Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

Para a agenda: a poesia de Resendes Ventura



A poesia de Resendes Ventura, pseudónimo de Manuel Medeiros, o livreiro açoriano de Setúbal, que também assinou como Manuel Pereira.
Do seu primeiro livro, Passos de viagem (Ponta Delgada, 1963), o poema "Quando chover":

Quando chover
Apanha na mão as gotas do beiral

E fica-te
Olhando o ruído abstracto
Das gotas pelo chão.

Fica-te apenas
- Não digas nada -
Encostado ao umbral
Da tua porta aberta.

Em iniciativa da UNISETI. Para a agenda.

Luis Sepúlveda e a história de um gato e de um rato



            No dia em que Max decidiu pela escolha de Mix na Sociedade Protectora dos Animais de Munique, não sabia que essa opção poderia ser a origem de um livro como esta História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, de Luis Sepúlveda (Lisboa: Porto Editora, 2013, com ilustrações de Paulo Galindro).
            Pelo título, o leitor é de imediato levado para as aventuras no relacionamento entre um gato e um rato, questão já habitual e nada surpreendente, haja em vista a expressão idiomática portuguesa “o gato e o rato”, que tanto exprime os desentendimentos contínuos como a falta de transparência ou o jogar às escondidas conforme as conveniências, ou relembre-se o leitor dos pares já clássicos da animação formados pelo gato Tom e pelo rato Jerry ou pelo rato Speedy Gonzalez e pelo gato Benny…
            No entanto, essa é apenas a impressão que nos pode deixar o título, pois a história de Mix vai além desses estereótipos, a começar pela sua própria figura, esteticamente superior. O próprio autor encarrega-se, no texto de abertura, “Umas palavras sobre esta história”, de nos desfazer esses mitos: “Quando conheci o pequeno Mix, o gato que o meu filho, Max, adoptou na Sociedade Protectora dos Animais de Munique, fiquei admirado com a sua enorme nobreza, apesar de não ser maior do que a minha mão. Mix cresceu e com ele o meu assombro porque tinha um focinho diferente de todos os outros gatos. Tinha um perfil estilizado, grego, que chamava a atenção. Mix teve um destino estranho que seria a causa de um grande sofrimento para qualquer outro gato, mas ele manteve sempre o seu bom humor, que exteriorizava ronronando.”  
            Um gato diferente, pois, numa história que celebra essa diferença. Esta narrativa de Sepúlveda é sobretudo uma história sobre a amizade, um percurso em que as personagens – Max e Mix, primeiro, e Mix e Mex, depois – ilustram uma espécie de mandamentos da amizade, uma lista que se aproxima do “decálogo” dos “verdadeiros amigos” que impõe: 1) “entreajudam-se, ensinam-se mutuamente, partilham as vitórias e os erros”; 2) “velam pela alegria [e] pela liberdade um do outro”; 3) “compreendem as limitações do outro e ajudam-no”; 4) “partilham o silêncio”; 5) “cuidam sempre um do outro”; 6) “partilham os sonhos e as esperanças [e] também partilham as pequenas coisas que alegram a vida”; 7) “quando estão unidos, não podem ser vencidos”; 8) “ajudam-se mutuamente a superar qualquer dificuldade”; 9) “partilham o melhor que têm”; 10) “Nunca, nunca, devemos enganar os amigos”.
A interligação entre as várias personagens é de tal forma intensa que o narrador começa a história de uma forma assertiva como esta: “Poderia dizer que Mix é o gato de Max, embora também pudesse afirmar que Max é o humano de Mix”. Mais lá para a frente no desenrolar dos acontecimentos, entre Mix e Mex haverá também um espantoso cruzamento, que, no termo do livro, é assim definido: “Mix viu com os olhos do seu pequeno amigo e Mex tornou-se forte com o vigor que emanava do seu amigo grande.”
Uma história simples, em que os animais impressionam os humanos, tal como aconteceu com o limpa-chaminés que, no final, fica confuso porque lhe pareceu ver, no telhado de uma casa, “um gato de perfil grego e um rato a admirarem o pôr do sol, e o mais curioso é que o gato parecia ouvir atentamente o rato”! Uma fábula que intensifica os valores da amizade num tempo em que tais valores devem ser bem apregoados contra o ódio que vai minando as formas de viver… e que justifica a advertência feita por Sepúlveda na nota introdutória: noutras circunstâncias, o velho Mix muito teria sofrido com aquilo que a vida lhe arranjou e o final da sua história seguiria o eixo da tristeza.

Sublinhados:
Voar – “Nenhum pássaro sabe voar quando nasce, mas, quando chega o momento em que o apelo do ar é mais forte do que o medo de cair, a vida ensina-os então a abrir as asas.”
Vida – “A vida mede-se pela intensidade com que é vivida.” 

Sábado, 18 de Maio de 2013

Jorge Calheiros: a biografia do músico Rui Serodio



            O livro que temos perante nós e que aqui nos trouxe hoje (Jorge Calheiros. “Je suis le pianiste!” – A vida e a música de Rui Serodio. Linda-a-Velha: DG Edições, 2013) valerá por muitas razões, mas sobretudo por esta: é uma prova de amizade. Assim, sem adjectivos, sem intensificadores. Uma prova de amizade em tudo aquilo que estas palavras querem dizer. Poderemos vir a gostar deste livro por muitas razões, mas continuaremos a apreciá-lo por este gesto intenso que é o de um livro falar sobre alguém e ser-lhe dedicado ou oferecido, em simultâneo. Uma prova de amizade, de irrefutável amizade, pois.
            Jorge Calheiros nunca terá pensado escrever um livro. No entanto, fê-lo. E a mola que o impulsionou foi a mesma que consolidou um relacionamento de anos de convívio e de amizade. Sem outros alcances que não os do afecto e de manter a memória. Viva, claro, porque a memória é sempre uma forma viva de se estar.
Veja-se o primeiro parágrafo do “prefácio”: “Nunca fui, não sou, e provavelmente nunca serei um escritor. Mas decidi escrever um livro, o que me colocou desde logo inúmeras questões. A primeira de todas foi: como fazê-lo?” Expressas as dúvidas e as hesitações, a reflexão chega a uma certeza: “Sentado na minha varanda, com um café já meio frio, numa contínua pesquisa da inspiração, encontrei a solução: Vou escrevê-lo com o coração! E assim ficou definida a forma como escrevi este livro.”
Quanto ao título, não tem o leitor dúvidas: é uma biografia e, como tal, conta-nos a vida de alguém. Cruzando o título com o que o prefácio relata, outra certeza o leitor terá: é a vida de alguém, narrada por quem também entra na história. Esta obra vai então muito além da biografia, uma vez que é também testemunho de uma amizade vivida e, se dúvidas existissem, bastaria estarmos atentos à forma como o herói desta história é tratado – o seu nome quase sempre antecedido do determinante “o”, que revela a familiaridade do protagonista biografado com o protagonista que é também o biógrafo. Esta obra não fala apenas “de” Rui Serodio; fala sobretudo “do” Rui. Uma escrita de afecto, ainda por cima partilhada por várias mãos.
“Je suis le pianiste!” – A vida e a obra de Rui Serodio é um livro que se constrói com base numa trindade: por um lado, o relato da vida do Rui segundo uma perspectiva nada isenta de amizade, como vimos; por outro lado, os textos de Rui Serodio, uns narrativos, outros críticos, muitos autobiográficos; de outro ângulo ainda, os apontamentos testemunhais de mais de três dezenas de amigos do Rui (lista em que estou incluído). Chamei “trindade” a esta conjugação porque é impressionante o retrato que resulta no final, sobretudo do ponto de vista da conjugação de observações, da sobreposição de opiniões: não é um rol em que os convidados vão todos dizer bem; é um conjunto de experiências muito diversificadas no calendário, na duração, nas condições, nos propósitos, em que as opiniões testemunhadas se rendem perante a particularidade e a genialidade de uma figura como a de Rui Serodio, na sua bonomia, no seu saber, na sua sensibilidade, na sua postura perante a vida, na sua superioridade de homem bom, disponível e aberto. Se todas as testemunhas deste círculo tivessem combinado previamente o que iriam fazer, o retrato não sairia por certo nem tão completo, nem tão coincidente!...
A escrita de Jorge Calheiros acompanha o percurso biográfico de Rui Serodio em variadas áreas: na profissional, na artística, na familiar, sempre com o preceito da informação exacta e objectiva, eivada de histórias presenciadas, de situações de humor, frequentemente dando a palavra ao biografado, seja através da evocação de acontecimentos, seja pela reprodução de mensagens trocadas. O tom, ora narrativo ora descritivo, de precisão, permite ao leitor o convívio com Rui Serodio. E quem o conheceu facilmente o ouvirá ou o sentirá ali ao pé, com o seu humor e simplicidade desarmantes, como nesta situação: “Muita gente tratava Rui Serodio por maestro, ao que ele normalmente respondia: Eu não sou maestro! (…) Um dia comentou: Não sei por que raio as pessoas me chamam maestro! Talvez seja do cabelo e barba branca, que dão assim um ar distinto…
Ao longo das quase 130 páginas de discurso biográfico, fica o leitor perante uma história completa, com certezas e emoções, acompanhando as inconstâncias e as paixões de uma vida. O relato é de tal  forma vivo e dinâmico que, por vezes, se tem a ilusão de que se está a ler (ou a ouvir) uma conversa entre Rui Serodio e Jorge Calheiros, um género de tertúlia em que se vai contando uma vida, repondo histórias.
No grupo de textos de Rui Serodio impressiona o ritmo da escrita, ficando o leitor com a sensação de que, muitas vezes, se oscila entre um trecho musical, a cena de um filme ou o próprio texto escrito, tal é o poder descritivo e narrativo, tal é o empenho que o narrador empresta ao discurso. O primeiro texto, uma magnífica evocação da mãe, intitulado “Berta”, assenta na perspectiva autobiográfica, aliando coisas aparentemente inconciliáveis – a história de um certo desprendimento entre pessoas que se admiram e amam, a amargura pelo que não se partilhou e a confidência com a memória, tudo rematado com uma homenagem salutar e revitalizante: “Conservei muito do que ela me transmitiu: a resignação, a reserva comedida das atitudes, o respeito pelos outros, o silêncio em vez do espavento, o convencimento de que, se existimos, é para cumprirmos uma missão que nos foi destinada, sem pedir nada em troca. E, se nascemos com um dom especial, não nos devemos vangloriar disso, mas sim cultivá-lo e partilhá-lo com quem o queira apreciar. E agradecer a Deus por nos ter concedido o privilégio da diferença. E nunca – mas nunca – querer parecer ou ser o que se não é.” Este parágrafo é muito mais do que uma lembrança: é uma herança que se reconhece, é um testemunho, um acto de amor e um testamento. Que belo conjunto de ensinamentos para se poder estar num mundo melhor!
Por estes textos passam as imagens da(s) mulher(es) da sua vida, retratos de Setúbal, a valorização do autor e do respeito pela criação artística, as pequenas epopeias de uma vida, o humor sobre si próprio, a pedagogia pela música, a prática auto-reflexiva, o registo de pequenos momentos de prazer que a vida vai segredando e até um texto para memória futura – umas quase memórias póstumas – teatralmente intitulado “A cerimónia de encerramento”. Tão importantes como as suas composições musicais, estes textos de Rui Serodio captam o essencial das coisas, bem tecidos, certeiros, delicados, tendo sempre a acompanhá-los um narrador experimentado e em estado de bem com a vida.
Quanto aos testemunhos dos amigos, a sua leitura complementa os anteriores, pois impressiona ver como, sendo oriundos de diversas longitudes de convivência ou de variadas latitudes de geografia, todos se rendem a essa figura ímpar que foi o Rui Serodio. Fica a sensação de que não se está perante a homenagem forçada e conveniente, antes se caminha na estrada da sinceridade e na linha da descoberta e da aprendizagem que foi ter encontrado esta personagem em dado momento do percurso. Esta perspectiva é tanto mais aliciante quanto alguns dos que testemunham nem sequer conheceram o Rui pessoalmente, mas só através da comunicação virtual e, claro, com a música como mediadora, como ponte, que é como quem diz com a sensibilidade do Rui.
Fecha o livro o “epílogo”, assinado pelo autor desta obra, escrito sob a forma de carta, dirigida pelo biógrafo ao biografado. É a satisfação pelo cumprimento de um dever – o da amizade, o da preservação da memória. É o prazer por este bocado de tempo, em mais de trezentas páginas, ter permitido a recordação de muitos momentos de aproximação. É o assumir da emoção como um dos motores e uma das condicionantes desta obra. É o confronto com a insuficiência em que a palavra se torna quando o que está em causa é a amizade. É a manifestação da impossibilidade de voltar a viver tudo de novo: “Tentei contar a tua história. Mas nunca, mesmo nunca, os versos da Manuela de Freitas significaram tanto como neste momento. Na verdade… eu só sei contar a história / da falta que tu me fazes.”
Como leitor que fui desta obra quando ela estava já em gestação adiantada e como amigo que também tive a sorte de ser do Rui, termino com a expressão que Ana Carvalho relembra ser usada pelo Rui de cada vez que acontecia um ensaio do grupo “Afina Setúbal”: “hoje fez-se magia”! E devemos agradecer isso ao Jorge Calheiros e ao Rui Serodio!

[Na apresentação do livro, ontem, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.]

OBS: O projecto levado a cabo por Jorge Calheiros inclui, além da edição da biografia, a edição de 5 cd's com as composições musicais inéditas de Rui Serodio. Além de poderem ser adquiridos em livraria, estes materiais estão também disponíveis em http://www.m-oceans.com/

Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

Para a agenda: Nos 200 anos de Wagner



Um final de tarde com Wagner, Beethoven, Brahms, Falla e Massenet. Em Setúbal, no Club Setubalense. Com Miguel Sousa (piano), Eurico Cardoso (violino) e Luís Henriques (musicólogo). Para celebrar os 200 anos de Richard Wagner (que passam em 22 de Maio). Para a agenda!

Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

As bibliotecas, segundo Valter Hugo Mãe


No JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias de ontem (nº 1112, pg. 34), um belo texto de Valter Hugo Mãe sobre as bibliotecas. A ler.

A batalha do 9 de Abril de 1918 vista por Ferreira do Amaral



A batalha do Lys, conhecido feito militar em que os portugueses participaram em Abril de 1918, no decurso da Primeira Grande Guerra, quando estavam em campanha na Flandres, nem sempre reuniu o consenso na interpretação, sobretudo dentro de Portugal. Prova disso é a obra de João Maria Ferreira do Amaral (1876-1931) intitulada A batalha do Lys, a batalha de Armentières ou o 9 de Abril (Lisboa: Tipografia do Comércio, 1923), escrita quando o autor estava em Benguela, por 1920, inicialmente publicada “em folhetim no Jornal de Benguela”, depois em separata de um milhar de exemplares pelo mesmo periódico e, posteriormente, em volume autónomo, em Lisboa.
As razões para tal publicação, surgida no jornal logo dois anos depois do acontecimento da La Lys (e em livro cinco anos depois), refere-as o autor em “Explicação prévia”: “nunca será demais marcar factos que tão deturpados têm sido pela confusão política, que sobre tudo o que respeito diz à nossa participação na Guerra, se tem dito e escrito”. Assim, pisando um caminho em que é dada a voz justamente ao homem que coordenou o ataque à frente portuguesa, o general Erik Ludendorff (1865-1937, através da sua obra Souvenirs de guerre, de 1920), e ao general Gomes da Costa (1863-1929), que estivera nas funções de comando do Corpo Expedicionário Português na Flandres (através do seu escrito Batalha do Lys), Ferreira do Amaral insiste nas preocupações que o orientaram: elaborar “um vulgaríssimo trabalho de compilação e sobretudo um relato de pessoas, lugares, factos e datas, que a actual geração portuguesa não pode nem deve ignorar” e “apresentar os factos sem paixão, colocando-me tanto quanto possível como árbitro”. Assinalar essa ausência de paixão esbarra com o percurso do próprio autor, que esteve na Flandres e que, num outro livro, A mentira da Flandres e… o medo! (Lisboa: Editores J. Rodrigues & Cª, 1922), redigiu curta nota biográfica logo na página de rosto, dizendo que, enquanto esteve em França, “nunca quis vir de licença a Portugal” e que “marchou para França sem lhe competir por escala ou por escolha, mas simplesmente coagido por motivos de ordem pessoal e razões de ordem puramente militar”… No entanto, Ferreira do Amaral mostra-se coerente, pois não fala da ausência de paixão sem reconhecer também que desempenhará o papel de árbitro “tanto quanto possível”.
A primeira frase da sua monografia retoma o que vem da “explicação”: “Como é do conhecimento de todos, ninguém em Portugal chegou até hoje a ter uma noção aproximada do que foi o 9 de Abril”. Mas não é apenas esta ignorância que preocupa o autor, porque, umas linhas adiante, a acusação tem destinatário: “Toda a política do meu país, dos últimos seis anos, caiu [itálico do autor] sobre os soldados de Portugal, que na Flandres receberam um dos muitos e vários ataques com que os alemães procuraram vencer os aliados”. Uns parágrafos depois, o humor e a ironia de Ferreira do Amaral não perdoam as diferentes interpretações atribuídas aos democráticos e aos sidonistas, uns e outros culpando-se quanto à responsabilidade do que se passou na Flandres: por um lado, esqueceram-se ambas as ideologias “de que o general alemão Ludendorff não consultou nenhum dos partidos políticos de Portugal para tomar a deliberação de forçar o caminho de Calais nesse dia”; por outro lado, “ambos os adversários chamam desastre ao que se passou nesse dia com os portugueses, que procuraram evitar o avanço alemão até onde o seu máximo esforço o permitia”, sendo “caso para notar uma falta que ambos os partidos cometeram para se poderem acusar mutuamente – foi a de não terem enviado a tempo delegados especiais para assistirem ao desastre!”
Depois de acompanhar as leituras apresentadas por Ludendorff e Gomes da Costa, Ferreira do Amaral tenta desfazer os equívocos, apresentando os acontecimentos do 9 de Abril de 1918 como um episódio de um projecto mais vasto, ligado à estratégia militar e bélica germânica, de uma ofensiva que se iniciara em 21 de Março e teve conclusão em 18 de Julho (quando os franceses passaram a “muralha” dos alemães, assim se iniciando uma ofensiva dos aliados): “Não se julgue que o 9 de Abril se resumiu a um ataque isolado contra os portugueses, que estavam nesse dia a defender 12 quilómetros de frente. Até 25 de Abril, houve todos os dias… um 9 de Abril para ingleses e franceses, isto é, a batalha começou em 9 de Abril e acabou em 25 de Abril. (…) A anterior batalha [de Amiens] começara a 21 de Março e terminara a 4 de Abril. À batalha começada a 21 de Março chamaram os alemães a batalha da França. À que começou em 9 de Abril chamaram aliados e alemães a batalha de Armentières. Nós tomámos parte em um dia dessa batalha, o começo, e o general Gomes da Costa chama-lhe a batalha do Lys reservando assim um justo título para o nosso esforço entre os aliados, pois que nós não defendíamos Armentières, mas sim parte da bacia da ribeira de La Lys.” Se ainda assim se mantivessem os detractores da coragem portuguesa, Ferreira do Amaral deixava a lembrança: “de 18 de Julho em diante, tivera Ludendorff muitos 9 de Abril, tal qual ingleses e franceses os tiveram de 21 de Março até essa data”. E, para que dúvidas não restassem, uma citação do amigo e camarada Gomes da Costa enaltecia a participação lusa: “a 2ª Divisão Portuguesa com os seus 7500 homens perdidos, dos quais 327 oficiais, demonstrou à evidência que se bateu com bravura e com honra e que, se mais não fez, foi porque era humanamente impossível”.
O plano alemão de, através desta ofensiva, conseguir chegar a Calais e assim dominar o Norte de França não começou favoravelmente para os seus autores e, em Julho, teria o seu termo. Pelo caminho, muitos momentos semelhantes aos do sofrimento e luta dos portugueses ficaram: “que a ninguém fiquem dúvidas sobre o destino que uma divisão francesa, inglesa ou americana teria no dia 9 de Abril se estivesse onde esteve a 2ª Divisão Portuguesa – quem lá estivesse seria esmagado, atropelado e… varrido.”
Para atestar o feito português, o autor não hesita em convocar excertos de reconhecidíssimos órgãos de informação (Reuter, Times, Daily Mail, Matin) que foram elogiosos na classificação da atitude lusa. Mas o humor de Ferreira do Amaral avança, questionando os maldizentes: “Que situação resta agora aos mortos, feridos e sobreviventes da batalha do Lys?” A resposta é longa, sugerindo que talvez todos tenham de “pedir desculpa ao cidadão português”, uns porque não resistiram “à caqueirada de ferro”, outros por “não lhes ter sido possível morrer” e outros “por não terem fugido logo de manhã”…
O próprio comandante do CEP, o general Tamagnini de Abreu (1856-1924), não é poupado, sendo invectivado de forma contundente: “O que diz do 9 de Abril o general português Tamagnini de Abreu, comandante do CEP? Até agora não disse nada nem dirá nunca, porque as maçadas estão proibidas”. E os políticos também não escapam a acusações e ironias: “Ludendorff nesse dia atacou os soldados de Portugal que encontrou pela frente e deixou em paz todos os nossos políticos”.
É, pois, sugerido ao leitor que aqueles que foram heróis estão isolados e desprezados, mesmo quando o valor lhes é reconhecido por alguns. No entanto, este livro quer repudiar essa ideia transmitida pela depreciação e conclui com uma lição sobre o mérito, depois de mais um libelo contra quem desprestigia uma condecoração como a Cruz de Guerra Portuguesa, contra os comentários depreciativos movidos pela inveja e pela mesquinhez: “em qualquer dos países que se bateu nesta guerra, vencido ou vencedor, [o soldado português] sentiria que era duas vezes cidadão: primeiro porque tinha uma bandeira que representava para todos (…) um símbolo de tradições honrosas (…); segundo, porque os seus compatriotas se sentiram honrados por Eles e pelo Seu Esforço Particular e Pessoal no campo aberto aos maiores sacrifícios”.
Em pouco mais de sessenta páginas, Ferreira do Amaral pretendeu chamar a atenção para o estado do CEP, para as dificuldades que lhe tinham sido criadas e para a singularidade do combatente português. Foi uma maneira de dar azo a que a verdade saltasse e a que a história fosse reconstruída.
[Esta obra está disponível no formato e-book]

Terça-feira, 14 de Maio de 2013

Para a agenda: a biografia e a música de Rui Serodio



17 de Maio seria o dia de aniversário de Rui Serodio, músico que viveu em Setúbal os últimos anos da sua vida, aqui tendo participado em múltiplos e valiosos projectos culturais. Nesse mesmo dia, pelas 21h30, é apresentada a sua biografia, volume de 300 páginas que comporta também um conjunto de textos do biografado e variados testemunhos. A cerimónia segue com a apresentação de cinco cd's, que reúnem toda a obra que Rui Serodio deixou por gravar. Por iniciativa de Jorge Calheiros, autor do livro e coordenador da antologia musical. No Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.
Um projecto forte e intenso. Um projecto de amizade. Um projecto de memória. Para a agenda!

Para a agenda: a mais recente poesia de Helder Moura Pereira



A Casa da Cultura recebe, em 17 de Maio, a mais recente obra de Helder Moura Pereira, setubalense, um dos grandes poetas portugueses. Pela parte que me toca é trazido pela mão de Fernando J. B. Martinho, outra referência no mundo do ensaísmo. Para a agenda. 

Para a agenda: Dia dos Museus em Setúbal, no Museu do Trabalho, na Casa Bocage e no Museu Sebastião da Gama



O Dia dos Museus em três espaços museológicos de Setúbal: no Museu do Trabalho Michel Giacometti e na Casa Bocage, ambos em Setúbal, e no Museu Sebastião da Gama, em Azeitão. A diversidade de propostas. Para a agenda.

Para a agenda: Dia Internacional dos Museus no MAEDS



O Dia Internacional dos Museus no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, com inauguração de duas exposições de fotografia: "Entre marés", fotografia da natureza por José A. Costa; "Terra verde", fotografia de Rosa Nunes. Para a agenda.

Para a agenda - Festa das Cruzes, em Alvarães


A Festa das Cruzes, em Alvarães, já é da tradição. Uma pequena apresentação pode ser lida aqui. É já no próximo fim de semana. Para a agenda!

Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Para a agenda - "DiVersos", nº 18





Com a presença de três dos poetas incluídos (José Manuel Teixeira da Silva, Luciano Moreira e Teresa Ferro), naturais do  Porto ou fixados na região, e dois dos tradutores (José Carlos Marques e Teresa Ferro), também aqui fixados, será apresentada a série DiVersos - Poesia e Tradução, a propósito da publicação do seu n.º 18. Na sexta-feira, 17 de maio, às 18:15, no Porto, no Palacete Viscondes de Balsemão, à praça Carlos Alberto n.º 71.
Fundada em 1996 por quatro poetas e/ou tradutores naturais do Porto ou ao Porto ligados, a DiVersos é já hoje em Portugal uma das publicações de poesia mais longevas. A sua ligação ao Porto em nada impede que seja também decididamente universal, tendo até hoje traduzido mais de 130 poetas de 16 línguas diferentes e inserido poemas em língua portuguesa de mais de 130 autores, incluindo numerosos poetas do Brasil, e alguns de outros países de língua oficial portuguesa ou a eles ligados (Angola, São Tomé, Moçambique).
Obviamente… para a agenda!


Alexandrina Pereira: a Arrábida em forma de poema




Quando Alexandrina Pereira escolheu a Arrábida como objecto do seu amor, do seu poema (Arrábida, meu amor, meu poema. Setúbal: ed. Autor, 2013), abriu as portas para um passeio de mãos dadas com a serra, enveredando por ecos que nos chegam de poemas já ouvidos, já cantados, todos eles celebrantes da maravilha com que a serra se apresenta.
Vai o leitor contemplando este poema em que a serra está vestida de flores e as sensações visuais acumulam-se num espraiar de versos, ao mesmo tempo que as emoções respiram a tradição literária em torno da Arrábida.
Ponto em que o vento “sibila segredos” ou onde “a Primavera é infinita”, ao poeta (ou ao leitor) resta o pasmo perante a maravilha que sucede à maravilha (como algures registou Sebastião da Gama), em frente de um universo de beleza tornada espanto e admiração.
No meio de todo este silêncio sugerido, distingue-se o rumor que nos chega de Frei Agostinho, mas também o cântico emergente da tela de palavras com que Sebastião aureolou a Arrábida, não só por a ter elevado ao estatuto de mãe, que é como quem diz fonte da vida, mas também porque a conheceu como ninguém e partilhou os segredos que ela própria lhe revelou. Um deles é esta possibilidade de a Arrábida ser poesia, de ser corpo vivo que nos enleva e se nos mostra, assim cada um queira ser seu confidente. Alexandrina Pereira foi por esse caminho…
E, neste tempo em que passam 60 anos sobre a ida de Sebastião da Gama para o infinito das estrelas e da memória e em que se fala da Arrábida como esperança de vir a ser um elemento integrante do património mundial (que já o é, de facto), é pertinente lembrar o tom de felicidade que jorra da sempre doce Arrábida.
Arrábida, meu amor, meu poema. Arrábida, razão de ser e de cantar. Arrábida, feliz Arrábida!
[Nota prefacial ao livro, que foi apresentado publicamente
em 27 de Abril, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.]

Sexta-feira, 10 de Maio de 2013

Para a agenda - Festival de Música de Setúbal 2013



Quatro dias para partilhar um mundo de sons. Em Setúbal, o Festival de Música. O programa pode ser visto aqui. Para a agenda!

Sábado, 4 de Maio de 2013

Máximas em mínimas - João Tordo


Depois de ler O bom inverno (Dom Quixote, 2010), de João Tordo, um lote de máximas, organizadas por ordem alfabética e não pela ordem em que aparecem no livro.

Cronologia – “Existem, na verdade, razões para explicar como as coisas [acontecem] e, se existem razões, é possível ordená-las numa cronologia. Porém, tal como no funcionamento do universo, o todo raramente corresponde à soma das partes.”
Desgraça – “Talvez, no fundo, toda a gente leve a desgraça no rosto. (…) Alguns de nós andam por aí com as marcas da sua finitude à mostra e outros, embora pareçam não as ter, estão tão condenados como os primeiros.”
Destino – “Pergunto-me muitas vezes como é possível que o destino nos pareça um conceito plausível quando este mundo é uma panóplia de erros que conduzem aos piores horrores. Usamos o destino como álibi, crendo, ingénuos, que as coisas acontecem de certa maneira porque não poderiam acontecer de outra; essa crença, tão válida como a crença em Deus ou na imortalidade da alma, tem consequências terríveis para o espírito que, mais cedo ou mais tarde, se vê corrompido pela dúvida que tem origem na impossibilidade de sabermos, com qualquer grau de certeza, se as nossas decisões nos trarão paz ou, pelo contrário, irão acordar as bestas do Inferno; se, doravante, teremos de caminhar pelo mundo com a cabeça voltada ao contrário como um contrapasso de Dante.”
Dor – “Mesmo imaginada, uma dor continua a ser uma dor; está lá quando nos deitamos à noite, está lá antes do pequeno-almoço.”
Existir – “Se não estivermos muito preocupados com a existência, tendemos a ser mais racionais. Ou menos sujeitos aos nossos impulsos. A vida torna-se menos dolorosa.”
Imundície – “Há sempre quem compre coisas imundas, embora não haja sempre quem compre coisas belas.”
Inveja – “Não existe pior mistura de sentimentos neste mundo do que o ciúme, a inveja e a admiração; é uma trindade tão perigosa que pode levar um homem a ascender ao Céu ou a lançar-se de um penhasco até ao mais profundo dos Infernos.”
Medo – “O medo transforma-nos, faz de nós presas fáceis, mergulha-nos num torpor pesado e ruminante.”
Palavra – “As palavras têm o seu poder sobre as pessoas. Se forem as palavras certas, podem mover montanhas. Ou transformar a água em vinho.”
Saber – “Não é possível saber tudo. Existem certos momentos que, se não os vivermos, são impossíveis de resgatar através de outros.”
Sarilhos – “Há um limite para a quantidade de sarilhos em que uma pessoa se pode meter.”
Solidão – “A ausência, a solidão e o esquecimento [são] coisas terríveis, tão terríveis como a mutilação ou a morte de um filho, tão terríveis como um velho amigo ao qual nunca mais ouviremos a voz nem conheceremos o cheiro nem saberemos a cor dos olhos, tão terríveis que, mesmo nos livros, até nos romances mais pessimistas, não devemos chamar por elas, não devemos enaltecê-las ou tentar transformá-las em beleza.”
Surpresa – “A última coisa que uma besta espera é que a presa se meta no seu covil.”
Verdade – “A verdade é uma miragem tragicamente limitada pela condição humana. Ainda assim, a verdade é tentada vezes sem conta.”
 

Quinta-feira, 2 de Maio de 2013

Memória: Álvaro Félix (1951-2013)




Creio que só falei uma vez com Álvaro Félix, em data que não sei precisar. Diverti-me com as suas crónicas humorísticas sobre a vida de Setúbal, aplaudi-o no teatro, espantei-me perante a semelhança quando “fez” a estátua de Bocage, emocionou-me na última representação que lhe vi, no Forum, na peça sobre Luísa Todi. Um senhor do teatro. Uma voz inconformada. Uma figura inconfundível.
A notícia do falecimento chegou ontem. Setúbal fica mais pobre. A cultura também. Nós também. Fica a memória. E vários registos: como este, em viva voz, no programa "Arestas de Vento", de Ricardo Cardoso, ou este, em letra, n'O Setubalense, de 5 de Setembro de 2011, num retrato assinado por Vera Gomes.
[Foto: Álvaro Félix e Bocage, em 15 de Setembro de 2005, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, ao lado do quadro dos notáveis sadinos]

Para a agenda - A biografia de Rui Serodio



17 de Maio seria o dia de aniversário de Rui Serodio e vai ser a ocasião para apresentação da sua biografia e da sua obra musical. Responsável pelo projecto - da biografia e da discografia - é Jorge Calheiros, que em toda esta obra deixa passar a força da amizade. A não perder. Para a agenda!

Para a agenda - I Festival Ibérico do Vinho, em Setúbal




Procurar o consenso


O consenso entre as várias forças políticas presentes no Parlamento já há muito que é desejado pelos cidadãos relativamente a questões estruturantes do país. Porque a prática política tem sido estúpida ao pensar que cada um que chega ao governo acaba de descobrir a pólvora e nada se tem interessado por encontrar consenso em torno de questões que vão para além de uma legislatura ou até de duas. No entanto, os partidos nunca quiseram saber disso para nada. Lamentavelmente...
Agora, a palavra da moda é "consenso". Apenas um problema: é que os políticos ainda não chegaram a um consenso sobre o que seja o consenso. Depois de este ponto estar resolvido, talvez se possam começar a desenhar consensos. Não creio é que seja com os políticos que temos. Lamentavelmente para nós!

Sábado, 27 de Abril de 2013

Memória: José Marques Baptista (1945-2013)




Conheci o José Baptista por causa dos livros, das revistas e das acções culturais que por Setúbal vão acontecendo. Conhecimento não muito antigo, mas com uns anos já. Impressionou-me a sua dedicação aos livros, às colecções, à busca do saber, tudo numa atitude do mais puro auto-didactismo, sempre descontente com as faltas, sempre capaz de dar referências e de ajudar a procurar. Era um coleccionador e um leitor crítico, que se orientava pela qualidade e que revelava impaciência pela banalidade. Passei com ele bons momentos, sobretudo instantes de saber. Tínhamos interesses comuns e gostávamos de conversar.
Fiquei impressionado quando, há cerca de um mês, amigo comum me revelou da sua saúde crítica, aliás, muito crítica. Tudo se manifestara de repente. Estávamos a dois dias do início da exposição “A cidade no coleccionismo setubalense”, que se inaugurou em 27 de Março, onde havia peças do espólio do José Baptista também. O quadro que me foi pintado foi violento porque inesperado e porque a amizade se ressente sempre com o mal-estar dos amigos. Foi mais um mês. Depois de mais um aniversário em 23 de Abril, no Dia Mundial do Livro (celebração adequada para o dia de nascimento do José Baptista), e de mais um 25 de Abril (em que acreditou), deixou-nos quando se rasgava o dia 26. E, apesar de esperada, a notícia chegou na sua rudeza e brutalidade: o Baptista tinha partido. Fica a saudade, claro. E também a alegria de o ter conhecido. Obrigado, amigo!
[Foto: José Baptista, em 26 de Março de 2011, na sessão de apresentação pública do Diário, de Sebastião da Gama, que organizei]

Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

José Saramago: A estátua e a pedra



O discurso de José Saramago continua a surpreender e a apanhar-nos na sua postura crítica e de pensamento, agora com a edição de A estátua e a pedra, em português e em castelhano (Lisboa: Fundação José Saramago, 2013). O texto foi inicialmente oral, proferido em Maio de 1997, na Universidade de Turim, num encontro sobre a cultura portuguesa. À medida que o discurso ia fluindo, um gravador encarregava-se de perpetuar a mensagem, depois passada a escrita, agora dada a ler a mais vasto público (houve uma edição em Itália em 1999). O texto dito em Turim teve entretanto actualização, uma vez que Saramago refere nesta edição obras posteriores à data desse encontro.
O título escolhido por Saramago remete-nos para Vieira e lembra aquela belíssima imagem do canteiro que vai esculpindo a pedra, dando-lhe forma, até a transformar numa imagem que até pode ser de um santo. No entanto, aqui, o que Saramago propõe é o discurso ao contrário, da figura para a matéria-prima, num percurso autorreflexivo, debruçando-se sobre a sua própria obra, o que nos obriga a considerar este um texto importante para a leitura da narrativa saramaguiana.
Romance histórico, o meu?, parece perguntar o autor de Memorial do Convento no início da sua comunicação, adiante recusando o epíteto, uma vez que os romances históricos são “tentativas de reconstituição de uma época e mentalidade determinadas, sem qualquer intromissão do presente (à excepção da linguagem), onde o autor finge ignorar o seu tempo para colocar-se no momento do Passado que pretende reconstituir” e o seu caso se apresenta diverso – “uma ficção sobre um dado tempo do passado, mas visto da perspectiva do momento em que o autor se encontra, e com tudo aquilo que o autor é e tem: a sua formação, a sua interpretação do mundo, o modo como ele entende o processo de transformação das sociedades.”
É neste último aspecto que Saramago insiste ao longo de toda a conferência, procurando comprometer os seus títulos com o seu pensar sobre o homem, sobre o mundo, sobre o outro, sobre o processo histórico, sobre a actualidade. Passo a passo, vai desfiando o rol dos seus títulos desde Manual de pintura e caligrafia (1977), com passagem por Objecto quase (1978), Levantado do chão (1980), Memorial do convento (1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1986), A jangada de pedra (1986), História do cerco de Lisboa (1989), O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995), Todos os nomes (1997), A caverna (2000) e O homem duplicado (2002).
Ao longo da comunicação, há imagens fortes para lá da força da estátua e da pedra, como a da metáfora da espuma marítima que rebenta sobre a areia, uma imagem que mostra sermos “nós a espuma que é transportada nessa onda”, chegada porque “impelida pelo mar que é o tempo, todo o tempo que ficou atrás, todo o tempo vivido que nos leva e nos empurra”; há as pequenas histórias associadas ao aparecimento dos romances e a afirmação da ausência de heróis nas suas obras, que pretendem “contar a vida das pessoas que não entram na História”; e há a teorização de que o percurso dos seus romances se divide em duas partes – a primeira, até O evangelho segundo Jesus Cristo, associada à figura da “estátua”, que outra coisa não é que a “superfície da pedra”, e a segunda, a partir de Ensaio sobre a cegueira, a da “pedra”, que pretendeu entrar “no mais profundo de nós mesmos”, numa “tentativa de perguntar o quê e quem somos”.
O livro inclui ainda textos de Giancarlo Depretis, académico de Turim, a contextualizar esta comunicação, de Luciana Stegagno Picchio, a evocar esse momento da conversa de Saramago, e de Fernando Gómez Aguilera, a fechar, que aplica a metáfora de Saramago sobre o percurso da sua obra, estendendo a análise até Caim (2009), com visitação ainda às obras Ensaio sobre a lucidez (2004), As intermitências da morte (2006), As pequenas memórias (2006) e A viagem do elefante (2008), concluindo que, para este autor, era “imprescindível uma revolução ética que, reivindicando o valor supremo da bondade, reconhecesse como única prioridade o ser humano”.
A estátua e a pedra torna-se um título indispensável para o leitor de Saramago, uma quase autobiografia do seu percurso no romance, que o conta, o analisa e o reinventa.

Sublinhados
Verdade e História – “A verdade na História não está num lugar acessível, onde se possa chegar com facilidade.”
Gente e História – “Na História, iluminada com documentos e certificada com selos, dificilmente encontraremos a gente comum, a que parece que apenas tem existência para sofrer os avatares que outros decidem.”
Crueldade – “Nenhum animal é cruel, nenhum animal tortura outro animal (…). Torturar e humilhar os seus semelhantes são invenções da razão humana.”
Esquecimento – “Esquecer é a morte definitiva.” 

D. Manuel Martins: um outro 25 de Abril

Contra a "ditadura do medo" e por um 25 de Abril promotor da "paz e justiça" são as ideias fortes da comunicação do Bispo Emérito de Setúbal D. Manuel Martins, um olhar atento sobre a sociedade e uma voz da denúncia, em declarações que podem ser lidas aqui.

Para a agenda - António Canteiro recebe Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama



António Canteiro e o seu O silêncio solar das manhãs mereceram o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama nesta sua 14ª edição. A apresentação pública do livro ocorrerá na cerimónia de entrega do Prémio. Em 27 de Abril, em Azeitão. Para a agenda.

Para a agenda - Alexandrina Pereira em poemas sobre a Arrábida


Um conjunto de poemas em louvor da Arrábida, com algumas traduções em castelhano, francês, inglês e alemão. Um canto de amor à paisagem, à serra, à poesia, com a Arrábida por fundo, no ano em que se efectuou a sua candidatura a património mundial. Em 27 de Abril, surgirá Arrábida, meu poema, meu amor, de Alexandrina Pereira, edição que mereceu o patrocínio das Câmaras Municipais de Setúbal, Palmela e Sesimbra, da Associação Cultural Sebastião da Gama, da Secil e do Finisterra Arrábida Film Festival. Para a agenda!

Domingo, 21 de Abril de 2013

Um "curriculum" em papel higiénico

Conta a notícia que um jovem de Felgueiras mandou imprimir o seu "curriculum vitae" em rolos de papel higiénico, antecedido de apelativa e provocadora frase a convidar para uma leitura atenta dos passos que fizeram a sua vida.
Originalidade, subida aos limites, desespero, criatividade, publicidade... chame-se-lhe o que se quiser. E há ainda a conversão das economias num possível investimento a seu favor, a necessidade de imprimir este trabalho nos Estados Unidos, a chamada de atenção para a dificuldade de emprego entre os jovens, a insistência no pormenor de ser dada importância a um "curriculum". Lá que é original... é! E é também a aplicação prática do que, no curso de publicidade, aprendeu. Nota vinte pela ideia.
Quanto ao conteúdo... que se pronuncie quem receba os exemplares - vinte - deste "curriculum"!

Sexta-feira, 19 de Abril de 2013

Para a agenda - Lembrar Victor Wladimiro Ferreira



Victor Wladimiro Ferreira será evocado em sessão na Biblioteca Nacional em 23 de Abril, numa data que lhe seria querida, já que é o Dia Mundial do Livro. Para ele, que se considerava "um leitor contumaz"... Uma homenagem merecida. Para a agenda.

Terça-feira, 16 de Abril de 2013

Para a agenda - A Arrábida no Dia dos Monumentos e Sítios



No Dia dos Monumentos e Sítios, eis que a Arrábida se veste de poesia, de olhares e de paisagem, além de tudo aquilo que dela deveria fazer um lugar único, "uma varanda de ver o mar", como escreveu Miguel de Castro. Para a agenda!

Terça-feira, 9 de Abril de 2013

Para a agenda - Ordens Militares, em Palmela



É o 12º Curso sobre Ordens Militares, actividade que Palmela alimenta anualmente, desta vez sujeito ao tema "Homens de oração e homens de acção: Mestres e Freires". As inscrições são até 18 de Abril. Para a agenda!


Para a agenda - Luís Filipe Barros e rock, em Setúbal



"Vamos falar de... Rock & Sotck!", com Luís Filipe Barros. Em Setúbal, em 12 de Abril, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, numa organização Synapsis. Para a agenda!

Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

Evocação de Óscar Lopes no "JL" de hoje




O JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias de hoje (nº 1109, pp. 14-16) destaca Óscar Lopes, considerado “uma figura cimeira das letras portuguesas”.
No texto de Maria Leonor Nunes, o retrato vem logo no início: “Um espírito ávido de conhecimento, uma alma gentil, um homem de uma imensa cultura e de maior coração, um humanista, um verdadeiro óscar da literatura (…), o ensaísta, crítico, historiador literário e professor jubilado da Faculdade de Letras do Porto, Óscar Lopes, morreu no passado dia 22 de Março, na sua casa, no Porto. Tinha 95 anos.”
Outra evocação tem origem em Isabel Pires de Lima, que, também no início, esboça uma tela que dá bem com a multiplicidade do homenageado: “Óscar Lopes na estação de Campanhã, com bem mais de 60 anos, chegado de Lisboa, a descer o comboio ainda em andamento para apanhar um dos escassos táxis disponíveis. Óscar Lopes comodamente sentado de pantufas e manta nos joelhos na acolhedora saleta da sua casa sita na rua com o simbólico nome dos Belos Ares, envolto por pilhas de livros, jornais e flores ou vasos de orquídeas. Óscar Lopes sempre apressado no seu passo miúdo pelos corredores da Faculdade de Letras do Porto, vindo duma aula, regressando ao Conselho Directivo, caminhando para uma assembleia ou para o Centro de Linguística que ajudou a criar. Óscar Lopes na varanda traseira de sua casa, contemplando o jardim, os gatos, as camélias.”
Uma terceira lembrança parte de Maria Alzira Seixo, de tom mais pessoal: “Morreu o Óscar! Morreu o Mestre. Todos foram seus discípulos, mesmo os que o não sabem. (…) Não procurava glórias, o que lhe importava era estudar e ouvir música. Estudava tudo, conhecia tudo.”

Recordo o papel que teve na minha formação essa monumental História da Literatura Portuguesa que, desde 1955, tem inundado os estudos, as leituras, as referências bibliográficas, devida também a António José Saraiva. Bem cedo foi uma das obras que adquiri, ainda comprada com o que de “mesada” (muito curta) ia recebendo, andava eu pelos estudos do Secundário. É uma obra que me tem acompanhado sempre, referência superior neste domínio. Relembro ensaios vários devidos a Óscar Lopes, estudados, alguns anotados e sublinhados, e, sobretudo, os dois volumes há anos editados sobre literatura portuguesa intitulados Entre Fialho e Nemésio, obra que nos foi aconselhada por David Mourão-Ferreira, com indicação de comentário a alguns dos textos nela contidos. Foi o deslumbramento. Nunca a obra de Óscar Lopes esteve ausente do meu percurso de estudante e também de professor. Talvez o que estou a dizer seja banal ou repetição do que já muitos disseram e escreveram, mas, quando soube da notícia do passamento de Óscar Lopes, foi-me impossível aceder a este espaço para lembrar a sua importância para mim e, depois, achei ser fora de tempo. O gesto do JL, onde Óscar Lopes também interveio, deu-me a “deixa”… Tenho de me sentir grato a este homem da reflexão e do saber, que era também, como Maria Leonor Nunes regista, “um homem da intervenção cívica e pedagógica” e uma referência precisa para este tempo que tanto tem dado cabo das referências!

Terça-feira, 2 de Abril de 2013

Hoje é o Dia Internacional do Livro Infantil


Cartaz de Maria João Worm


Alegria dos livros à volta do mundo

Lemos juntos, tu e eu.
Vemos que as letras formam palavras
e as palavras se transformam em livros
que seguramos na mão.
Ouvimos murmúrios
e rios agitados correndo pelas páginas,
ursos que cantam à lua
melodias divertidas.
Entramos em castelos misteriosos
e das nossas mãos crescem árvores em 
flor
até às nuvens. Vemos meninas corajosas 
que voam
e rapazes que pescam estrelas 
cintilantes.
Tu e eu lemos, dando voltas e mais 
voltas,
alegria dos livros à volta do mundo.

Pat Mora (trad. Maria Carlos Loureiro)

Domingo, 31 de Março de 2013

Manuel Bola, aliás, Carlos Rodrigues, um actor em entrevista

Em 27 de Março, o actor setubalense Carlos Rodrigues, mais conhecido por "Manuel Bola", teve homenagem no Forum Municipal Luísa Todi, com sala cheia. De amigos, de colegas, de setubalenses. Dois dias depois, em 29, o jornal O Setubalense publicou a entrevista que se reproduz, assinada por Teodoro João. Peça a ler, com dicas sobre a cidadania, o teatro, a biografia, uma forma de estar no mundo.

Terça-feira, 26 de Março de 2013

Sábado, 23 de Março de 2013

Para a agenda - Setúbal no coleccionismo



Setúbal no coleccionismo. Uma actividade promovida pelo Centro de Investigação Manuel Medeiros, da UNISETI, com os contributos de muitos coleccionadores. Na busca de uma identidade. Para a agenda!

Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Para a agenda - Setúbal, Pombal, o terramoto e Malagrida



Depois de, em Novembro, ter apresentado publicamente o título Padre Gabriel Malagrida: O último condenado ao fogo da Inquisição (Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos), Daniel Pires apresenta agora O Marquês de Pombal, o terramoto de 1755 em Setúbal e o Padre Malagrida, uma continuação da história. Mais uma actividade do Centro de Estudos Bocageanos, marcada para amanhã, 23. Para a agenda!

Quinta-feira, 21 de Março de 2013

Rafael Bordalo Pinheiro, 167 anos - entre o Zé Povinho e o manguito (descrito por Camilo)


Lembra o "google" que passa hoje o 167º aniversário do nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro, o criador dessa fabulosa figura que é o Zé Povinho. Aqui se evoca, pois, com o conhecido gesto da imortal figura, na companhia de uma citação sobre a utilidade do manguito, devida a Camilo Castelo Branco.


O manguito... “é um gesto anguloso que exprime mudamente todos os desdéns e ironias figuradas da retórica; não se acha assinalado como indecente nos compêndios de civilidade, mas ainda não está bastante usado em desavenças de deputados nas salas das sessões onde se fazem as leis e os manguitos para a nação; usa-se, todavia, nas aldeias como expressão de solércia e de fina velhacaria.” [Camilo Castelo Branco. O Senhor Ministro (ed. original: Narcóticos). Col. “Mnésis”. Lisboa: Vega, 1989, pg. 35] 

Segunda-feira, 18 de Março de 2013

Lições do xadrez segundo Kenneth Rogoff

«Primeira: a importância de me manter calmo em situações difíceis, mesmo depois de se cometer um erro. Segunda: que, independentemente de se achar que compreende muito bem uma dada posição, deve ter sempre em conta que há vários níveis de complexidade, escondidos. Para os economistas, esta segunda lição implica que é importante ser humilde, e compreender bem a diferença entre ter uma opinião forte bem fundamentada e ser demasiado confiante em si próprio. Terceira lição: a importância de ter um plano estratégico de longo prazo e não se focalizar exclusivamente nos problemas de curto prazo.»
Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard (EUA)
(em entrevista a Jorge Nascimento Rodrigues, Expresso, 16.Março.2013 - supl. "Economia")

O futuro da austeridade na Europa segundo Kenneth Rogoff

«O meu prognóstico é simples: as atuais políticas na zona euro terão de ser modificadas. Posso estar enganado, é claro. Os alemães vão acabar por ter de concluir, de um modo lento e doloroso, que ou vão perder o dinheiro durante uma recessão continuada e com crises ou simplesmente terão de fazer uma assunção de perdas.»
Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard (EUA)
(em entrevista a Jorge Nascimento Rodrigues, no Expresso, 16.Março.2013 - supl. "Economia")

Francisco, o Papa, e Francisco, o Santo

Francisco, o Papa, tem sido motivo de variadíssimos comentários, não fosse a importância da Igreja Católica hoje, não fosse tudo aquilo que tem acontecido de menos bom e de mau nessa mesma Igreja. Obviamente, os exageros nos comentários são muitos, com os fundamentalismos da praxe, mesmo que disfarçados de coisas que vestem roupagens das mais variadas.
Li duas crónicas sobre o Papa Francisco no Expresso de ontem que carregam muito daquilo que senti com esta escolha - deste Papa e deste nome. A primeira é devida a José Tolentino Mendonça, que, sob o título "O nome é um programa?", dá a resposta para a pergunta que lança. Depois de biografar a acção de Jorge Bergoglio, Tolentino Mendonça afirma: "O poverello de Assis foi o grande reformador da radicalidade evangélica, que impôs à Igreja uma cura de pobreza, de humanidade e de confiança vibrante em Deus. Sabe-se que na conversão de Inácio de Loiola, fundador dos Jesuítas, teve enorme importância a descoberta do seu exemplo. Inácio ter-se-á perguntado: 'E se eu fizesse o mesmo que Francisco?' Será isso que o Papa Bergoglio se pergunta?"
Na mesma linha se situa Fernando Madrinha, ao assinar a crónica "A importância de se chamar Francisco", dizendo que "o facto de terem passado oito séculos antes de um eleito escolher o seu nome, e com isso o apresentar como guia espiritual, diz alguma coisa sobre as referências dos Papas, sobre o modo como interpretam a função da Igreja e como encaram o luxuoso trono em que se sentam."
O que ressalta desta escolha, intensificado pelo que tem sido o discurso do novo Papa, é a vez da esperança, que corresponderá à vontade que existe no mundo católico de que a Igreja seja a proximidade, a fraternidade, a esperança ela mesma. A simpatia por este Papa advém daí: marca de esperança, pois.