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quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Lucien Descaves e as andorinhas numa sociedade em guerra

 


“A guerra não dizima apenas os combatentes e os feridos, ou os doentes, a quem a paz pôs fim rapidamente. Também têm de constar nos boletins informativos de perdas os pais e as mães que respiraram esses gases asfixiantes, a angústia e a saudade, e que morreram obscuramente.” A citação surge a poucas páginas do final do romance Uma Andorinha no Telhado, de Lucien Descaves (E-Primatur, 2024), uma narrativa que ocorre num tempo entre Dezembro de 1914 e Julho de 1919, algures no Norte de França, numa vila designada pelos topónimos fictícios de Bourg-en-Thimerais ou Bourg-en-Forêt, que ganha protagonismo por acolher refugiados vindos da região francesa do Aisne durante a Primeira Grande Guerra.

Descaves (1861-1949) teve uma vida que lhe permitiu assistir a três grandes conflitos bélicos — a guerra franco-alemã de 1879, a Primeira Grande Guerra (1914-1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) —, experiências que o tornaram crítico da vida militar e da actividade política. Tendo publicado desde cedo, a sua última obra, de cunho autobiográfico, data de 1946, mas o derradeiro romance que publicou, Uma Andorinha no Telhado, é de 1924 (a edição portuguesa ocorreu no centenário da obra), originariamente divulgado em 41 folhetins diários no periódico Le Journal, entre 11 de Junho e 21 de Julho de 1923. Logo que a narrativa saiu em livro, o crítico Georges Le Cardonnel escrevia no mesmo jornal (28.Abr.1924) que se estava perante uma obra importante no domínio do romance histórico, pois seria possível, numa leitura mais tardia, “encontrar a atmosfera e a cor de uma pequena cidade durante a Grande Guerra”, considerando-a, sobretudo, “um romance de costumes” em torno de figuras, “com os seus defeitos, qualidades, virtudes e baixezas”, que caracterizam “o formigueiro humano”.

A história revela-nos características da sociedade de província, espaço em que todos se conhecem (nas coisas boas e menos boas), em que as divergências políticas acentuam os julgamentos sobre as atitudes de uns e de outros, em que a maledicência entre adversários ou produzida pela coscuvilhice se alimenta da perfídia (que “adora o mistério e as subtilezas”), em que se adoptam rivalidades silenciadoras do contacto e do bom relacionamento, em que se jogam opiniões fabricadas para desmerecer o outro. Simultaneamente, o leitor acompanha o percurso de uma personalidade romântica que morre por amor (amava e julgava-se amada, optando pelo suicídio quando soube que o homem por quem se apaixonara tinha morrido na frente de batalha), assim como entra na vida de outra personagem que, à boa maneira naturalista, gira em torno dos cogumelos, procurando-os e explicando tudo o que a ciência sobre eles sabe, bem como se confronta, ao modo realista, com uma sociedade alicerçada sobre problemas resultantes da chegada de outros (migração interna de mulheres e de crianças, motivada pela fuga dos locais em que a guerra mais atingia os mais frágeis, ou espaço de refúgio para feridos em recuperação).

O título deste romance assenta na simbologia associada à andorinha, mensageira da Primavera ou boa companhia temporária, metáfora da esperança, personificada na presença de duas crianças refugiadas, oriundas da mesma região, uma em cada família de acolhimento, que vão sendo o garante da crença que essas famílias têm de que os seus filhos (um de cada) regressem da frente de guerra sãos e salvos — as crianças funcionam assim como substitutos de outros jovens (ainda que mais velhos) que regressarão às suas origens quando estes chegarem do campo de batalha (se o ciclo não se quebrar), processo não alheio ao fenómeno da superstição, que o próprio narrador teoriza: “Uma crença não é imune a superstições, pelo contrário. As superstições são as plantas parasitas do jardim religioso. Não as arrancamos; deixamo-las invadir as áleas que não embelezam, mas consideramo-las medicinais, e é isso que as salva.”

Constituído por 22 capítulos, o ritmo deste romance não é alheio àquilo que se exige da publicação em folhetim, um constante apelo à atenção do leitor para o cativar. As descrições não são longas, o diálogo e a acção são intensos, os comentários críticos (muitas vezes, irónicos) aos contextos são expressivos pelo que retratam ou pelo que fazem pensar, o desfecho de algumas situações surpreende o leitor. Não sendo um romance sobre a frente de combate (tema em que a literatura francesa sobre a Grande Guerra é rica, seja no domínio do autobiográfico, seja no da ficção), é, sem dúvida, como dizia o crítico já mencionado, Georges Le Cardonnel, “um pequeno estudo sobre a humanidade e sobre a sociedade, num terrível período em que o país se teve de reorganizar na guerra”.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1592, 2025-09-03, pg. 10


sexta-feira, 23 de abril de 2021

A guerra pela lente de Garcez

 


Começou por ser aprendiz de relojoeiro, mas o seu destino caiu sobre a arte fotográfica. Em comum entre as duas áreas, havia a precisão do instante - no primeiro caso, porque todos os instantes são medidas de tempo; no segundo, porque os instantes são captados e eternizados. Nascido em Santarém, Arnaldo Garcez (1885-1964) é o nome que associamos à reportagem visual da participação portuguesa no conflito mundial de 1914-1918, essa guerra que foi a primeira “a ser fotografada a partir de dentro”, como lembra António Pedro Vicente no livro Arnaldo Garcez - Um repórter fotográfico na 1ª Grande Guerra (Centro Português de Fotografia, 2000).

As fotografias de Garcez têm sido o suporte visual mais importante para ilustrar o que foi a vida do CEP (Corpo Expedicionário Português), desde o improvisado campo de instrução e de treino em Tancos (1916) até à celebração do Dia da Vitória (1919).

Por elas passa o quotidiano dos soldados em guerra, menos a acção da guerra ao vivo; no entanto, são elucidativas quanto às consequências dessa mesma guerra. Podemos ver momentos de descanso, de preparação técnica, de solidão, de encontro de cada qual consigo, de movimentação, de visitas oficiais; podemos ver cenas de destruição, de arremedo do que foi o terreno organizado e tratado, de aniquilação da paisagem natural ou construída. É sobretudo neste último grupo que podemos ter a percepção do que foi o sofrimento e a dor que esta guerra trouxe. Refere António Pedro Vicente que “a morte não era objecto fotográfico”, mas “a casa destruída, os campos devassados, as crateras abertas pelas bombas, os campos devastados, as árvores reduzidas a um tronco nu e chamuscado dão-nos, tacitamente, a imagem subentendida dos horrores então vividos”.

Esta riqueza documental que domina as fotografias de Garcez torna-as absolutamente incontornáveis se quisermos contar a Grande Guerra que os portugueses viram, sentiram e viveram, individual ou colectivamente. Daí que, logo na altura, muitas delas tenham sido usadas numa publicação como o semanário “Ilustração Portuguesa” para ir dando notícias da frente europeia em que o CEP participou, ou tenham sido aproveitadas para séries de postais com títulos como “Portugueses na Frente de Batalha” ou “Os Portugueses em França”, impressos pela casa parisiense Lévy Fils & Cie., uma das mais prestigiadas nesta área. Ainda hoje, a documentação fotográfica portuguesa da Grande Guerra vive dos momentos que Arnaldo Garcez eternizou, como podemos ver numa obra como Imagens da I Guerra Mundial, de Conde Falcão (1998).

Arnaldo Garcez - Um repórter fotográfico na 1ª Grande Guerra, além do pequeno mas importante estudo de António Pedro Vicente, reúne cerca de quarenta fotografias do fotógrafo escalabitano, mostra diversificada de situações e de áreas temáticas que poderiam ser consideradas - treinos militares, deslocação de tropas, quotidiano nas trincheiras, visitas oficiais às tropas portuguesas, relação com a população local, ruínas após ataques, assistência médico-hospitalar aos feridos, cemitérios de guerra. Mesmo sabendo-se que Garcez, depois de ter cumprido a encomenda da reportagem sobre a preparação militar do CEP em Tancos, partiu para a Flandres, equiparado a alferes, para ser o fotógrafo oficial (e, como tal, condicionado quanto ao que registou, pois integrava os serviços de propaganda), a verdade é que, se não fosse a sua recolha de instantes e a sua curiosidade, não poderíamos ler o “filme” da presença portuguesa. Em linha com outros artistas (amadores, a maioria), Garcez acabou por ser testemunha, como referiu Osvaldo Macedo de Sousa em Artistas-Militares na Grande Guerra (2018), “de um momento de suma importância na história da humanidade”, contribuindo “para criar uma visão lusa desta intervenção bélica”.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 607, 2021-04-23, p. 20.


quinta-feira, 15 de abril de 2021

João de Barros: memórias de Bruges em apoio à Bélgica



Na edição de 23 de Novembro de 1914 da Ilustração Portuguesa, Augusto de Castro assina uma crónica emocionada cujo assunto é o poema Ode à Bélgica, de João de Barros (1881-1960), publicado por essa altura: “canta, num ritmo emotivo e poético, as lágrimas e as ruínas da Bélgica violada e massacrada. (...) Chora a dor da Bruges triste, das cidades incendiadas, dos lares enlutados, dos templos destruídos - e a sua visão evoca a Bélgica redimida de amanhã.”

Em causa estava o sofrimento belga, no contexto da Primeira Guerra Mundial, pois, logo no início de Agosto, o país, que se afirmara neutro, foi invadido pelos alemães e, até Outubro de 1914, padeceu de violência sobre a população civil em elevado grau, sendo referência maior o massacre de Dinant, em 23 de Agosto, com 674 civis fuzilados.

Dedicado aos “amigos de Bruxelas”, o poema é organizado em seis partes, composto por dísticos e um monóstico no final da primeira parte, em métrica hendecassilábica. O tom do sofrimento surge logo no início - “Bélgica formosa, Bélgica fecunda, / Bárbaros sem alma vão-te assassinar! // Na loucura torpe, que incendeia e mata, / sobre ti lançaram garras de ambição! // Sobre ti lançaram, corpo e tenro moço, / mãos de violência, de extermínio e roubo!” -, sendo toda a primeira parte povoada com imagens da destruição por causa da guerra. Perante tal devastação, o poeta lembra na parte seguinte os aspectos bons que o ligam à Bélgica - pessoas, paisagem, paz - até chegar à memória das cidades, ao mencionar “a melancolia dessa Bruges morta, / da cidade morta dos canais que sonham”, imagem em que ressoa o título de Georges Rodenbach (1855-1898), Bruges, a morta, de 1892, personificação daquele espaço, ou um conhecido poema de Mallarmé (1842-1898) dirigido aos amigos belgas, textos que quase conferem o estatuto de romantismo e de arquétipo àquela cidade.

A terceira e a quarta partes constituem uma tela de saudade e de evocação sobre Bruges, onde o poeta ouviu “um Passado inteiro palpitar, erguer-se”: figuras das rendeiras de bilros, “cantos esquecidos”, imagens do passado de artistas e de príncipes, sonoridades dos sinos e dos canais, luminosidade e névoa, uma “paleta” para se “combinarem os mais raros tons”, um espaço para amar. Este êxtase é contrariado quando o poema se aproxima do final, perante uma cidade esmagada e melancólica sob o peso invasor - “Pois o teu encanto, pois a tua graça, / Bruges sem defesa, já tos violaram! // Bruges dolorosa, Bárbaros sem alma / pisam tuas ruas, turvam teus canais!”

O poema conclui com a esperança na recuperação dos valores que a Bélgica representava, assentando sobre um tom exortativo e heróico - “Tu, caminha e luta; tu, combate e canta / Alma de coragem, Força de triunfo!” - e anunciando um ressurgimento “que há-de ser em breve, Bélgica formosa, / Bélgica fecunda, teu Futuro altivo!”

Em 7 de Março de 1915, em Lisboa, no Politeama, Ode à Bélgica era apresentada como poema sinfónico, em composição do grandolense Teófilo Saguer, estruturado em três números - “Bélgica invadida”, “Rendeiras de Bruges” e “Bélgica heróica” -, que “recebeu muitos aplausos, o que também não nos admira, pois o assunto está na ordem do dia”, assinalava o crítico da revista A Arte Musical, de 15 de Março.

Com esta obra, João de Barros enfileirava no rol dos artistas e pensadores republicanos cuja arte favorecia a propaganda contra a Alemanha no conflito da Grande Guerra.

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 600, 2021-04-14, p. 5


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

"O Mundo de Ontem": O testamento-testemunho de Stefan Zweig



Em 1938, Stefan Zweig (1881-1942) perdia a nacionalidade austríaca e, no ano seguinte, instalava-se em Bath, tendo conseguido obter nacionalidade britânica em 1940. Nesse final de década, começava a redacção da obra O Mundo de Ontem - Recordações de um Europeu, obra que continuaria no Brasil, em Petrópolis, onde se instalaria, ainda em 1940, depois de uma estadia nos Estados Unidos. No Brasil, publicaria uma obra sobre o seu sentimento por aquele país, intitulada Brasil, Terra de Futuro (1941), que não teve a melhor recepção. Em Fevereiro de 1942, Zweig e Lotte Altmann, segunda esposa, suicidavam-se na terra brasileira que tinham escolhido para viver. O Mundo de Ontem entraria para o catálogo das obras póstumas, apenas tendo tido edição em 1944, em Estocolmo, através do editor Bermann-Fischer. Dois anos depois, a obra foi editada em Portugal (Porto: Civilização), tendo tido quatro edições até 1970; em 2005, a edição portuguesa apareceu sob a responsabilidade da Assírio & Alvim (com reedição em 2014) e, em 2017, passou a coexistir na editora Alêtheia; em 2016, foi realizado por Maria Shrader o filme Stefan Zweig - Adeus, Europa (com Josef Hader a desempenhar o papel do escritor), grandemente inspirado nesta obra memorialística.
Praticar o memorialismo implica recorrer à memória e a fontes documentais que apoiem a memória. Ora, logo no prefácio a esta obra, Zweig dá conta de que escreve este texto apenas com recurso às suas próprias recordações: “Escrevo-as em plena guerra, escrevo-as no estrangeiro e sem o menor auxílio de memória. Não disponho, no meu quarto de hotel, de nenhum exemplar dos meus livros, de nenhumas anotações, de nenhumas cartas de amigos. (...) Não tenho comigo nada do meu passado, a não ser o que guardei por trás da testa.” Se, no início, refere não se atribuir a si próprio uma tal importância que justifique o contar a sua história de vida, uns parágrafos adiante explicará o porquê desta exposição: “Fui à força testemunha indefesa, impotente, do inimaginável retrocesso da humanidade a uma barbárie que há muito se pensava esquecida com o seu dogma consciente e programático de anti-humanismo. (...) Penso ser minha obrigação testemunhar esta nossa vida tensa, dramaticamente surpreendente, pois cada um de nós foi testemunha destas gigantescas transformações, cada um de nós foi obrigado a sê-lo.”
Austríaco e judeu, oriundo de uma família da alta burguesia, liberal, Zweig passou por uma vida de liberdade, confrontou-se com duas guerras mundiais, conheceu a celebridade, sentiu os efeitos do nazismo e viveu na opressão. O Mundo de Ontem dá conta desse trajecto, falando-nos de uma infância e juventude felizes (visível na metáfora do título do capítulo “O mundo da segurança”) na sociedade vienense; relatando os múltiplos contactos culturais que se cruzaram na sua vida, com escritores, músicos, pintores, editores; descrevendo formas de viver, que passam por hábitos, moda, identidades; revelando as descobertas de uma vida, fosse na progressão dos estudos e das ideias, fosse no conhecimento das cidades e do mundo; mostrando a sua evolução nas ideias em favor do pacifismo, pelo menos desde 1915.
Os dois momentos que mais marcam Zweig são os confrontos bélicos europeus por que passou. Em 1914, a Primeira Grande Guerra mobilizou Zweig, por razões de saúde, para um arquivo militar, que produzia e recolhia informação sobre a guerra. Contudo, este momento histórico levou-o também a questionar-se e, vinte e sete anos depois, quando redigia esta obra, escrevia: “Se hoje, reflectindo com toda a calma, perguntarmos por que motivo a Europa entrou na guerra em 1914, não encontramos uma única razão plausível e nem sequer um pretexto. Não estavam em jogo ideias, mal estavam em jogo as pequenas regiões fronteiriças; não encontro outra explicação que não seja o excesso de energia, consequência trágica daquele dinamismo interno que se tinha vindo a acumular ao longo desses quarenta anos de paz e que queria agora libertar-se com toda a violência. Cada Estado adquirira subitamente uma sensação de força e esquecera-se de que o outro sentia exactamente o mesmo; cada um queria ainda mais e cada um queria tirar partido do outro. E o pior é que foi justamente o sentimento que mais prezávamos - o nosso optimismo colectivo - que nos enganou. Pois cada um pensava que o outro recuaria no último minuto, assustado.”
Se estas observações têm o peso da idade e do tempo, elas também servem para mostrar o quão hedionda foi a entrada na Segunda Grande Guerra - relembra Zweig que a primeira teve o envolvimento da população, ainda que com recurso a um sentir idealista: “uma rápida excursão romântica, uma aventura impetuosa e viril, era assim que a imaginação do homem simples de 1914 pintava a guerra, e os mais novos receavam sinceramente poder perder a oportunidade de viver algo de maravilhosamente excitante”. Contudo, tendo o primeiro conflito trazido o sofrimento e as agruras que são sabidos, Zweig confronta-se com o inacreditável da guerra seguinte: “a geração de 1939 conhecia a guerra. Já não tinha ilusões. Sabia que não era romântica, mas sim bárbara. Sabia que iria durar anos e anos, um período de vida irrecuperável.” Os objectivos e as razões das duas guerras seriam, assim, diferentes.
Como escritor, Zweig acreditava que, no início do primeiro conflito, as pessoas ainda confiavam no “poder da palavra”, ao passo que, depois, a palavra foi “cavalgada até à morte pela mentira organizada”, algo que lhe serve para explicar a participação dos poetas nos textos sobre a guerra de 14 ou o seu silêncio na segunda guerra, pelo menos até ao momento de escrita desta obra. Este sentimento entranha-se em Zweig logo em 1915, quando foi destacado para ir à Galícia em busca de manifestos, proclamações e editais russos, aí se tendo deparado “com os verdadeiros horrores da guerra”, que ultrapassavam os seus “piores receios”. Foi essa acção que o levou a escrever a peça teatral Jeremias, construída em nove quadros, publicada em Leipzig em Julho de 1917 e representada, ainda que numa versão reduzida a cinco quadros, em Fevereiro de 1918, em Zurique (a obra teve edição portuguesa em 1942, na editora Civilização, tendo chegado à sétima edição em 1978), dando protagonismo ao profeta Jeremias como pregador em defesa da paz.
O tom pacifista sempre o orientou a partir daí, começando a impor-se-lhe a ideia de uma “união espiritual da Europa”, travada em 1933, quando “um determinado homem” veio “destruir o nosso mundo”, o novo chanceler. Refere-se, obviamente, a Hitler, “o nome do indivíduo que fez desabar sobre o nosso mundo uma tragédia maior do que qualquer outra em qualquer outra época”.
Para Zweig, estavam chegados momentos de agonia e de desilusão. “Muitas vezes, nos meus devaneios de cosmopolita, imaginei secretamente como devia ser maravilhoso, e tão em consonância com a minha mais profunda maneira de sentir, não ter nacionalidade, não ter obrigações em relação a nenhum país e pertencer por isso, indiferentemente, a todos eles.” Contrariamente a esta ideia, quando tinha 58 anos, ficou sem passaporte e descobriu que “aquilo que se perde com a nossa pátria é mais do que um pedaço de terra limitado por fronteiras”.
A opção do escritor pelo Brasil aconteceu depois de um peregrinar em que o objectivo era o “ir para longe”. O livro fecha com a lembrança de uma caminhada na cidade de Bath, no dia em que se soube que a Alemanha tinha invadido a Polónia (1 de Setembro de 1939) e que marcou o início da guerra. Caminhando em direcção a casa, Zweig repara na sua sombra, que o precedia, “tal como via a sombra da guerra passada por trás da guerra presente”. A imagem manteve-se desde essa data até à conclusão do livro, porque, “em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.”
Vale a pena a leitura deste livro. Para compreender e conhecer o autor, obviamente, e toda a plêiade de artistas, intelectuais e pensadores com quem se relacionou (Joyce, Rilke, Dalí, Freud, Rolland, Claudel, Gorki, Mann, Valéry, Toscanini, Richard Strauss, Ravel, entre tantos outros). Para sentir o que foi a peregrinação da Europa nas primeiras quatro décadas do século XX, oscilando entre momentos felizes e tempos desastrosos, em que surgiram as promessas, os populismos, os refugiados, a falta de âncoras. Porque sentimos que quem se escreve está também a (re)conhecer-se e a avaliar-se. O relato comove e faz pensar, sobretudo pela serenidade com que tudo é dito, advinda de uma forma intensa de viver...

Sublinhados de O Mundo de Ontem
Cidade - “Uma cidade parece-nos diferente consoante se tenha decidido aí permanecer ou apenas visitá-la.” 
Concentração - “O mistério eterno de toda a grande arte e até mesmo de toda a capacidade humana: a concentração, a aliança de todas as energias, de todos os sentidos, o abstrair-se de si próprio, a abstracção do mundo que acompanha qualquer artista.”
Costumes - “Quando os costumes dão liberdade ao homem, o Estado oprime-o; quando o Estado lhe concede liberdade, são os costumes que tentam moldá-lo.”
Criação - “De todos os numerosos enigmas do mundo que ainda não foram deslindados, o mais profundo e misterioso continua a ser o segredo da criação. Aqui, a natureza não deixa que a espiemos, nunca nos permitirá entrever esse artifício derradeiro: de como a terra surgiu, ou de como surge uma florinha, ou um poema, ou um ser humano. Neste ponto, ela não deixa cair o seu véu, implacável e inflexível. O próprio poeta e o próprio músico já não serão capazes de explicar posteriormente o momento de inspiração. Estando a obra terminada, o artista já nada sabe sobre a sua génese, o seu crescimento, o seu rumo. Nunca ou quase nunca será capaz de explicar como os seus sentidos elevados conseguiram juntar as palavras numa estrofe, os tons isolados em melodias que soarão através dos séculos. A única coisa que pode dar uma vaga noção do inexplicável processo de criação são as folhas manuscritas, sobretudo as que ainda não se destinavam a ser impressas, cheias de correcções, os primeiros rascunho ainda incertos, a partir dos quais, só então, e gradualmente, se iria cristalizar definitivamente a forma futura.”
Destino - “Por mais intrincado e absurdo que possa parecer o caminho que nos desvia dos nossos desejos, ele acaba sempre por nos conduzir ao nosso destino invisível.”
Diabo - “Quando se fecha a porta ao diabo, ele em geral força a entrada pela chaminé ou pela porta das traseiras.”
Época - “É mil vezes mais fácil reconstruir os factos de uma época do que o seu estado de alma.”
Esperança - “Nas horas de perigo, a vontade de poder ainda voltar a ter esperança é sempre imensa.”
Fama - “A mais perigosa tentação de carácter.” 
Guerra - “A técnica de culpar o soldado inimigo por toda e qualquer crueldade que se possa imaginar faz parte, tal como as munições e os aviões, do próprio material de guerra.” 
Infância - “Não é possível eliminar aquilo que, na sua infância, um homem absorve no seu sangue com o ar do tempo.”
Nome - “Qualquer tipo de publicidade representa uma perturbação do equilíbrio natural de uma pessoa. Numa situação normal, o nome que se tem é o equivalente à cobertura exterior do charuto: uma marca distintiva, um objecto exterior, quase sem importância, que apenas tem uma ligação frouxa com o sujeito real, com o verdadeiro eu. Em caso de sucesso, o nome, de alguma forma, aumenta de volume, separa-se do indivíduo que o usa, e torna-se ele próprio num poder, numa força, numa coisa em si, num artigo comercial, num capital e, com violento repelão, transforma-se, por sua vez, interiormente, num poder que começa a influenciar, a dominar, a transformar a pessoa que o usa. As naturezas felizes e conscientes do seu valor costumam identificar-se inconscientemente com a influência que exercem. Um título, um posto, uma condecoração e, por maioria de razão, a publicidade ao nome, conseguem fazer nascer nelas uma maior segurança, uma confiança acrescida em si próprias e induzi-las a acreditar que lhes cabe um papel particularmente importante na sociedade, no Estado e na sua época; involuntariamente inchem-se de vaidade, para que a sua pessoa fique a par do volume alcançado pela influência que exteriormente exercem. Mas quem seja por natureza desconfiado em relação a si próprio sente que todo o tipo de sucesso exterior o obriga a manter-se, tanto quanto possível, igual a si mesmo, justamente por ter alcançado tão difícil posição.”
Pai - “Na vida de qualquer um de nós, chega inevitavelmente o momento em que reencontramos o próprio pai na nossa própria imagem.”
Privacidade - “É ao cometer um delito hipócrita contra a natureza que a sociedade se mostra sempre mais cruel para com os que põem a descoberto e tornam público o seu segredo.”
Proibir - “É o calafrio da coisa proibida e negada que aumenta misteriosamente a sensação de prazer.”
Proibir - “Só o que se recusa alimenta a lascívia, só o que se proíbe exacerba o desejo e quanto menos os olhos v[êem] e os ouvidos ou[vem], tanto mais os pensamentos sonh[am].”
Raça - “A pureza da raça, uma peste mais funesta para o nosso mundo do que a autêntica peste dos séculos passados.”
Sombra - “Em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.”
Tempo - “Os grandes momentos estão sempre para lá do tempo.”
Ver - “Uma única impressão óptica, fornecida pelos sentidos, sempre exerceu maior influência sobre a alma do que mil artigos de jornal e mil brochuras.”

Sublinhados de Jeremias
Angústia - “Quando se tem uma angústia que não se pode dominar é preciso falar-se. Não adianta nada, mas serve de alívio.”
Guerra - “A guerra é grande nos livros, mas na realidade ela é aquilo que degola e profana a vida.”
Guerra - “É um animal mau e indomável: aos fortes come a carne; aos poderosos suga o miolo; mói as cidades com as suas maxilas e as suas patas talam os campos.”
Palavra - “Não é só a espada que que termina a guerra, muitas vezes a palavra a aplaca.” 
Povo - “O povo alegra-se com todas as palavras sonoras e o fausto e a pompa fazem-no correr.”
Sujeição - “Não se pode vencer o invisível! Podem-se matar os homens, mas não o Deus que vive neles. Pode-se submeter um povo, mas não o seu espírito.”

domingo, 11 de novembro de 2018

Valle-Inclán: As ruínas das coisas e das vidas que a guerra alimentou



“Era meu propósito condensar num livro os vários e diversos lances de um dia de guerra em França.” Assim começa Ramón del Valle-Inclán o seu livro A Meia-Noite - Visão Estelar de um Momento de Guerra recentemente editado em versão portuguesa (Porto Editora / Assírio & Alvim, 2018). Era, pois, intenção do autor relatar a guerra, a partir de diversas latitudes e a um tempo, de forma a haver uma visão de conjunto. Coisa impossível, como se imagina - e como o próprio autor admitiu no mesmo texto prefacial, ao dizer que “todos os relatos estão limitados pela posição geométrica do narrador.”
Valle-Inclán (1866-1936), galego, pertencente a um país que manteve a sua neutralidade aquando da Primeira Grande Guerra, cedo assumiu uma posição a favor dos Aliados, ao subscrever, em 1915, o “Manifiesto de los Intelectuales Españoles”. No ano seguinte, em Abril, por indicação do seu amigo Jacques Chaumié, tradutor, visitaria França, andando, pelos finais de Maio e início de Junho, pela “Frente”, na zona das trincheiras. Passados uns meses, entre Outubro de 1916 e Fevereiro de 1917, o periódico madrileno El Imparcial publicaria as crónicas resultantes dessa viagem, que Valle-Inclán reuniria em livro ainda em 1917, apresentando visões de uma guerra que só viria a acabar em Novembro de 1918.
Ainda na nota introdutória, Valle-Inclán refere já indicações do que viria a ser o sofrimento por causa da guerra, antecipando um quadro que foi real e dramático: “Quando os soldados de França voltarem às suas aldeias, e os cegos caminharem pelas veredas com os seus cães, e os que não têm pernas pedirem esmola à porta das igrejas, e os mancos correrem de um lado para o outro com alegre ofício de recebedores do dízimo; quando no fundo dos lares se nomearem os mortos e se rezar por eles, cada boca terá um relato distinto, e serão centenas de milhares os relatos, expressão de outras tantas visões, que acabarão por resumir-se numa visão, cômputo de todas. Desaparecerá então o pobre olhar do soldado, para criar a visão colectiva.” De facto, todas as marcas que ficaram da guerra, físicas ou psicológicas, assemelharam-se a um estado de ruína humana, povoado pela dor, pelo sofrimento, pelo desgaste e pela descrença. Depois de um século cheio de guerras como foi a época oitocentista, o menos desejado era o ciclo da guerra - mas foi exactamente o que aconteceu.
Nas trincheiras visitadas por Valle-Inclán, fedia “a morto como na jaula das hienas”, não se calando “o estrondo do canhão rolante pelo seu céu”. O desprezo pelo humano era intenso - “os ratos correm vivazes pelos taludes, as ratazanas aguadeiras pelo fundo lamacento, e rajadas de vento trazem frias pestilências de cadáver”. O repórter vai passando e o que vê são marcas dessa ruína que dos edifícios passa para os humanos e para as relações pessoais - se, de um e de outro lado, “as casas mostram os seus esqueletos vermelhos e fumegantes”, noutro ponto, são “cadáveres de alguns soldados alemães” que “flutuam nas águas” apresentando um aspecto de horror, “inflados e tumefactos”, uns sem cabeça, outros com marcas de flagelo nos corpos.
Os cenários descritos são infernais - aldeias a arder, personagens trágicas, bombas que cavam a terra. E, enquanto a tempestade de ferro atroa os ares na sua função destruidora, “os mortos ficam para trás, esmagados sobre a terra, seminus, com as roupas desfeitas pelas explosões” e os feridos “arrastam-se pelas esgaivas, procuram onde esconder-se, e, encontrando um local seguro, levantam os seus clamores pedindo socorro”. Para onde o olhar se dirija, “a névoa está cheia de vozes perdidas, empenhadas de dor”.
Foi Aquilino Ribeiro que, em Alemanha Ensanguentada (1935), registou sobre os bombardeamentos da cidade de Arras que “nesta linha se escreveu uma epopeia de sangue e de bravura que escurece a Ilíada”. Nessa viagem aos campos de batalha que Aquilino fez em 1928, embora assistindo-se já à reconstrução ensaiada pelos franceses, vai havendo sempre margem para registar as “árvores decapitadas”, a paisagem que “trasborda de melancolia” ou o chão em que “os mortos escutam”. Dez anos eram passados sobre o final da Grande Guerra e as marcas da dor e do sofrimento permaneciam, mesmo que sob as luzes da reconstrução. A mesma cidade de Arras foi apresentada, depois de destruída, por Valle-Inclán como “o espectro de uma cidade bombardeada”.
Na sua missão de observador, o cronista vai também contando histórias ouvidas, dramáticas de dor, pungentes no sofrimento que transmitem, como a da rapariga francesa grávida que se volta para o médico e clama: “Doutor, eu não quero ter um filho dos bárbaros!... Não quero carregar com este! Se não me liberta desta cadeia, mato-me!”
Valle-Inclán participou também numa viagem aérea de observação e sentiu como os soldados a tensão do assalto às trincheiras, ora classificado com qualitativos como “magnífico” e “pujante”, ora anulado o heroísmo perante um “cego impulso de vida sobre o fundo de dor e de morte”.
As crónicas são curtas (pouco mais de uma centena de páginas para quarenta capítulos), não ultrapassando o absolutamente necessário quanto a narração ou a descrição, mexendo sobretudo com a forma de sentir. O parágrafo final apresenta uma ideia premonitória do que será o final da guerra, trazida pelo nascer do dia que permite ver o que aconteceu durante a noite: “Nos átrios das velhas cidades estalam as granadas, caem as pedras das catedrais, os pórticos corados de santos tremem nos seus cimentos, rompem-se as rosáceas, e as andorinhas voam assustadas pelas naves desertas. À luz do dia que começa, a terra mutilada pela guerra tem uma expressão dolorosa, reconcentrada e terrível.”
Os textos deste A Meia-Noite - Visão Estelar de um Momento de Guerra encontram unidade no cenário catastrófico que se vai tornando visível, espécie de caos, num mundo povoado de destruição, construído de ruínas. As personagens que entram nas histórias são fugazes, ajudando a compor o sentido da dor, quase tendo necessidade de desaparecerem, não vá a ruína tomar conta delas...
Não sendo esta uma obra dominada pelo cunho autobiográfico de um combatente - que Valle-Inclán não foi -, é preenchida pelo traço autobiográfico do testemunho, questionando a guerra e todos os seus efeitos, confrontando o heroísmo humano com a morte, afinal o que mais hipóteses tem de acontecer numa situação de guerra. Rapidez, leveza e emoção, associadas a uma quase prosa poética, em que o ser humano se confronta com o inimaginável, são aspectos fortes deste livro, que ajuda o leitor a conhecer o cenário que os combatentes usaram, já que são eles, colectivamente, que agem em todas as histórias e que, pensando na vitória, semeiam a tempestade bélica.
Esta obra de Valle-Inclán é uma proposta de leitura para este tempo em que passa o centenário do armistício, uma proposta de leitura para que o mundo seja construtor de paz e não espaço de guerra.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Para a agenda - Leituras da Grande Guerra: o último fuzilado, as memórias, o impacto social e político



A Biblioteca Pública Municipal de Setúbal recebe no sábado, 27 de outubro, a apresentação da obra “João Almeida, o último Fuzilado, e outras leituras da Grande Guerra”, da autoria de Albérico Afonso Costa e João Reis Ribeiro.
A obra, apoiada pelo Instituto Politécnico de Setúbal, será apresentada por Viriato Soromenho-Marques, em sessão marcada para as 18h00.
Quase a completar-se o ciclo de memória do centenário da Grande Guerra, este livro é constituído por seis abordagens relacionadas com esse momento histórico: “A receção do antimilitarismo no movimento operário português”, “Os partidos políticos face à Guerra”, “Jaime Cortesão: um intelectual perante a Guerra”, “Aquilino Ribeiro – diário do início da Guerra”, “O impacto social e político da I Grande Guerra no movimento operário” e “O fuzilamento do soldado João Almeida – Da farsa de um julgamento à tragédia de uma execução”. As fontes principais para a organização desta obra foram a imprensa da época, os testemunhos memorialísticos sobre esse tempo histórico e documentação preservada em alguns arquivos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Para a agenda: João Almeida, o último fuzilado, e outras histórias da Grande Guerra



Seis abordagens relacionadas com a Primeira Grande Guerra - “A recepção do antimilitarismo no movimento operário português”, “Os partidos políticos face à Guerra”, “Jaime Cortesão: Um intelectual perante a Guerra”, “Aquilino Ribeiro - Diário do início da Guerra”, “O impacto social e político da I Grande Guerra no movimento operário” e “O fuzilamento do soldado João Almeida - Da farsa de um julgamento à tragédia de uma execução” - constituem o conteúdo da obra João Almeida, o Último Fuzilado, e Outras Leituras da Grande Guerra, assinada por Albérico Afonso Costa e por João Reis Ribeiro e apoiada pelo Instituto Politécnico de Setúbal.
Está para breve, as provas já estão em revisão...

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Grande Guerra - Saudação aos combatentes palmelenses


Os deputados da coligação PSD/CDS da Assembleia Municipal de Palmela apresentaram voto de saudação aos combatentes palmelenses que participaram no Corpo Expedicionário Português (CEP), na Primeira Guerra Mundial, iniciativa que teve unanimidade.
O concelho de Palmela já anteriormente homenageou os seus combatentes e aqueles que tombaram na Grande Guerra, como, por exemplo: na exposição “Quadros da Guerra 2015” (entre Setembro e Dezembro de 2011); na exposição bibliográfica “Quando os Portugueses andaram na Grande Guerra”, na Biblioteca Municipal de Palmela, entre 14 de Janeiro e 11 de Fevereiro de 2012; na inauguração de memorial a propósito, em 1 de Novembro de 2012; na “newsletter” do Arquivo Municipal de Palmela de Setembro de 2013, em que foi dado destaque aos combatentes palmelenses mortos durante o conflito. Abaixo se reproduz notícia sobre a moção apresentada pela coligação PSD/CDS, saída em O Setubalensede hoje.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Para a agenda: Diogo Ferreira e a Setúbal do tempo da Grande Guerra



Diogo Ferreira, setubalense, tem dedicado parte importante da sua vida à investigação sobre a sua terra e ao contar a História. Setúbal e a Primeira Guerra Mundial é o título da sua tese de mestrado, obra que vai ser apresentada publicamente em 25 de Novembro, pelas 16h00, no auditório da Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal, com intervenção de Maria Fernanda Rollo, que foi também a orientadora da tese. Uma edição da Estuário, marca editorial do setubalense José Teófilo Duarte. Para a agenda!

sábado, 18 de novembro de 2017

Diogo Ferreira e Marquês de Sousa: Lembrar os combatentes setubalenses da Grande Guerra



Num tempo em que se assinala a memória do que foi a Grande Guerra de 1914-1918, aquela que depois se pensou ser a última de todas as guerras (!!!), é bom que essa evocação não passe apenas pelas datas dos feitos militares, mas que relembre sobretudo os homens e as mulheres que nela intervieram de forma directa ou indirecta. Tão importante como saber as causas e as consequências será conhecer quem foram os heróis que por lá passaram, durante anos remetidos para o anonimato, lembrados num culto (importante, mas esquecendo os nomes) ao “soldado desconhecido”, e muito pouco recordados como personagens reais de um não menos real sofrimento, adviesse ele das condições da guerra, das instabilidades causadas nas relações familiares, da dor sentida, fosse ela física ou psicológica.
Setúbal, felizmente, entrou desde cedo no percurso da memória, ao ter, logo em 1924 (ano da criação da Liga dos Combatentes da Grande Guerra), a sua sub-agência desta organização, aqui presidida pelo médico e professor Cipriano Mendes Dórdio, ao conseguir, sete anos depois, em 1931, erigir o monumento de memória aos combatentes e ao ter implantado na toponímia referências a esse acontecimento avassalador, pela surpresa e pelo desgaste, que foi a Grande Guerra.
Diogo Ferreira e Pedro Marquês de Sousa meteram mãos à obra para nos dizer quem foram os combatentes do concelho de Setúbal, por onde andaram, o que sofreram, ao publicarem a obra Os Combatentes do Concelho de Setúbal na Grande Guerra em França (1917-1918), editado em Julho pelo Núcleo de Setúbal da Liga dos Combatentes. Trata-se de uma obra indispensável para a cidadania e para a memória setubalenses, apresentada em quatro importantes grupos: a contextualização do que foi a Grande Guerra e a forma como Portugal nela se integrou; os registos biográficos dos cerca de 210 combatentes de Setúbal e de Azeitão que partiram rumo à Flandres (alguns tendo combatido também em África na primeira fase do conflito); o cenário da hierarquia e organização militar em que os setubalenses intervieram, com indicação das missões que lhes estavam cometidas; a história e o papel da Liga dos Combatentes da Grande Guerra em Setúbal nos seus sete anos iniciais (até à inauguração do monumento aos Combatentes).
Passa o leitor por cerca de duas centenas de páginas em que se desenrola o filme da guerra, com os seus actos em grupo, e em que se convive com cada um dos combatentes naquilo que pode ser dado pelas fichas militares e do arquivo da própria Liga, sendo possível encontrar: irmãos em combate (os Conte-Turpia e os Lápido Lourenço, por exemplo); “um dos setubalenses que mais tempo serviu na Grande Guerra” (Barbosa Cardoso); um combatente que se apaixonou por uma francesa (Morais Teixeira); “um dos setubalenses com maior número de louvores por ocasião da Grande Guerra” (Barros Carmona); outro que integrou a histórica e lendária Brigada do Minho (Centeno Júnior); os vários que combateram La Lys em 9 de Abril de 1918; os vários que foram feitos prisioneiros na sequência de La Lys (indo, sobretudo, para os campos de Friedrichsfeld, Munster II e Dulmen); os muitos que foram punidos (por se apoderarem ilegitimamente de bens alheios, por jogarem a dinheiro, por não cumprimento do regulamento militar, por desrespeito à hierarquia, por falsificação de documentos, etc.); os condecorados pelo estatuto de herói (como foi o caso de Manuel Bernardino de Almeida, por “socorrer a população, tirando dos escombros os mortos e os feridos”); um combatente poeta e fadista, que também divertia os camaradas, como foi o caso de Vicente José da Silva Penim.
Para lá de toda esta diversidade, é o contacto também com a morte, com aqueles que não puderam trazer a memória mas na memória ficaram - o actual concelho de Setúbal perdeu 9 homens durante esse conflito e, se associarmos os 6 do actual concelho de Palmela (que, na altura, integrava o concelho de Setúbal), o número passa para 15, assim ocupando o segundo lugar no número de mortos e desaparecidos dos concelhos que compõem o distrito de Setúbal, depois de Santiago do Cacém, que teve 12 mortos e 5 desaparecidos.
Esta obra de Diogo Ferreira e de Pedro Marquês de Sousa é de leitura obrigatória para um encontro com a história e para vermos os heróis que a História sacrificou, muitos deles ligados a famílias que ainda hoje existem. A memória da Grande Guerra foi durante muito tempo esquecida em Portugal por variadas razões, mas, a partir deste centenário, temos a obrigação moral e cívica de não deixar que esse esquecimento impere, sendo esta obra um bom contributo para isso. Recordo que, há duas décadas, em Novembro de 1998, em França, o jornal “Le Monde” procedeu a um inquérito sobre os acontecimentos mais marcantes do século XX e a Guerra de 1914-1918 aparecia em quarto lugar, depois da 2ª Guerra Mundial, do Maio de 1968 e da queda do regime soviético; no mesmo inquérito, os jovens entre os 15 e os 19 anos punham a Primeira Grande Guerra em segundo lugar. É verdade que não haverá família francesa que não tenha tido familiar a participar nessa guerra, mas isso só não pode justificar essa intensidade de memória...
De Portugal foram mobilizados mais de 105 mil homens para o teatro de operações na Europa e em África; mais de 55 mil integraram a linha de combate na Flandres; tivemos quase 8 mil mortos, outros tantos feridos, outros tantos prisioneiros e cerca de 6 mil desaparecidos. Não serão estes números importantes para a nossa memória colectiva? É também por isso que o livro de Diogo Ferreira e de Pedro Marquês de Sousa, ao assinalar a epopeia de todas estas pessoas e das que lhes estiveram ligadas, em linguagem acessível e sem deixar que a questão das estratégias e da história militar viva sem os homens que lhe deram corpo, merece leitura atenta e lugar importante na história local setubalense.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Para a agenda: "Tudo se desmorona - Impactos culturais da Grande Guerra em Portugal"


Elemento central do tríptico "Tropa de África", de José Joaquim Ramos

“Tudo se desmorona - Impactos Culturais da Grande Guerra em Portugal” é o título de uma exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian desde 30 de Junho, com curadoria de Pedro Aires de Oliveira, Carlos Silveira e Ana Vasconcelos, que pode ainda ser visitada até 4 de Setembro, segunda-feira.
A exposição, inaugurada no segundo dia do colóquio internacional “Ninguém Sabe que Coisa Quer - A Grande Guerra e a Crise dos Cânones Culturais Portugueses” que teve lugar na Fundação entre 28 e 30 de Junho, pode ser acompanhada pelo jornal-catálogo intitulado O Mundo Derrubado, que integra os textos-roteiro da exposição (pena que não inclua a cronologia que vai sendo mostrada ao longo da exposição) e os estudos “Semear ventos, colher tempestades: a República e a Grande Guerra” (de Pedro Aires de Oliveira), “A Guerra nas letras” (de Luís Augusto Costa Dias) e “Memória da I Guerra Mundial: um projecto republicano” (de Sílvia Correia).
Muito mais do que pretender mostrar o que foi a Guerra, esta exposição debruça-se sobre as repercussões dessa mesma Guerra na vida portuguesa em diversos sectores: na arte, nas relações e nas tensões sociais, na política, na imagem dos militares, nos hábitos de consumo. E possibilita ver algumas peças raras e outras que nunca terão sido expostas ao público (como o tríptico “Tropa de África”, de José Joaquim Ramos).
O visitante pode cruzar-se com fotografias da época, com primeiras edições de obras de relatos da Guerra, com páginas jornalísticas do tempo, com alguns objectos, sons, músicas e filmes que retratam o momento. Pode ainda encontrar-se com a memória e não é em vão que a última secção aborda a memória construída sobre esse período, seja assinalando o papel da Liga dos Combatentes e as campanhas de apoio aos regressados da Guerra, seja com os desenhos e maquetas de monumentos que ficaram para a perpetuação da memória da participação portuguesa.
A não perder!

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Raul Reis - Fotografia, cartas e a memória de um universo



“Envia-me cartas” é a exposição de fotografia de Raul Reis que está em mostra na Casa da Cultura, em Setúbal, até 5 de Setembro. Poucos dias até ao final, pois. E, se o leitor ainda por lá não passou, aproveite os dias que restam. Vai confrontar-se com umas dezenas de fotografias de caixas de entrada de correio, centradas naquela pala bem conhecida que servia como gps dos carteiros, indicando “cartas”.
Sabemos que as caixas de correio de hoje são sobretudo virtuais e que aquelas que têm existência física nas portas das casas ou dos prédios jazem silenciosas e abandonadas por muito tempo (condizendo com o abandono de muitas edificações) ou servem para receber apenas as notas fiscais e as facturas de serviços... Já não são alimentadas de emoções e de histórias, já não adquirem marcas de aproximação entre humanos. Como escreve o setubalense Raul Reis na nota introdutória ao livro que acompanha a exposição (objecto belo e recomendado), essas caixas de correio com a palavra “cartas” empurram-nos “para as reminiscências de um tempo passado - aquele em que os sentimentos eram deixados no papel”. Quase como se de narrativas se tratasse...
Mas Raul Reis alargou o âmbito da sua exposição ao público, tendo criado sítio adequado na net, em que cada visitante podia escolher a fotografia de uma das caixas de correio e escrever-lhe uma carta. E assim surgem disponíveis para o público visitante 32 cartas com destinatários múltiplos - amigos, familiares (avó, pai, filhos), amores, locais, etc. E, no final da exposição, o visitante pode escolher entre 32 postais que numa face exibem a respectiva porta e caixa de correio e na outra a carta que lhe foi dirigida. Pode escolher e pode trazer. Uma, duas, três ou todas as portas e todas as cartas, que ali estão para oferta.
E, nos escritos que ali surgem reproduzidos, há para todos os gostos e tipologias, como se imagina. Desde o mais elaborado ao mais simples, do mais loquaz ao mais reservado, do mais metafórico ao mais imaginativo, do mais pessoal ao mais colado a um momento histórico. Refiro alguns exemplos, entre vários que poderia escolher: escreveu Filipe Lourenço que “as cartas são pessoas com selos na ponta da língua”, bela imagem que carrega todo um historial ligado ao gesto de escrever e enviar uma carta; Marco Dias aproveitou o momento histórico e enviou missiva a Donald Trump, em tom sarcástico e de medição de forças em nome da humanidade, contendo uma praga rogada; Susana Albuquerque escolheu Lisboa como destinatária, escrevendo desde Madrid e concluindo a sua mensagem com uma declaração de amor - “querida Lisboa, se eu pudesse, vivia em todas as boas cidades do mundo só para descobrir tudo o de que eu gosto mais em ti”; Tiago Gonçalves optou por uma carta aos filhos, que fecha a declarar-lhes que “devia poder mandar fazer uma gaiola para guardar os vossos sonhos”.
Há, contudo, uma carta que se me apresentou como preferida. Com autoria de NQ, estabelece uma relação entre Lino Nossa, 2º Sargento do CEP (Corpo Expedicionário Português) na Flandres em 9 de Abril de 1918, e Celeste, que ficara em Portugal, a quem o combatente promete casamento se regressar ao seu país. É uma carta apócrifa que bem poderia ser verdadeira e que dá a noção do sofrimento e da dor nas trincheiras na Grande Guerra - mesmo neste contexto o valor da metáfora é extraordinário ao referir que a guerra é “um purgatório em vida”.
Ao leitor caberá descobrir outras mensagens, outros segredos, outras sublimes frases em cartas que não entrarão em caixas de correio mas que estão ao dispor nesta exposição, que é quádrupla: a dimensão das fotografias de Raul Reis, a dimensão das cartas de 31 autores (há dois textos de uma autora), a associação das cartas às fotografias nos postais, o mundo das caixas de correio em livro (Envia-me Cartas / Send Me Letters. No Frame Publishing, 2017). Vale a pena!
Refira-se ainda que “Envia-me cartas” é a primeira fase de um projecto em trilogia designado “A Cidade está Deserta”. E como, em nota final, Raul Reis revela, “Envia-me Cartas” é a parte em que “se explora a nostalgia dos objectos que perderam o seu significado original”. Uma reflexão sobre a cidade, sobre a vida, sobre a actualidade. A ver!

Carta de autoria de NQ, emprestando o momento a um combatente do CEP em 1918