sábado, 11 de julho de 2020

Maria Albina Bartolomeu: História(s) de família em Azeitão



O livro abre com uma fotografia do casal José dos Santos e Maria José, em jeito de quem inicia a visita a um álbum de família de que eles serão os inauguradores (se é que há fundadores de família...). Parte importante da narrativa vai viver deste par, bisavós de Maria Albina Bartolomeu, que assina Um dia que mudou vidas (Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2019), recriação da história de várias gerações a partir de relatos transmitidos pela avó, Susana Martins, e pelo pai, Albino Martins.

O propósito é anunciado em nota prévia - “deixar um testemunho dos nossos antepassados aos meus descendentes” - e reforçado no final, ao fechar a narração (e a escrita): “que esta narrativa sirva para os mais novos nunca esquecerem as suas origens”. Assumido o carácter testemunhal, o leitor entra na história da família, muitas vezes ouvindo a voz da narradora, quer enquanto mediadora entre o passado e o presente, contextualizando muitas vezes os tempos e as suas circunstâncias (por vezes, comentando as diferenças resultantes dos hábitos e das modas), quer como responsável pelo enunciado, visível logo no início do primeiro capítulo - “Começo hoje este texto, dia 5 de Outubro de 2017. Primeiro a ideia surgiu de forma espontânea, mas, ao iniciar o mesmo, lembrei-me de que este dia tinha também muito significado na vida de alguns dos intervenientes nesta pequena biografia de uma família.”

José dos Santos (1858-1930), cognominado “Caramelo”, natural da Anadia, chegou a Azeitão em 1866, depois de um percurso em busca da subsistência e marcado pelos medos e pelas inseguranças, sendo acolhido pelo casal Manuel e Josefa num regime de adopção aceite por ambas as partes. Do casamento de José dos Santos com Maria José nasceram vários filhos, acompanhando o leitor o percurso de Susana (1897-1977), que enviuvou de Francisco (1923) depois de seis anos de casamento, relação de que houve três descendentes, sendo privilegiado o percurso de Albino Xavier (1918-2005), casado com Maria Bárbara (f. 2013), também com três filhos, sendo uma das irmãs Maria Albina (n. 1951), a autora, casada em 1975 com Manuel. Quatro gerações passam nesta história, ainda que haja referências aos pais da primeira geração e aos filhos e netos da última.

As personagens vivem entre Azeitão e Setúbal (com alusões a outros locais da região), espaços em que se cruzam com figuras localmente conhecidas (Alexandre Cardoso, o médico Teixeira, Artur Cardoso, Isabel Chagas, Manuel Pato, Peres Claro, Mestre Oliveira, entre outras). Embora a narrativa não explore as descrições, ao longo das décadas abrangidas, há lugar para contextualizar tempos como a Segunda Grande Guerra, a Guerra Colonial, o do receio causado pela polícia política ou o 25 de Abril. A propósito de alguns episódios, surgem também comentários ao presente (“hoje em dia, teme-se que as nossas crianças fiquem afectadas negativamente pelo facto de ajudarem os pais nas tarefas domésticas”, por exemplo), manifestando-se assim o propósito de testemunhar a diferença e a mudança dos valores.

A história (num texto que mereceria uma revisão cuidada) resume cerca de 150 anos do percurso de uma família (1866-2017, entre a chegada de José a Azeitão e o início da escrita), em que intervieram pessoas que foram heróis das suas vidas, numa narrativa que mostra de que são feitas as identidades e que aqueles com que nos cruzamos no mundo são, todos eles, bom assunto para um relato, pois qualquer vida dá um bom filme...

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 431, 2020-07-08, p. 10.



sexta-feira, 3 de julho de 2020

Olga de Moraes Sarmento - Vida feita memória



“Nem só as pessoas que foram ou se julgaram importantes podem escrever as suas Memórias. Podem escrevê-las também - e eu diria até que devem escrevê-las - aquelas que com todo o seu coração amaram a vida, a observaram com intensidade, lhe deram grandes momentos de formosura ou de tristeza. Além disso, segundo tudo indica, vivemos uma hora de transições profundas. Amo demais a beleza para descrer dela - e estou certa de que hoje, amanhã, depois, a vida humana em suas evoluções conservará a beleza, ou a ela voltará.” Assim abre o prefácio do seu livro As minhas memórias (Lisboa: Portugália Editora, 1948) a setubalense Olga de Moraes Sarmento (1881-1948), aí denotando duas questões desde logo importantes - o memorialismo como escrita de uma vida intensamente sentida e como forma de recuperação dos aspectos belos da vida, convindo não esquecer que esta obra foi redigida a partir de Outubro de 1942 (até Janeiro de 1948), vivia a autora nos Estados Unidos, ali exilada por causa do que era a dominação nazi na Europa, particularmente em França, onde Olga de Moraes Sarmento vivera antes (acompanhando a sua amiga Hélène de Zuylen, do ramo Rothschild, na fuga da perseguição nazi).

Nestas memórias, a escritora setubalense conta todo o seu percurso, desde as “recordações dolorosas” da infância (a severidade do pai; o cordeiro de que ela gostava como seu “assassinado para o jantar”, gesto que a levou a chorar “niagaras de lágrimas”; o fascínio sentido pelo avô materno, liberal e amigo de D. Luís, figura marcante na sua personalidade; a indignação sentida quando viu o tio a chicotear uma criada negra) à viuvez a que chegou aos 23 anos (e que manteve até ao final dos seus dias) e ao ambiente de salão e de tertúlia de que se fez grande parte da sua vida, animada por conferências e pela intervenção cultural e cívica.

Nascida em Setúbal, foi Olga de Moraes Sarmento aos quatro meses viver para Elvas na sequência de uma colocação do pai, militar. Por influências familiares e sociais, a sua adesão à monarquia sempre a acompanhou, uma das razões por que passou a viver em França após a implantação do regime republicano em Portugal. Desde aí, correu mundo a fazer conferências. As suas casas em Portugal, em França (em Paris ou em Hendaia) ou nos Estados Unidos sempre albergaram o escol cultural da época e, assim, conviveu com os nomes mais representativos da música, da literatura, da pintura e da política dos vários países por onde passou, fazendo amizade com muitos deles.

Episódios intensos deste volume de memórias são vários, podendo-se destacar: o momento em que, em 1919, assistiu ao desfile da vitória dos aliados em Paris; o discurso feito em Setúbal aquando da oferta ao município de parte dos bens que tinha na casa de Paris (“desenhos de Delacroix e Columbano, autógrafos de Goethe, desenhos de Victor Hugo e inúmeras outras” recordações, biblioteca incluída), decisão tomada em 1938, quando viu que a Europa ia ser dominada pela pilhagem; o momento em que, nos Estados Unidos, participou no entusiasmo pelo fim da Segunda Guerra.

“Tempo passato, tempo amato” foi o subtítulo escolhido para este volume de memórias, nele reflectindo o propósito essencial: evocar o passado, sobretudo nos seus momentos felizes, e assumi-lo. Apesar de alguns momentos de crítica social e política, este registo alinha sobretudo na recordação dos momentos de felicidade e de alegria, de convívio e empenho social, percurso pontuado pelos acontecimentos históricos que selaram os 67 anos da autora.

* "500 Palavras". O Setubalense: nº 426, 2020-07-01, p. 12.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

António Oliveira e Castro: Narrar o apocalipse



Que Arrábida? “Lera que os sobreiros tinham desaparecido do sul de Portugal, e que a Serra da Arrábida, ali bem próxima, era uma corcova estéril, branca como um osso de milenar sepultura.” Que Arrábida, outra vez? “Sabes o que aconteceu à Serra e ao Parque Natural da Arrábida?”, pergunta Mafalda, informando logo a seguir que “a indústria do cimento a consumiu, os diques são vorazes.” Que diques? É ainda a mesma personagem que esclarece Ricardo, o irmão: “Defendem Lisboa, Setúbal, Aveiro, Faro, centenas de quilómetros de muralhas, das águas do mar.” Que natureza? Ricardo circulava em Lisboa, olhava as diferenças na comparação dos tempos e “reparava, agora, que as árvores colocadas ao longo da avenida eram de plástico, quase tão perfeitas como as originais.”

Os cenários e as personagens são do ano 2050 e saltam de Ponte Pequim sobre o Tejo (Lisboa: Gradiva, 2020), o quarto romance que António Oliveira e Castro, radicado em Setúbal, assina. Uma narrativa para um ambiente hipotético, mas plausível, dentro de três décadas, num mundo dominado pelas máquinas e pelas tecnologias, resultado do deslumbramento humano, repleto de artificialismos, centrado num eixo entre Xangai e o Tejo - e o leitor pode observar, ao lado da velhinha ponte 25 de Abril, a fulgurante ponte Pequim ligando as duas margens do mesmo rio...

A trama circula pelos encontros e desencontros de uma família, com história de quatro gerações: a de Curibeca (velho sonhador cheio de segredos de um saber único, sempre presente na memória dos dois netos, apesar de a história não se passar no seu tempo), a de Leónidas e Águeda (desaparecidos, julgados mortos, a recusarem o novo mundo), a de Ricardo e Mafalda (irmãos, ele a viver em Xangai, próspero no seu ducentésimo andar, ela a viver em Lisboa, ligada a um “Carocha” desactualizado, crítica) e a de Belchyor (jovem, combatente no exército chinês). É com este último que a narrativa abre e encerra, quase simulando a esperança nas mudanças (sejam elas quais forem) e o desespero pela desumanidade a que se chega. Mas são os irmãos Mafalda e Ricardo, netos de Curibeca, quem mais povoa as páginas destes dez dias, falando cada qual de si, em jeito de diálogo, dando ideia do que pensa do outro, em forma de apartes.

O leitor familiariza-se com os dois irmãos, com um narrador cúmplice que não quer desiludir e se vai mostrando discretamente, em busca “de um mundo naufragado”, enquanto as personagens procuram as suas origens, se revêem nos aromas, sabores e aprendizagens da infância, embora num tempo que não permite a reversibilidade.

Percebe o leitor que a história caminha para o apocalipse e que Lisboa, a “Xangai da Europa”, é, nesse 2050, a cidade “de tralha, de lixo”, que “perdera a sua identidade”, pintada pelo pó vindo do deserto. Entre as obras premonitórias (recordamos Orwell ou Huxley), pode ser inserida esta Ponte Pequim sobre o Tejo, que se coroa com o cataclismo - como em 1755, o perigo chega pela água: um iceberg encostado a Lisboa culmina a destruição, impedindo que as personagens se encontrem, que os laços se restabeleçam, que o mundo e a vida se recomponham. É de agonia este retrato em que nem se sabe quem ficará para ter memória, ganhando crédito a frase várias vezes repetida: “Tudo o que o olho não consegue observar, a mente imagina a dobrar.”

Uma obra a justificar a leitura: pelo enredo narrativo, pela criatividade na construção das personagens, pelo aviso que a literatura pode ser.

* "500 Palavras". O Setubalense: nº 421, 2020-06-23, p. 11.


quinta-feira, 18 de junho de 2020

Bocage biografado por Daniel Pires



Entre os acontecimentos culturais ligados a Setúbal em 2020 ficará, sem dúvida, a edição da obra Bocage ou o Elogio da Inquietude, assinada por Daniel Pires (Lisboa: Imprensa Nacional), que, apesar de ter o ano passado como data de publicação, só surgiu para o público recentemente, em Maio.

Ao longo de vinte capítulos, entra o leitor nos meandros da vida do mais conhecido poeta setubalense, Bocage (1765-1805), que, no mundo das academias setecentistas, ficou conhecido por Elmano Sadino (conjugando o anagrama do seu primeiro nome, Manuel, e a referência toponímica à sua origem). Esse percurso nem sempre foi de reconstrução fácil, avisando Daniel Pires, em várias ocasiões, ser necessário “recorrer ao campo das hipóteses” para acompanhar o poeta em diversas épocas da sua vida, devido à falta de documentos ou à ausência de referências. Contudo, nesses momentos, o biógrafo informa o leitor sobre a explicação hipotética, avançando com elementos que sustentam a sua interpretação, tornando-se, assim, autor e leitor cúmplices nesta visitação a Bocage e ao seu tempo.

Apesar de o adjectivo gentílico ter sido integrado pelo poeta no seu nome da academia, as referências a Setúbal são escassas na obra bocagiana, parecendo que levou à letra o seu verso “Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado” com que abre um soneto, publicado no primeiro tomo das Rimas, em 1791. Informa Daniel Pires que, a partir do momento em que, em 1783, foi transferido para a Academia dos Guardas-Marinhas, “a sua partida de Setúbal foi quase definitiva”, pois “só terá estado na sua terra natal em 1790, na sequência do seu regresso do Oriente, e, em 1802, quando o pai faleceu.” As causas deste afastamento poderão ser várias, mas não serão estranhas a tal “inquietude” que caracterizou a sua vida, o facto de o pai ter caído em desgraça por um crime não provado e, sobretudo, o desgosto amoroso resultante do casamento de seu irmão com a jovem que o vate amava (Gertrúria, nas referências poéticas, filha do governador do Outão).

Da experiência do poeta no seu percurso de quarenta anos salvou-se a escrita, que lhe trouxe o reconhecimento, ainda sentido em vida: “no início do século XIX, Bocage usufruía de um estatuto literário elevado”, testado nas republicações e no valor que os contemporâneos lhe atribuíram - “o estilo genuíno, a autenticidade, o apuro formal, a capacidade de improvisação e a forma peculiar como dizia os poemas despertavam inequívoca admiração”. Bem interessante é a incursão que o biógrafo faz pela vida editorial do tempo do poeta, assim como pelo historial das edições sucessivas dos poemas de um autor que, apesar do valor que lhe era atribuído, terminou, “para cúmulo, sem túmulo” (título do derradeiro capítulo da obra, algo prenunciador de outros nem sempre simpáticos tratos).

O ritmo das ideias, das viagens, das contendas, dos desgostos, das descrenças, das polémicas, da miséria, da prisão e da falta de saúde, e a qualidade literária sempre acompanharam Bocage, apresentando Daniel Pires contextualizações sobre cada um dos tempos ou cada um dos problemas que enformaram o percurso do poeta (ambientes, regras, costumes, hábitos, em Portugal, no Brasil ou no Oriente) com uma eficácia informativa e uma abrangência plural que guiam o leitor, aliando ainda alguns textos bocagianos a certos momentos biográficos, sem que esta colagem se sobreponha ao reconhecimento literário dos mesmos.

Tratando-se de uma obra de leitura acessível, fortemente alicerçada na investigação (muitos documentos são divulgados pela primeira vez), bom seria que ela constituísse também um alerta para que Bocage reocupasse o lugar que merece nos estudos de literatura e cultura portuguesa do ensino secundário, mesmo por uma questão de cidadania!

* "500 Palavras". O Setubalense: nº 416, 2020-06-17, p. 10.


sábado, 6 de junho de 2020

Luís Amaro - Testemunhos para a amizade



Em 9 de Novembro de 2008, em Massamá, Luís Amaro (1923-2018) escreveu quatro dedicatórias em outros tantos livros que Sebastião da Gama lhe tinha dedicado - Serra-Mãe, Cabo da Boa Esperança, A Região dos Três Castelos e Campo Aberto. As mensagens apresentam idêntico teor, com algumas variações, aqui se transcrevendo a que foi exarada no primeiro dos livros: “À Biblioteca do Museu Sebastião da Gama, em Vila Nogueira de Azeitão, terra natal do Poeta e onde este livro - peça bibliográfica única, porque com dedicatória do querido e inesquecível autor! - ficará mais resguardado, como relíquia que é, oferece comovidamente o Luís Amaro - Homenagem também a Joana Luísa da Gama, Companheira do Sebastião”.
O Museu Sebastião da Gama ficava, assim, com a posse de quatro obras autenticadas com as assinaturas de Sebastião da Gama e de Luís Amaro, dois pólos de uma relação intensa construída sobre a poesia e a amizade, que tivera início em 1945, era Luís Amaro funcionário da Livraria Portugal, em Lisboa.
Ao longo da sua vida, o aljustrelense Luís Amaro foi autor de apenas um livro de poemas, cuja primeira edição saiu em 1949, Dádiva, que reapareceria em reedições de 1975, 2006 e 2011, assumindo um título diferente, Diário Íntimo, a que, em 1975 e em 2011, foi acrescido o subtítulo “Dádiva e Outros Poemas”. Uma interpretação rápida dos títulos permite dizer muito daquilo que Luís Amaro foi como pessoa - muito reservado, mas sempre disponível para oferecer o seu contributo aos outros.
A propósito dos seus 80 anos, um grupo de amigos preparou-lhe uma surpresa - a edição de Para lá da névoa - Homenagem a Luís Amaro (Edições Caixotim, 2005), em que testemunharam 16 autores, rol que integrou dois setubalenses, António Osório e Daniel Pires. Em 2020, novo projecto nos vem lembrar o poeta e bibliófilo alentejano através da obra Evocar Luís Amaro (Cosmorama Edições), coordenada por António Cândido Franco, António José Queiroz, Francisca Bicho e Paulo Samuel e reunindo depoimentos de 19 amigos, incluindo Daniel Pires. A linha que perpassa por todos os testemunhos é a da generosidade do homenageado, autodidacta que sempre abriu portas a quem o procurava, epistológrafo genial, já que a maioria das informações que partilhava seguia através de cartas cheias de anotações, apontamentos, referências. No retrato que a sobrinha Maria Dulce P. Amaro lhe traça, é dito: “O seu percurso não teve nada de fortuito, nem de milagroso. Era um perfeccionista, trabalhou arduamente para atingir a excelência, colocando em segundo plano a sua vida pessoal, que de um modo ‘envergonhado’ frequentemente escondia.”
Por finais de 1990, numa deslocação a Monsaraz com alunos, vi um grupo de três pessoas, parecendo-me ser uma delas o Luís Amaro. Nunca lhe tinha falado, mas conhecia-o de uma fotografia publicada algures e sabia de muita da sua acção em prol da literatura portuguesa. Fui ter com ele, apresentei-me e saudei-o. “Mas como reconheceu que sou o Luís Amaro se nem apareço por aí nos meios?” Lá lhe contei a minha história e os meus afectos literários, por onde passavam alguns amigos dele. Ficámos amigos. As cartas que dele conservo são lições sobre livros, achegas para investigações que me têm envolvido, provas de amizade inexcedível, em duas delas evocando esse encontro alentejano. Subscrevo aquilo que Daniel Pires regista no testemunho deste livro de 2020, chamando a generosidade e a disponibilidade de Luís Amaro para traços maiores. Foi também isso que senti, essa permanente dádiva, de que fui um dos privilegiados.
* "500 Palavras". O Setubalense: nº 410, 2020-06-05, p. 17.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Maria Adelaide Rosado Pinto: Sons de Setúbal



O nome de Maria Adelaide Rosado Pinto (1913-1997) está ligado a Setúbal, não só porque aqui nasceu, mas sobretudo pela obra ímpar que, na área da música, promoveu como estudiosa, professora, autora, fundadora de instituições, divulgadora da arte. O seu trajecto veio, aliás, dar continuidade ao de seu pai, Celestino Rosado Pinto (1872-1963), também ele setubalense, com uma carreira invulgar de regente, intérprete e compositor.
A continuidade da obra de um na obra do outro torna-se visível no livro Toadas, cantares e danças de Setúbal e sua região - Factos e tradições, assinado por Maria Adelaide Rosado Pinto (Setúbal: Junta Distrital de Setúbal, 1971), que se apoiou, em grande parte, na recolha musical e etnográfica levada a cabo por seu pai, obra que continua a ser hoje um elemento importante, aliando a arte musical a marcas identitárias da região sadina em várias manifestações da cultura local.
O primeiro grupo da recolha incide sobre as canções ligadas ao rio, ambiente de pescadores e de salineiros que, com “os seus ritmos de puxar redes e mover remos, as suas frases típicas, as suas toadas, cantilenas e danças mais ou menos alegres ou nostálgicas, características da beira-mar, davam a estas margens um pitoresco e caprichoso colorido”. Dos pescadores de Troino, ouvidos “mar fora, entoando os seus cantares durante a agitada labuta marítima”, conhece o leitor composições como “Barca velha” (1885), “Toada da beira-mar” (1889) e “Cantilena do mar” (1894), esta com a nota de ter sido “recolhida numa noite passada num barco de pesca fora da barra de Setúbal”. Do lado das Fontainhas, zona mais festiva, pode-se encontrar “Trova do mar” (1905), “Vira vira” e “Vira do Sul” (1918) e “Descante” (1919). Passa por este conjunto de cantigas a vida do mar, o amor, a festa, o galanteio, o ritmo da vida.
Um outro conjunto regista cantares de cunho religioso, como as loas do Círio de Setúbal da festa de Nossa Senhora da Arrábida na versão de 1853, um cântico dedicado à Senhora do Cabo (1865), os cantares à Nossa Senhora do Cais (1927 e 1928) e prece e agradecimento ao Senhor do Bonfim (1836), manifestações dominadas pelo pedido de auxílio nas mais variadas situações e pelo agradecimento.
O terceiro tema assenta sobre festas tradicionais da região, ligadas aos santos populares ou a momentos peculiares do ano (desfolhadas, Natal), composições muitas vezes construídas para envolverem a dança, retratando trabalhos, momentos de festa, relações entre as pessoas, formas de viver.
Os textos poéticos, sempre acompanhados da respectiva partitura musical, surgem agrupados tematicamente, depois de curto texto introdutório de contextualização, muitas vezes expandindo um sentido de deslumbramento perante os quadros populares. Ao longo do livro, vai o leitor sendo contemplado com algumas fotografias locais devidas a Américo Ribeiro, havendo ainda espaço para a descrição de trajos regionais por onde passam o descarregador de peixe, o marítimo, a peixeira, o pescador, a varina, a rapariga das ostras, a vendedeira de melancias, o leiteiro, a saloia, figuras desenhadas pelo traço de Inês Guerreiro.
Tão notório é o propósito pedagógico que acompanha esta obra, manifestado na intenção de dar a conhecer aos leitores a origem das danças e cantares que enfeitam as manifestações religiosas, festivas e de trabalho, que a sua leitura se torna fácil, esclarecedora e apetecível.
* "500 Palavras".  O Setubalense: nº 403, 2020-05-27, pg. 8.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

E, de repente... pensar o futuro



E, de repente... ela abateu-se sobre nós. Num tempo em que todos acreditávamos que estaríamos defendidos de pestes, eis que, vinda do lado nascente, sem se anunciar, paulatinamente, ela surgiu, a pandemia, criando desequilíbrios, morte, apreensão, mudanças. Arrastados, transformámos o nosso estar, o nosso olhar, o nosso sentir, a nossa linguagem. E agarrámo-nos ao sonho de que “tudo vai ficar bem”. Mas, no fundo, o medo acompanha-nos. Isso, o medo. É novidade para nós mas não para a Humanidade, que já conhece narrações como a de Boccaccio (em Florença) ou a de Camus (em Oran)...
Há uns anos, noutra crise, essa de cariz económico, Rui Zink escreveu um texto notável sobre o nosso sentir, A instalação do medo (Teodolito, 2012), referindo: “A ‘crise’ é sempre ‘económica’. As ‘reformas’ são sempre ‘estruturais’. O ‘futuro’ é sempre ‘melhor’. Ou ‘para os nossos filhos’. As ‘medidas’ são sempre ‘necessárias’. Se não fossem necessárias não seriam medidas. Não há alternativa. (…) Os outros fazem política. Nós não fazemos política. A nossa política é a virtude. A nossa política é o trabalho. A nossa política é o medo.” É este medo que nos leva a idealizar que, no futuro, “tudo vai ficar bem”. Assim como quem diz que, por agora, não sabemos o que pode acontecer. Assim como quem diz que esse sonho aniquila o presente sofrido, angustiado. Assim como também escreveu Afonso Cruz nesse romance curioso intitulado Jesus Cristo bebia cerveja (2012): “Conhecer o futuro dá cabo do presente.” Contudo, conseguimos equilibrar a dose de angústia e de curiosidade, de realização e de idealização, neste oscilar entre tempos, através de algumas saídas que preenchem o nosso quotidiano, pois, “embora nos pese toda a indefinição ou os maus prognósticos, conservamos em relação ao futuro uma expectativa que nunca é completamente fechada. Quem sabe? – insistimos nós.” Quem isto escreveu foi José Tolentino Mendonça numa crónica depois reunida no livro Que coisa são as nuvens (Expresso, 2015). O “quem sabe?” é a frincha por onde almejamos que o futuro seja a realidade que agora imaginamos, pelo menos um esgar dessa imaginação...
Daí que, verdade lapaliciana, vale a pena acreditar no futuro. Sobretudo porque sabemos que este presente a que nos habituámos e que temos continuamente feito tem tido muito do que o futuro vai ter e tem tido falta de coisas que o futuro vai trazer. As primeiríssimas questões estarão relacionadas com um diferente olhar sobre nós e sobre o outro e sobre a maneira como nos integramos no mundo e o transformamos. E estas serão questões de vida, que permitirão transformar o conflito em coisas positivas. Como pôs Baptista-Bastos, em As bicicletas em Setembro (2007), “todos os dias constituem o abismo quotidiano do futuro.”
O presente, que todos estamos a entender como um tempo de aprendizagem e desafio nunca experimentado (porque nunca passámos por isto, apesar de os nossos antepassados já o terem sofrido), tem de nos dar pistas para o que há a vir. Somos importantes, muito importantes, num espaço partilhado que nos permite sentir, respirar, trabalhar, viver... a nossa “casa comum”, como tão bem o definiu o Papa Francisco. Se há lição para o futuro é a deste questionar que nos temos de fazer quanto ao nosso contributo para o destino desta “casa” que é o espaço da Humanidade, mesmo que isso tenha de passar por uma outra visão do que seja o nosso “bem-estar”, absolutamente necessário, mas diferente, outro. Um futuro consentâneo connosco. E seja-me permitido usar o humor de António Manuel Ribeiro, o músico que, em Todas as faces de um rosto (2002), escreveu, a propósito das intenções para o devir e por causa de uma situação totalmente diversa: “Meu Deus, porque me hão de perguntar, no fim de cada entrevista, quais os meus planos para o futuro? Haverá, porventura, planos para o passado? E se o novo disco saiu agora que me interessa planear já outro futuro? Que cartilha é esta onde todos foram beber a arte de entrevistar? Planos para o futuro? Olhe, continuar a respirar, mudar as cordas da guitarra e brincar com o meu cão. Chega?”
Simples? Não, complexo. Mas o desafio passa por esta selecção sobre o que é essencial para que o humano o seja.
* Magazine Synapsis: nº 14, Primavera.2020, pp. 30-31.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Ruben A., 100 anos hoje



"Para os que quiserem dados objectivos de catalogação, informo que nasci no dia 26 de Maio de 1920, na Praça do Rio de Janeiro, número 25, 1º andar, em quarto que dá para o jardim chamado do Príncipe Real e que tem por lá a árvore mais extraordinária da cidade de Lisboa. Até essa data eu era propriedade de minha Mãe."
Ruben A., em carta ao leitor, em O Mundo à minha Procura - I (1964)

sábado, 23 de maio de 2020

Lina Soares: Pelo Sado, com Bocage e Marília



Em 1758, Jerónimo Afonso Botelho, cura da paróquia setubalense de Santa Maria, respondeu ao questionário feito pelo padre Luís Cardoso e, quanto à possibilidade de já ter sido tirado ouro do Sado, não hesitou: “Não sei se das suas areias se tirasse ouro, mas não duvido que o tenham. (...) Se algum poeta quiser dar às águas do Sado o epíteto de douradas, aprovarei (...) porque, em muitos lugares, resplandecem como ouro.” Décadas passariam para que o rio fosse identificado por uma cor, a azul, graças a um poeta aqui chegado para ser médico, Luís Cabral Adão.
Que o rio que desagua em Setúbal pode ser matéria poética, disso não duvidou Bocage quando se despediu do seu “pátrio Sado”, numa das poucas referências à sua terra no muito que escreveu. E foi Bocage a personagem escolhida por Lina Soares para um percurso histórico-cultural nas duas margens do rio, do estuário à nascente, por uma das margens, e daqui até à foz, pela outra, num registo em que não faltam os poemas do vate nem o sentir poético - Elmano e Marília - Uma viagem no Sado (Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2019) é a obra que quer “dar a conhecer as histórias reais e lendárias” em torno do rio, evocando um poeta maior e a sua musa Marília.
Esta viagem no rio faz-se sobretudo através de palavras - desde logo para contar a história dos nomes que teve, desde “Callipus” (do tempo dos Romanos) até “Sádão” e, depois, “Sado” - cujo discurso principal compete a Marília, a amada, que vai guiando Bocage, numa sedução perante o que é dado ver e o que é dado contar, num falar de declaração amorosa, havendo do poeta cerca de três dezenas de intervenções em verso em que predomina a área de significação do olhar (avistar, ver, notar, distinguir, divisar). E o apaixonado conhece as pessoas - “Nasceste virado ao rio, mas cedo partiste, não sabes o que sente quem vive nele. Muita gente da cidade que te deu à luz conhece o pão que o diabo amassou, partindo, de noite ainda, nos barcos rumo ao alto-mar para trazê-los de volta carregados de peixe, isto se a sorte estiver do seu lado e os impedir de serem lançados borda fora em águas agitadas!”. E o apaixonado contempla as vistas - na Carrasqueira, no porto palafítico, a recomendação: “Gosto deste sítio, tão calmo e tão bonito! Escuta comigo, amor, os pássaros e o avançar da água do rio, sussurrante. Nunca será perdido o tempo que passarmos, sentados, num destes caminhos de madeira envelhecida, antes de terminarmos a viagem.”
Vai o leitor vendo o mundo pelos olhos de Bocage, que Marília guia, mesmo na parte imaterial das lendas, memórias e histórias, num universo que passa também pelos nomes de referência cultural, uns oriundos das margens, outros correligionários de Bocage, outros ainda marcos do saber português - desde Aleixo Sequeira a Tomás Santos e Silva, desde Ana de Castro Osório a Pedro Nunes, desde Bernardim Ribeiro a Rogério Chora, num conjunto de duas dezenas de nomeações. Ao falar de figuras posteriores a Bocage, Marília faz também uma viagem no tempo, até ao século XXI, como se pretendesse relembrar a eternidade do seu amor...
Pelo meio, há fotografias actuais, constituindo o conjunto um bom pretexto para conhecer a região sadina e a cultura que lhe está ligada, a intenção principal deste livro.
* "500 Palavras". O Setubalense: nº 400, 2020-05-22, pg. 5.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A sala de aula: Entre os apeadeiros e a gare central



Uma centena de páginas para vinte cartas entre dois correspondentes, produzidas entre Outubro de um ano e Dezembro do ano seguinte, constroem Autobiografia de uma sala de aula, assinada por Christopher Damien Auretta e João Rodrigo Simões (Lisboa: Edições Colibri, 2020), ambos professores, um no ensino superior, outro no ensino secundário, ambos a trabalhar a sul do Tejo. Como subtítulo, uma indicação compromissiva remete para referências na área da educação e para certa forma de sentir o mundo, vivido entre a totalidade e os diferentes caminhos que nela se percorrem - “Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire”.
Começa a primeira carta, subscrita por João: “A manhã, o despertar, o ruído, o autocarro, o metro, o autocarro e o ruído e a rotina e o ruído e o autocarro e o metro e o autocarro e o ruído e a metrópole e o ruído e as Pessoas e os sítios e o ruído e a noite... E Nós? E Eu?” Esta sucessão, cheia de repetições, sintetizando um dia de massificação, só podia terminar por perguntas curtas que vão ao essencial: o lugar do humano para ser, mote para a reflexão sobre a escola no seu quotidiano, na sua dimensão humana entre cidadãos, sujeitos, pessoas.
Estas cartas não são um manifesto, muito embora a palavra por lá passe e o pudessem ser. São a pausa para a revisão e para as consequências desse olhar, necessárias para que o professor se repense e encontre um fio de humanidade no que faz. No limite, seria a reflexão que cada professor deveria fazer, se tivesse (ou quisesse ter) tempo para tal, sem peias, ainda que podendo chegar a diversas conclusões.
Pelas mensagens vai passando o que deveria ser a escola: “motor de curiosidade”, criadora de “laços de solidariedade entre os seres”, tempo para criação nos jovens de uma “relação passional com o conhecimento” e para promover a reflexão e o espírito crítico. Também circulam linhas do que não deve ser a escola: o espaço do “auto-elogio do poder instituído”, o campo de “culpabilização dos alunos”, o território dos “testes contínuos” e da memorização oportunista, o local de “escravização de alunos e docentes”. Para tudo isto, há um argumento de peso, que toca a todos, como refere Christopher, ao concluir uma das missivas: “O que é que está em jogo na Escola? Tudo: os destinos dos jovens e o destino da comunidade humana.”
Saltam para a conversa questões como a pertinência e actualidade dos programas, a ausência de tempos em que “os alunos se deparem com o não-ter-nada-para-fazer”, a “saudável utilização da tecnologia”, o sistema de avaliação (que muitas vezes compromete o futuro e as profissões sonhadas), a relação entre as escolas secundárias e as universidades... numa escola tantas vezes distante da educação “com afectividade e com alegria”.
Defendem os dois autores uma reinvenção da escola, que é “ora um dos apeadeiros na vida dos alunos, ora a gare central na vida dos docentes”. No centro desta visão está a necessidade de se criar e humanizar a sala de aula, porque ela “é também isto: a arte da escuta, a partitura dos afectos, a autobiografia íntima da espécie.” Um livro a ser assumido para que a sala de aula aconteça!
* "500 Palavras". O Setubalense: nº 393, 2020-05-13, pg. 10