terça-feira, 3 de março de 2015

Para a agenda - "Artistas no Feminino", em Azeitão



"Artistas no Feminino", a inaugurar na véspera do Dia Internacional da Mulher, no Museu Sebastião da Gama, em Azeitão. Com prazo até 4 de Abril. Para a agenda!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Memória e lembrança: Joana Luísa da Gama faria 92 anos



Hoje, Joana Luísa da Gama (1923-2014) faria 92 anos. Lembro-a pela amizade com que me distinguiu e pela admiração que me despertou. Grande parte da sua vida, a maior parte da sua vida, foi passada a alimentar a mensagem da obra do marido, a divulgar a poesia, a humanidade e o Diário de Sebastião da Gama. Foi esse o sonho que preencheu a sua vida. Foi esse o sonho que gostava de ter continuado. Uma lembrança para Joana Luísa.
[foto: Matilde Rosa Araújo, Joana Luísa da Gama e Aurora Gama,
em Outubro de 2006, na Amadora, numa das primeiras sessões
que orientei sobre a obra de Sebastião da Gama]

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Para a agenda: Maria Clementina, a homenagem nesta ribalta da vida



80 anos de vida, muitos dos quais na ribalta, todos eles na exposição perante o mundo e os outros - eis Maria Clementina. Artista, cidadã, amiga, solidária, poeta. Amanhã, na Casa da Cultura, os amigos e admiradores vão homenageá-la, numa iniciativa promovida pela Divisão de Cultura da Câmara de Setúbal, pela livraria Culsete, pela Uniseti e pela DDLX. A não perder, a vencer as agendas!
No que à escrita respeita, Maria Clementina começou a publicar há exactamente meio século, quando, em 1965, apareceu nos escaparates o volumezinho Vazio... (poemas), assinado pelo pseudónimo Ana Cristina, por onde passa autobiografia, Setúbal, lirismo e sensibilidade. Anos depois, apareceu Alga marinha, também poesia, já com a assinatura própria de Maria Clementina.  A sua obra mais recente data de 2013 e é dedicada à arte da representação, O teatro amador em Setúbal durante o século XX.
Setúbal deve esta homenagem a Maria Clementina. Por mim, estou-lhe grato. Pela sua disponibilidade em colaborar num lote de iniciativas que lhe propus (de que destacarei a colaboração no cd "Sebastião da Gama - Meu caminho é por mim fora"), pela sua franqueza, pelo seu espírito de dádiva e de participação. E estou grato também a quem ma apresentou, depois de me ter falado dela: o Fernando Guerreiro (1938-2013), também ele artista, poeta, de recorte sensível.
Flores, então, para Maria Clementina! Neste palco da vida e dos reencontros!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

José-António Chocolate: poesia entrelaçada de tempo



O mais recente livro de José-António Chocolate, Este tempo que nos come (Setúbal: ed. Autor, 2014), poderá ser do melhor que o poeta alentejano de Santa Eulália, que tomou Setúbal como terra de adopção, fez num trajecto ligado às letras com quase 35 anos.
O título não é inócuo, pois desvenda logo o agente responsável pela duração da vida, pela ocupação dessa mesma vida, num processo de absorção que se afigura imparável. Em acrescento, há fotografias devidas a José Alpedrinha e a Ricardo Fonseca que vão enlaçando a poesia com as rugas do caminho a que metaforicamente chamamos vida, que vão registando sulcos do tempo.
Em quatro partes surge organizado o conjunto, tantas como as estações, todas ultrapassando as estações porque mexem com formas de estar e de absorver o próprio tempo ou a vida ou de sermos esculpidos por ela. “O tempo, do que se faz” é o primeiro grupo, um título em construção poética, que abre com a força desse medidor que é “Ampulheta”, mais próximo da prosa poética, anunciado com palavras quase bíblicas: “A vida não se vive, desvive-se vivendo. Cada segundo vai caindo ao ritmo certo e um a um se devolve o grão de areia caído da âmbula cheia que nos foi entregue no momento de nascer.” É este primeiro conjunto o passo para o cinzelar de uma identidade, sujeita a transformações, a sonhos, a construção lenta e medida, que se conclui com uma confidência, “Confesso que gosto de ser português”, assente em vivências e nessa identidade construída sobre uma “alma lusitana” que “nos faz acreditar que sonhar é possível”.
É de poemas mais intimistas que se compõe o grupo “O tempo que faz”, num envolvimento do sujeito poético com o seu tempo, com os seus momentos, sejam os do calendário, os da meteorologia, os das partículas de quotidiano. O texto que interrompe este grupo, “Primavera no Alentejo”, é uma declaração de afecto a esse quinhão de paraíso, criação que conseguiu confundir o seu autor – numa visita à paisagem fortemente povoada de natureza que se estende qual tapete Alentejo adentro, “Deus Criador fez-se de tamanha admiração / na dúvida que aqueles campos áridos que criou, / não fossem mais aquilo que a sua criação.”
“O tempo que se desfaz” é o quadro das memórias, o encontro com passados, trazidos ou invocados através de pessoas, de sítios, de lembranças – a casa, a infância, os amigos reencontrados ou rememorados, os momentos de descoberta – num revelado filão autobiográfico, com marcas temporais e geográficas do percurso do autor. É de grande sensibilidade o poema que finaliza este ciclo, retomando a intimidade dos momentos, convocando os ausentes, aproveitando o momento de aniversário da mãe, uma escrita que sugere a presença de interlocutor, como acontece em muitos dos textos que integram este livro – “Assim quiseste a mesa composta no dia dos teus anos, / só eu e tu, mãe, como se todo o mundo ali estivesse / e nos bastassem as conversas repetidas e as lembranças. // (…) // Assim quiseste a mesa composta no dia dos teus anos, / só nós dois tendo todos os nossos por companhia. / Tantos corações num só batendo, quando / o amor era preciso para celebrar este dia.”
Apresenta-se o quarto grupo sob o título “O tempo, o que nos faz”, período de visitação do poeta a si mesmo e às suas idealizações e convicções, momento de respeito pelas palavras e de reflexão sobre os passos do presente. Em “Sigamos o tempo”, o poeta deixa-se convencer pelo poder da sorte – “Sigamos o tempo no seu decurso / que os destino traçou.” – para, logo na estrofe seguinte, anunciar o que é o seu presente de desvendamento – “Cada vez mais procuro / encontrar-me na verdade / das coisas simples.” Mas não é apenas o destino o responsável por este presente, pois que uma outra orientação surge, como é revelado no poema de homenagem ao pai, “Que tristeza é esta…?”: “Vem-me de dentro esta dor que não enjeito / e quero que minha permaneça sentindo a tua companhia. / Podes crer, pai, que a tua bondade para mim é bom exemplo / e a tua mão calejada é que me guia.”

Pela poesia de José-António Chocolate, em Este tempo que nos come, passa uma corrente de imagens fortes do encontro do poeta consigo, transitam os valores e as convicções a que não são alheios “Abril, a clara luz da primavera” ou a opinião sobre o presente (“Onde nos leva esta gente”) ou o acentuado pendor para a evocação ou para a saudade de um tempo povoado de histórias e de pessoas que passa e que apenas se consegue reter porque a poesia tem essa capacidade de transformar as palavras em marcos de vida visitada.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Para a agenda: José-António Chocolate e o tempo como motivo poético



José-António Chocolate é nome conhecido na dinamização e na produção poética em Setúbal. Poeta há mais de três décadas, desde que, em 1981, se revelou com Ninfite - Mal de Poeta, tem publicado individualmente e tem organizado antologias de poetas. Este tempo que nos come é o seu mais recente título. Uma obra que traz o tempo para motivo poético, porque... é do tempo que se faz a vida. E, para que dúvidas não restem, o primeiro poema chama-se logo "Ampulheta". Em 21 de Fevereiro, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal. Para a agenda!


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Para a agenda: Eduardo Metzner biografado



Eduardo Metzner vai surgir biografado por Gabriel Rui Silva. Titulo: Eduardo Metzner - Vida e Obra de um Sem Abrigo. Em 20 de Fevereiro, no Centro Cultural Casapiano, pelas 16h00. Para a agenda!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Para a agenda: Adília Gaspar - a filosofia, o amor e o sexo



Adília Maia Gaspar, autora de várias obras ligadas ao ensino da Filosofia, ela própria também professora da área, chega com o seu título mais recente, Sexo, Amor e Filosofia. Na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, em 14 de Fevereiro, data em que se assinala também o Dia dos Namorados. A propósito. Para a agenda!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Para a agenda: "Viagens", uma colectiva de fotografia



"Viagens" é o título para uma colectiva de fotografia que vai começar no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal em 7 de Fevereiro. Um leque de nove autores integra a mostra: António Correia, Barbara Poliak, Francisco Borba, Guilherme Godinho, Luís Pereira, Mafalda Pires da Silva, Manuel Gardete, Maurício Abreu e Rosa Nunes. Para a agenda.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Memória: Niels Fischer (1936-2015)



Niels Fischer foi-me apresentado há uns anos por Manuel Medeiros, o livreiro que adoptou (ou foi adoptado por) Setúbal. Recordo-me do início da conversa. “Sabe quem é este senhor?” Niels olhava-me entre um ar cândido e curioso. Eu não sabia. “Mas está fartinho de ver uma obra sua…”, incentivava Manuel Medeiros. Continuava a não saber. “O logotipo do Ministério da Saúde, aquele das duas figuras que encimam as receitas médicas, com duas figuras humanas, uma verde, outra vermelha…” Ali estava o criador desse logotipo que todos os portugueses conheciam. Mas a conversa foi mais longe, bem como a apresentação. Dinamarquês, designer, apreciador sem limites de Andersen.
E ali se iniciou uma conversa longa e apreciada, que se repartiu por mais uns tantos encontros, ora na Culsete (a livraria sadina de Manuel e Fátima Medeiros), ora em algumas das exposições que pelo país foram patrocinadas por Fischer a propósito do seu conterrâneo Andersen.
Ouvia-o e sensibilizava-me o facto de um homem correr atrás da imagem de um dos mitos do seu país, ensinando-o e divulgando-o aos quatro ventos por sua conta e risco, editando-o, representando-o, recriando-o, expondo-o. Sempre com os olhos do desvendamento, sempre com a vontade de o revelar. Andersen era um farol, um amigo, e Fischer o seu embaixador. Dele ou sobre ele lançou livros, promoveu exposições, incentivou a produção de documentários, dinamizou espectáculos. Um homem que acreditou na identidade e que fez dela a sua bandeira, comunicando num português com acento nórdico, afável, com vontade de arriscar.
Admirável!
Partiu por estes dias, conforme notícias divulgadas. E largou de Setúbal, que escolhera para viver nestes últimos tempos, terra onde ensaiou experiências sobre Andersen (e onde Andersen, ele mesmo, viveu ao longo de cerca de um mês). Uma exemplar passagem pela vida. Uma convicção espantosa. Uma dedicação àquilo em que acreditava. Uma força na procura de caminhos e de portas que se abrissem, sem aceitar derrotas. Gostei de ter conhecido e de ter convivido com Fischer e estou-lhe grato. Uma boa memória.
[foto: recorte de O Setubalense, de hoje]

domingo, 25 de janeiro de 2015

Para a agenda - Facetas da lírica galego-portuguesa



As cantigas de amigo, de amor e de escárnio e mal-dizer, modalidades que povoam a lírica galego-portuguesa, vão ser o tema do próximo título da colecção "800 anos de literatura em Português" que o diário Público tem vindo a editar. Este trabalho, intitulado Cantigas de Trovadores - De amigo, de amor, de maldizer, devido a Graça Videira Lopes, Manuel Pedro Ferreira e João Paulo Silvestre, será acompanhado por um cd que reproduz alguns dos textos musicados.
Uma boa oportunidade para o convívio com esta face da literatura portuguesa, nem sempre lembrada, apesar dos trabalhos de José Joaquim Nunes (das décadas de 1920 e 1930) ou de Natália Correia (em torno das trovas de D. Dinis, 1970) ou mesmo da edição de um Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa devido a Giulia Lanciani e a Giuseppe Tavani (Lisboa: Caminho, 1993), além de muitos outros.
A saída desta fase da literatura dos programas de Português do ensino secundário pode ter contribuído para um certo esquecimento. Contudo, com os novos programas desse nível de ensino e com as metas curriculares, esta literatura voltará a constar no currículo já a partir do próximo ano lectivo, pelo que este título (que fecha a colecção), que sairá com o Público na terça-feira, pode ser um bom pretexto para os leitores, mas sobretudo para docentes envolvidos com a literatura portuguesa.

Para a agenda - Casa da Poesia, em Setúbal



A Casa da Poesia de Setúbal vai dando os seus primeiros passos. No final do mês, há a celebração de protocolo para instalações e há o reviver a poesia de Maria Adelaide Rosado Pinto, compositora, professora de música e poeta que parece estar esquecida. Para a agenda!

sábado, 24 de janeiro de 2015

Da riqueza da língua portuguesa (sem necessidade de acordos artificiais)



Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

O poema consta na obra Pau Brasil, de Oswald de Andrade (1925), marca do modernismo brasileiro, cuja primeira edição foi feita em Paris. Felizmente, a colecção "800 anos de literaturas em Português", que está a sair com o diário Público, integrou este título, que saiu na terça-feira. E é tão bom este ouvir (ou este ler), mantendo genuinidade e ultrapassando os espartilhos de um qualquer acordo, seja para a escrita, seja para a gramática, que desorienta a língua nas suas faces de registo escrito ou sonoro!

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Ana Teresa Penim: a educação e Sun Tzu



O nome de Sun Tzu anda associado à sua obra A Arte da Guerra, escrito com dois milénios e meio de vida, durante muito tempo entendido como um manual orientador de estratégia e teoria militar, mas trazido para outras áreas do saber, como a gestão, tão ricos e de plurais leituras são os princípios enunciados.
No final do ano passado, uma editora lançou uma colecção de reflexões nas mais diversas áreas, partindo de enunciados de Sun Tzu e incluindo o título da sua obra nos diversos títulos da série, nela entrando temas como a negociação, a gestão, o treinador, a liderança, o serviço ao cliente, entre outros, sempre abordados por diferentes autores. De Ana Teresa Penim é A Arte da Guerra na Educação e Formação (Lisboa: Top Books, 2014), um repositório de dezanove capítulos que constituem outros tantos momentos de reflexão para quem trabalha na área da educação.
Cada um dos capítulos abre com uma citação em jeito de epígrafe (devidas, não só a Sun Tzu, mas também a figuras como Aristóteles, Cocteau, Darwin, Einstein, Erasmo, Gandhi, Mao Tsé-Tung, Paulo Freire, Puig ou Rousseau, aqui entradas por ordem alfabética), a que se segue o relato de uma história vivida pela autora, incluindo curta reflexão que fecha com um lote de perguntas ao leitor no sentido de este pensar sobre os seus procedimentos perante situações relacionadas com a história contada.
A história inaugural poderia ser colada a muitos dos leitores: uma amiga telefona, em desespero, porque o seu filho de 14 anos, no 9º ano, vive “um cenário negro” na escola e “já não sabia o que fazer” com ele, com resultados catastróficos que estavam ainda a condicionar a sua auto-estima, ainda por cima tendo o pai sido também aluno do mesmo colégio, com um, percurso feliz. O pedido final era o previsto: como “encontrar novas estratégias para o percurso escolar do filho”?
Está assim esboçado o caminho para que o livro aborde as “competências para a vida” (“life skills”), mesmo pelos exemplos que, mais adiante, são invocados e não constituem nenhum paradoxo: três nomes indiscutíveis quanto à sua importância na cultura universal como Beethoven, Darwin e Einstein passaram por fases de rejeição e foram rotulados de incapazes – o primeiro, desajeitado com o violino, recusava melhorar a sua técnica e era visto pelo professor como um compositor fracassado; o segundo, desistente de um percurso médico, foi considerado pelo pai como estando abaixo da média por só “ligar à caça e a animais”; o terceiro viveu longamente visto como sonhador, gozado, expulso e recusado em escolas, um “caso perdido” até à construção da sua teoria em 1919.
As relações pessoais e as ligações com os outros saberes, os percursos e os interesses das pessoas, a relação com o quotidiano, a gestão do que corre menos bem e a energia para contagiar positivamente os outros, a cultura organizacional e o protagonismo de todos, a avaliação, a capitalização do medo, a auto-reflexão sobre as práticas educativas, a trilogia que associa os gostos à motivação e à novidade, a capacidade de adaptação, todas estas ondas constituem o conjunto de olhares e de pensamentos que se nos impõem ao longo da pouco mais de centena e meia de páginas deste livro. E, a terminar, nem falta um texto em forma de manifesto em favor da educação e da aprendizagem ao longo da vida, assente em vinte e dois princípios, que culmina, seguindo a linguagem militar, na “conquista”, assim explicitada: “Nesta batalha sem tréguas, a liderança por todos, a 360°, independentemente da patente que possuem, assume uma missão determinante: fomentar o sonho e as práticas para a conquista de um ideal de Aprendizagem”.
Uma forma de desafiar cada um a perguntar-se como melhorar, tendo em vista a acção pedagógica com o outro, o sucesso em que um e outro têm de estar envolvidos.

Sublinhados
Aprender – “A aprendizagem e a felicidade são uma batalha constante que não estão isentas de esforço e dor.”
Aprender – “Quem morre na vontade de aprender morre para a vida.”
Emoção – “Por vezes, a guerra em que nos vemos envolvidos é tão forte que a emoção não nos deixa pensar. Nesses casos é melhor abandonarmos o terreno de batalha e dar tréguas às emoções, sem deixar que o pânico se instale nas nossas tropas.”
Medo – “É no lugar onde o medo habita que moram as maiores oportunidades de desenvolvimento e de vitória.”
Negativo – “As emoções básicas negativas boicotam ou paralisam a proactividade, energia, criatividade e capacidade de relacionamento com os outros, pelo que tudo deve ser feito para não se deixar contaminar negativamente.”
Perfeição – “O ser humano tem a beleza de estar irremediavelmente inacabado.”
Simplicidade – “A simplicidade está um passo acima da complexidade. Não há nada mais complexo e que exija mais arte do que ser capaz de simplificar.”
Solução – “Quem quer encontra uma solução; quem não quer encontra uma desculpa.”

Para a agenda: Miguel Real, a utopia e o seu novo livro



Uma das vozes importantes da cultura portuguesa do presente, Miguel Real, vai apresentar o seu novo romance em Sesimbra, na Biblioteca Municipal, em 14 de Fevereiro, pelas 16h00. O Último Europeu e a procura de uma utopia. Para a agenda.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Máximas em mínimas - Anselmo Borges




Três recomendações numa citação de Anselmo Borges, todas sobre a vida, sobre um programa de vida. Uma resposta à pergunta "Se tivesse que passar apenas uma mensagem curta a cada homem e mulher, qual seria?", que integra o questionário dirigido por Inês Maria Meneses a este teólogo, padre, filósofo e autor de várias obras, publicado na revista do Expresso de hoje.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Para a agenda - Sobre arte sacra na diocese de Setúbal



"Com arte e com alma", um título sugestivo para serem debatidos, apresentados, conhecidos os "serões com o nosso património", num itinerário temporal de seis meses, num trajecto geográfico que passou por Alcochete e Cacilhas e que ainda vai visitar Monte da Caparica, Seixal, Barreiro, Setúbal e Palmela. Proposta de valor indiscutível, sob a responsabilidade da Diocese de Setúbal e da sua Comissão Diocesana de Arte Sacra. Para a agenda!

Para a agenda - Workshop de Teatro



Uma boa sugestão para pôr à prova e treinar a competência teatral (necessária à vida), orientada por quem sabe: um "Workshop de Teatro", promovido pelo TAS, sob a direcção de Célia David. A partir dos 15 anos, durante Janeiro e Fevereiro. Para a agenda!

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Máximas em mínimas - Alexandre Dáskalos


Eu – “O meu íntimo é uma catedral / que ninguém viu.”

Silêncio – “Só no silêncio a vida se descobre.”

Procura – “Sempre haverá o que se busque / embora o que se busque não se encontre.”

Vida – “Só existe / o que amanheceu. / (…) // A vida banhada em Sol é que dá vida.”

Alexandre Dáskalos. Poesia.
2ª ed. Col. “Autores da Casa dos Estudantes do Império”.
Lisboa: União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa – UCCLA, 2015
[colecção em publicação pelo semanário Sol]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Para a agenda - Textos de Daniel Nobre Mendes



Daniel Nobre Mendes revela-se Fragmentos - Retalhos de mim, conjunto de textos líricos. Na Casa da Baía, em 24 de Janeiro, à tarde. Para a agenda.
O autor, bejense nascido em 1941, foi emigrante no Brasil e residiu em Setúbal, tendo trabalhado na Câmara Municipal sadina e por aqui tendo proferido conferências e colaborado no periódico O Setubalense. É o seu terceiro livro.



Para a agenda - Poesia e música



Poesia de Isabel Melo, com música de clarinete e guitarra pelo "Duo Encore". Ciclo de música erudita, na Casa da Cultura, em 17 de Janeiro, à noite. Para a agenda.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Para a agenda - António Correia com fotografia de "Gente Cá de Casa"



António Correia leva a sua máquina atrás dos convidados do programa "Muito Cá de Casa". Em jeito de retrospectiva, de memória ou de homenagem, trá-los agora para os reapresentar ao público, no mesmo sítio, na Casa da Cultura. "Gente muito cá de casa", assim é o mote que dá cobertura às imagens fotográficas que poderão ser vistas a partir de 10 de Janeiro, na Casa da Cultura, em Setúbal. Para a agenda.

Para a agenda - Aprender a conhecer o "Serra da Estrela"



A primeira sessão do programa "Muito Cá de Casa" de 2015 surge com a atenção voltada para o cão "Serra da Estrela". Manuela Paraíso apresentará o seu livro Cuidar do Cão Serra da Estrela na Casa da Cultura, em 9 de Janeiro. Para a agenda!

Para a agenda - Lembrar António Gedeão



Como professor, como físico ou como poeta, Rómulo de Carvalho ou António Gedeão é nome para ser lembrado sempre. Desta vez, sob a ideia da Associação José Afonso, que vai organizar exposição evocativa em Lisboa, a partir de 11 de Janeiro, com a presença de Cristina Carvalho, biógrafa que, em 2012, produziu um livro sobre o pai (Editorial Estampa). Para a agenda.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Efemérides para 2015



O ano de 2015 está anunciado como Ano Internacional da Luz e da Óptica, Ano Internacional dos Solos, Ano da Vida Consagrada e Ano Europeu para o Desenvolvimento, além de inaugurar a Década Internacional dos Afrodescendentes sob o lema "Pessoas Afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento", período que vai decorrer entre o início de Janeiro de 2015 e o final de Dezembro de 2024. É também o ano em que se assinala o oitavo centenário da assinatura da Magna Carta em Inglaterra, em que prossegue a celebração dos “8 Séculos de Língua Portuguesa”, em que se assinala o 150º aniversário das leis da hereditariedade (devidas a Mendel, que as apresentou em 8 de Março de 1865) e é o segundo ano do centenário da Primeira Grande Guerra (e, a propósito, o dos 70 anos sobre o fim da II Grande Guerra e dos campos de concentração, sobre a morte de Anne Frank, em 31 de Março, e sobre as bombas atómicas de Hiroshima e de Nagasaki, em 6 e 9 de Agosto, respectivamente). Passam ainda 40 anos sobre a ocupação de Timor pela Indonésia.
Motivos para assinalar em 2015 não faltam: passam 500 anos sobre a morte de Afonso de Albuquerque (16 de Dezembro) e sobre o nascimento de Santa Teresa de Ávila; 250 anos sobre o nascimento de Bocage (15 de Setembro); 200 anos sobre o nascimento de D. Bosco (16 de Agosto), fundador dos Salesianos; 150 anos sobre a morte de Ramalho Ortigão (27 de Setembro) e sobre o nascimento do compositor Sibelius (8 de Dezembro), 100 anos sobre o nascimento de Ruy Cinatti (8 de Março), de Edith Piaf (19 de Dezembro), de Roland Barthes (12 de Novembro), de Orson Welles (6 de Maio) e de Frank Sinatra (12 de Dezembro) e sobre a morte de Sampaio Bruno (6 de Novembro); 50 anos sobre a morte de Winston Churchill (24 de Janeiro), de Humberto Delgado (13 de Fevereiro), de Nat King Cole (15 de Fevereiro), do pintor setubalense Fernando dos Santos (14 de Abril) e de Albert Schweitzer (4 de Setembro).
Cinco obras literárias passarão necessariamente por esta lista de efemérides: os 150 anos de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; o centenário da revista Orpheu e do Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros; os 70 anos do livro de poemas Serra Mãe, de Sebastião da Gama; os 50 anos da obra Praça da Canção, de Manuel Alegre. A propósito de literatura, refiram-se ainda os 150 anos sobre a Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho, redigida por Antero de Quental a partir de Coimbra (Novembro de 1865), iniciadora da "Questão do Bom Senso e do Bom Gosto".
Setúbal tem também motivos para celebrar culturalmente o ano de 2015: em Julho (16), serão volvidos 40 anos sobre a criação da diocese de Setúbal, devida a Paulo VI; em Janeiro (11), passam 60 anos sobre a criação do Museu Oceanográfico (reunindo o espólio de Gonzaga do Nascimento); em Abril (26), decorrem os 160 anos sobre a abertura do Teatro de Bocage (com entrada pela actual Avenida 5 de Outubro); em Maio (8), recaem 60 anos sobre a inauguração do actual edifício da Escola Secundária Sebastião da Gama (então designada por Escola Comercial e Industrial de Setúbal); em Julho (1), perfazem-se 160 anos sobre o aparecimento do primeiro periódico local, O Setubalense, devido a João Carlos de Almeida Carvalho (título que teve várias interrupções na publicação, mas que ainda hoje é retomado);  em Julho (4), completam-se 60 anos sobre a data em que o Vitória Futebol Clube ganhou a primeira Taça de Portugal, derrotando o Benfica por 3-1 (dois anos depois, bisaria a proeza); em Setembro (16), assinalam-se 60 anos sobre a inauguração do busto de Olavo Bilac na Praça do Brasil (poeta brasileiro que muito contribuiu para a divulgação de Bocage); em Novembro (12), a Associação do Clube Setubalense celebra os 160 anos; em Dezembro (21), decorrem 210 anos sobre a morte de Bocage. E, já agora, em Setembro (26), passam os 490 anos sobre o título de “Muito Notável” com que D. João III agraciou Setúbal. A cidade do Sado poderá ainda assinalar o primeiro centenário de jornais locais como O Mosquito (primeira edição em 1 de Janeiro de 1915), A Voz da Mocidade (21 de Janeiro de 1915), ABC (10 de Abril de 1915) e A Justiça (28 de Setembro de 1915), bem como o primeiro centenário da criação da delegação sadina da Cruz Vermelha Portuguesa.
Finalmente, uma evocação sobre duas proibições no domínio da cultura: há 50 anos o Ministro da Educação Nacional extinguia a Sociedade Portuguesa de Escritores após esta ter atribuído o prémio Camilo Castelo Branco a Luandino Vieira, então considerado um inimigo de Portugal; e, em 30 de Dezembro de 1965, o Serviço de Censura interditava a obra Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia. No relatório de leitura apresentado para despacho, o pressuroso leitor apreciador registava no penúltimo parágrafo: “Fica-nos pois a impressão de que esta obra pretende ser a contribuição comunista para as comemorações bocageanas que estão em realização.”

[agradeço a António Cunha Bento informações prestadas]
[actualizado em 9.Fevereiro.2015]

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (6)



Dois falantes de língua portuguesa, uma de Portugal e outro do Brasil, entram no último lote de dez entrevistados que constituem o derradeiro volume de Grandes Entrevistas da História, abrangendo o período de 2007 a 2014 – Paula Rego (Eunice Goes, Expresso, 15-09-2007) e Chico Buarque (Ana Cristina Leonardo, Expresso, 08-08-2009). Os restantes entrevistados são: Stephen Hawking (Xavi Ayén, La Vanguardia, 25-09-2008), Ferran Adrià (Cristina Jolonch, Magazine, 21-02-2010), Bernard Madoff (Steve Fishman, New York Magazine, 27-02-2011), Mikhail Gorbatchov (Jonathan Steele, The Guardian, 16-08-2011), Barack Obama (Susan Page, USA Today, 03-09-2012), Salman Rushdie (Clara Ferreira Alves, Expresso, 22-09-2012), Tim Berners-Lee (Paul Sagan, projecto Riptide da Nieman Foundation for Journalism, da Universidade de Harvard, Abril de 2003) e Mark Zuckerberg (Farhad Manjoo, The New York Times, 16-04-2014).
A conversa com Paula Rego mostra o apego da artista a marcas de um Portugal rural – “gosto da estética das feiras, das festas, do bobo da festa, e das pessoas que lá trabalhavam” –, justificando a sua preferência pela figura feminina “por causa dos fatos, das cinturas” e porque “há mais cumplicidade”, e assumindo a situação de compromisso cívico que os seus quadros têm, através de evidentes marcas contra a injustiça e retratando as relações de poder. A entrevista com Chico Buarque debruça-se também sobre a arte, a literatura, e surge a propósito da edição do seu livro Leite derramado (2007). Mesmo dizendo que não é escritor, Chico Buarque consegue entender a literatura como uma construção, aspecto muito mais interessante do que a história que é contada – “eu, na verdade, o que menos me atrai na escrita de um romance é a história. Me interessa mais trabalhar com a forma, a forma de contar aquela história. A história em si não é nada, muitas vezes não é nada.” No entanto, a sua vertente de leitor e de construtor de histórias leva-o a que se apaixone por uma das suas personagens, o velho Eulálio, porque a conversa de velhos tem sempre uma “memória selectiva, as fugas, as tergiversações, mesmo aquelas mentirinhas ou lapsos de memória, coisas que voltam não exactamente como eram..”
De outras três áreas da cultura são os entrevistados Stephen Hawking, Ferran Adrià e Salman Rushdie. O físico que fala através do computador (“à razão de uma palavra por minuto”) paira numa entrevista, para nós curta, mas longa para ele, atendendo às suas condições físicas. Aí, glorifica a ciência e conjuga-a com Deus (“Se quisermos podemos chamar Deus às leis científicas, mas estas não são um Deus pessoal que podemos interpelar”), ao mesmo tempo que não se põe de lado em relação à política e que relança o seu permanente desafio à descoberta. Ferran Adrià, o cozinheiro catalão, que “está para a culinária como Steve Jobs está para a tecnologia” (no dizer do organizador do volume), surge-nos através de uma peça que mais se aproxima do género reportagem, com o objectivo de ser traçado o retrato do homem que esteve à frente do restaurante madrileno “El Bulli”. O texto é baseado em conversas com o próprio retratado e com amigos e familiares, o que o distancia do género entrevista, que originou esta obra. Fica, porém, a partilha de aprendizagens importantes, como aquela que o levou a descobrir que, “no âmbito profissional, mesmo que nos esforcemos, não somos o que pensamos ser, mas sim o que os outros pensam que somos.” Salman Rushdie, o escritor que teve um longo período de vida clandestina por razões de sobrevivência e por causa da obra Versículos satânicos (1988), é entrevistado a propósito de uma obra autobiográfica em que relata esse tempo de clandestinidade a que foi obrigado pelo fundamentalismo. Ressaltam as convicções, o papel da escrita, o valor das amizades, a tristeza pelos que viram costas, mas salva-se o escritor – “Sou o mesmo escritor. Uma vitória.”
O domínio da política encontra dois nomes representativos do que foi a alteração das relações políticas no mundo no início do século que vivemos – Mikhail Gorbatchov e Barack Obama. O político russo estará para sempre associado à “perestroika” e apresenta-se numa entrevista que está entre o balanço, alguma paz de espírito e relativa amargura. Reconhece erros cometidos (não se ter demitido do Partido Comunista e ter criado um partido reformista democrático, não ter começado mais cedo a reforma da URSS e não ter dado mais poderes às quinze repúblicas, não ter afastado através da diplomacia Ieltsin da cena política). Na sua visão, surge a crença na reforma da China, bem como a rejeição dos métodos de Putin, designadamente a mudança no sistema eleitoral. Gorbatchov mantém o espírito de família e as marcas de proximidade, não escondendo o seu afecto por Raisa, a mulher (já falecida na altura da entrevista), que gostava de o ouvir cantar. Uma entrevista que é também um pouco das memórias de um homem que contribuiu para que o mundo fosse diferente… Do ocidente chega a entrevista com Barack Obama, conhecido como o primeiro negro que chegou à presidência dos Estados Unidos, feita na altura em que ele era candidato à reeleição. Obama, já não com a força do “yes, we can”, demonstra as dificuldades, entre um mundo em convulsão, o apego à família (as filhas “são um grande antídoto para evitar que me leve demasiado a sério”), e respeito pelo adversário e as aprendizagens da política, ainda que aparentemente simples, como perceber “a necessidade de se preocupar mais em convencer as pessoas do país inteiro sobre as medidas que quer tomar, do que os membros do Congresso na outra ponta da Pennsylvania Avenue”.
O mundo das tecnologias ligadas ao poder da informática aparece representado pelos nomes Tim Berners-Lee e Mark Zuckerberg, criadores da web e do facebook, respectivamente. Berners-Lee relembra a motivação que o levou a pensar na necessidade de criar um “hiperespaço aberto” e conclui com uma mensagem forte: as tecnologias deverão permitir resolver problemas “sem cortar tantas árvores para obter madeira e fabricar papel”, uma lição para os tempos de burocracia em que, além de os documentos existirem virtualmente (o que parecia que iria acontecer na sequência do uso generalizado dos computadores), vai havendo orientações em muitos serviços no sentido de os mesmos serem impressos… numa duplicação absolutamente acrónica. Zuckerberg, o criador da “maior nação digital da internet”, é entrevistado com o objectivo de ser questionada a capacidade de a empresa criar novos produtos, sabendo-se que alguns deles não têm tido o sucesso esperado. A conversa liga-se também à discussão do privado e do anonimato em termos de comunicação, acreditando o entrevistado que, de uma forma ou de outra… se visa criar laços. Boas intenções!...
Bernard Madoff, o nome que surge fortemente associado aos tempos de crise que vivemos, um género de “dona Branca” gigante, é entrevistado a partir da prisão, numa peça que é reconstituída sobre conversas telefónicas várias de Madoff para o jornalista, ainda que todas elas pagas no destino. Há ainda os testemunhos de familiares do preso e, por vezes, os desabafos veiculados por amigos, que confidenciaram os sentimentos dos filhos de Madoff. A entrevista é o retrato de um “arrependido”, que, explicando-se, tem dúvidas em aceitar-se, como se vê logo pela abertura da peça jornalística, que reproduz o entrevistado em discurso directo: “Como é que fui capaz de fazer o que fiz? Estava a ganhar muito dinheiro. Não precisava de o ter feito.”
Grandes Entrevistas da História, obra editada pelo semanário Expresso, conclui com este volume o lote de setenta conversas com outros tantos entrevistados, havidas num período entre 1865 e 2014. Todos os nomes que por estas páginas passaram tiveram (têm) o seu papel no mundo que conhecemos, uns associados ao bem, outros nem por isso, dependendo esta categorização da nossa margem de simpatias. São estes setenta como poderiam ser outros, mas as nossas curiosidades alimentam-se disto: a vontade de percebermos como os protagonistas do nosso tempo chegaram aos limites que chegaram e em nome de quê. Se nem tudo é dito nas entrevistas, ficam-nos, pelo menos, os retratos dos heróis sobre os momentos em que foram considerados determinantes, porque a História é feita desses mesmos momentos. E a História, podemos antologiá-la ou contá-la, mas não a podemos prever…

Sublinhados

Existência – “Não existe maior emoção do que a da descoberta, a de procurar incessantemente as respostas às nossas perguntas mais importantes: quem somos? De onde viemos?” [Stephen Hawking. Entrevista a Xavi Ayén, em La Vanguardia (25-09-2008). Grandes Entrevistas da História 2007-2014. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 21]
Perguntas – “As perguntas hipotéticas não servem de muito.” [Mikhail Gorbatchov. Entrevista a Jonathan Steele, em The Guardian (16-08-2011). Grandes Entrevistas da História 2007-2014. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 79]
Medo – “O medo faz as pessoas fazer coisas más.” [Salman Rushdie. Entrevista a Clara Ferreira Alves, em Expresso (22-09-2012). Grandes Entrevistas da História 2007-2014. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 104]

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Nos 150 anos do "Diário de Notícias": um suplemento a ler (e a guardar)



Há 150 anos, no dia de hoje, saía em Lisboa o primeiro número do Diário de Notícias, assinalando como proprietários os nomes de Tomás Quintino Antunes e de Eduardo Coelho, também redactor. Tinha quatro páginas, textos curtos e sem título e um editorial que ainda hoje tem todo o sentido no que à coerência a imprensa deve – pretendia “interessar a todas as classes, ser acessível a todas as bolsas e compreensível a todas as inteligências”, queria afirmar-se por uma “compilação cuidadosa de todas as notícias do dia, de todos os países e de todas as especificidades, um noticiário universal” e prometia um “estilo fácil e com a maior concisão”, visando informar “o leitor de todas as ocorrências interessantes”. Na sua estrutura da primeira página, não fugia à tradicional supremacia da família real e da religião, os dois pólos que garantiam os primeiros textos – o primeiro, dizendo que “Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes”, uma não notícia que sossegava as preocupações; os seguintes, informações de teor religioso, fossem informações ou registos de efemérides; depois, informação sobre as férias natalícias dos tribunais. A seguir, um pouco de tudo, com destaque para algo que constituía marca do tempo, como a aprovação de orçamento para apoio a construção de via férrea em França.
Olhando para a edição do Diário de Notícias de hoje, dirigido por André Macedo, as quatro páginas passaram a quarenta, isto é, dez vezes mais, e se repararmos no suplemento, com 144 páginas, a proporção vai para 36 vezes mais.
O suplemento que hoje é publicado é um documento histórico para guardar, não sendo por acaso que lhe é dado o título de capa de “150 anos de Portugal”. Com efeito, um diário com a idade de século e meio será um bom repositório do correspondente tempo da história do país, tal como, no final do editorial desta edição de aniversário, escreve André Macedo: o jornal, bem como o seu director, servem “para defender um património que pertence aos leitores e ao país, sem esquecer os accionistas, sem os quais nada disto pode acontecer”.
Um suplemento para guardar… porquê? É verdadeiramente um suplemento festivo, por onde passa a história, a criação, o retrato, assente sobre três vectores: o assinalar de 50 efemérides, com curto registo a propósito; os dias da História de quinze escritores portugueses contemporâneos; ensaios, reportagens e entrevistas de 15 áreas temáticas.
Relativamente às efemérides, registam-se: nascimento do Diário de Notícias (29-12-1864), carta de Vítor Hugo ao jornal a propósito da abolição da pena de morte para crimes civis em Portugal (10-07-1867), Comuna de Paris (27-05-1871), Ultimato inglês (13-01-1890), morte da rainha Vitória (22-01-1901), regicídio em Portugal (01-02-1908), exposição pública dos Painéis de S. Vicente depois de descobertos na igreja de S. Vicente de Fora (06-05-1910), implantação da República (05-10-1910), fim da Grande Guerra (11-11-1918), assassínio de Sidónio Pais (14-12-1918), chegada de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral aos rochedos de São Pedro e São Paulo (19-04-1922), golpe do 28 de Maio (28-05-1926), chegada de Oliveira Salazar a chefe de Governo (05-07-1932), revolta na Marinha Grande (18-01-1934), início da Segunda Grande Guerra (01-09-1939), inauguração da nova sede do Diário de Notícias na Avenida da Liberdade (24-04-1940), exposição do Mundo Português (23-06-1940), rendição da Alemanha (07-05-1945), bomba atómica (06-08-1945), entrada de Portugal na ONU (14-12-1955), ataque de nacionalistas angolanos à Casa de Reclusão e ao quartel da PSP em Luanda (04-02-1961), conquista da Taça dos Campeões Europeus pelo Benfica (31-05-1961), queda da Índia portuguesa depois da operação Vijay lançada por Nehru (18-12-1961), assassinato de Kennedy (22-11-1963), incêndio do Teatro D. Maria em Lisboa (02-12-1964), centenário do Diário de Notícias (29-12-1964), eliminação de Portugal do Mundial de 1966 e lágrimas de Eusébio (26-07-1966), inauguração da ponte sobre o Tejo em Lisboa (06-08-1966), presença de Paulo VI em Fátima no que foi a primeira visita papal ao santuário (13-05-1967), chegada de Marcelo Caetano a presidente do Conselho na sequência de avc sofrido por Salazar (26-09-1968), chegada do homem à Lua (20-07-1969), morte de Salazar (27-07-1970), revolução “dos Cravos” (25-04-1974), “fim” do processo revolucionário em Portugal (25-11-1975), morte do Primeiro Ministro Francisco Sá Carneiro em desastre aéreo (04-12-1980), Carlos Lopes com medalha de ouro em Los Angeles (12-08-1984), entrada de Portugal na CEE (12-06-1985), eleição de Mário Soares como Presidente da República (16-02-1986), primeira maioria absoluta em eleições obtida pelo PSD com Cavaco Silva (19-07-1987), incêndio no Chiado (25-08-1988), derrube do Muro de Berlim (09-11-1989), libertação de Nelson Mandela (11-02-1990), início da Expo 98 com publicação do “Diário da Expo” a cargo do Diário do Notícias (22-05-1998), atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago (08-10-1998), morte de Amália Rodrigues (06-10-1999), ataque às Torres Gémeas nova-iorquinas (11-09-2001), independência de Timor-Leste (20-05-2002), derrota de Portugal na final do Euro 2004 (04-07-2004), eleição de Barack Obama (04-11-2008) e morte de Eusébio (05-01-2014).
Os quinze escritores portugueses convidados a participar no dossiê intitulado “A que dia é que eu queria regressar?”, coordenado por João Céu e Silva, foram: António Lobo Antunes (n. 1942), sobre o dia em que soube do nascimento da sua primeira filha (22-06-1971); Afonso Cruz (n. 1971), sobre “hoje”; António Mega Ferreira (n. 1949), sobre o 5 de Outubro de 1910; Gonçalo M. Tavares (n. 1970), sobre o dia do assassinato do arquiduque austro-húngaro por Gavrilo Princip, que deu início à Grande Guerra; Hélia Correia (n. 1949), sobre a estreia de “Ballets Russes”; J. Rentes de Carvalho (n. 1930), sobre o dia do fim da Segunda Guerra Mundial (08-05-1945); Lídai Jorge (n.1946), sobre uma memória da infância, em 1954, 3m dia de nevão; Luísa Costa Gomes (n. 1954), sobre a inauguração do monumento a Cristo Rei (17-05-1959); Manuel Alegre (n. 1936), sobre a campanha de Humberto Delgado (31-05-1958); Maria Teresa Horta (n. 1937), sobre várias datas relacionadas com o feminismo; Mário de Carvalho (n. 1944), sobre a campanha de Humberto Delgado em Lisboa (16-05-1958); Mário Cláudio (n. 1941), sobre a sua data de nascimento (06-11-1941); Miguel de Sousa Tavares (n. 1952), sobre o desembarque dos Aliados na Normandia, em texto epistolar usando a assinatura de Salazar (07-06-1944); Nuno Júdice (n. 1949), sobre o dia da morte de Fernando Pessoa (02-12-1935); Valter Hugo Mãe (n. 1971), sobre o dia que constou como sendo o do fim do mundo (12-08-1978).
Relativamente à terceira área, em que se destacam alguns ensaios relacionados com a história e com o espólio do Diário de Notícias, é preenchida com os textos: “Um país de emigração maciça e baixa literacia”, de Manuel Villaverde Cabral; “Do censo dos 5 réis a um futuro com chips no bolso”, de Patrícia Jesus; “Antigos, porcos e maus: retrato passado menos que perfeito”, de Fernanda Câncio; “Quando o submarino Hunley afundou um navio da União e acabou a inspirar Júlio Verne”, de Leonídio Paulo Ferreira; “Eduardo Coelho, a vida dele dava um jornal”, de Ferreira Fernandes; “A caixa-forte dos seis milhões de mistérios”, de Artur Cassiano; “Títulos diários mais do que centenários”, de Abel Coelho de Morais; “A língua portuguesa como princípio e fim, numa universidade aberta ao mundo”, de Rui Marques Simões, incluindo entrevista com João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra; “’Do prémio que lhe sair por sorte na extracção da loteria’ à crise que atinge a classe média”, de Miguel Marujo, com entrevista a Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas; “Torre do Tombo: Quase cem quilómetros para contar a nossa história”, de Maria João Caetano, com entrevista a Silvestre Lacerda, director do Arquivo Nacional da Torre do Tombo; “Um ‘excesso de natureza’ talhado pelo homem com vista para o mundo”, de David Mandim, com entrevista a Manuel Cabral, presidente do Instituto dos Vinhos Douro e Porto; “A associação para funcionários, famílias e ‘credores de gratidão’ que se tornou o sexto maior banco”, de Céu Neves, com entrevista a Paula Guimarães, directora do Gabinete de Responsabilidade Social do Montepio Geral; “Eça de Queirós – De Port Said a Suez”, com reprodução das quatro crónicas ecianas de  1870 a propósito da viagem para assistir à inauguração do canal de Suez; “Caça à entrevista de Hitler pelas cervejarias de Munique”, de Ferreira Fernandes, com reprodução da entrevista de António Ferro a Hitler; desenhos de André Carrilho sobre o que será o mundo em 2164.
O suplemento finda com a reprodução do número inaugural do Diário de Notícias, que acrescenta mais uma razão às oitenta anteriormente indicadas para um assinalar interessante de uma efeméride que, mais do que marcar a longevidade, destaca o a função do jornalismo e da informação.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

João Magueijo: um olhar sobre Inglaterra



“Estou no cimo de uma serra, estou no céu, ou se calhar voo pelos ares de asas abertas numa nuvem sem borbotos, e vai-se a ver estou a nadar no mar alto sem ter fundo, que ao fim e ao cabo isto vai dar tudo ao mesmo: uma grandessíssima arrelia. Não se enxergava uma polegada britânica à frente do nariz, com os cristais de gelo sobre as pálpebras parecia que nem o próprio nariz se via. E é isto vir de férias nesta ilhota do mar do Norte.” Assim começa Bifes mal passados (Lisboa: Gradiva, 2014), a obra de João Magueijo (n. 1967) que, entre Junho e Novembro, atingiu onze edições e que tem por subtítulo o explicativo dizer: “Passeios e outras catástrofes por terras de Sua Majestade”.
Não vá o leitor enganar-se e pensar que está perante um livro de viagens, o subtítulo desengana logo e o primeiro capítulo não lhe fica atrás. Sugestivamente intitulado “weekend”, esse texto de abertura relata uma ida a Helvellyn, em Lake District, caminhada cheia de peripécias demasiado catastróficas para se recordar um bom passeio. Essa abertura serve ainda para o autor mostrar a sua ligação a Inglaterra e para se justificar do tom a utilizar: “Tendo vivido vinte e tal anos em Inglaterra, depois de acumular duras experiências, munido da sagacidade que a rude prática nos traz, hoje em dia, quando quero ir de férias, espairecer um bocado, desaparecer um fim-de-semana, a primeira coisa que faço é comprar um bilhete de avião. E fugir deste ilhéu a sete pés!” Não é, pois, feliz o retrato que vai ser feito do país de acolhimento do autor…
Ao longo das quase duas centenas de páginas, o leitor vai conquistando a surpresa do mal-estar que invade a memória do narrador. Com efeito, o livro, extensa crónica de vivências diversas, com opiniões que partem de histórias do acaso, é também um repositório memorialístico, já que as experiências aconteceram na primeira pessoa e contêm a marca autobiográfica. Por lá passam apreciações da paisagem, dos hábitos, das pessoas, em suma, de uma identidade do outro, perscrutada por um estrangeiro que acaba por se habituar e por se inserir na sociedade de que tanto se ri e sobre outro tanto ironiza.
À medida que os comentários sobre Inglaterra vão correndo, vai o leitor percebendo que a vida do narrador se alicerça sobre o conjunto de experiências que vai vivendo e sobre as memórias que vai tendo do seu país, de Portugal, ora pela evocação de tempos da sua infância e juventude em Sesimbra ou no Alentejo, ora pelo conhecimento que detém de uma certa forma de ser português, mais prático, mais imediato, mais popular, a tentar compreender um mundo novo, que não tem semelhanças com o de origem.
O tom de riso ou de humor é logo marcado pelas epígrafes que abrem a obra, de Petrónio e de Jerome K. Jerome, e, ao longo do escrito, há ainda referências a Orwell, a Bergerac, a Baudelaire, a Eça, a Rentes de Carvalho, todos eles suficientemente críticos e praticantes de humor e de dizeres sobre outros povos. Apesar disso, vai-se o leitor interrogando sobre o ponto a que chegará esta obra, tão intenso é o tom crítico, atingindo por vezes um certo mal-estar no que se lê, seja por algum aparente exagero, seja por não se saber muito bem a partir de que ponto uma experiência pessoal pode passar a marca generalizada…
O capítulo designado “Epílogo” faz as pazes ou estabelece a harmonia entre o narrador, o leitor e o mundo que foi (re)criado. O título que lhe é dado contém também uma chave para a leitura – “Agridoce”. E é num desabafo que essa chave se inicia: “agradeço a quem me leu até aqui por ter aturado as graçolas de mau gosto, mas espero que tenha ficado claro que não são gratuitas – se as disse é porque esta é a única forma de lidar com este país sem recorrer ao suicídio.” Daqui para a frente, o autor revê-se na sorte que teve em ter passado esse tempo em Inglaterra – “Foi esta a pátria  adoptiva que me permitiu fazer o que gosto: a minha vida como físico e cosmólogo tem sido uma longa história de amor com as tradições científicas britânicas, que não são perfeitas, longe disso, mas também não é isto amor platónico, é uma relação carnal que aprecia a sua verrugazita. Pelo contrário, se tivesse ficado em Portugal teria sido a asfixia.” A justificação para o tom de gozo e de ironia utilizado expõe-na João Magueijo numa observação sobre o auto-retrato que os ingleses de si mesmos produzem: “Uma das particularidades do humor britânico é que frequentemente é self-deprecating, auto-depreciativo: consiste em fazer pouco de si próprio, levado a um extremo que deixa os estrangeiros constrangidos.” Com esta reflexão, o autor assume já o seu quê de britânico, melhor, de inserido no espírito do país que o recebeu e de que ele se ri, porque, afinal, o riso e a gargalhada surgem sobre as suas experiências, não as que lhe passaram ao lado mas as de que ele foi protagonista.
Por isso, a crónica encerra com algo que pode ser um princípio salutar: “As pessoas às vezes levam-se demasiadamente a sério. Não há nada mais saudável do que rir às gargalhadas de si próprio.” E é isso que ressalta neste Bifes mal passados: as aventuras de um português que assume um percurso de descoberta e de inserção em terras de Sua Majestade… nem sempre agradável, é claro, mas que serve para se inserir e para a afirmação da sua identidade também.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Para a agenda - Evocar Fran Paxeco



Fran Paxeco (1874-1952) vai ser evocado em Setúbal, sua terra, numa organização conjunta entre a respectiva Câmara Municipal e a LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão).
A iniciativa conta com uma exposição, em que serão mostrados documentos do espólio do homenageado, e com uma conferência a cargo de António Cunha Bento, o setubalense que mais tem investigado a história e a obra de Fran Paxeco. Uma excelente oportunidade para se conhecer um nome que talvez seja mais conhecido no Brasil do que em Portugal... Em 20 de Dezembro, na Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal. Para a agenda!

Para a agenda - José Ruy em Setúbal



José Ruy é nome incontornável na cultura portuguesa, especialmente na banda desenhada. Autor de extensa obra, por ela têm passado as biografias de personalidades importantes como João de Deus, Fernão Mendes Pinto, Aristides Sousa Mendes, a adaptação de obras literárias devidas a Camões, Gil Vicente ou Alexandre Herculano, ou histórias da cultura portuguesa como a da língua mirandesa.
Os setubalenses vão ter mais uma vez a oportunidade de se encontrar com José Ruy, numa iniciativa em que estão envolvidos o programa cultural "Muito cá de casa" e a livraria Culsete. Na Casa da Cultura, em conversa com Cristina Gouveia, na noite de 19 de Dezembro. Para a agenda!

Para a agenda - Lápide bocagiana regressa ao antigo Quartel do 11, em Setúbal



As antigas instalações do designado “Quartel do 11”, onde esteve alojado o respectivo Regimento de Infantaria e que albergam hoje a Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal, vão voltar a exibir na fachada principal a lápide alusiva ao ingresso de Bocage no então Regimento de Infantaria de Setúbal, ocorrido em 1781.

A lápide, ali colocada inicialmente em 1980 por iniciativa do capitão José Rebelo, foi retirada durante as obras de remodelação do edifício. A LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão) tomou a iniciativa da sua recolocação, ainda que numa réplica, acto que vai ocorrer pelas 11h00 de 21 de Dezembro, dia em que se assinala a morte de Bocage (em 1805).

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Para a agenda - Uma visita a alguns pergaminhos do vinho



Um contributo para os pergaminhos da história do vinho na região de Setúbal, Palmela e Arrábida ou os 180 anos da marca José Maria da Fonseca em exposição no Museu Sebastião da Gama, em Azeitão, a inaugurar amanhã, 12 de Dezembro, e a visitar até 25 de Janeiro. Para a agenda.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Para a agenda - Do vinho, dos poetas, da solidariedade



Numa realização do movimento Casa da Poesia de Setúbal, vão os vinhos servir para evocar poetas. Um gesto de solidariedade com a Cáritas de Setúbal e o apoio da Casa Ermelinda Freitas, em que serão vivas as palavras de Maria Adelaide Rosado Pinto, Cabral Adão, Bocage, Calafate e Sebastião da Gama. Em 14 de Dezembro, à tarde, na Casa da Baía. Para a agenda!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (5)



Entrevistas realizadas na última década do século XX e no primeiro lustro do século XXI constituem o sexto volume de Grandes Entrevistas da História, que o semanário Expresso está a publicar, sendo protagonistas desta série: José Saramago (Clara Ferreira Alves, Expresso, 02-11-1991), João Havelange (Andrés Mercé Varela, La Vanguardia, 17-04-1994), António de Spínola (José Pedro Castanheira, Expresso, 30-04-1994), Osama Bin Laden (Robert Fisk, The Independent, 22-03-1997), Michael Jackson (Edna Gundersen, USA Today, 14-12-2001), Gilberto Gil (Joaquim Ibarz, La Vanguardia, 05-01-2003), Hugh Hefner (Lluís Amiguet, Magazine, 13-04-2003), Bansky (Simon Hattnestone, The Guardian, 17-07-2003), Dalai Lama (Luke Harding, The Guardian, 05-09-2003) e Tony Blair (Jeremy Webb, New Scientist, 01-11-2006).
A entrevista de José Saramago tem como pretexto a publicação do seu romance (que gerou polémica) O Evangelho segundo Jesus Cristo e serve para o autor falar de cristianismo, de comunismo, de ideologia e da história do mundo. Na conversa, Saramago explica-se: “A tese escondida é a de que eu digo, em primeiro lugar, que o cristianismo não valeu a pena; e em segundo, que se não tivesse havido cristianismo, se tivéssemos continuado com os velhos deuses, não seríamos muito diferentes daquilo que somos”. Se se justifica quanto ao livro e quanto às ideias feitas sobre a religião, também se afirma relativamente ao Partido Comunista e à ideologia – “a União Soviética não é nem nunca foi, para mim, uma referência política ou ideológica”, chegando a afirmar que sairá do partido “se um dia se sentir mal”. A questão da sua escrita no que se relaciona com a dimensão histórica, do tempo, também lhe merece aprofundamento: “Agrada-me pensar que o tempo não é essa diacronia, essa sucessão de momentos, agrada-me pensar no tempo como uma espécie de imensa tela onde se projectam e se fixam os acontecimentos.”
O outro português sentado nesta mesa das entrevistas é António Spínola, o homem que povoou as primeiras páginas dos jornais durante muito tempo, sobretudo a propósito dos acontecimentos decorrentes  do 25 de Abril de 1974. É uma entrevista de memórias quanto ao que se passara anos antes, oscilando entre a dedicação ao 25 de Abril e um certo ajuste de contas com políticos e sectores, como o MFA (Movimento das Forças Armadas) e o PCP. Nem tudo é pormenorizado ao ponto de o leitor poder avaliar as posições. Certo é que o militar se sobrepõe ao político. Não escondendo a razão de ser do monóculo (algo que usava por tradição recebida dos oficiais de cavalaria), explica-se quanto ao que viveu na Guiné e quanto à emergência que era a independência daquele território. Personalidades como Costa Gomes, Rosa Coutinho ou Vasco Gonçalves não são poupadas e, na história política que viveu, não esqueceu a parte do MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal). Ao seleccionar o seu maior sucesso político, optou: “ter colaborado abertamente nos objectivos previstos no 25 de Abril, que, em última análise, se resumiram à restituição da liberdade e da democracia ao povo português”. E quanto ao sucesso militar, destaca, a fechar a entrevista: “ter participado como voluntário na Guerra do Ultramar, onde tive o privilégio de correr riscos ao lado dos nossos extraordinários soldados, lídimos representantes do ancestral patriotismo do povo português”.
Do Brasil, foram convocados também dois nomes: primeiro, o de João Havelange, fluminense que presidiu à FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado) entre 1974 e 1998, numa conversa que passa pelo vasto mundo do futebol a nível mundial, com ideias sobre inovações, com responsabilidades, tocando, entre outros, os problemas da massificação e da arbitragem. A fechar o encontro, Havelange refere: “penso no futebol, que é a grande paixão do mundo actual, e tento dar o equilíbrio para que esta paixão seja um elemento civilizador da nossa sociedade”. O outro entrevistado é Gilberto Gil, músico e político do governo de Lula da Silva (em que interveio como Ministro da Cultura), em conversa tida com o jornalista no dia em que tomou posse no cargo. A conversa ficará marcada por esse momento, uma vez que o tema foi a política cultural a implementar, com destaque para o fomento da criatividade, uma vez que “a política cultural não pode deixar todos os seus trunfos à mercê de ventos, sabores e caprichos do deus Mercado”.
Da área da política aparecem mais três nomes: Dalai Lama, Tony Blair e Osama Bin Laden. Quanto ao primeiro, o décimo-quarto Dalai Lama do Tibete, um monarca que perdeu o reino por imposição do governo chinês, deixa uma entrevista pincelada pela amargura do exílio forçado e pela dúvida quanto ao futuro no que toca ao sucessor. Apesar destes traços, o discurso é apaziguador – “a melhor solução para um problema consegue-se através do diálogo”. No caso de Tony Blair, a conversa, atendendo à publicação que a reproduziu, toca um tema candente como seja a ligação da política com a ciência, defendendo Blair a necessidade de a política britânica ter de considerar “a ciência tão importante como a estabilidade económica”, assim como a urgência de académicos e empresários irem à escola com o objectivo de despertarem “entusiasmo nos alunos, não só pelas descobertas científicas, mas também pela infinidade de oportunidades laborais” existentes na área. O tema vinha a propósito de acontecimentos ocorridos no tempo da governação de Blair – a clonagem, as culturas transgénicas e as recusas por parte da população na administração de algumas vacinas. O terceiro entrevistado, Bin Laden, faz girar a conversa em torno da guerra santa contra os Estados Unidos, quase único inimigo, bem como a dose de ameaças relativamente à América, que o entrevistador não sublinhou convenientemente, só a tendo valorizado após o 11 de Setembro. A peça jornalística, cujo autor chegou três vezes à fala com Bin Laden, oscila entre os géneros entrevista e reportagem, já que também narra, com algum pormenor, a viagem ao encontro do dirigente fundamentalista.
Do mundo do espectáculo e da arte são os outros três entrevistados: Michael Jackson, Hugh Hefner e Bansky. O encontro com Jackson resulta numa entrevista fortemente condicionada, já que a conversa teve a presença de assessores do artista, que impediram que algumas perguntas fossem feitas ou desviaram a atenção das respostas, sobretudo quando relacionadas com a vida privada do artista ou com os escândalos que o acompanharam. Jackson aceitou apenas falar de música, de “show”, ainda que se deslumbre a falar dos filhos e que tenha confessado ter tido uma infância perdida. A razão de entrevista tão condicionada é exposta por Jackson: “se aceitasse entrar na esfera pessoal, seria o único assunto de que as pessoas falariam”. Assim, forte é a paixão pela música e pelo reviver de alguns momentos em palco e com os seus fãs. Hugh Hefner surge entrevistado sem ser para a publicação que fundou e com que alcançou fama e sucesso, apesar de o pretexto da entrevista serem os 50 anos sobre a fundação dessa revista, a Playboy. Assim, o diálogo versa sobre as vitórias e dificuldades do projecto, visando uma nova ideia do homem moderno, em muito criado e vivido na própria personalidade do fundador Hefner. Com o ar mais solene, o entrevistado comenta: “Sempre disse que a Playboy não é uma revista de sexo, mas sim uma publicação sobre estilos de vida que dedica especial atenção ao sexo, porque o sexo é uma parte importante da vida”. E uma curiosidade: a revelação de que o primeiro número da publicação não teve data registada porque, por razões económicas, não havia a certeza de vir a ser feito um segundo número…
O último entrevistado deste lote é Banksy, o artista de paredes que ninguém identifica. Sem fotografia, Banksy ajuda a construir o seu próprio anonimato, tomando posições contra marcas e códigos, comprazendo-se com o viver no fio da navalha para não ser descoberto. Com orgulho, afirma: “a lista dos trabalhos que recusei é muito mais extensa do que a dos trabalhos que fiz. É como um currículo ao contrário, é estranho.” Depois, é o desenrolar de histórias sobre os desenhos em paredes, seguindo o princípio do graffiti quanto à efemeridade, mas com a eficácia da crítica e do fazer pensar, porque “a graça está em dedicar menos tempo a fazer o desenho do que as pessoas a observá-lo”.
Tempos de crise, de mudanças, de reflexão sobre o tempo e a forma de se estar constituem esta dezena de entrevistas, que acentua a quantidade de questões que o século XXI tem ainda para resolver, se é que essa vai ser uma preocupação…

Sublinhados
Música – “A música é um mantra que alivia a alma. É terapêutica. É algo necessário para o corpo, como o alimento. É muito importante compreender o poder da música. Seja onde for, num elevador ou numa loja, a música influencia a forma de comprar ou a forma como tratamos a pessoa que temos a nosso lado.” [Michael Jackson. Entrevista a Edna Gundersen, em USA Today (14.Dezembro.2001). Grandes Entrevistas da História 1991-2006. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 70]

Religião – “As religiões tanto servem para sobreviver às perseguições como para fazer perseguições, e os perseguidos vão por seu turno refugiar-se noutra religião que fará outros perseguidos.” [José Saramago. Entrevista a Clara Ferreira Alves, em Expresso (02.Novembro.1991). Grandes Entrevistas da História 1991-2006. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 17]

[Com a próxima edição do Expresso, o último volume da série, o nº 7]