quarta-feira, 19 de junho de 2024

Visitar Setúbal pela fotografia de Antero Frederico de Seabra (1)

 


Em 1927, António Ferro visitou os Estados Unidos e, três anos depois, deixou relato da viagem num livro cujo título — Novo Mundo Mundo Novo (Portugal-Brasil Sociedade Editora, 1930) — era um deslumbrado olhar sobre essa ideia de novidade avassaladora que parecia definir a construção do futuro a partir da América. No momento em que relembra a visita ao Grande Lago Salgado, no estado do Utah, regista: “O ‘Overland Limited’ vai passar o Great Salt Lake. É uma linha férrea construída milagrosamente, sobre um lago imenso, um lago que sonha com o mar. Uma travessia de mais de duas horas. O ‘Observation Car’ tem uma enchente. Todos os passageiros querem ver o espectáculo único. Os japoneses, na plataforma da carruagem, apontam ‘kodaks’, como pistolas, para todos os lados.” A marca Kodak tinha cerca de 40 anos (fora fundada em 1888) e, por ter criado modelos de máquina fotográfica facilmente transportáveis, rapidamente o nome da marca se generalizou como designação do aparelho fotográfico.

Não foi desse tempo Antero Frederico de Seabra (1821-1883), que faleceu cinco anos antes do nascimento da Kodak. Na sua época, fazer fotografias não era tão acessível nem tão fácil como viria a ser naquela em que António Ferro circulou na América e se deixou impressionar pelos japoneses que apontavam “kodaks” para tudo quanto parecesse memorável. Arte entusiasmante por poder fixar o momento, documentando-o sem rugas para a posteridade, e por poder divulgar pelo mundo o objecto e o tempo olhados pelo artista, a fotografia carecia de equipamento complexo e volumoso e de um processo nada simples de fixação da imagem no papel.

Pela segunda metade do século XIX, a técnica usada para impressão fotográfica era a da albumina, que criava uma película impeditiva da absorção do nitrato de prata pelo papel, conservando a imagem mais contrastante e com relativo nível de brilho. Foi este o método seguido por Antero Frederico de Seabra, o que permitiu que as fotografias que fez na década de 1860 tivessem chegado até hoje com um considerável nível de conservação e de legibilidade.

A paixão deste pombalense pela fotografia começou cedo, tendo frequentado as aulas de Filosofia Química na Universidade de Coimbra em 1845/46, que lhe proporcionaram desenvolver a técnica e a prática fotográfica, granjeadoras da participação em exposições e de algumas distinções. Monumentos e paisagens constituíram os motivos essenciais que impressionaram a sua lente, tendo mesmo obtido licença régia para proceder a um levantamento fotográfico nacional, conforme se pode ver nos registos arquivados no Centro Português de Fotografia, que nos mostram aspectos vários de localidades como Arcos de Valdevez, Barcelos, Braga, Coimbra, Guimarães, Leça do Balio, Lisboa, Lousã, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Porto, Viana do Castelo, Vila do Conde e Vila Nova de Gaia.

Entre 1864 e 1867, Antero Frederico de Seabra esteve em Setúbal em funções militares, aproveitando a oportunidade para fotografar a cidade e arredores. O objectivo não era apenas o do registo para sua recordação; passava também pela construção de um Álbum Fotográfico de Setúbal, com a previsão inicial de ser constituído por três séries de dez quadros cada, visando o propósito de ser vendido a assinantes. O trabalho não se terá completado, sendo conhecidas apenas 17 reproduções, iniciadas em 1867, interrupção que se terá devido à transferência do militar-fotógrafo para Elvas e a motivos de saúde.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1323, 2024-06-19, pg. 9.


sexta-feira, 14 de junho de 2024

LASA publica álbum com as 17 mais antigas fotografias de Setúbal

 


Um álbum com 17 fotografias captadas em Setúbal em 1867 vai ser apresentado pela LASA - Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão hoje, 14 de Junho, pelas 21h00, na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal.

As fotografias, da autoria de Antero Frederico Ferreira de Seabra da Mota e Silva (1821-1883), nascido em Pombal, militar no Batalhão de Caçadores 1 em Setúbal, foram conservadas num álbum que integra o acervo da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal desde, pelo menos, 1930, conforme registo de Arronches Junqueiro, bibliotecário nessa época.

O mais vasto conjunto destas fotografias de que havia conhecimento, propriedade particular, compreende 12 reproduções e, dada a sua raridade e importância para a história da fotografia em Portugal, foi classificado “bem de interesse nacional” pelo Decreto 2/2015, de 14 de Janeiro, depois de ter sido encontrado num sótão em Lisboa, num edifício que iria ser sujeito a obras. Cinco anos depois, em investigação na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, o historiador local Diogo Ferreira confrontou-se com um exemplar do conjunto das fotografias de Antero de Seabra, com maior quantidade de fotografias do que as que estão classificadas - 17, em vez das 12 conhecidas. Tal “descoberta” levou ao estudo destas peças e intenção da LASA na publicação da obra, visando a divulgação do património cultural.

Preocupação do fotógrafo, já habituado a retratar outros pontos do país, foi a de registar espaços de Setúbal relacionados com a paisagem e com o património, tendo legado impressionante testemunho do que eram a cidade e seus arredores na segunda metade do século XIX, sendo possibilitado ver ao observador os paços do concelho, diversas igrejas, o gasómetro, vários panoramas da cidade e dos arrabaldes, numa preferência do fotógrafo pela fotografia panorâmica, documentos que nos permitem hoje olhar a configuração e a evolução da cidade.

A edição da LASA reproduz em fac-símile o álbum que é pertença da Biblioteca, em trabalho de um exemplar cuidado no pormenor. A anteceder as reproduções fotográficas, Francisco Borba, Diogo Ferreira e António Cunha Bento assinam textos sobre a importância destes documentos para a história da fotografia, sobre o contexto histórico e social de Setúbal na década de 1860 e sobre o percurso biográfico e artístico de Antero de Seabra.

O “Álbum Fotográfico”, de Antero de Seabra, em edição da LASA, permite, assim, uma retrospectiva sobre o que foi a cidade em 1867.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Camões e Vasco de Quevedo num encontro imaginado por Jukovski

 


Em 1837, o austríaco Friedrich Halm (1806-1871) fazia estrear em Viena a peça Camões, que, dois anos depois, o poeta russo Vassili Jukovski (1787-1859) traduziria para a sua língua, num trabalho que, segundo Irina Khoklova, mantém, ainda hoje, “o seu encanto estético”, tendo em conta “as imagens artísticas, o estilo e o conteúdo ideológico” que o tradutor conseguiu incutir à obra, trabalho recentemente traduzido para português (E-primatur, 2024), que está na origem da ópera O Último Canto - Camões e o Destino, de César Viana, estreada há dias. Camões era já conhecido pela cultura russa, tendo havido em 1788 uma tradução de Os Lusíadas por Alexander Dmitriev, feita a partir de uma versão francesa em prosa devida a Jean-François de la Harpe, datada de 1776.

A história trazida por Jukovski desenrola-se em torno de quatro personagens: Camões, José de Quevedo (que, em abono da verdade, se deveria chamar Francisco de Quevedo), Vasco Mouzinho de Quevedo (filho do anterior) e um guarda (entrando este último apenas na curta cena inicial). As quatro cenas decorrem “num quarto superior apertado, numa grande enfermaria de um hospital de Lisboa”, em 1579, pretendendo retratar os últimos dias do poeta, isolado no esquecimento — quando José de Quevedo é conduzido ao aposento de Camões, conversa com o guarda que o leva, inquirindo se ele tem ideia de quem é o doente e ouvindo como resposta: “Qual ideia, qual quê! Desde que tenha um número, não nos importa o seu nome e os boatos.” O guarda não se conteve e acrescentou que o paciente fora para um quarto normalmente não requerido — “Até agora, aqui ficavam os malucos: mas tanto quis ele ficar sozinho, e na altura este quarto livre estava, que eu para aqui o mudei de uma assentada.” E Quevedo reforçou a decisão, ficando o leitor a par das ideias do visitante: “Se por mim fosse, trancava estes malditos poetas num manicómio.”

José de Quevedo mantém longa conversa com Camões durante a segunda cena, num discurso em que se cruzam as memórias de mútuo conhecimento antigo e o motivo da visita. No decorrer do encontro, Quevedo encarrega-se de mostrar ao poeta a diferença social que os separa: ele, “corpulento”, sinal de bem-estar social e económico; Camões, “magro como um cadáver cavo”, consequência de ser poeta... O diálogo é muito mais reflexivo da parte do escritor, considerando sobre o destino, os estudos, a procura do saber, o conhecer mundo, os amores, o sofrimento. Em passo avançado, Quevedo, confiante no seu poder de abastado, anuncia ao que vem: convidá-lo a ir para sua casa para que sirva de exemplo ao filho, Vasco, jovem que segue a tentação da poesia e recusa o caminho do pai, que assim verá a miséria a que um poeta pode chegar...

Camões recusa mudar, mas fica disponível para um encontro com o jovem a fim de o prevenir das agruras da vida. Na terceira cena, um monólogo do poeta faz uma reflexão sobre o esforço para salvar o poema e sobre a solidão do presente, num mundo nem sempre concertado, mas num itinerário em que “o ganho de um sonhador é o seu sonho”.

A visita de Vasco ocorre na quarta cena, sendo a primeira observação de Camões relacionada com o curto tempo que lhe resta até que a morte venha. “Estás a morrer?... Não, não se pode dar o caso de que Camões morra!”, afirma o visitante, que ouve do poeta já firmado conselhos relativos aos perigos que possam decorrer da procura da fama. O diálogo entre o jovem e o mestre prossegue na descoberta do sentimento poético, da construção de um caminho de felicidade, na afirmação das convicções literárias e das intenções de Vasco, a quem Camões não consegue dissuadir, confessando: “Seus olhos resplandecem, as faces enrubescem; e fala-me como um profeta; e todo o meu interior treme das palavras dele; não terá sido o próprio Deus que enviou esta criança até mim?” A última fala cabe ao velho poeta, que, antes de finar, recomenda: “Meu filho, meu filho, sê firme, com a alma sempre viva! A poesia é Deus nos sonhos bem-aventurados desta Terra.”

Inverteram-se assim as intenções do pai interesseiro para a história acabar na glorificação do poeta como ser profético, como figura que nasce para a arte e para a poesia, num final em que Camões e Vasco de Quevedo encontram afinidades e ficam irmanados, sendo possível ao mais velho morrer porque a eternidade da poesia estava garantida...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1318, 2024-06-12, pg. 10.

 

segunda-feira, 10 de junho de 2024

“Os Lusíadas”: Que fazer com este livro?

 


Em 1980, José Saramago publicou a peça Que farei com este livro?, obra em dois actos, logo levada à cena nesse mesmo ano na Academia Almadense pela mão de Joaquim Benite. Assinalava-se o quarto centenário da morte de Camões, que podia ser o motivo para homenagear o vate renascentista de uma maneira fácil e apologética, mas Saramago criou uma história mostrando o processo difícil de publicação de algumas obras em consequência de pressões vindas das mais diversas proveniências e pelas mais variadas razões.

Nesta peça, em que entram vinte e cinco personagens (ainda que algumas tenham um papel de importância mínima), sobressaem, além do próprio poeta, as figuras de Damião de Góis e Diogo Couto (amigos do poeta) e Bartolomeu Ferreira (censor de Os Lusíadas), todos representando posições e tensões diversas.

Dois anos, decorridos entre 1570 e 1572, é o tempo da acção, balizada por acontecimentos como a chegada de Camões da Índia e a publicação da sua narrativa épica, Os Lusíadas, intervalo dominado pelo esforço do poeta para que a sua obra seja publicada.

Ao dar nota das pressões exercidas, algumas delas ocultas, no sentido do êxito ou do insucesso da edição, Saramago poderá ter querido ir mais longe (haja em vista que o regime democrático português tinha apenas 6 anos), na denúncia do controlo ideológico feito sobre os artistas, muitas vezes travestido de humilhação. Miguel Real e Filomena Oliveira, em As 7 Vidas de José Saramago (2022), sublinham este aspecto, referindo ser possível ver em Que farei com este livro? o reflexo de situações vividas por Saramago — recusa de publicação da obra por editoras, autor estigmatizado pelo regime vigente, o desprezo das elites.

O facto de a história começar em tempo de peste, quando a corte estava em Almeirim, pode servir como metáfora para uma outra peste duradoura e pressentida, agindo sobre o campo das ideias — paulatinamente, ela vai actuando: numa conversa entre fidalgos, Diogo do Couto questiona “Senhores, quem, de entre vós, fidalgos, religiosos, despachadores, moços de câmara e mais quem esteja, conhece Luís de Camões?” e a resposta é dada pela didascália que indica “silêncio geral”; na corte, quando vê o rei a aproximar-se, Camões dirige-se-lhe dizendo que naquele livro tinha escrito “os feitos dos vossos antepassados e as navegações dos Portugueses, do povo de que sois senhor” e, perante a indiferença da real figura, o secretário ordena-lhe que se afaste, pois está a importunar Sua Alteza; na conversa com o neto de Vasco da Gama, a quem recorreu para pedir auxílio na publicação, a humilhação é evidenciada ao ouvir que “a casa da Vidigueira não precisa de quem lhe cante as glórias, ou pagará a encomenda que fizer para lhas cantarem”; finalmente, a intervenção do censor, que exige alterações aqui e ali, sem as quais não seria dado parecer favorável.

Espaço de liberdade é o encontro de Camões com Damião de Góis (n. 1502), em que também esteve presente Diogo do Couto (n. 1542), momento em que se encontram três gerações, com a necessidade de serem fechadas a janela e a porta do aposento — “porque a este sol de Fevereiro sobeja-lhe em luz o que lhe falta em calor” e “por causa do que a Portugal também sobeja e do que a Portugal falta”, justifica o mais velho, que, depois, explica: “Falta a Portugal espírito livre, sobeja espírito derrubado. Falta a Portugal alegria, sobejam lágrimas. Falta a Portugal tolerância, sobeja prepotência.” Damião de Góis virá a ser um intercessor pela publicação da obra, mas, por outras razões que a época explica, acabará preso em 1571, com a indignação de Camões — que questionou o censor sobre as causas desta prisão pelo Santo Ofício —, percebendo-se que a liberdade era mesmo restrita e condicionada e que a justiça não era óbvia.

O título da obra ganha eco no final da representação, quando o próprio Camões, acabando de receber o primeiro exemplar impresso, se questiona: “Que farei com este livro? (Pausa. Abre o livro, estende ligeiramente os braços, olha em frente.) Que fareis com este livro? (Pausa)”. A mudança de pessoa gramatical, da primeira do singular para a segunda do plural, acaba por desafiar os leitores, os poderes e as gerações seguintes: de que significado se virá a revestir esta obra ou que significados lhe virão a ser atribuídos? Ou, melhor, de que aproveitamentos padecerá esta obra?

Uma questão importante, sem dúvida, para ser pensada (haja em vista as utilizações nem sempre por razões artísticas que da obra e do autor têm sido feitas), sobretudo quando se assinalam, ainda que convencionalmente, os 500 anos sobre o nascimento de Luís Vaz de Camões.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1316, 2024-06-07, pg. 2


sábado, 1 de junho de 2024

Poesia para homenagear Sebastião da Gama (2)

 


O desafio lançado aos poetas da Casa da Poesia de Setúbal para colaborarem neste Entre a Poesia e a Vida - No Centenário de Sebastião da Gama passou por uma recomendação, ainda que não de cumprimento obrigatório: a inclusão de um verso do homenageado nos poemas apresentados. Assim, na quase totalidade dos poemas, há um verso emprestado pelos poemas de Sebastião da Gama, que, propositadamente, não surge assinalado de forma diferente do restante texto, para que se integre e continue a gerar poesia.

Todos os autores tiveram, assim, de se cruzar com Sebastião da Gama e de dele trazerem figuras, temas, recortes ou jogos de palavras — a necessidade da contemplação (que pode ser de um momento), o silêncio que ajuda a descobrir, o poeta como perscrutador, a presença do mar, a força da Natureza, o sonho, a espiritualidade da Arrábida, a força dos sentidos, a alegria do céu e do sol, o amor, o efeito do tempo, a procura da poesia, a condição humana...

Do leque de participantes fazem parte: António Canteiro (poeta convidado, que já foi vencedor dos Prémios Sebastião da Gama, em 2013, e Bocage, em 2018), com um poema em torno da atitude do poeta como sujeito de espera; Alexandrina Pereira e o papel do poeta (“Eles chegaram / vestidos de letras, / nas mãos um livro... / No olhar um sonho... / Os Poetas!”); Ana Netto e o equilíbrio com o mundo (“Se eu tivesse capacidade e inteligência / ... / iria partilhá-la com profunda clemência / ... / onde a onda de fazer melhor é consciência”); António Calado e a força e diversidade da Natureza (“No meu pouso já uma brisa fresca me invade, / mas fico mais um pouco meditando: // Como é bela e tranquila a natureza que contemplo!”); António Jacob Lopes, olhando o amor entre o desejo e a decepção (“Assim, quando concluímos, com dor, / que o nosso amor foi história sem beleza, / temos a certeza... não foi amor!”); Arnaldo Ruaz, reflectindo, por vezes com ironia, sobre a humana condição (“O homem vive a sonhar / em sonhos não se contém / e sonha que há de voar / só com a guita que tem...”); Bento Passinhas e a origem azeitonense do poeta (“Quando em Azeitão nasceu / o mundo em nada mudou / mas a terra enriqueceu / com o filho que abraçou.”); Eduarda Gonçalves e a energia da palavra (“Ficam palavras por aí / como clarins em festa. / ... / Elas hão-de apagar todos os silêncios.”); Isabel Melo e a fragilidade humana (“Reparo num ápice então / que o meu barro não é normal, / pois se Ele simplesmente quiser / não sou eu apenas eu, / mas o barro de que a vida me fizer.”), tema que é também de Linda Neto (“A falhar, tanto rico ou pobre / e sempre no meio dos demais, / que por mais que se desdobre / somos simples corpos humanos... banais.”); José-António Chocolate e o romance captado através da janela (“A janela aberta e a luz da lua / numa visita secreta e enamorada, / passos escondidos nas esquinas da rua, / o beijo roubado que pousa na vidraça.”); José Raposo e a mística do pôr-do-sol (“Todos os dias partes / sem dizer adeus / em silêncio te afastas / sem te despedires / ... / A tarde triste chora / pedindo à manhã / que te traga de volta”); Maria Celeste Gomes e expressão do eu (“Hoje o meu céu está cheio de nuvens / e o meu mar repleto de ondas. / Preciso de ficar a observá-las! / Já não me metem medo. / Já lhes consigo ver a beleza.”); Maria Helena Barata e a paixão pela paz da Arrábida (“Subi ao cimo da Serra / e não encontrei / queixumes, lágrimas, desgraças.”); Maurícia Teles e a evocação da serenidade estremocense do poeta (“Mora no largo soalheiro / o par ideal, anagrama de amor, / sobre a muralha o olhar pinta de verde / Alentejo, searas e vinhas”); Paulo Reis Simões e o fascínio da serra como ponto de entendimento do poeta consigo (“Arrábida, onde sem me perder me encontro.”). Dignos de atenção são também os desenhos assinados por Dália Vale Rego, retratos em tinta-da-china sobre o poeta, e os motivos e locais arrábidos que lhe trouxeram a poesia.

Pelas páginas desta antologia passa o duplo gosto de ler todos os que contribuíram para este livro e de sentir que Sebastião da Gama foi inspirador!

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1310, 2024-05-29, pg. 10.


quinta-feira, 23 de maio de 2024

Poesia para homenagear Sebastião da Gama (1)

 


Escolheu a Associação da Casa da Poesia de Setúbal, para celebrar na sua antologia deste ano, o centenário de Sebastião da Gama (1924 - 1952), poeta inspirador, figura maior da sua geração, responsável por confirmar a Arrábida como motivo da tradição literária portuguesa, intitulando-a Entre a Poesia e a Vida - No Centenário de Sebastião da Gama.

A sua vida foi longa e intensamente vivida no muito curto espaço de tempo em que por cá andou, 27 anos de fulgor e de entusiasmo, de amizades e de aprendizagens, de poesia e de ensinamentos, de dor e de esperança, de amor e de contemplação do outro na Natureza. Conhece-se-lhe um poema de construção escolar em torno dos reis de Portugal, escrito aos 10 anos, que ele não esqueceu no seu Diário, para balizar o tempo em que vibrava com as aventuras do Texas Jack: “Já tinha escrito os primeiros versos ­— uma história de Portugal — porque isso foi aos dez anos.” E o texto literário que se segue no seu trajecto de poeta, cinco anos depois, quando andava pelos 15, é uma composição sobre o amor, produzida num soneto (como se fosse a tipologia de escrita mais fácil de praticar...), modalidade que não vai largar no ano seguinte.

Para espanto nosso, também a Arrábida é linha do seu pensamento logo no segundo poema de 1939 e, quando já ia nos 17, chama para os seus escritos aquele que há-de ser o companheiro de pensamento na forma de escrever a Serra e a sua comoção, Frei Agostinho da Cruz — num poema, de Novembro de 1941, ao contemplar determinado recanto arrábido, confessa: “Enorme solidão, que Agostinho / em versos encantados soube pôr, // mas eu, que ao pé do frade sou a luz / pálida duma vela ao pé do Sol, / não ouso descrever, não sou capaz.” Uma simplicidade e uma vontade de descobrir que nos perturbam, sobretudo se pensarmos estar perante o poeta que tratou elementos  vários da Natureza e do Universo como se fossem os seus companheiros, a sua rede de ligações, grafando os seus nomes com maiúscula — o Sol, a Lua, a Serra, o Mar, o Vento, a Noite, o Silêncio, o Céu... —, e que foi o criador de umas míticas figuras da região arrábida, as “Arrabídeas”, figuras inspiradoras —  “Ai, Arrabídeas, que andais no Mar! / Ai, Arrabídeas, que me embalais! / Ai, Arrabídeas, que, pelo Luar, / peitos nuzinhos a rebrilhar, / dizeis os versos, versos ditais, / que à minha amada hei-de cantar.”

No seu percurso, Sebastião da Gama foi aprimorando o seu dizer, senhor que era de intensas leituras e de trocas de correspondência com outros poetas, criador que desejava saber o que da sua escrita pensavam os outros, venerador de mestres da poesia, descobrindo Deus através do fulgor da palavra, elemento que lhe garantia o recolhimento necessário para a demanda.

O seu itinerário de escrita passou pelos livros — três publicados em vida e sete póstumos —, pela colaboração em diversas publicações culturais e em vários jornais regionais, pela partilha de poemas com os amigos, pondo sempre um exigente espírito crítico no que produzia e seleccionava para publicar, muitas vezes com hesitações — o primeiro conjunto de poemas albergados sob o título de Serra-Mãe, que seria o livro, data de 1943; no entanto, em 1945, quando o título saiu, nenhum dos poemas coligidos dois anos antes nele figurou. Mais: ficaram inéditos na sua quase totalidade.

Para a biografia literária de Sebastião da Gama, é necessário ler-lhe a obra, evidentemente, alicerçada na poesia, na diarística e na crónica, mas também na epistolografia, área em que, independentemente dos destinatários — e foram muitos —, perpassam os alicerces do que foi a sua arte poética, as convicções que enformam a sua escrita. E o leitor fica sempre fascinado com versos que suportam um pensamento forte ou que se transformam na trave mestra do poema, não podendo ficar insensível a verdades como: “que de coisas bonitas tem a Vida!”, “olhar para tudo com uma alegria tão grande”, “o canto venceu a morte”, “as coisas são belas como são”, “não quero senão risos nos teus olhos”, “da minha ilha vê-se o mundo”, “morrem os poetas mas o canto fica”, “nascemos em cada rio que nasce”, “todo o tempo é o tempo das flores” ou “estes versos e outros quase verdadeiros”, versos escolhidos ao sabor da leitura, um quase decálogo por que o poeta se orienta.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1305, 2024-05-22, pg. 9


quarta-feira, 15 de maio de 2024

Setúbal numa viagem interior de Bruno Vieira Amaral

 


“Um dia, há muitos anos, arrastado não sei por que força, vim aqui parar, a esta praia, de onde se vê a serra e parte da cidade. Tinha levado uma velha máquina fotográfica do meu avô e tirei algumas fotografias. Banais, para não dizer pior, são o único registo dessa tarde de setembro, quando no areal havia poucos veraneantes e tudo se adequava ao meu estado de espírito, na ressaca de um desgosto amoroso. (...) Naquela tarde, eu vim aqui porque este era o limite geográfico do meu mundo, o mais longe que podia ir sem ultrapassar a linha imaginária para lá da qual o regresso era incerto.” Quando isto escreve, Bruno Vieira Amaral (n. 1978) aproxima-se já do final da sua narrativa em Setúbal (Centro Atlântico, 2024), obra que integra a colecção “Portugal”, composta também por fotografias da região devidas a Libório Manuel Silva.

A questão da fotografia não é de somenos, porquanto, logo no início do livro, de outras fotografias se fala — as que permitem ver momentos do passado ou aqueloutras que visam registar, “na medida do possível, o que a paisagem tem de inspirador e de terrível”, mesmo que o fotógrafo curioso e sensível, depois, chegue à conclusão de que a imagem que captou “fica sempre aquém do verdadeiro mistério” que acompanha o visível...

É justamente na tentativa de desvendar o mistério dos lugares que o narrador deste livro parte, numa viagem que, não esquecendo o que na região impressiona o olhar (Albarquel, Portinho, Arrábida e seu Convento, Azeitão, nos arredores; praça de touros, Misericórdia, cemitério da Piedade, coreto da Avenida Luísa Todi, monumento aos Combatentes, Convento de Jesus, gafaria, Galeria Municipal, na cidade), valoriza sobretudo a forma como a paisagem e a história se foram construindo, num percurso que cultua os heróis anónimos e algumas figuras conhecidas.

Se os construtores dos dias e dos tempos são habitualmente albergados na capa do anonimato, Bruno Vieira Amaral faz por se opor ao princípio de que dos anónimos “não reza a história”, abandonados que foram “na roda trituradora de um quotidiano que tudo destrói”. Assim, logo de início, surgem os pescadores, os jornaleiros, os trabalhadores das fábricas, os bandos de crianças, mesmo os doentes acamados, todos elementos, homens e mulheres, “que marcaram gerações e cuja memória se desvaneceu no tempo”.

O viajante vai calcorreando as ruas e os espaços como quem vai desenhando as artérias, descobrindo as histórias que são contadas a partir das memórias ouvidas das pessoas com quem se cruza, numa recuperação que provoca o desvendar do mistério. O leitor que o acompanha vai aprendendo noções tão simples quanto a que resulta do saber olhar, como acontece durante o embrenhamento na serra, que, “para ser decifrada, pede entrega e abandono, exige tempo e não apenas o contacto passageiro e superficial do turista apressado”. Esta atitude leva o visitante a momentos de contemplação, num quase entrar na história, em que a tela do visível lhe proporciona momentos de fantástico — perante o navio avistado na baía, logo a imaginação reencarna os galeões de pesca, os barcos de água, as aiolas, os iates e até a tripulação que o manuseia e trata é apresentada como descendente “desses marinheiros e pescadores, piratas e flibusteiros, reis e rainhas” de antanho.

Não fica o leitor sem saber as histórias de Hildebrando, de Tubal, de Mendo da Costa, de Frei Agostinho da Cruz, de Sebastião da Gama, de D. Brites, de Orlena Scoville, de Américo Ribeiro ou de Vicente Inácio Martins, o rapaz dos pássaros que povoa o mural do Largo José Afonso. Não fica o mesmo leitor sem passear por Azeitão, com visita à Bacalhoa e à Casa-Memória e ao sabor de um néctar (pretexto para evocar a ancestralidade do saber quanto ao trato do vinho, história feita de gestos e tradições mantidas por seres, “todos eles poetas sem jamais terem escrito um verso”). Não fica o leitor sem deambular pelas ruas da cidade (várias delas dominadas pelas lojas encerradas), vias em que, “sem roteiro ou mapa, o viajante depende da intuição”, até chegar ao Convento de Jesus, ponto final do emotivo e emocionado roteiro, quase símbolo de ascensão ao mistério das coisas.

Não é por acaso que o livro começa com o registo do mistério que envolve cada comunidade, cada espaço — é que “claridade”, a palavra com que o percurso se conclui, explica a intenção da viagem e o cunho eminentemente pessoal que marca este itinerário, consequência que ele é de um olhar poético que humaniza e eterniza o tempo e a paisagem.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1300, 2024-05-15, pg. 10.


quinta-feira, 9 de maio de 2024

A Setúbal dos “bairros de folha”

 


São cerca de 70 fotografias que chocam. A preto e branco, revelam as zonas da sombra em que a vida acontecia. São bairros de barracas — não de casas — em que as paredes surgem desalinhadas e os telhados se formam de folhas de alumínio ou, por vezes, de telhas soltas, em que os interiores resultam de amontoados sem espaço, em que os caminhos são consequência da passagem e do trilhar dos pés, em que nos surpreendem rostos de crianças e de mulheres, espaços de onde os homens estão ausentes. São cerca de 70 fotografias que acompanharam um relatório feito pela Câmara de Setúbal no início da década de 1970 sobre a situação das barracas e da sua habitabilidade (ou falta dela) em cerca de vinte bairros de Setúbal, onde viviam 11 mil pessoas. São cerca de 70 fotografias que surgem legendadas pelas vivências e memórias de quem conheceu aqueles espaços, de quem neles viveu.

Outro mundo no mesmo lugar - A cidade das barracas é o título do livro organizado por Vanessa Iglésias Amorim, Jaime Pinho, Alberto Lopes e Lia Antunes (Centro de Estudos Bocageanos, 2024), obra que parte do relatório já referido e das fotografias que o acompanhavam, comentadas pelos testemunhos de vários entrevistados, para mostrar o estado da habitação nos bairros de folha em Setúbal em 1974. “Bairros de folha”, designação utilizada devido, como refere Vanessa Amorim, “à frequente utilização dos excedentes da folha de flandres da indústria conserveira e/ou ao uso de latas grandes de conserva desmanchadas para vedar as paredes”. “Bairros de folha”, assim retratados num comunicado da Comissão Administrativa da Câmara de Setúbal publicado em “O Setubalense”, em 21 de Junho de 1974: “Visitámos os bairros pobres da cidade de Setúbal. Porque já conhecíamos o problema, a situação que nele encontrámos correspondeu às nossas previsões: um imenso formigueiro humano vivendo no meio do estrume e dejectos, situação que nos faz recuar, em pleno século XX, à Idade Média.”

Os números apurados impressionam — segundo Lia Antunes, em 1947, haveria em Setúbal 23 bairros de lata, constituídos por 1320 barracas onde viviam 5049 pessoas, números que, em 1970, já se tinham alterado: 2254 barracas para 11022 habitantes, cada uma com cerca de 15 metros quadrados de área média, espaço em que viviam, em média, quase cinco pessoas. O relatório produzido por 1970, sustentado em inquérito promovido pela autarquia, encontrou uma metáfora deprimente para estes bairros, “abcessos da cidade”, imagem segregadora, muito mais preocupada com a necessidade de os fazer desaparecer do que com a urgência na resolução do problema de habitação.

O leitor passa pelas fotografias, que constituem a maior parte do livro, e não pode ficar indiferente, sobretudo se deixar que o seu olhar seja acompanhado pelas legendas testemunhais ­— “Olha, antes de ir pró trabalho tinha de ir carregar água - porque não havia água em casa, era o depósito. Às 4 da manhã, 5 da manhã, levantar pra ir à água... Era agarrar do balde do lixo e mandar para os buracos que lá havia.” “Em certos bairros havia barracas em que a água passava por dentro da casa das pessoas. Era ratazanas e toda a bicharada.” “O bairro de barracas tinha um corredorzinho muito pequenino para passar! Não havia luz. Nem havia na rua, nem havia nas casas. Não havia electricidade. As pessoas, para não se perderem, associavam os sítios às mercearias, aos estabelecimentos.” “Ninguém tinha esgoto. As pessoas faziam as necessidades numas tigelas de barro, a gente chamava aquilo de ‘tigelas da merda’. Havia pessoas que durante a noite (os moços!) partiam aquilo e espalhavam tudo!” “Havia muitas ratazanas. À noite, a minha irmã estava no berço, era bebé, e a rata roeu o dedo da bebé.” Estes e outros depoimentos dizem muito mais do que aquilo que fica expresso...

Dos 22 bairros identificados, havia seis com número superior a uma centena de barracas — Casal das Figueiras (550), Monarquina (248), Alto do Pina (236), Maltalhado (208), Vale de Cerejeiras (193) e Montureiras (106). As razões para tais cenários são frequentemente apontadas como resultantes de uma aceleração de crescimento em termos populacionais devido à atracção exercida pelas indústrias como fonte de emprego, geradoras de mobilidade demográfica. A cidade não conseguiu dar resposta humana aos que chegaram, tornando-se patente que a política também não o fez. Hoje, calcorrear algumas zonas da cidade é vermos “outro mundo no mesmo lugar” onde o sofrimento construía o quotidiano, imagens que este livro lembra para que não se repitam.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1295, 2024-05-08, pg. 5.

 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Álvaro Laborinho Lúcio e a pergunta fundamental (2)



De perguntas é feito o percurso na prática da justiça, sobretudo para se entender que “a justiça radica no povo”, embora a sua administração passe para determinadas mãos em função de um contrato social. E não é sem um respeito profundo que lemos, trazidas por Álvaro Laborinho Lúcio para este A Vida na Selva, as histórias do juiz do Soajo, da ética da polícia, do estatuto carregado na simbologia da beca judicial, da reflexão que pode emergir do que seja “fazer justiça pelas próprias mãos”. Perguntar deve ser uma preocupação contínua e persistente, sendo um desafio o texto que nos fala sobre a carreira, num percurso entre a estafada pergunta “que queres ser quando fores grande?” e a pertinente questão “agora, que és grande, queres ainda ser o quê?”, alerta que obriga a um compromisso com a formação constante, com um aprender permanente, atitudes essenciais para se ultrapassar fenómenos como a incerteza e a complexidade que nos invadem.

Questões da literatura e da leitura passam por outros capítulos, onde surge evidente a necessidade de um pacto entre escritor e leitor em termos de plausibilidade do narrado, sem que a ficção vire mentira e aniquile o pensamento crítico do leitor, e de valorização da palavra, esta perspectivada também no longo trajecto feito entre princípios como a “palavra de honra” e a necessidade de se “pôr por escrito”, ambos capazes de garantir, em tempos diferentes, a saúde do compromisso. É de literatura e do seu papel que se fala quando é evocado o tio que deixou umas memórias intituladas “Todos Vivos”, onde é dada vida às personagens das suas leituras; é de literatura e dos princípios que se fala quando Natália Correia, convidada para falar sobre estética e ética, vira costas porque nem uma nem outra têm de ser tratadas sob a carapaça do chamado “intelectual”; é de literatura e da sua universalidade e representações que se fala quando se recorre a Jorge Listopad para evocar a presença do teatro nas cadeias, formas de ver e de pensar outras vidas. E é também de leitura que se fala pelas muitas referências a textos de outros que povoam estas crónicas.

As perguntas andam também pela área da educação e da escola, sobretudo na concepção de uma carta que poderia ser dirigida a Paulo Freire a glorificar a escola pública, motivo para destruir sistemas como o da exclusão ou o de “dar a matéria” e para construir um tempo e um espaço propícios para “desenvolver o máximo das capacidades de cada um dos seus alunos e de cada uma das suas alunas, por forma a que uns e outras possam participar activamente na vida pública - política, económica, social e cultural.” E, a propósito da escola, a defesa de uma utopia: que “o dia de abertura das aulas, em cada ano, deixe de se apresentar como tempo de conflito político, partidário, reproduzindo sempre o mesmo desinteressante rosário de argumentos esgrimidos a favor ou contra o sucesso do arranque, e, em vez disso, seja um dia de festa nacional: o dia do regresso às aulas.” Utopia deve ser, uma das nossas utopias, por amor à escola e ao saber ser, mas que só será plena se pensarmos na forma de a realizar...

Socorramo-nos de um outro texto de Álvaro Laborinho Lúcio que bem podia integrar este A Vida na Selva - publicado em 2023, em reduzida tiragem, O Velho e a Escola (Entre o Ensaio e a Ficção) (editora Nova Mymosa), traz-nos uma personagem, o Velho, de quem nos é dito, logo no início, que procura “projectar o ser humano para fora da indiferença, da apatia, da desistência e do desinteresse, em suma, da banalidade”. Será que se consegue chegar aí numa escola que valoriza palavras como aquelas que indignavam o Velho - “sucesso, exigência, laxismo, disciplina, indisciplina, desobediência, mérito e tantas outras”? E porque não substitui a escola, a sociedade, essa semântica por outra que contemple termos como “arte, democracia, direitos humanos, cidadania, conhecimento”? Conclui o Velho: “Estas, sim, são palavras que navegam, que traçam novas rotas, que enchem de valor o terreno onde prevalece a força da ética e da liberdade”.

Por todo este conjunto de ensaios construídos sobre histórias, vividas ou inventadas, corre uma pergunta fundamental — que sentido para a vida? Esse é o desafio permanente, mas obrigatório. E apetece, de novo, repetir o que fica dito no posfácio de A Vida na Selva, construído por Álvaro Laborinho Lúcio, leitor do que escreveu: estes textos foram relidos e reaparecem “sempre com o fito de chamar e de juntar vizinhos.”  Para que não tenhamos como resposta, no fim do trajecto, uma desculpa semelhante àquela que a mulher deu ao homem seu vizinho para explicar o porquê de nunca se terem conhecido antes — “Pudera! Éramos vizinhos!” O desafio está lançado...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1291, 2024-05-02, pg. 10.


Álvaro Laborinho Lúcio e a pergunta fundamental (1)



No tempo da pandemia, um homem, que vivia sozinho em modesto apartamento, descobre, por motivos de arrumações, a viola há muito abandonada; tenta rearrumá-la debaixo da cama, mas o espaço vazio não o permite; o homem pega na viola e começa a lembrar os acordes há muito silenciados; insiste e a música leva-o ao canto; lembra-se de compor; canta e surpreende-se porque há uma voz feminina da vizinhança que o acompanha; um dia, ao abrir a porta que dava para a escada, vê a vizinha, adivinhando-lhe o rosto, então tapado por máscara; a cena repete-se no dia seguinte e ambos acabam por viver uma paixão. Com o fim da pandemia, a história sofreria alterações - “Tudo voltaria a ser como dantes. Era a peste que voltava. António arrancou a máscara e perguntou: ‘Como foi possível? Tanto tempo aqui, sem sabermos de nós?’ E a mulher, de máscara posta, respondeu: ‘Pudera! Éramos vizinhos!’”

Esta é uma das histórias que corre no mais recente livro de Álvaro Laborinho Lúcio, A Vida na Selva (Quetzal Editores, 2024), obra apresentada em quatro partes, todas intituladas numa relação com o itinerário que se nos apresenta como vida — “Tempos de nascer”, “Tempos de voar”, “Tempos de lutar”, “Tempos de partir”. “Tempos”, sempre no plural, porque não são determinados ou calendarizados, porque não são únicos, porque é a diversidade de uma vida que vai arrumando os eventos que a fazem de acordo com a importância que eles têm; ainda assim, pode-se entender a sequência que envolve o trajecto entre o “nascer” e o “partir”, passando pelo “voar” e pelo “lutar”, fases que implicam despertares, aprendizagens, acções, despedidas, sempre envolvendo os outros, aqueles com quem se trilha o caminho ou que encontramos no itinerário.

São 19 crónicas (em que se mistura memória, ficção e reflexão) e um prefácio e um posfácio, tudo na conta do autor, que começa com uma confissão, simultaneamente provocação: “não gosto de prefácios”, abrindo excepção para os que são de autor “ou os grandes pórticos, aqueles que são já mais oferta do que simples convite”, preferência que desenvolve através da metáfora do olhar, ao estabelecer a distância que vai entre a “espreitadela”, momento furtivo, e o acto de “espreitar”, forma de “procura permanente” que aproxima quem escreve e quem lê, que valoriza o exercício da palavra na sua relação com as formas de estar no mundo e na vida, o pensamento livre e crítico, a dignidade da utopia, esse espaço irrealizável que vive sempre connosco. Saltando para o final do livro, surge um posfácio, tempo que deveria ser feliz para o leitor (apesar de ser também o momento que anuncia a sua separação de todo aquele manancial de dizeres), porque deveria competir ao leitor ser o autor do posfácio, forma de releitura e de completamento da tarefa de escrita. Um desafio, pois. Mas é também o texto em que o autor explica que olhou para os dispersos e inéditos, releu-os e reorganizou-os, com um objectivo e uma pergunta: “Sempre com o fito de chamar e de juntar vizinhos. Como eu gostava que eles se chegassem. E, se assim for, que melhores vizinhos para quem escreve do que os seus leitores?”

Este livro, predominante na área do pensamento e do ensaio a partir de histórias vividas e, por vezes, condimentadas com a ficção, deixa perguntas, convida o leitor à inquietação, à saída do desconforto da normalidade, a viver a utopia dos sonhos e da procura de respostas, sugerindo sempre outras perguntas. É curiosa a forma como um texto intitulado “Autobiografia”, que poderia ser um recanto de certezas por relatar o passado, o vivido, se torna num olhar sobre a quantidade de vezes que se nasce - “Ninguém nasce de uma vez. Nascemos aos poucos, pelo tempo fora. Vamo-nos juntando à medida que nascemos. Vamo-nos desconjuntando à medida que vivemos.” E há a narrativa de episódios escolares desgastantes pelos maus prenúncios; o acompanhar o pai, trabalhador nos correios; as vivências juvenis na Nazaré; o compromisso cívico no tempo de estudante e da crise académica de 1962; a carreira pela magistratura e o aprender a julgar; o “tempo novo” aprendido nos Açores; os caminhos da escrita; as lembranças da família, sobretudo do avô, figura que espreita em várias crónicas. 

A vida feita de perguntas vai encontrar eco no capítulo “Nossa Senhora das Perguntas”, um quase cântico à padroeira que intrigava a criança quando via o avô, homem “sem missas, sem preces, sem visitas clericais”, a curvar-se perante os campanários da igreja do Sítio, na Nazaré, tirando o chapéu e venerando o espaço, como se se verificasse um encontro do homem com a santa padroeira ou da santa com o homem... uma evocação que se conjuga com uma outra reflexão, sobre o voo, onde se encontra o Velho da aldeia que gosta das perguntas das crianças, porque elas determinam que voar é muito mais importante quando acontece no tempo do que no espaço - “Quem voa no espaço é levado por outros, voa com asas que são asas de outros. (...) Quem voa no tempo voa para dentro. Para a lonjura e a imensidão onde habita o humano e de onde brota o poema.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1287, 2024-04-24, pg. 10.