segunda-feira, 24 de junho de 2019

Bocage: Obra completa apresentada na Biblioteca Nacional



Entre 2004 e 2007, foram publicados cinco volumes da "Obra Completa" de Bocage pelas Edições Caixotim, num trabalho de organização levado a cabo por Daniel Pires. Contudo, por razões editoriais, o projecto da obra completa bocagiana não foi concluído e vários volumes ficaram por publicar.
A oportunidade de ler a obra completa de Bocage surge agora, também organizada por Daniel Pires, em trabalho publicado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, projecto que teve o apoio da Câmara Municipal de Setúbal.
A apresentação da obra, a cargo de António Carlos Cortez, vai acontecer em 27 de Junho, pelas 18h00, na Biblioteca Nacional de Portugal.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Frei Agostinho da Cruz na Arrábida: Os poemas do desassossego



Frei Agostinho da Cruz (1540-1619) está a ser tema de comemoração por passarem, em 2019, o quarto centenário da sua morte e, em 2020, os 480 anos do seu nascimento. Estando entre os poetas maiores da literatura portuguesa, a sua obra nunca mereceu um volume de conjunto durante a vida do poeta; só no século XVIII apareceria o repositório dos seus poemas. No século XX, foram os poemas de Agostinho da Cruz significativamente reunidos por Mendes dos Remédios (1918), Augusto Pires de Lima (1941), José Régio (1963) e António Gil Rafael (1994). Já mais recentemente, houve uma seleção de textos seus publicados com um prólogo de Dalila Pereira da Costa (Poemas da Montanha. Vila Viçosa: Serra d'Ossa Edições, 2010) e, no âmbito das celebrações que estão a decorrer, o poeta Ruy Ventura organizou uma Antologia Poética (Évora: Editora Licorne, 2019).

Quando, em 1771, são publicadas as Várias Poesias do Venerável Padre Frei Agostinho da Cruz (Lisboa: Oficina de Miguel Rodrigues), já tinham passado 150 anos sobre a morte do seu autor, que escolhera a Arrábida para passar os derradeiros anos da sua vida. Esta obra vem acompanhada do texto “Vida do Venerável Padre Fr. Agostinho da Cruz”, assinado por José Caietano de Mesquita (“professor de Retórica e Lógica do Colégio Real dos Nobres”), biografia pormenorizada que demonstra a adesão do autor ao espírito do biografado.
Relata Mesquita que Agostinho da Cruz não conseguiu a mudança de Sintra para a Arrábida com facilidade. Homem nada dado a títulos ou a cargos, apenas aos 65 anos aceitou ser guardião do convento de S. José de Ribamar, a instâncias do Provincial franciscano, explicando Mesquita que esta aceitação ocorreu porque o frade “assentou que por este meio facilitaria um despacho, que já de tanto tempo intentava, e era que se lhe desse licença para se retirar à serra da Arrábida, a viver solitário e apartado de toda a comunidade dos homens, de quem achava que nada devia esperar para si.”
A transferência não foi fácil, mas, ainda em 1605, no dia de S. José, Frei Agostinho, depois de renunciar à guardiania (cargo que ocupou por escasso tempo), conseguia a concordância superior. E comenta Mesquita: “Não cabia em si de júbilo Fr. Agostinho por ter alcançado esta felicidade por que tanto suspirava: na sua alma louvava infinitas vezes ao Senhor, dava-lhe repetidas graças de o chegar a tempo, em que só para ele e com ele havia de viver”.
A vida na Arrábida foi de recolhimento nos 14 anos que ali passou (ainda que com alguma curta interrupção), vivendo sozinho numa cela, fora da cerca do convento. Mesquita recorda que “foi visto muitas vezes derramar copiosas lágrimas, outras estar elevado e fora de si, sem dar tino de nada exterior e terreno”, em vida de oração e contemplação, associando-o aos antigos padres do deserto. Esta opção de Frei Agostinho continuou a não ser pacífica, sobretudo para os seus confrades que viviam no convento e discordavam da vida eremítica, mas a sua escolha e prática mantiveram-se inabaláveis.
Em 14 de Março de 1619, Agostinho morria na enfermaria que existia em Setúbal, com fama de santidade - “Espalhando-se pela vila a notícia da morte do servo de Deus, logo pela manhã acudiu à enfermaria grande número de pessoas não só a venerá-lo, mas a cortar-lhe pedaços do hábito, que guardavam como relíquias preciosas com que remediar os seus perigos e moléstias; e chegou nesta parte a tanto o excesso da devoção que foi necessário vestir ao santo cadáver novo hábito para decentemente se poder levar à sepultura”, narra Mesquita.
O relato assinado por Caietano de Mesquita quase decalca o perfil biográfico que, cerca de quatro décadas antes, de Frei Agostinho da Cruz fizera Frei António da Piedade na obra Espelho de Penitentes e Crónica da Província de Santa Maria da Arrábida (Lisboa: Oficina de José António da Silva, 1728-1737) ao longo de três capítulos que incluíram também uma mostra da poesia do frade franciscano (quatro sonetos, duas elegias e glosa a um mote). Relativamente à vida isolada de Agostinho da Cruz, refere Piedade: “Seguindo este varão apostólico as pisadas dos antigos Padres do Ermo, fechava as portas à sugestão dos pensamentos vãos, estando sempre ocupado.” Essas ocupações são mencionadas umas linhas adiante: “Por fugir pois a toda a ruína, que lhe podia maquinar o ócio, se a ele se entregasse, no tempo que lhe restava das suas obrigações e devotos exercícios, se divertia em fazer bordões que dava aos frades e oferecia aos Duques e Duquesas, quando o visitavam. Também pela inclinação que tinha à Poesia, compunha a vários assuntos espirituais muitos sonetos e outras variedades de versos.”
Pelos poemas de Agostinho da Cruz passa o seu desassossego. Não configurando um registo diário, ressalta, contudo, dos seus poemas terem eles sido escritos ao ritmo da vida, dos problemas, das reflexões, da oração. Bem terá ele dito na hora da morte, em jeito de recomendação, segundo Frei António da Piedade: “Não deixo contudo de lembrar aos mortais as angústias desta hora e lhes peço não guardem para ela o ajuste das suas contas, porque se expõem a perigo de as errarem pelo desassossego que padece a alma.” Vítor Aguiar e Silva, nessa obra incontornável que é Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa (Coimbra: Centro de Estudos Românicos, 1971), bem considera que, na produção literária de Frei Agostinho da Cruz (como na de Camões, Diogo Bernardes ou Vasco Mouzinho de Quevedo), surge “uma poesia reflexiva, de análise psicológica ou de substância moral, dilacerada por dúvidas, congeminações e conflitos íntimos, que contrasta com a poesia sensorial, grandiloquente, teatral e patética, de teor descritivo e narrativo, que surge com frequência nos autores barrocos”...
Desprezando a vida palaciana, apesar de ter uma amizade forte com nobres, Agostinho exarou numa elegia a razão que o aproximava da Arrábida que o acolhera, aí deixando também, em jeito de testamento, o registo da sua derradeira vontade: “Agora, que de todo despedido / nesta Serra d’Arrábida me vejo, / de tudo quanto mal tinha entendido. // Com mais quietação livre me desejo / nela eu próprio cavar a sepultura, / que não junto do Lima, nem do Tejo. // Aqui, com mais suave compostura, / menos contradição, mais clara vista, / verei o Criador na criatura.” A ideia de para sempre permanecer na serra é retomada no final do poema: “Oh Serra das Estrelas tão vizinha, / quem nunca de ti, Serra, se apartara, / ou quando se partira esta alma minha / da terra, nesta tua me enterrara!” Ainda neste poema, a questão do desassossego sentido pontua num terceto: “Discorrendo dum noutro fundamento, / uma vez me perturbo, outra me indigno, / outra de mágoa pura arrebento.”
A Arrábida, em Frei Agostinho da Cruz, é um encontro último, final, que permite a união com o sagrado, num gesto de absoluta comunhão com o Criador, razão por que nunca desistiu de ver a serra como o seu refúgio, a única via que lhe permitiria chegar às estrelas.
Tão intensa ligação à Arrábida transformaria Frei Agostinho da Cruz no iniciador da tradição literária que tem tomado esta serra como motivo, num percurso que se estende até à actualidade, destacando-se, obviamente, mesmo por razões de proximidade e inserção geográfica, o nome de Sebastião da Gama (1924-1952), que não hesitou em convocar Agostinho da Cruz para os seus poemas em diversas ocasiões, como não duvidou sobre a necessidade de personificar a “serra-mãe”, trazendo-a para tema maior da sua produção poética. A Arrábida afigura-se, assim, como bem disse Teixeira de Pascoaes em conversa com o poeta azeitonense (Jornal do Barreiro: 11.Outubro.1951), como algo de essencial - “A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.” E, quanto a Frei Agostinho, responde Sebastião da Gama: “Esse adivinhou-lhe a essência, que foi como quem diz aos vindouros: Cantem agora. (Ele tinha tanto que falar de si mesmo, tanta amargura, tanta luta a contar!...)”
A Arrábida pinta(va)-se, pois, com as cores do desassossego, tornando-o questão essencial para a existência humana e para o sentir do(s) poeta(s)...

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Viriato Soromenho-Marques: Pensar a Europa



A Europa tem sido objecto de reflexão para Viriato Soromenho-Marques desde sempre: quer pelo seu significado cultural e espaço de pensamento, quer pela sua geomorfologia histórica e política. A sua bibliografia sobre a questão europeia é vasta e podem recordar-se, a título de exemplo, obras como Europa: O risco do futuro (1985), Europa - Labirinto ou casa comum (1993), Portugal na queda da Europa (2014) ou Cidadania e construção europeia (2005), obra que coordenou.
A obra de 1993 referida contém um início nada calmo: “Há uma crise que percorre a Europa. Uma crise mais vasta e profunda que a da Comunidade Europeia, que vê os seus alicerces e metas tremerem. Mais sob as vagas da tempestade da especulação bolsista, temos de o confessar, que perante a prolongada comoção de uma guerra balcânica. (...) A presente crise europeia é mais vasta e profunda que a da Comunidade Europeia. Ela obriga-nos a repensar o significado da identidade plural do Velho continente. A avaliar as possibilidades de tantos Estados, Povos e Nações partilharem algumas das tarefas de um destino, quer o queiramos quer não, cada vez mais comum.” Na obra publicada em 2005, Soromenho-Marques insistia: “Numa altura em que tudo parece estar em causa no sistema internacional, desde a questão do terrorismo ao papel das Nações Unidas, passando pela crise global do ambiente, a hesitação no comércio mundial entre portas escancaradas e retorno ao proteccionismo, e a situação de declínio crítico que afecta a política externa dos Estados Unidos, a Europa precisa de vencer as visões paroquiais, olhando para o futuro com ambição e generosidade.”
Cinco anos volvidos sobre Portugal na queda da Europa, novo livro de Viriato Soromenho-Marques surge a questionar sobre o Velho Continente: Depois da queda - A União Europeia dentre o reerguer e a fragmentação (Lisboa: Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2019), um conjunto de cinco ensaios, acompanhados de uma introdução e de uma conclusão, obra que, apesar de ter saído uns tempos antes das eleições para o Parlamento Europeu, não suscitou a discussão, porque também a Europa e o seu futuro foram temas que não saltaram para o debate durante toda a campanha.
A abertura deste Depois da queda não deixa o leitor em segurança: “A Europa em 2019 - entendida como o projecto de integração europeia de que resultou a actual União Europeia - já se encontra tombada sobre terra, impossibilitada de se reerguer se as políticas e as instituições que a conduziram até ao chão se mantiverem sem mudanças profundas.” Para o cidadão, os sinais de inquietação são muitos: o distanciamento económico entre países, as desigualdades em cada país, o ignorar princípios básicos da democracia representativa, a chegada ao poder de forças populistas, as disparidades de pensamento (e de acção) quanto aos migrantes e refugiados, a apatia europeia quanto às tomadas de posição relativas à Europa por parte da China, dos Estados Unidos ou da Rússia. Estas seis evidências, acrescidas do “Brexit” e do papel que os “coletes amarelos” têm tido no protesto social, são listadas por Soromenho-Marques e podem constituir o pretexto para o desenvolvimento do seu estudo.
A construção do sistema do euro acutilantemente chamada para a responsabilidade do actual estado, a refundação da zona euro tornada uma emergência, os cidadãos europeus tratados de maneira diferente depois de ter sido “encorajado o processo de declínio dos direitos sociais e económicos” que lhes eram devidos - eis as três linhas dominantes no pensamento desta obra, que surge recheada de elementos trazidos da estatística, dos estudos, dos factos da história recente (e menos recente) da Europa.
O percurso económico da Alemanha pós-1945 e o peso deste país na ideia do euro, a (des)regulação bancária e “um sistema financeiro hiperbólico e labiríntico”, a “crise da dívida soberana” e os interesses nacionais individualistas, constituem o conjunto que dá corpo aos ensaios, cujo final se apresenta com um título em que se confrontam as possibilidades e a insegurança - “Sete certezas na incerteza do futuro europeu”.
Quais são as certezas? Primeira: “a União Europeia só se reerguerá através de uma reforma profunda da zona euro, que a coloque ao serviço de um projecto europeu onde as leis de mercado não devorem o interesse maior da segurança pessoal e da justiça social”. Segunda: “não existe saída ordenada nem dissolução negociável da zona euro”, porque “as regras do euro foram feitas de tal modo que não existe caminho razoável para regressar à situação anterior a Maastricht”. Terceira: “a actual ordem da agonia lenta do euro não será duradoura nem sustentável”. Quarta: “responsabilidade alemã em desbloquear as negociações para a única via possível para impedir a fragmentação europeia: a reforma profunda da sona euro.” Quinta: a divergência entre a manifestação dos cidadãos através da democracia e o espaço “blindado à intervenção dos cidadãos” onde se decide com “consequências materiais efectivas”. Sexta: “nenhum país europeu está em condições de enfrentar melhor sozinho, do que no quadro de uma União Europeia refundada, todos os gigantescos desafios existenciais” da actualidade (ambiente, trabalho, inteligência artificial, segurança militar e direitos humanos incluídos). Sétima: “uma política europeia deve estar ao serviço da protecção e do respeito das diferenças e das distâncias que é preciso salvaguardar e não colocar-se sob as ordens daqueles que querem ‘normalizar’ e terraplanar o que é diverso, e diverso deverá permanecer”.
O contributo da Europa para a paz é um valor em que se acredita, mas também não se pode esquecer que a primeira metade do século XX trouxe à Europa, por responsabilidade dos europeus, uma outra “guerra dos 30 anos”, entre 1914 e 1945, tempo em que a guerra nunca esteve adormecida, tempo em que a conflitualidade se aproveitou da insegurança dos povos.
Forçoso será acreditar que a Europa há de encontrar uma solução. Contudo, a espera não pode conduzir à eternidade. Na base das melhorias ou dos aperfeiçoamentos, estará um princípio que tem de orientar os europeus e os seus decisores, defendido por Viriato Soromenho-Marques quase no fecho do livro: “A política de que os europeus necessitam não é a que promova o amor mútuo, mas sim a que fortaleça o respeito mútuo.”
Esta obra, sem incursões difíceis de entender, é para ser lida. Obviamente por quem se liga à política nacional e europeia. Mas, não menos obviamente, também pelo cidadão português e europeu. Para que sejamos críticos, para que tenhamos argumentos, para que pensemos também na nossa condição de europeus. Talvez este questionar europeu nos torne mais amigos e mais cidadãos da Europa...

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Visitar o Calafate (António Maria Eusébio) em Setúbal


António Maria Eusébio (1819-1911) foi cidadão setubalense, teve muitas profissões (em que se destacou a de calafate) e foi poeta (que Guerra Junqueiro elogiou), área em que ao seu nome foi associada a profissão, sendo conhecido como António Maria Eusébio, o Calafate, além de também ter sido reconhecido como "Cantador de Setúbal".
No ano em que passa o 2º centenário do seu nascimento, do conjunto de iniciativas que Setúbal está a levar a cabo, destaca-se a exposição bio-bibliográfica que amanhã vai ser inaugurada no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS, na Av. Luísa Todi), com inauguração anunciada para as 18h00.
Parceiros desta realização são o MAEDS, a Câmara Municipal de Setúbal, o Rotary Club de Setúbal e a LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão).
Estão convidados.


Evocar Sebastião da Gama 12 - A Serra-Mãe de Sebastião da Gama


A Arrábida, que Sebastião da Gama baptizou como "Serra-Mãe", na sua relação com o poeta é o tema da crónica que ontem saiu no quinzenário Setúbal Mais (dirigido por Florindo Cardoso) e que aqui partilho.
O mesmo texto foi publicado na edição deste mês do Jornal de Azeitão, mensário que, durante um ano, aceitou a minha colaboração, que agora finda "por motivos editoriais". Aos leitores e ao director do JA, um agradecimento pela atenção que dispensaram.


sábado, 1 de junho de 2019

"O que muitos andaram para aqui chegarmos." - Andanças de exílio para conquistar o horizonte



Deixem-me começar por uma quadra de Daniel Filipe, do seu livro Pátria, Lugar de Exílio (1963): “Pátria, mas terra agreste; / terra, apesar da morte. / Pátria sem medo a leste. / Lugar de exílio a norte.” Esta quadra não entrou no arranjo musical que deste poema fez Luís Cília em 1973, no disco “Contra a ideia da violência”, mas bem podia ter entrado!
Se trago estes dois nomes para começar a falar do livro que para aqui nos convocou - O que muitos andaram para aqui chegarmos (Bruxelas: Poemar, 2019) -, tal deve-se ao facto de Daniel Filipe ser um bom poeta do exílio e ter sido perseguido pela polícia política, como vários dos participantes na obra de que hoje falamos, e ao facto de Luís Cília (que foi incentivado a musicar poetas pelo próprio Daniel Filipe) ter sido uma referência para muitos exilados portugueses, designada e assumidamente para um dos participantes nesta antologia testemunhal, Manuel Jorge Gonçalves, que o conheceu em Paris.
Mas há ainda uma outra razão para terem sido estes versos de Daniel Filipe os escolhidos: é que eles condensam muito do que sobre o exílio se possa dizer em termos de expressão literária - o exilado tem de dar corpo à contradição, vivendo a ausência e assumindo esse estar fora com dor (“Pátria, mas terra agreste” é verso que reúne esse estar preso e estar distante em simultâneo, um paradoxo da existência que vai muito para lá da geografia); o exilado procura a utopia para se salvar (“lugar de exílio a norte” é o verso que bem explica o conforto que Maria Augusta Seixas vai encontrar em Bruxelas, a que chama a “casa dos desertores”, abrigo e porto seguro, ou o paraíso que o já citado Manuel Jorge Gonçalves vai descobrir no país que o acolhe, quando exclama: “Bélgica, terra de liberdade, tão mais progressista e evoluída!”). 
Estão assim projectadas duas linhas de leitura que determinam este livro: por um lado, o registo testemunhal do exílio, vivido e sentido, como experiência dos limites e como risco indispensável para dar corpo à existência; por outro lado, a Bélgica e Bruxelas como unidade de espaço, varanda de ver o mundo e desejar o futuro, comum a todos os intervenientes nesta obra.
O livro conta com dez testemunhos e uma justificação, constando esta no capítulo que encerra o volume, em cujo título se questiona Maria Manuel Gandra: “E as mulheres?” Com efeito, das dez colaborações apenas uma é assinada por uma mulher, Maria Augusta Seixas; contudo, tem razão Maria Manuel Gandra quando refere que elas estão “na sombra, discretas e seguras figuras de segundo plano”, apesar de esse “segundo plano” não estar isento de heroísmo, de luta, de dor, de sonho, afinal os mesmos ingredientes que fizeram mover os homens que por aqui passam - é que praticamente todos os textos são povoados pela figura feminina, independentemente de ser a namorada ou a mãe, a companheira ou a protectora dos refugiados, a mulher humilhada por um agente da PIDE ou aquela que é trazida a Portugal e acaba por se deixar adoptar também pela pátria de exílio do companheiro.
Bruxelas foi encarada como “porto seguro” por todos estes “pássaros de arribação” (metáfora que é usada no curto texto introdutório) depois de um voo rasteiro, demasiado rasteiro para não dar nas vistas, com passaporte falso, sob a protecção das sombras da noite, num itinerário “a salto”, calcorreando estradas de fronteira e Pirenéus, vivendo a insegurança e o medo, tudo numa “rocambolesca viagem para o exílio”, como a classificou Carlos Marum.
No horizonte que ficava para trás, estava a polícia política, estava a guerra colonial iminente e impositiva no trajecto de cada um, estava a militância política e obrigatoriamente clandestina. No horizonte que ficava para trás, estava também um tempo em que, como refere José de Matos, “desconfiança era a palavra que filtrava tudo o que ouvia”. Tão intensa era essa treva do receio de dizer e de pensar que Vítor Ascensão reconhece que, mesmo fora de Portugal, “durante muito tempo, viveu com os pesadelos de medo, de insegurança e fragilidade” e “o sentimento de que qualquer coisa [pudesse]acontecer acompanh[ava]-o”.
A insegurança vestia, muitas vezes, a roupagem da ilusão, obrigando estes actores a um regime de atenção e de cuidado, sobretudo na percepção do perigo, como aconteceu com José Matias, quando lhe apareceu uma personagem a querer formar um grupo para uma invasão na ilha da Madeira, criatura que não era outra coisa senão um informador, um “bufo”, que pretendia chegar ao topo da organização política de oposição com que Matias simpatizava.
No trajecto até Bruxelas, havia a França, com paragem em Paris por tempo variável. Era a oportunidade para encontros com outros exilados, para um olhar já mais higiénico sobre o mundo - recorda José de Matos que entrar em França “foi lavar as roupas bolorentas dos regimes fascistas de Portugal e Espanha”. As ruas de Paris foram também o espaço que permitiu a alguns participarem no Maio de 1968, como foi o caso de José Coelho, que sentiu o fascínio de “ver a liberdade com que aqueles milhares de pessoas se manifestavam a reivindicar uma mudança de um sistema autoritário vigente para um sistema com maiores liberdades.”
Contudo, o apelo mais forte vinha de Bruxelas, ali onde lhes era possível deixarem a clandestinidade e reapropriarem-se da identidade, através do estatuto de refugiado político atribuído pela ONU. A cidade era, além disso, o novo mundo, terra de abundância e de trabalho, de liberdade, onde, depois da fuga de um “país triste, acabrunhado, onde o lindo céu azul de Lisboa parecia cinzento” e “podia desabar na cabeça a todo o momento”, como evoca Maria Augusta Seixas, valia a pena o trabalho (muitas vezes, de sobrevivência), o esforço, numa capacidade de adaptação e de mudança impressionantes, alicerçadas na convicção e na esperança.
Os textos até aqui citados caracterizam-se sobretudo pela marca da memória e do testemunho, num contar da experiência pessoal, vários deles redigidos por outro que não o protagonista do que é contado e um deles sob a forma de entrevista. Ressalta em todos um balanço positivo do percurso feito e a passagem do testemunho à escrita afigura-se como uma forma de reencontro ou de aproximação ou de partilha, como descobre Carlos Melro no final da sua prestação: “Acabei por dizer coisas em que nunca tinha pensado, contei histórias que nunca tinha contado, mas tudo saiu espontaneamente.”
Restam ainda por referir dois textos, o de Diogo Pires Aurélio e o de Fernando Gandra. Não porque o percurso até Bruxelas tenha sido diferente ou porque as dificuldades tenham sido menores, mas porque, na sua concepção, estes dois textos ultrapassam o registo do testemunho e deixam-se impregnar pela literatura.
Diogo Pires Aurélio, ao puxar “Vocabulário do exílio” para título, abre o caminho da liberdade da semântica, selecionando palavras, expressões, acrónimos e datas como “a salto”, “carta”, “clandestino”, “comboio”, “esquemas”, “guerra”, “nevoeiro”, “noite”, “ONU”, “STIB” e “25 de Abril de 1974” para, a propósito de cada uma das entradas, contar a sua história. Cada uma delas adquire um novo significado para lá da marca denotativa que o dicionário lhe confere, da mesma maneira que o narrador, por vezes, é independente da personagem sobre quem conta, um tal D., que se percebe ter sido um empréstimo do autor ou que narrador e personagem se mesclam, como se num vaivém entre os arquivos da memória e os acontecimentos tornados presente. Por estas onze secções passam os momentos de glória e de medo e as pequenas histórias que carregam a marca do desespero do momento; passa ainda a reflexão, em termos muito pragmáticos e em tom de resposta antecipada às conjecturas do leitor, para ajudar a entender atitudes que só existiram por causa das circunstâncias, por causa do sofrido.
“Porque não há vento?” é a questão trazida para título por Fernando Gandra, num texto de metáfora forte, enveredando por uma escrita poética, de imagens intensas, em que o leitor é logo desafiado a observar a gare de Austerlitz, onde passam “milhares de portugueses numa aflição calada” ou, depois, levado até Bruxelas, onde “a saudade é uma lâmina sangrenta que nada pode contra a inflamação do longe”. Mas o texto rapidamente adquire um tom épico ao enumerar as razões que os candidatos ao estatuto de refugiado político apresentavam, chamando as razões de um colectivo, que vão configurando também o retrato da alma de um país (se é que ela não estava também em fuga!): “fugimos do Cais de Alcântara e dos seus lenços de adeus até ao meu regresso que era os mesmos que acenavam na Cova da Iria altar do mundo (...) / fugimos da naftalina e do quanto mais me bates mais tenho ciúmes e anda encosta o teu peito ao meu / (...) / fugimos dos raciocínios do contumaz almirante Américo que sofria de microcefalia (...)”, etc. No total, dezoito recorrências anafóricas, todas pintando um país que fora abandonado e era satirizado em cada um dos motivos apresentados.
Numa segunda parte, o texto de Fernando Gandra aproxima-se da escrita biográfica, traçando o seu perfil na terceira pessoa e concluindo com a afirmação da identidade da actualidade: “Anos depois, cansado da bruma, optou pelo sol e dedicou-se exclusivamente à escrita, a sua vocação de sempre.” Um terminar que justifica o rasgo literário posto neste texto de memórias!
Mas até onde se projectava o horizonte de todos estes intervenientes e autores e actores dos seus percursos? Esse horizonte, que a utopia prometia e que a luta pela vida caldeou, foi comum a todos eles, cristalizado numa data repleta de promessas e de esperança: o 25 de Abril de 1974. Fernando Gandra refere que esse dia fez com que tivesse “terminado o Portugal teologal”; José de Matos não consegue descrever o que sentiu, apenas “uma alegria, uma coisa grande”; outros revelam que acreditaram com reservas; outros viveram o dia normal de trabalho, porque tinha de ser e talvez porque fosse preciso ver... Mas aquela quinta-feira acabou por tocar todos, uns com a ânsia de regressarem, outros observando a distância, uns a querem descobrir a diferença possível relativamente àquilo que tinham deixado, outros a assumirem a continuidade em Bruxelas... no entanto, sempre com a ideia de que o horizonte tinha sido conquistado.
Enfim, O que muitos andaram para aqui chegarmos. é um repositório intenso de emoções e de humanidade, um bom retrato do exílio na literatura, um contributo para mapear as distâncias entre o país triste que foi abandonado e o país reencontrado. Vale por isso este livro, mas vale ainda, e sobretudo, para percebermos que o “aqui” que se afirma no título é o sinónimo do “hoje” e do nosso estado, possível pelo que outros, muitos, andaram e lutaram, registo que a memória deve ajudar a ser incorporado na nossa identidade para que o presente valha sempre a pena, não apenas porque estamos cá, mas porque ele foi construído também por aquilo que muitos andaram.

(Na apresentação do livro, em 30 de Maio de 2019, na Fundação José Saramago, em Lisboa)

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Contar o exílio em "O que muitos andaram para aqui chegarmos"


O que muitos andaram para aqui chegarmos (ed. Poemar) é um livro colectivo em que se testemunha o exílio, a vida de recusa de injustiças impostas como a guerra colonial ou a prisão pela PIDE; em que se partilha a experiência dos riscos, dos medos, das solidões; em que se inventaria o tempo desse sofrimento. São dez autores, todos eles tendo sido exilados: Fernando Gandra, José de Matos, Vítor Ascensão, Carlos Melro, José Matias, Maria Augusta Seixas, Diogo Pires Aurélio, Carlos Marum, Manuel Jorge Gonçalves e José Coelho. Em comum, têm o facto de terem desaguado em Bruxelas, o espaço que lhes abria a sua utopia.
A apresentação será na Casa dos Bicos (Fundação José Saramago), em 30 de Maio, pelas 18h30.
Convidados.


Frei Agostinho da Cruz lido por Fr. Hermínio de Araújo, em Setúbal


Frei Agostinho da Cruz vai ser tema de palestra em Setúbal em 31 de Maio, pelas 21h30, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.
Frei Hermínio de Araújo, franciscano, falará sobre "Frei Agostinho da Cruz, o Poeta Eremita da Arrábida", uma iniciativa da Comunidade Franciscana de Nossa Senhora dos Anjos, em parceria com a Casa da Poesia de Setúbal, o grupo e-Vox e a LASA.
Convidados.


Frei Agostinho da Cruz no Barreiro


Quando passa o 4º Centenário da morte de Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), o Barreiro vai receber a apresentação da sua Antologia Poética, organizada pelo poeta Ruy Ventura (Évora: Licorne, 2019), numa sessão em que também se ouvirá a voz de Teresa Salgueiro.
Marque na agenda: 14 de Junho, às 21h30, no Convento da Madre de Deus da Verderena, numa iniciativa organizada em parceria pela Comissão IV Centenário da Morte de Frei Agostinho da Cruz e pelas Paróquias do Barreiro-Moita, com a colaboração da Câmara Municipal do Barreiro.
Convidados! 


domingo, 12 de maio de 2019

Evocar Sebastião da Gama 11 - Estala de amor o coração


Maio está ligado à biografia de Sebastião da Gama pelo casamento que, no dia 4 deste mês de 1951, o poeta celebrou com Joana Luísa, no convento da Arrábida. Foi esse o tema que escolhi para a crónica "Evocar Sebastião da Gama" publicada no Jornal de Azeitão (nº 272, Maio de 2019, pg. 11).