quarta-feira, 14 de agosto de 2019

"O Mundo de Ontem": O testamento-testemunho de Stefan Zweig



Em 1938, Stefan Zweig (1881-1942) perdia a nacionalidade austríaca e, no ano seguinte, instalava-se em Bath, tendo conseguido obter nacionalidade britânica em 1940. Nesse final de década, começava a redacção da obra O Mundo de Ontem - Recordações de um Europeu, obra que continuaria no Brasil, em Petrópolis, onde se instalaria, ainda em 1940, depois de uma estadia nos Estados Unidos. No Brasil, publicaria uma obra sobre o seu sentimento por aquele país, intitulada Brasil, Terra de Futuro (1941), que não teve a melhor recepção. Em Fevereiro de 1942, Zweig e Lotte Altmann, segunda esposa, suicidavam-se na terra brasileira que tinham escolhido para viver. O Mundo de Ontem entraria para o catálogo das obras póstumas, apenas tendo tido edição em 1944, em Estocolmo, através do editor Bermann-Fischer. Dois anos depois, a obra foi editada em Portugal (Porto: Civilização), tendo tido quatro edições até 1970; em 2005, a edição portuguesa apareceu sob a responsabilidade da Assírio & Alvim (com reedição em 2014) e, em 2017, passou a coexistir na editora Alêtheia; em 2016, foi realizado por Maria Shrader o filme Stefan Zweig - Adeus, Europa (com Josef Hader a desempenhar o papel do escritor), grandemente inspirado nesta obra memorialística.
Praticar o memorialismo implica recorrer à memória e a fontes documentais que apoiem a memória. Ora, logo no prefácio a esta obra, Zweig dá conta de que escreve este texto apenas com recurso às suas próprias recordações: “Escrevo-as em plena guerra, escrevo-as no estrangeiro e sem o menor auxílio de memória. Não disponho, no meu quarto de hotel, de nenhum exemplar dos meus livros, de nenhumas anotações, de nenhumas cartas de amigos. (...) Não tenho comigo nada do meu passado, a não ser o que guardei por trás da testa.” Se, no início, refere não se atribuir a si próprio uma tal importância que justifique o contar a sua história de vida, uns parágrafos adiante explicará o porquê desta exposição: “Fui à força testemunha indefesa, impotente, do inimaginável retrocesso da humanidade a uma barbárie que há muito se pensava esquecida com o seu dogma consciente e programático de anti-humanismo. (...) Penso ser minha obrigação testemunhar esta nossa vida tensa, dramaticamente surpreendente, pois cada um de nós foi testemunha destas gigantescas transformações, cada um de nós foi obrigado a sê-lo.”
Austríaco e judeu, oriundo de uma família da alta burguesia, liberal, Zweig passou por uma vida de liberdade, confrontou-se com duas guerras mundiais, conheceu a celebridade, sentiu os efeitos do nazismo e viveu na opressão. O Mundo de Ontem dá conta desse trajecto, falando-nos de uma infância e juventude felizes (visível na metáfora do título do capítulo “O mundo da segurança”) na sociedade vienense; relatando os múltiplos contactos culturais que se cruzaram na sua vida, com escritores, músicos, pintores, editores; descrevendo formas de viver, que passam por hábitos, moda, identidades; revelando as descobertas de uma vida, fosse na progressão dos estudos e das ideias, fosse no conhecimento das cidades e do mundo; mostrando a sua evolução nas ideias em favor do pacifismo, pelo menos desde 1915.
Os dois momentos que mais marcam Zweig são os confrontos bélicos europeus por que passou. Em 1914, a Primeira Grande Guerra mobilizou Zweig, por razões de saúde, para um arquivo militar, que produzia e recolhia informação sobre a guerra. Contudo, este momento histórico levou-o também a questionar-se e, vinte e sete anos depois, quando redigia esta obra, escrevia: “Se hoje, reflectindo com toda a calma, perguntarmos por que motivo a Europa entrou na guerra em 1914, não encontramos uma única razão plausível e nem sequer um pretexto. Não estavam em jogo ideias, mal estavam em jogo as pequenas regiões fronteiriças; não encontro outra explicação que não seja o excesso de energia, consequência trágica daquele dinamismo interno que se tinha vindo a acumular ao longo desses quarenta anos de paz e que queria agora libertar-se com toda a violência. Cada Estado adquirira subitamente uma sensação de força e esquecera-se de que o outro sentia exactamente o mesmo; cada um queria ainda mais e cada um queria tirar partido do outro. E o pior é que foi justamente o sentimento que mais prezávamos - o nosso optimismo colectivo - que nos enganou. Pois cada um pensava que o outro recuaria no último minuto, assustado.”
Se estas observações têm o peso da idade e do tempo, elas também servem para mostrar o quão hedionda foi a entrada na Segunda Grande Guerra - relembra Zweig que a primeira teve o envolvimento da população, ainda que com recurso a um sentir idealista: “uma rápida excursão romântica, uma aventura impetuosa e viril, era assim que a imaginação do homem simples de 1914 pintava a guerra, e os mais novos receavam sinceramente poder perder a oportunidade de viver algo de maravilhosamente excitante”. Contudo, tendo o primeiro conflito trazido o sofrimento e as agruras que são sabidos, Zweig confronta-se com o inacreditável da guerra seguinte: “a geração de 1939 conhecia a guerra. Já não tinha ilusões. Sabia que não era romântica, mas sim bárbara. Sabia que iria durar anos e anos, um período de vida irrecuperável.” Os objectivos e as razões das duas guerras seriam, assim, diferentes.
Como escritor, Zweig acreditava que, no início do primeiro conflito, as pessoas ainda confiavam no “poder da palavra”, ao passo que, depois, a palavra foi “cavalgada até à morte pela mentira organizada”, algo que lhe serve para explicar a participação dos poetas nos textos sobre a guerra de 14 ou o seu silêncio na segunda guerra, pelo menos até ao momento de escrita desta obra. Este sentimento entranha-se em Zweig logo em 1915, quando foi destacado para ir à Galícia em busca de manifestos, proclamações e editais russos, aí se tendo deparado “com os verdadeiros horrores da guerra”, que ultrapassavam os seus “piores receios”. Foi essa acção que o levou a escrever a peça teatral Jeremias, construída em nove quadros, publicada em Leipzig em Julho de 1917 e representada, ainda que numa versão reduzida a cinco quadros, em Fevereiro de 1918, em Zurique (a obra teve edição portuguesa em 1942, na editora Civilização, tendo chegado à sétima edição em 1978), dando protagonismo ao profeta Jeremias como pregador em defesa da paz.
O tom pacifista sempre o orientou a partir daí, começando a impor-se-lhe a ideia de uma “união espiritual da Europa”, travada em 1933, quando “um determinado homem” veio “destruir o nosso mundo”, o novo chanceler. Refere-se, obviamente, a Hitler, “o nome do indivíduo que fez desabar sobre o nosso mundo uma tragédia maior do que qualquer outra em qualquer outra época”.
Para Zweig, estavam chegados momentos de agonia e de desilusão. “Muitas vezes, nos meus devaneios de cosmopolita, imaginei secretamente como devia ser maravilhoso, e tão em consonância com a minha mais profunda maneira de sentir, não ter nacionalidade, não ter obrigações em relação a nenhum país e pertencer por isso, indiferentemente, a todos eles.” Contrariamente a esta ideia, quando tinha 58 anos, ficou sem passaporte e descobriu que “aquilo que se perde com a nossa pátria é mais do que um pedaço de terra limitado por fronteiras”.
A opção do escritor pelo Brasil aconteceu depois de um peregrinar em que o objectivo era o “ir para longe”. O livro fecha com a lembrança de uma caminhada na cidade de Bath, no dia em que se soube que a Alemanha tinha invadido a Polónia (1 de Setembro de 1939) e que marcou o início da guerra. Caminhando em direcção a casa, Zweig repara na sua sombra, que o precedia, “tal como via a sombra da guerra passada por trás da guerra presente”. A imagem manteve-se desde essa data até à conclusão do livro, porque, “em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.”
Vale a pena a leitura deste livro. Para compreender e conhecer o autor, obviamente, e toda a plêiade de artistas, intelectuais e pensadores com quem se relacionou (Joyce, Rilke, Dalí, Freud, Rolland, Claudel, Gorki, Mann, Valéry, Toscanini, Richard Strauss, Ravel, entre tantos outros). Para sentir o que foi a peregrinação da Europa nas primeiras quatro décadas do século XX, oscilando entre momentos felizes e tempos desastrosos, em que surgiram as promessas, os populismos, os refugiados, a falta de âncoras. Porque sentimos que quem se escreve está também a (re)conhecer-se e a avaliar-se. O relato comove e faz pensar, sobretudo pela serenidade com que tudo é dito, advinda de uma forma intensa de viver...

Sublinhados de O Mundo de Ontem
Cidade - “Uma cidade parece-nos diferente consoante se tenha decidido aí permanecer ou apenas visitá-la.” 
Concentração - “O mistério eterno de toda a grande arte e até mesmo de toda a capacidade humana: a concentração, a aliança de todas as energias, de todos os sentidos, o abstrair-se de si próprio, a abstracção do mundo que acompanha qualquer artista.”
Costumes - “Quando os costumes dão liberdade ao homem, o Estado oprime-o; quando o Estado lhe concede liberdade, são os costumes que tentam moldá-lo.”
Criação - “De todos os numerosos enigmas do mundo que ainda não foram deslindados, o mais profundo e misterioso continua a ser o segredo da criação. Aqui, a natureza não deixa que a espiemos, nunca nos permitirá entrever esse artifício derradeiro: de como a terra surgiu, ou de como surge uma florinha, ou um poema, ou um ser humano. Neste ponto, ela não deixa cair o seu véu, implacável e inflexível. O próprio poeta e o próprio músico já não serão capazes de explicar posteriormente o momento de inspiração. Estando a obra terminada, o artista já nada sabe sobre a sua génese, o seu crescimento, o seu rumo. Nunca ou quase nunca será capaz de explicar como os seus sentidos elevados conseguiram juntar as palavras numa estrofe, os tons isolados em melodias que soarão através dos séculos. A única coisa que pode dar uma vaga noção do inexplicável processo de criação são as folhas manuscritas, sobretudo as que ainda não se destinavam a ser impressas, cheias de correcções, os primeiros rascunho ainda incertos, a partir dos quais, só então, e gradualmente, se iria cristalizar definitivamente a forma futura.”
Destino - “Por mais intrincado e absurdo que possa parecer o caminho que nos desvia dos nossos desejos, ele acaba sempre por nos conduzir ao nosso destino invisível.”
Diabo - “Quando se fecha a porta ao diabo, ele em geral força a entrada pela chaminé ou pela porta das traseiras.”
Época - “É mil vezes mais fácil reconstruir os factos de uma época do que o seu estado de alma.”
Esperança - “Nas horas de perigo, a vontade de poder ainda voltar a ter esperança é sempre imensa.”
Fama - “A mais perigosa tentação de carácter.” 
Guerra - “A técnica de culpar o soldado inimigo por toda e qualquer crueldade que se possa imaginar faz parte, tal como as munições e os aviões, do próprio material de guerra.” 
Infância - “Não é possível eliminar aquilo que, na sua infância, um homem absorve no seu sangue com o ar do tempo.”
Nome - “Qualquer tipo de publicidade representa uma perturbação do equilíbrio natural de uma pessoa. Numa situação normal, o nome que se tem é o equivalente à cobertura exterior do charuto: uma marca distintiva, um objecto exterior, quase sem importância, que apenas tem uma ligação frouxa com o sujeito real, com o verdadeiro eu. Em caso de sucesso, o nome, de alguma forma, aumenta de volume, separa-se do indivíduo que o usa, e torna-se ele próprio num poder, numa força, numa coisa em si, num artigo comercial, num capital e, com violento repelão, transforma-se, por sua vez, interiormente, num poder que começa a influenciar, a dominar, a transformar a pessoa que o usa. As naturezas felizes e conscientes do seu valor costumam identificar-se inconscientemente com a influência que exercem. Um título, um posto, uma condecoração e, por maioria de razão, a publicidade ao nome, conseguem fazer nascer nelas uma maior segurança, uma confiança acrescida em si próprias e induzi-las a acreditar que lhes cabe um papel particularmente importante na sociedade, no Estado e na sua época; involuntariamente inchem-se de vaidade, para que a sua pessoa fique a par do volume alcançado pela influência que exteriormente exercem. Mas quem seja por natureza desconfiado em relação a si próprio sente que todo o tipo de sucesso exterior o obriga a manter-se, tanto quanto possível, igual a si mesmo, justamente por ter alcançado tão difícil posição.”
Pai - “Na vida de qualquer um de nós, chega inevitavelmente o momento em que reencontramos o próprio pai na nossa própria imagem.”
Privacidade - “É ao cometer um delito hipócrita contra a natureza que a sociedade se mostra sempre mais cruel para com os que põem a descoberto e tornam público o seu segredo.”
Proibir - “É o calafrio da coisa proibida e negada que aumenta misteriosamente a sensação de prazer.”
Proibir - “Só o que se recusa alimenta a lascívia, só o que se proíbe exacerba o desejo e quanto menos os olhos v[êem] e os ouvidos ou[vem], tanto mais os pensamentos sonh[am].”
Raça - “A pureza da raça, uma peste mais funesta para o nosso mundo do que a autêntica peste dos séculos passados.”
Sombra - “Em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.”
Tempo - “Os grandes momentos estão sempre para lá do tempo.”
Ver - “Uma única impressão óptica, fornecida pelos sentidos, sempre exerceu maior influência sobre a alma do que mil artigos de jornal e mil brochuras.”

Sublinhados de Jeremias
Angústia - “Quando se tem uma angústia que não se pode dominar é preciso falar-se. Não adianta nada, mas serve de alívio.”
Guerra - “A guerra é grande nos livros, mas na realidade ela é aquilo que degola e profana a vida.”
Guerra - “É um animal mau e indomável: aos fortes come a carne; aos poderosos suga o miolo; mói as cidades com as suas maxilas e as suas patas talam os campos.”
Palavra - “Não é só a espada que que termina a guerra, muitas vezes a palavra a aplaca.” 
Povo - “O povo alegra-se com todas as palavras sonoras e o fausto e a pompa fazem-no correr.”
Sujeição - “Não se pode vencer o invisível! Podem-se matar os homens, mas não o Deus que vive neles. Pode-se submeter um povo, mas não o seu espírito.”

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Aguarelas de céu, na margem sul do Sado




Não sei pintar, mas a Natureza e o mundo encarregam-se de pintar por mim. Aguarelas de céu em formas do verbo "azular"...

terça-feira, 30 de julho de 2019

Na margem sul do Sado...



Apenas esqueleto de barco ou um rol de histórias naufragadas?

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Arrábida, Sado e mar, desde Tróia




Perfil inconfundível! Arrábida e o ponto em que as águas do Sado se misturam com as do Atlântico. Gosto.

Obrigado, Professor, por...



Uma série de três carteiras de açúcar do grupo Delta, concebida em colaboração com Global Teacher Prize Portugal, expõe três frases simples, mas que dizem muito - todas começam por "obrigado, professor". É o mínimo. É o que gostamos de ouvir quando um aluno ou um ex-aluno no-lo diz. E não é preciso mais para sentirmos a honra da profissão, o gosto da profissão. Mesmo que seja contra os ventos e tempestades permanentemente semeados por isto e por aquilo, em que a nossa sociedade, com a ajuda da política, é pródiga... imagina-se porquê!
Tão simples, afinal! E tão completo!...

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Calafate, o Cantador de Setúbal: Homenagem em poemas



Setúbal está a assinalar os 200 anos do nascimento do seu mais conhecido poeta popular e homem do fado: António Maria Eusébio, mas conhecido por "Calafate" ou por "Cantador de Setúbal".
O programa deste bicentenário tem sido vasto e, sobre o poeta, pode (deve) ser vista uma exposição patente no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), espaço onde, amanhã, sábado, 20 de Julho, ocorrerá também, pelas 18h00, a apresentação pública de um volume antológico com poemas de poetas setubalenses que homenageiam a memória de Calafate. Organização: Casa da Poesia de Setúbal e MAEDS.
Convidados.

Tarquínio Reis: referência maior de Palmela



Tarquínio Reis é figura incontornável para se contar a vida de Palmela. Nascido no início de Dezembro de 1925, Tarquínio Reis tem sido um homem que tem preservado as tradições, que se dedicou ao movimento associativo (como dirigente, como associado, como fundador de associações) e à solidariedade social.
Desde que o conheci, há uns 30 anos, sempre o vi com enorme admiração. Aprendi com ele, estive com ele na direcção do Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela (GACP), somos amigos.
Esta gravação, da responsabilidade do Museu de Palmela, contém cerca de 8 minutos de entrevista feita a Tarquínio Reis por Pedro Ralo e Teresa Sampaio, em que o destaque vai para as histórias em torno das músicas de Palmela, terra de duas sociedades filarmónicas. Excelente contador de histórias, este Tarquínio, não só porque as sabe contar, mas também porque as viveu e porque delas foi protagonista.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Manuel dos Santos Rodrigues: Romance pelo seminário dentro



Manuel dos Santos Rodrigues dedicou uma boa parte da sua vida ao estudo de uma figura setubalense, Vasco Mouzinho de Quevedo, tendo investigado a sua vida e sobretudo a sua obra, sendo responsável pela mais recente edição dessa epopeia que é Afonso Africano (Setúbal: Câmara Municipal de Setúbal, 2013).
No ano passado, editou o livro de poemas Altar de Pena Escrita, que teve apresentação em Setúbal em Janeiro.
No sábado, 29 de Junho, pelas 18h00, Manuel dos Santos Rodrigues volta à Biblioteca Municipal de Setúbal para apresentar o seu mais recente título, O rubro perfume das acácias, um romance que entra para o corpus das narrativas ligadas à vida do seminário e à condição de padre, com tradição na literatura portuguesa (Vergílio Ferreira, Fernando Faria, Manuel Rodas, Pinho Neno, Francisco Freire, entre outros). A questão do celibato, que sempre tem estado em discussão, domina o romance.
Evento organizado pela LASA. Convidados.

Luísa Ducla Soares em Setúbal



Luísa Ducla Soares dispensa apresentações, tão vasta é a sua obra no domínio da literatura infanto-juvenil. Vai estar em Setúbal, na Biblioteca Municipal, no sábado, 29 de Junho, às 16h00, em evento organizado pela Casa da Poesia de Setúbal. Convidados!

Manuel dos Santos Rodrigues - Ofício poético em louvor da vida



“Não me considero um poeta.” É a primeira frase que salta neste Altar de Pena Escrita, de Manuel dos Santos Rodrigues (Ed. Autor, 2018), que carrega ainda o subtítulo de “Tríptico Poético”. Poucas palavras andadas, uma explicação: “Isto não quer dizer que não tenha momentos, raros talvez, mas genuínos, de sensibilidade poética”. E, logo a seguir: “nesses momentos, com um pouco de habilidade versífera, pode surgir um poema”.
Um poema é um estado, uma técnica, uma voz própria, resulta de um momento, congrega tudo isso? Um poema é o sublime de uma língua que se escreve? Um poema justifica-se? O “prólogo” que Manuel Rodrigues apresenta tenta fundamentar os momentos poéticos que constituem este livro, desde logo assinalando a capacidade metafórica e a alegoria que podem existir nas pequenas coisas - “Um dia, alguém passa e repara naquele pequeno pormenor. Visto ao longe, é massa indistinta na paisagem, mas eis que, tocado pela vista, brilha com um relevo particular, dotado de especial encanto.” A poesia exige então esse movimento que se estabelece entre o “parar” e o “reparar”, daí surgindo a revelação, uma descoberta - “Viesses tu, poesia, / e o mais estava certo”, escreveu Sebastião da Gama, assim como quem diz que a poesia cauciona a graça, impõe a maravilha.
O jeito deste “prólogo” é semelhante ao “imprimatur” aposto pela autoridade para que o livro possa ser publicado, com a diferença de que, aqui, é o próprio autor que o atribui - “Este será o meu único livro de poesia. Valerá a pena? (...) Ainda assim, publique-se.” Quase parece que o autor tem de se pôr de acordo com o poeta que se esconde para que o livro aconteça!
E o autor volta a intervir logo a seguir, agora sob a forma de “Manifesto”, um conjunto de dez quadras em defesa da forma de escrita, em contestação do Acordo Ortográfico, por onde circulam a ironia e a recusa, mesmo o maldizer, em jeito de bengalada mais camiliana que queirosiana, numa brincadeira poética que não pode ser lida sem o acompanhamento da nota que, no início adverte que o autor não segue o Acordo “por o considerar inconsistente do ponto de vista científico e incoerente do ponto de vista técnico”.
Só a partir daqui entra o leitor no caminho do Altar de Pena Escrita, obra que se apresenta organizada em três partes: “Memória”, “Insano Amor” e “O Canto e a Pena”. É obrigatório de imediato associar esta trilogia a três momentos de um percurso - desde “Memória”, o primeiro conjunto de poemas, que nos remete para o tempo mais distante, para os fragmentos que desse tempo ficaram gravados, até “O Canto e a Pena”, a última parte, que nos chama a atenção para o título da obra, a juntar a necessidade da expressão (o “canto” ou a escrita que coroa a vida) e o sofrimento e dificuldade que compõem a vida (a “pena”). A escolha dos títulos para estas partes acaba por ser uma decisão poética que lhes associa os epítetos de clássicos como Plutarco, Anacreonte e Estesícoro e ainda criações mitológicas como Eros (na segunda parte) e Apolo e Hades (na terceira), assim se conferindo um tom alegórico a esta obra.
De facto, o leitor está perante uma obra em que se misturam o autor e o poeta, nisso se estabelecendo um certo pacto autobiográfico, umas vezes mais assumido, outras vezes mais sugerido. Poderemos dizer que este Altar de Pena Escrita é uma autobiografia que se aloja numa alegoria, grande sucessão de imagens que se colam a momentos, a lugares, a gestos. Um exemplo: qual a função das seis histórias que iniciam a primeira parte do livro, sob o título “Fábulas”? As histórias são conhecidas e circulam em todo o lado - a raposa e as uvas, o corvo e a raposa, a rã e a vaca, a cegonha e a raposa, o lobo e o cordeiro, o burrinho e o lobo -, tenham elas chegado a partir de Esopo, de La Fontaine ou da tradução que Bocage de algumas fez. Se as fábulas remetem para os ensinamentos através das narrativas, também nos lembram a simplicidade dos primeiros textos orais e sugerem ainda o tempo da infância. Ora, o percurso inicia-se numa infância, que pode ter uma dupla interpretação: a infância do traçado autobiográfico e a infância da escrita.
Este grupo é ainda constituído por poemas que denotam a aprendizagem veiculada pela via religiosa e por outros em que a prova autobiográfica surge evidente, desde logo pela evocação de Marmelos, a aldeia do concelho de Mirandela em que o autor nasceu, designada por “aldeia pequenina” (em que o adjetivo tem a dupla leitura da dimensão do lugar, por um lado, e a associação à infância - logo a seguir, há um poema, “História de vida”, cujo primeiro verso recorre ao mesmo qualificativo, “quando eu era pequenino”). Outras marcas topográficas povoam esta primeira parte, todas fazendo parte do trajecto geográfico que seguiram os passos do autor, como Moçambique, Lourenço Marques, Ourique ou a terra africana. A estas referências espaciais, estão associadas vivências felizes, despertando alegria e nostalgia, que não é apenas dos sítios, mas também de um tempo, o da infância despreocupada e satisfeita, imaginativa e revivida, como se pode verificar no poema “No meu tempo de cow-boy”: “No meu cavalo de pau / Ia fazendo tau! tau! / Co’a pistola de madeira. / Desta forma, a tauitar, / Via as horas a passar / Sem nunca sentir canseira.” (com a particularidade daquele neologismo inventado para relembrar o poder da voz associado ao gesto de brincar).
A primeira parte conclui-se com o poema “Ocaso”, melódica forma de pôr fim a esse tempo infantil, ainda que passando em revista todos os estádios da vida - o sol vai-se embora com saudades da criança  que “não se cansa de saltar e de correr”, do jovem “a nascer para a poesia”, do par que debica “segredos de amor, do velho que risca com a bengala “como querendo traçar / os passos da sua vida”. Um poema que fecha uma das partes parece congregar um tríptico dos ciclos da vida, assim como se anunciar a continuidade...
A segunda parte, “Insano Amor”, corre sob o signo de Eros e, logo no primeiro poema, não podemos esquecer a imagem de Fernando Pessoa, ainda que sob a capa de Ricardo Reis: “Vem, senta-te junto a mim, / tranquilamente, na margem verde do regato, / e escuta este rumorejar interior...” Reis diria: “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. / Sossegadamente fitemos o seu curso (...) / Amemo-nos tranquilamente.”
Alguns poemas fazem ecoar estruturas da lírica amorosa galego-portuguesa, seja pela semelhança temática do questionamento da ausência - “Onde estás, por que não vens?” -, seja pelo recurso ao refrão, que vai deixando um ressoar de sentido no poeta - “Ai, Deus, onde irás tu!”. Outros textos acompanham Camões na sua forma de sentir o amor como algo impossível de definir - “Há uma incógnita pendente / Um não sei quê mal assente / Entre ti e mim.” - ou como algo que faz assumir uma nova identidade - “Concedessem os deuses a quem ama / transformar-se o amador na coisa amada / Unindo os corações numa só chama” - ou pelas ressonâncias de imagens como a do “cativo” de amor. O erotismo afirma-se também por via da invocação dos mestres (Bocage e Camões, de novo, para aqui chamados), demonstrando que a arte da sedução visa também aquilo que será a mais humana reacção - “Não quero honras, não, só quero engenho / Pra levar-te comigo para a cama. (...) / Dou-te versos, em troca peço beijos, / Só por amor construo os meus poemas.”
Este grupo de poemas consagrados à temática do amor e da paixão faz reviver mitos clássicos que lhe estão associados, como o do rapto de Europa, de Hero e Leandro, de Narciso. Por ele transitam também princípios como o “carpe diem” - “simples mortal que sou, sem vã magia, / contente de ir vivendo o dia a dia” -, como o da escrita enquanto momento de celebração - “Flor que eu celebro, em poesia ou prosa, / Acirrado p’la força do desejo.” Ainda nesta parte, é valorizada a dimensão artística da escrita - “Não me apetece / ler ou escrever / ou sequer conversar”, como se estas três acções fossem as mais importantes que dominavam o poeta -, bem como a dimensão autobiográfica (num texto “feito a pedido de um amigo, que, tendo de se ausentar, lhe confiou a sua amada”, o nome do autor aparece registado) - “Pra ti espero um dia regressar, / Mas deixo-te, entretanto, em meu lugar / O bom Manuel, um grande e fiel amigo.”
O texto que encerra esta parte contém um tom algo disfórico ao intitular-se “Poema de fim de Verão”, dominado por verbos que remetem todas as acções para um passado concluído, fechado, mesmo no que aos deuses respeita: “Afrodite sorriu, Dioniso falou, / Eros feriu, esse insano e cruel deus. / O ciclo fechou-se. Resta dizer adeus...”
O terceiro grupo de poemas, “O canto e a pena”, deixa-se dominar pelo par mitológico de Apolo e Hades, a aproximação à luz e à glória, por um lado, e a certeza do sofrimento e da morte, por outro. O poema que abre este ciclo, “Invocação”, sugere aquela parte da escrita épica em que é pedida ajuda às musas para que a arte não falte. Sendo disso mesmo que se trata, o terceto que o encerra afirma-se pelo pragmatismo e por alguma ironia - “Pudera eu ser Camões no grande engenho, / No engenho sim, mas não no triste fado, / Pois penas que me cheguem já eu tenho.” -, embora no poema seguinte, o poeta reconheça a sua modéstia - “Perdoa, pois, ó divina Poesia, / Que a minha oração seja um mero bocejo”.
Nesta secção, o percurso parece ser muito mais autónomo, mais distante do convencional, seja pela mistura do cantar ao desafio com a poesia de José Afonso e de Sophia, seja pela pressão do academismo, que é violentamente recusado - “Poético. Vulgarmente poético. Pouco me importa, / odeio a poesia. Há alturas em que a odeio. Melhor, não / odeio a poesia, odeio as figuras de estilo, a conotação, a / literariedade, a metáfora, essa peste que se mete em / tudo que se presume literário.” A vida do poeta é atrofiada pela cidade e deixa enredar-se nas imagens clássicas do labirinto, da efabulação, dos temas horacianos (retomando Ricardo Reis).
É o momento da aprendizagem dolorosa das incapacidades que governam as vidas, como a invencibilidade do tempo ou o desgaste da memória - “E dói, dói, dói - caramba, se dói! / esta incapacidade de aprisionar a memória, / que o tempo, esse, nem vale a pena tentar pará-lo.”
À medida que o livro se aproxima do final, também a geografia das origens vai ocupando um cada vez maior espaço, numa posição antípoda das referências do início. Aqui, é a procura de lugares míticos, antigos, repletos de simbologia, começando por um “marco miliário”, medidor de distâncias quilométricas ou temporais, cruzando a ponte romana, bebendo na fonte também romana, olhando Vilarinho das Furnas, contemplando ruínas, cumeando uma mitologia própria que se diviniza no Larouco.
Aqui chegados, o derradeiro poema toma o título do livro, justificando-o - é sobre esse “altar” que a obra é posta, seja ela a obra poética, seja o percurso que se conclui. A poesia mistura-se com a braveza, a dureza e a eternidade da pedra - “Em pedra escrevi teu nome, Poesia, / Na pedra dura em que minha alma habita. / Na pedra o escrevi com pena esguia / Na pedra pura do altar de pena escrita.”
Este poema surge como a celebração final, cerimónia de conclusão, prova de que esta escrita outra coisa não foi senão a prova de uma vida - seja ela uma biografia, seja ela uma viagem de aprendizagem da poesia. Não faltam os elementos simbólicos como o sangue e o fogo, elementos fortes para gravar, exprimir, destruir, renovar; não falta o “sacerdote” perante a ara em que ritualiza e oferece a vida em sacrifício poético. E fica a oração final: “Eu te invoco, Poesia, eu te conjuro / Sobre esta pedra dura derrama teu olhar / Aceita minha vida, meu sangue puro / Que deponho na pena escrita deste altar.”
Uma vida que se conta (ou que se alegoriza), um poema que se conclui, um livro que termina. “Viesses tu, poesia, / e o mais estava certo”, dizia Sebastião da Gama. Esta poesia certificou a certeza desta vida.