terça-feira, 1 de setembro de 2015

Bocage no seu mês - 250 anos depois (01)



Gravura de Bocage publicada na revista
Ilustração Portuguesa (nº 111, em 18 de Dezembro de 1905)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Os centenários bocagianos recontados por António Chitas - II


O segundo texto do investigador António Chitas sobre a vivência dos centenários bocagianos em Setúbal é publicado em O Setubalense de hoje (pg. 10), desta vez abordando o primeiro centenário sobre o nascimento de Bocage em 1865 (ano em que a praça principal de Setúbal passou a ter o nome do poeta), festa que acabou por ter o seu auge meia dúzia de anos depois, quando foi inaugurado o monumento a Bocage na praça que lhe era dedicada.



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Prémio Literário Bocage 2015 já tem vencedores


A XVII edição do Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage, promovida pela LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão) com o apoio de vários parceiros, teve no final da noite a decisão do júri nas várias modalidades: em poesia, o trabalho Na luz das janelas pestanejam as sombras, de João Carlos Costa da Cruz (apresentado sob o pseudónimo de Deus de Lume), residente em Cantanhede; no ensaio, o texto Bocage no Oriente, de António Alberto Sancho Trabulo (apresentado sob o pseudónimo de Zé d’Arrábida), setubalense por adopção (natural de Vila Nova de Foz Coa); em revelação, a obra Pentapétalo, de João Diogo Pereira Barreira (sob o pseudónimo de Ricardo Neves), residente em Mafamude (Vila Nova de Gaia).
Os prémios serão entregues em cerimónia a realizar em 15 de Setembro, feriado de Setúbal, e, além de um valor monetário, os textos merecerão a edição (a cargo da entidade promotora). A este concurso foram apresentados 304 trabalhos (tendo sido a poesia a modalidade mais concorrida), apreciados por um júri constituído por José António Chocolate, João Reis Ribeiro e António Chitas.

Refira-se que os premiados de poesia e de ensaio são autores com obra já publicada: no caso do galardoado em poesia, trata-se do escritor António Canteiro (pseudónimo), com títulos no âmbito da poesia e do conto, vencedor de diversos prémios literários, designadamente o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama; no caso do contemplado na modalidade de ensaio, é o médico e escritor António Trabulo, com vários prémios no domínio da escrita, como o Prémio Aldónio Gomes, sendo as suas obras mais conhecidas nos géneros conto e romance.

Os centenários bocagianos recontados por António Chitas - I


António Chitas, professor e investigador de história local em Setúbal, iniciou hoje um ciclo de cinco textos sobre os centenários bocagianos no jornal O Setubalense (pg. 5). É esse primeiro texto que aqui se reproduz.


José Miguel, o descarregador de peixe de Setúbal, tem museu em Ferrara


A notícia vem na página 7 de O Setubalense de hoje: o descarregador de peixe setubalense José Miguel da Fonseca tem um museu em Itália, em Ferrara, onde estão reunidos o seu espólio de pintura e os estudos que sua mulher, Noelle Perez Christiaens, fez sobre os descarregadores.


Para a agenda - Setúbal celebra os 250 anos de Bocage durante um ano


A capa do nº 104 da revista Guia de Eventos, editada pela Câmara Municipal de Setúbal, alusiva aos meses de Setembro e Outubro, é povoada por Bocage, em traço de António Cunha sobre pintura de Augusto Flamengo. Bocage foi já tema da Feira de Santiago deste ano, que teve lugar no final de Julho e início de Agosto. Mas o programa que assinala o 250º aniversário do poeta sadino é muito mais vasto. Abaixo se reproduz o teor do que está em agenda no sítio da Câmara Municipal de Setúbal.


Os 250 anos do nascimento de Bocage são assinalados com um programa especial, com início no feriado municipal de 15 de setembro, Dia de Bocage e da Cidade, com um conjunto de iniciativas culturais que atravessa as fronteiras de Setúbal.
As comemorações, organizadas pela Câmara Municipal de Setúbal em colaboração com entidades locais, nacionais e internacionais, a atualidade do pensamento e da obra do poeta setubalense (1765-1805) é devolvida ao quotidiano da cidade com a realização de atividades para todos os públicos.
Conferências, palestras, exposições e tertúlias, a par de apontamentos cénicos e musicais, fazem parte do vasto leque de iniciativas culturais a realizar em 2015 e em 2016, com atividades abertas à população, a dinamizar em vários espaços e equipamentos municipais do concelho.
O feriado municipal, assinalado a 15 de setembro, Dia de Bocage e da Cidade, começa com as habituais cerimónias protocolares, às 09h00, com o hastear da bandeira nos Paços do Concelho e, pouco depois, com a deposição de flores no monumento ao poeta, na Praça de Bocage. 
Neste dia, destaque também, logo pelas 09h00, para a abertura da banca filatélica dos CTT/INCM, com a venda de selo postal nacional com os temas "250 anos do nascimento de Bocage" e "O Meu Selo", dedicado a Bocage e obliterado com o carimbo do dia.
O Salão Nobre dos Paços do Concelho acolhe, a partir das 10h00, a sessão solene evocativa da efeméride, que inclui uma homenagem aos funcionários municipais recentemente aposentados, a atribuição de medalhas honoríficas a ilustres e um apontamento musical do Coral Infantil de Setúbal.
Igualmente a partir das 10h00, a Artiset - Associação de Artistas Plásticos de Setúbal, promove a ação de pintura ao vivo e exposição de trabalhos "Uma nova imagem do Bocage", na Praça de Bocage.
As celebrações continuam à tarde com um a inauguração das novas rotundas Jacinto João e da Avenida da Europa, às 15h00.
A sessão solene de abertura oficial das comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, com a apresentação da comissão de honra, realiza-se às 16h00, no Fórum Municipal Luísa Todi, seguida de momento musical de piano e voz com "Bocageana - Cinco Sonetos", Op. 37, de Gaspar Fernández Gil, com Nuno Lopes e Carlos Pedro Santos.
Daniel Pires lança a sua obra literária "Bocage - a Imagem e o Verbo", às 17h00, na Casa da Cultura, enquanto uma hora depois procede-se à entrega de prémios do XVI Concurso Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage, no Salão Nobre dos Paços do Concelho.
Seguem-se duas inaugurações, uma no Largo da Fonte Nova, às 18h30, da mercearia "Confiança de Troino", com a participação do Teatro do Elefante, a outra na Galeria Municipal do 11, às 19h00, da exposição "O Livro na Época do Iluminismo".
O programa comemorativo do Dia da Cidade termina com o concerto inaugural das comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, pela Orquestra do Norte, às 21h30, na Praça de Bocage. 
Em setembro, o programa comemorativo reserva ainda várias atividades, como a inauguração, no dia 16, às 18h00, na Casa Bocage, da exposição "Boba Kana Mutu Uzela", do projeto "Século XVIII - Revelar a Memória a partir do Esquecimento", com a segunda série de imagens fotográficas de Ricardo Rodrigues. 
Música e poesia são oferecidas à população a 18, às 21h30, na Praça de Bocage, na "2.ª Serenata do Núcleo de Poesia de Setúbal", com fado de Coimbra e declamação de poesia por vários convidados, numa iniciativa dinamizada pelo Núcleo de Poesia de Setúbal.
Na mesma noite, às 22h00, na Casa da Cultura, o projeto GOG apresenta "Textos em Cena", uma performance com sonorização de Carlos Curto e declamação de poesia de Bocage por João Brás.
No dia seguinte, a 19, às 18h00, na Casa da Cultura, Baptista Pereira, historiador e curador do Museu de Setúbal, é o orador da conferência "Bocage nas Coleções dos Museus Municipais de Setúbal". 
Apontamentos culturais em vários espaços da Baixa comercial dão vida à Noite Bocagiana, igualmente a 19, com início às 21h30, com os comerciantes a decorar as montras de várias lojas daquela zona do centro históricas com peças alusivas à temática de Bocage.
Integrada na Noite Bocagiana está a XVI Tertúlia "Eis Bocage… Conversas de Botequim", evento promovido às 21h00, no Largo da Misericórdia, pelo jornal digital Setúbal na Rede e Casa da Poesia de Setúbal, em colaboração com a Capricho Setubalense.
No programa das Comemorações Bocagianas entra ainda a Alegro Meia Maratona de Setúbal. A 26.ª edição da tradicional prova setubalense, com início às 09h30 de dia 20, este ano num percurso renovado de 21 quilómetros, inclui a Corrida das Famílias e a Corrida Mais Solidária, iniciativas dirigidas às famílias, com 5,5 quilómetros.
A encerrar as atividades de setembro há a inauguração da exposição "O colecionismo sobre o tema Bocage - acervo de Adelino Noé", dia 26, às 15h00, no Museu do Trabalho Michel Giacometti, e um concerto com o Quarteto de Cordas de Sintra, com obras de compositores da época de Bocage, às 22h00, na Casa da Cultura. 
O programa comemorativo dos 250 anos do nascimento de Bocage prolonga-se até 2016, com a dinamização, todos os meses, de atividades em Setúbal e em vários pontos do País, como a emissão de uma lotaria nacional alusiva ao poeta setubalense, a 19 de outubro, e o 1.º Congresso Internacional Bocage, a 13 e 14 de setembro do próximo ano, no Fórum Municipal Luísa Todi.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Imigrantes portugueses em França e Grande Guerra, com Laurent Dornel e Joana Carvalho Fernandes



A imigração em França é fenómeno acentuado desde finais do século XIX, mas a Primeira Guerra Mundial, na medida em que muitos homens ali apareceram para combater e para trabalhar, deu contributo importante para essa imagem, em que os portugueses são também protagonistas. Dois livros nos falam dessa epopeia migratória: um, de Laurent Dornel, conta a história da imigração relacionada com a Grande Guerra; outro, de Joana Carvalho Fernandes, narra vidas de protagonistas portugueses que desde a Grande Guerra se têm aventurado em terras de França.
O estudo de Laurent Dornel intitulado Les étrangers dans la Grande Guerre (Col. “La Documentation Française”. Paris: Musée de l’Histoire de l’Immigration, 2014) conta a relação da Grande Guerra com a imigração em França, mesmo porque, na altura, a presença de estrangeiros naquele país podia também ser considerada uma presença inimiga (não esquecendo que, pelos censos de 1911, dos mais de um milhão de imigrantes, cem mil eram alemães e quinze mil eram austríacos) ou indesejada, como bem o testemunhou Aquilino Ribeiro no diário É a guerra (1934), em que regista a efervescência vivida em Paris no período entre 1 de Agosto e 26 de Setembro de 1914.
Durante a Guerra, em França havia cerca de meio milhão de trabalhadores estrangeiros, provenientes dos países limítrofes (Portugal incluído) e do norte de África e Indochina, além de cerca de 37 mil chineses. Mas a Guerra levou também a França uns milhares de estrangeiros (por implicação de outros países na Guerra ou por adesão voluntária de cidadãos ao exército francês – “la Légion étrangère compta autour de 30000 à 40000 hommes représentant une cinquantaine de nationalités”) e de naturais das colónias francesas. Parte significativa dos trabalhadores estrangeiros estava ligada ao campo e à indústria do armamento e havia programas de inserção dos imigrantes, que passavam pela aprendizagem da língua e pela ligação dos imigrados aos seus países de origem – por exemplo, em termos de alimentação, era pensada a necessidade de “morue séchée pour les ouvriers portugais”. Contudo, a partir de 1917, nem sempre os trabalhadores imigrantes foram bem vistos, pois a população francesa pensava que “la présence de la main-d’oeuvre étrangère permettait le maintien et l’envoi accru des hommes français au front”.
A questão do peso que os estrangeiros ou os originários das colónias pudessem vir a ter no futuro do país levou ao estabelecimento de uma hierarquização quanto às características dos trabalhadores por nacionalidade, dizendo-se dos portugueses que “sont résistants”, que “ils ne réculent pas devant les besognes pénibles et dangereuses, mais ils ont un grave défaut, l’instabilité; le besoin de mouvement, de changement vient du caractère national, ondoyant, incapable de prendre une décision, de s’arrêter à un parti”. Em 1919, Joseph Lugand apresentaria uma tese que classificava a mão de obra estrangeira, na linha de uma ordenação relacionada com as raças, caracterizando os portugueses como “bonne main-d’oeuvre, dociles, aptes aux travaux de force”, forma de estereotipar as nacionalidades de acordo com trabalhos a serem cometidos. Depois da Guerra, a imigração em França continuou e houve políticas que defenderam a preferência pelos europeus, sobretudo originários de países que tivessem combatido ao lado dos franceses.
O estudo de Dornel é prático e de leitura rápida, compreendendo o leitor a turbulência social que foi receada por políticos e elites perante um fenómeno como o da imigração, sobretudo num país em situação de guerra e com forte afluência de cidadãos das regiões colonizadas pela própria França – pela primeira vez estes homens iam conhecer a sede do império e o relacionamento social poderia ter efeitos imprevisíveis, mesmo do ponto de vista político. A descolonização, que iria suceder anos mais tarde, terá fomentado a igualdade de oportunidades e a facilidade de relacionamento? Na conclusão, o autor não manifesta muito optimismo: “La décolonisation a évidemment rendu impossible le maintien du vocabulaire colonial; mais indigène et colonial n’ont-ils pas été remplacés par Maghrébin, Subsaharien et même, tout simplement, par immigré? Dans le même temps, la construction d’un espace politique européen, en faisant émerger une citoyenneté européenne, a confirmé, dans la pratique comme dans les discours, la partition entre d’un côté, une immigration européenne blanche, libre d’aller et venir à sa guise, et, de l’autre, identifiée à l’immigration postcoloniale et de moins en moins désirable, une immigration officiellement extra-européenne, appellation qui maintient l’euphémisation ancienne de la couleur et le non-dit de la blanchité.”
A questão da presença de portugueses em França desde a Primeira Grande Guerra acaba de ser abordada por Joana Carvalho Fernandes, na obra A porteira, a ‘madame’ e outras histórias de portugueses em França (Col. “Retratos da Fundação”. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015).
É um conjunto de três partes – “Os históricos: a Primeira Guerra, o salto, a reforma”, “Para lá do estereótipo: o humor, os negócios, o desporto, a política” e “Novos emigrantes” – que totaliza catorze capítulos, cada um dedicado à história de uma personagem. Os títulos das partes permitem desde logo uma leitura condimentada pela história da emigração e pelas diversas fases que a foram fazendo: desde os mais antigos emigrados que ficaram por França graças à sua participação na Grande Guerra, passando pela ida “a salto” e pelos casos de portugueses que se distinguiram (e são conhecidos) nas mais diversas áreas (política, comércio, cultura, negócios – haja em vista nomes como os de Carlos da Silva, que foi deputado e chegou a conselheiro do primeiro-ministro francês Valls, de Manuel Domingues, proprietário de restaurante frequentado pela família Le Pen, de Rogério do Carmo, co-fundador da rádio Alfa, ou de Armando Pereira, co-fundador da Altice) até aos que recorreram à emigração como forma de ultrapassar a crise recente.
Duas histórias se relacionam com a Grande Guerra: a primeira, de João Assunção, que combateu em La Lys e ajudou, em tempos de folga, uma família francesa no amanho da terra, e se apaixonou por Mélanie, com quem casou em 1920, união de que nasceram 15 filhos; a segunda, de Manuel de Sousa Dias, que chegou a 2º sargento músico no Corpo Expedicionário Português e, em 1922, voltou a rumar a França, desta vez levando a mulher e o filho.
Cada uma das histórias tem os seus momentos de epopeia e de interesse. João Assunção, da zona de Coimbra, foi mineiro a partir de 1919 e a indumentária usada no trabalho era o uniforme de soldado e o capacete das trincheiras. Habilidoso, acabou por abrir um ateliê de bicicletas. Falecido em 1975, com 80 anos, é à sua filha, Felícia Pailleux, de 89 anos, que está atribuída a função de porta-guião da Liga dos Combatentes em França, marcando presença nas celebrações de Richebourg e de La Couture em memória dos portugueses caídos em 1917-1918. Sentindo a necessidade de preservar a História, Felícia passou a mensagem à neta, Aurore Rouffelaers, de 36 anos, que “criou uma agência de guias-intérpretes que organiza roteiros pelos grandes campos de batalha da Primeira Guerra na Flandres francesa e pelas memórias das linhas das trincheiras”.
Quanto a Manuel Dias, da região de Arouca, viveu até 1929, ano em que faleceu em consequência de um acidente. Mas o seu filho, António, nessa altura com 14 anos, que teve de ajudar os outros três irmãos a partir desse momento, casaria, anos mais tarde, com Zoémie Bonville, da região de Champagne e que recebeu da família vinhas e umas caves. Ainda antes de 1950 (o casamento foi em 1948), o casal foi responsável pela introdução no mercado do champanhe com o rótulo “De Sousa – Bonville”, o único champanhe com nome português.
Estas são duas histórias de portugueses em França, que passaram pelas ligações à Primeira Grande Guerra e fizeram parte do leque de imigrantes que começou a alargar-se naquele país no pós-guerra: em 1921, havia 11 mil portugueses recenseados em França, número bem maior do que os mil e trezentos registados em 1911.
A recolha de casos levada a cabo por Joana Carvalho Fernandes torna-se um elemento interessante para o retrato da identidade dos portugueses, escrito com vivacidade, em género de reportagem, dando frequentemente a palavra aos seus protagonistas, contando um pouco do que tem sido a narrativa dos portugueses pela França, percurso eivado também de momentos menos felizes, com dificuldades de integração à mistura, mas também com realizações elevadas, todos eles constituindo desafios à história da imigração e encontrando ecos no estudo de Laurent Dornel.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Para a agenda - 3 meses de exposição bocagiana nos 250 anos do poeta



"Da inquietude à transgressão: eis Bocage..." é o título da exposição que a Biblioteca Nacional de Portugal inaugura em 17 de Setembro e que estará patente até 31 de Dezembro. Comissariada por Daniel Pires, com vastidão de títulos no domínio da história da imprensa e da obra bocagiana, a exposição assinala o 250º aniversário do nascimento do poeta sadino (1765-1805). Para a agenda!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Meneses Ferreira: "À luz do lampadário"



Em 4 de Agosto de 1918, o capitão Humberto de Ataíde suicidava-se em Moçambique para evitar a humilhação de ter de entregar ao inimigo o posto que comandava. O gesto valeu-lhe o reconhecimento e o louvor, chegando Meneses Ferreira a dedicar-lhe o livro À luz do lampadário (Lisboa: Ed. Autor, 1927) nos seguintes termos: “À sagrada memória do Capitão Humberto de Athayde, ferido cinco vezes em combate e que, na Grande Guerra em Moçambique, pelo orgulho da sua farda, se suicidou em frente das tropas inglesas”.
O livro é composto por dezoito quadras (que usam o decassílabo e a rima alternada) e ilustrações do próprio autor, mas é antecedido por uma nota em prosa contra as intromissões estrangeiras na administração das colónias, como era, na altura, o caso do porto da Beira. Já em 30 de Abril de 1925, em crónica publicada no Diário de Lisboa sob o título “Carta a um colonial do Chiado sobre a influência inglesa na cidade da Beira”, Norberto Lopes se queixava  do ambiente inglês que dominava a cidade, chegando mesmo ao ponto de dizer que os caixeiros se dirigiam aos clientes das lojas em inglês antes de usarem a língua portuguesa, que o jornal ali existente era em inglês, que ele próprio se sentia “estrangeiro em território nacional”, para concluir de forma quase apocalíptica: “Se o dinheiro inglês fomenta e desenvolve este pedaço da nossa África Oriental, nem por isso ele deixa de constituir amanhã um perigo para a soberania portuguesa.” Revoltado com um certo estado de subserviência relativamente ao estrangeiro, o poeta de À luz do lampadário refugia-se na Batalha para ouvir a voz “d’Aquele que, pela integridade dos territórios de Além-Mar, caiu para sempre, mordendo a terra conquistada pelos nossos Maiores”.
Logo na primeira quadra, o poeta ilustra o cenário em que lhe foi dado ouvir a mensagem, um ambiente de silêncio e de luz, ingredientes necessários para a meditação e para que a voz do Soldado Desconhecido se tornasse audível, ou, por outras palavras, para que a memória aflorasse – “À doce claridade que se espalha / nas naves do Mosteiro adormecido, / à luz do lampadário da Batalha / Assim falou o Herói Desconhecido”. A segunda quadra, sendo o início do discurso do Herói, é uma acusação (contra a interferência estrangeira) e uma justificação para o que se vai seguir (uma chamada de atenção): “Voltam de novo à terra apetecida / as aves de rapina em hora incerta… / Acorda, sentinela adormecida! / Soldado português, alerta! Alerta!”
A mensagem envereda depois pela lembrança de vários heróis portugueses, todos considerados exemplares – o Fundador, o Príncipe Perfeito, o Infante Santo, descobridores, Salvador Correia, Mousinho, coronel Galhardo e João Coutinho (“heróis de Marraquene”, em finais do séc. XIX), Martins de Lima, capitão Roçadas, Leopoldo da Silva e os mortos de Nevala e, finalmente, Humberto de Ataíde, trazido para o poema como último herói, mas com uma acção diversa da que cometeu – “Humberto de Ataíde, o teu exemplo / Não deve ser seguido desta vez…”. O nome é invocado pelo que simboliza de patriótico, mas é usado para apelar à energia do soldado português – “Vamos! Sacode os vendilhões do Templo! / Levanta-te, soldado português!...” O que vai sendo valorizado em todos estes nomes, individuais ou símbolos do colectivo, são traços como a humildade, o valor, o sangue vertido, o tormento, a coragem, chegando esta voz a manifestar-se contra a perda da memória (“Recorda a pouco e pouco a minha história, / vencendo o esquecimento em que mergulho”) e a chamar a atenção para os padrões e monumentos, provas absolutas desse heroísmo necessário.
A intenção apelativa e imperativa sobre o soldado português aparece várias vezes ao longo do poema com o objectivo de impelir este destinatário para a acção, que, surge claramente expressa nas duas últimas quadras: “Erguei-vos todos já para acusar / aqueles que, por ódio e por traição, / queiram vender, trocar, alienar / o santo património da Nação!... // Contra o Porto da Beira apetecida / a trama vil, enfim, foi descoberta! / Acorda, sentinela adormecida! / Soldado português, alerta! Alerta!”
O texto é, sem dúvida, de teor panfletário, jogando com símbolos fortes para os combatentes – o poder do desafio feito pela memória, o sofrimento do soldado desconhecido e heróico, as referências de personalidades históricas que se destacaram na vida militar. Uma década depois do termo da Grande Guerra, este texto era um toque a reunir para a defesa do património histórico e do território e para a reafirmação da soberania, vindo de um autor, João Guilherme de Meneses Ferreira (1889-1936), que, sendo também ele militar (embarcou para Angola em Setembro de 1914, comandado pelo general Roçadas, e esteve em França, integrando o CEP), pautou a sua obra pelo anti-belicismo e por um sentir humanitário como bem o provam os títulos João Ninguém – Soldado da Grande Guerra (1921), texto de onde não está arredio o humor aplicado à participação portuguesa, e O Fuzilado (1923), novela em torno de um combatente louvado que um dia resolve deixar de combater. Com tal sentir humanitário, o refúgio do poeta só podia ser junto de um dos símbolos intensos para os combatentes portugueses da Grande Guerra: na Batalha, onde, seis anos antes, em 10 de Abril de 1921, se inaugurara o túmulo do Soldado Desconhecido, para ali tendo sido transladados os corpos de dois soldados, um falecido em África (Moçambique) e outro em França, escolha espacial que acaba por dominar a mensagem…

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Vincent Bernard: Uma cronologia da Grande Guerra



São 120 páginas de referências cronológicas relacionadas com a Primeira Grande Guerra, umas telegráficas, outras com algum desenvolvimento, aquilo que Vincent Bernard apresenta em Petite Chronologie de la Grande Guerre (Col. “Repères d’Histoire”. Bordeaux: Éditions du Sud Ouest, 2014), num horizonte que se inicia em 28 de Junho de 1914 (“pelas 10 horas da manhã, em Sarajevo… primeiros tiros”, referindo o atentado ao arquiduque Francisco Fernando) e se conclui em 10 de Novembro de 1920, com o “soldado desconhecido” depositado no Arco de Triunfo. Apesar deste limite temporal, a cronologia tem ainda uma entrada alusiva a 3 de Setembro de 1939, data em que “a França e a Inglaterra declaram guerra à Alemanha nazi”, o que estabelece a ponte entre as duas Guerras Mundiais que marcaram o século XX…
O tempo passa por este livro num registo do dia a dia, sobretudo organizado para o leitor francês, com apontamentos em que entram as operações militares terrestres, marítimas e aéreas, a tecnologia e o armamento, a intervenção política e a diplomacia, a economia e a sociedade, a vida na retaguarda e a cultura. Tão amplo espectro de informação trazido para uma cronologia é justificado pelo autor nos seguintes termos: “Si le monde de 1918 n’est plus celui de 1914, ce n’est pas seulement parce que les poilus français, landser allemands, tommies anglais, diggers australiens ou autres doughboys américains ont combattu et souffert dans un véritable enfer, c’est aussi parce que la guerre même, en tant qu’événement, en tant que rupture historique, a orienté en profondeur la marche du monde, l’a fait entrer véritablement dans le XXe siècle, ce siècle si proche mais que, déjà, s’enfuit tout doucement de nos mémoires.” Assim, em jeito de preservar e de ajudar a memória, Bernard pretende que esta obra ajude “à la découverte des jalons essentiels de cette Grande Guerre mondiale de quatre ans dans toutes ses dimensions”.
Para cada ano do conflito é escolhido um título interpretativo que ajuda a uma leitura dos acontecimentos: “1914 – La fin d’un monde”, “1915 – L’épouvantable enlisement des tranchées”, “1916 – L’année des batailles titanesques”, “1917 – Année charnière ou année de trop?”, “1918 – D’une nouvelle guerre à l’amère victoire” e, finalmente, “Épilogue, 1919-1920 – Paix européenne ou règlement provisoire?”. O leitor vai avançando nas datas e assiste à construção do puzzle que levou ao recrudescimento do conflito, às intrigas, à movimentação, à paragem, às implicações, à destruição, à morte, à movimentação política e militar, ao sofrimento, ao desfazer dos impérios, ao nascimento de um novo mapa europeu, passo a passo, como quem acompanha o trajecto em todas as frentes. Assiste a execução de prisioneiros, à morte de artistas e de outras personalidades participantes (Charles Péguy, Alain Fournier, Alfred Lichtenstein, Henry Moseley, Charles de Foucauld, von Richtoffen, Roland Garros, Guillaume Apollinaire), ao sofrimento que não poupou ninguém (Georges Braque, Blaise Cendrars, Henri Barbusse), ao episódio dos táxis do Marne e à destruição conhecida pelo “Chemin des Dames”, ao primeiro apelo à paz entre os beligerantes lançado pelo Papa Bento XV, à confraternização natalícia entre soldados inimigos, à primeira utilização do gaz de combate, ao aparecimento dos tanques, aos bombardeamentos sobre Paris, aos raids sobre Londres e sobre Colónia, à violência de Verdun e de Somme e às várias (doze) ofensivas sobre Isonzo, à mudança do papel da mulher, à queda e ascensão de políticos e… em 13 de Outubro de 1918, ao gazeamento e evacuação do cabo Adolfo Hitler.
Relativamente a Portugal, há uma dezena de referências que acompanham o que se passou nas colónias em África e o que foi o Corpo Expedicionário Português, tais como: em 26 de Outubro de 1914 (“Les Allemands pénètrent en Angola portugais, et donc théoriquement neutre”), em 23 de Novembro de 1914 (“Le gouvernement portugais annonce une coopération accrue avec le Royaume-Uni”), em 23 de Fevereiro de 1916 (“Les autorités portugaises saisissent les navires allemands sur le Tage”), em 9 de Março de 1916 (“Le Portugal rejoint l’Entente – Après des mois de collaboration militaire anglo-portugaise, de nombreux incidentes dans les colonies et la réquisition par Lisbonne des navires allemands sur le Tage, Berlin régularise une situation diplomatique exécrable en déclarant la guerre au Portugal. Le Portugal prépare un petit corps expéditionnaire pour la France et entreprend de renforcer ses positions dans les colonies d’Afrique”), em 15 de Março de 1916 (“L’Autriche-Hongrie déclare à son tour la guerre au Portugal”), em 8 de Agosto de 1916 (“Le gouvernement portugais étend sa coopération avec l’Entente au front européen”), em 3 de Janeiro de 1917 (“Les premières unités du corps expéditionnaire portugais, qui doit comprendre deux divisions et se battre au sein de l’armée britanique, débarquent en France”), em 17 de Junho de 1917 (“Le corps expéditionnaire portugais est engagé pour la première fois sur le front de l’Ouest”), em 9 de Abril de 1918 (no âmbito da operação Georgette, uma ofensiva alemã que pretendia fazer recuar os britânicos até à Mancha, “le corps expéditionnaire portugais, en particulier, est presque anéanti par la violence de l’assaut allemand”), em 1 de Julho de 1918 (“Les petites forces allemandes du colonel von Lettow-Vorbeck, poursuivant leur petite guerre face à des forces de l’Entente infiniment supérieures, atteignent Namyakura, en Afrique portugaise (Mozambique actuel)”).
A obra carece da indicação da bibliografia consultada, sobretudo quanto à origem ou fontes de datas de outros países que não a França. Quanto a índices, parte importante neste tipo de obras, existe apenas um “de personalidades” quando poderia haver também um geográfico.
Apesar das deficiências que uma obra deste tipo possa conter, obrigados somos a reconhecer tratar-se de um bom contributo de condensação da História que fez crescer a Europa como ela é, que permite consulta e informação rápidas, ainda que limitada ao estilo de uma cronologia (sublinhada no título com o adjectivo “petite”).

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Para a agenda - Festas da Agonia, em Viana do Castelo



A Romaria da Senhora da Agonia, mais conhecida por Festas da Agonia, em Viana do Castelo, está marcada para o período de 20 a 23 de Agosto. A romaria das romarias! Única, inigualável, inesquecível. Com um programa (que se pode consultar aqui) que revela muito do que é a identidade local e alto-minhota. Para a agenda!

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"Laudato Si'", a encíclica do Papa Francisco sobre a "casa comum" que temos



Em 24 de Maio, o Papa Francisco dava em Roma a sua segunda carta encíclica, Laudato Si’ – Sobre o cuidado da casa comum (Lisboa: Paulus Editora, 2015), conjunto de seis capítulos e quase duas centenas e meia de parágrafos em que a ecologia e o futuro são tónicas e em que o apelo à política e a cada um pontuam.
O retrato que o Papa traça do mundo quanto ao ambiente que caracteriza a “casa comum” não é novo, todos o temos visto, todos o pensamos. Mas, ao trazer para título da sua carta uma frase da oração de Francisco de Assis («laudato si’», «louvado sejas»), a figura mais ecológica de todos os tempos, e ao dizer que pretende com esta encíclica “entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum” (perspectiva que cumpre ao citar pensadores de outras religiões, por exemplo), Francisco aponta para a responsabilidade que todos teremos na “desfiguração e destruição do ambiente”.
O ponto de partida é forte: “A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo.” Depois, é a passagem por áreas sensíveis para a temática do ambiente – o clima, a água, a biodiversidade, os recursos naturais – até à verificação de que a qualidade de vida humana surge fortemente deteriorada, acentuada pela degradação social, uma visão que pretende chamar a atenção para os decisores (e para todos) em prol de um mundo e de uma vida que possa ser mais justa, sem que tenham de existir os “descartados da sociedade”, porque a casa é de todos. Neste ponto, Francisco é incisivo, porquanto assume um ponto de vista crítico quanto às práticas com os mais fracos – “Muitas vezes falta uma consciência clara dos problemas que afectam particularmente os excluídos. Estes são a maioria do Planeta, milhares de milhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates políticos e económicos internacionais, mas com frequência parece que os seus problemas se colocam como um apêndice, como uma questão que se acrescenta quase por obrigação ou perifericamente, quando não são considerados meros danos colaterais.”
Francisco opta sempre pela chamada de atenção para o sentir destes outros, quase levando cada leitor a pôr-se na pele deles e a entender do mundo do seu ponto de vista. Talvez o mais importante alerta surja quando diz: “É preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença.” Forte, esta ideia da “globalização da indiferença” que a todos apanha na onda da globalização que nos avassala!
É imbuído do espírito franciscano que o Papa fala do “gemidos da irmã Terra”, aliados aos “gemidos dos abandonados do mundo”, para assinalar aquela que é uma marca deste tempo – “Nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos.” Inevitável é o salto para a definição do que é também a falta grave de hoje – “o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição, nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza.”
O discurso papal vai sendo cadenciado por termos que o asseguram como um contributo para a discussão, de tal forma é vasta a lista de referências presente – desde documentos da Igreja oriundos de todos os continentes (incluindo uma referência a Portugal devida à carta pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum”, da Conferência Episcopal Portuguesa, de Setembro de 2003) a citações de clássicos (Dante, por exemplo), de invocações dos seus antecessores até à presença de pensadores contemporâneos (Ricoeur, Chardin ou Guardini, entre outros) – ou de tal forma é a apresentação feita através de “propostas” (insistindo na ideia de “proposta”) para uma discussão maior.
O mais importante dessas propostas papais acentua-se a partir do capítulo IV, em que se fala de uma “ecologia integral”, depois de nos anteriores capítulos ter sido feito um retrato do mundo, em muito dominado pela crise do antropocentrismo contemporâneo. Percebe-se a ideia logo que é dito ser fundamental “buscar soluções integrais que considerem as interacções dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais”, porque “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental.” Ecologia económica, ecologia cultural, ecologia do quotidiano – todas como responsabilidade de todos, porque “somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder”.
No plano das propostas de linhas de acção, o Papa Francisco insiste no diálogo, passando pela política internacional, pela busca de novas políticas nacionais e locais, pela transparência nos processos de decisão, pelo encontro entre as religiões e as ciências. Nesta insistência no diálogo, há ideias que nos fazem pensar: “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana.” Outra: “A maior parte dos habitantes do Planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a estabelecerem diálogo entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade.”
O último capítulo envereda pela área da “educação e espiritualidade ecológicas”, propondo a construção de uma aliança com o ambiente, de um outro estilo de vida, de uma postura de responsabilidade ambiental, de uma necessária paz interior, de uma atenção aos outros, coordenadas indispensáveis para a felicidade na Terra. E não é sem um sentido autocrítico que, a finalizar, o Papa classifica esta sua carta como uma “longa reflexão, jubilosa e ao mesmo tempo dramática”. Um texto que gira em torno de uma ideia de liberdade e de felicidade para o ser humano e da responsabilidade que cada um tem na construção desse trajecto, que se lê como parte de uma conversa e que, pela sua actualidade e proximidade, apela aos leitores, quase se sentindo necessidade de sublinhar um e todos os parágrafos, tão incisivos eles são!

Sublinhados
Identidade – “Quem cresceu no meio de montes, quem na infância se sentava junto do riacho a beber, ou quem jogava numa praça do seu bairro, quando volta a esses lugares sente-se chamado a recuperar a sua própria identidade.”
Crueldade – “A indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos.”
Limite – “Cada época tende a desenvolver uma reduzida autoconsciência dos próprios limites.”
Homem e Natureza – “Sempre se verificou a intervenção do ser humano sobre a natureza, mas durante muito tempo teve a característica de acompanhar, secundar as possibilidades oferecidas pelas próprias coisas; tratava-se de receber o que a realidade natural por si permitia, como que estendendo a mão. Mas, agora, o que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana, que tende a ignorar ou esquecer a realidade própria do que tem à sua frente. Por isso, o ser humano e as coisas deixaram de se dar amigavelmente a mão, tornando-se contendentes.”
Trabalho – “Somos chamados ao trabalho desde a nossa criação. Não se deve procurar que o progresso tecnológico substitua cada vez mais o trabalho humano: procedendo assim, a humanidade prejudicar-se-ia a si mesma. O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal.”
Ética e Técnica – “Quando a técnica ignora os grandes princípios éticos, acaba por considerar legítima qualquer prática.”
Consumo – “Quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir.”
Simplicidade – “As pessoas que saboreiam e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar-se com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas.”

domingo, 2 de agosto de 2015

Urbano Tavares Rodrigues: Encontro com Vasco da Gama em "Os campos da Promessa"



Corria o ano de 1490, era a data em que se celebravam as festas do casamento do infante D. Afonso com Isabel de Castela, descendente dos Reis Católicos, evento que fazia fervilhar Évora de tanta gente e de tanta alegria. Entre os presentes constavam Vasco da Gama e um amigo, Luís de Mendonça, que tinham cavalgado desde a costa alentejana. Está o leitor perante o início da trama de Os campos da promessa, de Urbano Tavares Rodrigues (Évora: Ataegina, 1998), obra que abre com a transcrição do poema “Au seul souci de voyager”, dedicado a Vasco da Gama, de Stéphane Mallarmé (poeta que morreria no ano em que se celebrava o quarto centenário da primeira ida do Gama à Índia).
Durante a viagem, a conversa ajuda a definir o perfil de Vasco da Gama, que confidenciava ao amigo sentir-se “homem de um tempo novo”. Vindo desde Sines, terra ao pé do mar, de pescadores e de mestres de embarcação, Vasco explica: “Eu aprendi sobretudo com velhos pilotos, gente nossa, que se fez na crista das vagas e na dança das tempestades, suspensa da luz do Setestrelo, a empurrar a morte com a esperança. E sonho muito. Sonho desde sempre que vou comandar uma grande armada, naus e caravelas guiadas pelo Senhor Cristo nas rotas do Atlântico e do Índico, com peixes descomunais saltando das ondas, feras a saírem-nos ao caminho à beira das selvas, hordas de cafres, cáfilas de mouros e outras estranhas criaturas vestidas de ouro, sedas raras e pedrarias, como parece que são essas do Oriente, e a todos terei de vergar, menos com as bombardas dos meus navios do que com o poder da palavra.” A citação é longa, mas logo o leitor se convence de que o trabalho apresentado passa pelos meandros da História, de tal forma a linguagem se cruza com o pensar da época retratada, seja na ânsia de chegar ao Oriente, seja na imagem que do outro se constrói.
Decorre a viagem por longas horas e o discurso dos amigos aborda outras temáticas, como a religião ou o poder de Deus, como a figura do soberano (D. João II), sendo também interrompido pelas cenas a que assistem, outra forma de a época ganhar tonalidades e de contextualizar o tempo: o frade “rotundo, gozando, muito quieto, a presença de Deus” junto de humilde capela; os escravos que ajudavam na lavoura lá para os lados do Torrão; um encontro inesperado com um lobo atacante; as “silhuetas andrajosas de um grupo de infelizes”, leprosos que circulavam “ao Deus dará”; a paisagem de pastorícia, em que ambos ouvem as queixas de um pastor, pesaroso com “o mal da cobiça” (a quem Vasco da Gama promete que, em breve, no reino, haverá tal abundância que a todos fartará); o encarar com um louco, “homem silvestre”, que levará Mendonça a especular sobre as profundezas da loucura; as raparigas de um povoado que parecia abandonado, de tal forma os moradores estavam assustados com a ladroagem que os ameaçava; enfim, uma viagem que Mendonça resumiria no meio de uma conversa na pousada de Alcáçovas, depois de mostrar o seu ar poético num vilancete – “tudo o que vimos durante esta nossa viagem – a miséria, o roubo, a solidão, o sofrimento, a desgraça dos mais pequenos, vilões, vagabundos, doentes, leprosos, quereis que vos diga?, o mundo parece-me cruel e mal governado”.
Na cerimónia dos esponsais, será a vez de Vasco da Gama se cruzar com D. Manuel, “duque de Beja, primo do rei, e grande de Portugal”, momento de revelação, que contribui para o fechamento da narrativa – anunciando-lhe que, no seu rosto, “está escrito um grande destino” e assegurando-lhe a solidariedade (“Contai comigo, Vasco”), D. Manuel permite que o Gama fique a pensar no que lhe reserva o futuro.
E assim se faz a união da narrativa com o título: os campos do Alentejo e a promessa de D. Manuel. Uma história em que não falta a manifestação de um grande apreço pelo Alentejo (marca sempre presente na escrita de Urbano Tavares Rodrigues), uma paisagem em que decorre uma quase sinfonia de calma e de apaziguamento – “oscila, vagarosa, a linha do horizonte; sol e vento abrasam as estevas, sibilam, crepitam no mato alto; e o concerto das rolas, dos insectos, de algum grilo rente ao solo acompanha a caravana ao longo do percurso”. Uma história em que não falta uma quase declaração de amor a Évora, uma “cidade toda branca e jubilosa, sobrepujada por uma infinidade de campanários”. Uma história em que, não estando ausente o perfil da historiografia, tem também os ingredientes da criação literária, como acontece no momento de prolepse em que se anuncia o destino do noivo, a ocorrer dali a um ano – “Como que adivinha o Gama, ao vê-lo assim animoso e evanescente, que, cerca de um ano após o casamento, D. Afonso vai morrer de uma queda absurda, ao galopar de mão dada com um nobre seu amigo, D. João de Meneses, segundo uso da época, à beira do Tejo”. Com efeito, a História comprovou-o, um acidente vitimou D. Afonso em meados de 1491, quando cavalgava na zona de Santarém.
A narrativa conclui-se com a personagem Vasco da Gama a acalentar o sonho de ir até à Índia, sobretudo depois de ter recebido a promessa incentivadora de D. Manuel – “Irá surgir a minha hora? Benvinda hora.” E o futuro almirante abandona a festa, perseguindo a sua ideia, “pretextando cansaço, mas com a face banhada de esperança”, enquanto a paisagem se sintoniza com ele, pois “as laranjeiras, sob o luar, naquele largo branco de cal e absoluto, estão cobertas de ouro.” Entretanto, já Vasco da Gama tinha também a promessa da companhia do amigo poeta Luís de Mendonça, que, sofrendo a dor da morte de sua mulher, pondera seguir o herói “lá para as Índias, para o Oriente, para o desconhecido”.
Não sendo um conto extenso, Os campos da promessa foi uma forma de comemorar Vasco da Gama no ano em que se assinalava o quinto centenário da chegada dos Portugueses à Índia por mar. A história deixa um retrato de Vasco da Gama a querer integrar o futuro de Portugal, animado de um espírito de descoberta, sensível, todos ingredientes necessários à construção do herói que a História receberia no final daquela década, por incumbência de D. Manuel I (que subira ao trono em 1495) e que Camões iria glorificar literariamente três quartos de século depois.

Sublinhados
Loucura – “Será a loucura uma perda de faculdades ou uma outra forma de saber, tumulto da alma em que o mais fundo do nosso ser vem à tona?”
Dirigir – “Os homens não prestam e ao mesmo tempo são capazes de grandes feitos. Há que saber levá-los e dirigi-los com rigor, sendo preciso.” 

sábado, 1 de agosto de 2015

Castro Verde - Ver o cante alentejano


De passagem por Castro Verde, uma visita e um olhar sobre exposição pública de rua de ilustrações de Joaquim Rosa sobre o cante alentejano. A força do som e da voz, o espírito de grupo, o enaltecimento do trabalho e da identidade. A acompanhar a exposição, há ainda dois textos: um de José Luís Peixoto e outro de Afonso Cruz, ambos imbuídos da alma alentejana. Para (re)parar.












sexta-feira, 31 de julho de 2015

Para a agenda - Festa das Vindimas 2015 já mexe



Desde há poucos dias, a "carreta" das vindimas já está em Palmela, estacionada nos locais do costume, a cumprir a sua função: indicar o calendário da edição deste ano da Festa das Vindimas (3 a 8 de Setembro), adiafa grandiosa da vida do campo e desse símbolo que povoa as terras de Palmela. Para a agenda.

Para a agenda - Feira de Santiago quase no final



A Feira de Santiago, em Setúbal, está a chegar ao final de mais esta edição. É só mais este fim de semana. Além do programa diversificado de espectáculos, a Feira leva-nos a comemorar Bocage, o poeta, em exposição sob o título "o génio nasceu há 250 anos", bom pretexto para um encontro com um percurso da identidade e da cultura setubalenses.

sábado, 11 de julho de 2015

António Cagica Rapaz - A memória e a identidade nas crónicas



É reedição recente a obra Noventa e Tal Contos, de António Cagica Rapaz (1944-2009), que a Câmara Municipal de Sesimbra levou a cabo, quando passam quinze anos sobre a primeira publicação. Na verdade, trata-se de noventa e sete textos, que o próprio autor, em nota de abertura, hesitava em classificar quanto ao género: “não sei se são contos, se são crónicas, memórias, olhares ou retratos”, para logo acrescentar “se calhar é um pouco de tudo isso ou nada disso”, porque, “no fundo, são simplesmente coisas que, ao longo dos anos, fui buscando no sótão desarrumado que é esta minha cabeça e que fui escrevendo, ao correr da pena que tenho de não saber fazer melhor”.
E, na verdade, assim é. Os textos respeitam a modalidade da crónica pela sua extensão, pela forma de tornar actuais muitas histórias, por se cruzarem com o quotidiano de personagens com as quais o autor também se cruzou, por partirem para pequenas reflexões sobre a memória e as formas de vida, os exemplos, as convivências, os tempos. Havendo apenas um dos textos sem data, os mais antigos remetem-se para 1972, com publicação no jornal Record, enquanto os mais recentes surgem datados de 2000.
O estilo de Cagica Rapaz é vivo, intenso, medido ao pormenor, eficaz, levando o leitor a comungar os instantes e as situações, a viver aquilo que o próprio narrador quer fazer reviver. São histórias de Sesimbra, das suas gentes, do sítio. São narrativas de tempos recuados, assentes na infância do seu contador, que vogam até às figuras que fizeram parte do seu universo e que povoaram o tempo e a geografia entre Caixas,  Cotovia e Sesimbra. São relatos que vivem sobretudo pela sua humanidade, pelas relações que tal evocação gera entre as pessoas, todas protagonistas de vidas e da vida do narrador, que nunca se esconde atrás de um memorialista distante, antes insiste em tornar presentes os momentos que sentiu e as personagens que os condimentaram, sempre levado por um apego à terra, uma Sesimbra em que a paisagem tem de ser dominada, sem dúvida, pelo mar – “O mar e os barcos fazem parte da nossa vida, dos nossos sonhos. Por isso, no campo, mesmo sem searas a ondular, nos parece ver barcos onde, afinal, só há uma casa cercada por um muro pontiagudo, à beira da estrada.”
A pouco e pouco, ao longo da quase centena de crónicas, o autor vai revelando o seu propósito: vencer o tempo, revivendo-o pela memória, que se torna escrita. É assim que, poucas páginas de leitura volvidas, o leitor começa a entrar no desvendamento do porquê desta escrita: “foi-se o tempo, fica-nos a fantasia e a memória vacilante…” Um pouco adiante, ao fixar o retrato de uma personagem, um pouco mais de confissão – “é o passado que penetra o presente com ingénua autenticidade”. As histórias vão-se acumulando e, uns encontros à frente, é dito que “ficam as recordações aqui e ali reavivadas”. Já quase no final desta colectânea de crónicas, uma surge em que o autor cimenta o seu gesto de caminhar pela memória – refere-se à colaboração de António Lobo Antunes num periódico, entretanto recolhida sob o título de Crónicas, que, relidas, merecem de Cagica Rapaz a seguinte reflexão: “Sentimos quão vivas estão as recordações da infância, a ternura com que fala dos familiares, dos amigos, dos lugares, das coisas e de um tempo.” O leitor percebe que este narrador sente a felicidade da identificação, que cauciona o seu trajecto, mas, num gesto de simplicidade, conclui, linhas adiante: “Desta leitura acabei por extrair uma satisfação adicional que é o paralelismo que, vagamente, a espaços, a grande distância qualitativa, me atrevo a vislumbrar entre algumas das suas crónicas e um ou outro dos meus pobres escritos.”
A dimensão pictórica no traçado das personagens é intensa em António Cagica Rapaz, como se pode ver pela descrição de memória que faz de Maria Amália, sua familiar, impressão que quase nos remete para Arcimboldo: “Com os meus oito ou nove anos, eu via nela um fruto autêntico da terra, feito de trigo maduro, de sol cor de romã, de uva generosa, de bom pão amassado com amor e cozido em forno de tijolo moreno”. Impressionante também é a caracterização de uma outra personagem, que se manifesta em vários textos, o padre João, a quem está associada uma construção literária – “foi, para todos nós, o senhor abade das aldeias poetizadas do Júlio Dinis” –, resultante de um retrato todo ele eivado de sentimento – “felizmente, acima dos dogmas rígidos e tenebrosos, havia o Padre João, com a sua bondade, a sua jovialidade, a sua ternura, o seu sorriso cativante, a calorosa cumplicidade que estabelecia connosco”. Intenso também é o passeio na memória através de uma professora, Auzenda Pereira, que leccionava Francês no Liceu de Setúbal no início dos anos 60 e revelou aos alunos os caminhos da beleza e da arte – “Pessoas como a Dona Auzenda acompanham-nos ao longo das nossas vidas, ensinando-nos a apreciar as coisas bonitas da existência, com amor e o mesmo tacto poético com que nos levava pela mão através dos campos da Provença, em manhãs de evasão na biblioteca acolhedora do velho Liceu…” O recorte no tratamento das personagens é fino e sensível e assistimos a um desfile que integra o sapateiro, o pescador, o condutor do autocarro, o barbeiro, os amigos do café, aqueles que chegam e se deixam tornar íntimos de Sesimbra (terra de recepção também) e todos quantos acabam por fazer parte de uma vida, de uma comunidade, com ligação aos sítios (o café, a praça, a praia, o campo), aos momentos (a infância, a escola, a igreja, o futebol, as festas) e aos afectos. No fundo, são os contares do que alimentou o quotidiano, do que foi a epopeia de cada um – não por acaso, será a propósito da narração da matança do porco que o narrador dirá que, nesse dia, “se escrevia mais um capítulo dos muitos que compõem a epopeia do campo”…
Se dúvidas tivéssemos quanto ao que motivava António Cagica Rapaz nestas crónicas, o mistério seria desfeito por este curioso parágrafo que registou no texto “Omar” (designação vinda de poeta persa do século XI, evocado por Amin Maalouf), de 1999: “O que resta da nossa urbe é o olhar melancólico que alguns teimosos palermas, como eu, teimam em pousar sobre Sesimbra, tentando descobrir, desenterrar, trazer à superfície restos de beleza, de poesia, do encanto do passado.” E, quase no final do livro, mais um contributo para ajudar a desvendar o porquê destas evocações: “continuaria a fazer o que faço com as pessoas de quem gosto, evocando-as aqui e mais logo, por isto, por aquilo, como quem diz adeus de longe, do muro da lota…” Duzentas e poucas páginas de um livro que, dizendo adeus, traz o passado até ao presente, assumindo-se como um percurso que (re)constrói a identidade!

Sublinhados
Felicidade – “Se calhar, a felicidade é apenas meia dúzia de horas felizes, momentos espaçados e fugidios, uma sensação de paz, uma ilusão de eternidade, um riso de criança…”
Vida – “A nossa vida é um filme de que somos actores, de que nos julgamos realizadores e do qual, muitas vezes, somos apenas espectadores incapazes de interferir, impotentes para reagir.  Até ficarmos sozinhos na sala escura quando toda a gente já saiu, olhando para o relógio. Lá fora, na rua, já começa outro filme, outras vidas. Ou talvez seja apenas o mesmo filme que continua, em trinta e uma partes…”
Outro – “Andamos anos a cruzar-nos com pessoas de quem gostamos, a falar-lhes de raspão, ao dobrar a esquina, e não somos capazes de arranjar tempo para elas, para nós, para estarmos juntos, sempre a deixar para um qualquer dia que, quando e se chega, não é o que sonhámos. (…) Importante é gostarmos das pessoas e das coisas, sermos capazes de partilhar sentimentos e emoções.”
Escrever – “Escrever não é indispensável, faz parte das coisas supérfluas. Ninguém morre se não escrever e todos passam sem ler. Apenas acontece que alguns de nós, com ou sem razão, com mais ou menos jeito, julgam ter coisas para dizer. E escrevem. Por gosto, com paixão, por amor, escrevem.”

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Para a agenda: Moita Flores em Setúbal



Francisco Moita Flores entrou no enredo dos derradeiros dias do regime filipino em Portugal e trouxe O dia dos milagres, a sua mais recente obra. Amanhã, 10 de Julho, pelas 15h30, Moita Flores estará na estação de correios de Monte Belo, em Setúbal, para autografar a obra. Para a agenda.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Sobre "Os últimos marinheiros", de Filipa Melo



Magnífica reportagem, é o mínimo que se pode dizer do livro Os últimos marinheiros, de Filipa Melo (Col. “Retratos da Fundação”. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015), uma reportagem que mistura o retrato, a informação, o sentimento, as vozes, a opinião, em que não se apagam os afectos de quem narra. Lê-se o título e percorre-nos uma sensação de fim de ciclo ou de final de história, não porque um ou outra se cumpram, antes porque os tempos são o que são, antes porque a relação de Portugal com o mar, sendo geográfica, tradicional e histórica, é também paradoxal. É assim que sucede com Os últimos marinheiros, título a cheirar a nostalgia, a barcos no cais, a contemplação do mar e das vidas.
O contado resulta de duas viagens a bordo: uma, em 2009, no “Port Douro”, navio de carga da Portline Bulk International, em circuito entre Lisboa, Leixões, Caniçal e volta; outra, em 2015, no “Neptuno”, navio de pesca de arrasto, ao largo da Figueira da Foz. Ao longo das duas viagens, Filipa Melo conta as especificidades de cada um dos navios, esclarece muito do vocabulário náutico, ouve as personagens reais com quem viajou, conta-lhes e deixa que elas contem as suas histórias, dá nota das dificuldades e da camaradagem na companha, enquanto o leitor vai entrando nesse universo, quase integrando a tripulação ou, pelo menos, com ela confraternizando também.
São retratos de descrição do estado das coisas ou que favorecem uma leitura quanto a esse estado das coisas, essa (suposta, talvez obrigatória, talvez frágil) ligação de Portugal com o mar. Logo no início do livro, uma verdade que nos flagela os sonhos: “Em Portugal, os homens do mar estão em vias de extinção, ou quase”. E, dois parágrafos adiante, a crueza: “Inclinados perante a Europa, virámos as costas ao mar. País de marinheiros? A actualidade do nosso imaginário mítico marítimo dissolve-se no desprezo colectivo pelo mar. Estendidos nas praias, vemos passar navios, ao longe, cada vez mais ao longe. O mar não existe nem sequer como conceito do poder da nação.” Fortes estas imagens! Logo associo ao nome de um restaurante lisboeta que, perante a vista que se esparrama sobre o Tejo, não foi baptizado de forma estranha: “A ver navios”. Afinal, a poesia da saudade e dos longes que uma frase contém também pode esconder a face do desprezo… Quarenta páginas andadas, depois de relatos e de vivências, a mesma conclusão: “O declínio do nosso sector das pescas acompanha a tendência da maioria dos países com tradições piscatórias. Mas a falta de interesse dos portugueses pelo mar como activo nacional importante diz mais da difícil gestão dos nossos imaginário simbólico-poético e herança histórica e da ainda mais difícil distribuição de estatuto social. Se a nação fosse de marinheiros, com certeza a mais-valia das pescas ficaria no sector. Não é de todo o que acontece por cá.” Que dura conclusão para António Nobre, que, hoje, não poderia convidar Georges a vir visitar o seu “país de marinheiros”!
Ao longo de setenta páginas, vamos convivendo com portugueses “cuja principal fonte de sustento ainda é a navegação no mar”, homens e mulheres que “estão acostumados ao horizonte que se eleva, permanece em cima por segundo e volta a mergulhar. Uma vez, outra, outra, outra. Alguns, mesmo nos momentos mais difíceis, mantêm a placidez da gaivota, pousada sobre a imensidão da água como se de um banco de jardim se tratasse.”
Pelas histórias reais que Filipa Melo vai registando vai passeando também a literatura, com incursões de Conrad, de Pierre Loti, de Fernão Mendes Pinto, de Hemingway, de Camões, de Antero de Quental, de Sérgio Godinho, de Raul Brandão, de Baudelaire, de António Vieira, de Álvaro de Campos, de Yukio Mishima, de Ternazi, de Jorge Amado e de Júlio Verne, havendo ainda lugar para o romanceiro chegado através da “Nau Catrineta”, segmentos de obras de ficção, de poesia ou de relatos, que sustentam a grandeza do que é a relação do homem com o mar (com pena de que não tenha sido trazido também o nome de Bernardo Santareno a partir das suas crónicas de Nos mares do fim do mundo). Nessas histórias reais, os entrevistados falam do que sabem – da família, do mar, dos seus sonhos e de como chegaram ao mar, das aventuras e perigos passados, das suas leituras, das epopeias de que eles são heróis. E dão-se-nos, entre muitas, as experiências de Cristina Alves, a mulher que tem histórias bem dispostas para se inserir numa comunidade que era apenas masculina, ou a do sesimbrense António Rocha, cozinheiro de bordo, com uma história de vida que dava um livro…
Viajando num navio de carga ou num navio de pesca de arrasto, Filipa Melo é sobretudo sensível à experiência humana perante os oceanos – “O denominador comum das histórias e casos de vida que reproduzo ao longo deste livro é a necessidade de ajuste, mais ou menos voluntário, mais ou menos violento, do homem ao ritmo do mar.” E, mesmo depois de realizadas as viagens, a vida das personagens foi seguida, havendo a preocupação de localizar no presente mesmo aqueles com quem viajou em 2009.
Neptuno, o deus romano dos mares que dá nome ao navio da experiência de 2015, terá recebido bem este retrato em que o mar se destaca não só pela matemática da lonjura e do infinito, mas também por ser respeitado, pois, como confidencia Telma Cunha (que era oficial-imediato em 2009 e agora é capitã e também tem o hábito de frequentar o festival poveiro “Correntes d’Escrita”) sobre o mar: “Pode estar num momento muito calmo e, logo a seguir, ficar todo trapalhão. Dentro do navio, sente-se sempre, a toda a hora, a imensidão dele à nossa volta. É esmagador, não nos podemos fiar.”

Sublinhados
Mar – “O mar tanto oferece, tanto ruge, segundo leis desconhecidas. Despreza mitificações e romantismos, faz pagar caro os despiques, exige submissão absoluta. Se ele é a religião da Natureza, a poucos homens é concedida a verdadeira graça do culto.”
Descobrir – “Só se descobre aquilo que já existe.”
Olhar – “Cada um olha para o mar da maneira como olha para dentro de si mesmo.”

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Para a agenda: Arruada da Culsete



Entre 3 e 12 de Julho, a livraria Culsete, em Setúbal, vai levar a cabo a sua 3ª Arruada. Tempo para convívio com letras e livros, com saberes e culturas. O programa é extenso, variado, rico. Tem muito por onde escolher. Para a agenda!

Para a agenda: Franciscanismo e importância religiosa da Arrábida



Vítor Melícias, franciscano e capelão do Convento da Arrábida, falará, em 3 de Julho, sobre o franciscanismo e a sacralidade da Arrábida, em sessão na capela da Santa Casa da Misericórdia de Sesimbra. Às palavras juntar-se-á a música interpretada por Rão Kyao. Uma possibilidade de um encontro com a importância cultural e religiosa da Arrábida, dimensões que tornam a serra ainda mais mística. Para a agenda!