segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Intervalo (16)

Filosofia para a vida
Um professor, durante a sua aula de Filosofia, sem dizer uma palavra, pega num frasco de maionese, esvazia-o... e enche-o com bolas de golfe. A seguir, pergunta aos alunos se o frasco estava cheio. Os estudantes respondem que sim. Então, o professor pega numa caixa cheia de caricas e mete-as no frasco de maionese. As caricas enchem os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor volta a perguntar aos alunos se o frasco está cheio e eles voltam a dizer que sim. Então... o professor pega noutra caixa... cheia de areia e esvazia-a para dentro do frasco de maionese. Claro que a areia enche todos os espaços vazios e, uma vez mais, o professor volta a perguntar se o frasco está cheio. Nesta ocasião os estudantes respondem unanimemente um "Sim!". De seguida, o professor acrescenta duas taças de café ao frasco e claro que o café preenche todos os espaços vazios entre a areia. Os estudantes, nesta ocasião, começam a rir-se...mas reparam que o professor está sério e diz-lhes:
- Quero que se dêem conta de que este frasco representa a vida. As bolas de golfe são as coisas importantes como a família, os filhos, a saúde, os amigos, tudo o que os apaixona. São coisas que, mesmo que se perdêssemos todo o resto, manteriam cheias as nossas vidas. As caricas são as outras coisas que importam, como o trabalho, a casa, o carro, etc. A areia é tudo o demais, as pequenas coisas. Se puséssemos primeiro a areia no frasco, não haveria espaço para as caricas nem para as bolas de golfe. O mesmo acontece com a vida. Se gastássemos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teríamos lugar para as coisas realmente importantes. Prestem atenção às coisas que são cruciais para a vossa felicidade. Brinquem ensinando os vossos filhos; arranjem tempo para ir ao médico; namorem e vão com a vossa/vosso namorado/marido/mulher jantar fora; pratiquem o desporto ou hobby favorito. Haverá sempre tempo para limpar a casa e reparar as canalizações. Ocupem-se das bolas de golfe em primeiro lugar, das coisas que realmente importam. Estabeleçam as vossas prioridades, o resto é só areia...
Um dos estudantes levanta a mão e pergunta o que representava o café. O professor sorri e explica:
- O café é só para vos demonstrar que não importa o quanto a vossa vida esteja ocupada, porque sempre haverá espaço para um café com um amigo.

OBS: Texto cuja autoria desconheço, enviado por amigo. Num tempo como o nosso, esta história tem o seu quê de ensinamento...

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

"O destino do Capitão Blanc", de Sérgio Luís de Carvalho

Quando lemos O destino do Capitão Blanc, de Sérgio Luís de Carvalho (Lisboa: Planeta, 2009), ficamos de imediato marcados por essa palavra “destino”, que nos é cara na tradição literária portuguesa; depois, podemos associar a ideia ao subtítulo que o livro apresenta – “A missão e a paixão de um militar português na Primeira Guerra Mundial” – e o puzzle começa a compor-se.
Neste romance, o leitor acompanha cerca de quatro meses da vida da personagem Luís Blanc (se exceptuarmos as indicações sobre o seu passado, dadas por analepse), ocorridos entre o início de Agosto e o final de Novembro de 1918, em torno de uma missão para que o militar foi destacado na Flandres (e que lhe decidiu o destino), onde o Corpo Expedicionário Português (CEP) participava na guerra de trincheiras.
É curioso que o sentido de missão, bem como a história desta personagem, se vão alicerçar sobre o momento em que o CEP já perdera alguma da sua identidade. Porém, o facto de sabermos que a história desta guerra já se aproximava do final confere a este romance também a possibilidade de se fazer a leitura de uma história que se vai construindo sobre ruínas, marcada por uma verosimilhança caucionada ora pelos encontros que podemos fazer com o que da literatura memorialística da participação portuguesa na Grande Guerra ficou, ora pelo roteiro geográfico que a personagem percorre e pelas figuras (Tamagnini e Hélder Ribeiro, por exemplo) e momentos históricos com que se cruza (as notas bibliográfica e cronológica, que constam no final, asseguram essa ligação entre a ficção e a realidade).
O destino realiza-se nesta história com um à-vontade assinalável, encarregando-se de construir um final para cada personagem, seja para o inimigo antigo ou para o pai de Blanc, seja para a enigmática Emma, seja para o próprio Blanc. É um romance de desgosto e de decepção, com um final difícil de prever, mesmo na história de amor em que os apelidos Blanc (dele) e White (dela) pareciam prognosticar um final feliz pela coincidência dos apelidos.
Profundo é o que fica da experiência de guerra. E vale a pena lembrar episódios como o da destruição em Mont Sec, o da associação entre os amotinados e os “cães lazarentos”, o da morte que espera um herói vestido com a “farda principal, cheia de alamares e de dourados, de dragonas e distinções” a pouco mais de uma hora do fim da guerra ou a reflexão sobre o que ficaria do que foi essa (aquela) experiência logo que um filho perguntasse a um dos combatentes algo como “pai, o que é que fizeste na Grande Guerra?”
É o absurdo da guerra. Na sua realização, na participação, nos sentires, nas reflexões sobre a vida. É o absurdo do condicionamento da liberdade, do pensamento e da palavra. Tudo passando neste romance, eivado de ironia, efeito que é muito ajudado pelos comentários entre parênteses que entremeiam alguns parágrafos, ora como extensões do narrador ou das personagens, ora suscitando no leitor a vontade de acompanhar a reflexão.
A literatura portuguesa do século XXI contribuiu já com alguns bons títulos de ficção que tomaram como tempo e como cenário a participação portuguesa na Grande Guerra. O destino do Capitão Blanc, de Sérgio Luís de Carvalho, é um deles, que vem integrar esse rol em que já constavam obras como A filha do Capitão (de José Rodrigues dos Santos, 2004) e Memória das estrelas sem brilho (de José Leon Machado, 2008).
Sublinhados (por ordem de entrada na obra)
“Um campo de batalha não é um bom sítio para termos atrás de nós alguém que queira saldar contas antigas.”
“Ninguém olha para trás quando sai de uma trincheira para a retaguarda porque não lhe sente a falta, mas ninguém olha para trás quando sai de uma trincheira avançando para um ataque porque lhe sente a falta em demasia.”
“A busca ansiosa de heróis é timbre das grandes derrocadas.”
“Por mais teso que um gajo seja é sempre na mãe que fala quando está mesmo a morrer.”
“Os ratos são dos poucos a tirar bom partido desta guerra, para além dos banqueiros, dos empresários, dos piolhos, dos políticos oportunistas e dos fabricantes de armamentos, claro está.”
“O mundo tem, de quando em vez, umas surpresas que quebram o curso ordenado das coisas esperadas.”
“Estas coisas das revoltas são, como se sabe, muito contagiosas, sobretudo se há razões de sobra para isso.”
“Até o cão mais pacato se farta dos maus tratos.”
“É de lendas que se faz a fama de homens e de bichos.”
“As más notícias são sempre intemporais.”
“O melhor é viver um dia de cada vez. Aprende-se isso depressa, numa guerra…”
“Convém ter medo… Foram homens sem medo que conduziram o mundo a esta loucura… As pessoas decentes e sensatas, essas, costumam ter medo.”
“Pode-se acusar a morte de muita coisa, mas não de ser inesperada; está lá sempre, nós é que passamos o tempo a esquecer isso.”
“Um tipo tem de se defender de desilusões, senão damos em doidos.”
“Por vezes, a realidade é uma coisa muito inconveniente.”
“As coisas têm o seu tempo. Depois passam. Tudo passa.”
“Traição ou glória são coisas bastante relativas.”
“Esta guerra faz-nos pensar em tanta coisa, faz-nos tantos amargos de boca, que creio bem que dela nem os vivos sairão sobreviventes.”
“Em guerra, tal como durante a noite, uma pessoa faz coisas e diz coisas que não faria nem diria em tempo de paz ou à luz do dia. É a noite. E é a guerra. Estas duas coisas são muito manhosas.”
“As coisas, mesmo as do passado, sabem-se sempre.”
“Os rancores e as raivas acumuladas mais não são que merdices que nos encaganitam a vida e de que a morte se ri como uma alarve.”
“Mesmo assobiado e mesmo desafinado, hino nacional é hino nacional e com os pátrios brios nunca se brinca.”
“A verdade é uma coisa dura de se ouvir e, por vezes, muito pouco conveniente.”
“Ao menos a terra e a guerra não nos pregam mentiras. São o que são e mais nada. Para o mal e para o bem, a gente sabe com o que pode contar.”

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Rostos (133)


Em Setúbal, na Rua Velha de Alfândega

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

"Papel a mais" - Convite

Um dia, ao entrar na livraria setubalense Culsete, manifestei a estranheza por não estar no escaparate nem um exemplar de uma qualquer obra daquelas que, tão vertiginosamente como aparece, desaparece e ninguém a fica a lembrar. Já não recordo o título, confesso, mas tinha lugar marcado em todas as montras de livrarias e papelarias, aqui ou ali, em Setúbal como em Lisboa. Resposta do Manuel Medeiros: "Livros é que eu quero, não é papel..." Percebi, achei piada à resposta. Nesta repentista tirada reflectia-se o pensamento de uma profissão e de uma vida. E, agora, aí está Papel a mais, que não conta esta história (insignificante, claro!), mas conta outras que ajudam a perceber a consistência de uma tal resposta.
Este Papel a mais, de Resendes Ventura, poeta acumulado com Manuel Medeiros, livreiro em Setúbal, é um caso. De leitura, de reflexão, de partilha e de vida. Bem poderia o autor chamar-lhe, pedindo o título emprestado a Régio, "O meu caso"... É leitura obrigatória para quem goste de livros, de memórias, de testemunhos, de se cruzar com outros nomes grados das letras, de poesia, dos Açores, do ensaio, dos momentos em que se pensa a vida. O convite aí fica, pois!

domingo, 15 de Novembro de 2009

Máximas em mínimas (52)

Raivas e risos
"Os rancores e as raivas acumuladas mais não são do que merdices que nos encaganitam a vida e de que a morte se ri como uma alarve."
Sérgio Luís de Carvalho. O destino do Capitão Blanc. Lisboa: Planeta, 2009, pg. 235.

"Aprender contigo", uma antologia de poesia da APPACDM

Em 2006, a APPACDM de Setúbal procedeu à apresentação pública de uma antologia intitulada Um olhar diferente, que reunia os premiados de uma década de poemas e de concursos de escrita levados a cabo pela instituição. Mais três anos passaram e a mesma APPACDM mostra que não só insistiu no certame mas também o alargou ao público escolar, de modo a que também os jovens dissessem dos seus diferentes olhares sobre a realidade da vida, ainda que agora sob o tema “Aprender contigo”.
E neste livro [Aprender contigo - Três anos de poesia (2006-2008). Coimbra: Temas Originais, 2009] está a partilha de mais três anos de reflexões, mais três anos de refúgios de escrita, mais três anos de dádiva, que congrega cerca de 50 textos, numa mensagem contra a indiferença e numa vertigem que nos obriga a olharmos para nós.
Estes textos são apenas uma parte dos muitos que apareceram. Este concurso tornou-se um evento com calendário marcado e esperado e é motivação forte para muitas vozes. Nesta antologia surgem apenas os textos contemplados com prémio ou com menção honrosa, amostra do vasto conjunto de missivas que chegaram, pontuada pelas preferências dos júris e por sentidos de vida.
Viajamos nestes poemas e confrontamo-nos com uma ecologia do sentir, em que cada poeta peregrina por si dentro para descobrir que com o outro aprendeu a ingenuidade, o saber esperar, o ser diferente, o dizer obrigado, o olhar para o lado, a dádiva, a generosidade, a alegria. Fica-se com a sensação de que foi preciso um confronto com este outro para se aprender algo que é natural, algo que andava cá dentro mas que não tinha sido descoberto, para aprender a simplicidade de viver.
E o mundo, como a vida, oscila em torno de sensações ou aprendizagens fortes, sejam elas as da dura realidade ou as da contemplação da natureza. Como não nos sensibilizarmos perante um poema de aprendizagem como “Fana”, em que se descobre a docilidade e as raízes de uma amizade? Como não alinharmos numa pequena fábula como a do poema “Historinha curta” em que se vislumbra o que aprender com os outros, mesmo quando são mais pequenos? Como ficar perante uma poeta que se confessa mãe, dizendo: “Que mais, meu filho, tu terás para me ensinar? Quero até aprender a esquecer a revolta tão contida… Ensina-me, meu amor, meu querido professor, meu exemplo de vida!”? Como ficar? Ou como não aderir a um caminho em que com o outro há lugar para “aprender coisas novas, o arco-íris procurar e para além dele ver o sol brilhar”?
São possíveis balizas as que acabo de indicar. Mas que só valem como figuração, como símbolo, como apelo à procura a fazer por cada um. Ou, como é dito noutro poema, “aprender contigo é uma luz para me encontrar”. E é esse um encanto deste livro: a disponibilidade de cada poeta para ir ao seu próprio encontro, para descobrir o que pode significar uma partilha do mundo com o outro, para descobrir o que de si deve ao outro. Tudo numa linguagem muito simples, onde se nota que os poemas são construídos sem outra pretensão que não seja a da partilha, a da alegria de viver nos outros ou com os outros.
[Na apresentação pública do livro, ocorrida ontem, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal]

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Gonçalo M. Tavares envia "biblioteca" para leitores de Palmela

Gonçalo M. Tavares passou, a partir deste mês, a partilhar os seus apontamentos de “Biblioteca” com leitores através da Biblioteca Municipal de Palmela, num processo que pode envolver escritos de ambas as partes.
Em cada mês, Gonçalo M. Tavares enviará dois textos inéditos para serem divulgados pela Biblioteca de Palmela. Aos leitores é sugerido que produzam um texto-resposta (que pode assumir a forma de apontamento, poema, desenho, ilustração, etc.), devendo o mesmo ser entregue em qualquer dos pólos da Biblioteca palmelense. Posteriormente, os leitores serão convidados a participar num “Curso de Leitura e Imaginação” orientado por Gonçalo M. Tavares.
Para o mês de Novembro, o desafio parte de textos sobre Alexandre O’Neill, podendo ambos ser encontrados aqui.

"Papel a mais" - memórias e saberes de um livreiro (I)

“Quando optei por trabalhar a tempo inteiro na leitura, a escrita tornou-se papel a mais na minha vida.” Assim justifica Resendes Ventura (pseudónimo de Manuel Pereira de Medeiros) a sua mais recente obra, intitulada Papel a mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores (Lisboa: Esfera do Caos, 2009).
Fico-me, por agora, pela introdução ao livro. Que não é tão curta quanto isso. Cerca de meia centena de páginas a justificar uma vida. Ou a explicar como um livreiro não pode existir sem ser leitor e, por vezes, a ser também escritor. Aliás, as três funções podem coexistir porque se sabe ser “confortável que escritores, editores e livreiros se sintam a viajar num mesmo barco para o país da leitura”.
Este texto é uma incursão pela memória, uma abordagem autobiográfica na viagem pela leitura dinamizada e possibilitada e pelas leituras feitas. Participa o leitor no que foi uma experiência dedicada à leitura nas suas várias frentes, no que foi (é) a história da acção de uma livraria (a Culsete) numa cidade como Setúbal no que à leitura respeita, no que foi um trajecto pessoal desde uma infância leitora no encanto açoriano até à acção em prol da leitura, com passagem pela experiência da escrita poética e com paragens em projectos de revistas ou de livrarias outras. Leitura, escrita, livros, tudo com os seus tempos, ganhando sentido nesta arrumação de “papel a mais”.
Nesta viagem, sentimos também muitas provocações, que são, sobretudo, um questionar o mundo do livro e da edição e o universo da cultura. Uma: “É do erro intelectual e da barbárie dos poderes, ganâncias e fanatismos que vêm e sempre vieram todas as involuções das civilizações.” Forte, demasiado forte, verdadeira mais do que acintosa. Outra: “Como é que um país pode ser culto sem edições disponíveis de obras fundamentais quer da cultura nacional quer da universal? Miséria de editores ou miséria de leitores? Nunca compreendi. Mas a conclusão, sim: miséria de leitura.” Forte, também, e dizendo respeito a todos, que nos vamos comprazendo com literaturas “light” e aceitando fotocópias que desmantelam livros e saberes e alteram hábitos. Mais uma: “Encontrei quem se escandalizasse ao constatar que havia editores a publicar livros sem os ler, mas nunca encontrei quem se admirasse de um livreiro ser ignorante como leitor”. Também forte, mexendo com as formas de atendimento que não podem ser meramente comerciais, mas têm de ser cultas e humanas, gerando uma ideia de livraria como espaço de procura de saber, que também o é; também forte porque a narrativa aqui inscrita vai sendo pontuada pelas referências de leitura de uma vida, assim abrindo caminho para a exigência dessa sobreposição do livreiro com o leitor. Por aqui perpassam ideias para um mundo da leitura a vir ou a ser, algumas delas experimentadas, vividas no âmago de um percurso quase a sós, recheado com algumas compensações (como a de encontrar leitores filhos de outros leitores que neste percurso descobriram, uns e outros, o fascínio da leitura).
“Histórias do meu percurso livreiro”, assim sumaria lá mais para o final desta introdução o velho livreiro. Memorialismo assumido, pois. Com relato de saber e algum exemplo. Como todos os olhares para trás numa vida, este é também uma reflexão sobre a prática, sobre o caminho levado, em que muitas vozes, saberes, escritas, nomes, leitores, momentos, escritores, conversas, editores, poemas, opiniões, lançamentos e prosas se cruzaram, encontrando-se, fazendo do livro um ponto, momento, espaço de encontro, de comunhão. É pouco? É um sentido, é uma vida.
Concluo com uma pergunta do início desta introdução ao livro, que constitui o desafio para essa procura de sentido: “Valeu a pena na perspectiva da leitura tirar a vida ao escritor por dedicá-la ao livreiro?” Há uma coisa que eu sei: a minha experiência de leitura tem vindo a ser enriquecida com os despertares que também da livraria do Manuel Medeiros vão irradiando. E nesta leitura de Papel a mais não encontro novidades, acho pedras sobre que se edifica aquilo que este livreiro tem sido.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Morgado de Setúbal, dois séculos depois, em Setúbal

Até 28 de Novembro, o visitante tem a possibilidade de poder admirar 24 obras do Morgado de Setúbal, provenientes de várias colecções, numa exposição patente na Casa da Baía, em Setúbal, intitulada "Pintura e quotidiano - O Morgado de Setúbal, um pintor do tempo de Bocage". A acompanhar a mostra, há um roteiro contendo textos de Fernando António Baptista Pereira, Joaquim Oliveira Caetano e Ana Maria Fernandes, bem como reproduções fotográficas de obras do pintor.
No décimo-primeiro capítulo de Viagens na Minha Terra, quando ainda está para começar a história da personagem Joaninha, escreveu Almeida Garrett, descrevendo um cenário que apresentava o movimento da dobadoira junto da qual estava a avó da protagonista: "Era o único sinal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso, velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa escultura de António Ferreira ou um daqueles quadros tão verdadeiros do Morgado de Setúbal". O romance começou a publicar-se em revista em 1843 e o Morgado de Setúbal tinha falecido em 1809. À distância de pouco mais de três décadas sobre a sua morte, o génio de Garrett invocava para a pintura do Morgado a qualidade da fidelidade do retrato em relação ao objecto.
Muito embora tendo ficado conhecido por "Morgado de Setúbal", o certo é que José António Benedito Soares da Gama de Faria e Barros nasceu em Mafra por meados do século XVIII, em 21 de Abril de 1752, na altura em que seu pai, António José Bernardo Soares da Gama e Barros, casado com Josefa Antónia Caetana Perpétua de Ossuna, exercia as funções de síndico no convento mafrense dos frades arrábidos.
Mais tarde, viria para Setúbal, onde administrou o morgado dos Soares, que veio a herdar. Na cidade do Sado, acabaria o Morgado os seus dias, quando ainda não tinha 57 anos, solteiro, com uma filha que não conseguiu legitimar ("pela ter havido em mulher casada"), deixando os bens a José Augusto Maria Lopes Soares de Faria Mascarenhas de Barros e Vasconcelos, seu sobrinho, e sendo sepultado em túmulo de família na Igreja de Santa Maria.
O nome do Morgado de Setúbal consta na toponímia sadina, em rua da freguesia de S.Sebastião. No entanto, a cidade prestou-lhe já outra homenagem, colocando lápide evocativa na casa em que viveu e faleceu. Porém, entrado o edifício em ruína e definitivamente demolido, a evocação pública desapareceu também. A imagem do Morgado foi reabilitada para Setúbal em 1957 pelo pintor Luciano dos Santos, que o integrou no painel dos artistas do seu "Tríptico", desde essa data exposto no Salão Nobre da Câmara Municipal.
a lápide e a casa
Apesar da importância que a obra do Morgado de Setúbal teve, o primeiro centenário do seu falecimento, ocorrido em 12 de Fevereiro de 1909, não teve grandes manifestações, talvez pela situação de instabilidade que o país vivia e por razões particulares que afectaram vários prováveis intervenientes nessas comemorações. No entanto, houve esforços para que a efeméride fosse assinalada, sobretudo da parte de António Maria de Faria, bisneto do sobrinho a quem o Morgado deixara os seus bens, que contactou conhecidos e jornais de Mafra, de Lisboa e de Setúbal, a fim de promoverem a data, tendo ele mesmo organizado uma antologia com os vários artigos publicados e alguma correspondência a que deu o título de Primeiro Centenário da Morte do Célebre Pintor Morgado de Setúbal, editado em Milão em 1909.
Em 22 de Outubro de 1908, o periódico Revista de Setúbal publicara longo texto, lembrando que, em Fevereiro do ano seguinte, passaria o primeiro centenário do falecimento do Morgado de Setúbal e propondo quatro manifestações: uma exposição da obra, a publicação de um jornal em número evocativo e único, a realização de um sarau literário e a aposição de uma lápide na casa em que vivera o Morgado. Contudo, na véspera da data evocativa, em 11 de Fevereiro de 1909, o mesmo jornal lamentava-se: "A nossa voz ficou quase sem eco; e, se não fora as referências deste jornal, é possível mesmo que o dia passasse despercebido, o que realmente não seria muito lisonjeiro para os apregoados brios desta cidade".
Certo foi, no entanto, que a lápide, pelo menos, chegou a ser colocada, contendo os seguintes dizeres: "O célebre pintor Morgado de Setúbal - José António Benedito Soares da Gama de Faria e Barros - senhor que foi desta casa, aqui residiu e faleceu solteiro a 12-2-1809". Uma fotografia de Américo Ribeiro, datada de 1939, publicada em Setúbal d'Outros Tempos, reproduz o café "Casa das Águas", com a lápide ao nível do primeiro andar. Numa outra fotografia datada de 1952, publicada na mesma obra, já o prédio estava parcialmente destruído, sem o primeiro andar. Acabaria o mesmo por ser demolido para naquele espaço ser construída a sede da Caixa Geral de Depósitos, na Avenida Luísa Todi.
Em 11 de Fevereiro de 1952, véspera de mais um aniversário da morte do Morgado, o jornal O Setubalense informava que a lápide, "em mármore branco, por sinal já partida numa ponta", se encontrava num casarão que arrecadava forragens, propriedade do industrial Henrique Gomes, "ao fim da rua José Carlos da Maia, quase à entrada do Bairro dos Olhos de Água". Dois dias depois, o jornal acrescentava que Henrique Gomes adquirira a lápide "a um indivíduo que, por sua vez, nada soube dizer sobre a proveniência dela".
entre as flores e S. Pedro
As resenhas biográficas do Morgado de Setúbal rapidamente começaram a ser difundidas. Logo em 1815, José da Cunha Taborda fez o seu retrato em Regras da Arte da Pintura, sucedendo, em 1823, uma outra da autoria de Cyrillo Volkmar Machado, que sobre o artista escreveu: "pôs-se a pintar toda a sorte de objectos que lhe pareciam pinturescos, como aves, animais, utensílios de cozinha, frutos, labregos notáveis, hortaliças, etc., e, apesar da extrema secura e dureza do seu pincel e da composição dos seus painéis, há em muitos deles coisas tão naturais que agradam".
Em 6 de Fevereiro de 1858, o periódico O Curioso de Setúbal apresentava uma nota biográfica, relatando que a inclinação do Morgado para a arte lhe vinha desde a infância: "sem mestre, começou desde logo, extraindo do suco das flores, a imitar com as próprias cores a natureza". Um pendor de "naturalidade" foi aposto às obras do Morgado de Setúbal, contando-se histórias como a que, "pintando um gato em um quadro, foi necessário retirar este da vista de alguns cães, que se arremessavam ao animal pintado, julgando agredir um gato natural", como registou Almeida Carvalho nos seus apontamentos. Curiosa também é a história do modelo para pintar a figura de S.Pedro: tendo-se comprometido com uma encomenda de um quadro sobre o santo, andava o Morgado a passear pela praia de Tróino quando reparou num pescador, de cabelo desgrenhado e barba crescida, que logo contratou para ir ao seu gabinete; cioso do seu aspecto, o pescador, com o dinheiro recebido, tratou do cabelo e fez a barba, vestiu-se melhor e apareceu ao Morgado na data combinada... Foi o desgosto do Morgado, porque o aspecto que o pescador apresentava já não servia para modelo! O que há de verdadeiro nestas histórias? Pouco, provavelmente, uma vez que há quem as conte, com ligeiras variações, sobre outros artistas. No entanto, serviram também para rechear a biografia do pintor de Setúbal.
Aquando da celebração do primeiro centenário da morte de Bocage, em 1905, foi organizada em Setúbal uma exposição, promovida pela Associação Setubalense de Socorros Mútuos das Classes Laboriosas, onde estiveram presentes vários quadros do Morgado de Setúbal. Cerca de meia centena de obras suas voltariam a estar expostas na cidade do Sado na primeira quinzena de Agosto de 1964 (com 600 visitantes só na primeira semana). Em texto para o catálogo, Glória Guerreiro escrevia sobre o traço do Morgado: "há nas suas pinturas um cunho tipicamente nacional, que é o seu maior mérito; nas suas telas reflecte-se a ingenuidade do nosso povo, aliada a um certo lirismo", apreciação bem diferente daquela que lhe fez o polaco Rackzynski, que, no século XIX, considerou o Morgado de Setúbal um "fraco desenhador", de um "colorido terroso".
Com uma obra dispersa por muitos particulares e por museus (Museu Nacional de Arte Antiga, Museu de Évora, Museu Carlos Machado, de Ponta Delgada), o Morgado de Setúbal foi contemporâneo de Bocage, de Luísa Todi e de Santos Silva, formando, com os três, um grupo bem interessante para a cultura sadina da centúria de Setecentos.
João Reis Ribeiro. Histórias da região de Setúbal e Arrábida - I.
Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2003, pp. 77-82

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Rostos (134) - No Dia do Armistício

Monumento aos Mortos na Grande Guerra, em Estremoz (1941)
Às 11 horas do dia 11 do 11º mês de 1918, punha-se fim ao flagelo iniciado no Verão de 1914. Aquilo que inicialmente se pensava que não chegaria ao Natal de 1914 estendeu-se, afinal, por quatro natais, quase chegando ao quinto!... A guerra no seu esplendor, na sua barbaridade! Saldo: 8 milhões de mortos e 22 milhões de feridos, destruição e o lançamento das raízes que viriam a gerar uma nova guerra dali a duas décadas. Na trincheira, lembrada no monumento estremocense, era o convívio dos homens com a sobrevivência, a vida, a morte, a lama, os ratos, os piolhos, a coragem e o medo. Sobre esse mítico número 11, passam agora 91 anos.

Rostos (133) - No dia de S. Martinho

Evocação da história de S. Martinho, em Oxford, no sítio onde existiu uma igreja que o teve como patrono

domingo, 8 de Novembro de 2009

Depois da leitura de "Homenagem ao Papagaio Verde", de Sena

O conto “Homenagem ao Papagaio Verde”, de Jorge de Sena [integrado na sua obra Os Grão-Capitães, disponível também na antologia Homenagem ao Papagaio Verde e outras histórias de animais (Col. "1001 Livros", 8. Lisboa: Lisboa Editora, 2006)], foi proposta de leitura. Quase no final da narrativa, o leitor “assiste” à morte do Papagaio Verde, depois de se ter apercebido do que significara esta personagem para o narrador. Foi pedido aos alunos para imaginarem que, nos últimos dias de vida, o Papagaio Verde tivera necessidade de deixar uma mensagem escrita para a criança que o acompanhara, relembrando a relação entre os dois e manifestando os seus sentimentos quanto ao que ambos viveram. Aqui deixo sete dessas abordagens, devidas aos meus alunos de 8º ano, com a contingência de ter sido um trabalho feito em aula, sem tempo para outros pensamentos e aperfeiçoamentos que pudessem acontecer fora desse espaço.
1) Ana Sofia Simões
Amigo:
Decidi deixar este documento escrito para te lembrares sempre de mim. Para que não te esqueças dos nossos passeios pela casa, dos nossos concertos ao piano e até do truque que me ensinaste com a vassoura. Nunca te esqueças que, sempre que precisares de um amigo, há um, algures no teu coração. Esse amigo é verde e voa.
Eu estou a morrer, disso já sabes. Os papagaios têm uma vida curta. A minha pode ter sido curta, mas foi óptima ao teu lado, companheiro. Por estes dias, parece que tenho alucinado, dizendo tudo o que me vem à cabeça, o que aprendi ou o que ouvi.
Eu sei que vais sentir a minha falta, mas a vida é mesmo assim. Uns nascem, outros morrem. Tu foste o único em quem confiei. Só me aguentei mais tempo porque me obrigavas a comer e porque dizias à tua mãe para me fazer o curativo…
Só te peço uma coisa: não te vás abaixo com a minha morte. Cuida do Papagaio Cinzento. Sê feliz por mim. Sei que não estarei a teu lado, mas também sei que vais ser feliz. A morte não é o fim do mundo… Talvez arranjes outro papagaio para o meu lugar na gaiola, mas eu sei que o do coração estará sempre reservado para os nossos dias de alegria e diversão.
Serás sempre o melhor amigo que alguma vez um papagaio teve.

2) Ana Veloso
Querido Amigo,
Sei que já não me restam muitas horas de vida e, por isso, quero deixar-te uma última recordação.
Em cada dia que passa, sinto-me cada vez mais fraco e a perder a minha grande beleza, mas tu estás sempre lá para carinhosamente me tratares e me dares a comida que eu próprio já nem consigo comer, embora logo de seguida, num movimento rápido e leve, me deite no canto da gaiola a desfalecer…
As músicas que tocas para mim no piano… confesso que me consolam, pois são as minhas músicas preferidas. Sei também que já faltaste à escola para ficares a cuidar de mim e a dar-me o teu ombro amigo e que, quando não faltas à escola, mal ela acaba, vens a correr para casa.
Sinto-me o papagaio mais privilegiado do mundo por te ter conhecido. Um grande obrigado por tudo.
Quando chegares, pressinto que já cá não estarei. Cuida bem de ti.
PS: Nunca te esquecerei. Foste o melhor amigo que alguma vez poderia ter arranjado.

3) Bárbara Arrojado
Querido rapaz:
Sei que estás triste por eu estar a morrer, mas quero que saibas que eu estou muito contente pelo que passámos juntos – as brincadeiras que fizemos dentro de casa, as visitas que fizemos ao Papagaio Cinzento e também por me teres cuidado assim tanto!
Espero que tenhas entendido o que é a amizade.
Não quero partir sabendo que vais continuar só e triste, porque eu sou um papagaio que gostou muito de ti, que te queria acompanhar por mais tempo, ensinar muitas mais coisas boas.
Mas também tens de perceber que não é por causa de uma “pessoa” que não vais ser feliz. A vida continua em frente.
Também não quero que te aborreças muito com a tua família. Como eu te disse, é a tua família.
Gosto muito de ti, não te vou esquecer (espero que não te esqueças de mim).
Papagaio Verde

4) Maria Antunes Marques
Querido e fiel amigo,
Agradeço-te tudo o que fizeste por mim. Agradeço-te por me teres deixado de fazer o curativo, porque, apesar de eu saber que era para meu bem, causava-me um enorme sofrimento.
Adorei aqueles momentos passados ao lado do piano em que eu, com as minhas garras (já sem força), agarrava a tua mão esquerda e tu, com a tua mão direita, tocavas as melodias que eu adorava, as mais belas, as mais pacíficas… Aquelas em que eu dançava mas que, naquela altura de sofrimento, estava incapacitado de fazer.
Agradeço-te por me teres tratado como um rei. Por me teres dado água e alimento, apesar de eu normalmente os recusar. Mas, de vez em quando, lá fazia um esforço, só para te agradar.
Agradeço-te por teres ouvido o meu reportório final. Aquele que era igual a todos os outros. As frases que eu costumava dizer, os palavrões que tu não devias ouvir e até aquelas palavras em línguas que tu nem sequer conhecias.
Sei que a última frase que me ouviste dizer não foi a mais agradável mas peço-te que me guardes na tua memória e no teu coração como um fiel amigo… Não! Como um fiel melhor amigo!
Bicadas Carinhosas
Papagaio Verde
P.S.: Vou guardar-te na memória e no coração até à eternidade.

5) Paolla Moura
Quando cá cheguei, sentia-me sozinho e amargurado. Passei por muitos lugares, navios, terras, florestas, mas nunca estive num sítio como esta varanda e eu sabia que ia ser para durar. Não tinha confiança em ninguém e as empregadas eram muito importunas. Ainda me lembro das vezes em que me deixavam encharcado e me aleijavam com a vassoura de modo a tentar irritar-me! Mas isso foi passando com o tempo, aquele ódio doentio pelos humanos, porque tinha de arranjar um espacinho no meu coração para ti. Continuava a odiar, mas a nossa amizade era mais importante e para mim marcou um novo ciclo na minha vida, um ciclo de amizade.
Lembro-me das malandrices e planos maldosos, porém divertidos, que fazíamos, passando por insultar os vizinhos com os mais variados e cómicos palavrões e a acanhar o Cinzento, aquela sombra da qual não gosto nem vou gostar. A monotonia foi desaparecendo e as divertidíssimas melodias ao piano tornaram-se habituais.
Eu ficava à tua espera, contando as horas, minutos e segundos, pois a minha única alegria eram as nossas brincadeiras. Mas o destino foi cruel e quis que eu apanhasse esta doença. Mas quero que saibas que, onde quer que esteja, vou sempre lembrar-me de ti e a nossa amizade vai sempre sobreviver ao tempo e até ao ímpeto da morte.
Obrigado, amigo.

6) Sara Santos
Querido Amigo:
Lembro-me bem daquela vez em que as criadas queriam lavar-me a gaiola, coisa que eu odeio, e me molharam. Tu foste ter comigo e limpaste-me docilmente as penas. Percebi nesse momento que não teria de ser reservado contigo. Ou de quando eu saí da “prisão” para melhor ver o céu, fazendo um alvoroço cá em casa, e tu apareceste lá com uma cara sorridente!…
Sabes?, adoro quando me levas para ao pé do piano e me tocas a minha música preferida. Nesse momento, sou uma abelha que encontra uma rosa pela primeira vez, sou uma mãe que vê o filho crescer…
O tempo que me resta é escasso, mas quero que saibas que só a tua presença me tira da sonolência, que só como para te fazer feliz.
Metade de mim já partiu, o exterior, e em breve partirei completamente. Guarda-me no lugar a que chamam “coração”.
O teu sempre amigo,
Papagaio Verde
PS: Cá fora, o tempo está agradável. Às vezes, vem uma brisa que me despenteia as penas.

7) Sofia Azevedo

Carta para o meu Amigo e Companheiro de sempre

Sim, sou eu, o Papagaio Verde, aquele que muitos desprezaram, ignoraram e fingiram nem sequer existir.
De todas as viagens que fiz, de todas as pessoas que conheci, tu foste o único que me acolheu, falou comigo, chorou comigo e até tocou para mim aquelas músicas de que eu gostava. Sim, as músicas, como eu as recordo! Alegravam-me e libertavam-me das angústias, sofrimentos, más recordações e, por vezes, até daquelas malditas alucinações.
Tanta coisa te queria eu dizer, mas só tenho estas linhas para te escrever… Vou, por isso, adiantar-me.
Lembro-me de quando te vi pela primeira vez. Eu pensei: “Mas que raio! Um pirralho agora para me puxar as penas e fazer-me arreliar!” Na verdade, eu pouco me engano, posso quase dizer que esta foi a única vez. Enganei-me redondamente. Foi pena só ter descoberto naquela tarde, a pior tarde da minha vida! Malditas empregadas, malditos banhos, estava eu tão nervoso, às voltas na gaiola, a pingar das penas e do bico!... Pensei não resistir, afinal a idade não perdoa e tão encharcado que eu estava!... Foste tu quem me acudiu, quem me enrolou num pano, quem me secou as penas e me disse palavras bonitas com uma calma voz. Nesse momento, olhei-te de forma diferente e vi-te não como miúdo mimado, mas sim como pessoa meiga e solitária. Tu completavas-me, eras o único humano que para mim merecia respeito!
Estiveste desde então sempre a meu lado, até ao fim, e digo bem “fim”, pois esse chegou. Deixo-te aqui as minhas palavras escritas. Com tudo isto só te queria dizer: adoro-te!
Saudades do Papagaio Verde

Rostos (132)

Aldrava, em Faro (colaboração de Quaresma Rosa)

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Política caseira (107): Oposição sadina não quer pelouros

O Setubalense: 04.Novembro.2009

domingo, 1 de Novembro de 2009

Corrupções

A gente vai ouvindo e lendo as notícias e… não pode ignorar. Como podemos acreditar numa série de pessoas, habitualmente a circular nos corredores do(s) poder(es), sistematicamente envolvidas em histórias algo obtusas e pouco (ou nada) claras, como? Não sei se há justiça que chegue, isto é, se há sistema judicial que consiga atender a todos os casos, não sei. O que sei é que somos continuamente bombardeados com notícias que nos atingem com flamas de incompetência, de cambalacho, de negociata, de imoralidade e sei lá que mais… O que sei é que seria bom que, para saúde da democracia e da sociedade, essas pessoas suspendessem as suas funções até prova de inocência ou de culpa. Talvez passássemos a confiar mais uns nos outros, talvez acreditássemos mais no regime em que estamos, talvez. Não podemos é andar neste jogo em que se está à espera do nome seguinte, conhecido e destacado, envolvido em mais um escândalo, venha ele da banca, da política, das chefias ou dos delfins! É necessária uma ética social em que todos estejamos envolvidos. E não podemos aceitar que a nossa sociedade ande a reboque da escandaleira sucessiva e da suspeita contínua. Haja decoro, porque o país é mais interessante do que as imagens que têm passado e porque o país deve impedir que estas situações se perpetuem (como, infelizmente, tem acontecido)!

sábado, 31 de Outubro de 2009

Memórias portuguesas da I Grande Guerra na Biblioteca Municipal de Setúbal

Em 28 de Junho de 1914, dia de São Vito, em Sarajevo (na Bósnia-Herzegovina, sob domínio austríaco havia seis anos), o arquiduque e sucessor Francisco Fernando da Áustria (1863-1914) e sua mulher, Sofia Choteck, duquesa de Hohenberg, foram assassinados pelo jovem estudante Gavrilo Princip (n. 1894), um elemento ligado à causa pan-eslava, que pretendia reunir todos os eslavos do sul sob a coroa sérvia.

O governo de Viena decidiu então acabar com a Sérvia, tendo o Kaiser Guilherme II garantido apoio à Áustria-Hungria. Em 23 de Julho, Viena concedeu 48 horas aos sérvios para castigarem os culpados do atentado, pretendendo ainda enviar agentes seus para uma investigação no terreno, medida que Belgrado não aceitou, apesar de concordar com o ultimato. Em 28 de Julho, Francisco José (1830-1916), tio de Francisco Fernando e imperador da Áustria, então com 84 anos, declarou guerra a Belgrado. As movimentações bélicas aceleraram-se: a Rússia, aliada da Sérvia, decretou a mobilização geral e a Alemanha, sentindo-se ameaçada, declarou guerra à Rússia (em 1 de Agosto) e exigiu à França a sua neutralidade. Mas o Presidente da República francês Poincaré (1860-1934), defendendo a União Sagrada, levou os franceses a acalentar a esperança da reconquista aos alemães do território da Alsácia-Lorena, que tinha sido perdido para os teutónicos em 1871.
Sendo a França aliada da Rússia, a Alemanha tentou atacá-la através da Bélgica, conforme previa o plano Schlieffen. Em 3 de Agosto de 1914, o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Edward Grey, terá desabafado, ao anoitecer, à janela do seu gabinete: “Agora, extinguem-se as luzes em toda a Europa. Não voltarão a acender-se enquanto vivermos!” A Inglaterra entrou no conflito devido ao seu empenho em defender a Bélgica por questões estratégicas. Todas as partes pensavam que a Guerra terminaria antes do Natal, isto é, dali a cinco meses. Aquilo que Bismarck prognosticara estava a acontecer: um erro cometido na zona dos Balcãs seria responsável por uma guerra europeia.
A guerra não demorou os cinco meses; prolongou-se por quatro anos. No final, oito milhões e meio de soldados pereceram nos campos de batalha (7500 portugueses incluídos), ignorando-se o número de civis mortos, bem como o de participantes psicologicamente afectados ou estropiados. Portugal lutou em duas frentes – a europeia e a africana –, verdadeiro suplício para um país que não era rico e que pensou, pela via da participação na Guerra, obter o reconhecimento do estrangeiro.
De tão grande catástrofe ficaria povoada a memória, acentuada nos escritos testemunhais em que, como referiu Hernâni Cidade (ele próprio combatente na Flandres), se nota uma contradição fundamental: “a falta de harmonia entre o homem essencial e o homem exterior, isto é, entre o homem livre no seu sentimento e na sua razão e o homem deformado pela pressão das circunstâncias que o rodeiam”.
Quando estão já desaparecidas as testemunhas e os actores do que foi a Grande Guerra, é urgente estar de acordo com Philippe Dujardin, quando diz que “la militance mémorielle institue un état de veille”, cabendo à literatura um papel primordial. E como contribuíram os testemunhos para a ideia do que foi a Grande Guerra? Naturalmente que, de um ponto de vista da escrita testemunhal, haverá de imediato a tendência para se filiar o registo na genealogia épica, o que se compreende porque a expressão literária da guerra acaba por não se afastar do que foi a história dos homens que a fizeram, viveram e escreveram. Esta escrita testemunhal, veiculada pelo memorialismo, pela diarística, pela correspondência e pelos romances autobiográficos, sentiu o dever de dizer a verdade, de assentar a literatura sobre a experiência e sobre o vivido, num compromisso do escritor com a escrita, exigindo que o leitor se situe perante uma narrativa a que não é alheia a tonalidade da emoção.
É difícil reconstituir o corpus da literatura memorialística portuguesa da Primeira Grande Guerra, apesar de ter já havido várias tentativas de catalogação. Mas, de vez em quando, essas obras vão aparecendo e permitem-nos participar, à distância, na vida das trincheiras.
Aqui se mostram algumas delas, com todas as limitações imaginadas mas com algumas intenções: avivar a memória, mostrar uma faceta da nossa literatura autobiográfica, ver até onde a Grande Guerra é, ainda hoje, motivo de ficção. Aqui e ali, mostram-se também obras estrangeiras sobre o mesmo tempo e sobre o mesmo tema, porque a Primeira Grande Guerra (que levou a que um estudioso, recentemente, a chamasse para apelidar o século XX como “o século de 1914”) teve marca universal. E o que nela sentiram os portugueses não foi diferente do que sentiram todos os outros participantes, independentemente das cores das bandeiras sob que lutavam…
[texto do roteiro que acompanha a exposição hoje inaugurada, que se manterá
na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal até 13 de Novembro de 2009]

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

O primeiro livro impresso em Setúbal tem 500 anos


“Esta obra foi imprimida em Setúbal por mim Herman de Kempis alemão, no ano de mil quinhentos e nove e se acabou a treze do mês de Dezembro”. Assim consta no cólofon do livro Regra, Estatutos e Definições da Ordem de Santiago, peça com cinco séculos, hoje considerada raridade, primeiro livro impresso em Setúbal.
Agora, quinhentos anos passados, com o apoio da Biblioteca Nacional de Portugal, a Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA) decidiu, numa tiragem de 250 exemplares numerados, promover a edição facsimilada da obra, que, aquando do mestrado de D. Jorge na Ordem de Santiago, compilou a documentação inerente ao seu funcionamento.
Esta foi a mais antiga edição da Regra santiaguista na Península Ibérica, com 115 folhas, na sequência do capítulo que a Ordem efectuou em Palmela, em Outubro do ano anterior (1508). Segundo Sousa Viterbo (O movimento tipográfico em Portugal no século XVI. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1924), esta obra integraria ainda o capítulo Confessional da maneira que os Cavaleiros da Ordem de Santiago pela regra se devem acusar quando se acharem culpados, que é apresentado como obra autónoma por alguns estudiosos e que não integra a edição facsimilada agora apresentada.
Herman de Kempis foi impressor de várias obras em Portugal, entre as quais: Flos Sanctori em linguagem portuguesa (1513), Boosco Deleitoso (1515), Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516) e Regimentos e Ordenações da Fazenda (1516).

domingo, 25 de Outubro de 2009

Rostos (131)

Monumento ao Marquês de Pombal, por Cutileiro, em Vila Real de Santo António

sábado, 24 de Outubro de 2009

Não havia necessidade...

... de, num dia, ser motivo de primeira página em jornais, ao dizer que não recebera convite do Primeiro-Ministro para ser ministra (quando, há muito, se falava do seu nome para ocupar a pasta da Educação), e, no dia seguinte, o seu nome aparecer como titular da pasta da Educação, integrando o governo proposto pelo mesmo Primeiro-Ministro!

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

A grande volta

Reunião em que se debatiam assuntos de escola. Um dos participantes, aparentemente bem informado, comunicava aos restantes que o futuro da educação (entenda-se: com o novo governo) ia ser uma surpresa, porque ia haver "uma grande volta". Expectativa... "Só espero que não seja de 360 graus!...", comentei.

O dia em que os Davids ganharam a "Shelter Competition"


O concurso “Design it – Shelter Competition”, promovido pelo nova-iorquino Guggenheim Museum, já tem vencedores: ambos se chamam David, ambos são europeus, ambos estão separados pela distância que vai de Palmela a Aarhus. Pela parte do público, o primeiro lugar foi atribuído ao português (de Palmela) David Mares, que recolheu 64875 dos cerca de 100 mil votos registados; por parte do júri, o vencedor foi David Eltang, da Dinamarca.
O projecto de abrigo apresentado por David Mares, concebido para o Vale de Barris (Palmela), apresenta a particularidade de ser construído em cortiça, fazendo face às variações de um micro-clima próprio; a proposta chegada da Dinamarca (Aarhus) visa proporcionar uma oportunidade para conhecer o habitat de aves e de focas, independentemente das marés.
No sítio do Guggenheim Museum, o projecto de Mares surge apresentado nos seguintes termos: «CBS – Cork Block Shelter is located in Vale de Barris, Portugal. The rectangular structure is composed of cork walls which provide thermal protection from a microclimate ranging from dry heat to damp cold. According to designer David Mares, “the dynamic facade gives visual interaction when in living-studying mode; in rest-sleep mode it closes to provide privacy for its occupant.» A proposta de Eltang é assim descrita: «David Eltang's SeaShelter is situated on the coastline of Denmark’s Wadden Sea, a popular location for wet hikes during low tide. Its interior workspace and observation and resting platform offer an opportunity for those hiking along the sand to experience the seabed during shifting tides, and the shelter provides a habitat for local birds and seals. According to juror David van der Leer, Assistant Curator of Architecture and Design at the Guggenheim, “SeaShelter creates an opportunity to experience full high tide and interact with the environment in dramatic ways. Providing a refuge for passersby and wildlife alike, the shelter invites narrative and possesses a welcoming quality that the jury viewed as reflective of the spirit of the Design It competition.”»
[Fotos: em cima, projecto de David Mares; em baixo, projecto de David Eltang. Fonte: site do Guggenheim Museum]

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Política caseira (106): A cada qual a sua decepção

Jornal de Setúbal: 19.Outubro.2009

O Setubalense: 19.Outubro.2009

Política caseira (105): A cada qual a sua vitória

O Setubalense: 19.Outubro.2009

domingo, 18 de Outubro de 2009

A "Nova Águia" em torno de Pascoaes, com a sua voz

O quarto número da revista Nova Águia (Sintra: Zéfiro, nº 4, 2º semestre 2009), sob a direcção de Paulo Borges, Celeste Natário e Renato Epifânio, já está na rua. O tema de capa é “Pascoaes, Portugal e a Europa”, que reúne abundante e diversificada colaboração, podendo considerar-se conjunto de bibliografia indispensável para o entendimento do pensar de Pascoaes.
Outro contributo importante deste número da revista para o conhecimento do poeta do Marão é a inclusão de um cd reproduzindo a leitura do texto “A alma ibérica” pelo próprio autor, Teixeira de Pascoaes, boa oportunidade para conhecer a voz do poeta que faleceu há mais de meio século (1952) e para ouvir um texto bonito sobre a Ibéria, onde, a dada altura, é dito: “A Ibéria é um corpo e uma alma. (…) O osso ibérico deu o esqueleto de Cervantes; a carne lusitana deu o coração de Mariana e o misticismo panteísta de Fr. Agostinho da Cruz, uma espécie de Francisco de Assis, em ingénua miniatura ou do tamanho da Arrábida.” E, quase no final da gravação, a Arrábida e o poeta de Ponte da Barca (que faleceu em Setúbal) voltam à voz de Pascoaes, depois de falar do sentimento de Unamuno relativamente a Portugal e à identidade ibérica, dizendo que “a expressão elegíaca da Ibéria, a mesma que recebemos na leitura de Fr. Agostinho” é a Arrábida, “olimpo místico e saudoso”.
Deste fascínio de Pascoaes pela Arrábida já nos testemunhara Sebastião da Gama em texto publicado no Jornal do Barreiro (nº 73, 11.Outubro.1951), sob o título “Carta de Setembro – Visita a Teixeira de Pascoaes” (depois incluído na obra O segredo é amar). Em 14 de Setembro desse ano, com Joana Luísa, sua mulher, Sebastião da Gama viajara até Amarante com a intenção de visitar Pascoaes, a quem ia oferecer os seus livros. Regressado desse encontro, em 23 de Setembro, ainda com a memória fresca, Sebastião da Gama redigiu a crónica para o periódico barreirense, testemunhando: “Na semana passada fui ver o Tâmega e o Marão. Fui ver S. Gonçalo de Amarante (…) Ali a dois passos ficava Pascoaes, o cantor do Marão e do Tâmega. Quis conhecê-lo. Tinha obrigação de conhecê-lo. (…) Era a gratidão pela sua poesia. Era mais: que eu fui à sua casa como um peregrino (…). E Pascoaes apareceu. (…) De repente, estávamos a conversar como velhos amigos. (…) Eu levava só a credencial de vir da Arrábida. Mas tanto bastava para aquele homem simples me receber de braços abertos. (…) E mais ainda ouvi-lo dizer: A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte. Foi quando tive pena que Pascoaes não tivesse nascido na Arrábida. (…)”
Em torno do tema que a revista escolheu para este número, estão presentes os seguintes autores: Pinharanda Gomes (“Pascoaes e a alma da Europa”), Pedro Teixeira da Mota (“Da actualidade de alguns ensinamentos de Teixeira de Pascoaes”), Pedro Martins (“Da Terceira Idade à Segunda Vinda: Algumas notas sobre o Messianismo de Pascoaes”), Paulo Borges (“Índias espirituais e ilusão em Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa”), Miguel Real (“O perfil de Portugal segundo Teixeira de Pascoaes”), Maria Luísa de Castro Soares (“Ser Português e Ser Universal na obra de Teixeira de Pascoaes”), Manuel Ferreira Patrício (“A saudade e a pátria no Livro de Memórias de Teixeira de Pascoaes”), Luís Loia (“A arte de ser Português e a necessidade da educação para a Portugalidade”), Luís G. Soto (“A metade da vida na estrada de Europa”), José Lança-Coelho (“Teixeira de Pascoaes no Diário de Torga”), Fátima Valverde (“Teixeira de Pascoaes e René Char face à grandeza universal do teatro”), Dirk Hennrich (“A terra tardinha em Teixeira de Pascoaes”), César António Molina (“Teixeira de Pascoaes, poeta filósofo”), Celeste Natário (“Teixeira de Pascoaes: Uma metafísica da saudade”), António Telmo (“O passeio que ficou por contar”), António José Borges (“Idealismo e ética: Saudades futuras da nova arte de ser português”), António Cândido Franco (“Nota corrida sobre o pensamento geo-estratégico de Teixeira de Pascoaes”), Samuel Dimas (“Regresso ao paraíso celestial”), Rui Martins (“Pascoaes: Um testemunho vivo das maleitas e dos tormentos do Portugal de ontem e de hoje”), Risoleta C. Pinto Pedro (“A Europa como reflexo da imagem verdadeira”), Renato Epifânio (“Entre Portugal e a Europa: Cinco notas e uma interrogação”), Paulo Feitais (“Portugal, o rosto da Europa? Para uma ética do encontro e da perdição”), José Eduardo Franco (“Polónia, país gémeo de Portugal na Europa”), José Telles de Menezes (“Muros e sebes: Da cidade murada às aldeias a oeste do éden”), Joaquim Miguel Patrício (“Portugal e a Europa numa era global”), João Bigotte Chorão (“Europa, Europas”) e Adriano Moreira (“Europa, a matriz do Ocidente”).
[Fotos: capa do nº 4 da revista Nova Águia e encontro de Sebastião da Gama com Pascoaes em Setembro de 1951.]

sábado, 17 de Outubro de 2009

Máximas em mínimas (51)

SUPER-HOMENS OU SUPER-PERSONAGENS
“Os romancistas têm o condão de criar personagens super-humanas, cujas biografias nos fazem entrever angélicos habitadores das regiões cerúleas – porque na terra, por melhor que se esquadrinhe, não se encontram. Que, lá verdade, verdade: o Artista Máximo, às vezes, consente que à terra desçam anjos de incomparável formosura, com almas de pura essência divina. Mas só de séculos a séculos isso acontece. Também se Deus se lembra de encher o mundo de criaturas superiores, os romancistas perdem a originalidade e a faculdade de inventar.”
Manuel Boaventura. Contos do Minho. Barcelos: Companhia Editora do Minho, 1927, pg. 118.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Política caseira (104): Distribuição de culpas no PSD sadino

O Setubalense: 16.Outubro.2009

Política caseira (103): Na hora do adeus

O Setubalense: 16.Outubro.2009

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Política caseira (102): Novos Presidentes de Junta de Freguesia em Setúbal

O Setubalense: 14.Outubro.2009

Política caseira (101): Conhecer o novo executivo da Câmara de Setúbal

O Setubalense: 14.Outubro.2009

Política caseira (100): Autárquicas dão demissão no PSD setubalense

O Setubalense: 14.Outubro.2009

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

O dia seguinte e depois...

O país tem vivido desde há longas semanas em período de campanha eleitoral. Acabou-se. Já não há desculpas para tantas discussões de projectos ou programas, para incumprimentos, para obras em cima das eleições.
O país tem vivido com o barulho ensurdecedor de altifalantes, de cartazes a esmo, de fotografias nas praças, jardins, ruas, esquinas. É tempo de regressar à obra, de limpar o rosto dos nossos espaços, de começar (ou continuar) a cumprir os projectos que levaram aos votos.
Muitos resultados contrariaram sondagens feitas sabe-se lá como. Setúbal foi, aliás, um dos casos. Está visto que os resultados locais não se pautam pela batuta dos resultados nacionais, muito embora as interpretações surjam quase sempre a estabelecer relações entre uns e outros. Houve quem apostasse na continuidade do quadro de resultados, com escassíssimas alterações, argumentando com a perpetuidade de quem está no poder e com a dificuldade em modificar os resultados. Enganos, claro! Foi um bom ensaio para o que pode suceder daqui a quatro anos, quando muitos dos presidentes agora reeleitos não puderem ser candidatos...
Por agora, no dia seguinte e nos que virão depois, é urgente regressar à obra, que será muito mais implacável do que a propaganda ou a demagogia com que se encheram recintos durante este Verão. É isso que se espera!

Política caseira (99): Dos resultados autárquicos no distrito de Setúbal

O Setubalense: 12.Outubro.2009

Política caseira (98): Dos resultados autárquicos no concelho de Setúbal

O Setubalense: 12.Outubro.2009

sábado, 10 de Outubro de 2009

A República na minha Escola

Alunos da turma D de 12º ano da minha escola, orientados pela professora de História, apresentaram ontem à comunidade uma sessão sobre os 99 anos da República. Foram cerca de 60 minutos de evocação, de saber, de divulgação, de criatividade, de trabalho, de arte. Por ali passou o esforço de investigação sobre personagens ligadas à implantação da República; por ali passou a evocação do primeiro Presidente da República; por ali passou a poesia vinda das palavras de Antero de Quental, de Miguel Torga e de Manuel Alegre; por ali passou a música que interpretou e recriou "A Portuguesa" (que emocionou muitos dos presentes); por ali passou a generosidade de um grupo de alunos que fez encher um auditório para mostrar resultados do seu trabalho. Foi simpático, instrutivo, bonito e útil.
Não podia deixar de registar esta forma de, através do trabalho dos / com os alunos, a nossa contemporaneidade e o nosso passado serem vividos na Escola. Momento alto no (quase) início do ano lectivo, pois!

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Política caseira (97): Migalhas de ética

Qual a finalidade de uma “Comissão de Honra” na candidatura a uma autarquia? Provavelmente, mostrar que cidadãos se disponibilizaram a dar a cara por essa candidatura, ainda que não a integrando.
Até aqui, tudo bem. As “Comissões de Honra” numa candidatura deste tipo valem pelos cidadãos que as constituem, com as suas identidades próprias.
Mas não faz parte dessa identidade o cargo que desempenham numa qualquer associação para que tenham sido eleitos ou nomeados, porque não podem comprometer a instituição que representam no apoio à candidatura “a” ou “b”, mesmo porque o lugar em que estão não é definitivo.
É por estas razões que antipatizo com as “Comissões de Honra” em que ao nome dos cidadãos e à respectiva profissão é acrescentado o cargo que desempenham no movimento associativo ou em organismos públicos.
Houvesse um pouco de ética e nem os cidadãos consentiam que esses dados figurassem nem os movimentos político-partidários usavam essa forma baixa de comprometer instituições. Pode ser uma questão de somenos, mas é um sinal da forma como os pactos funcionam e de como os pactos não deviam ser. No mínimo, é enganador. E é também um abuso.Não sei quantas candidaturas adoptaram em Setúbal esta prática, mas sei que houve quem a fizesse. Lamentável!

Política caseira (96): A cada um a sua campanha, mirando Setúbal

O Setubalense: 09.Outubro.2009

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Política caseira (95): Catarino Costa (PS) deixa a vida autárquica setubalense

O Setubalense: 07.Outubro.2009

Política caseira (94): A cada um a sua campanha, com Setúbal na mira

O Setubalense: 07.Outubro.2009

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Dia Mundial dos Professores, hoje

«Para construir o futuro: Invistamos nos professores agora!» Tal é a máxima escolhida pela UNESCO para o Dia Mundial dos Professores deste ano, data que é apresentada como «a ocasião de prestar homenagem aos professores e ao papel essencial que eles desempenham para uma educação de qualidade a todos os níveis.»
A mensagem da Unesco chama também a atenção para o que deve ser a função do professor hoje: «Num mundo interdependente e em evolução constante, os docentes devem não só assegurar-se de que alunos adquirem sólidas competências nas disciplinas de base, mas também de que eles se tornam cidadãos responsáveis a nível local e mundial e que usam as novas tecnologias e são capazes de tomar decisões claras nas áreas da saúde, do meio ambiente».

domingo, 4 de Outubro de 2009

Sobre "Que cena, professor!", de Thalita Rebouças

Pelas páginas de Que cena, professor!, de Thalita Rebouças (Lisboa: Editorial Presença, 2009), passam as memórias da personagem Maria de Lurdes, aliás, Malu, jovem com 22 anos que está a partilhar um apartamento com mais duas amigas e que, um dia, depois da visita da mãe, que não aprovou a (des)ordem vivida no apartamento, entabulou conversa com as amigas sobre uma possível arrumação da casa. Que não, que ela lhes fazia lembrar um professor do passado, sempre muito apostado nas arrumações. E estava lançado o desafio para a memória: lembrando um, outro e outro professor nos seus percursos, será Malu a confessar: “Eu tive tantos professores à maneira… Giros, queridos, apaixonados. Inesquecíveis. Lembro-me do Afonso, do Gordo, da Graciete, do Joaquim, da Angélica, da Valéria, da Fátima… Histórias com professores… Tenho a memória cheia delas.”
Intitula-se este capítulo “22 anos”, dando indicação sobre a idade da personagem, mas também sobre as experiências que por esta personagem já passaram e sobre o efeito que a memória nela tem. O capítulo seguinte intitula-se “3 anos”, indicando recuo longo no tempo, até à infância a partir da qual se reconhecem lembranças, tempo de “primeiro dia de aulas”, o primeiro dos primeiros, num mês de Setembro em que Malu ingressava no colégio infantil. Depois, os capítulos garantem a sequência das idades, um para cada ano de vida, com o que de mais marcante aconteceu nesse ano no percurso escolar da protagonista, até chegar, de novo, aos “22 anos”, outra vez título no derradeiro capítulo do livro.
Assim, a história é um longo “flashback” pelo itinerário em que Malu se encontrou com professores – no infantário, na escola de ballet, nos vários níveis de ensino frequentados, na escola de condução. De cada ano ficou pelo menos uma marca para a vida, em episódios lembrados pelo que significaram na relação com professores, com colegas, no crescimento e nas aprendizagens havidas, passando por coisas tão simples quanto a existência do Pai Natal, o (não) gostar do nome, as crises de identidade, as brigas com amigos, os sentimentos em torno das fotografias do conjunto turma, as visitas de estudo, os namoros, a estética e o cuidado com o corpo.
Por esta história vão passando situações particularizadas na vida de Malu, que bem podem ser as sentidas e vividas por todos os jovens. Contando a vida segundo um ponto de vista feminino, o de Malu, esta história bem pode ser uma leitura de género em que a rapariga se dá também a conhecer. Cada momento retratado através da memória tem relato curto, conciso, com economia descritiva, fortemente povoado de diálogo e de acção.
No final, o subtítulo “a vida continua” estabelece a ponte entre o narrado (e lembrado) e o aprendido que ficou para o futuro – “É muito bom olhar para trás e recordar todas estas histórias. Que saudade dos meus professores… São pessoas que marcam a nossa vida, os nossos conceitos, os nossos medos, as nossas inseguranças, as nossas emoções. E incentivam-nos a formar opiniões, testam-nos e deixam-nos ansiosos, curiosos; muitas vezes revoltados, outras empolgados, interessados.” O capítulo terminal é um canto de entusiasmo em honra dos professores tidos, que retrospectiva, lembra e lança a corrente dos afectos, numa junção dos momentos felizes evocados e do papel que os outros desempenha(ra)m na construção desse trajecto, final feliz, portanto – “A vida continua. E o importante é saber que a convivência com cada um dos meus professores foi óptima enquanto durou. Mas que queria muito dar um beijo repenicado na bochecha de muitos, ah, queria mesmo! E depois do beijo eu abriria o meu melhor sorriso e diria, sinceramente, do fundo do coração, aquilo de que me arrependo amargamente de nunca ter dito: Muito obrigada. Por tudo.”
As questões de crescimento e de formação de homens e de mulheres sobrepõem-se às latitudes e a vida também se faz com memórias. Este livro contém uma história com histórias para ler. Com um sorriso, pelo que retrata e pelo que sugere e pela graça com que os retratos nos chegam.

sábado, 3 de Outubro de 2009

Política caseira (93): A cada candidato sua campanha...

O Setubalense: 02.Outubro.2009

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Rostos (130)

Monumento ao Ovelheiro, de Camarro, em Quinta do Anjo, inaugurado hoje

Há pouco mais de 20 anos, o historiador palmelense, natural de Quinta do Anjo, António Matos Fortuna, escreveu um pequeno livro deveras significativo para a identidade da sua aldeia - Quinta do Anjo - Capital da ovelharia entre Tejo e Sado (Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1988). O título é curioso, pois terá sido a primeira homenagem aos pastores, aos tosquiadores, aos queijeiros, aos ovelheiros (a quem, de resto, chamou "semeadores de rebanhos em terras à volta"). Quase no final desse livro, lembrava António Matos Fortuna: "Mais ou menos, em todas as zonas do país existem pastores. Há, porém, algumas tipicamente consagradas nesse aspecto etnográfico. Em tal número ninguém pensará inscrever a freguesia de Quinta do Anjo, que sempre foi terra de ovelheiros." Duas décadas depois deste escrito, publicado em mês outonal, eis que o ovelheiro quintajense, de novo em mês de Outono, fica inscrito na memória e na identidade da aldeia.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

David Mares é finalista mundial com um projecto que enaltece a cortiça

David Mares, arquitecto, anda nas bocas do mundo por ser um dos 10 finalistas em concurso sobre abrigos promovido pelo nova-iorquino Guggenheim sob a designação de “Shelter Competition”. Ecologia, inovação e enquadramento na paisagem eram necessários, concorrentes foram mais de 600 a partir de 68 países. Entre os finalistas, escolhidos pelos estudantes da Lloyd Wright School of Architecture, há projectos da Argentina, do Brasil, da Colômbia, dos Estados Unidos, das Filipinas, de Inglaterra e de Portugal.
O projecto de autor português, de David Mares, já reportado na imprensa escrita e na internet, tira partido da capacidade de isolamento da cortiça e tem como cenário o Vale de Barris, em Palmela, recebendo a designação de “CBS – Cork Block Shelter”.
O público pode votar num dos dez projectos até 10 de Outubro. O resultado será conhecido a 21 de Outubro, depois de um júri se pronunciar. Se quiser ver os projectos finalistas e votar, passe por aqui.
O projecto de Palmela surge apresentado no sítio do Guggenheim nos seguintes termos: “CBS is located at Vale dos Barris. It was designed to be an ecological and living block. In a microclimate that ranges from the dry heat to damp cold, the application of cork is a good way of thermally isolating the shelter and also providing acoustic insulation for study/sleep. The dynamic facade gives visual interaction when in living-studying mode; in rest-sleep mode it closes to provide privacy for its occupant.” Para o visitante, há ainda fotografias, de que aqui se reproduzem algumas.

Política caseira (92): Maria das Dores Meira (CDU) fala sobre o estádio no Vale da Rosa

O Setubalense: 30.Setembro.2009

Política caseira (91): Paulo Valdez (PSD) e a candidatura à Assembleia Municipal setubalense

O Setubalense: 30.Setembro.2009

Política caseira (90): Bloco de Esquerda e as freguesias de S. Maria e Anunciada

O Setubalense: 30.Setembro.2009

Política caseira (89): Mário Nogueira (MPT) e a campanha em Setúbal


O Setubalense: 30.Setembro.2009

Política caseira (88): Teresa Almeida (PS) apresentou programa de candidatura

O Setubalense: 30.Setembro.2009

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Sobre "Memórias entre um sorriso", de Fernando Guerreiro

Ler Memórias entre um sorriso (Setúbal: ed. Autor, 2009), de Fernando Guerreiro, é um exercício de visita a um poeta, de entrada num mundo que se nos dá a revelar no seu presente e no seu passado, um franquear de portas pelos caminhos da memória, uma inscrição de um “eu” na história, na sua própria história, sempre a oscilar entre o que sente e o que foram os momentos com os outros. Não é por acaso que Fernando Guerreiro foi buscar para o título a palavra “memórias”! Na verdade, falar desta poesia fica incompleto se não se disser o quanto a memória por aqui foi trabalhando, o quanto ela se transformou num motor e numa fonte, recolectando os dias e os momentos, salvando o tempo.
Fernando Guerreiro, que assumiu no texto prefacial não ter o direito de submeter os amigos à prova de escreverem uma introdução para o seu livro, sabe que um diário ou as memórias são algo que constrói a fronteira da intimidade e do privado. Foi por isso que inaugurou o seu livro com um prefácio por si mesmo assinado, enquanto autor da obra, para dizer ao leitor que o objecto que lhe cai nas mãos está regado pelos afectos de uma vida, faz parte de “um Diário vivido e escrito em verso, sem retórica poética nem gramática cuidada”. Temos, pois, retratos dos dias de um “eu”, que podem ser lidos entre duas balizas: a da sinceridade, se acreditarmos que um diário é um depósito da autenticidade, ainda que mediada pela escrita, e a do artifício da escolha (nos textos seleccionados a partir de um período que desfila entre 1961 e 2008) e da forma (escolhendo o verso).
Mas estes poemas, além de terem essa marca do tempo, possuem também o desejo da inscrição, do partilhar instantes, sentidos e sentimentos com os outros, do fazer a história de um poeta, da recusa do esquecimento. A dado ponto do prefácio, há a confidência que alia a vida, a escrita e a publicação: “Ao chegar à minha idade e sem descendentes, olho para o espólio que juntei toda uma vida: os papéis que escrevinhei, as cartas que recebi, as dedicatórias que me escreveram, as honras com que me distinguiram, e surge-me uma pergunta angustiante que nunca tinha feito antes: quando eu partir, para onde irá tudo isto? Os livros, os quadros, as fotos, o Tempo e a traça se encarregarão de lhes dar destino. Mas aquilo que eu escrevi? Os Meus Afectos? Bolas!, ao fim e ao cabo são bocados do meu sentir, pedaços de mim, que, mal ou bem, com todos os meus defeitos e algumas possíveis qualidades, fui eu! É, pois, com este pensamento que deixo este livro a todos aqueles que o desejarem ler como prova incontestável de que existi.” Ora, o tal diário, a escrita, o livro ganham força porque atestam, porque comprovam que um “eu”, num determinado tempo e num não menos determinado lugar, existiu. A palavra escrita é, pois, o testemunho da existência, da vida. E tudo isto poderia ser uma verdade lapaliciana se não lhe associássemos, como temos de fazer, o facto de um autor se dizer e o pormenor de este autor ser também… actor! Duplamente actor, portanto: na profissão, porque representa, e como protagonista de uma vida, porque age.
Em cinco partes se apresenta dividido este livro, todas elas com título a preceito, insistindo na ideia do compromisso do poeta com a sua escrita e com a sua vida como objecto dessa escrita: “Folhas soltas de um diário” (a parte mais longa), “Gritos do meu silêncio”, “As marés do meu sentir”, “Pegadas do meu caminho” e “Foi pelo sonho que fui”.
Em todos estes títulos está nítida a presença do “eu”. Depois de se ter assinalado a marca da escrita diarística, vale a pena chamar a atenção para os títulos das duas partes seguintes, ambas manifestações do conflito que vai no poeta – o leitor ora é dominado pelo paradoxo entre os “gritos” e o “silêncio”, presente no título do segundo grupo de poemas (“Gritos do meu silêncio”), uns e outro impossíveis de conciliar e denotando uma veia lírica que canta as “coisas do coração”, o amor, os sentimentos, as dúvidas, a saudade, o que fica no interior do poeta, bem como é surpreendido por alguma sintonia ou identificação entre as “marés” e o “sentir”, constante no título do terceiro grupo (“As marés do meu sentir”), onde surge um conjunto de poemas que parte, muitas vezes, de circunstâncias ocasionais como um pombo no quintal, uma mosca incómoda, uma data, um momento de ironia, um beijo.
Se de conflito falei, entendido enquanto motor que suscita a acção, que desperta o “eu”, para as partes anteriores, creio que os dois últimos grupos de poemas são mais apaziguadores, levam o poeta mais ao encontro de marcas de identificação, venham elas do exterior ou tenham o “eu” como ponto de partida. A atenção dada ao papel do outro é sobremaneira visível na quarta parte (“Pegadas do meu caminho”), constituída por poemas sobre os amigos, sejam eles contemporâneos do poeta (e alguns têm acção bem conhecida no nosso meio e servem também para pontuar a tal dimensão autobiográfica deste livro, na medida em que são marcas de um tempo, de um lugar e também de uma vida) ou referências culturais que dominaram esse mesmo poeta, como são os casos de Bocage e de Sebastião da Gama, e um sobre a escola (por onde passam o afecto do apego – no uso do possessivo, “à minha escola” –, os professores e o tempo da infância, além de uma certa mística trazida pela memória da Escola Conde Ferreira, num tom que igualmente comprova o pendor memorialístico que Fernando Guerreiro quis imprimir neste livro).
Mas a vida, enquanto itinerário próprio, enquanto caminho assumido e construído pelo andar de um “eu”, surge forte no grupo de poemas que fecha a obra, intitulado “Foi pelo sonho que fui”, valendo recordar a resposta que esta afirmação pode ser ao convite deixado por Sebastião da Gama quando dizia “Pelo sonho é que vamos”, sendo também importante que neste conjunto vejamos aquilo que poderia ser um manifesto de vida, pois é nele que encontramos os poemas mais intensos do ponto de vista do retrato a legar, uma espécie de chave para desvendar todas as contradições de uma vida, com títulos em que a exposição do “eu” surge mais vincadamente explícita – “Liberdade em Sol Maior”, “Contabilidade”, “Autobiografia” e “Introspecção”.
Em torno dos poemas de Fernando Guerreiro ronda o amor, numa inconstância permanente e absoluta, ora sentido através do outro, ora acentuado no desejo, por vezes violento, outras vezes reduzido ao sexo, muitas vezes platónico, frequentemente causa de decepção, rondado pelo ciúme, deixando amargura, recalcamento, numa insegurança forçada porque “não há solução / para um coração quebrado”, porque o poeta se confessa farto de uma paixão que é “um ser e não ser”. Enquanto vamos passando pelos retratos – ou pelos momentos – que do amor nos falam nos poemas deste Memórias entre um sorriso, dificilmente não nos vem à memória aquele conclusivo e paradoxal terceto camoniano que irrompe depois de o poeta ter tentado definir o amor: “Mas como causar pode seu favor / Nos corações humanos amizade, / Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
A ironia suplanta muitas vezes a amargura e a resposta é dada, frequentemente, pela provocação, tom que surge evidente num texto como “Leilão”, em que o poeta anuncia pôr os seus sonhos à venda e, depois de fazer desfilar a variedade sonhadora, conclui num terceto: “Os meus sonhos estão à venda! / Vá, meus senhores! / Quem dá mais?” Esta marca provocatória, mesmo caprichosa, surge também dirigida a um “tu”, como em “Coisas do coração”: “Não quiseste quando eu queria, / Agora não quero eu…” Contundente provocação e não menos instigadora ironia ressalta também da definição de beijo num poema eivado de uma certa modernidade – depois de uma busca de definições sobre o beijo, que incluiu um passeio pela internet, o poeta conclui com a sua sapiente, defensiva e algo perversa opinião: “Eu, depois de tanto ouvir, / só tenho para dizer / com tantas explicações, / que o Beijo cá para mim / é forma de contrair / Gripes e Constipações!” O beijo serve, aliás, vários poemas, ainda que em registos diferentes – acentua, por exemplo, o amor e o início de uma relação (“Começámos com um beijo / o que eu chamo namorar”, no texto “História com princípio e fim”, temporizado por esse beijo e pelo final violento de uma bofetada, narrativa com o seu ingrediente de ironia no final – “E se aquele nosso começo / foi de forma apaixonada, / não foi menos engraçada / a bofetada do fim.”) Noutro passo, o beijo serve para despoletar os sentidos (“Quando me beijas gemendo / na tua sensualidade, / eu sinto que esses beijos / não acalmam meus desejos / nem me anulam a vontade.”, no poema “Indiferença”); num outro momento, o beijo é atirado “com a ponta dos dedos” para logo a seguir o poeta se interrogar sobre como terá ele sido recebido – e, uma vez mais, uma certo tom irónico conclui o raciocínio: “Se foi bem, / fico contente!... // Se foi mal, / olha… / Paciência!”
Pormenor bem significativo no campo dos afectos que neste livro perpassam é o olhar, seja o que irradia dos olhos do outro, seja o que decorre do gesto de contemplar através dos olhos próprios. É o poeta quem confessa esta fusão entre olhares, num fascínio mútuo – “Teu olhar não sei / o que é que ele tem, / uma coisa é certa: / ver-te sabe bem!” Noutro momento, deixa-se enredar na confusão suscitada no outro através do olhar – “Estou a ver como estranhaste / minha maneira de olhar”. Num outro texto, o olhar do poeta atinge um quase estado de encantamento, deixando-se levar pela imagem de um ser pouco preciso, quando regista: “Meus olhos seguindo o mover dos teus dedos / (…) / Meus olhos prendidos / ao mover dos teus lábios” Outra vez a sugestão camoniana do outro enquanto ser indefinível, em que se alicerça o amor platónico, sempre desejado e alimentado, mas nunca materializado. E, para que o poder que irradia de uns olhos fique completo, não podia faltar o fado ou a sorte, associado ao olhar, como acontece na “Balada dos olhos verdes”, estes definidos como “meu veneno, / minha razão de viver, / minha cura, / minha vida, / meu doce enleio de morrer. / (…) / Meu destino!”
Regressemos à questão autobiográfica, por ser essa a que abre e fecha o livro. O último grupo de poemas assume esse tom, mesmo porque um dos poemas se intitula “Autobiografia” e outro “Contabilidade”, títulos que se complementam porque uma escrita sobre o “eu”, sobre si próprio, é uma forma de registar o deve e o haver da vida. O último poema, não menos significativamente intitulado “Introspecção”, é uma despedida dos leitores e um quase pedido de desculpas – é que, no prefácio, Fernando Guerreiro recusara ser dominado pela “retórica poética” e, no final, o poeta, falando também de si, afirma a distância que está entre a Poesia (com P maiúsculo) e a sua obra – “Nós, os outros agraciados / por alguma habilidade, / apenas podemos dar / à Grande Mãe Poesia, / uns versos desentoados / que em infantil felicidade / nos dão uma certa alegria.” É este prazer de se dizer que comove também um actor. E, a este propósito, não será despiciendo assinalar outra marca autobiográfica que se intromete em vários poemas – a da representação e do prazer de ser actor, seja porque, numa conversação, se “divagou entre o Teatro / e o gosto de ser Poeta”, ou pela importância atribuída a uma mascarilha que esconde ao mesmo tempo que representa, ou porque as formas de disfarçar saltam aqui e ali, ou porque, como partilha no poema “Autobiografia”: “O Teatro e a Poesia / abriram de par em par / portas da minha Verdade”. Poderíamos ainda pensar que, mesmo apesar de tudo isto, o Fernando Guerreiro autor se distanciava do poeta a que deu forma no livro… esforço inútil, porque, mesmo no poema, o seu nome fica registado, prova de que este trajecto é mesmo autobiográfico, seja pelas memórias, seja pelo diário, seja pelos retratos. E a demonstração disso ressalta num poema como “A arte de representar”, onde, bem próximo do fim, o poeta exclama: “Ah! Fernando, meu estupor! / Quando perdes a mania / de em tudo querer ser actor?!”
Estes textos valem bem a leitura pelo retrato traçado e pela identidade que se apresenta, pelas amizades que cauciona, pelo uso da ironia com relativa parcimónia, pela obliquidade do amor e da paixão… e pelo sorriso com que a nossa leitura é, por vezes, surpreendida.
(texto lido na apresentação do livro, em Setúbal, em 21 de Setembro)

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Legislativas 2009 em Setúbal (no distrito e no concelho)


O Setubalense: 28.Setembro.2009

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Rostos (130)

"Caridade romana", por Bernardino Ludovice (1737), em Lisboa, no Jardim Botânico Tropical

A estátua, representando uma jovem (Pero) a amamentar o pai (Cimon), alude a uma lenda relatada por Valerio Massimo (15, aC-35, dC) na obra Factorum et dictorum memorabilium libri (Factos e ditos memoráveis), que fala sobre vícios e virtudes. A caridade é exaltada nesta lenda, em que Pero salva a vida de seu pai, Cimon, a morrer na prisão, amamentando-o durante as visitas que lhe fazia. Na base que sustenta esta escultura, há uma citação de Valerio Massimo. O episódio tem merecido a atenção de muitos artistas, podendo-se lembrar Francesco Primaticcio (com um quadro sobre o mesmo tema no Louvre) e Rubens (com obra do mesmo título no Rijksmuseum).

As verdades, o humor e o tempo da escola

Diário da Auto-Estima – 104
Verdade – Os partidos andaram a decidir quem falava verdade e quem a não praticava, com alguns políticos entretidos a apelidar os outros de “mentirosos” ou a avivar memórias. Melhor fora que tivessem insistido na clareza das suas propostas para o governo do país; melhor fora que as tivessem justificado e que não deixassem meias verdades a fustigarem-nos! Uma dessas meias verdades é a da possibilidade de formação de governo por coligações a seguir às eleições, cenário que tem feito as delícias das (in)decisões e tem mostrado apetites gulosos…
Humor – O que mais valorizei nesta campanha eleitoral foi o programa de humor dos “Gato Fedorento”, por ter sido o tempo em que os convidados se tornaram mais evidentes nas suas características – no teatro, na inteligência, na humanidade, no sentido de humor, na obsessão, no jogo de palavras, na comunicação… e também no contrário de tudo isto. Desfiz algumas dúvidas…
Escola – Está de volta. Espero bem que o ano lectivo não tenha a agitação do ano que passou, que não se volte a estar perante um quadro em que o ambiente de escola se paute pelo desagradável, com alguns políticos e comentadores a humilharem a escola que eles próprios construíram e frequentaram (não os tendo impedido de chegar onde chegaram…). Espero que a escola seja superior a todos quantos a tenta(ra)m desestabilizar.
Esta crónica deveria ter saído no Sem Mais Jornal de hoje.

Política caseira (87): Jorge Santana (PSD) entre os idosos

O Setubalense: 25.Setembro.2009

Política caseira (86): A candidatura socialista para S. Julião

O Setubalense: 25.Setembro.2009

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

A cor do dinheiro

A senhora fazia desfilar moedas em cima do balcão, na procura da importância certa. A vista já não lhe permitia distinguir os 10 cêntimos dos 20 cêntimos ou os 5 cêntimos dos 2 cêntimos...
- E a forma também não... São parecidas, mal se nota a diferença... - explicou, de cima da sua provecta idade.
A rapariga, ao balcão, ofereceu-se, no seu jovem olhar de águia e de experiência, para contar as moedas.
- Ah, faça-me então esse favor! Estas moedas não foram feitas para os velhos... - justificava a cliente.
- Pois, a senhora tem razão. Muitos se queixam do mesmo... Estas moedas, de tão parecidas que são, deviam ter cores diferentes para cada um dos valores, não era? Não rendia mais, mas sempre ajudava a fazer as contas, não era? - alvitrava a jovem por entre um sorriso.
- Como a menina tem razão! Até o dinheiro era mais bonito... Vê-se logo que é uma jovem! - elogiou a idosa, enquanto a importância era acertada em cima do balcão.
Depois, despediu-se e foi povoar o seu dia.

Política caseira (85): Jorge Santana (PSD) em Azeitão

O Setubalense: 23.Setembro.2009

Política caseira (84): Maria das Dores Meira (CDU) foi ao mercado

O Setubalense: 23.Setembro.2009

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Política caseira (83): Quando a política vira politiquice...

O Setubalense: 21.Setembro.2009
Ora aqui está como a campanha eleitoral nacional a que temos assistido tem as suas influências ao nível local. Isto é: assistimos a uma campanha eleitoral em que o importante não são as propostas a apresentar para o futuro mas os factos que se criam por dá-cá-aquela-palha.
Sempre embirrei (questão de feitio) com aquela prática de, numa sessão pública de Câmara (por exemplo), quando chegada a altura de uma votação, um vereador fingir que sai para não votar este ou aquele projecto, ficando a cena registada em acta. Sempre me pareceu hipocrisia uma história destas ou compromisso mal assumido. Cheguei a assistir a situações em que a personagem não saía da sala, mas dizia que era isso que fazia e... a reunião seguia, todos aceitando que a falada saída não era fictícia mas era real. Gargalhadas, claro!
Mas uma reunião pública de Câmara ser interrompida nos termos em que foi aquela a que a notícia faz referência... francamente! Tudo tresanda a brincadeira política e a jogo com o momento histórico que se vive. Lamentavelmente! Não é para cenas destas que os cidadãos dão os votos. Não é para atitudes como esta que eu assumo o meu papel de eleitor. Factos como este, que aconteceu na última sessão pública da Câmara de Setúbal, não convidam à participação cidadã, mas ao alheamento. A razão não vence por caminhos destes.

domingo, 20 de Setembro de 2009

Clássicos no "Expresso"

O semanário Expresso iniciou ontem uma colecção de seis livros intitulada "Clássicos da Humanidade", títulos inicialmente publicados pela Sá da Costa ao longo da década de 30, com sucessivas reedições até há bem pouco tempo, em que foi mantida a versão do texto mas houve a colaboração de novos ilustradores.
Trata-se de adaptações de obras clássicas feitas por escritores de nomeada como Aquilino Ribeiro, João de Barros ou António Sérgio, visando o público juvenil ou com dificuldade em aceder aos textos clássicos. Os objectivos destas obras estão, de resto, bem expressos no título que foi aposto à adaptação do poema épico de Camões, que esteve a cargo de João de Barros - Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo.
A colecção promovida pelo Expresso abriu com a adaptação feita por Aquilino Ribeiro da obra de Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, e vai prosseguir com mais cinco títulos, a sairem semanalmente (Os Lusíadas, Viagens de Gulliver, A Odisseia, História Trágico-Marítima e A Eneida). Obviamente, pela qualidade das adaptações, pelas referências que estas obras constituem e pela necessidade de saber, recomendei aos meus alunos que convencessem os pais a adquiri-las (a Peregrinação, saída neste Sábado, foi oferecida e as obras seguintes terão o custo de 1,00 € a adicionar ao preço do jornal, factor a considerar, uma vez que o custo total da colecção será de 5,00 €, enquanto, se fossem adquiridos os mesmos títulos na edição normal, o custo dos seis livros ascenderia a cerca de 70,00 €...). Os livros têm um formato um pouco mais pequeno do que os correspondentes que estão a correr no circuito livreiro. Pena é, no entanto, que tenham sido omitidas as ilustrações, ainda por cima com a agravante de, na capa, constar a informação "Ilustrações de André Letria"! De facto, nesta edição, do ilustrador é apenas o desenho da capa, uma vez que os outros desenhos, que acompanham a edição normal, foram suprimidos... Claro que para a leitura é o texto o mais importante, mas não pode ser menosprezado o papel que a ilustração tem nas edições destinadas ao público juvenil, muitas vezes pelo esclarecimento adicional, pela recriação ou pela estética...

sábado, 19 de Setembro de 2009

A propósito de "Bocage", de Romeu Correia

Na sua extensa bibliografia, Romeu Correia, autor que cultivou o conto, a biografia, o romance e o teatro, não deixou de se preocupar com Bocage, tornando-o tema e personagem central de uma peça constituída por um prólogo e duas partes, usando como título o nome do poeta (Lisboa: Editora Ulisseia, 1965). Bocage é, de resto, personalidade que, ao longo dos tempos, se tem prestado a ser personagem de inúmeras ficções, de biografias e de outros textos dramáticos – lembro, de repente, obras mais recentes, na área do teatro, como Bocage, de José Sinde Filipe (Lisboa: Prelo, 1974), Bocage, Ele Mesmo!, de Fernando Cardoso (Lisboa: Portugalmundo, 1999) e Bocage e as ninfas, de Fernando Gomes (produção do Teatro Animação de Setúbal, em 2005, sem texto publicado).
A obra de Romeu Correia, aparecida quando passava o segundo centenário sobre o nascimento de Bocage, mantém ainda hoje um vigor moderno, seja pela leitura que apresenta da obra e do percurso bocagiano, seja pela estrutura da peça, com muitas intromissões do autor no que poderiam ser recomendações de encenação, seja pela vontade de levar uma época e um país para dentro de um palco. Nesta peça representa-se também o teatro, com figuras da arte dramática como Arlequim, Pierrot, o Histrião, os Saltimbancos ou as Máscaras (sugerindo o papel do coro), numa espécie de “espectáculo de feira”, uma “representação dentro de outra representação”, como o pretendeu o autor.
Se, como subtítulo, Bocage foi apresentado como uma “crónica dramática e grotesca”, não foi para facilitar o entendimento ou a leitura, antes terá sido para destacar, mais do que a imagem que do poeta ficou, o percurso que ele teve e as circunstâncias que o fizeram. Na verdade, a anteceder a lista de personagens que entram em cena, a abrir a obra, ficou a observação: “Esta é a crónica dramática e grotesca de uma época, centralizada na figura singular do poeta maldito que foi Bocage. Inconstante e volúvel como o momento histórico que testemunhou, o poeta, entrando na Lenda como um incorrigível trocista e desfrutador de prazeres, confunde-se com a agonia do próprio século, o XVIII, – e os anseios anónimos, a irreverência e o escárnio de um mundo novo que nasce…”
A história começa com a evocação de uma anedota protagonizada por um Bocage mítico, lembrada por “uma voz”, ainda com o pano descido, ao mesmo tempo que no palco se vai delineando a personagem José Pedro da Silva (das Luminárias), amigo e protector do poeta, e conclui com a morte do mesmo Bocage, associada a uma encenação que o projecta para a memória, tal como é acentuado na didascália que orienta a encenação: “Súbito, mil mãos caem sobre o leito, rasgam o lençol e trucidam o morto, dividindo-o entre si, como relíquia. Este com um pé, aquele com um braço, aqueloutro com a cabeça, etc., e somem-se, felizes, no horizonte.”
Pela história passam momentos vários da vida e do tempo do poeta sadino – a viagem à Índia, o balão de Lunardi, a boémia, o café “Nicola”, a tertúlia, a censura, a prisão, a reeducação no mosteiro, as relações de amizade (Morgado de Assentis, Bingre, Santos Silva, os padres do mosteiro) e de desavença (Pina Manique, José Agostinho de Macedo) –, num trajecto em que a sua figura se vai impondo para, depois, começar a declinar, ao mesmo tempo que o ambiente vai ficando impregnado da poesia bocagiana.
O que vai zelando pela (boa) memória de Bocage é a presença em cena de uma figura como a de José Pedro. No início da peça, em tempo localizado na Lisboa de meados do século XIX, é ele quem se insurge contra o Bocage das anedotas e das pilhérias – “Não dêem ouvidos! É falso! Tudo o que dizem do sr. Manuel Maria são mentiras! As anedotas, as indecências… são quase todas inventadas!...” Esta indignação vivida em palco acentua a reacção ao anúncio de um cego que apregoava “as anedotas do Bocage… e mais versos deste grande brejeiro!...” No final, é o mesmo José Pedro quem anda a vender os versos de Bocage para o ajudar, apregoando os folhetos, num paralelo (de sinal contrário) com o cego do início da história: “Para o grande poeta Bocage! Ajudem o grande Bocage! (…) Socorram Bocage! Bocage está muito mal!... Os últimos versos do grande poeta Bocage!...”
A intenção desta peça passa, pois, por corrigir um pouco a memória que de Bocage se fez. Argumentava o Histrião, ao falar sobre o teatro, que “um homem sobre as tábuas dum palco é rei, é tudo o que ele sonha ser (…), é imperador, sendo um pobre de Cristo”, talvez um pouco como foi o trajecto de Bocage no palco da vida, apresentado como valor seguro e superior – “Os mecenas matam a fome aos poetas, mas não lhes dão talento”, diz uma personagem (a 6ª Máscara) a dada altura, tentando aliviar o juízo de ingratidão que de Bocage estava ser dado.
Esta peça de Romeu Correia só teve estreia em palco cinco anos depois da sua publicação, em iniciativa do Grupo de Teatro do Instituto Comercial do Porto, no Teatro Sá da Bandeira. Em 1978, mereceu nova edição em livro (Lisboa: Ed. Maria da Fonte). Pouco mais de quatro décadas volvidas sobre o seu nascimento, este Bocage bem merecia a reedição, assim como justificava a sua apresentação no sítio que mais vida lhe daria – o palco.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Investigações à solta

O caso do dia foi a investigação (?) feita e divulgada hoje pelo Diário de Notícias à maneira como chegou a jornalistas do Público a história das possíveis escutas ou vigilâncias na Presidência da República. A gente ouve e não acredita. Tudo isto parece a história da pescadinha de rabo na boca, a acabar por se comer a si própria...
As ligações intensas entre a política e o jornalismo já não são novidade, claro. Agora, foram comprovadas com os números: em Portugal, apenas um terço da informação publicada na imprensa resulta de investigação dos respectivos media; o restante deriva da máquina montada por assessores, informação institucional, gabinetes de imprensa, etc. Ou seja: a gente vai sendo informada à medida e sobre o que alguém quer que sejamos informados.
Com o caso de hoje, inebria-se a investigação. Ainda não sabemos se por boas ou por más razões. Mas não deixa de ser paradoxal que sejam os jornalistas a estar no centro do caso. Ou, se preferirmos, é o jornalismo que se tem feito que está, de certa forma, a ser questionado. O que vai restar?

Política caseira (82): CDU de Setúbal em campanha

O Setubalense: 18.Setembro.2009

Política caseira (81): Teresa Almeida (PS) vira-se para a juventude e socialistas apresentam candidatos a Juntas

O Setubalense: 18.Setembro.2009

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Rostos (129)

Monumento às Feiras Novas e ao Folclore, de Salvador Vieira, em Ponte de Lima (colaboração de Quaresma Rosa)

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Política caseira (80): PSD leva Jorge Santana à praça e apresenta candidata para a freguesia do Sado

O Setubalense: 16.Setembro.2009

Política caseira (79): Debate entre candidaturas a Setúbal promovido por "O Setubalense"



O Setubalense: 14.Setembro.2009 (só agora lido)

Política caseira (78): Candidato da CDU para a freguesia de S. Julião

O Setubalense: 14.Setembro.2009

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Bocage à vista (70) no seu mês (e no seu dia) - 3ª série

Bocage visto por Francisco Pastor

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Bocage à vista (69) no seu mês - 3ª série

Bocage visto por António Carneiro (1917)

O que quer dizer a palavra "novo" quando se refere a um outro governo? É sublime o poder da língua!...

A notícia é do Diário Digital e diz:
«Sócrates recusa interpretação que mudará todos os ministros - O secretário-geral do PS frisou hoje que um Governo saído de um acto eleitoral é sempre novo, inclusivamente com um novo primeiro-ministro, e recusou a interpretação de que, se vencer as eleições, mudará todos os ministros.
À chegada à freguesia de Arronches, o secretário-geral do PS foi confrontado pelos jornalistas com declarações que proferira na véspera, após o debate com a presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, na SIC, segundo as quais mudaria todos os membros do actual executivo se voltar a formar Governo.
Sócrates, no entanto, rejeitou essa interpretação e falou directamente aos jornalistas: "vocês sabem o que quis dizer".
»
Bem queria parecer que aquela saída no frente-a-frente da SIC (novo Governo, novos ministros) era uma mensagem codificada! Mas nem todos tinham a chave do código, afinal! É que o Correio da Manhã de ontem trazia para título de primeira página algo como "Sócrates despede Ministros no debate". Será que houve esquecimento no fornecimento da "chave"?

domingo, 13 de Setembro de 2009

Bocage à vista (68) no seu mês - 3ª série

Bocage, em painel de azulejo, na Escola Básica 2, 3 de Bocage, em Setúbal

Depois do frente-a-frente tão esperado...

O frente-a-frente que a SIC transmitiu na noite de ontem entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates confirmou dos dois políticos a ideia que já havia deles. Não trouxe, portanto, nada de novo. Mas serviu para lembrar as diferenças. E, agora, com a campanha eleitoral a começar hoje, não sei se haverá algo a transmitir aos eleitores que eles não saibam já.
O estilo de Ferreira Leite poderá ser austero, mas não é alterável; o de Sócrates poderá ser alegadamente moderno, mas tem tido tantas alterações (e é tão frágil no plano das convicções) que resta saber em que é que se deve acreditar. Não me comove esta faceta de serenidade que Sócrates tem estado a apresentar ao país depois dos resultados das eleições europeias, marcados que estamos pelo feitio que o próprio apresentou ao longo do mandato. Bem podem as assessorias e as técnicas da comunicação levar Sócrates a dar uma diferente imagem, mas à superfície vem sempre o que é genuíno. Ontem, quis substituir a jornalista e interrogar Ferreira Leite sobre as portagens, chegando a dizer que ia ele mesmo responder à pergunta em vez de Ferreira Leite, táctica de menosprezo e de ataque imediato ao adversário. Ontem, também, Sócrates quis dar a entender que era o PSD que estava a ser julgado; não era de julgamento que se tratava; mas, se fosse, o objecto lógico do julgamento seria a política socialista deste mandato. Ontem, também, quis pôr em causa os critérios que levaram à escolha de João Jardim para candidato a deputado (e valeria a pena questionar sobre a cobertura que o PSD dá a Alberto João Jardim), mas as premissas estavam erradas. E, finalmente, a equipa ministerial, no caso de Sócrates ganhar, já sabe uma coisa: não será reconduzida (assim o deixou esclarecido quando disse que o novo governo terá novos ministros). O único a continuar no Governo, no caso de o PS vencer, será então Sócrates, ele mesmo. Vá lá saber-se o porquê desta insistência…

sábado, 12 de Setembro de 2009

Bocage à vista (67) no seu mês - 3ª série

Bocage visto por Elói do Amaral (1905)

Política caseira (77): Maria das Dores Meira (CDU) critica Secretário de Estado Eduardo Cabrita


Jornal Sem Mais: 12.Setembro.2009

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

Bocage à vista (66) no seu mês - 3ª série

Bocage, na frente de uma nota de 100$00 (maqueta de João de Sousa Araújo)

Entre Dezembro de 1980 e Outubro de 1987, o Banco de Portugal emitiu a Chapa 8 das notas de 100$00 (equivalente aos 0,50 € de agora), em cuja frente se reproduzia a figura de Bocage que nos foi legada no quadro de Henrique José da Silva. O verso desta nota era ocupado por uma gravura com "o Rossio nos princípios do século XIX", aquele Rossio que Bocage terá conhecido. A nota teve maqueta de João de Sousa Araújo, foi impressa em Inglaterra (Bradbury, Wilkinson & Co, Ltd) e foi retirada de circulação em finais de Maio de 1990.