sábado, 30 de maio de 2015

Para a agenda: Olhar Setúbal



O mês de Junho, em Setúbal, começa com trabalhos de escrita, de fotografia e de artes visuais sob o título "Olhar Setúbal", numa organização da Casa da Poesia de Setúbal, com a colaboração de alunos de várias escolas - Secundária de Bocage, Secundária Sebastião da Gama e EB 2, 3 de Aranguez. De 1 a 5 de Junho, na Biblioteca Municipal de Setúbal. Para a agenda!

Para a agenda: a pintura de Maria d'Almeida



Maria d'Almeida com a "Sinfonia dos Sentidos", na Casa da Cultura, em Setúbal. Abre hoje, numa organização da Artiset. Para a agenda.

Para a agenda: Festival de Música de Setúbal 2015



Nas ruas, nas salas, no fim de semana, no final de Maio, em Setúbal... mais uma edição do Festival de Música de Setúbal. Um grande evento que enfeita a paisagem com sons. Até 31, domingo. O programa pode ser consultado aqui. Para a agenda.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Para a agenda: Virgínia Costa com mais poemas



O novo livro de poemas de Virgínia Costa, agora em coautoria com José Fialho, vai ser apresentado amanhã. A todos os tempos pertenço tem a chancela do Centro de Estudos Bocageanos. Em Palmela Gare, no Ludpark. Para a agenda!

sábado, 23 de maio de 2015

O paraíso, segundo Miguel Esteves Cardoso



O título é original: "Algumas verdades fofas e nuas sobre o paraíso que de modo algum precisavam de ser ditas". Outra forma de dizer que o paraíso está ao nosso alcance... assim o queiramos! E o início do texto é forte: O paraíso é a repetição esperada do desejo e inesperada do prazer. O paraíso nunca pode ser imaginado. Se é preciso imaginar é porque não se está lá. O paraíso pode ser sonhado mas nunca satisfaz porque, para ser um paraíso, é preciso consciência que se está lá, acordado, cheio de toda a sorte do mundo. (…) O paraíso é uma extrema felicidade passageira que promete poder voltar, talvez. Se nunca mais pudesse voltar, fosse de que forma fosse, seria uma tragédia.”
Quem o diz é Miguel Esteves Cardoso, na revista "Fugas" que acompanha o Público de hoje (pg. 3) e é dedicada à temática do paradisíaco. A ler! E a construir!

"Orpheu" - sublinhados no seu centenário



Em 1915, surgiu a revista Orpheu, sendo o primeiro número (alusivo aos meses de Janeiro a Março) dirigido por Luís de Montalvor e por Ronald de Carvalho e o segundo (referente ao trimestre de Abril a Junho) por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. O terceiro número não chegaria a ser publicado e só em 1984 apareceu a edição das respectivas “provas de página” (em fac-símile) pela mão da revista Nova Renascença e do seu director, José Augusto Seabra.
Neste ano de centenário, uma revisita às páginas da revista (cuja edição fac-similada dos dois números editados, em volumes autónomos, saiu recentemente com o diário Público) deixa-nos com a verdade de que a revista surpreende de cada vez que a ela se volta. Por aqui deixo uns sublinhados de Orpheu, pela ordem em que aparecem em dada um dos três números (a paginação da revista foi continuada de número para número, visando a organização em volume).

Eu – “Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.” (Mário de Sá-Carneiro. “7”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 14)
Eu – “Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes / Que um outro, só metade, quer passar / Em miragens de falsos horizontes / Um outro que eu não posso acorrentar…” (Mário de Sá-Carneiro. “Ângulo”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 15)
Tu – “Dentro da água dos teus olhos / minha alma treme como um lírio…” (Ronald de Carvalho. “Reflexos”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 25)
Mar – “Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 30)
Sentir – “Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!...” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 32)
Sonho – “O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas.” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 34)
Sonho – “Só vós sois feliz, porque acreditais no sonho…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 39)

Erro – “Eu fui alguém que se enganou / E achou mais belo ter errado…” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas sem suporte – Elegia”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 97)
Admiração – “Não admiramos o que a nós é estranho, sentindo então, o que já não admiramos?” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 117)
Ideal (em arte) – “O indefinido a que na arte nós aspiramos, essa ânsia de ideal que mais do que o ideal para nós vale, essa ânsia, esse desejo infinito e jamais satisfeito, deve encher a nossa vida que a mais alta expressão se tornará assim da arte pura!” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 119)
Arte – “Toda a obra de arte é a justificação de si própria.” (Nota da redacção sobre os poemas assinados por Violante de Cisneiros. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 122)
Vida – “A vida é só o Espaço / Que vai da própria Linha / À sombra dela num traço. // Quando a Morte for vizinha, / Fundidas no mesmo Espaço / Será tudo a mesma Linha.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 123)
Presente – “Só sensações são Presente, / Só nelas vive a Verdade.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 124)
Infância – “Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, / E ficar lá sempre, sempre cirança e sempre contente!” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 147)
Longe – “Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve – / Em parte nenhuma, graças a Deus.” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 149)
Eu – “Contemplo o meu destino em mim.” (Luís de Montalvor. “Narciso”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 156)

Vida – “Atapetemos a vida / Contra nós e contra o mundo.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Sete Canções de Declínio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 167).
Tempo – “Passar tempo é o meu fito, / Ideal que só me resta: / Pra mim não há melhor festa, / Nem mais nada acho bonito.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Cinco Horas”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 174).
Deus – “Olho o Tejo, e de tal arte / Que me esquece olhar olhando, / E súbito isto me bate / De encontro ao devaneando – / Que é ser rio, e correr? / O que é está-lo eu a ver? // Sinto de repente pouco, / Vácuo, o momento, o lugar. / Tudo de repente é oco – / Mesmo o meu estar a pensar. / Tudo – eu e o mundo em redor – / Fica mais que exterior. // Perde tudo o ser, ficar, / E do pensar se me some. / Fico sem poder ligar / Ser, ideia, alma de nome / a mim, à terra e aos céus… // E súbito encontro Deus.” (Fernando Pessoa. “Além Deus – Abismo”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 186).
Política – “E vós também, nojentos da Política / que explorais eleitos o Patriotismo! / Maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 200).
Jornalismo – “E vós também, pindéricos jornalistas / que fazeis cócegas e outras coisas / à opinião pública!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 201).
Portugal – “E ainda há quem faça propaganda disto: / a pátria onde Camões morreu de fome / e onde todos enchem a barriga de Camões!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Homem – “Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio / que Deus perdeu de vista o Adão de Barro / e com pena fez outro de bosta de boi / por lhe faltar o barro e a inspiração! / E enquanto este Adão dormia / os ratos roeram-lhe os miolos, / e das caganitas nasceu a Eva burguesa!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Vida – “Vivemos tão pouco / que ficamos sempre a meio caminho do Desejo.” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 205).
Natureza – “Ouve a Terra, escuta-A. / A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 209).
Sonho – “Os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos / Como outros quaisquer.” (C. Pacheco. “Para além doutro oceano”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 221).

domingo, 17 de maio de 2015

Caminhos da Memória - Rui Serodio, 78 anos


Rui Serodio faria hoje 78 anos. Conservo dele a imagem fina, aristocrática, artística, bem disposta, que sempre dele tive. Não lhe podendo dar os parabéns, tive de ouvi-lo. Aquela composição "Sounds of the mountain" é extraordinária. A Arrábida sentir-se-ia feliz. É toda uma peregrinação pela natureza e pelos sons. É uma obra genial. Foi assim que lembrei o Rui. Mais uma vez, obrigado.

sábado, 16 de maio de 2015

Caminhos da memória - Miguel de Castro



Passam hoje seis anos sobre a ida de Miguel de Castro, o poeta que na vida real tinha o nome de Jasmim Rodrigues da Silva. Fomos (somos) amigos. Da poesia, da conversa, da vida. Evoco-o pela amizade, pelos afectos comuns. E reproduzo um poema, "Carta a Sebastião da Gama", que teve a bondade de me dedicar em livro (Os Sonetos. Setúbal: Estuário Publicações, 2002, pg. 40). A vida é assim.

Para a agenda - Festa das Cruzes, em Alvarães



Acontece hoje e amanhã a Festa das Cruzes, em Alvarães (Viana do Castelo), uma das primeiras romarias alto-minhotas no calendário anual. Ponto alto é o desfile de andores, decorados com desenhos de temática religiosa ou local, coloridos com pétalas que, ao longo da semana, foram colocadas uma a uma, em trabalho colectivo em cada um dos lugares da freguesia. Além de poderem ser contemplados no desfile processional, o visitante pode ainda admirá-los em exposição que fica na igreja paroquial por alguns dias. A ver. Para a agenda!

Para a agenda - O Senhor do Bonfim em exposição



Está quase a acabar o tempo da exposição sobre o Senhor do Bonfim, patente na galeria da Casa da Baía, em Setúbal. É até 18 de Maio, mas merece o cuidado de uma visita. É o encontro com documentação fotográfica sobre a evolução do espaço e da dedicação e devoção que, em Setúbal, existe a esta imagem; é o registo de igual sentir da banda de lá do Atlântico, no Brasil, na Baía, para onde o capitão Teodósio Rodrigues de Faria levou a devoção em meados do século XVIII. Exposição modesta, mas feita com sentimento. A ver. Para a agenda deste fim de semana!

domingo, 10 de maio de 2015

"Que coisa são as nuvens", de José Tolentino Mendonça



Algumas crónicas (quase uma centena) de José Tolentino Mendonça que viram a luz no Expresso ao longo dos anos de 2013 e de 2014 estão agora ao alcance do leitor sob o título Que coisa são as nuvens (Lisboa: “Expresso”, 2015). Não é experiência nova do autor, uma vez que já em 2010 dera à estampa a colecção O Hipopótamo de Deus e outros textos (Lisboa: Assírio & Alvim), reunião de crónicas saídas nos “media”, entre os quais se contava também o semanário Expresso.
De crónicas não se pode esperar o que vá além de uma reflexão sobre algo do quotidiano; mas das crónicas se pode esperar tudo isso que é a reflexão, uma maneira de olhar o mundo, de o sentir, de nele reparar. O título da colectânea, vindo de uma filme de Pasolini (1967), alberga pensamentos que foram “uma iniciação, mesmo que imprevisível, à arte do espanto”; daí que o título do texto introdutório passe mesmo por essa virtude do olhar reforçada com o verbo “reparar”: “Para quem não tiver reparado”.
As crónicas de Tolentino Mendonça passam por esse espanto com as coisas do mundo e da vida, algo que nos surpreende e cativa, que se constrói sobre a estética, venha ela da escrita ou das outras artes, corra ela desde os sentimentos ou decorra dos acontecimentos, conflitue ela com as nossas  formas de vida ou abra-nos caminhos de descoberta.
Tanto é merecedor da crónica o bolo de bolacha como o bolo de arroz ou o chocolate, os prazeres experimentados como as descobertas, o sentido poético como as grandes obras. E o leitor vai saltando de Eugénio de Andrade para Ana Teresa Pereira, pensando sobre a morte ou sobre a poesia ou sobre os avós, entrando na pedagogia de Ruben Alves ou no fascínio de El Greco, convivendo com Van Gogh ou com José Saramago, ouvindo Rosenzweig ou Cesariny, pensando com Sophia ou com Simone Weil (dois dos nomes que emergem com mais frequência).
Estes pensares de Tolentino Mendonça vão ao encontro de formas de ser e de viver o mundo e a vida, congregando a espiritualidade inerente a cada gesto ou a cada momento, convidando a entradas por reflexões de outros, povoadas por citações exemplares do lido e do conhecido como se fossem ingrediente ou condimento. São textos curtos, que não vão além das duas páginas mas que nos deixam à porta das descobertas, no limiar do que é “reparar”, lá onde as nuvens mostram as suas diferenças e as suas consistências.
Uma boa iniciativa do Expresso, numa luta contra a efemeridade, em prol de momentos de encontro do leitor com o pensamento e com o mundo!

Sublinhados
Abraço – “Um abraço é uma hipótese de equilíbrio que a hospitalidade dos corpos é chamada a inventar. Qualquer abraço começará por ser uma coreografia instável. Se calhar, a primeira forma do abraço é só um agarrar-se para não cair. Pouco a pouco, o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou e surge como um lugar novo, um lugar que não existia no mundo e que juntos encontramos.”
Acabar – “O momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado, não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas condição irrecusável do próprio ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo. O inacabado liga-se, é verdade, com o vocabulário da vulnerabilidade, mas também com a experiência de reversibilidade e de reciprocidade.”
Amigo – “A banalização da palavra amigo produz uma incapacidade de compreender (e de viver) amizades verdadeiras.”
Arte – “Há três dimensões fundamentais (e esquecidas) na arte, companhia que importa recordar: a gratuidade, a aceitação e a capacidade de partilhar o silêncio.”
Casa – “As casas são uma máquina de habitar e desempenham um papel chave na construção da nossa experiência humana. Mas todas as casas falam, pela presença ou pela ausência, de outra coisa que está para lá delas. Falam disso que um humano é, matéria ao mesmo tempo sucinta e imensa, de fazer espanto. Falam do conhecimento que só é verdadeiro se alojar em si a consciência do que ignora hoje e ignorará até ao fim. Falam da luta pela sobrevivência, com a sua rudeza, a sua dor e tumulto, mas também da excedência que experimentamos, porque se a vida não transbordar não é vida. Falam da intimidade, aquém e além da pele. Falam do silêncio e da palavra, que umas vezes se contradizem e outras não. Falam do cumprido e do adiado, do sono e da vigília, do fraterno e do oposto, da ferida e do júbilo, da vida e da morte.”
Desgraça (íntima) – “A nossa cabeça de pessoas crescidas é complicada. Descobrimos que há um prazer em listar achaques e traições, e se a minha chaga puder ser maior do que a tua tanto melhor, isso reforça o meu estatuto. A verdade é que, se não tomarmos atenção, a desgraça íntima torna-se um escanzelado pódio onde nos blindamos.”
Dinheiro – “O dinheiro não se fica a orientar apenas o ordenamento material da vida comum, mas contamina indelevelmente a dimensão imaterial da vida, as suas aspirações mais profundas. (…) Quer dizer, passou a ser um poderio, pois actua por si mesmo, detendo uma autonomia que só conhece como lei a sua. O dinheiro só tem respeito pelo dinheiro: nas relações que estabelece, tudo se compra e se vende, e é nessa espécie de delírio totalitário que ele prefere viver.”
Futuro – “Embora nos pese toda a indefinição ou os maus prognósticos, conservamos em relação ao futuro uma expectativa que nunca é completamente fechada. Quem sabe? – insistimos nós.”
Lentidão – “A lentidão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário; escolhe mais vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.”
Passado – “O passado é, em grande medida, um tempo confortável, mesmo quando nos esmaga. Provoca-nos o alívio, (…) está num lugar certo, mesmo se nos espaventa de tão completamente errado.”
Presente – “Do presente, da pressão do presente, da sua irrefutável factualidade, desatamos facilmente a escapar.”
Reparar – “Reparar introuz-nos por si só numa lentidão, porque aquilo a que alude não é um observar qualquer: é um ver parado, um revisar porventura mais minucioso do que o mero relance; é uma visão segunda, uma nova oportunidade concedida não apenas ao objecto, nem sequer apenas ao olhar, mas à própria visibilidade. [Reparar] põe também em prática uma reparação, um processo de restauro, de resgate, de justiça. Como se a quantidade de meios-olhares e sobrevoos que dedicamos às coisas fosse lesivo dessa ética que permanece em expectativa no encontro com cada olhar. Por isso, de certa forma, só quando reparamos começamos a ver.”
Saber – “Reconhecer que ‘não se sabe’ pode trazer desconforto, mas traz também saúde interior e criatividade.”
Silêncio – “Aquilo a que chamamos silêncio só se torna real e efectivo através de um processo de despojamento interior, e de nenhuma outra maneira.”
Simplicidade – “Nada nos pede mais trabalho e arte do que a simplicidade.”
Vida – “A vida é completamente artesanal. Não é possível reproduzi-la em série, nem encontra-la feita noutro lado. A vida requer a paciência do oleiro, que, para fazer um vaso que o satisfaça, faz duzentos só a treinar o gosto, a habilidade, a testar a sua ideia.”
Vida – “Privamo-nos a nós próprios do tempo necessário para colher o sabor, o silêncio ou as cintilações que temperam a vida. No atropelo ofegante a que nos entregamos há um crescente alheamento de nós próprios. Não lhe damos o estatuto de patologia, mas esta desertificação da vida interior disfarçada de eficácia o que é senão isso? As nossas sociedades medem infelizmente o seu progresso esquecendo, quando não obliterando, domínios da vida humana que não são mensuráveis e que têm a ver com a interioridade, a criação, o dom, a alegria, o sentido.”

Máximas em mínimas: António José da Silva, o Judeu




Depois de ler António José da Silva (1705-1739), o tal que foi vítima no mesmo auto-de-fé que acabou com a personagem Baltasar Sete-Sóis de Memorial do Convento, de José Saramago, o tal que foi cognominado "Judeu", ficam algumas verdades retidas a partir de Anfitrião, que tem o subtítulo de "Júpiter e Alcmena" (Col. “Clássicos Inquérito”, 14. Lisboa: Editorial Inquérito, s/d):

Amor – “Amor é como a Fénix que, para renascer mais belo, é preciso que, de quando em quando, se abrase nas chamas de um arrufo.”
Ausência – “Não há pior mal que o da ausência, pois ao mesmo tempo que acrescenta a saudade também acrescenta o tempo.”
Casamento – “Marido sem ser amante é o mesmo que corpo sem alma. Que importa que o matrimónio ligue o corpo se o amor não une as almas?”
Desejo – “Sempre a boca fala tarde quando madruga o desejo.”
Impossível – “Os impossíveis só se fizeram para os que verdadeiramente amam.”
Juiz – “Um juiz, para ser bom, há-de ser como um espelho: aço por dentro e cristal por fora. Aço por dentro para resistir aos golpes das paixões humanas e cristal por fora para resplandecer com virtudes.”

domingo, 3 de maio de 2015

Para a agenda - Recitais de Primavera - Trio "Clarinetes de Santiago"



O ciclo "Recitais de Primavera 2015", que se ouvirá em Palmela ao longo de Maio, abre no dia 9 com o trio "Clarinetes de Santiago" (Inês Nunes, Fábio Guerreiro e Fernando Pernas). Será o primeiro de quatro recitais que compõem o ciclo. Para ouvir na Igreja de Santiago (no Castelo), ao final da tarde. Para a agenda.

Para a agenda - Recitais de Primavera, em Palmela



Quatro dias em Maio para outros tantos recitais neste ciclo que é o de "Recitais de Primavera 2015". Em Palmela, na Igreja de Santiago (no Castelo), sempre ao final da tarde dos dias 9, 16, 17 e 24. Para a agenda.

Para a agenda - O quotidiano medieval em Portugal, na Culsete



A setubalense Ana Rodrigues Oliveira estará na Culsete em 9 de Maio para falar do seu livro O dia-a-dia em Portugal na Idade Média, pela primeira vez apresentado no país. Uma boa oportunidade para ler e para saber como foi o quotidiano que nos antecedeu. Para a agenda.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Para a agenda: Os 41 anos de Abril em Setúbal



No 41º aniversário do 25 de Abril, Setúbal oferece uma variedade de eventos para assinalar a data condignamente. Múltiplas, bastantes e interessantes actividades em que a identidade se revela à mistura. Para a agenda!

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Para a agenda - Quando Setúbal passou a cidade



A propósito da passagem de Setúbal a cidade, o Centro de Iniciativas Manuel Medeiros da UNISETI promove hoje palestra a cargo de Alberto Pereira. Na Casa da Cultura. Para a agenda.

Para a agenda - Miguel Real em Setúbal



O mais recente livro de Miguel Real chega a Setúbal pela mão do seu autor. O último Europeu tem apresentação marcada para 25 de Abril, pelas 16h00, na Casa da Cultura. Uma iniciativa do Centro de Estudos Bocageanos. Para a agenda.

Para a agenda: a religiosidade da Arrábida, por Ruy Ventura



O religioso e a espiritualidade da Arrábida, dimensões nem sempre mostradas, mas presentes na história cultural da serra. Ruy Ventura, há muito tendo enveredado por esse estudo, vai abordar o tema "A criatura e o Criador na religiosidade da Arrábida", por onde passarão Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama. Em 26 de Abril, no Seminário de S. Paulo de Almada. Para a agenda.

sábado, 11 de abril de 2015

Para a agenda: Setúbal nos 155 anos de elevação a cidade



Em 19 de Abril passa o 155º aniversário da elevação de Setúbal a cidade, reinava D. Pedro V. O pedido fora formulado dois anos antes, em 14 de Abril de 1858, em carta assinada pelos membros da Câmara sadina (Aníbal Álvares da Silva, presidente, e José Joaquim Correia, Francisco Joaquim Peres, João Sezinando de Freitas Sénior, Joaquim Mata Guerreiro e Manuel José de Araújo, vereadores). A efeméride é lembrada em programa municipal com várias iniciativas. Para a agenda.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Para a agenda: Nos 91 anos de Sebastião da Gama



Em 10 de Abril, passam 91 anos sobre o nascimento de Sebastião da Gama, poeta nascido em Azeitão em 1924, com um período de vida que não chegou aos 28 anos e que deixou uma obra reconhecida no domínio da poesia, da pedagogia e do ensaio, apesar de apenas ter publicado três livros e uns quantos poemas em periódicos diversos. A sua obra viria a ganhar projecção postumamente, tendo sido publicados cerca de uma dúzia de títulos, reconhecimento a que não foi alheia a acção desenvolvida por sua mulher, Joana Luísa da Gama (1923-2014), e por vários amigos (como David Mourão-Ferreira, António Manuel Couto Viana, Luís Lindley Cintra, Hernâni Cidade, Matilde Rosa Araújo ou Luís Amaro). Pela pluralidade da sua obra e pela mensagem que transmite, Sebastião da Gama é hoje uma figura da cultura portuguesa, sobretudo nas áreas da literatura e da educação.
Em 10 e 11 de Abril, em Azeitão, será levado a cabo programa comemorativo a cargo da Câmara Municipal de Setúbal, que inclui como pontos altos a leitura de poemas, uma exposição que cruza a poesia do homenageado com a serra da Arrábida e com a fotografia de Maurício Abreu e uma conferência por Alexandre Santos, estudioso do poeta.
[Foto: sítio da Câmara Municipal de Setúbal]

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Para a agenda - Olhar o céu, ver a noite



Uma observação astronómica nocturna em Quinta do Anjo. Para conhecer o Universo, a Terra; para conhecermos o tempo. Com a colaboração do Centro Ciência Viva de Estremoz. Para a agenda.

Para a agenda - Gala da APPACDM, em Palmela



A gala da APPACDM de Setúbal terá lugar em Palmela, em 10 de Abril. Uma organização em que os utentes têm dado provas de valor, de capacidade, de energia. Para a agenda.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Hoje, Dia Internacional do Livro Infantil



Passam 210 anos sobre o nascimento de Hans Christian Andersen, o tal mágico escritor dinamarquês que sobrevoa as imaginações, pai de imensas criaturas que povoa(ra)m a infância e que têm emprestado a alma a animações da Disney, por vezes com finais alterados, que os enredos de Andersen nem sempre eram felizes... A data de 2 de Abril passou a ser também a do Dia Internacional do Livro Infantil. Grande homenagem! Ao livro e a Andersen.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Adília Lopes, "Manhã" (2015)



Há um pequeno texto de Adília Lopes, “Praia”, inserido no seu mais recente livro, Manhã (Porto: Assírio & Alvim / Porto Editora, 2015), que bem elucida a estrutura desta obra: “Olhó Rajá fresquinho. Olhá batatinha frita. A praia do Estoril há 50 anos. Nunca gostei de batatas fritas nem de gelados. Mas gosto de escrever estas coisas.”
Deste livro, um circular entre a poesia, o diário, o fragmento, a memória, ressalta esse gosto sentido no “escrever estas coisas”, as mais insignificantes, as mais lembradas, as mais dotadas de uma simplicidade, seja pela fragilidade, seja pela imposição do quotidiano, seja pelo gesto de relembrar momentos, gostos, hábitos de uma vida, num continuado recuo ao passado. De forma serena, poética, sem necessidade de precisar o momento, antes o deixando a bailar na memória, algo que vive muito num pretérito imperfeito, responsável por trazer o passado até ao livro, até ao presente, trajecto assumido numa revelação como esta: “Tenho 54 anos e continuo a pensar como quando tinha 4. Sou feliz assim.”
O tom autobiográfico é ainda acentuado pela entrada de fotografias da infância e juventude da autora, elementos que surgem quase a marcar o ritmo desse género. O primeiro texto, “Colares”, leva a narradora a colar o sítio à sua “recordação mais antiga”, uma forma de marcar o início da memória. E logo por lá passam quadros de que não está afastada a literatura, com alusões a Proust e a Rimbaud. E, quando se chega ao último texto, tem a narradora lembranças capicuas dos 12 e dos 21 anos, volta-se a falar de literatura, do bom que é ler, e, no penúltimo parágrafo da obra, somos novamente surpreendidos por Proust (novamente a capicua). Para concluir que a vida adquire sentido por se “ter estudado e lido muito”. Para concluir que uma parte da vida se escreveu.
Um livro bonito. Que nos permite conviver com o humor que a vida também tem – repare-se no texto “Estrelas”: “Na missa, uma velhota a cantar a ladainha a Nossa Senhora em vez de cantar ‘stella matutina’ cantava ‘estrela na cortina’. Acho isto lindo.”
A ler.

Sublinhados
Pessoas – “Todas as pessoas são bonitas. As modas é que são estúpidas.”
Guerra – “Não gosto nada de guerras. Gosto muito de química mas não sei nada de explosões nem de explosivos. O Manneken-Pis evitou uma explosão ao fazer chichi para cima de uns sacos de pólvora. Ainda bem.”
Aprender – “Sem liberdade não se aprende nada.”
Ler – “Estudar e ler é quase o melhor que há.”

terça-feira, 31 de março de 2015

Bocage em selo - emissão filatélica de hoje



Quase 50 anos separam as duas emissões filatélicas em que Bocage é personagem central: a primeira, de finais de Dezembro de 1966, com desenho de Luís Dourdil, numa série de três selos com os valores de 1$00, 2$00 e 6$00, respectivamente, destinada a assinalar os 200 anos do nascimento de Bocage; a segunda, lançada hoje, com desenho assinado por Folk Design, selo destinado a cartas até 20 gr em correio azul nacional.
O selo hoje apresentado integra a série “Vultos da cultura portuguesa”, em que figuram seis personalidades cujos períodos de vida se relacionam com números redondos associados a 2015: Bocage, poeta (1765-1805); Francisco Vieira, pintor (1765-1805); Ramalho Ortigão, escritor (1836-1915); Ruy Cinatti, poeta (1915-1986); Frederico George, arquitecto (1915-1994); Agostinho Ricca, arquitecto (1915-2010). Bocage e Francisco Vieira foram contemporâneos, ambos tendo vivido pelo período de 40 anos, deles se celebrando este ano o 250º aniversário de nascimento.

[Foto inferior: série filatélica "Vultos da cultura portuguesa - 2015" - CTT, 31.Março.2015]

quarta-feira, 25 de março de 2015

Para a agenda: VI Encontro Livreiro, em Setúbal



O VI Encontro Livreiro chega em 29 de Fevereiro, domingo, para reunir na livraria Culsete, em Setúbal, todos os caminhos e atalhos que vão dar ao universo do livro. O momento será ainda aproveitado para a atribuição do diploma “Livreiros da Esperança”, a título póstumo, a Luís Alves Dias, da Livraria Ler, a ser entregue ao filho Luís Alves, actual gerente da livraria.
Realizando-se pelo sexto ano consecutivo na livraria setubalense Culsete, o Encontro Livreiro é, segundo comunicação da equipa coordenadora, “um espaço de reflexão e troca de ideias, mas também de convívio feito em torno dos livros”, feito “por todos aqueles que vivem em torno dos livros, todos aqueles que não entendem a sua vida sem livros, as gentes do livro, dos livreiros aos leitores, passando por editores, ilustradores, escritores, comerciais do livro, designers de comunicação, alfarrabistas, encadernadores, académicos, professores, bibliotecários, tradutores, jornalistas culturais e todos os outros.”
Dia 29, na Culsete, a partir das 15h00. Para a agenda!

terça-feira, 24 de março de 2015

"Orpheu", 100 anos hoje



Com o subtítulo de "Revista Trimestral de Literatura", o primeiro número de Orpheu surgiu em Lisboa em 25 de Março de 1915, dirigido por Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho. Passados três meses, em 28 de Junho, apareceu o número dois, dirigido por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Editada por António Ferro (1895-1956), a revista teve capa, nos  dois números, de José Pacheco (1885-1934). Colaboradores dos dois números foram Alfredo Guisado (1891- 1975), Almada Negreiros (1893-1970), Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), Ângelo de Lima (1872-1921), Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), Eduardo Guimaraens (1892-1928, brasileiro), Fernando Pessoa (1888-1935), Luís de Montalvor (1891-1947), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Raul Leal (1886-1964), Ronald de Carvalho (1893-1935, brasileiro), Santa Rita Pintor (1890-1918) e Violante de Cysneiros (pseudónimo de Côrtes-Rodrigues).
Na "Introdução", publicada no primeiro número, escreveu Luís de Montalvor: "Nossa pretensão é formar, em grupo ou ideia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este princípio aristocrático tenham em Orpheu o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermo-nos".
A reacção aos dois números da revista (de que há reedições a cargo de Edições ÁticaI pautou-se por classificações que reflectiam o escândalo provocado: "literatura de manicómio" e "doidos com juízo", entre outras. Textos para o terceiro número de Orpheu chegaram a ser impressos, não tendo, contudo, a revista sido publicada (foi feita edição das provas de página em 1984, sob a responsabilidade de Edições “Nova Renascença”). Entre os textos conhecidos para esse terceiro número contam-se como autores Mário de Sá-Carneiro, Albino de Meneses (1889-1949), Fernando Pessoa, Augusto Ferreira Gomes (1892-1953), Almada Negreiros, D.Tomás de Almeida (1864-1932), C. Pacheco (heterónimo de Pessoa) e Castelo de Morais (1882-1949), sendo o texto mais importante o de Almada ("Cena do ódio", depois publicado na revista Contemporânea, em Janeiro de 1923).
Sobre o papel desempenhado por Orpheu escreveu Fátima Freitas Morna: "é um caso particularmente interessante entre os muitos que lhe poderiam constituir paralelo na Europa povoada de 'ismos' e revistas dos anos que rodeiam a Primeira Guerra Mundial. Em vez de se proclamar como um movimento, ou órgão de um movimento, Orpheu aceita ser o lugar de choque e de trabalho de vários movimentos." (A Poesia de 'Orpheu'. Col. "Textos Literários", 26. Lisboa: Editorial Comunicação, 1982).
Ao longo dos tempos, o título Orpheu tem sido apontado como uma das revistas literárias mais revolucionárias e tem sido alvo de inúmeros estudos pelo papel desempenhado na expressão futurista em Portugal. Em Bruxelas, chegou a ser fundada uma livraria vocacionada para a literatura e cultura portuguesas a que foi dado o nome de “Orpheu”. Já neste ano, a revista tem sido objecto temático de várias publicações, como JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (nº 1159, 4.Março.2015) ou Estante (FNAC: nº 4, Inverno.2015). Também recente é a edição filatélica de um selo desenhado sobre quadro de Almada Negreiros, alusivo ao centenário da revista (CTT, 2015). Na celebração destes cem anos da revista Orpheu, estão ainda envolvidas exposições (como a da Biblioteca Nacional) ou edições como 1915 – O ano do Orpheu, organizada por Steffen Dix (Lisboa: Tinta-da-China, 2015).
[foto: selo comemorativo do centenário da revista Orpheu - CTT, 2015]

sábado, 21 de março de 2015

No Dia Mundial da Poesia, o "Louvor da Poesia", de Sebastião da Gama



O poema foi escrito em 7 de Fevereiro de 1950, exactamente dois anos antes de o seu autor, Sebastião da Gama, falecer. Teve a primeira publicação na terceira (e última) obra que o poeta editou, Campo Aberto (1951).
No quarto fascículo da revista Sísifo, editada em Coimbra sob a direcção de Manuel Breda Simões, foi publicada uma carta de Sebastião da Gama como resposta a um inquérito que a revista promovera. À pergunta "Que pensa da Poesia em geral, e da sua própria Poesia?", o poeta de Azeitão respondia: "Minhas ideias acerca da Poesia. Vide: Louvor da Poesia, in Campo Aberto. Será tudo? Olhe que a resposta não é para posar. É que só nos versos sei o que penso da Poesia." Sebastião da Gama não chegaria a ver este número da revista porque faleceu enquanto a publicação era preparada...
O poema está gravado em laje no Parque dos Poetas, em Oeiras, nesse conjunto artístico que pretende homenagear poetas portugueses do século XX.
Trago-o hoje para assinalar o Dia Mundial da Poesia.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Para a agenda: Nos 100 anos de "Orpheu"



O primeiro centenário sobre o aparecimento da revista Orpheu está por cá. Exposições, colóquio, edições, sessões de poesia. Por cá e além-Atlântico. Por cá e a circular. 100 anos depois, Orpheu continua o seu papel de inquietar. A notícia acima veio na revista "Ipsilon" com o Público de hoje. Várias chamadas de atenção para eventos "orphicos". Para a agenda!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Para a agenda - Conhecer Fran Paxeco em Setúbal



Fran Paxeco (1874-1952) é mais conhecido no Brasil do que em Portugal. Nos últimos tempos, tem havido alguma movimentação em torno da história e da obra deste intelectual, em parte devido a António Cunha Bento, ligado ao movimento associativo e à cultura e história setubalense, em parte devido à Câmara Municipal de Setúbal e a uma instituição como a LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão), em parte devido ao facto de uma neta, Maria Rosa Pacheco Machado, ter oferecido peças do espólio do avô à autarquia sadina e à LASA. Depois de, há dias (8 de Março), ter fechado uma exposição sobre Fran Paxeco, em mostra desde 20 de Dezembro, patrocinada pela Câmara sadina, é agora a vez de o Centro de Iniciativas Manuel Medeiros, da UNISETI, trazer a história de Fran Paxeco às suas tertúlias. A apresentação deste nome estará a cargo de António Cunha Bento. Em 20 de Março. Para a agenda.

Para a agenda: Natália Correia em Setúbal 50 anos depois



Uma peça com meio século, O Homúnculo, de Natália Correia, sobe ao palco em Setúbal, com as caras do Teatro Estúdio Fontenova. A peça que terá irritado Oliveira Salazar e que teve o carimbo da proibição logo que nasceu. Entre 20 e 22 de Março, em Setúbal. Para a agenda.
Segundo referiu Fernando Dacosta, em artigo divulgado no diário Público, em 14 de Maio de 2014, «o caso mais surpreendente ocorrido com Natália Correia no tempo da ditadura deu-se (…) com o Homúnculo, arrasadora peça (nunca representada) sobre Salazar — que a leu num serão, não conseguindo, impressionadíssimo, dormir nessa noite. No dia seguinte Silva Pais procurou-o para lhe comunicar a apreensão da obra e a (iminente) prisão da autora. Depois de prolongado silêncio, o presidente do Conselho de Ministros respondeu: “Fizeram bem em retirar o livro mas não toquem em Natália Correia porque é uma pessoa muito, muitíssimo inteligente!”»
Para a agenda!

Para a agenda: Dia Mundial da Poesia com poetas, em Setúbal



O Dia Mundial da Poesia tem calendário marcado na Culsete, em Setúbal. Com livros, poemas e poetas. Com vozes, letras e palavras. Na tarde de 21 de Março. Para a agenda.

Para a agenda: um "Lugar Fictício" em Setúbal



Há um "Lugar Fictício" que vai abrir na Casa d'Avenida, em Setúbal. Idealizado por Eduardo Carqueijeiro. A partir de 21 de Março. Para a agenda.

Para a agenda: Strindberg em Setúbal, com o TAS



Pelas mãos e pelos gestos do TAS (Teatro Animação Setúbal), a oportunidade de ver O Sonho de Strindberg. Em 26 e 27 de Março, na agenda!


terça-feira, 3 de março de 2015

Para a agenda - "Artistas no Feminino", em Azeitão



"Artistas no Feminino", a inaugurar na véspera do Dia Internacional da Mulher, no Museu Sebastião da Gama, em Azeitão. Com prazo até 4 de Abril. Para a agenda!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Memória e lembrança: Joana Luísa da Gama faria 92 anos



Hoje, Joana Luísa da Gama (1923-2014) faria 92 anos. Lembro-a pela amizade com que me distinguiu e pela admiração que me despertou. Grande parte da sua vida, a maior parte da sua vida, foi passada a alimentar a mensagem da obra do marido, a divulgar a poesia, a humanidade e o Diário de Sebastião da Gama. Foi esse o sonho que preencheu a sua vida. Foi esse o sonho que gostava de ter continuado. Uma lembrança para Joana Luísa.
[foto: Matilde Rosa Araújo, Joana Luísa da Gama e Aurora Gama,
em Outubro de 2006, na Amadora, numa das primeiras sessões
que orientei sobre a obra de Sebastião da Gama]

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Para a agenda: Maria Clementina, a homenagem nesta ribalta da vida



80 anos de vida, muitos dos quais na ribalta, todos eles na exposição perante o mundo e os outros - eis Maria Clementina. Artista, cidadã, amiga, solidária, poeta. Amanhã, na Casa da Cultura, os amigos e admiradores vão homenageá-la, numa iniciativa promovida pela Divisão de Cultura da Câmara de Setúbal, pela livraria Culsete, pela Uniseti e pela DDLX. A não perder, a vencer as agendas!
No que à escrita respeita, Maria Clementina começou a publicar há exactamente meio século, quando, em 1965, apareceu nos escaparates o volumezinho Vazio... (poemas), assinado pelo pseudónimo Ana Cristina, por onde passa autobiografia, Setúbal, lirismo e sensibilidade. Anos depois, apareceu Alga marinha, também poesia, já com a assinatura própria de Maria Clementina.  A sua obra mais recente data de 2013 e é dedicada à arte da representação, O teatro amador em Setúbal durante o século XX.
Setúbal deve esta homenagem a Maria Clementina. Por mim, estou-lhe grato. Pela sua disponibilidade em colaborar num lote de iniciativas que lhe propus (de que destacarei a colaboração no cd "Sebastião da Gama - Meu caminho é por mim fora"), pela sua franqueza, pelo seu espírito de dádiva e de participação. E estou grato também a quem ma apresentou, depois de me ter falado dela: o Fernando Guerreiro (1938-2013), também ele artista, poeta, de recorte sensível.
Flores, então, para Maria Clementina! Neste palco da vida e dos reencontros!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

José-António Chocolate: poesia entrelaçada de tempo



O mais recente livro de José-António Chocolate, Este tempo que nos come (Setúbal: ed. Autor, 2014), poderá ser do melhor que o poeta alentejano de Santa Eulália, que tomou Setúbal como terra de adopção, fez num trajecto ligado às letras com quase 35 anos.
O título não é inócuo, pois desvenda logo o agente responsável pela duração da vida, pela ocupação dessa mesma vida, num processo de absorção que se afigura imparável. Em acrescento, há fotografias devidas a José Alpedrinha e a Ricardo Fonseca que vão enlaçando a poesia com as rugas do caminho a que metaforicamente chamamos vida, que vão registando sulcos do tempo.
Em quatro partes surge organizado o conjunto, tantas como as estações, todas ultrapassando as estações porque mexem com formas de estar e de absorver o próprio tempo ou a vida ou de sermos esculpidos por ela. “O tempo, do que se faz” é o primeiro grupo, um título em construção poética, que abre com a força desse medidor que é “Ampulheta”, mais próximo da prosa poética, anunciado com palavras quase bíblicas: “A vida não se vive, desvive-se vivendo. Cada segundo vai caindo ao ritmo certo e um a um se devolve o grão de areia caído da âmbula cheia que nos foi entregue no momento de nascer.” É este primeiro conjunto o passo para o cinzelar de uma identidade, sujeita a transformações, a sonhos, a construção lenta e medida, que se conclui com uma confidência, “Confesso que gosto de ser português”, assente em vivências e nessa identidade construída sobre uma “alma lusitana” que “nos faz acreditar que sonhar é possível”.
É de poemas mais intimistas que se compõe o grupo “O tempo que faz”, num envolvimento do sujeito poético com o seu tempo, com os seus momentos, sejam os do calendário, os da meteorologia, os das partículas de quotidiano. O texto que interrompe este grupo, “Primavera no Alentejo”, é uma declaração de afecto a esse quinhão de paraíso, criação que conseguiu confundir o seu autor – numa visita à paisagem fortemente povoada de natureza que se estende qual tapete Alentejo adentro, “Deus Criador fez-se de tamanha admiração / na dúvida que aqueles campos áridos que criou, / não fossem mais aquilo que a sua criação.”
“O tempo que se desfaz” é o quadro das memórias, o encontro com passados, trazidos ou invocados através de pessoas, de sítios, de lembranças – a casa, a infância, os amigos reencontrados ou rememorados, os momentos de descoberta – num revelado filão autobiográfico, com marcas temporais e geográficas do percurso do autor. É de grande sensibilidade o poema que finaliza este ciclo, retomando a intimidade dos momentos, convocando os ausentes, aproveitando o momento de aniversário da mãe, uma escrita que sugere a presença de interlocutor, como acontece em muitos dos textos que integram este livro – “Assim quiseste a mesa composta no dia dos teus anos, / só eu e tu, mãe, como se todo o mundo ali estivesse / e nos bastassem as conversas repetidas e as lembranças. // (…) // Assim quiseste a mesa composta no dia dos teus anos, / só nós dois tendo todos os nossos por companhia. / Tantos corações num só batendo, quando / o amor era preciso para celebrar este dia.”
Apresenta-se o quarto grupo sob o título “O tempo, o que nos faz”, período de visitação do poeta a si mesmo e às suas idealizações e convicções, momento de respeito pelas palavras e de reflexão sobre os passos do presente. Em “Sigamos o tempo”, o poeta deixa-se convencer pelo poder da sorte – “Sigamos o tempo no seu decurso / que os destino traçou.” – para, logo na estrofe seguinte, anunciar o que é o seu presente de desvendamento – “Cada vez mais procuro / encontrar-me na verdade / das coisas simples.” Mas não é apenas o destino o responsável por este presente, pois que uma outra orientação surge, como é revelado no poema de homenagem ao pai, “Que tristeza é esta…?”: “Vem-me de dentro esta dor que não enjeito / e quero que minha permaneça sentindo a tua companhia. / Podes crer, pai, que a tua bondade para mim é bom exemplo / e a tua mão calejada é que me guia.”

Pela poesia de José-António Chocolate, em Este tempo que nos come, passa uma corrente de imagens fortes do encontro do poeta consigo, transitam os valores e as convicções a que não são alheios “Abril, a clara luz da primavera” ou a opinião sobre o presente (“Onde nos leva esta gente”) ou o acentuado pendor para a evocação ou para a saudade de um tempo povoado de histórias e de pessoas que passa e que apenas se consegue reter porque a poesia tem essa capacidade de transformar as palavras em marcos de vida visitada.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Para a agenda: José-António Chocolate e o tempo como motivo poético



José-António Chocolate é nome conhecido na dinamização e na produção poética em Setúbal. Poeta há mais de três décadas, desde que, em 1981, se revelou com Ninfite - Mal de Poeta, tem publicado individualmente e tem organizado antologias de poetas. Este tempo que nos come é o seu mais recente título. Uma obra que traz o tempo para motivo poético, porque... é do tempo que se faz a vida. E, para que dúvidas não restem, o primeiro poema chama-se logo "Ampulheta". Em 21 de Fevereiro, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal. Para a agenda!


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Para a agenda: Eduardo Metzner biografado



Eduardo Metzner vai surgir biografado por Gabriel Rui Silva. Titulo: Eduardo Metzner - Vida e Obra de um Sem Abrigo. Em 20 de Fevereiro, no Centro Cultural Casapiano, pelas 16h00. Para a agenda!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Para a agenda: Adília Gaspar - a filosofia, o amor e o sexo



Adília Maia Gaspar, autora de várias obras ligadas ao ensino da Filosofia, ela própria também professora da área, chega com o seu título mais recente, Sexo, Amor e Filosofia. Na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, em 14 de Fevereiro, data em que se assinala também o Dia dos Namorados. A propósito. Para a agenda!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Para a agenda: "Viagens", uma colectiva de fotografia



"Viagens" é o título para uma colectiva de fotografia que vai começar no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal em 7 de Fevereiro. Um leque de nove autores integra a mostra: António Correia, Barbara Poliak, Francisco Borba, Guilherme Godinho, Luís Pereira, Mafalda Pires da Silva, Manuel Gardete, Maurício Abreu e Rosa Nunes. Para a agenda.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Memória: Niels Fischer (1936-2015)



Niels Fischer foi-me apresentado há uns anos por Manuel Medeiros, o livreiro que adoptou (ou foi adoptado por) Setúbal. Recordo-me do início da conversa. “Sabe quem é este senhor?” Niels olhava-me entre um ar cândido e curioso. Eu não sabia. “Mas está fartinho de ver uma obra sua…”, incentivava Manuel Medeiros. Continuava a não saber. “O logotipo do Ministério da Saúde, aquele das duas figuras que encimam as receitas médicas, com duas figuras humanas, uma verde, outra vermelha…” Ali estava o criador desse logotipo que todos os portugueses conheciam. Mas a conversa foi mais longe, bem como a apresentação. Dinamarquês, designer, apreciador sem limites de Andersen.
E ali se iniciou uma conversa longa e apreciada, que se repartiu por mais uns tantos encontros, ora na Culsete (a livraria sadina de Manuel e Fátima Medeiros), ora em algumas das exposições que pelo país foram patrocinadas por Fischer a propósito do seu conterrâneo Andersen.
Ouvia-o e sensibilizava-me o facto de um homem correr atrás da imagem de um dos mitos do seu país, ensinando-o e divulgando-o aos quatro ventos por sua conta e risco, editando-o, representando-o, recriando-o, expondo-o. Sempre com os olhos do desvendamento, sempre com a vontade de o revelar. Andersen era um farol, um amigo, e Fischer o seu embaixador. Dele ou sobre ele lançou livros, promoveu exposições, incentivou a produção de documentários, dinamizou espectáculos. Um homem que acreditou na identidade e que fez dela a sua bandeira, comunicando num português com acento nórdico, afável, com vontade de arriscar.
Admirável!
Partiu por estes dias, conforme notícias divulgadas. E largou de Setúbal, que escolhera para viver nestes últimos tempos, terra onde ensaiou experiências sobre Andersen (e onde Andersen, ele mesmo, viveu ao longo de cerca de um mês). Uma exemplar passagem pela vida. Uma convicção espantosa. Uma dedicação àquilo em que acreditava. Uma força na procura de caminhos e de portas que se abrissem, sem aceitar derrotas. Gostei de ter conhecido e de ter convivido com Fischer e estou-lhe grato. Uma boa memória.
[foto: recorte de O Setubalense, de hoje]