Domingo, 18 de Março de 2012

Para a agenda - III Encontro Livreiro, em Setúbal - é no domingo!


É já no domingo, 25, que tem lugar o III Encontro Livreiro, em Setúbal, reunindo livreiros, escritores, leitores e todos quantos se interessam pela vida do livro. A participação é livre... basta chegar lá, à livraria Culsete, na Av. 22 de Dezembro, pelas 15h00.
Se, entretanto, quiser saber mais coisas sobre o que tem sido o papel da Culsete, sobre as livrarias, sobre os Encontros Livreiros, pode visitar várias fontes: a última edição do JL - Jornal de Letras, por exemplo, trata as livrarias com destaque, tendo percorrido algumas delas, Culsete incluída; depois, tem dois blogues obrigatórios - o Chapéu e Bengala, do Livreiro Velho que é o Manuel Medeiros, e o Isto não fica assimOutros há, com certeza; mas estes são indispensáveis.
Finalmente, já sabe, é aparecer: ali, onde o mundo dos livros nos apela! Até lá!

Sábado, 10 de Março de 2012

Da deslealdade na política

O prefácio do novo volume em que o Presidente da República reúne as suas intervenções reveste as características de um texto memorialístico, pretendendo contar e justificar a história mais recente. Segundo o Presidente, o anúncio por José Sócrates do PEC IV, sem conhecimento prévio ao Presidente, foi “uma falta de lealdade institucional que ficará registada na história da nossa democracia”. Por outro lado, a apreciação da forma como foi conduzida a acção governativa do segundo mandato de Sócrates também não deixa margens para dúvidas – segundo o Presidente, “desde que iniciara funções, o Governo revelava grande dificuldade em adaptar-se à situação decorrente da perda de maioria absoluta nas eleições legislativas de setembro de 2009”.
Quanto à primeira afirmação, não poderemos dizer nada, por se referir a uma questão de relacionamento entre os dois; quanto à segunda, o caso é mais preocupante pois essa “dificuldade” foi sentida por toda a gente, foi visível.
A questão é de tempo. Provavelmente, teria sido muito melhor que o Presidente da República decidisse em conformidade na altura… o que não aconteceu.
As acusações só agora publicadas geraram o que era inevitável: acusações sobre quem teria sido mais desleal, dentro de um discurso de agressão quanto à “moral” que uns tenham ou outros não tenham para falar de “deslealdade”… como foi o caso do comentário de Silva Pereira, ministro da equipa de Sócrates.
Os políticos ajudam à construção da sua imagem. Quem falou durante o dia de ontem de deslealdade foram eles mesmos, referindo-se às relações entre eles. E os portugueses assistiram à peça uma vez mais. Podem chamar-lhe “deslealdade institucional” ou qualquer outra metáfora ou qualquer outro eufemismo, podem. Podem até competir entre si para saber qual o tal “campeão da deslealdade”.
Toda esta história é bizarra. Talvez os políticos nunca tenham sido tão verdadeiros ao falar de si próprios. É uma classe que acaba de se autocaracterizar pela deslealdade, pelo comentário fora de tempo, pelo discurso cheio de imagens de desculpabilização escondendo o menos bom que tem existido. Só resta uma dúvida: haveria quem suspeitasse de que este mundo era diferente?

Domingo, 4 de Março de 2012

Tahar Ben Jelloun - "L'homme rompu", o romance da corrupção

Quando, em 1994, o escritor marroquino Tahar Ben Jelloun publicou L’homme rompu (Paris: Éditions du Seuil), fê-lo anteceder de uma nota explicativa em que dizia dever este romance ao escritor indonésio Pramoedya Ananta Toer (1925-2006), que, na altura, vivia sob vigilância em Jacarta, proibido de publicar, sob o regime de Suharto. Ben Jelloun quis visitá-lo, mas desistiu da ideia por tal gesto poder significar mais um problema para o escritor oriental. Assim, decidiu homenagear o seu companheiro com este romance, abordando o tema da corrupção, tão caro a Toer que já tinha publicado em 1950 um romance a que dera justamente o título de Corrupção.
O espaço escolhido por Ben Jelloun foi Marrocos, numa geografia centrada em Casablanca, com reminiscências de Fez; a personagem construída foi Mourad, engenheiro a trabalhar num Ministério do Equipamento, cuja assinatura era decisiva para a aprovação de projectos de construção. A acção é determinada pela constante pressão a que Mourad está sujeito: poderia viver bem melhor se alinhasse na assinatura de determinados projectos a troco de dinheiro, tal como acontecia com vários dos seus colegas. Não só essa pressão era evidente por parte do seu director e do seu adjunto (a ganhar bem menos do que ele, mas com um nível de vida muitíssimo superior), como era feita pela mulher de Mourad, Hlima, que sempre o desconsiderara por ele não entrar nesse jogo da corrupção, que seria a forma de a família poder viver melhor, pressões que o culpabilizam com o eufemismo de não se ter adaptado à vida moderna...
A característica de resistente que Mourad tinha acabou-se-lhe quando decidiu aceitar o primeiro envelope com uma quantia em dirhams bem atraente. E, depois, veio a segunda oferta, em dólares. Se, antes, era a luta de Mourad contra um sistema, agora passa a ser a luta de Mourad consigo mesmo, percurso explorado numa escrita em que a personagem monologa sobre si, sobre as relações sociais e sobre o mundo. O romance é o resultado dessa luta, o percurso que Mourad faz para se justificar e para, definitivamente, aceitar enveredar pelo caminho do pagamento dos favores.
Paralelamente, existe uma história de mulheres. Se as imagens sociais do seu director e do seu adjunto são beliscadas por, sendo chefes de família, se envolverem com raparigas de liceu, já Mourad resiste a essa prática (ele mesmo tem uma filha dessa idade), mas o seu percurso oscila entre três mulheres: a esposa, a prima Najia (viúva, atraente) e Nadia, a rapariga que conheceu numa das suas deambulações pela cidade. O romance é também esse percurso de afastamento relativamente a Hlima e de aproximação a Najia, numa rede em que também há a cultura dos afectos com Nadia.
Mourad vai-se encontrando, definindo, num gesto de entrada num mundo diverso do que sempre conheceu, por vezes reagindo sob a lembrança dos ensinamentos do pai, outras vezes hesitando porque à sua volta a corrupção alastra e é prática quotidiana. A finalizar a nota de abertura, que é também uma dedicatória para Ananta Toer, Ben Jelloun escreve: “L’histoire se passe au Maroc aujourd’hui. C’est pour lui dire que sous des ciels différents, à des milliers de kilomètres de distance, l’âme humaine, quand elle est rongée para la même misère, cède parfois aux mêmes démons. Cette histoire semblable et différente, localle et universelle, est ce qui nous rapproche, nous, écrivains du Sud, meme si ce Sud est à l’Est extrême.”
O leitor vai seguindo os debates interiores de Mourad sempre na expectativa do que poderá ser o seu destino: recuo na decisão, prisão ou assumida entrada no mundo da corrupção? A resposta é dada por uma personagem que persegue Mourad desde a primeira página – o seu adjunto Haj Hamid (que, a partir de certa altura, ele tratará por H. H.), num momento em que estavam sós no escritório, depois de uns dias de ausência de Mourad, sorri-lhe e diz-lhe: “Bienvenue dans la tribu!” E o romance acaba. Assim, o engenheiro deixava de ser um “grão de areia” na engrenagem e passava a integrar-se no sistema…
Uma história densa em torno de uma personagem não menos densamente trabalhada, de uma riqueza psicológica extrema, é este L’homme rompu, em que o adjectivo do título tanto remete para a corrupção iniciada como para a verticalidade abandonada. E, porque a corrupção vai sendo fenómeno de que se fala todos os dias, este retrato de Mourad é um bom contributo da literatura para um outro retrato deste tempo…
Sublinhados (por ordem alfabética)
Corrupção – “Le propre de la corruption c’est qu’elle n’est pas visible directement. (…) La corruption est une forme déguisée d’impôt supplémentaire.”
Destruição (do homem) – “Si l’homme vend son âme, s’il achète la conscience des autres, il participe à un processus de destruction générale.”
Dinheiro – “La réligion de l’argent pourrit tout ce qu’elle touche. Elle méprise les gens modestes, les honnêtes gens incapables de magouilles.”
Explicar o mundo – “Lorsque des choses étranges arrivent, il faut les recevoir telles quelles, sans chercher à tout expliquer. L’intelligence est l’incompréhension du monde, c’est cette capacité de nous étonner et de découvrir que complexité n’explique pas obscurité. Quant à ceux qui réclament la clarté absolue, ils se trompent ou se font des illusions.”
Infância – “Nous avons tous besoin d’une petite place sur la terrasse de l’enfance, là où on est hors d’atteinte, un peu comme si on était mort.”
Liberdade – “Personne ne peut m’empêcher de penser ni de rêver. C’est ma seule liberté. (…) Mes rêves sont impénétrables. Je suis le seul qui possède la clé. Je n’ai même pas besoin de la cacher. Elle est dans ma tête. Il n’y a personne pour m’empêcher d’agir.”
Mentir – “Les gens honnêtes ne savent pas mentir; dès qu’ils sortent du droit chemin, tout le monde le sait. Ils se trahissent eux-mêmes. Pas besoin de les dénoncer.”
Noite – “Qui a dit que la nuit porte conseil? C’est faux. Non seulement elle ne porte pas conseil mais elle dramatise les faits, elle les grossit, les rend lourds. (…) La nuit est alarmiste.”
Outro – “On découvre vraiment les êtres dans des moments inattendus comme les silences, ou grâce à un petit détail, dans la manière dont ils réagissent à des faits sans importance.”
Pobreza – “On est puni d’être pauvre; et on est pauvre parce qu’on est honnête; honnête parce qu’on est éduqué de père en fils pour respecter la loi. (…) La pauvreté est parfois mauvaise conseillère. Elle pousse les gens à commettre des délits, à voler, à escroquer, à mentir.”
Simplicidade (do homem) – “Il faut aller dans les campagnes pour rencontrer des gens encore attachés aux choses simples de la vie. Ils sont accueillants et généreux meme s’ils sont pauvres. En ville, plus les gens sont riches plus ils sont calculateurs.”
Solidão – “La solitude choisie est une forme aiguë d’égoïsme, un refuge pour ceux qui ne se sentent pas concernés par cette agitation qu’on confond parfois avec la vie.”
Tédio – “L’ennui tranquille est un état de l’esprit et du corps qui ressemble à une sorte d’apaisement quand il n’y a rien à faire ni à prouver.”

Sábado, 3 de Março de 2012

Máximas em mínimas (77) - José Gomes Ferreira

Mudança – “Só as aparências são susceptíveis de mudança e nunca o que existe de mais profundo nos seres.”
Medo – “Ocultar o medo – a única valentia verdadeira dos homens verdadeiros.”
Pensar – “A maioria das pessoas já nem pensa! Fala. Isto é: limita-se a pôr o aparelho em acção, a acertar a agulha no sulco respectivo e a deixar tocar o Disco… Sempre igual, aliás.”
Sofrimento – “Como me irrita esta pretensão de quererem ensinar aos homens o que só os homens entendem: a vida, o sofrimento, o sacrifício…”
Coração – “O coração não compreende nada. Bate como uma máquina e nada mais. O verdadeiro coração existe na cabeça.”
Religião – “Muitos deuses têm os homens inventado para se sentirem menos sozinhos no mundo.”
José Gomes Ferreira. Aventuras de João Sem Medo (1963)

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Albérico Afonso Costa e as datas de Setúbal

Sabe o leitor qual foi o primeiro rei a visitar Setúbal? Ou quando houve a primeira demarcação do concelho de Setúbal? Ou que Nuno Álvares Pereira foi impedido de pernoitar na cidade do Sado? Ou que Setúbal foi a terra onde D. João II casou com Leonor de Lencastre? Ou que navegadores diversos zarparam de Setúbal rumo aos Descobrimentos? Ou que Fernão Mendes Pinto em Setúbal se abrigou quando o barco em que viajava foi assaltado? Ou que uma postura do século XVIII punia quem cortasse árvores no campo do Bonfim com açoite público e degredo para África? Ou que aquele que viria a ser o marido de Ana de Castro Osório esteve preso durante um mês? Ou que, em 1918, militares idos de Setúbal sofreram pesadas baixas na Grande Guerra?
As perguntas são estas, mas podiam ser muitas outras e sobre tão diversas épocas. As perguntas são estas e correm como elementos seguros da identidade setubalense. E a fonte onde podemos encontrar as respostas é-nos trazida por Albérico Afonso Costa, no seu livro História e Cronologia de Setúbal (1248-1926) (Setúbal: Estuário / Instituto Politécnico de Setúbal – Escola Superior de Educação, 2011), com aparato gráfico agradável e facilitador da leitura surgido sob a responsabilidade de outro setubalense, José Teófilo Duarte.
Logo de início, o autor adverte-nos quanto às escolhas – “Numa cronologia, o desafio que está sempre presente é o da opção por este ou aquele acontecimento, no sentido de lhe determinar o significado, de lhe perspectivar as consequências, de o entender no seu todo enquanto elo da corrente histórica.” E o leitor segue, então, esse trajecto, resultante das escolhas feitas no tempo de Setúbal, num desvendar cada vez mais intenso, num querer saber mais e mais, sentindo as pulsações e os ritmos desta beira-Sado.
São quase trezentas páginas de datas e de acontecimentos, divididos em quatro partes – “Setúbal Medieval e Moderna” (entre o 15 de Agosto de 1248, em que abriu ao culto o mais antigo templo sadino, a igreja de Santa Maria da Graça, e o 15 de Dezembro de 1819, dia em que nasceu António Maria Eusébio, o poeta popular “Calafate”, conhecido como o “Cantador de Setúbal”, cujas cantigas mereceram o apreço de muita gente da cultura da época), “Setúbal Liberal” (entre 24 de Agosto de 1820, em que Setúbal assiste à criação de uma Sociedade Patriótica, angariadora de apoios para o regime liberal, e Outubro de 1910, quando surgiu uma greve dos carroceiros locais) e “Setúbal Republicana” (entre o 5 de Outubro de 1910, data de revoltosos e de incêndio na Câmara, e 28 de Maio de 1926, sem reacções ao golpe militar mas com o anúncio de que os trabalhadores da Câmara tinham começado o ano com salários em atraso).
Cada uma das partes é antecedida de um texto introdutório, apresentando resenha sobre o que de mais importante aconteceu em Setúbal nessa época, quase funcionando essas indicações como a estrutura axial da identidade desses tempos.
No final, o leitor pode percorrer uma listagem de bibliografia adequada, bem como um índice analítico (que bem mereceria ter sido mais demorado e completo por constituir um roteiro e um complemento importante numa obra deste género) e cerca de meia centena de páginas de “Iconografia Setubalense”, com reproduções fotográficas de documentos já raros na maior parte dos casos.
Com esta obra, Albérico Afonso Costa retoma uma prática que já iniciara em 1988, ao publicar uma breve Cronologia Geral da História de Setúbal (Setúbal: Escola Superior de Educação), mas dela se distanciando na precisão, quantidade de informação e datas encontradas.
História e Cronologia de Setúbal, radicando numa prática que já teve antecessores como Almeida Carvalho, Manuel Maria Portela ou Peres Claro (nomes que trabalharam, recolhendo e divulgando as datas de Setúbal), passa a constituir, pois, um elemento indispensável para qualquer pesquisa relativa à história local sadina. Não será apenas um repositório de datas, alinhadas com a precisão do calendário, ou um baú de curiosidades; é muito mais do que isso – um documento que se dá a ler com agrado, com discurso acessível e preciso, frequentemente acompanhado de imagens e de textos que funcionam como documentos, uns na versão integral, outros apresentados em resumos. Conhecer a identidade setubalense terá de passar, inequivocamente, por este trabalho de Albérico Afonso Costa – ela está lá, seja no que foi a construção deste local, seja no que foram os obstáculos e adversidades a essa construção, as migrações (ponto de partida ou de chegadas), as acções políticas que a Setúbal vieram ter ou que em Setúbal começaram (ou passaram), as ondas de industrialização, as formas de socialização, o associativismo ou a intervenção cultural.
Setúbal tinha falta de uma obra assim!

Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

Máximas em mínimas (76)

Descobrir
“Sempre que um povo ou um homem tenta desvendar e conhecer paragens até então ignotas, ou realizar um acto nobre e grande, parece que as forças da Natureza, ou a inveja dos outros homens tudo fazem para os não deixar vencer.”
João de Barros. “Os Lusíadas” contados às crianças e lembrados ao povo. 23ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1989, pg. 17.

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Para a agenda - Paulino de Oliveira na prisão

Paulino de Oliveira (1864-1914), setubalense, escritor e adepto do Partido Republicano, passou um mês no cárcere graças a protesto lavrado na sequência dos acontecimentos que envolveram uma greve em Setúbal em 1890. Na sequência dessa prisão, Paulino de Oliveira registou testemunho na obra Em ferros d’El-Rei (Lisboa, 1893), com o sugestivo subtítulo de “Considerações acerca da minha prisão”.
O Centro de Estudos Bocageanos reeditou a obra na sua colecção “Clássicos de Setúbal”, com um prefácio de Daniel Pires, que será apresentada amanhã, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal de Setúbal.

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Viriato Soromenho-Marques em entrevista

Florindo Cardoso (entrev.). O Setubalense: 15.Fevereiro.2012

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Azulejos do Mercado do Livramento, em Setúbal (VIII)

Quadro retratado pelos azulejos de Pedro Jorge Pinto no Mercado do Livramento, em Setúbal, peça que ficou destruída com o desabamento ocorrido em 7 de Fevereiro.
Uma vista geral de Setúbal...

Azulejos do Mercado do Livramento, em Setúbal (VII)

Quadro retratado pelos azulejos de Pedro Jorge Pinto no Mercado do Livramento, em Setúbal, peça que ficou destruída com o desabamento ocorrido em 7 de Fevereiro. Uma figuração do antigo mercado, o retrato de um tempo outro...

Azulejos do Mercado do Livramento, em Setúbal (VI)

Quadro do mundo rural retratado pelos azulejos de Pedro Jorge Pinto no Mercado do Livramento, em Setúbal, peça que ficou destruída com o desabamento ocorrido em 7 de Fevereiro. A lavra e a sementeira.



Azulejos do Mercado do Livramento, em Setúbal (V)

Quadro retratado pelos azulejos de Pedro Jorge Pinto no Mercado do Livramento, em Setúbal, peça que ficou destruída com o desabamento ocorrido em 7 de Fevereiro.
A cena evocada é do mundo rural: a rega do pomar.

Azulejos do Mercado do Livramento, em Setúbal (IV)

Um quadro retratado pelos azulejos de Pedro Jorge Pinto no Mercado do Livramento, em Setúbal, peça que ficou destruída com o desabamento ocorrido em 7 de Fevereiro.
Cenas de um mundo rural, nas vindimas...

Azulejos do Mercado do Livramento, em Setúbal (III)

Dois quadros retratados pelos azulejos de Pedro Jorge Pinto no Mercado do Livramento, em Setúbal, peças que ficaram destruídas com o desabamento ocorrido em 7 de Fevereiro.
As duas cenas retratadas evocam as colheitas da azeitona e do arroz.



Azulejos do Mercado do Livramento, em Setúbal (II)

Dois quadros retratados pelos azulejos de Pedro Jorge Pinto no Mercado do Livramento, em Setúbal, peças que ficaram destruídas com o desabamento ocorrido em 7 de Fevereiro.
As duas cenas retratadas bem podiam constituir um "ciclo do sal".



Azulejos do Mercado do Livramento, em Setúbal (I)

Três quadros retratados pelos azulejos de Pedro Jorge Pinto no Mercado do Livramento, em Setúbal, peças que ficaram destruídas com o desabamento ocorrido em 7 de Fevereiro. As três cenas evocadas bem podiam constituir um "ciclo do peixe".



Mercado do Livramento, em Setúbal - breve historial

Painel de azulejos da parede sul no Mercado do Livramento (O Setubalense, de 27.Junho.2005)

Nos primeiros anos do século XX, o poeta setubalense António Maria Eusébio, mais conhecido por "Calafate", dava a conhecer aos contemporâneos as suas décimas sob o título de "Recordações da Minha Vida", conjunto de memórias de quem viu as modificações sadinas ao longo de quase um século (1819-1911). Referindo-se à época em que apareceu o Mercado do Livramento, lembrava o "Cantador de Setúbal", a testemunhar o movimento dos produtos agrícolas naquele espaço: "Vi a nossa praça antiga / Com quarenta hortelonas / Da cidade e palmelonas / Muita velha e rapariga. / Cada qual na sua giga / Tinha o seu lugar marcado".
Construído na esplanada do baluarte do Livramento, junto à ribeira do mesmo nome, o Mercado do Livramento foi inaugurado em 31 de Julho de 1876, pelas seis horas da tarde, data em que passavam os cinquenta anos sobre o início da vigência da "Carta Constitucional".
Até essa data, o mercado funcionava em dois pontos da cidade: na Ribeira Velha, era vendido o peixe; num recanto da Praça do Sapal (actual Praça de Bocage), procedia-se à venda de produtos hortícolas. A dispersão e a falta de higiene terão sido duas razões que determinaram a construção do Mercado do Livramento.
Poucos dias antes da inauguração, a Câmara sadina publicou edital a avisar que, a partir da inauguração do Mercado, seria proibida a venda de "peixe, frutas, hortaliças, etc., nas praças onde até ao presente se expõem à venda aqueles géneros, devendo os vendedores, quer de peixe, quer de frutas e hortaliças, tomar os lugares que pretenderem no referido mercado pela ordem que lhes for indicada pelo fiscal". Por outro lado, a vigilância e controlo sobre as condições higiénicas dos alimentos em venda constituíam outra área de intervenção, tal como se pode verificar pelo noticiado no semanário Gazeta Setubalense, de 6 de Agosto de 1876: "O sr. Santana, fiscal do novo mercado público, fez enterrar duas porções de peixe arruinado que se estava vendendo ao público". Logo a seguir, o jornal lembrava: "Tem havido grandes abusos com a venda de peixe naquele estado e bom é que se não repitam".

o corte da fita
A inauguração do Mercado do Livramento ocorreu também em período da Feira de Santiago, tendo a Gazeta Setubalense informado que, no domingo que antecedeu a inauguração, cerca de mil e quinhentas pessoas tinham vindo a Setúbal de comboio, data em que a Filarmónica do Lavradio actuou no Passeio da Praia.
Se, presentemente, o Mercado encerra à segunda-feira, certo foi que a sua inauguração teve lugar nesse dia da semana, em cerimónia que reuniu a vereação actual e a anterior, tendo o Presidente da Câmara, António Rodrigues Manito, discursado sobre "a utilidade do novo mercado, considerado como meio higiénico e pela comodidade pública que dele resultará", como relatava a Gazeta Setubalense. O povo acorreu à festa de tal forma que a imprensa referiu que "quase todos os operários deixaram de trabalhar, associando-se assim na manifestação de júbilo que sempre deve suscitar um melhoramento tão importante". À noite, o Mercado "foi iluminado a gaz e por meio de balões de cores", com actuação da filarmónica da Capricho.
O edifício, com planta desenhada pelo apontador de obras públicas Marcelino Alemão de Mendonça Cisneiros de Faria, fora já apresentado pelo mesmo jornal, no dia anterior à inauguração: "o mercado forma um quadrilongo de 80 metros de comprido por 52 de largo; a sua fachada voltada para a Rua da Praia está encimada com as armas do município abertas em mármore; tem 33 casas bem construídas, duas das quais servem para estação fiscal do município e alfândega e as outras para venda de géneros; em 7 rectângulos, simetricamente dispostos e separados por espaçosas ruas para trânsito público, há 44 mesas, 24 de pedra para venda de peixe e 20 de madeira para venda de hortaliça". A questão da limpeza do espaço e das bancas não fora esquecida: "dentro do mercado, há um poço, cuja água se extrai por meio de bomba e é conduzida por canalização às casas de salga e preparo das pescarias, onde existem os competentes canos parciais para despejo que comunicam com o cano geral".
As inovações eram de tal forma que, logo no ano seguinte, Alberto Pimentel registava na sua obra Memória sobre a História e Administração do Município de Setúbal que "Lisboa não possuía ainda um mercado relativamente tão bom como este" e enaltecia as condições do Mercado e a sua localização, "pois que fica a igual distância dos dois bairros extremos da cidade, o de Tróino, a oeste, o de Palhais, a leste". Poucos anos depois, Pinho Leal anotava, no nono volume de Portugal Antigo e Moderno, que o edifício era "incontestavelmente" um dos mais sumptuosos "deste género, que actualmente existem em Portugal".
Relativamente aos custos, Pinho Leal registou que a construção do Mercado custara 28 contos, verba obtida pela Câmara através de empréstimos. As previsões apontavam para um rendimento anual de três contos a favor da Câmara, importância que, rapidamente, reporia as verbas gastas. No início de 1877, com seis meses de funcionamento de Mercado, o fiscal Santana divulgava as contas, apontando receita líquida no valor de um conto e 679 mil réis. As quantias cobradas eram, no entanto, elevadas e motivavam queixas, como o deixou cantado o poeta Calafate: "Temos novo mercado / Para recreio da cidade. / Quem o paga somos nós, / Isto é a pura da verdade".

marco da cidade
Em função do desenvolvimento sentido em Setúbal, por decisão camarária da equipa presidida por Carlos Botelho Moniz, o Mercado viria a ser demolido para, no seu lugar, ser construído outro, com obra iniciada em 1927 e concluída três anos depois. Durante este período, a venda dos produtos passou a ser feita em barracões construídos na Praça Almirante Reis (actual Largo dos Combatentes).
Mais uma vez, o mês de Julho foi o escolhido para a inauguração das obras. Em 10 de Julho de 1930, era retomada a actividade de venda no Mercado do Livramento. O jornal O Setubalense desse mesmo dia registava: "no amplíssimo Mercado pairaram a alegria e a satisfação de todos os setubalenses; foi dia de festa para os que de há muito almejavam este benefício; dia de regozijo para os que edificaram, duma vez para sempre, uma obra digna, que bem serve a nossa cidade".
O novo Mercado, com exterior ao gosto "Art Déco" da época e colunas em ferro fundido, inseriu, na parede interior sul, vários painéis de azulejo, legendados, de teor folclórico, assinados por Pedro Jorge Pinto (1900-1983) e executados por Lena, datados de 1929 ("Descarga das Redes", "Transporte do Sal", "Reparação das Redes", "Recolha do Sal", "Descarga da Sardinha", "Salga do Peixe", "Setúbal - Vista Geral" e "Colheita da Azeitona") e de 1930 ("A Vindima", "O Antigo Mercado" e "Rega do Pomar"). Um outro painel inserido no mesmo conjunto e datado da mesma época, "Lavra e Sementeira", foi restaurado em 1991 por Andreas Stocklein.
Posteriormente, as duas entradas do lado norte, a partir da Avenida Luísa Todi, foram também decoradas com painéis de azulejo, contendo quadros da cidade, do Sado e do campo, não legendados, datados de 1944, pintados por Rosa Rodrigues e feitos na Fábrica Battistini.
Constituindo uma atracção, estes painéis, fazendo recuar a história até ao antigo mercado na Ribeira e enaltecendo marcas da identidade que fez Setúbal, associados ao valor arquitectónico do edifício, colocaram o Mercado do Livramento na rota cultural da cidade.
No entanto, os painéis azulejares da parede sul tiveram, a partir de Maio de 2010, de ser sujeitos a protecção, porquanto caíram várias das peças decorativas, tendo sido aventada a hipótese de reconstituição num regime de parceria. Entretanto, as condições do Mercado tiveram de ser sujeitas a melhoramentos e, no início de Outubro de 2010, o edifício foi encerrado e submetido a obras de reconversão e reorganização de espaços, tendo os serviços de fornecimento e venda continuado a funcionar em terrenos adjacentes de uma antiga conserveira e em instalações improvisadas nas ruas Ocidental e Oriental do Mercado. As obras duraram cerca de um ano, acontecendo a reabertura em 11 de Outubro de 2011, com uma remodelação que, de uma forma geral, agradou, ainda que sem o funcionamento dos espaços comerciais da galeria do primeiro andar, cujas obras se mantiveram em curso.
Os painéis azulejares da parede sul permaneceram protegidos e foram introduzidas novas obras de arte da autoria de Augusto Cid – as esculturas de figuras típicas do Mercado, representado o descarregador de peixe, a vendedeira de galinhas e de ovos, o homem do talho e a vendedeira de flores, peças oferecidas pela Fundação Buehler-Brockhaus.
Na tarde de 7 de Fevereiro, o país foi surpreendido com a derrocada total da parede sul do Mercado do Livramento, que provocou cinco mortes a trabalhadores que executavam obras de ampliação do espaço destinado ao Mercado. O saldo foi trágico nesse acidente ocorrido pelas 17 horas ao não terem sido poupadas vidas humanas. Com o desabamento, desapareciam também os octogenários painéis de azulejos. O Mercado esteve encerrado até averiguação das condições de segurança e reabriu quatro dias depois, em 11 de Fevereiro. Entretanto, a Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA), ao mesmo tempo que tornou público o lamento pelas vidas perdidas, defendeu a reconstituição dos painéis de azulejo.


Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

As paixões de Fernando Assis Pacheco contadas por Nuno Costa Santos

São duas centenas de páginas, recheadas com algumas fotografias, que constituem Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco (Lisboa: Tinta da China, 2012), de Nuno Costa Santos.
O título parte de uma obra do biografado – Trabalhos e paixões de Benito Prada (1993) –, romance sobre um antepassado galego. E esta obra é, de alguma maneira, o romance de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), o contar da sua vida, do seu quotidiano, quase o trazendo à convivência, seguindo-lhe os passos.
É biografia na medida em que alguém conta uma vida de alguém. Mas foge do estilo canónico da biografia, demarcando-se mesmo do carácter de estudo e de ensaio que a biografia também é, optando o autor por uma escrita mais próxima do género da reportagem jornalística, em que são recolhidos testemunhos, muitos testemunhos, de quem conviveu e conheceu o biografado, pessoas que falam mais do que as obras do próprio, citadas, é certo, mas sem serem a tónica desta obra.
Muito mais do que a obra de Assis Pacheco passa por aqui o seu trajecto – o canto familiar, os locais de trabalho, os refúgios para a escrita, os prazeres da gastronomia, os amigos, as disposições, as geografias e os fragmentos da vida, os hábitos, as teimosias. E as memórias de quem com ele conviveu.
Leitura fácil e próxima, este livro é ponto de encontro de todas as vozes que privaram com Fernando Assis Pacheco e que, quase dúzia e meia de anos volvidos sobre a sua despedida, o tornam presente, ficando ao leitor a sensação de que, num destes dias, se cruzará algures com esta personagem que caprichava no convívio, nas histórias, no humor e no prazer de viver.
Recorrentemente, é o discurso do biografado que nos visita, saltando das entrevistas dadas, em excertos que dialogam com os testemunhos recolhidos, sem se lhes sobreporem, ficando mesmo a ilusão de que estes encontros são recentes e são reais.
Para alguém que foi jornalista e contador de histórias, uma biografia só se poderia entender desta forma, isto é, uma longa peça jornalística, que não um estudo, que não uma moldura, que não um retrato distante. E se tivesse o seu quê de poético, mesmo que apenas com os versos do herói, tanto melhor. São estes atributos que permitem ao leitor esse encontro com Fernando Assis Pacheco. Só falta mesmo a fotografia que memorize essa conversa entre os dois… e, já agora, aprofundar algumas questões que vão ficando em aberto ao longo do livro ou, pelo menos, tratadas de passagem…

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Sebastião da Gama, 60 anos depois

Já lá vão 60 anos sobre o 7 de Fevereiro de 1952, data em que, logo pela manhãzinha, a vida abandonava Sebastião da Gama no Hospital de S. Luís, em Lisboa, depois de, na véspera, ter sido transportado desde o seu Estremozinho… A última palavra que terá dito, sabemo-lo pela Joana Luísa, mulher do poeta, foi “poesia”, conforme ainda recentemente recordou na reportagem publicada na revista do jornal Sol. E não deixa de ser curioso, no mínimo, que o percurso poético de Sebastião da Gama se tenha iniciado na infância, com uma quadra engendrada depois de uma visita à Arrábida, para reportar à família uma descoberta – “Fui passear / à serra da Arrábia / e encontrei / uma mulher grávia” –, e se tenha concluído com essa palavra que lhe foi mágica, a “poesia”, já pronunciada com a dificuldade de quem sentia que lhe fugia!...
Sebastião da Gama foi poeta na vida e na escrita. Isto é: Sebastião da Gama foi, sobretudo, poeta e viveu poetando. Em 27 anos que peregrinou, escreveu, escreveu, escreveu. Publicou três livros, de títulos sugestivos, dando a ideia de uma sequência que emergiu de um ponto que lhe foi âncora forte – a Arrábida – para chegar à totalidade de um espaço livre, universo franco à poesia, depois da passagem do cabo. Veja-se essa trilogia: Serra Mãe (1945) – Cabo da boa esperança (1947) – Campo aberto (1951). Que mais completo itinerário se poderia desejar? Bem ele dizia: “meu caminho é por mim fora”…
No dia 8 de Fevereiro de 1952, a Azeitão acorreu um universo de admiradores e amigos, aí se reunindo, não apenas os conterrâneos, mas também os seus colegas (Mourão-Ferreira e Lindley Cintra, por exemplo), os seus professores (Hernâni Cidade, por exemplo), os seus alunos (Nicolau da Claudina, por exemplo, o jovem que não resistiu ao fascínio do mestre e, a pé, fez o caminho entre Palmela e Azeitão para a última despedida devida ao seu professor). A comoção terá sido muita, imagina-se. Os jornais noticiaram. E David Mourão-Ferreira, o amigo que talvez mais tenha escrito sobre Sebastião da Gama – fosse como análise da obra, fosse como testemunho memorialístico –, registou o facto no seu diário, peça ainda inédita, inscrevendo no dia 9: “Lisboa. 3 horas da tarde, Pastelaria Herculano: Ontem, enterro do Sebastião. Estava um dia lindíssimo: atravessei o rio e fui, de camioneta, até Azeitão; apeei-me precisamente no local onde, há cinco anos e meio, ele me esperara, quando da primeira vez que fui à Arrábida. Desta vez, porém, não subimos a serra. Acompanhei-o ao pequeno cemitério da vila, onde agora repousa no ‘campo aberto’ que ele próprio previra. Era o melhor de todos nós, o Sebastião: o menos literato de todos nós.” O registo é curto, mas é comovente.
Nesse 7 de Fevereiro de 1952, passam agora 60 anos, iniciava-se a memória de Sebastião da Gama. Para trás, ficava um percurso feito de alegria e de humor, num desafio permanente à vida; ficava a convicção da aliança com a Natureza, celebrada pela palavra e materializada também na defesa da serra (uma carta sua, de 1947, foi o ponto de partida para a criação da Liga para a Protecção da Natureza, no ano seguinte); ficava uma experiência pedagógica vivida e relatada de forma ímpar, que ainda hoje é uma revelação e uma pista para professor que se preze; ficava uma obra constituída por cerca de novecentos poemas (muitos ainda inéditos), centenas de cartas (a sua epistolografia não foi ainda estudada e só uma pequena parte está publicada), um diário, diversos ensaios; ficava uma vida cimentada de leituras, muitas e variadas, de escritos que lhe foram contemporâneos ou anteriores a si, de latitudes distintas; ficava uma licenciatura e um percurso de professor, a todos os títulos julgado ímpar (pelos alunos, pelos seus orientadores e professores, pelos seus colegas); ficava a passagem de testemunhos para outros (Mourão-Ferreira reconheceu, em diversos momentos, o quanto ficou a dever a Sebastião da Gama nos faróis literários que lhe apontou, mesmo de outras literaturas que não a portuguesa); ficava uma colaboração intensa em jornais e revistas, num percurso por vários pontos do país (desde Braga até Elvas); ficava uma colecção de poemas dispersos por livros de curso, num gesto de dádiva aos amigos... Tudo isto num percurso que não ultrapassou a idade de 27 anos, num trajecto em que as primeiras assinaturas em poemas surgiram em 1939 (um itinerário literário de pouco mais de doze anos), num caminho que foi traçado a par com uma doença de recuperação suspeita e que acabaria por o vitimar – a tuberculose manifestara-se-lhe por 1938.
Uma vida intensa, feita de literatura e de olhares sobre o mundo. De que ficou uma obra que merece ser lida e estudada. Sebastião da Gama sempre quis que os amigos e os leitores dissessem o que pensavam da sua obra. A correspondência e os encontros que teve com Torga, Pascoaes, Régio e muitos outros aconteceram a pretexto da admiração, mas também com o fito de saber o que eles pensavam sobre os seus escritos. Assim, foi extremamente criterioso no que publicou e na forma como o fez. Quando morreu, tinha já ordenado outro livro, que viria a ser dominado pelo verso conhecido “pelo sonho é que vamos”. A publicação da sua obra prosseguiu em edições póstumas, num trabalho que se ficou a dever, sobretudo, a Joana Luísa da Gama, a mulher que teve a sensibilidade suficiente para não deixar que a obra de Sebastião se finasse com esse 7 de Fevereiro… mas que teve também o concurso cuidado de amigos como Lindley Cintra, Mourão-Ferreira, Matilde Rosa Araújo, Lourdes Belchior, Hernâni Cidade, Luís Amaro, Couto Viana e António Osório. É graças a esta constelação que, hoje, podemos continuar a conviver com a palavra de Sebastião da Gama, um poeta que não se deixou enredar em escolas e que serviu a taça do lirismo a todos os convivas da mesa literária.
Que melhor forma de concluir esta evocação senão com as palavras de Ruy Belo, também poeta? Ele, que foi o primeiro prefaciador de uma obra de Sebastião da Gama que não fez parte do seu círculo de amigos, que nem o conheceu pessoalmente, escreveu na revista Rumo, em 1957: “Um poeta é o que foi. Está aí. É assim. (…) Sebastião da Gama é um poeta integral (…). O que sai da sua pena aparece transmutado, digerido, obtido através de um conhecimento co-natural em que a distinção entre matéria e forma, se existe, equivale à distinção entre obra e não obra (…). A esta luz se pode apreciar a sua autenticidade. Nem nos impõe a sua própria vontade de homem, que fica lá atrás com a vida, com as suas circunstâncias, com a sua biografia, nem a sua voz se faz ouvir devido a razões extra-literárias. (…) Nem romântico, nem social, portanto. Poeta, simplesmente.”
Sebastião da Gama aí está, pois. Sessenta anos volvidos, merece a nossa leitura. É a melhor forma de construirmos a memória e de o homenagearmos.
[Na foto: lápide colocada na casa onde Sebastião da Gama viveu até aos 14 anos, em Azeitão, em homenagem que ali foi prestada em Fevereiro de 1953]

Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Há 95 anos, em Brest, os portugueses preparavam-se para entrar na guerra...



Há 95 anos, em 30 de Janeiro, partia de Lisboa para França o primeiro contingente do Corpo Expedicionário Português para combater na Flandres. Três dias depois, desembarcavam em Brest, de onde seguiriam por cerca de 800 quilómetros até à zona de guerra. Faz agora 95 anos, andariam os nossos primeiros soldados por Brest ou a partir de lá, saudade e surpresa, aventura e desconfiança estampadas no rosto. A descoberta de um outro mundo e forma de viver, a sensação da guerra e da possibilidade de não regressar, a revolta e a obediência, a inferioridade em relação aos outros exércitos, o frio e a neve, o mistério, uma outra língua… Há 95 anos, permanecia uma guerra que já levava cerca de dois anos e meio e que, inicialmente, se pensava que ficaria resolvida em pouco tempo, ainda antes do Natal de 1914! Ficou, de facto, resolvida antes do Natal… mas de quatro anos mais tarde, em 1918, com os resultados que se conhecem…
Em 1940, estreou em Lisboa o filme João Ratão – O Soldado que foi à guerra, assinado por Jorge Brum do Canto. Uma das músicas nele incluídas é o “Fado das Trincheiras”, com música de António Melo e letra de João Bastos e Félix Bermudes, apresentado pela voz de Óscar de Lemos. Mais tarde, o fado foi interpretado por Fernando Farinha, aqui reproduzido a partir do You Tube.
Há 95 anos, a guerra. Há 95 anos, portugueses em terras de Brest, a caminho da carnificina. Há 95 anos, a Primeira Grande Guerra.

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

"Ó malta da minha terra" - Teatro de revista em Azeitão

São cerca de duas horas numa viagem por quadros da história de Portugal, apresentados com graça, humor, algum sarcasmo, música e cor, muita cor. É a revista Ó malta da minha terra, levada a cabo pelo grupo de teatro da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, de Azeitão.
Cerca de setenta pessoas, no seu amadorismo e paixão, enfeitam o palco e dão vida a uma história de Portugal “como nunca ninguém ouviu… e, muito menos, viu”, em três dezenas de quadros que vão sendo ligados pelas personagens Luso Manél, Britânico Richard e Nativo Sábado, uma escolha multicultural.
Sendo uma abordagem de história(s) de Portugal, em que o primeiro quadro é a “criação do mundo”, há também a homenagem ao próprio género e à arte dramática, haja em vista a presença do quadro “Molière e a revista” e daquele que fecha o espectáculo, intitulado “Os pais do teatro e a revista”, evocativo de Gil Vicente e de Almeida Garrett.
Alguns números surgem bem achados, pela surpresa, pelo trabalho e pelo relevo, como são os casos dos episódios de Afonso Henriques, da chegada ao Brasil, da padeira de Aljubarrota, da Maria da Fonte, do aeroporto de Beja (este com um cenário repleto de humor, como o da companhia Aero Pias ou a sinalética dos serviços do aeroporto ou o quadro das "xigadas" e das "abaladas") ou do quadro sobre Lisboa (com um belo texto e muito bem transmitido). Pelo meio, porque de uma viagem à(s) história(s) se trata, há também a poesia de Fernando Pessoa e de Camões, que animam o quadro dos Descobrimentos, claro.
O guião e os textos são da autoria de Carlos Zacarias, a direcção musical é de Cristiano Dias. O espectáculo repete hoje, pelas 21h30, na sede da SFPA, e merece bem a visita.

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Parabéns a Helder Moura Pereira

Helder Moura Pereira obteve o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava com o livro Se as coisas não fossem o que são (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010). Parabéns, Helder Moura Pereira!

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Três olhares sobre Trindade Coelho


 No número de 7 de Novembro de 1897 da revista Branco e Negro, aparecia um artigo de Trindade Coelho expondo o seu pensamento sobre o que seria um conto. Reconhecido como contista a partir da obra Os meus amores (publicado em 1891), o escritor de Mogadouro confessava as razões que o levavam a considerar o conto como uma arte do seu tempo: “É uma forma literária encantadora (conquanto não mencionada ainda nos livros didácticos); e o maior assunto, ou o mais complexo, cabe no conto, pela mesma razão que nas proporções delicadas de uma miniatura pode caber, desafogado, um grande quadro. Tudo se reduz a uma questão de processo; e pelo que toca à emoção, o conto pode dá-la mais intensa, creio eu, do que o romance. Depois, os próprios jornais, com a sua insistência cronométrica de todas as horas, o seu carácter de enciclopédia, a sua variedade, ou absorvem, ou fazem aborrecido, o hábito de ler demorado – e livros, são às dúzias, e na grande maioria livros maus, o que também desanima. A vida, hoje, e cada vez mais há-de ir a pior, é pouco extensa e muito intensa. Nada, pois, de coisas demoradas: tudo se quer breve, curto, incisivo, como essa linguagem do telégrafo, que é bem a deste fim de século alucinado…”
Depois deste enquadramento circunstancial e marcado pelo tempo, Trindade Coelho tenta definir a estrutura e o modo de fazer um conto, partindo do seu percurso: “Mas como se faz um conto? O que é o conto? Não sei. Quem o sabe? Tenho dele, desse delicado género de poesia literária, a visão de uma coisa redonda, sem princípio, nem meio, nem fim, e todavia geométrico e perfeito, como uma bola de fino marfim. Isto é talvez grosseiro, este modo de exprimir – mas confesso que não tenho outro e peço desculpa…” O leitor passa por este parágrafo e reconhece o tom dos contos do seu autor, eivados das características aqui anunciadas e sentidas, justamente o modo literário que deu a Trindade Coelho o reconhecimento na literatura, embora tenha sido autor de outra obra vasta nos domínios do direito, da didáctica e da cidadania.
Em 1949, Júlio de Lemos dava à estampa o opúsculo intitulado Elogio do contista Trindade Coelho (Lisboa: revista Ocidente), com meia centena de páginas, num texto assumidamente comprometido com o título – a única parcela da obra de Trindade Coelho aflorada é a dos contos e o ensaio percorre o que foi a recepção da obra Os meus amores, vista por numerosos escritores, críticos, admiradores, portugueses e estrangeiros. Esta obra é ainda importante pelas duas listagens apresentadas no final: uma, de bibliografia constituída por títulos de escritores que homenagearam Trindade Coelho; outra, dos periódicos que, entre 1879 e 1905, em geografias diversas (Bairrada, Braga, Bragança, Coimbra, Elvas, Famalicão, Lamego, Lisboa, Paris, Ponte de Lima, Portalegre, Porto, Serpa, Viana do Castelo e Viseu) e alguns por si fundados, mereceram a colaboração de Trindade Coelho.
Júlio de Lemos conhecia bem Trindade Coelho e entre os dois existiu uma relação epistolar, tendo a revista Limiana, publicada em 1912 e dirigida por Júlio de Lemos, dado a conhecer, em vários números, um total de 34 cartas de Trindade Coelho, escritas entre 1897 e 1907. Daí que não nos surpreenda o início deste Elogio: “Pelo que observamos há cinquenta anos e pelo que desde então viemos lendo e reflectindo, estamos convencidos de que com o aparecimento do livro Os meus amores principiou uma transformação na vida literária portuguesa.” O que estava em causa era uma crítica ao Naturalismo e àquilo que era visto como os excessos dessa fase, sendo enaltecido em Trindade Coelho “a literatura casta, suave, iluminada e emotiva, que nos banha a alma numa torrente de espiritualidade, bondade e graça, a literatura que respira saúde moral e, portanto, doce, límpida, repousante e construtiva”. Júlio de Lemos alia-se, assim, ao colectivo que escolheu para apreciar o conjunto de contos de Trindade Coelho, definindo que “as constantes artísticas de Trindade foram a pureza dos seus temas e da sua linguagem, a simplicidade formal e o amor à nossa terra, que tanto louvou e exaltou”, para o que contribuem a “naturalidade, singeleza, claridade rebrilhante, cadência, musicalidade”, sentindo necessidade de sublinhar a existência de uma “simplicidade estética” na obra em apreço.
A ligação de Trindade Coelho à terra onde nasceu foi devidamente destacada por outro escritor, João de Araújo Correia, alto-duriense e também contista, quando, no último dia de Junho de 1961, para assinalar o centenário do nascimento de Trindade Coelho, discursou na Casa de Trás-os-Montes, em Lisboa, sobre o Perfil trasmontano de Trindade Coelho, conferência que verteu livro (Lisboa: Portugália Editora, 1961), dizendo, logo no início, que o escritor de Mogadouro, apesar de ter andado por várias terras (Coimbra, Sabugal, Portalegre, Ovar e Lisboa), “nunca saiu de Mogadouro”, justificando: “nunca saiu de lá, porque lá lhe ficou preso o coração à rama dos negrilhos”.
Este é o ponto de partida para considerar o “trasmontanismo” do autor de Os meus amores, apresentado por ter sido um escritor “independente”, que “não se enamorou de modas literárias” e manteve, “em cada linha escrita do seu punho, Trás-os-Montes pintado por uma pena”, com as cores da rusticidade e da delicadeza. A melhor tela, segundo Araújo Correia, está nesses contos, que revelam “o cenário do planalto, os animais rasteiros e os passarinhos, a leiva e a nuvem, a árvore e o homem, os tonilhos contados à lareira em linguagem imaculada”.
No mesmo ano em que se assinalava o centenário do nascimento de Trindade Coelho, era publicada a obra de Rogério Fernandes Ensaio sobre a obra de Trindade Coelho (Lisboa: Portugália Editora), que continua a ser uma excelente leitura da obra do escritor trasmontano.
Rogério Fernandes começa por analisar o livro mais conhecido que é essa colecção de contos intitulada Os meus amores, para introduzir a questão da arte de narrar, bem como a reflexão sobre a eventual proximidade de Trindade Coelho da estética realista.
Sem dissociar a intenção do autor de contar histórias no cenário rural da sua região, trazendo para a literatura a simplicidade e a emoção do homem do campo, considera Rogério Fernandes que as narrativas de Os meus amores são “perfeitos como realização literária” e “consistem sempre na narração de um caso, elegantemente desenvolvido nos seus lineamentos principais e encerrado com soberba mestria”, além de haver nelas, “para além dos seus episódios e da caracterização de tipos, um pensamento moral e social subjacente”. Quanto à questão do realismo, pensa Rogério Fernandes que “o realismo de Trindade Coelho é, de facto, um realismo amável, uma poetização da realidade”, já que, “no espectáculo horroroso que a sua província oferecia, o autor de Os meus amores seleccionava, unilateralmente, aqueles elementos mais susceptíveis de uma idealização lírica.”
Quase metade do estudo é dedicado a outra faceta do escritor de Mogadouro: o seu envolvimento enquanto cidadão e a sua actividade em prol da instrução, da escola e da formação cívica. Rogério Fernandes passa pelas obras que exibem o pensamento social de Trindade Coelho com uma adesão de simpatia, demonstrando a verticalidade e o compromisso do escritor, com amplo recurso a citações de obras suas e a opiniões de seus contemporâneos. Alheio a honrarias, preocupado com a necessidade de instrução popular, autor de uma proposta de forma de ser cidadão, de Trindade Coelho nos dá este ensaio um retrato vigoroso e coerente, onde cabem momentos difíceis e um percurso de vida que acaba sinuoso, com o suicídio. Só um homem “que se bateu ardorosamente pela elevação material e intelectual do seu povo e pelo ressurgimento do País” pode ter mantido a sua independência ou o caminho da sua sinceridade nos moldes em que se apresentou em carta a Luís Derouet: “A sinceridade é indisciplinada; não transige. E eu, como sincero, sou intransigente, e seria sempre, por isso, um mau partidário – fosse do que fosse e de quem fosse”.
Os contos de Os meus amores não têm, felizmente, andado esquecidos e com facilidade se encontram reedições (igualmente acessíveis quanto a custos). O facto de esta ser uma obra recomendada para leitura no ensino básico também sustenta essa presença nos escaparates. Mais difícil será encontrar a recolha que Viale Moutinho fez, em 1985, de diversos contos de Trindade Coelho que tinham ficado em jornais ou se mantinham inéditos, sob o título de Outros amores (Lisboa: Editorial Labirinto), narrativas construídas na esteira de Os meus amores. Ler Trindade Coelho continua a ser um encontro com a sensibilidade e com as histórias que têm feito a identidade de Portugal. Os três contributos aqui lembrados constituem outros tantos pretextos ou convites para ler Trindade Coelho ou para ajuizar do que foi a sua importância na literatura portuguesa.

Sábado, 28 de Janeiro de 2012

Responsabilidades na educação, segundo Luís Cabral

Luís Cabral. "O desastre da educação". Expresso (caderno "Economia"), 28.Janeiro.2012, pg. 38

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Máximas em mínimas (75)

Sinceridade e política
«A sinceridade é indisciplinada; não transige. E eu, como sincero, sou intransigente, e seria sempre, por isso, um mau partidário - fosse do que fosse e de quem fosse.»
Trindade Coelho, em carta a Luís Derouet
(citado por Rogério Fernandes, em Ensaio sobre a obra de Trindade Coelho, 1961)

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Rostos (174)

"Évora 1165-1965", por Vasco da Conceição, em Évora

Sábado, 21 de Janeiro de 2012

Máximas em mínimas (74)

De que somos capazes?
"Todo mundo tem na vida uma oportunidade de ser dois. Nos momentos de coragem, por exemplo, em que a pessoa faz coisas que se julgava incapaz. Os atos de heroísmo, nos instantes de perigo, quando a gente é capaz de pular um muro ou subir numa árvore que normalmente seria impossível de conseguir, quem você pensa que está fazendo tudo isso senão o outro?"
Fernando Sabino. O menino no espelho (1989)

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

Menezes Ferreira, "O fuzilado" (1923)

O fuzilado, de Menezes Ferreira (1889-1936), é novela curta, ao jeito do ritmo de publicação da série em que se integrava – semanal –, tomando para ambiente a Grande Guerra, que outro não podia ser o contexto, cinco anos depois do seu termo, para o narrador – “eu sou um caturra da Grande Guerra e pesa-me deixar passar esta data do 9 de Abril sem lhes contar a lamentável história do meu amigo Harry Budd.” Para um combatente do Corpo Expedicionário Português (CEP), o 9 de Abril era data memorável e este volume da colecção, que saía às quintas, viu o público a 12 de Abril.
O narrador de O fuzilado (Col. “Novela Sucesso”. Lisboa: 1923) explica o efeito da presença na linha da frente sobre a memória, o que serve também de pretexto para justificar o tema: “Os que viveram aqueles torturados momentos da Guerra no tempo do Gross Bertha, dos gases asfixiantes e dos bombardeamentos feéricos do front, mal podem ainda alinhavar meia dúzia de ideias concretas ou quadros definitivos sobre a formidável tragédia” – forma de dizer que as memórias estão ainda muito vivas e não permitem uma distância analítica suficiente relativamente ao vivido, maneira de justificar uma história com laivos de humanidade e de valores, nela preponderando a afirmação da vontade do homem e até uma atitude contrária à guerra.
O tom é crítico quanto ao vivido na frente, um conjunto de “sucessos grandiosos, trágicos, brutais ou miseráveis que, uma vez abertos os diques da ferocidade humana, foram vividos em todos os campos de batalha, tanto de cá como de lá do arame farpado e até muitas vezes ali mesmo na Terra de Ninguém.”
Assim contextualizado o estatuto da memória, o narrador, dialogando com o leitor e aproximando os espaços e o tempo, convida: “os senhores não se importarão decerto a ir comigo ali à Flandres, no norte da França, onde uma mancha cinzenta que é a soldadesca portuguesa se agita, combate e sofre pela maior glória de Portugal”.
Antes de ser contada a história do herói Budd, há ainda lugar para contestar o retrato desfavorável que em Portugal estava feito sobre o CEP, sobretudo porque não eram consideradas as circunstâncias em que os contingentes desembarcaram em França – bem diferentes das que marcavam as tropas britânicas, por exemplo – com ausência de motivação e com medo e ignorância quanto ao saber com actuar perante o desconhecido – “uma vergonha”, conclui o narrador, para testemunhar de seguida que foram necessários três meses para haver mudanças. Se o tom utilizado serve para responder ao que fora a negativa opinião que tinha sido construída sobre o CEP pelos seus detractores – “eu bem sei que os senhores costumam sorrir-se incrédulos quando se fala nos dias afadigados e nos transes perigosos a que frequentemente se sujeitava essa mísera população das trincheiras” –, também não estará ausente uma crítica às parcas condições proporcionadas aos convocados portugueses.
A história do tenente Harry Budd ocupa metade do volume e conta-se rapidamente. Homem habituado aos combates, Budd fora nomeado intérprete das forças portuguesas em Laventie, uma vez que falava castelhano, pois tinha andado pela América do Sul. Apesar de habituado às guerras (participara em vários conflitos), Budd não escapou à chamada neurastenia das trincheiras e, num belo dia, por sua conta e risco, despediu-se dos amigos portugueses, dizendo “já estar chateado de guerras”. O que podia ser apenas uma atitude precipitada teve consequências, pois Budd decidira mesmo a sua retirada e, em presença dos superiores, recusou-se a cumprir uma missão arriscada – ele, que já cumprira tantas! –, tendo declarado por escrito a sua resolução de “não estar disposto a guerrear mais”.
Combatente galardoado por serviços prestados, a sua decisão foi responsável pelo seu infortúnio: “Na madrugada seguinte, quando no horizonte o sol rompia numa enorme sangueira por entre nuvens roxas de tragédia, o tenente Harry Budd, cinco citações, três ferimentos em combates, duas promoções e a Victoria Cross, caía ingloriamente junto aos muros arruinados de uma ferme, varado por uma dúzia de balas de um pelotão de execução.”
A história de Budd, que Menezes Ferreira apresenta, dá a dimensão da tragédia individual do combatente, que, estando no campo de operações, se revolta contestando a guerra e a carnificina. É com uma reflexão desse tipo que a narrativa se conclui: “Assim, o meu infeliz amigo, num supremo arranco de revolta, e com o sacrifício da própria vida, impusera pela primeira vez a sua vontade de homem e dispusera a seu talante da sua carne desprezível de soldado. Os outros que o julguem se puderem.”
Moralizador? O último fuzilamento português de que há notícia ocorreu justamente durante a Primeira Grande Guerra, em Setembro de 1917, quando um soldado condutor foi acusado de tentativa de passagem para o inimigo e o julgamento militar foi no sentido da execução. A história que Menezes Ferreira narra não resulta de traição, antes de uma decisão individual de pôr cobro à guerra e à matança. Mas, num conflito como este, não havia lugar para decisões individuais nem para objecções de consciência nem para recuos. Segundo a lógica bélica, Budd teria de continuar a matar; recusar isso podia ser uma libertação, mas também era matar-se a si próprio.

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

Em Palmela: as memórias portuguesas da Grande Guerra

Cerca de oito dezenas de livros constituem a exposição bibliográfica “Quando os Portugueses andaram na Grande Guerra – Memórias portuguesas da Primeira Grande Guerra” patente na Biblioteca Municipal de Palmela desde 14 de Janeiro, que pode ser visitada até 11 de Fevereiro.
Organizada em quatro núcleos – “Pensamento e imagens”, “Memórias da Europa e de África”, “Olhares da literatura portuguesa” e “Vozes estrangeiras nos testemunhos e na literatura”, esta iniciativa contará ainda com dois encontros – com o escritor Sérgio Luís de Carvalho, a propósito do seu romance O destino do capitão Blanc (Lisboa: Grupo Planeta, 2009), em 4 de Fevereiro, e com o professor universitário Ernesto Castro Leal, em 10 de Fevereiro, que falará sobre “Pátria e República: memorialismo de guerra nas edições da Renascença Portuguesa”, ambas às 21h00.
No prospecto que acompanha a exposição, pode ler-se: “É difícil reconstituir o corpus da literatura memorialística portuguesa da Primeira Grande Guerra, apesar de já ter havido várias tentativas de catalogação. Mas, de vez em quando, essas obras vão aparecendo e permitem-nos participar, à distância, na vida das trincheiras. Aqui se mostram algumas delas, com todas as limitações imaginadas mas com algumas intenções: avivar a memória, mostrar uma faceta da nossa literatura autobiográfica, ver até onde a Grande Guerra é, ainda hoje, motivo de ficção. Aqui e ali, mostram-se também obras estrangeiras sobre o mesmo tempo e sobre o mesmo tema, porque a Primeira Grande Guerra (que levou a que um estudioso, recentemente, a chamasse para apelidar o século XX como 'o século de 1914') teve marca universal. E o que nela sentiram os portugueses não foi diferente do que sentiram todos os outros participantes, independentemente das cores das bandeiras sob que lutavam…”
A exposição ocorre na altura em que estão prestes a passar os 95 anos sobre o primeiro embarque português para a frente da Flandres, no final de Janeiro de 1917.
Recorde-se que, entre Setembro e Dezembro do ano passado, Palmela teve uma exposição sobre o mesmo período temporal, “Quadros da Guerra – 1915”, a partir de cartazes de propaganda a favor das forças aliadas, que percorreu quatro das freguesias do concelho. São conhecidas as identificações de seis militares naturais de Palmela que pereceram no conflito, o primeiro deles, João Gomes Marto, em 5 de Setembro de 1917. Também no dia do ataque de La Lys, 9 de Abril de 1918, um soldado palmelense, Francisco Pessoa, ali perdeu a vida.

Núcleo de Poesia de Setúbal acabou

O Núcleo de Poesia de Setúbal acabou. Pelo menos como organização com estatutos reconhecidos. Surgido em Agosto de 2005 no interior do Grupo Desportivo “Independente”, em Setúbal, teve como seus primeiros directores Henrique Mateus, Viriato Horta, Ivone Vilares e Maria Adelaide Palmela.
Logo no bimestre de Setembro-Outubro do ano da fundação, começou a publicar a revista O Canto dos Poetas, cujo número zero teve entrevista com a poetisa Alexandrina Pereira e coleccionou textos assinados por Ivone Vilares, Adelaide Palmela, Viriato Horta, Henriqueta Lisboa, Henrique Mateus e Alexandrina Pereira, além de transcrições de poemas de Sebastião da Gama, António Aleixo e João de Deus.
Em Maio de 2010, com o nº 21 do boletim O Canto dos Poetas, chegava a informação de que o Núcleo de Poesia de Setúbal tinha adquirido a sua autonomia jurídica, constituindo-se como associação cultural. Como membros da Mesa da Assembleia Geral, constavam os nomes de Rui Serodio, Maria das Dores Silva e Maria Clementina Pereira; na Direcção, constavam Henrique Mateus, Luís Chaínho e Viriato Horta; no Conselho Fiscal, estavam José Francisco Gonçalves, Arnaldo Ruaz e José Manuel Rodrigues.
No entanto, a indisponibilidade, por razões particulares ou por falecimento (como foi o caso de Rui Serodio), viria a pesar no funcionamento do Núcleo, que, em Dezembro, resolveu a sua dissolução. O último boletim publicado, com o nº 26, teve a data do derradeiro trimestre de 2011 e o poeta entrevistado era Henrique Mateus, que lamentava a dificuldade de encontrar dirigentes disponíveis para assegurar a continuidade da associação, mas que manifestava alguma esperança numa saída airosa para a colectividade. Tal desejo não teve saída feliz e, em 10 de Dezembro, uma Assembleia Geral extraordinária decidiu pelo fim do Núcleo.
Para trás, fica a edição dos 27 números do boletim O Canto dos Poetas, a organização de quatro sessões dos Jogos Florais de Setúbal, a realização de diversas tertúlias poéticas em Setúbal e a divulgação dos poetas sadinos através de sítio na internet.
Finda a associação, mantém-se a intenção de continuidade da publicação de poesia, ainda que a título particular. Às figuras que, ao longo de meia dúzia de anos, aguentaram este projecto fica a satisfação do cumprimento de uma missão: "Trabalhámos em prol do colectivo, privámo-nos de descanso, do convívio com os nossos familiares e, principalmente, de fazer coisas que adorávamos fazer, fizemo-lo galhardamente, sem esperar nada em troca. Não estamos arrependidos, pelo contrário, estamos gratos.", conforme consta na carta de despedida aos associados.

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

Sábado, 14 de Janeiro de 2012

Esperança do futuro, cadê?

Segundo a edição online do Público, os trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos já sabem que vão ter cortes nos subsídios de Férias e de Natal e os do Banco de Portugal já receberam o subsídio de Férias de 2012. Entretanto, também pela mesma fonte, fica-se a saber que o Presidente da República pediu aos funcionários públicos para fazerem “mais e melhor” com “menos”, de forma a “contribuírem para manter viva a esperança do futuro”. É que a função pública já há muito sabe que não vai ter nenhum dos subsídios!...
No ano passado, enquanto eram cortados os vencimentos na função pública, os cartões de crédito dos governantes continuavam a circular e ainda há pouco se soube de verbas gastas com eles no primeiro semestre do ano.
Será que foram os funcionários públicos os culpados da crise? Será que esta pluralidade de medidas abona em favor da equidade para o país?
Dá ideia de que tudo continua na mesma e ninguém é responsabilizado, ninguém! Pagam os funcionários, que não deviam ter vivido acima das suas possibilidades!...
E o país continua a entreter-se, descobrindo que há maçonaria… enquanto as desigualdades saltam, saltam, saltam! E somos convidados a “manter viva a esperança do futuro”?... Cadê, se nem sabemos para que estamos a ser penalizados com austeridade? Cadê, se ninguém garante que os sacrifícios apontam para a tal luzita ao fundo do túnel, mesmo que ele seja muito comprido? Cadê, se todos os dias vai sendo sugerido que mais medidas de austeridade podem aparecer?
Por favor…

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Para a agenda - Albérico Afonso e o Ensino Técnico

Amanhã, em Setúbal, na livraria Culsete, pelas 16h00, a obra Salazar e a Escola Técnica (Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2011), de Albérico Afonso Costa, será apresentada por Fernando Rosas, que é também o autor do prefácio. O primeiro dos encontros organizados pela Culsete em 2012 promete, pois.

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

Carta a um professor (de todos os tempos)

De vez em quando, circula pelos emails a mensagem que segue, apresentada como “carta de Abraham Lincoln ao professor do seu filho”, supostamente datada de 1830. Afinal, parece que a carta é falsamente atribuída ao 16º presidente dos Estados Unidos (1809-1865), o primeiro da lista que foi assassinado…
O que vale nesta carta é o teor da sua mensagem; a autoria é de somenos. Quem quer que tenha sido o autor da missiva tinha a sensibilidade e conhecia os valores que deveriam formar o homem de todos os tempos, sobretudo o homem de hoje. A gente lê e fica com a sensação de que todos os princípios e desejos nela exarados não passam de um sonho. O mundo não pede o que solicitava o(a) subscritor(a) desta carta! Infelizmente! Por isso mesmo, deve a gente lê-la. E pensar no que se tem andado a fazer…
Mantenho o título com que a peça tem sido apresentada, ainda que sabendo da improvável autoria.
CARTA DE ABRAHAM LINCOLN AO PROFESSOR DO SEU FILHO
"Caro professor,
Ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que para cada vilão há um herói, que para cada egoísta há também um líder dedicado; ensine-lhe por favor que para cada inimigo haverá também um amigo; ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada; ensine-o a perder, mas também a saber gozar a vitória; afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso; faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa; ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos.
Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho; ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram.
Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só, contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço; deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.
Eu sei que estou pedindo muito, mas veja o que pode fazer, caro professor."