domingo, 2 de agosto de 2015

Urbano Tavares Rodrigues: Encontro com Vasco da Gama em "Os campos da Promessa"



Corria o ano de 1490, era a data em que se celebravam as festas do casamento do infante D. Afonso com Isabel de Castela, descendente dos Reis Católicos, evento que fazia fervilhar Évora de tanta gente e de tanta alegria. Entre os presentes constavam Vasco da Gama e um amigo, Luís de Mendonça, que tinham cavalgado desde a costa alentejana. Está o leitor perante o início da trama de Os campos da promessa, de Urbano Tavares Rodrigues (Évora: Ataegina, 1998), obra que abre com a transcrição do poema “Au seul souci de voyager”, dedicado a Vasco da Gama, de Stéphane Mallarmé (poeta que morreria no ano em que se celebrava o quarto centenário da primeira ida do Gama à Índia).
Durante a viagem, a conversa ajuda a definir o perfil de Vasco da Gama, que confidenciava ao amigo sentir-se “homem de um tempo novo”. Vindo desde Sines, terra ao pé do mar, de pescadores e de mestres de embarcação, Vasco explica: “Eu aprendi sobretudo com velhos pilotos, gente nossa, que se fez na crista das vagas e na dança das tempestades, suspensa da luz do Setestrelo, a empurrar a morte com a esperança. E sonho muito. Sonho desde sempre que vou comandar uma grande armada, naus e caravelas guiadas pelo Senhor Cristo nas rotas do Atlântico e do Índico, com peixes descomunais saltando das ondas, feras a saírem-nos ao caminho à beira das selvas, hordas de cafres, cáfilas de mouros e outras estranhas criaturas vestidas de ouro, sedas raras e pedrarias, como parece que são essas do Oriente, e a todos terei de vergar, menos com as bombardas dos meus navios do que com o poder da palavra.” A citação é longa, mas logo o leitor se convence de que o trabalho apresentado passa pelos meandros da História, de tal forma a linguagem se cruza com o pensar da época retratada, seja na ânsia de chegar ao Oriente, seja na imagem que do outro se constrói.
Decorre a viagem por longas horas e o discurso dos amigos aborda outras temáticas, como a religião ou o poder de Deus, como a figura do soberano (D. João II), sendo também interrompido pelas cenas a que assistem, outra forma de a época ganhar tonalidades e de contextualizar o tempo: o frade “rotundo, gozando, muito quieto, a presença de Deus” junto de humilde capela; os escravos que ajudavam na lavoura lá para os lados do Torrão; um encontro inesperado com um lobo atacante; as “silhuetas andrajosas de um grupo de infelizes”, leprosos que circulavam “ao Deus dará”; a paisagem de pastorícia, em que ambos ouvem as queixas de um pastor, pesaroso com “o mal da cobiça” (a quem Vasco da Gama promete que, em breve, no reino, haverá tal abundância que a todos fartará); o encarar com um louco, “homem silvestre”, que levará Mendonça a especular sobre as profundezas da loucura; as raparigas de um povoado que parecia abandonado, de tal forma os moradores estavam assustados com a ladroagem que os ameaçava; enfim, uma viagem que Mendonça resumiria no meio de uma conversa na pousada de Alcáçovas, depois de mostrar o seu ar poético num vilancete – “tudo o que vimos durante esta nossa viagem – a miséria, o roubo, a solidão, o sofrimento, a desgraça dos mais pequenos, vilões, vagabundos, doentes, leprosos, quereis que vos diga?, o mundo parece-me cruel e mal governado”.
Na cerimónia dos esponsais, será a vez de Vasco da Gama se cruzar com D. Manuel, “duque de Beja, primo do rei, e grande de Portugal”, momento de revelação, que contribui para o fechamento da narrativa – anunciando-lhe que, no seu rosto, “está escrito um grande destino” e assegurando-lhe a solidariedade (“Contai comigo, Vasco”), D. Manuel permite que o Gama fique a pensar no que lhe reserva o futuro.
E assim se faz a união da narrativa com o título: os campos do Alentejo e a promessa de D. Manuel. Uma história em que não falta a manifestação de um grande apreço pelo Alentejo (marca sempre presente na escrita de Urbano Tavares Rodrigues), uma paisagem em que decorre uma quase sinfonia de calma e de apaziguamento – “oscila, vagarosa, a linha do horizonte; sol e vento abrasam as estevas, sibilam, crepitam no mato alto; e o concerto das rolas, dos insectos, de algum grilo rente ao solo acompanha a caravana ao longo do percurso”. Uma história em que não falta uma quase declaração de amor a Évora, uma “cidade toda branca e jubilosa, sobrepujada por uma infinidade de campanários”. Uma história em que, não estando ausente o perfil da historiografia, tem também os ingredientes da criação literária, como acontece no momento de prolepse em que se anuncia o destino do noivo, a ocorrer dali a um ano – “Como que adivinha o Gama, ao vê-lo assim animoso e evanescente, que, cerca de um ano após o casamento, D. Afonso vai morrer de uma queda absurda, ao galopar de mão dada com um nobre seu amigo, D. João de Meneses, segundo uso da época, à beira do Tejo”. Com efeito, a História comprovou-o, um acidente vitimou D. Afonso em meados de 1491, quando cavalgava na zona de Santarém.
A narrativa conclui-se com a personagem Vasco da Gama a acalentar o sonho de ir até à Índia, sobretudo depois de ter recebido a promessa incentivadora de D. Manuel – “Irá surgir a minha hora? Benvinda hora.” E o futuro almirante abandona a festa, perseguindo a sua ideia, “pretextando cansaço, mas com a face banhada de esperança”, enquanto a paisagem se sintoniza com ele, pois “as laranjeiras, sob o luar, naquele largo branco de cal e absoluto, estão cobertas de ouro.” Entretanto, já Vasco da Gama tinha também a promessa da companhia do amigo poeta Luís de Mendonça, que, sofrendo a dor da morte de sua mulher, pondera seguir o herói “lá para as Índias, para o Oriente, para o desconhecido”.
Não sendo um conto extenso, Os campos da promessa foi uma forma de comemorar Vasco da Gama no ano em que se assinalava o quinto centenário da chegada dos Portugueses à Índia por mar. A história deixa um retrato de Vasco da Gama a querer integrar o futuro de Portugal, animado de um espírito de descoberta, sensível, todos ingredientes necessários à construção do herói que a História receberia no final daquela década, por incumbência de D. Manuel I (que subira ao trono em 1495) e que Camões iria glorificar literariamente três quartos de século depois.

Sublinhados
Loucura – “Será a loucura uma perda de faculdades ou uma outra forma de saber, tumulto da alma em que o mais fundo do nosso ser vem à tona?”
Dirigir – “Os homens não prestam e ao mesmo tempo são capazes de grandes feitos. Há que saber levá-los e dirigi-los com rigor, sendo preciso.” 

sábado, 1 de agosto de 2015

Castro Verde - Ver o cante alentejano


De passagem por Castro Verde, uma visita e um olhar sobre exposição pública de rua de ilustrações de Joaquim Rosa sobre o cante alentejano. A força do som e da voz, o espírito de grupo, o enaltecimento do trabalho e da identidade. A acompanhar a exposição, há ainda dois textos: um de José Luís Peixoto e outro de Afonso Cruz, ambos imbuídos da alma alentejana. Para (re)parar.












sexta-feira, 31 de julho de 2015

Para a agenda - Festa das Vindimas 2015 já mexe



Desde há poucos dias, a "carreta" das vindimas já está em Palmela, estacionada nos locais do costume, a cumprir a sua função: indicar o calendário da edição deste ano da Festa das Vindimas (3 a 8 de Setembro), adiafa grandiosa da vida do campo e desse símbolo que povoa as terras de Palmela. Para a agenda.

Para a agenda - Feira de Santiago quase no final



A Feira de Santiago, em Setúbal, está a chegar ao final de mais esta edição. É só mais este fim de semana. Além do programa diversificado de espectáculos, a Feira leva-nos a comemorar Bocage, o poeta, em exposição sob o título "o génio nasceu há 250 anos", bom pretexto para um encontro com um percurso da identidade e da cultura setubalenses.

sábado, 11 de julho de 2015

António Cagica Rapaz - A memória e a identidade nas crónicas



É reedição recente a obra Noventa e Tal Contos, de António Cagica Rapaz (1944-2009), que a Câmara Municipal de Sesimbra levou a cabo, quando passam quinze anos sobre a primeira publicação. Na verdade, trata-se de noventa e sete textos, que o próprio autor, em nota de abertura, hesitava em classificar quanto ao género: “não sei se são contos, se são crónicas, memórias, olhares ou retratos”, para logo acrescentar “se calhar é um pouco de tudo isso ou nada disso”, porque, “no fundo, são simplesmente coisas que, ao longo dos anos, fui buscando no sótão desarrumado que é esta minha cabeça e que fui escrevendo, ao correr da pena que tenho de não saber fazer melhor”.
E, na verdade, assim é. Os textos respeitam a modalidade da crónica pela sua extensão, pela forma de tornar actuais muitas histórias, por se cruzarem com o quotidiano de personagens com as quais o autor também se cruzou, por partirem para pequenas reflexões sobre a memória e as formas de vida, os exemplos, as convivências, os tempos. Havendo apenas um dos textos sem data, os mais antigos remetem-se para 1972, com publicação no jornal Record, enquanto os mais recentes surgem datados de 2000.
O estilo de Cagica Rapaz é vivo, intenso, medido ao pormenor, eficaz, levando o leitor a comungar os instantes e as situações, a viver aquilo que o próprio narrador quer fazer reviver. São histórias de Sesimbra, das suas gentes, do sítio. São narrativas de tempos recuados, assentes na infância do seu contador, que vogam até às figuras que fizeram parte do seu universo e que povoaram o tempo e a geografia entre Caixas,  Cotovia e Sesimbra. São relatos que vivem sobretudo pela sua humanidade, pelas relações que tal evocação gera entre as pessoas, todas protagonistas de vidas e da vida do narrador, que nunca se esconde atrás de um memorialista distante, antes insiste em tornar presentes os momentos que sentiu e as personagens que os condimentaram, sempre levado por um apego à terra, uma Sesimbra em que a paisagem tem de ser dominada, sem dúvida, pelo mar – “O mar e os barcos fazem parte da nossa vida, dos nossos sonhos. Por isso, no campo, mesmo sem searas a ondular, nos parece ver barcos onde, afinal, só há uma casa cercada por um muro pontiagudo, à beira da estrada.”
A pouco e pouco, ao longo da quase centena de crónicas, o autor vai revelando o seu propósito: vencer o tempo, revivendo-o pela memória, que se torna escrita. É assim que, poucas páginas de leitura volvidas, o leitor começa a entrar no desvendamento do porquê desta escrita: “foi-se o tempo, fica-nos a fantasia e a memória vacilante…” Um pouco adiante, ao fixar o retrato de uma personagem, um pouco mais de confissão – “é o passado que penetra o presente com ingénua autenticidade”. As histórias vão-se acumulando e, uns encontros à frente, é dito que “ficam as recordações aqui e ali reavivadas”. Já quase no final desta colectânea de crónicas, uma surge em que o autor cimenta o seu gesto de caminhar pela memória – refere-se à colaboração de António Lobo Antunes num periódico, entretanto recolhida sob o título de Crónicas, que, relidas, merecem de Cagica Rapaz a seguinte reflexão: “Sentimos quão vivas estão as recordações da infância, a ternura com que fala dos familiares, dos amigos, dos lugares, das coisas e de um tempo.” O leitor percebe que este narrador sente a felicidade da identificação, que cauciona o seu trajecto, mas, num gesto de simplicidade, conclui, linhas adiante: “Desta leitura acabei por extrair uma satisfação adicional que é o paralelismo que, vagamente, a espaços, a grande distância qualitativa, me atrevo a vislumbrar entre algumas das suas crónicas e um ou outro dos meus pobres escritos.”
A dimensão pictórica no traçado das personagens é intensa em António Cagica Rapaz, como se pode ver pela descrição de memória que faz de Maria Amália, sua familiar, impressão que quase nos remete para Arcimboldo: “Com os meus oito ou nove anos, eu via nela um fruto autêntico da terra, feito de trigo maduro, de sol cor de romã, de uva generosa, de bom pão amassado com amor e cozido em forno de tijolo moreno”. Impressionante também é a caracterização de uma outra personagem, que se manifesta em vários textos, o padre João, a quem está associada uma construção literária – “foi, para todos nós, o senhor abade das aldeias poetizadas do Júlio Dinis” –, resultante de um retrato todo ele eivado de sentimento – “felizmente, acima dos dogmas rígidos e tenebrosos, havia o Padre João, com a sua bondade, a sua jovialidade, a sua ternura, o seu sorriso cativante, a calorosa cumplicidade que estabelecia connosco”. Intenso também é o passeio na memória através de uma professora, Auzenda Pereira, que leccionava Francês no Liceu de Setúbal no início dos anos 60 e revelou aos alunos os caminhos da beleza e da arte – “Pessoas como a Dona Auzenda acompanham-nos ao longo das nossas vidas, ensinando-nos a apreciar as coisas bonitas da existência, com amor e o mesmo tacto poético com que nos levava pela mão através dos campos da Provença, em manhãs de evasão na biblioteca acolhedora do velho Liceu…” O recorte no tratamento das personagens é fino e sensível e assistimos a um desfile que integra o sapateiro, o pescador, o condutor do autocarro, o barbeiro, os amigos do café, aqueles que chegam e se deixam tornar íntimos de Sesimbra (terra de recepção também) e todos quantos acabam por fazer parte de uma vida, de uma comunidade, com ligação aos sítios (o café, a praça, a praia, o campo), aos momentos (a infância, a escola, a igreja, o futebol, as festas) e aos afectos. No fundo, são os contares do que alimentou o quotidiano, do que foi a epopeia de cada um – não por acaso, será a propósito da narração da matança do porco que o narrador dirá que, nesse dia, “se escrevia mais um capítulo dos muitos que compõem a epopeia do campo”…
Se dúvidas tivéssemos quanto ao que motivava António Cagica Rapaz nestas crónicas, o mistério seria desfeito por este curioso parágrafo que registou no texto “Omar” (designação vinda de poeta persa do século XI, evocado por Amin Maalouf), de 1999: “O que resta da nossa urbe é o olhar melancólico que alguns teimosos palermas, como eu, teimam em pousar sobre Sesimbra, tentando descobrir, desenterrar, trazer à superfície restos de beleza, de poesia, do encanto do passado.” E, quase no final do livro, mais um contributo para ajudar a desvendar o porquê destas evocações: “continuaria a fazer o que faço com as pessoas de quem gosto, evocando-as aqui e mais logo, por isto, por aquilo, como quem diz adeus de longe, do muro da lota…” Duzentas e poucas páginas de um livro que, dizendo adeus, traz o passado até ao presente, assumindo-se como um percurso que (re)constrói a identidade!

Sublinhados
Felicidade – “Se calhar, a felicidade é apenas meia dúzia de horas felizes, momentos espaçados e fugidios, uma sensação de paz, uma ilusão de eternidade, um riso de criança…”
Vida – “A nossa vida é um filme de que somos actores, de que nos julgamos realizadores e do qual, muitas vezes, somos apenas espectadores incapazes de interferir, impotentes para reagir.  Até ficarmos sozinhos na sala escura quando toda a gente já saiu, olhando para o relógio. Lá fora, na rua, já começa outro filme, outras vidas. Ou talvez seja apenas o mesmo filme que continua, em trinta e uma partes…”
Outro – “Andamos anos a cruzar-nos com pessoas de quem gostamos, a falar-lhes de raspão, ao dobrar a esquina, e não somos capazes de arranjar tempo para elas, para nós, para estarmos juntos, sempre a deixar para um qualquer dia que, quando e se chega, não é o que sonhámos. (…) Importante é gostarmos das pessoas e das coisas, sermos capazes de partilhar sentimentos e emoções.”
Escrever – “Escrever não é indispensável, faz parte das coisas supérfluas. Ninguém morre se não escrever e todos passam sem ler. Apenas acontece que alguns de nós, com ou sem razão, com mais ou menos jeito, julgam ter coisas para dizer. E escrevem. Por gosto, com paixão, por amor, escrevem.”

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Para a agenda: Moita Flores em Setúbal



Francisco Moita Flores entrou no enredo dos derradeiros dias do regime filipino em Portugal e trouxe O dia dos milagres, a sua mais recente obra. Amanhã, 10 de Julho, pelas 15h30, Moita Flores estará na estação de correios de Monte Belo, em Setúbal, para autografar a obra. Para a agenda.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Sobre "Os últimos marinheiros", de Filipa Melo



Magnífica reportagem, é o mínimo que se pode dizer do livro Os últimos marinheiros, de Filipa Melo (Col. “Retratos da Fundação”. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015), uma reportagem que mistura o retrato, a informação, o sentimento, as vozes, a opinião, em que não se apagam os afectos de quem narra. Lê-se o título e percorre-nos uma sensação de fim de ciclo ou de final de história, não porque um ou outra se cumpram, antes porque os tempos são o que são, antes porque a relação de Portugal com o mar, sendo geográfica, tradicional e histórica, é também paradoxal. É assim que sucede com Os últimos marinheiros, título a cheirar a nostalgia, a barcos no cais, a contemplação do mar e das vidas.
O contado resulta de duas viagens a bordo: uma, em 2009, no “Port Douro”, navio de carga da Portline Bulk International, em circuito entre Lisboa, Leixões, Caniçal e volta; outra, em 2015, no “Neptuno”, navio de pesca de arrasto, ao largo da Figueira da Foz. Ao longo das duas viagens, Filipa Melo conta as especificidades de cada um dos navios, esclarece muito do vocabulário náutico, ouve as personagens reais com quem viajou, conta-lhes e deixa que elas contem as suas histórias, dá nota das dificuldades e da camaradagem na companha, enquanto o leitor vai entrando nesse universo, quase integrando a tripulação ou, pelo menos, com ela confraternizando também.
São retratos de descrição do estado das coisas ou que favorecem uma leitura quanto a esse estado das coisas, essa (suposta, talvez obrigatória, talvez frágil) ligação de Portugal com o mar. Logo no início do livro, uma verdade que nos flagela os sonhos: “Em Portugal, os homens do mar estão em vias de extinção, ou quase”. E, dois parágrafos adiante, a crueza: “Inclinados perante a Europa, virámos as costas ao mar. País de marinheiros? A actualidade do nosso imaginário mítico marítimo dissolve-se no desprezo colectivo pelo mar. Estendidos nas praias, vemos passar navios, ao longe, cada vez mais ao longe. O mar não existe nem sequer como conceito do poder da nação.” Fortes estas imagens! Logo associo ao nome de um restaurante lisboeta que, perante a vista que se esparrama sobre o Tejo, não foi baptizado de forma estranha: “A ver navios”. Afinal, a poesia da saudade e dos longes que uma frase contém também pode esconder a face do desprezo… Quarenta páginas andadas, depois de relatos e de vivências, a mesma conclusão: “O declínio do nosso sector das pescas acompanha a tendência da maioria dos países com tradições piscatórias. Mas a falta de interesse dos portugueses pelo mar como activo nacional importante diz mais da difícil gestão dos nossos imaginário simbólico-poético e herança histórica e da ainda mais difícil distribuição de estatuto social. Se a nação fosse de marinheiros, com certeza a mais-valia das pescas ficaria no sector. Não é de todo o que acontece por cá.” Que dura conclusão para António Nobre, que, hoje, não poderia convidar Georges a vir visitar o seu “país de marinheiros”!
Ao longo de setenta páginas, vamos convivendo com portugueses “cuja principal fonte de sustento ainda é a navegação no mar”, homens e mulheres que “estão acostumados ao horizonte que se eleva, permanece em cima por segundo e volta a mergulhar. Uma vez, outra, outra, outra. Alguns, mesmo nos momentos mais difíceis, mantêm a placidez da gaivota, pousada sobre a imensidão da água como se de um banco de jardim se tratasse.”
Pelas histórias reais que Filipa Melo vai registando vai passeando também a literatura, com incursões de Conrad, de Pierre Loti, de Fernão Mendes Pinto, de Hemingway, de Camões, de Antero de Quental, de Sérgio Godinho, de Raul Brandão, de Baudelaire, de António Vieira, de Álvaro de Campos, de Yukio Mishima, de Ternazi, de Jorge Amado e de Júlio Verne, havendo ainda lugar para o romanceiro chegado através da “Nau Catrineta”, segmentos de obras de ficção, de poesia ou de relatos, que sustentam a grandeza do que é a relação do homem com o mar (com pena de que não tenha sido trazido também o nome de Bernardo Santareno a partir das suas crónicas de Nos mares do fim do mundo). Nessas histórias reais, os entrevistados falam do que sabem – da família, do mar, dos seus sonhos e de como chegaram ao mar, das aventuras e perigos passados, das suas leituras, das epopeias de que eles são heróis. E dão-se-nos, entre muitas, as experiências de Cristina Alves, a mulher que tem histórias bem dispostas para se inserir numa comunidade que era apenas masculina, ou a do sesimbrense António Rocha, cozinheiro de bordo, com uma história de vida que dava um livro…
Viajando num navio de carga ou num navio de pesca de arrasto, Filipa Melo é sobretudo sensível à experiência humana perante os oceanos – “O denominador comum das histórias e casos de vida que reproduzo ao longo deste livro é a necessidade de ajuste, mais ou menos voluntário, mais ou menos violento, do homem ao ritmo do mar.” E, mesmo depois de realizadas as viagens, a vida das personagens foi seguida, havendo a preocupação de localizar no presente mesmo aqueles com quem viajou em 2009.
Neptuno, o deus romano dos mares que dá nome ao navio da experiência de 2015, terá recebido bem este retrato em que o mar se destaca não só pela matemática da lonjura e do infinito, mas também por ser respeitado, pois, como confidencia Telma Cunha (que era oficial-imediato em 2009 e agora é capitã e também tem o hábito de frequentar o festival poveiro “Correntes d’Escrita”) sobre o mar: “Pode estar num momento muito calmo e, logo a seguir, ficar todo trapalhão. Dentro do navio, sente-se sempre, a toda a hora, a imensidão dele à nossa volta. É esmagador, não nos podemos fiar.”

Sublinhados
Mar – “O mar tanto oferece, tanto ruge, segundo leis desconhecidas. Despreza mitificações e romantismos, faz pagar caro os despiques, exige submissão absoluta. Se ele é a religião da Natureza, a poucos homens é concedida a verdadeira graça do culto.”
Descobrir – “Só se descobre aquilo que já existe.”
Olhar – “Cada um olha para o mar da maneira como olha para dentro de si mesmo.”

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Para a agenda: Arruada da Culsete



Entre 3 e 12 de Julho, a livraria Culsete, em Setúbal, vai levar a cabo a sua 3ª Arruada. Tempo para convívio com letras e livros, com saberes e culturas. O programa é extenso, variado, rico. Tem muito por onde escolher. Para a agenda!

Para a agenda: Franciscanismo e importância religiosa da Arrábida



Vítor Melícias, franciscano e capelão do Convento da Arrábida, falará, em 3 de Julho, sobre o franciscanismo e a sacralidade da Arrábida, em sessão na capela da Santa Casa da Misericórdia de Sesimbra. Às palavras juntar-se-á a música interpretada por Rão Kyao. Uma possibilidade de um encontro com a importância cultural e religiosa da Arrábida, dimensões que tornam a serra ainda mais mística. Para a agenda!

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Festa da Ilustração em Setúbal - Última semana



A primeira edição da Festa da Ilustração de Setúbal está quase no fim, pois que se está na sua última semana. Quer dizer: só tem até ao fim da semana para ver boas exposições, para viver de perto a Festa da Ilustração.
Fui ver, repeti algumas. Se o conselho serve para alguma coisa, é vê-las todas. Não haverá melhores, há diferentes, para diversos gostos. Gostei de André Carrilho, na Casa da Cultura; gostei de Maria Keil, na Galeria Municipal (edifício do Banco de Portugal); gostei de Lima de Freitas, na Galeria do 11; gostei de Manuel João Vieira, na Casa de Bocage. Há outras, que não sei se conseguirei ver; mas ainda tentarei.
Passada esta semana, só voltará a haver Festa da Ilustração para o ano... porque, como diz o cartaz, "não se pode viver sempre em festa". E, já agora, "é preciso fazer um desenho?" Para a agenda, obviamente! Mesmo que haja necessidade de um esforço suplementar...

terça-feira, 23 de junho de 2015

Convento de Jesus - Depois da reabertura, a espera pelo futuro



Reportando-se à reabertura do Convento de Jesus, que ocorreu no Sábado, o Público de hoje avança com as declarações quanto ao futuro deste monumento, proferidas por Maria das Dores Meira, presidente da Câmara de Setúbal, e por Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura.
Vinte e três anos depois do encerramento, o Convento abriu e o gesto e a obra são motivo de orgulho. Agora, confiemos na celeridade e na vontade de que  se não tenha de esperar outro tanto tempo. Mostremos que gostamos do nosso património. É único e isso basta para a urgência e para o empenho!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Para a agenda - Sobre os 500 anos do foral manuelino de Setúbal



No fim de semana que se avizinha, vão terminar as celebrações dos 500 anos do foral manuelino de Setúbal. Uma edição sobre os forais de Setúbal e várias comunicações vão enriquecer a noite de 27 de Junho a partir das 21h00. No Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, com a seguinte agenda:

1) Conferência “Os 500 anos do foral Manuelino de Setúbal”
- Prof. Dr. João José Alves Dias (FCSH/Nova): "Para que todos paguem segundo a sua obrigação. Os forais novos no alvor da Modernidade"
- Dr. João Costa (IEM-FCSH/Nova; CEH-Nova): "Os forais novos da península de Setúbal: semelhanças e especificidades"
- Dr. Pedro Pinto (CHAM-FCSH/Nova - Uaç.; CEH-Nova): "Os autos de publicação dos forais novos na comarca de Entre-Tejo-e-Odiana"
- Dr. José Jorge Gonçalves (CHAM-FCSH/Nova - Uaç.; CEH-Nova): "A edição impressa em 1509 da Regra da Ordem de Santiago: algumas questões a considerar no seu estudo"
2) Apresentação da obra Os Forais de Setúbal 1249 | 1514, Autor João Costa, Edição Câmara Municipal de Setúbal

O evento tem a realização da Câmara Municipal de Setúbal, em colaboração com a LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão) e com o CEB (Centro de Estudos Bocageanos). Para a agenda!

Para a agenda - Carlos Sargedas e o Cabo Espichel, em Setúbal


A associação Synapsis traz a Setúbal o Cabo Espichel por um dos seus mais empenhados defensores - Carlos Sargedas, autor de fotografias, de livros, de ideias, em torno do Espichel. Integrado no programa "Sextas de Arte e Ciência", o título do encontro não esconde a dose de mistério e de afecto - "Cabo Espichel - Em terras de um mundo perdido". A descobrir! Para a agenda!

Convento de Jesus - a reabertura, 23 anos depois



O Convento de Jesus reabriu no sábado, 20 de Junho, depois de 23 anos de encerramento. Boa notícia para Setúbal, claro. Boa notícia para a cultura, obviamente. E ainda: esperança de que se realize o que falta. A visitar. E visite-se ainda aquilo que do acervo do Museu de Setúbal é mostrado na Galeria Municipal, a funcionar nas instalações que foram do Banco de Portugal (Av. Luísa Todi). Setúbal tem uma riqueza cultural extraordinária, que é pena passar ao lado dos setubalenses.
Aqui se reproduz a notícia de O Setubalense de hoje sobre a reabertura do Convento. A visitar.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Para a agenda: Bocage na Festa da Ilustração, em Setúbal



A Festa da Ilustração de Setúbal promete animar este Junho. "É preciso fazer um desenho?" Que o diga Manuel João Vieira na exposição "Bocage porno". A abrir na noite de hoje, na Casa Bocage. Para a agenda!

Para a agenda: Helena Mendonça... escolhe o tema



O grupo Synapsis prossegue no programa de encontros "Sextas de Arte e Ciência". A 19, a palestra cabe a Helena Mendonça. Tema? Isso mesmo: "A escolha do tema..." No MAEDS, na Avenida Luísa Todi, em Setúbal. Para a agenda.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Para a agenda: Histórias do Manuel Bola



A Festa da Ilustração de Setúbal também traz a graça e o humor de Manuel Bola, aliás, Carlos Rodrigues. Histórias do pincel da barba é um conjunto de quatro narrativas protagonizadas por personagens que podiam enfeitar o nosso quotidiano, assinadas por Manuel Bola e ilustradas por Gonçalo Duarte. Em 18 de Junho, na Barbearia da Baixa, em Setúbal.

Para a agenda: Reabertura do Convento de Jesus, em Setúbal



Os dias 20 e 21 de Junho vão assinalar a reabertura do Convento de Jesus, que esteve fechado durante quase um quarto de século. É o retomar o contacto com uma jóia manuelina. Que Setúbal merece! Para a agenda.

Para a agenda: TAS e "A Razão"



Encontraremos A Razão sobre o palco em 18 de Junho (ante-estreia) e a partir de 19 (dia em que surge a estreia). Pelas caras do TAS (Teatro Animação Setúbal). Encenação a partir de Auto da Razão, de Jorge Palinhos (Prémio Miguel Rovisco INATEL 2002). Com Sónia Martins, José Nobre, Susana Brito e Miguel Assis, um bom naipe. Para a agenda!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Carlos Silveira: aproximação a Setúbal




O título do filme não podia conter maior marca de identificação: Sadino. Assim. Só. Em quase sete minutos de imagens trabalhadas que nos olham, ou que olhamos, ou em que somos levados a reparar. Pela impressão das imagens de Carlos Silveira. Marcas de Setúbal. A ver aqui. A divulgar.

Para a agenda: Marchas Populares em Setúbal



Elas aí estão, com o fulgor que se adivinha. Motivos populares da quadra em casamento com motivos locais, alegria e concorrência, participação e associativismo, espectáculo e boa disposição... ingredientes que condimentam as Marchas Populares de Setúbal. Amanhã e uma semana depois. Para a agenda!

Para a agenda: António Cagica Rapaz - A reedição dos contos



António Cagica Rapaz (1944-2009) é autor de um interessante conjunto de títulos ligados à identidade sesimbrense. Amanhã, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, vai ser apresentada a reedição de Noventa e tal contos, trazidos por João Augusto Aldeia e Pedro Martins. Um bom pretexto para simpática leitura e para um olhar literário sobre Sesimbra. Para a agenda!

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Para a agenda: Alice Brito, o segundo romance



Na senda da qualidade de escrita do primeiro romance, As Mulheres da Fonte Nova, eis o segundo romance de Alice Brito, O dia em que Picasso encontrou Estaline na biblioteca. A ser apresentado hoje, à noite, na Casa da Cultura, com a presença da autora, de Fernando Rosas e de Rosa Azevedo. Um livro de qualidade. A ler, obrigatoriamente. Para a agenda.

Uma boa notícia para Setúbal: A reabertura do Convento de Jesus, passado quase um quarto de século



Uma boa notícia para Setúbal, quase um quarto de século depois!!! Convento de Jesus vai reabrir. É notícia de O Setubalense de hoje (pg. 16).

Petição pública - Escola Secundária de Palmela




Caros Amigos,
Acabei de ler e assinar a petição: «Por um pavilhão desportivo na Escola Secundária de Palmela» no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PavilhaoAPEE-ESP
Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.
É necessária a solidariedade de todos para que os poderes deixem de fazer orelhas moucas perante um problema que criaram. Um Escola Secundária sem instalações desportivas condignas, sem um pavilhão desportivo há mais de uma década, com aulas de Educação Física a decorrerem ao sabor do clima e, muitas vezes, dentro de salas de aula normais... Assine e partilhe! Um dever de cidadania, apenas!
Uma 3ª fase das obras adiada e sucessivamente esquecida desde há 13 anos, faltando ainda sala de alunos, laboratórios e espaços de disciplinas específicas... Assine e partilhe! Um dever de cidadania, apenas!
Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação através de um email para os vossos contactos.
Obrigado.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Mãe - um texto de antologia, por Miguel Esteves Cardoso



Um texto de antologia sobre a mãe, essa personagem que tem ocupado poemas, crónicas, histórias, desde sempre. Miguel Esteves Cardoso, no Público de 2 de Junho. A ler, a sentir, a tudo! Obrigado pela partilha emocional, Miguel Esteves Cardoso!

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Para a agenda - Festa da Ilustração, em Setúbal



A Festa da Ilustração de Setúbal, na sua primeira edição, abriu à meia-noite de hoje. Um mês para contactar com esse espectacular mundo da ilustração, com alguns dos grandes nomes da área, com muitas obras ímpares. Um programa cheio, a ocupar a cidade de Setúbal.
Nomes e sítios? André Carrilho, na Casa da Cultura; João Abel Manta, no Forum Luísa Todi; Maria Keil, na Galeria Municipal (antigo Banco de Portugal); Lima de Freitas, na Galeria do 11; Beatriz Manteigas, na Casa da Avenida; André Letria, no Museu Sebastião da Gama, em Azeitão; Manuel João Vieira, na Casa Bocage. E mais outras actividades, em que se incluem: trabalhos de escolas da região; a Feira do Livro Ilustrado (na Casa da Avenida); evocações em diversas lojas da "baixa" da cidade; o lançamento do livro Histórias do Pincel da Barba, da dupla Carlos Rodrigues / Manel Bola; concertos diversos.
Uma organização entre a Câmara Municipal de Setúbal e o atelier DDLX, com o saber de José Teófilo Duarte.
Uma ilustração que é mesmo uma festa. "É preciso fazer um desenho?"

Adolfo Casais Monteiro: (um)a certa ideia de Europa



O dia 23 de Maio de 1945, uma quarta-feira, tem um registo incerto na cronologia da II Grande Guerra: provavelmente, terá sido o dia em que Himmler, com 45 anos, poderoso do III Reich, chefe das SS e da Gestapo, se suicidou, num trajecto vertiginoso de final de uma época, depois que Hitler cometera o mesmo feito no derradeiro dia de Abril e, sobretudo, depois que a paz voltara à Europa a partir de 8 de Maio. Na capital portuguesa, o jornal Diário de Lisboa desse dia 23 (dir.: Joaquim Manso. Lisboa: nº 8078) mostrava na sexta página uma pequena nota em que referia: “A Europa, durante cinco anos, correu em busca de abrigo para as tormentas da sua dor. Para onde? Para onde houvesse indício de aquietação, ao menos para onde o cenário não fosse o mesmo. (…) Agora, passado o temporal, cada um tenta a viagem de regresso.” Era o regresso dos exilados, de volta à Europa-mãe, numa tentativa de reencontro e de reconstrução de um continente de paz.
Nesse mesmo dia 23 de Maio [passaram há pouco 70 anos], acontecia um evento que não consta nas cronologias da II Guerra Mundial e que envolveu portugueses: aos microfones da BBC, António Pedro lia o poema Europa, de Adolfo Casais Monteiro, texto que só viria a ser publicado no ano seguinte (1946) por responsabilidade da editora Confluência (com desenho de António Dacosta), ainda que com alterações. Por 1945, António Pedro era autor de palestras na BBC, em que não poupava o regime alemão. Em 16 de Novembro desse ano, em carta, Casais Monteiro anunciava ao palestrante da BBC: “desde que o ouvi ler a minha Europa tornou-se uma espécie de pesadelo; a pura verdade é esta: queria umas boas horas de cavaco consigo – e não tenho vontade de aqui estar a falar só” e, mais adiante, refere a publicação do poema, que lhe será oferecido, por ser “a mínima justiça que lhe posso fazer”. Com efeito, o livro abre com a dedicatória “Ao António Pedro, que foi na hora própria a voz de todos os Portugueses que não esqueceram a sua condição de Europeus e cidadãos do mundo”. De uma só vez, três linhas de orientação sobre o ser português – a memória, a condição europeia e a cidadania.
O poema seria publicado no início de 1946 e, da parte de José Régio, mereceu uma apreciação epistolográfica datada de 24 de Fevereiro, a partir de Portalegre: “De facto, penso que ele não vale – como arte – uma página dos Adolescentes [de 1945]. Já sei que esta minha opinião também o não surpreende. Mas não acho mal que Você o tenha escrito e publicado. A poesia desse género tem dois grandes perigos: o mero interesse de actualidade – e a quase irresistível tendência para se sobrepor à poesia – à verdadeira poesia – a declamação retórica. Mas o seu poemeto salva-se menos mal desses terríveis riscos pela vibração de sinceridade que o atravessa.”
Constituído por cinco partes, o poema apela para a existência de uma Europa civilizada, com identidade, a ser recriada, valorizadora do homem. Logo na primeira parte, a ideia é a do sonho de uma Europa humanizada, rejeitando o que tinha acontecido antes: “Tua grandeza a fizeram / os que nunca perguntaram / a raça por quem serviam. / (…) // Europa, ó mundo a criar! // Europa, ó sonho por vir / (…) / Europa, sonho incriado. / (…) /// Europa, tu virás só quando (…) / O homem que sonhaste, Europa, seja vida!” Depois deste desafio deixado na abertura do poema, há a contemplação adequada ao tempo histórico “de discursos, / florindo em chaga, em pus, em nojo / (…) de guerras de fronteiras”, para, a seguir, ser marcado o espírito de vigilância e ainda o receio: “Os que não morreram velam. // (…) / o medo ronda, / o ódio espreita.” E o poeta intervém, no seu momento, sentindo o desdém pela obra cometida, pela destruição conseguida, pela desumanidade: “Olho num pasmo sem limites, / e fico sem palavras, / na dor de serem homens que fizeram tudo isto”, sendo o pronome a moldura para um quadro de terror – “esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, / esta lama de sangue e alma, / de coisa e ser”.
Tão intenso trajecto só poderia terminar em protesto, em compromisso contra a malícia e contra a desumanização. As exclamações e as perguntas retóricas ajudam a pensar, numa condução para o repúdio pela obra feita – “De que são feitos os homens / (…) / que matavam ou deixavam morrer homens aos milhões?” –, levando a uma conclusão inevitável, forte – “O homem não se há de submeter à / violência” –, e a uma proclamação – “Só o homem livre é digno de ser homem!”, máxima que fecha o grito escrito.
O poema afirma-se em forma de declaração de intenções, num acto compromissivo com a vida e com o futuro, na busca de um paraíso cultural e humanizado, sonhado, capaz de curar a Europa devastada e sofrida que sobrevivia. Como José Augusto Seabra reconheceu (“Um poema português para a Europa”, prefácio à edição de Europa, em 1991 – Porto: “Nova Renascença” / Europalia), este era um texto de “apelo à fraternidade”, mas também de “prevenção lúcida” aos povos, aos políticos e aos países no sentido de serem afirmados valores como “a liberdade, os direitos humanos, a solidariedade social”.
O que a Europa foi depois, o que a Europa é agora, até que ponto a marca emblemática apregoada por Casais Monteiro se configurou… essas são outras questões que vão além da literatura e, especialmente, da poesia!

sábado, 30 de maio de 2015

Para a agenda: Olhar Setúbal



O mês de Junho, em Setúbal, começa com trabalhos de escrita, de fotografia e de artes visuais sob o título "Olhar Setúbal", numa organização da Casa da Poesia de Setúbal, com a colaboração de alunos de várias escolas - Secundária de Bocage, Secundária Sebastião da Gama e EB 2, 3 de Aranguez. De 1 a 5 de Junho, na Biblioteca Municipal de Setúbal. Para a agenda!

Para a agenda: a pintura de Maria d'Almeida



Maria d'Almeida com a "Sinfonia dos Sentidos", na Casa da Cultura, em Setúbal. Abre hoje, numa organização da Artiset. Para a agenda.

Para a agenda: Festival de Música de Setúbal 2015



Nas ruas, nas salas, no fim de semana, no final de Maio, em Setúbal... mais uma edição do Festival de Música de Setúbal. Um grande evento que enfeita a paisagem com sons. Até 31, domingo. O programa pode ser consultado aqui. Para a agenda.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Para a agenda: Virgínia Costa com mais poemas



O novo livro de poemas de Virgínia Costa, agora em coautoria com José Fialho, vai ser apresentado amanhã. A todos os tempos pertenço tem a chancela do Centro de Estudos Bocageanos. Em Palmela Gare, no Ludpark. Para a agenda!

sábado, 23 de maio de 2015

O paraíso, segundo Miguel Esteves Cardoso



O título é original: "Algumas verdades fofas e nuas sobre o paraíso que de modo algum precisavam de ser ditas". Outra forma de dizer que o paraíso está ao nosso alcance... assim o queiramos! E o início do texto é forte: O paraíso é a repetição esperada do desejo e inesperada do prazer. O paraíso nunca pode ser imaginado. Se é preciso imaginar é porque não se está lá. O paraíso pode ser sonhado mas nunca satisfaz porque, para ser um paraíso, é preciso consciência que se está lá, acordado, cheio de toda a sorte do mundo. (…) O paraíso é uma extrema felicidade passageira que promete poder voltar, talvez. Se nunca mais pudesse voltar, fosse de que forma fosse, seria uma tragédia.”
Quem o diz é Miguel Esteves Cardoso, na revista "Fugas" que acompanha o Público de hoje (pg. 3) e é dedicada à temática do paradisíaco. A ler! E a construir!

"Orpheu" - sublinhados no seu centenário



Em 1915, surgiu a revista Orpheu, sendo o primeiro número (alusivo aos meses de Janeiro a Março) dirigido por Luís de Montalvor e por Ronald de Carvalho e o segundo (referente ao trimestre de Abril a Junho) por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. O terceiro número não chegaria a ser publicado e só em 1984 apareceu a edição das respectivas “provas de página” (em fac-símile) pela mão da revista Nova Renascença e do seu director, José Augusto Seabra.
Neste ano de centenário, uma revisita às páginas da revista (cuja edição fac-similada dos dois números editados, em volumes autónomos, saiu recentemente com o diário Público) deixa-nos com a verdade de que a revista surpreende de cada vez que a ela se volta. Por aqui deixo uns sublinhados de Orpheu, pela ordem em que aparecem em dada um dos três números (a paginação da revista foi continuada de número para número, visando a organização em volume).

Eu – “Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.” (Mário de Sá-Carneiro. “7”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 14)
Eu – “Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes / Que um outro, só metade, quer passar / Em miragens de falsos horizontes / Um outro que eu não posso acorrentar…” (Mário de Sá-Carneiro. “Ângulo”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 15)
Tu – “Dentro da água dos teus olhos / minha alma treme como um lírio…” (Ronald de Carvalho. “Reflexos”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 25)
Mar – “Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 30)
Sentir – “Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!...” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 32)
Sonho – “O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas.” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 34)
Sonho – “Só vós sois feliz, porque acreditais no sonho…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 39)

Erro – “Eu fui alguém que se enganou / E achou mais belo ter errado…” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas sem suporte – Elegia”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 97)
Admiração – “Não admiramos o que a nós é estranho, sentindo então, o que já não admiramos?” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 117)
Ideal (em arte) – “O indefinido a que na arte nós aspiramos, essa ânsia de ideal que mais do que o ideal para nós vale, essa ânsia, esse desejo infinito e jamais satisfeito, deve encher a nossa vida que a mais alta expressão se tornará assim da arte pura!” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 119)
Arte – “Toda a obra de arte é a justificação de si própria.” (Nota da redacção sobre os poemas assinados por Violante de Cisneiros. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 122)
Vida – “A vida é só o Espaço / Que vai da própria Linha / À sombra dela num traço. // Quando a Morte for vizinha, / Fundidas no mesmo Espaço / Será tudo a mesma Linha.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 123)
Presente – “Só sensações são Presente, / Só nelas vive a Verdade.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 124)
Infância – “Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, / E ficar lá sempre, sempre cirança e sempre contente!” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 147)
Longe – “Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve – / Em parte nenhuma, graças a Deus.” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 149)
Eu – “Contemplo o meu destino em mim.” (Luís de Montalvor. “Narciso”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 156)

Vida – “Atapetemos a vida / Contra nós e contra o mundo.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Sete Canções de Declínio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 167).
Tempo – “Passar tempo é o meu fito, / Ideal que só me resta: / Pra mim não há melhor festa, / Nem mais nada acho bonito.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Cinco Horas”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 174).
Deus – “Olho o Tejo, e de tal arte / Que me esquece olhar olhando, / E súbito isto me bate / De encontro ao devaneando – / Que é ser rio, e correr? / O que é está-lo eu a ver? // Sinto de repente pouco, / Vácuo, o momento, o lugar. / Tudo de repente é oco – / Mesmo o meu estar a pensar. / Tudo – eu e o mundo em redor – / Fica mais que exterior. // Perde tudo o ser, ficar, / E do pensar se me some. / Fico sem poder ligar / Ser, ideia, alma de nome / a mim, à terra e aos céus… // E súbito encontro Deus.” (Fernando Pessoa. “Além Deus – Abismo”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 186).
Política – “E vós também, nojentos da Política / que explorais eleitos o Patriotismo! / Maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 200).
Jornalismo – “E vós também, pindéricos jornalistas / que fazeis cócegas e outras coisas / à opinião pública!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 201).
Portugal – “E ainda há quem faça propaganda disto: / a pátria onde Camões morreu de fome / e onde todos enchem a barriga de Camões!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Homem – “Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio / que Deus perdeu de vista o Adão de Barro / e com pena fez outro de bosta de boi / por lhe faltar o barro e a inspiração! / E enquanto este Adão dormia / os ratos roeram-lhe os miolos, / e das caganitas nasceu a Eva burguesa!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Vida – “Vivemos tão pouco / que ficamos sempre a meio caminho do Desejo.” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 205).
Natureza – “Ouve a Terra, escuta-A. / A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 209).
Sonho – “Os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos / Como outros quaisquer.” (C. Pacheco. “Para além doutro oceano”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 221).

domingo, 17 de maio de 2015

Caminhos da Memória - Rui Serodio, 78 anos


Rui Serodio faria hoje 78 anos. Conservo dele a imagem fina, aristocrática, artística, bem disposta, que sempre dele tive. Não lhe podendo dar os parabéns, tive de ouvi-lo. Aquela composição "Sounds of the mountain" é extraordinária. A Arrábida sentir-se-ia feliz. É toda uma peregrinação pela natureza e pelos sons. É uma obra genial. Foi assim que lembrei o Rui. Mais uma vez, obrigado.

sábado, 16 de maio de 2015

Caminhos da memória - Miguel de Castro



Passam hoje seis anos sobre a ida de Miguel de Castro, o poeta que na vida real tinha o nome de Jasmim Rodrigues da Silva. Fomos (somos) amigos. Da poesia, da conversa, da vida. Evoco-o pela amizade, pelos afectos comuns. E reproduzo um poema, "Carta a Sebastião da Gama", que teve a bondade de me dedicar em livro (Os Sonetos. Setúbal: Estuário Publicações, 2002, pg. 40). A vida é assim.

Para a agenda - Festa das Cruzes, em Alvarães



Acontece hoje e amanhã a Festa das Cruzes, em Alvarães (Viana do Castelo), uma das primeiras romarias alto-minhotas no calendário anual. Ponto alto é o desfile de andores, decorados com desenhos de temática religiosa ou local, coloridos com pétalas que, ao longo da semana, foram colocadas uma a uma, em trabalho colectivo em cada um dos lugares da freguesia. Além de poderem ser contemplados no desfile processional, o visitante pode ainda admirá-los em exposição que fica na igreja paroquial por alguns dias. A ver. Para a agenda!

Para a agenda - O Senhor do Bonfim em exposição



Está quase a acabar o tempo da exposição sobre o Senhor do Bonfim, patente na galeria da Casa da Baía, em Setúbal. É até 18 de Maio, mas merece o cuidado de uma visita. É o encontro com documentação fotográfica sobre a evolução do espaço e da dedicação e devoção que, em Setúbal, existe a esta imagem; é o registo de igual sentir da banda de lá do Atlântico, no Brasil, na Baía, para onde o capitão Teodósio Rodrigues de Faria levou a devoção em meados do século XVIII. Exposição modesta, mas feita com sentimento. A ver. Para a agenda deste fim de semana!

domingo, 10 de maio de 2015

"Que coisa são as nuvens", de José Tolentino Mendonça



Algumas crónicas (quase uma centena) de José Tolentino Mendonça que viram a luz no Expresso ao longo dos anos de 2013 e de 2014 estão agora ao alcance do leitor sob o título Que coisa são as nuvens (Lisboa: “Expresso”, 2015). Não é experiência nova do autor, uma vez que já em 2010 dera à estampa a colecção O Hipopótamo de Deus e outros textos (Lisboa: Assírio & Alvim), reunião de crónicas saídas nos “media”, entre os quais se contava também o semanário Expresso.
De crónicas não se pode esperar o que vá além de uma reflexão sobre algo do quotidiano; mas das crónicas se pode esperar tudo isso que é a reflexão, uma maneira de olhar o mundo, de o sentir, de nele reparar. O título da colectânea, vindo de uma filme de Pasolini (1967), alberga pensamentos que foram “uma iniciação, mesmo que imprevisível, à arte do espanto”; daí que o título do texto introdutório passe mesmo por essa virtude do olhar reforçada com o verbo “reparar”: “Para quem não tiver reparado”.
As crónicas de Tolentino Mendonça passam por esse espanto com as coisas do mundo e da vida, algo que nos surpreende e cativa, que se constrói sobre a estética, venha ela da escrita ou das outras artes, corra ela desde os sentimentos ou decorra dos acontecimentos, conflitue ela com as nossas  formas de vida ou abra-nos caminhos de descoberta.
Tanto é merecedor da crónica o bolo de bolacha como o bolo de arroz ou o chocolate, os prazeres experimentados como as descobertas, o sentido poético como as grandes obras. E o leitor vai saltando de Eugénio de Andrade para Ana Teresa Pereira, pensando sobre a morte ou sobre a poesia ou sobre os avós, entrando na pedagogia de Ruben Alves ou no fascínio de El Greco, convivendo com Van Gogh ou com José Saramago, ouvindo Rosenzweig ou Cesariny, pensando com Sophia ou com Simone Weil (dois dos nomes que emergem com mais frequência).
Estes pensares de Tolentino Mendonça vão ao encontro de formas de ser e de viver o mundo e a vida, congregando a espiritualidade inerente a cada gesto ou a cada momento, convidando a entradas por reflexões de outros, povoadas por citações exemplares do lido e do conhecido como se fossem ingrediente ou condimento. São textos curtos, que não vão além das duas páginas mas que nos deixam à porta das descobertas, no limiar do que é “reparar”, lá onde as nuvens mostram as suas diferenças e as suas consistências.
Uma boa iniciativa do Expresso, numa luta contra a efemeridade, em prol de momentos de encontro do leitor com o pensamento e com o mundo!

Sublinhados
Abraço – “Um abraço é uma hipótese de equilíbrio que a hospitalidade dos corpos é chamada a inventar. Qualquer abraço começará por ser uma coreografia instável. Se calhar, a primeira forma do abraço é só um agarrar-se para não cair. Pouco a pouco, o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou e surge como um lugar novo, um lugar que não existia no mundo e que juntos encontramos.”
Acabar – “O momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado, não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas condição irrecusável do próprio ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo. O inacabado liga-se, é verdade, com o vocabulário da vulnerabilidade, mas também com a experiência de reversibilidade e de reciprocidade.”
Amigo – “A banalização da palavra amigo produz uma incapacidade de compreender (e de viver) amizades verdadeiras.”
Arte – “Há três dimensões fundamentais (e esquecidas) na arte, companhia que importa recordar: a gratuidade, a aceitação e a capacidade de partilhar o silêncio.”
Casa – “As casas são uma máquina de habitar e desempenham um papel chave na construção da nossa experiência humana. Mas todas as casas falam, pela presença ou pela ausência, de outra coisa que está para lá delas. Falam disso que um humano é, matéria ao mesmo tempo sucinta e imensa, de fazer espanto. Falam do conhecimento que só é verdadeiro se alojar em si a consciência do que ignora hoje e ignorará até ao fim. Falam da luta pela sobrevivência, com a sua rudeza, a sua dor e tumulto, mas também da excedência que experimentamos, porque se a vida não transbordar não é vida. Falam da intimidade, aquém e além da pele. Falam do silêncio e da palavra, que umas vezes se contradizem e outras não. Falam do cumprido e do adiado, do sono e da vigília, do fraterno e do oposto, da ferida e do júbilo, da vida e da morte.”
Desgraça (íntima) – “A nossa cabeça de pessoas crescidas é complicada. Descobrimos que há um prazer em listar achaques e traições, e se a minha chaga puder ser maior do que a tua tanto melhor, isso reforça o meu estatuto. A verdade é que, se não tomarmos atenção, a desgraça íntima torna-se um escanzelado pódio onde nos blindamos.”
Dinheiro – “O dinheiro não se fica a orientar apenas o ordenamento material da vida comum, mas contamina indelevelmente a dimensão imaterial da vida, as suas aspirações mais profundas. (…) Quer dizer, passou a ser um poderio, pois actua por si mesmo, detendo uma autonomia que só conhece como lei a sua. O dinheiro só tem respeito pelo dinheiro: nas relações que estabelece, tudo se compra e se vende, e é nessa espécie de delírio totalitário que ele prefere viver.”
Futuro – “Embora nos pese toda a indefinição ou os maus prognósticos, conservamos em relação ao futuro uma expectativa que nunca é completamente fechada. Quem sabe? – insistimos nós.”
Lentidão – “A lentidão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário; escolhe mais vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.”
Passado – “O passado é, em grande medida, um tempo confortável, mesmo quando nos esmaga. Provoca-nos o alívio, (…) está num lugar certo, mesmo se nos espaventa de tão completamente errado.”
Presente – “Do presente, da pressão do presente, da sua irrefutável factualidade, desatamos facilmente a escapar.”
Reparar – “Reparar introuz-nos por si só numa lentidão, porque aquilo a que alude não é um observar qualquer: é um ver parado, um revisar porventura mais minucioso do que o mero relance; é uma visão segunda, uma nova oportunidade concedida não apenas ao objecto, nem sequer apenas ao olhar, mas à própria visibilidade. [Reparar] põe também em prática uma reparação, um processo de restauro, de resgate, de justiça. Como se a quantidade de meios-olhares e sobrevoos que dedicamos às coisas fosse lesivo dessa ética que permanece em expectativa no encontro com cada olhar. Por isso, de certa forma, só quando reparamos começamos a ver.”
Saber – “Reconhecer que ‘não se sabe’ pode trazer desconforto, mas traz também saúde interior e criatividade.”
Silêncio – “Aquilo a que chamamos silêncio só se torna real e efectivo através de um processo de despojamento interior, e de nenhuma outra maneira.”
Simplicidade – “Nada nos pede mais trabalho e arte do que a simplicidade.”
Vida – “A vida é completamente artesanal. Não é possível reproduzi-la em série, nem encontra-la feita noutro lado. A vida requer a paciência do oleiro, que, para fazer um vaso que o satisfaça, faz duzentos só a treinar o gosto, a habilidade, a testar a sua ideia.”
Vida – “Privamo-nos a nós próprios do tempo necessário para colher o sabor, o silêncio ou as cintilações que temperam a vida. No atropelo ofegante a que nos entregamos há um crescente alheamento de nós próprios. Não lhe damos o estatuto de patologia, mas esta desertificação da vida interior disfarçada de eficácia o que é senão isso? As nossas sociedades medem infelizmente o seu progresso esquecendo, quando não obliterando, domínios da vida humana que não são mensuráveis e que têm a ver com a interioridade, a criação, o dom, a alegria, o sentido.”