dezena de fábricas de conservas de peixe (1971), a queixa apresentada por 400 comerciantes do Mercado do Livramento contra a intenção de ser criado um supermercado em área próxima do Mercado e a criação no papel do Instituto Politécnico de Setúbal (1972, embora o IPS só venha a ser efectivamente criado em 1979), a realização da primeira intervenção cardíaca para aplicação de um “pacemaker” no Hospital de S. Bernardo e as chamadas de atenção para a poluição no Sado ocasionada por diversas unidades fabris (1973) e a realização da última reunião da Câmara de Setúbal em 24 de Abril de 1974, em que foram tratados assuntos como as carências dos bombeiros, loteamentos e concessão de alvarás de loteamentos e “o estado deplorável” em que se encontrava a morgue... 

Paralelamente a todos os eventos, pairava o espectro das prisões e da perseguição dos cidadãos, num ritmo de invasão da privacidade e das vidas, aspecto que constitui parte interessante nesta obra ao traçar as resenhas biográficas dos presos políticos e daqueles que eram referenciados nos depoimentos recolhidos. A quantidade de presos e de referenciados não nos surpreende, pois Albérico Costa, à medida que relata os acontecimentos, vai respigando as informações que povoam os relatórios policiais e, em variadíssimas situações, é dado a conhecer o meio por que chegavam as informações - os agentes ou informadores infiltrados foram um recurso permanente que manteve a polícia a par das intenções e dos planos da Oposição. As penas aplicadas (prisão, perda de funções políticas e de pensões de aposentação, multas e suspensão de direitos políticos) resultam de acções como: participação nas comissões promotoras do voto, ter como companhia indivíduos de que a polícia já suspeitava, intervenção desenvolvida em prol dos movimentos de contestação, ser leitor ou comprador do “Avante!”, exercício da emigração clandestina. Quanto aos “referenciados nos relatórios”, entre as faltas que lhes apontadas, constam: ser membro do Clube de Campismo de Setúbal ou do Círculo Cultural de Setúbal, ser visto com outros suspeitos, ter sido apoiante de candidatos anti-regime, ter fiscalizado a eleição para a Presidência da República, ser “um elemento desafecto” (adjectivo de amplo espectro, normalmente sem argumentação, mas fortemente acusador) ou promotor da “subversão da juventude” (como chegou a ser apontada a acção desenvolvida ao nível paroquial no trabalho com jovens).

Esta obra de Albérico Costa, se nos dá a conhecer o que foram em Setúbal os últimos 25 anos do regime ditatorial, sobretudo nas suas vertentes política e social, constitui também um bom repositório para o retrato da identidade setubalense e para nos ajudar a perceber a intensidade com que as manifestações políticas e sociais foram vividas neste território logo que a liberdade de expressão e de manifestação se instalou, ambas as vertentes cimentadas numa investigação rigorosa e plural, que devolve à história local de Setúbal o protagonismo da sua comunidade.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1210, 2023-12-20, pg. 10.


quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Albérico Costa e os dias de Setúbal (2)



O estudo de Albérico Costa sobre a década sadina de 1960, em Setúbal sob o Estado Novo - A Resistência a Salazar e a Caetano - 1950-1974, permite ao leitor o destaque de cinco aspectos - as manifestações ocorridas em 28 de Maio de 1962, o trabalho ideológico feito na clandestinidade, a intervenção social e política dos católicos, o condicionamento da oposição nas eleições para a Assembleia Nacional de Outubro de 1969 e a perseguição da polícia política.

Nenhum destes temas surge isolado do contexto nacional desta década, iniciada por acontecimentos tão fortes do ponto de vista simbólico e social como a fuga de presos políticos de Peniche (Janeiro de 1960), o assalto ao “Santa Maria” e o início da guerra colonial (em 1961) ou o assalto ao quartel de Beja (cerca de um terço dos implicados pertencia à área de intervenção da PIDE de Setúbal) e as manifestações estudantis (em 1962), e concluída com a queda que vitimaria Oliveira Salazar (Agosto de 1968), uma anunciada liberalização de Marcelo Caetano e um ambiente persecutório à Oposição nas eleições de 1969.

As palavras de ordem pintadas na Avenida Luísa Todi em 1 de Maio de 1962, exigindo a libertação dos presos políticos e contestando a política salazarista, abriram a porta para o que seria a manifestação de 28 do mesmo mês (data escolhida por coincidir com dia importante para a criação do Estado Novo), fortemente anunciada e vivida, em confrontos com as forças de segurança, com apedrejamento do edifício da Caixa Geral de Depósitos (instituição a que as pessoas recorriam para pôr “no prego” os escassos bens que tinham), sem que a polícia política tivesse descoberto os verdadeiros responsáveis, ainda que tenha responsabilizado e tentado incriminar os membros afectos ao Partido Comunista Português.

Se este partido esteve envolvido em todo o processo de Resistência ao Estado Novo, a verdade é que essa acção teve de ser desenvolvida quase totalmente na clandestinidade - Albérico Costa regista as instalações secretas na região de Setúbal (56 casas no distrito, entre 1941 e 1974, sendo 18 no concelho de Setúbal), destacando duas: a morada que serviu o casal de militantes comunistas Dinis Miranda e Aura Silva, na Praceta de Macau, até à prisão de ambos em 1967 e apreensão de documentos ligados ao partido, e a tipografia clandestina do jornal “Avante!” localizada na Rua Frei António das Chagas, desmantelada em 1967, quando foram presos Manuel Gonçalves e Joaquina Galante, ali residentes e responsáveis pela gráfica.

Sector também importante na crítica e contestação ao regime político foi o da Igreja setubalense (que viveu nesta década também os primeiros passos para a criação da diocese, sendo o cónego João Alves o vigário da Zona Pastoral de Setúbal), com a acção de vários membros do clero e de muitos leigos, numa perspectiva de compromisso com a liberdade, de contestação da guerra colonial, de apelo à participação nas eleições, de apoio social e de realização de sessões culturais e informativas. Capítulo indispensável para a história dos católicos de Setúbal, passa pelas histórias de muitos que estiveram na primeira linha da crítica ao poder (com prisões pela PIDE, como foram os casos dos padres Carlos Alves, de Alhos Vedros, e António Correia, de Palmela), pelo movimento do Secretariado Cristão de Acção Social, pela Fraternidade Operária das Praias do Sado, pelo jornal “Notícias de Setúbal” (periódico diocesano em que assumiu particular destaque a intervenção do médico Mário Moura), pela criação do espaço Culdex (que, depois, originaria a livraria Culsete).

A década de 1960 acaba no processo eleitoral para a Assembleia Nacional em 1969, com uma Oposição a quem foi tolerado concorrer, mas sob fortes condicionalismos e pressões que foram até à falsificação e manipulação do processo eleitoral por membros afectos à União Nacional visando a distorção dos resultados e, mais uma vez (como sucedera no final da década anterior), sem um entendimento sólido entre as várias frentes que constituíam os movimentos oposicionistas.

Aspecto importante realçado ao longo desta obra é o das prisões e da recolha de informações sobre opositores, chegando muitas das observações à indignação, por um lado, e ao ridículo, por outro, pelas inferências apresentadas, como se vê num registo sobre Mário Moura pelo chefe do posto de polícia: “É um indivíduo muito esperto e manhoso, ausenta-se frequentemente do País, levando uma roulotte atrelada ao seu carro, possivelmente para estabelecer contactos no estrangeiro com maior segurança.”

A cronologia da década informa sobre eventos importantes para a cidade em diversos planos: a inauguração do Museu de Setúbal (1961) e do Estádio do Bonfim (1962), o litígio entre a Soltróia e os proprietários em Tróia em torno da desocupação do terreno (1963), os problemas ambientais trazidos pela Socel (1964), a inauguração do Parque das Merendas da Comenda (1967) e a fundação do Círculo Cultural de Setúbal (1969), entre outros.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1205, 2023-12-13, pg. 10. 


sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Albérico Costa e os dias de Setúbal (1)

 


Com a obra Setúbal sob o Estado Novo - A Resistência a Salazar e a Caetano - 1950-1974, acabado de publicar (Estuário, 2023), Albérico Costa encerra o ciclo da cronologia setubalense que se propôs elaborar, constituída por diversos tomos: História e Cronologia de Setúbal - 1248-1926 (em 2011), Setúbal sob a Ditadura Militar - 1926-1933 (em 2014), Setúbal sob o Estado Novo - A Resistência a Salazar - 1933-1949 (em 2021) e Setúbal Cidade Vermelha - 1974-1975 (em 2017), volumes com a mesma chancela editora. Conjunto que integra momentos de cronologia e de ensaio, este projecto de Albérico Costa tem uma história longa, pelo menos desde que, em 1988, publicou um pequeno livro intitulado Cronologia Geral da História de Setúbal - 1249-1910 (editado pela Escola Superior de Educação de Setúbal). Sem qualquer dúvida, está o leitor perante uma obra indispensável para a história local sadina, de consulta obrigatória, que sugere, inclusivamente, múltiplas possibilidades de investigação, além de caucionar a importância da história local, em que o interveniente é, também, o cidadão comum.

Na nota introdutória ao volume agora publicado, o autor salienta dois aspectos que, em conjunto, justificam a sua motivação e valorizam a perspectiva da história setubalense: por um lado, no que respeita especificamente ao período em apreço (o tempo do Estado Novo), a necessidade de “fazer a História de uma cidade que nunca se conformou com o destino que lhe era imposto”; por outro, porque é importante notar que “o passado urbano do espaço setubalense não é apenas um espaço físico, mas também um espaço idiossincrático com características exclusivas”.

A obra, construída sobre fontes como estudos já realizados, imprensa local e nacional, testemunhos e entrevistas e aturada busca em arquivos (entre os quais, a Torre do Tombo), organiza-se em três planos - um conjunto de cinco capítulos, de cunho ensaístico, que relata, relaciona e interpreta os acontecimentos do período em apreço (os quase 25 anos que antecederam o 25 de Abril); um lote de sínteses biográficas, que compreende registos de 139 presos políticos setubalenses e de 165 nomes referenciados nos relatórios da PIDE de Setúbal; cronologia de acontecimentos em Setúbal no período entre 23 de Janeiro de 1950 e 24 de Abril de 1974.

O espaço dedicado à década de 1950, deixa transparecer um ambiente de crise económica e social em Setúbal (haja em vista a mono-indústria da área conserveira com baixos salários ou os períodos de defeso da pesca), por vezes minimizada com paliativos que mais visavam preservar a paz social do que resolver os problemas, com os vários quadrantes políticos da oposição distantes entre si, sem construírem conjuntamente uma alternativa. A forte repressão exercida na década anterior e o desaire em torno dos resultados do candidato Norton de Matos em 1949 terão conseguido uma quase neutralização da oposição, fortemente dividida. Mesmo a candidatura presidencial de Humberto Delgado em 1958 dificilmente congregou os vários movimentos da oposição - se a unidade em torno deste nome “esteve longe de ser linear” no plano nacional, também em Setúbal, só em 27 de Maio, a cerca de dez dias do acto eleitoral (8 de Junho) foi criada a Comissão Distrital de apoio a esta candidatura e só a uma semana das eleições (30 de Maio) foi celebrado o conhecido “Pacto de Cacilhas”, com a desistência da candidatura de Arlindo Vicente em favor da de Delgado. A situação vivida politicamente ao longo desta década leva Albérico Costa a considerar os anos de 1950 “como a década de todas as derrotas”.

Nos registos cronológicos para este tempo, não deixa de ser curioso que a primeira nota da década, de 23 de Janeiro de 1950, seja a de um apelo público saído na imprensa, convidando as senhoras que costumavam fazer compras em Lisboa a preferirem o comércio de Setúbal: “Se fizessem as suas compras na cidade, ajudariam os comerciantes setubalenses que investiram nas lojas e na mercadoria, e contribuíam para o desenvolvimento da sua cidade e ainda poupavam dinheiro.” Assim se misturava o apelo ao consumo com o benefício local como contributo para ultrapassar a crise. Por outro lado, a cronologia da década fecha com a notícia, de 3 de Novembro de 1959, sobre a instalação da indústria da celulose na cidade de Setúbal, “unanimemente aprovada pela vereação, considerando-se que a referida indústria não ia causar problemas ambientais.” A esperança surgia, a anteceder os anos de 1960, alicerçada na indústria...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1202, 2023-12-07, pg. 7.

 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Urbano Tavares Rodrigues: 100 anos


Urbano Tavares Rodrigues nasceu há 100 anos e faleceu há 10 anos. O último encontro que  tive com ele foi justamente na Feira do Livro de 2013, em 2 de Junho. Faleceria no Agosto seguinte. Mantenho forte lembrança e saudade de Urbano Tavares Rodrigues, de quem fui aluno e que me concedeu o prazer de sermos amigos. Em jeito de homenagem, republico o texto que li na livraria Culsete, num dia de Janeiro de 2003, quando a livraria setubalense quis homenagear o escritor.

"Não sei de quando vem o meu contacto com Urbano Tavares Rodrigues, mas sei que vem de muito longe, desde quando ainda nem pensava que viria a licenciar-me em Letras, muito menos imaginando que o iria ter como professor. Também não sei qual foi o primeiro livro que dele li – talvez A Noite Roxa, que me lembro de me ter sido emprestado por um amigo e que, mais tarde, adquiri para nele reler uma interessantíssima narrativa como “Escombros”, quase retrato de uma geração, e para nele fazer uns sublinhados que me tinham impressionado nessa leitura sobre a vida e a arte... Talvez o primeiro livro que li de Urbano não tenha sido este, mas tenha sido uma recolha literária sobre Estremadura, nessa quase indispensável colecção que é a “Antologia da Terra Portuguesa”, testemunho da indispensabilidade que a literatura se torna para dizer a terra, para dizer o homem, antologia, aliás, onde creio que tive um dos primeiros contactos com Sebastião da Gama, que topou e mostrou a alma arrábida em toda a sua maravilha... Ou talvez a minha primeira leitura de Urbano Tavares Rodrigues tenha sido outra. Recordo, no entanto, estas duas como as mais antigas que dele conheço.

Em 1979, entrei para uma licenciatura na Faculdade de Letras, ingresso já tardio porque me era necessário trabalhar, mas atempado porque pôde ser no curso que queria e na Faculdade que me ficava mais à mão, em horário cumprido depois das 17 horas. Lembro-me de várias pessoas que tive como professores e pelas quais senti uma admiração grande desde logo, que, em alguns casos, virou amizade, já em tempos posteriores ao curso (em jeito de aparte ou de excurso, vou apenas referir o António Vilhena, hoje professor em Setúbal [entretanto aposentado], poço de cultura e de disponibilidade, que conheci como professor de Latim na Faculdade e cujas aulas eram autênticos tratados – ainda que sem o peso que os caracteriza – sobre cultura portuguesa, com especial incidência na literatura, e sobre as marcas clássicas que a enformam).

Mas voltemos a Urbano Tavares Rodrigues, que tive como professor de Literatura Francesa. Uma das coisas que me fascinou na minha licenciatura foi o facto de ter conhecido escritores enquanto professores, podendo assim usufruir da sua experiência enquanto artistas e criadores e do seu estatuto enquanto professores, intelectuais e cidadãos intervenientes, que eram vários. O professor Urbano Tavares Rodrigues não fugiu a este quadro. E, se foi apaixonante a forma como nos fez ouvir a solidariedade e o social presentes em Germinal, se foi suave a maneira como nos fez entrar nos domínios do erotismo de La Motocyclette, se foi a tocar o fascínio que nos falou de uma obra como Le Ravissement de Lol V. Stein, certo é que todos estes predicados se construíram como metáforas dele próprio, isto é, a delicadeza do discurso, a singeleza das práticas, a simpatia da disponibilidade, o aprofundar permanente no cruzamento da literatura estudada com as múltiplas e incansáveis referências advindas da sua experiência de escritor, o sorriso disponível numa atitude de quem parecia tudo oferecer fazendo passar o universo literário numa relação constante de tu-cá-tu-lá para um degrau de contínua admiração pela arte... enfim, tudo isto nos foi transmitindo, tudo isto foi partilhando, porque o todo das suas aulas se nos afigurava também como uma partilha de reflexões e de angústias da estética e do sentir.

A permanente abertura do professor Urbano Tavares Rodrigues nunca lhe deixou escorregar um “não”. Recordo que, mesmo perante trabalhos ou observações de qualidade menos desejada, a sua atitude era de tentar dar a volta de forma subtil, não negando a pouca pertinência do resultado (ou, muitas vezes, a sua impertinência) e incluindo no seu comentário as pistas de orientação que o estudante deveria aproveitar ou explorar.

Habituei-me, assim, a olhar o professor Urbano Tavares Rodrigues como uma personagem dedicada, disponível e atenta (mesmo quando parecia que dormitava perante algumas apresentações de trabalhos, fazendo, no final, o seu comentário acertado e límpido), como uma personagem participante (frequentemente trocando opinião connosco sobre posições públicas a propósito de questões culturais e de ensino), como alguém sempre pronto a incentivar os voos de quem quisesse ir mais longe ou de quem precisasse da sua ajuda. Recordo que, no último ano da licenciatura, estudei a autobiografia em José Gomes Ferreira, a propósito do seu livro A Memória das Palavras, para a cadeira de Teoria da Literatura, leccionada por Lucília Gonçalves Pires. Ser-me-ia útil falar com Gomes Ferreira, mas ele estava a passar um mau momento de saúde, pela sua debilidade de 80 anos. Foi, aliás, o professor Urbano que me pôs ao corrente do estado de saúde de Gomes Ferreira, mas, logo que soube das suas melhoras temporárias, falou-lhe e pôs-nos em contacto, assim me tendo sido proporcionado um encontro de cerca de três horas com esse “poeta militante”, na sua casa da rua Rio de Janeiro, em que quase me limitei a ouvi-lo e em que grande parte da sua conversa não foi sobre poesia, mas foi poesia. Passadas cerca de duas semanas, o professor Urbano encontrou-me na Faculdade, perguntou-me pelo andamento do trabalho, tendo-lhe eu dito que o mesmo já tinha sido apresentado e avaliado. Quis vê-lo, porque, argumentou, “acho que tenho alguma responsabilidade nesse trabalho”. Dei-lhe uma cópia e, volvidos uns dias, propôs-me que o texto fosse publicado no “Suplemento Cultural” do Diário. Respondi que sim, meio sem jeito. Soube depois que era sua prática corrente incentivar os alunos à publicação de trabalhos e mesmo à edição.

Concluída a licenciatura, abandonei também o trabalho que tinha e passei para o ensino. Em 1985, estando em Beja – onde confesso que aprendi a gostar do Alentejo –, ao rebuscar numas prateleiras já esquecidas e poeirentas de uma livraria da cidade, encontrei um livro sobre Urbano Tavares Rodrigues, intitulado Escritor da Fraternidade, da autoria de Pires Campaniço. Já não contactava o professor havia cerca de dois anos, depois que saíra da Faculdade. Comprei o exemplar por uma bagatela e li as suas 130 páginas – fortemente ideologizadas – nesse mesmo dia, mais no sentido de ter um ponto de contacto com alguém que me impressionara fortemente. O livro lembrou-me o professor, sobretudo, e pareceu-me que o título escolhido, ao eleger a fraternidade para caracterizar o escritor, tinha acertado no ponto. Fraternidade, como quem diz solidariedade, como quem afirma disponibilidade... são lógicas de atributos que resultam bem se aplicados a Urbano Tavares Rodrigues.

Fui, entretanto, descobrindo também a sua faceta de ensaísta na área da literatura e de escritor de viagens, sempre encostando as obras abordadas a referentes culturais importantes ou as viagens a itinerários não menos sentidos (talvez sentimentais), como descobri num relato seu sobre Santiago de Compostela, publicado em 1949, verdadeira peregrinação no espaço e no eu, na busca de outras artes e do conhecimento do mundo.

Encontrámo-nos depois em diversas situações mais ligadas à literatura (por exemplo, na sua defesa da tese de doutoramento sobre Teixeira-Gomes, ou na apresentação de Violeta e a Noite aqui neste mesmo espaço da Culsete), sempre relembrando tempos da minha vida de estudante. Mas, quando andei ocupado com um mestrado sobre a revista portuguesa dos anos 50, Távola Redonda, em que Urbano Tavares Rodrigues colaborou com uma tradução a partir do italiano – coisa que não é novidade, depois de se ter visto a tradução por si feita do Decameron, de Bocaccio, que também terá sido um dos meus contactos antigos com ele –, voltei a poder certificar a disponibilidade, a atenção, o saber, o testemunho, a delicadeza... Na noite de um dia 22 de Abril, passantes que eram já as dez da noite, Urbano Tavares Rodrigues recebeu-me em casa, ali na Tomás Ribeiro, para uma conversa sobre a revista, que acabou por ser também sobre a literatura portuguesa dos anos 50, que acabou por ser também sobre a sua obra, que acabou por ser o prolongamento de um fio de disponibilidade sempre demonstrada.

A mais recente vez em que nos encontrámos foi há bem pouco tempo, no mês passado, na apresentação do último livro de poesia de Teresa Rita Lopes. E o que nos uniu? Para lá de tudo, o professor Urbano Tavares Rodrigues falou-me, de imediato, do tempo da Faculdade e da lembrança das suas aulas. Ao fim e ao cabo, um tempo marcante, de aprendizagem e também de conhecimento, lados ambos de uma mesma estrada. Mantenho o gosto por Urbano Tavares Rodrigues enquanto escritor múltiplo e multifacetado, mas quero preservar também esta recordação feliz de um Urbano Tavares Rodrigues professor e mestre, dedicado, sabedor, atento, delicado e prestável, fazendo da literatura uma forma de criação e do ensino uma via de reflexão... ou talvez, e sobretudo, conjugando os dois percursos no rumo da disponibilidade para uma vivência de transformar a arte em cidadania. Não resisto sem ler quatro linhas de um seu escrito de cunho autobiográfico, publicado sob o título de “Apontamentos e Confissões”, no livro de ensaios sobre O Tema da Morte: “Já na minha adolescência desejava ser escritor, embora outras profissões me seduzissem, tais a de médico e a de professor: no fundo, aquelas que me permitissem ancorar e sentir-me útil.” É uma justificação simples, claro. Mas testemunho que, na sua simplicidade, a senti. E vivo bem com essa lembrança e exemplo."


quarta-feira, 29 de novembro de 2023

D. Manuel Martins: mensagens para todos os tempos

 


A imprensa foi um dos canais por onde passou a mensagem de D. Manuel Martins (1927-2017), o primeiro bispo de Setúbal, em artigos de opinião curtos, de leitura acessível, abordando causas pertinentes, relacionadas com a forma de ser cristão e de ser cidadão, tal como aconteceu em Setúbal com a sua colaboração nos jornais A Seara (da Fábrica da Igreja de S. Julião) e Notícias de Setúbal (órgão diocesano). Várias dessas crónicas foram reunidas em livro, tendo dado origem a títulos como Pregões de Esperança (em 1997, com nova edição em 2014) e Posso entrar? (2012), ambos recolhendo colaboração nos jornais sadinos, e Nascemos Livres (2018), crónicas vindas a lume no Jornal de Matosinhos.

A palavra do primeiro prelado sadino voltou a ecoar, através de um título como Crescendo com cheiro a Primavera (Paulinas Editora, 2023), conjunto de 52 crónicas originalmente publicadas no mensário Crescendo, jornal paroquial de Santa Cruz do Bispo, entre Fevereiro de 2013 e Setembro de 2017 (mês em que faleceu), num trabalho de recolha devido ao setubalense Eugénio Fonseca (que já em 2020 publicara a obra Testemunho de duas vidas compartilhadas, memória do trabalho e da amizade desenvolvidos com D. Manuel Martins). Estamos perante um livro que ganha também sentido quando D. Américo Aguiar chega à diocese de Setúbal e assume D. Manuel Martins, seu conterrâneo, como referência.

A crónica de Fevereiro de 2013, a primeira, reflecte sobre o sucessor de Bento XVI, que nesse mês apresentara a resignação, e, se bem que elogioso para o seu desempenho, D. Manuel Martins acalentava uma esperança: “que o novo Papa, com todas as experiências acumuladas dos antecessores, tenha, pelo menos, a força de arrumar a sua Casa. Todos vêem que isso se impõe.” No mês seguinte, o regozijo com a escolha saída dos cardeais era notório: “Exultemos de alegria e demos graças ao nosso Deus, porque deu à sua Igreja um novo Papa”. Enquanto leitores, desconfiamos mesmo de que D. Manuel Martins sorria de satisfação - referindo-se a Francisco, aponta várias características que hoje sabemos terem marcado o seu papado: veio de um “continente jovem”, “aparece ao mundo com simplicidade”, “assume o nome de Francisco, do Irmão Universal”, trocou hábitos palacianos por uma vida comum e “conhece o mundo”. Para D. Manuel Martins, era clara a mudança: “Ninguém falava dele como sucessor de Bento XVI, enquanto que dois ou três andavam na boca dos fabricadores de prognósticos. Foi mesmo o Espírito Santo que o tomou pelas mãos e o deu à Igreja.”

Por estas reflexões de D. Manuel passa o valor das palavras e dos gestos de humanidade (o sentido de expressões como “obrigado” ou “desculpa”, por exemplo), circula a ideia de família como referência de proximidade e de aprendizagem (que se pode estender até à ideia de paróquia), é valorizado o património e a paisagem, vinga a ideia de modernidade da Igreja (com as referências a D. António Ferreira Gomes, seu mestre, ao Concílio Vaticano II ou a Paulo VI), são interpretados momentos do calendário litúrgico (os tempos da Quaresma e do Natal, as celebrações dos Fiéis Defuntos ou do Corpo de Deus, as festividades religiosas), é olhado o mundo nos seus cataclismos (atentados na Turquia, a acção do “Brexit”, o terramoto no Nepal), surge uma perspectiva sobre a actualidade em Portugal (reflexões sobre os incêndios ou sobre os interesses daqueles que “se nos propõem governar” nas autárquicas). Se, por um lado, é sempre acalentada uma esperança, há também receios - em Julho de 2017, escrevia: “A vida não vai bem em Portugal. Estabeleceu-se um clima de desordem e de medo (...), preocupa-nos a sorte do país.”

Na sua relação de afecto com Setúbal, D. Manuel Martins relata dois episódios que constituíram aprendizagens para si mesmo: o primeiro, o encontro com o sem-abrigo à entrada da catedral sadina antes de uma celebração natalícia; o segundo, a recusa das irmãs da congregação de Teresa de Calcutá em terem televisão, sofá e frigorífico em casa. Ambos os momentos deixaram o bispo emocionado pelo que simbolizaram na necessidade de despojamento e de autenticidade.

No texto introdutório, João Matias Azevedo, pároco e responsável pelo periódico, testemunha a generosidade do colaborador, um “luzeiro no tempo” que ajudou a “cultivar a autoestima” do próprio jornal. A diversidade dos temas tratados é grande, sempre na linguagem simples e comprometedora que caracterizou D. Manuel, prevalecendo como destinatário das suas mensagens um “nós”, em que ele próprio se integrava.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1197, 2023-11-29, pg. 10