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quinta-feira, 24 de junho de 2021

Matilde Rosa Araújo entre a verdade e a redenção (1)



Em 1943, surgia A Garrana, título de Matilde Rosa Araújo (1921-2010), primeiro prémio do concurso “Procura-se Novelista!”, organizado pelo “Século Ilustrado” e pelo Rádio Club Português, sob patrocínio do Grémio Nacional dos Editores e Livreiros. A história conta a vida solitária e desprezada de Garrana, mulher de um contrabandista, a quem retiraram os filhos depois de ter matado o marido, que, desesperado, quis morrer após ter levado um tiro na acção de contrabando a que se dedicava na zona raiana. Depois de cumprir a pena, voltou à aldeia, vivendo sozinha e ouvindo o insulto da criançada apelidando-a de “bruxa”, justamente a ela, que fora “a moça mais linda da terra”.

Matilde Rosa Araújo pensava na escrita jornalística para contar vidas, lá onde a narrativa literária e a reportagem se deixam contaminar. Com efeito, em 1946, concluía a tese de licenciatura em Letras sob o título A reportagem como género - Génese do jornalismo através do constante histórico-literário, trabalho que rompeu o horizonte de expectativas no meio jornalístico, como denotava o entusiasmo da primeira página do jornal República, em 28 de Julho de 1946, no seu longo título: “Caso raro - Pela primeira vez na nossa Faculdade de Letras se defende uma tese sobre reportagem e jornalismo e foi uma senhora que a defendeu, obtendo alta classificação”.

No ano seguinte, em 1947, Matilde publicaria Estrada sem nome (Portugália), conjunto de uma dezena de contos, em alguns deles retomando a vida da raia e do contrabando, em todos eles perpassando vidas difíceis resultantes de alterações das vidas das personagens.

O aparecimento de Estrada sem nome teve a necessária repercussão na imprensa, com Matilde Rosa Araújo a dizer o que entendia como sendo a missão da literatura. Foi no Século Ilustrado, de 19 de Abril de 1947, que o assunto veio à tona, naturalmente com referência ao tempo que se vivia, o pós-guerra, situação que passava por uma reaprendizagem do que era viver e para a qual a literatura deveria contribuir - “Neste rescaldo trágico da guerra, a literatura vai tomar o único rumo possível em arte: o da verdade! Verdade e redenção! E, para dar a verdade, não é preciso dizer: olhai! Basta estremecer com a brisa como a folha cansada.”

Na entrevista, Matilde avança com a sua (curta) experiência de escritora, assumindo-se como uma contadora de vidas: “O que me interessa é o lado fluido da vida no desejo intenso de a viver.” E, mais adiante: “Às vezes, vou na rua e uma vida toca-me como um chamamento. Passa um dia, depois esqueço. Mas outro dia vem em que a mesma vida fala dentro de mim e me faz contar.”

Logo após a conclusão da licenciatura, Matilde Rosa Araújo trabalhava já na organização de Estrada sem nome, que vinha a ser construído havia dois anos. Redacção de novos contos, publicação de alguns em revistas e hesitações na escolha de editor foram ocupando a jovem escritora de 25 anos.

Na Arrábida, Sebastião da Gama lia-a e aconselhava - foi ele um dos primeiros leitores dos contos deste livro, tal como percebemos em carta de 14 de Agosto de 1944 que Matilde escreve para a Arrábida - tinha acabado de publicar o conto “História de um cão”, o texto que abre Estrada sem nome, envia-o para Sebastião e pede: “Que acha? Seja sincero pois não há nada para nos ajudar a formar a nossa auto-opinião e formação como o juízo de pessoas literariamente conscientes. (...) Tenho mais novelas para publicar e não me esquecerei de si.”

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 648, 2021-06-23, p. 9.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Sobre o que as televisões mostram e dizem da pandemia...

 

Surge assinada por cerca de 40 nomes a "Carta aberta às televisões generalistas nacionais", documento divulgado hoje na imprensa - no caso, a transcrição é feita a partir da edição do Público.

Lê-se a "Carta" e há um sentir que nos é comum. As imagens e as opiniões com que temos sido bombardeados são opressoras, primam pela repetição até à náusea, nem sempre são esclarecedoras, quase nunca acrescentam nada ao já sabido, extrapolam para áreas que não têm relação com a saúde ou com o bem-estar, fomentam a angústia, mexem de forma inoportuna com quem trabalha, contentam-se com o estado do caos.

Não era preciso que a comunicação fosse isto. Não era. Daí que a "Carta" seja oportuna. Mesmo que não venha a ter efeitos, porque o mundo dos "media" é o que é (e nem sempre é bom). De facto, ética, sobriedade e contenção deveriam ser três elementos basilares da construção da informação sobre a pandemia! Lamentavelmente, não é o que nos servem todos os dias!...


sábado, 25 de novembro de 2017

Memória: Pedro Rolo Duarte (1964-2017)



O texto que Miguel Esteves Cardoso divulga no Público de hoje sobre o seu amigo Pedro Rolo Duarte é extraordinário. Já circulava na edição online de ontem, mas hoje surge na edição em papel. O que fica de uma amizade, o que é a amizade e a admiração, tudo perpassa por lá. Por isso, aqui o reproduzo.
Relembro o jornalista do Se7e, da revista K, do suplemento DNA (do Diário de Notícias) e do Hotel Babilónia (na Antena 1). Também me fica a saudade. Parabéns, Pedro, pelo trabalho desenvolvido! Obrigado pelo que todos os ouvintes e leitores pudemos saborear!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Nos 150 anos do "Diário de Notícias": um suplemento a ler (e a guardar)



Há 150 anos, no dia de hoje, saía em Lisboa o primeiro número do Diário de Notícias, assinalando como proprietários os nomes de Tomás Quintino Antunes e de Eduardo Coelho, também redactor. Tinha quatro páginas, textos curtos e sem título e um editorial que ainda hoje tem todo o sentido no que à coerência a imprensa deve – pretendia “interessar a todas as classes, ser acessível a todas as bolsas e compreensível a todas as inteligências”, queria afirmar-se por uma “compilação cuidadosa de todas as notícias do dia, de todos os países e de todas as especificidades, um noticiário universal” e prometia um “estilo fácil e com a maior concisão”, visando informar “o leitor de todas as ocorrências interessantes”. Na sua estrutura da primeira página, não fugia à tradicional supremacia da família real e da religião, os dois pólos que garantiam os primeiros textos – o primeiro, dizendo que “Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes”, uma não notícia que sossegava as preocupações; os seguintes, informações de teor religioso, fossem informações ou registos de efemérides; depois, informação sobre as férias natalícias dos tribunais. A seguir, um pouco de tudo, com destaque para algo que constituía marca do tempo, como a aprovação de orçamento para apoio a construção de via férrea em França.
Olhando para a edição do Diário de Notícias de hoje, dirigido por André Macedo, as quatro páginas passaram a quarenta, isto é, dez vezes mais, e se repararmos no suplemento, com 144 páginas, a proporção vai para 36 vezes mais.
O suplemento que hoje é publicado é um documento histórico para guardar, não sendo por acaso que lhe é dado o título de capa de “150 anos de Portugal”. Com efeito, um diário com a idade de século e meio será um bom repositório do correspondente tempo da história do país, tal como, no final do editorial desta edição de aniversário, escreve André Macedo: o jornal, bem como o seu director, servem “para defender um património que pertence aos leitores e ao país, sem esquecer os accionistas, sem os quais nada disto pode acontecer”.
Um suplemento para guardar… porquê? É verdadeiramente um suplemento festivo, por onde passa a história, a criação, o retrato, assente sobre três vectores: o assinalar de 50 efemérides, com curto registo a propósito; os dias da História de quinze escritores portugueses contemporâneos; ensaios, reportagens e entrevistas de 15 áreas temáticas.
Relativamente às efemérides, registam-se: nascimento do Diário de Notícias (29-12-1864), carta de Vítor Hugo ao jornal a propósito da abolição da pena de morte para crimes civis em Portugal (10-07-1867), Comuna de Paris (27-05-1871), Ultimato inglês (13-01-1890), morte da rainha Vitória (22-01-1901), regicídio em Portugal (01-02-1908), exposição pública dos Painéis de S. Vicente depois de descobertos na igreja de S. Vicente de Fora (06-05-1910), implantação da República (05-10-1910), fim da Grande Guerra (11-11-1918), assassínio de Sidónio Pais (14-12-1918), chegada de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral aos rochedos de São Pedro e São Paulo (19-04-1922), golpe do 28 de Maio (28-05-1926), chegada de Oliveira Salazar a chefe de Governo (05-07-1932), revolta na Marinha Grande (18-01-1934), início da Segunda Grande Guerra (01-09-1939), inauguração da nova sede do Diário de Notícias na Avenida da Liberdade (24-04-1940), exposição do Mundo Português (23-06-1940), rendição da Alemanha (07-05-1945), bomba atómica (06-08-1945), entrada de Portugal na ONU (14-12-1955), ataque de nacionalistas angolanos à Casa de Reclusão e ao quartel da PSP em Luanda (04-02-1961), conquista da Taça dos Campeões Europeus pelo Benfica (31-05-1961), queda da Índia portuguesa depois da operação Vijay lançada por Nehru (18-12-1961), assassinato de Kennedy (22-11-1963), incêndio do Teatro D. Maria em Lisboa (02-12-1964), centenário do Diário de Notícias (29-12-1964), eliminação de Portugal do Mundial de 1966 e lágrimas de Eusébio (26-07-1966), inauguração da ponte sobre o Tejo em Lisboa (06-08-1966), presença de Paulo VI em Fátima no que foi a primeira visita papal ao santuário (13-05-1967), chegada de Marcelo Caetano a presidente do Conselho na sequência de avc sofrido por Salazar (26-09-1968), chegada do homem à Lua (20-07-1969), morte de Salazar (27-07-1970), revolução “dos Cravos” (25-04-1974), “fim” do processo revolucionário em Portugal (25-11-1975), morte do Primeiro Ministro Francisco Sá Carneiro em desastre aéreo (04-12-1980), Carlos Lopes com medalha de ouro em Los Angeles (12-08-1984), entrada de Portugal na CEE (12-06-1985), eleição de Mário Soares como Presidente da República (16-02-1986), primeira maioria absoluta em eleições obtida pelo PSD com Cavaco Silva (19-07-1987), incêndio no Chiado (25-08-1988), derrube do Muro de Berlim (09-11-1989), libertação de Nelson Mandela (11-02-1990), início da Expo 98 com publicação do “Diário da Expo” a cargo do Diário do Notícias (22-05-1998), atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago (08-10-1998), morte de Amália Rodrigues (06-10-1999), ataque às Torres Gémeas nova-iorquinas (11-09-2001), independência de Timor-Leste (20-05-2002), derrota de Portugal na final do Euro 2004 (04-07-2004), eleição de Barack Obama (04-11-2008) e morte de Eusébio (05-01-2014).
Os quinze escritores portugueses convidados a participar no dossiê intitulado “A que dia é que eu queria regressar?”, coordenado por João Céu e Silva, foram: António Lobo Antunes (n. 1942), sobre o dia em que soube do nascimento da sua primeira filha (22-06-1971); Afonso Cruz (n. 1971), sobre “hoje”; António Mega Ferreira (n. 1949), sobre o 5 de Outubro de 1910; Gonçalo M. Tavares (n. 1970), sobre o dia do assassinato do arquiduque austro-húngaro por Gavrilo Princip, que deu início à Grande Guerra; Hélia Correia (n. 1949), sobre a estreia de “Ballets Russes”; J. Rentes de Carvalho (n. 1930), sobre o dia do fim da Segunda Guerra Mundial (08-05-1945); Lídai Jorge (n.1946), sobre uma memória da infância, em 1954, 3m dia de nevão; Luísa Costa Gomes (n. 1954), sobre a inauguração do monumento a Cristo Rei (17-05-1959); Manuel Alegre (n. 1936), sobre a campanha de Humberto Delgado (31-05-1958); Maria Teresa Horta (n. 1937), sobre várias datas relacionadas com o feminismo; Mário de Carvalho (n. 1944), sobre a campanha de Humberto Delgado em Lisboa (16-05-1958); Mário Cláudio (n. 1941), sobre a sua data de nascimento (06-11-1941); Miguel de Sousa Tavares (n. 1952), sobre o desembarque dos Aliados na Normandia, em texto epistolar usando a assinatura de Salazar (07-06-1944); Nuno Júdice (n. 1949), sobre o dia da morte de Fernando Pessoa (02-12-1935); Valter Hugo Mãe (n. 1971), sobre o dia que constou como sendo o do fim do mundo (12-08-1978).
Relativamente à terceira área, em que se destacam alguns ensaios relacionados com a história e com o espólio do Diário de Notícias, é preenchida com os textos: “Um país de emigração maciça e baixa literacia”, de Manuel Villaverde Cabral; “Do censo dos 5 réis a um futuro com chips no bolso”, de Patrícia Jesus; “Antigos, porcos e maus: retrato passado menos que perfeito”, de Fernanda Câncio; “Quando o submarino Hunley afundou um navio da União e acabou a inspirar Júlio Verne”, de Leonídio Paulo Ferreira; “Eduardo Coelho, a vida dele dava um jornal”, de Ferreira Fernandes; “A caixa-forte dos seis milhões de mistérios”, de Artur Cassiano; “Títulos diários mais do que centenários”, de Abel Coelho de Morais; “A língua portuguesa como princípio e fim, numa universidade aberta ao mundo”, de Rui Marques Simões, incluindo entrevista com João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra; “’Do prémio que lhe sair por sorte na extracção da loteria’ à crise que atinge a classe média”, de Miguel Marujo, com entrevista a Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas; “Torre do Tombo: Quase cem quilómetros para contar a nossa história”, de Maria João Caetano, com entrevista a Silvestre Lacerda, director do Arquivo Nacional da Torre do Tombo; “Um ‘excesso de natureza’ talhado pelo homem com vista para o mundo”, de David Mandim, com entrevista a Manuel Cabral, presidente do Instituto dos Vinhos Douro e Porto; “A associação para funcionários, famílias e ‘credores de gratidão’ que se tornou o sexto maior banco”, de Céu Neves, com entrevista a Paula Guimarães, directora do Gabinete de Responsabilidade Social do Montepio Geral; “Eça de Queirós – De Port Said a Suez”, com reprodução das quatro crónicas ecianas de  1870 a propósito da viagem para assistir à inauguração do canal de Suez; “Caça à entrevista de Hitler pelas cervejarias de Munique”, de Ferreira Fernandes, com reprodução da entrevista de António Ferro a Hitler; desenhos de André Carrilho sobre o que será o mundo em 2164.
O suplemento finda com a reprodução do número inaugural do Diário de Notícias, que acrescenta mais uma razão às oitenta anteriormente indicadas para um assinalar interessante de uma efeméride que, mais do que marcar a longevidade, destaca o a função do jornalismo e da informação.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Para a agenda - "A Restauração", jornal monárquico-integralista sadino, em conferência



Se quer saber sobre o jornal A Restauração, quinzenário que se assumia como "monárquico-integralista", em Setúbal na I República, dirigido por Augusto da Costa, o investigador e mestrando em História Contemporânea Diogo Ferreira vai conferenciar sobre o tema no Club Setubalense, na tarde de 6 de Dezembro. Para a agenda.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Da língua portuguesa - Um título que diz o contrário do que pretende transmitir



A notícia é de hoje e pode ser lida aqui. Tudo correria bem se não fosse o caso de o título contradizer a informação que quer dar... Com efeito, a notícia refere que "o programa Boas Práticas de Governação nos Cuidados de Saúde Primários (...) distingue casos de sucesso nos cuidados primários às pessoas que não podem ou não conseguem dirigir-se a um centro de saúde".
O que o título diz é que os Centros de Saúde vão contra os doentes... ideia depois repetida no primeiro parágrafo.
A redacção das notícias deveria obedecer a um livro de estilo que não permitisse estas faltas. De facto, "ir de encontro a" significa "ir contra", enquanto "ir ao encontro de" implica a tal aproximação que o título queria enaltecer. Assim, afigura-se ridículo: Centros de Saúde distinguidos por estarem contra os doentes!!!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

As paixões de Fernando Assis Pacheco contadas por Nuno Costa Santos

São duas centenas de páginas, recheadas com algumas fotografias, que constituem Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco (Lisboa: Tinta da China, 2012), de Nuno Costa Santos.
O título parte de uma obra do biografado – Trabalhos e paixões de Benito Prada (1993) –, romance sobre um antepassado galego. E esta obra é, de alguma maneira, o romance de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), o contar da sua vida, do seu quotidiano, quase o trazendo à convivência, seguindo-lhe os passos.
É biografia na medida em que alguém conta uma vida de alguém. Mas foge do estilo canónico da biografia, demarcando-se mesmo do carácter de estudo e de ensaio que a biografia também é, optando o autor por uma escrita mais próxima do género da reportagem jornalística, em que são recolhidos testemunhos, muitos testemunhos, de quem conviveu e conheceu o biografado, pessoas que falam mais do que as obras do próprio, citadas, é certo, mas sem serem a tónica desta obra.
Muito mais do que a obra de Assis Pacheco passa por aqui o seu trajecto – o canto familiar, os locais de trabalho, os refúgios para a escrita, os prazeres da gastronomia, os amigos, as disposições, as geografias e os fragmentos da vida, os hábitos, as teimosias. E as memórias de quem com ele conviveu.
Leitura fácil e próxima, este livro é ponto de encontro de todas as vozes que privaram com Fernando Assis Pacheco e que, quase dúzia e meia de anos volvidos sobre a sua despedida, o tornam presente, ficando ao leitor a sensação de que, num destes dias, se cruzará algures com esta personagem que caprichava no convívio, nas histórias, no humor e no prazer de viver.
Recorrentemente, é o discurso do biografado que nos visita, saltando das entrevistas dadas, em excertos que dialogam com os testemunhos recolhidos, sem se lhes sobreporem, ficando mesmo a ilusão de que estes encontros são recentes e são reais.
Para alguém que foi jornalista e contador de histórias, uma biografia só se poderia entender desta forma, isto é, uma longa peça jornalística, que não um estudo, que não uma moldura, que não um retrato distante. E se tivesse o seu quê de poético, mesmo que apenas com os versos do herói, tanto melhor. São estes atributos que permitem ao leitor esse encontro com Fernando Assis Pacheco. Só falta mesmo a fotografia que memorize essa conversa entre os dois… e, já agora, aprofundar algumas questões que vão ficando em aberto ao longo do livro ou, pelo menos, tratadas de passagem…

sábado, 24 de setembro de 2011

Rostos (166)

Memorial a João José da Graça (1836-1893),
introdutor do primeiro jornal no Faial - O Incentivo, datado de 10 de Janeiro de 1857 -,
na Horta (Faial, Açores)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

“Histórias daqui e dali”, de Luis Sepúlveda

Vinte e cinco crónicas compõem o volume Histórias daqui e dali, de Luis Sepúlveda (Porto: Porto Editora, 2010), numa ponte que nos remete para espaços, para os lugares, que se estende entre a América Latina e a Europa, pontos de fixação do próprio cronista.
Em grande parte dos casos, estas crónicas são visitações a tempos passados, num percurso através da memória, insistentemente mostrando a faceta do exilado. Por elas passam convicções, recordações, amigos, experiências, reencontros, histórias de livros, ironias da vida, chamadas de atenção, não esquecendo um pendor crítico sobre formas de viver de hoje.
Por Portugal e pela literatura em português passam também estas crónicas, havendo uma delas que toma o cenário do “Correntes de Escritas” poveiro e o contador de histórias que é o angolano Nelson Saúte.
Estas crónicas caminham sempre no sentido da procura de pontos de apoio, cimentados por referências comuns, independentemente das latitudes, atitude talvez justificada por esta afirmação de identidade – “Nós, os exilados, somos como os lobos, para onde vamos juntamo-nos às alcateias que não são as nossas, mas convivemos, caçamos juntos, e, no entanto, a lua convida a afastar-nos para uivar de solidão.”
Marcadores
Velhos textos - “Quando nos deparamos com velhos textos é como se nos encontrássemos de novo connosco, e estes reencontros são sempre comoventes.”
Exílio - “Todos os exílios duram demasiado tempo e cada experiência é única.”
Viajar - “O direito de viajar ou de permanecer é inerente ao ser humano. O visto para ir ou ficar é um golpe cruel e planificado na liberdade do indivíduo.”
Alfarrabistas - “As lojas de livros usados são pátrias especiais e necessárias.”
Ficção - “A ficção é sempre um prolongamento da realidade.”
Jornalismo - “A precariedade em que caiu o jornalismo faz com que ninguém seja responsável pelo que se escreve, diz, ou emite, salvo raras excepções, e com que sejam poucos os jornais feitos por jornalistas que, com absoluto rigor, assistem ao funeral de uma profissão tão bela quanto necessária.”

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Mais um entretenimento...

Mais um caso falado e a continuar... O vice-presidente da bancada socialista da Assembleia da República foi entrevistado pela revista Sábado. Por razões várias, não gostou do curso da conversa e terá ficado com os gravadores dos jornalistas. Entretanto, houve apresentação de queixa por parte dos donos dos aparelhos e, segundo o Público, "Ricardo Rodrigues explica que 'tomou posse', de forma 'irreflectida', de dois gravadores da revista Sábado, durante uma entrevista, porque foi exercida sobre ele uma 'violência psicológica insuportável'."
Ora, esta história não nos admira, porque sabemos como podem actuar os dois lados de uma entrevista. Só é pena que, durante uns tempos, este vai ser o assunto do dia... como se não houvesse mais nada para tratar (pela Assembleia, pelos jornalistas e pelos Portugueses).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

E a quem serve esta situação, que, no caso dos professores, vai além dos universitários?

António Guerreiro. "Ao pé da letra - Sobre jornalistas, professores e editores". Expresso ("Actual", pg. 28); 20.Fevereiro.2010.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

"Setúbal na rede", 12 anos

Em 5 de Janeiro de 1998, as notícias que abriram o Setubalnarede foram, por ordem de aparecimento: “Bispo de Setúbal acredita no triunfo da verdade”, “PS ganha terreno no distrito de Setúbal”, “Governador Civil privilegia a área do social”, “Mata Cáceres admite culpas e promete mais trabalho”, “Rádios de Setúbal com défice de rigor informativo”, “Trabalhadores da Sodia querem respostas do Governo”, “Principais acontecimentos de 1997”, “O Senhor Povo decidiu: E agora, Mata Cáceres?”, “Sonae tem caminho aberto” e “Banco Essi já apresentou proposta”. Trocando por miúdos, o Bispo de Setúbal era D. Manuel Martins; as eleições autárquicas tinham levado os socialistas ao poder nos concelhos de Montijo e de Sesimbra; o Governador Civil era Alberto Antunes; Mata Cáceres era eleito presidente da Câmara de Setúbal pela quarta vez, mas perdendo a maioria absoluta no executivo; várias rádios sadinas estavam na mira dos socialistas por, alegadamente, os terem difamado; trezentos funcionários da Sodia/Renault estavam apreensivos porque Março se aproximava e a linha de montagem do Clio terminaria nessa altura; surgia a retrospectiva do que fora o ano de 1997; o jornalista Rogério Severino opinava sobre a descida de resultados protagonizada por Mata Cáceres; o Banco Essi deixava a corrida sobre a Torralta, agora a favor da Sonae, e virava-se para a SAD vitoriana.
Uma dúzia de anos passa hoje sobre estes relatos e todos nos lembramos destes protagonistas e destas histórias. Muitos as poderiam contar, mas a memória delas chega-nos através do jornal digital Setubalnarede (www.setubalnarede.pt), que obteve o Prémio Gazeta da Imprensa Regional em 1999. Momentos altos, outros nem por isso, tempos de muita informação, outros assim-assim, fábrica de sonhos e de projectos, o Setubalnarede cedo se impôs como uma referência, num tempo em que os blogues não tinham significado e em que a difusão noticiosa via net começava a entusiasmar as massas. Recordo um projecto bem interessante como Memórias da Revolução no distrito de Setúbal 25 anos depois, obra em dois volumes (Setúbal: Setubalnarede, 2001-2002), organizada por Pedro Brinca e Etelvina Baía, reunindo cerca de uma centena de entrevistas a protagonistas dessa época, espaço de encontro de nomes como Carlos Beato, Cristina Rocha Neto, Isabel Guerra, Joaquim Pires, Machado Luciano, Francisco Lobo, Regina Marques, João Aldeia, Jaime Graça, Orlando Curto, Odete Santos, Carlos César, Vasco Lourenço, José Rebelo, Dimas Pereira ou Fernando Cardoso Ferreira, entre muitos outros citáveis e justificáveis. Textos de comentário para essa obra escreveram Vítor Alves, Ramalho Eanes e Otelo Saraiva de Carvalho e o jornalista Adelino Gomes dedicou ao primeiro volume uma página no Público. Recordo a iniciativa da tertúlia bocagiana que tem acontecido há vários anos na noite de 14 para 15 de Setembro, devida ao jornal. Recordo o trabalho de maratona que foi o vasto conjunto de entrevistas a autarcas e a candidatos a autarcas a propósito das últimas eleições autárquicas.
Uma dúzia de anos. E de trabalhos. De notícias. De intervenção. Um tempo para não esquecer, de serviço para a comunidade, para a cidadania.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Investigações à solta

O caso do dia foi a investigação (?) feita e divulgada hoje pelo Diário de Notícias à maneira como chegou a jornalistas do Público a história das possíveis escutas ou vigilâncias na Presidência da República. A gente ouve e não acredita. Tudo isto parece a história da pescadinha de rabo na boca, a acabar por se comer a si própria...
As ligações intensas entre a política e o jornalismo já não são novidade, claro. Agora, foram comprovadas com os números: em Portugal, apenas um terço da informação publicada na imprensa resulta de investigação dos respectivos media; o restante deriva da máquina montada por assessores, informação institucional, gabinetes de imprensa, etc. Ou seja: a gente vai sendo informada à medida e sobre o que alguém quer que sejamos informados.
Com o caso de hoje, inebria-se a investigação. Ainda não sabemos se por boas ou por más razões. Mas não deixa de ser paradoxal que sejam os jornalistas a estar no centro do caso. Ou, se preferirmos, é o jornalismo que se tem feito que está, de certa forma, a ser questionado. O que vai restar?

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

"Jornal Nacional" da TVI suspenso. Era de esperar, não era? Ou alguém pensava outra coisa?

«Polémica na TVI - Manuela Moura Guedes: "Temos pronta uma peça sobre o Freeport" - Manuela Moura Guedes confirmou hoje ao PÚBLICO a demissão da direcção de informação da TVI depois da suspensão do Jornal Nacional que apresentava e coordenava e que amanhã regressava depois de um período de férias. Moura Guedes revelou que tem pronta uma peça com notícias novas sobre o caso Freeport, feita por uma jornalista da sua equipa. “Temos pronta uma peça sobre o Freeport, com dados novos e, como sempre, documentados”, disse a jornalista, recusando-se a fazer mais comentários. A direcção de informação da TVI anunciou, por volta das 13 horas, a sua demissão em bloco devido à suspensão do Jornal Nacional de Sexta-feira, apresentado por Manuela Moura Guedes. A direcção mantém-se em funções até ser substituída pela direcção da empresa. Ao que o PÚBLICO apurou, a decisão da administração de suspender o Jornal Nacional veio de Espanha, sede da Prisa, proprietária da TVI, e foi comunicada à direcção de informação e fundamentada por razões económicas, em consequência de uma reestruturação em curso. (...)»

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Política caseira (60): A pré-campanha vista como desfile social, não há ideias para o sítio ou não há notícias?




O Setubalense: 26.Agosto.2009
O leitor olha para estas "notícias" e fica a saber o quê? Pouco mais que a agenda social dos candidatos ou das candidaturas. E assim se vai noticiando a (pré-)campanha eleitoral para as autárquicas, num modelo que não deve ser característica específica de Setúbal. Onde uma linha sobre as ideias defendidas (se as houve), uma linha sobre projectos para o município, uma linha sobre os problemas que são considerados por cada candidatura? Fica-se sem perceber se são apenas operações de marketing visual, se não há ideias ou se as notícias são dadas de acordo com as organizações das candidaturas... É tudo muito pouco.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Política caseira (58): onda de 70 entrevistas

«O "Setúbal na Rede" inicia hoje o seu especial Autárquicas 2009, com a realização de entrevistas a todos os cabeças de lista às câmaras municipais do distrito.
As entrevistas serão realizadas em formato vídeo e poderá acompanhá-lhas em directo, ficando também disponíveis para visualização posterior no dossier
"Autárquicas 2009".
Este conjunto de cerca de 70 entrevistas decorrerá até ao dia 11 de Setembro e pode consultar igualmente o programa completo no portal.
A primeira entrevista será com Cipriano Pisco, candidato pelo BE ao Montijo, hoje às 10 horas, seguindo-se Octávio Machado, candidato pelo CDS-PP a Palmela, às 12 horas, Fernando Sousa da Pena, candidato pelo CDS-PP a Almada, às 15 horas, e Mário Durval, candidato pelo BE ao Barreiro, às 17 horas.
»
As entrevistas aos candidatos à Câmara de Setúbal têm o seguinte calendário: Maria das Dores Meira (CDU), em 25 de Agosto, às 15h00; Jorge Santana (PSD), em 26 de Agosto, às 10h00; Albérico Afonso (BE), em 28 de Agosto, às 12h00; João Viegas (PP), em 31 de Agosto, às 19h00; Carlos Gomes (PCTP), em 1 de Setembro, às 19h00; Teresa Almeida (PS), em 7 de Setembro, às 10h00.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Os jornais de Viana na memória

A imprensa regional vianense conta agora com uma referência de elevado interesse – a obra Publicações periódicas vianenses, de Rui Faria Viana e António José Barroso (Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo, 2009), integrada na série de edições a propósito dos 750 anos do foral afonsino atribuído à cidade do Lima.
Num conjunto de 640 páginas, os autores catalogaram 370 publicações por ordem alfabética (não tendo tido acesso directo a 17), “excluindo as impressas por meios não tipográficos, como as policopiadas e, até mesmo, as electrónicas”, fazendo constar em cada registo ficha técnica adequada (datas de início, responsáveis e colaboradores, conteúdos e características físicas), além de reprodução fotográfica do número mais antigo a que acederam. O período abrangido é lato, tão aberto quanto se sabe que tem sido a história do jornalismo vianense, desde 1855 (ano da criação de A Aurora do Lima) até Fevereiro de 2009 (data em que surgiu Vale do Neiva Filatélico, em Barroselas). No final da obra, surgem quatro muito úteis índices – de títulos, de responsáveis pelas publicações, geográfico e cronológico.
O maior período que houve sem o aparecimento de novas publicações foi o de 1859-1867, enquanto a maior sucessão de anos com novos títulos é a que se inicia em 1982 e vem até 2009, período de 28 anos durante os quais sempre surgiram novas publicações, havendo cinco desses anos em que nasceu apenas um novo título (1982, 1983, 1986, 1990 e 2009).
Os anos que revelaram maior número de nascimentos de títulos foram: no século XIX, o de 1892 (8); no século XX, os de 1922, 1970, 1985 e 1994 (8 títulos em cada) e 1913, 1914, 1959, 1991, 1992 e 1998 (7 por ano); mais recentemente, foram os anos de 2002 e 2004, cada um deles com 8 títulos.
A longevidade de A Aurora do Lima (saindo desde 1855, o que o torna no mais antigo título em publicação em Portugal continental) não esconde uma grande quantidade de jornais ou revistas que tiveram número único como edição – ainda no século XIX, a primeira situação aconteceu com Doris, em 1878, mas houve outros 14 títulos com igual destino; ao longo do século XX, em todas as décadas houve publicações de número único, totalizando 43; nos tempos mais próximos, os anos de 2002 e de 2003 tiveram também títulos de número único (um em cada ano). Em grande parte dos casos, estes números únicos são publicações com a finalidade de evocar efemérides ou acontecimentos sociais muito importantes (normalmente por solidariedade social), mas é curioso o paradoxo existente de uma publicação como Diário de Viana (de 1879), que não chegou a ter a periodicidade sugerida no título porque dela saiu apenas um número… Aliás, maior é o paradoxo se repararmos que, nesta história de mais de século e meio, não houve nenhum jornal diário a partir de Viana do Castelo, ainda que haja uma longa história de correspondentes de diários nacionais de referência na cidade.
Quanto aos títulos, há os que nos despertam a curiosidade, seja pelo que sugerem, seja pela originalidade: entre os primeiros, O snob (1905), A troça (1911), O peneira (1912), O gabiru (1913), O pedante (1913), Atira-le… Bernardo (1914), Zé da Gaita (1914) e O safado (1924), por exemplo; entre os segundos, refiro os casos de RTP (de 1958, publicação escolar surgida por altura do Natal, com propósito social, aproveitando o efeito do aparecimento recente da televisão em Portugal, mas identificando-se como Rápida, Total e Pronta a colaboração dos alunos para a consoada dos mais pobres), de Apolo (de 1969, jornal escolar saído em Abril, com título a propósito da proeza das 10 voltas à Lua feitas pela nave Apolo 8) e de Dar que falar (2004, aproveitando a sonoridade da expressão linguística para remeter para o ponto de origem, Darque).
Este volume Publicações periódicas vianenses é uma obra que se consulta com prazer, pelo que conta e pelo que dá a descobrir, com organização acessível e apresentação agradável, deixando no leitor a ideia de como a história local ou regional e a comunicação social se conjugam e se apoiam. Apesar de organizado alfabeticamente, este trabalho vai muito além do que é um registo enciclopédico de verbetes, quer pelo contributo que dá para o estudo da imprensa periódica, quer pelo pormenor a que desce na apresentação de cada título (orientações, tipo de conteúdos, colaboradores, mudanças na orientação, reprodução fotográfica do rosto de cada título), quer pela dificuldade na sua elaboração, uma vez que sabemos que, por se ligar à efemeridade, o jornal raramente é conservado, marca que dificulta a organização de um trabalho deste género. Aliás, os próprios autores o reconhecem ao mencionarem as bibliotecas (públicas ou particulares) que percorreram ou ao referirem as quase duas dezenas de títulos de que obtiveram referências mas que não conseguiram encontrar. Esta obra cultiva, pois, a memória local e a memória daquilo que se tem construído a partir da efemeridade, os jornais.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Sobre candidatos (seja ao que for)

O Alvaranense. Alvarães: nº 334, Fevereiro.2009.
Segundo José Pedro Machado, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, a palavra "candidato" está registada em português pelo menos desde o séc. XVII, tempo em que Luís Mendes de Vasconcelos a inseriu na sua Arte Militar (1612).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Aí está ele, o nº 1000 do "JL", isto é, o "Jornal de Letras"!

Primeira página da milésima edição do JL, tirada do Público,
que hoje lhe dedica duas páginas no suplemento "P2".

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

"JL"! Olhó número 1000!...

Estávamos a 3 de Março de 1981. Quase há 28 anos. Às bancas dos periódicos chegava mais um título. “Quinzenalmente, às terças-feiras”. Por 25$00, algo como 0,125 € (a assinatura anual, para o continente e ilhas, custava 520$00, algo como 2,60 €, o preço de cada edição hoje). Duas iniciais ocupavam quase metade do cabeçalho: JL, início de Jornal de Letras, sempre assim conhecido, apesar de o seu nome de baptismo ser um pouco mais comprido – Jornal de letras, artes e ideias. Assim mesmo. E, logo na página 2, José Carlos Vasconcelos, o director, justificava o nascimento e o nome: “Queremos ser um quinzenário de cultura potencialmente para toda a gente. (…) Se a literatura e as artes são o nosso primeiro campo operatório, não é por acaso que no cabeçalho também aparecem as ideias. Queremos que nas nossas páginas também possam ter o seu lugar, por exemplo, questões relacionadas com o urbanismo ou a informação, a ecologia ou a antropologia, a história ou a psicologia, mesmo com a política, embora não na sua visão imediatista e conjuntural”. Pertencia ao grupo Projornal e associava-se aos irmãos O Jornal, Jornal da Educação, História e Se7e.
Os nomes da ficha técnica eram (são) de peso: Augusto Abelaira, Eduardo Prado Coelho e Fernando Assis Pacheco, como coordenadores; João Abel Manta, como responsável artístico. Entre os colaboradores, uma plêiade quase, como se pode ver pelos que intervieram logo no número inaugural: Agustina Bessa Luís (“Cura na montanha e corrupção”, a partir de Dostoievski), Fernando Assis Pacheco (a entrevistar José Cardoso Pires), Francisco Bélard (sobre cinema português), Eduardo Prado Coelho (sobre cinema húngaro e sobre o primeiro volume de Conta-Corrente, de Vergílio Ferreira, de quem eram publicadas algumas páginas já do segundo volume), José Vaz Pereira (sobre televisão), Maria Estrela Serrano e José Manuel Nunes (sobre rádio), Eduardo Lourenço (evocando encontros com Jorge de Sena, de quem também eram publicados três poemas inéditos), Augusto Abelaira (“Ao pé das letras”), David Mourão-Ferreira (sobre o Arquipoeta de Colónia), Fernando Belo (“A crise dos cristãos de esquerda”), José Sesinando (sobre música), Alexandre Pinheiro Torres e Nuno Bragança (cronistas), Manuel Maria Carrilho (sobre livro de José Gil), Paula Morão (sobre vários livros e a propósito do número inicial de Nova Renascença), Urbano Tavares Rodrigues (sobre Fernando Namora), Miguel Serras Pereira, José Palla e Carmo e Fernando Pereira Marques (crítica literária), João Mário Grilo e Guilherme Ismael (sobre cinema), J. Nuno Martins e João de Freitas Branco (sobre música), Maria João Brilhante (sobre teatro), Sílvia Chico (sobre exposições). E notícias, entre outras: Poesia Toda, de Herberto Hélder; 40 anos de vida literária de Óscar Lopes; prémio "Montaigne" para Miguel Torga; morte de António de Sousa; exposição e livro de Júlio Pomar. E os anúncios: top livro da Bertrand; nº 4 da Persona; livrarias ("Leitura", "A Bibliófila", "O Mundo do Livro", "Portugal"); TAP; Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa; obras de Sena e de Cardoso Pires na Moraes; O dia dos prodígios, de Lídia Jorge; editoras ("O Oiro do Dia", "Presença", "Assírio e Alvim", "Valentim de Carvalho", "Multinova"); espectáculos (Pasolini na "Casa da Comédia").
36 páginas de novidades. 30 mil exemplares. Até ao número seguinte. Que sairia a 17 de Março e em que o director se regozijava com a recepção: a primeira edição estava praticamente esgotada e, em simultâneo com o nº 2, sucedia a reimpressão do número anterior, assim elevando a tiragem para 40 mil exemplares.
Cerca de dois anos e meio depois, em Novembro de 1983, passou a ser semanal (nº 72). Mas o andar dos tempos levou-o de regresso à sua periodicidade de origem. Em Fevereiro de 1992, saía o nº 500. Há duas semanas, em 14 de Janeiro, era o fim dos três dígitos, com o número 999. O título mantinha-se; o director também; as memórias também (provado pela evocação de Rodrigues da Silva); a riqueza e diversidade da cultura de língua portuguesa também.
A perspectiva da lusofonia tem sido, aliás, condimento forte, fortíssimo, nas páginas do JL e fácil é concluir que qualquer estudo da cultura lusófona a partir do início da década de 80 do século passado não poderá passar sem a consulta deste jornal. Obrigatoriamente.
Amanhã, 28 de Janeiro, sai o nº 1000. Olhó "JL"! Olhó número 1000!
Venha o nº 1000, pois! Venham muitos mais!