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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Filatelia evoca participação portuguesa na Grande Guerra



A participação portuguesa na Grande Guerra (1914-1918) é tema de uma emissão filatélica promovida pelos CTT com data de hoje.
Esta evocação é constituída por três selos, cada um deles homenageando um dos ramos das forças armadas que, em nome de Portugal, intervieram nas operações: um, de 0,50 €, evocando a força aérea, em que se destacam a figura do tenente Lello Portela (que participou no maior número de missões de combate e teve maior tempo de permanência no "front") e a imagem do aeroplano SPAD VII; um, de 0,63 €, lembrando a participação da marinha, mostrando o comandante Afonso de Cerqueira (que chefiou o Batalhão Expedicionário da Marinha do Sul de Angola) e o NRP Adamastor; um, de 0,85 €, destacando o exército, pondo em relevo a figura do soldado Aníbal Milhais (conhecido por "Milhões", herói do 9 de Abril) e um momento da instrução do CEP.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O soldado "Milhões", herói da Grande Guerra, contado por Francisco Galope



Aníbal Augusto Milhais, o conhecido “Milhões”, nasceu em 9 de Julho de 1895 e faleceu em 3 de Junho de 1970. Ainda não tinha 22 anos na data em que embarcou para a Flandres, incorporando o Corpo Expedicionário Português (CEP), no final de Maio de 1917, como militar do Regimento de Infantaria 19.
Vindo de Valongo (a que mais tarde se juntou “de Milhais” em sua honra), no concelho de Murça, Aníbal Augusto fazia parte do grande grupo de incorporados que nunca saíra do seu torrão. Muito saberia da vida, mas não conseguia adivinhar que, com o passar dos tempos, o seu nome viraria lenda, o seu rosto de herói desafiaria a memória numa praça da sua sede de concelho e a sua vida seria resguardada numa biografia publicada no primeiro ano do centenário da Grande Guerra, aquela em que ele se expôs diariamente à fortuna e de onde conseguiu regressar, contrariamente ao que foi o fado de camaradas de armas e de amigos e vizinhos.
Francisco Galope, jornalista, encontrou-se com a narrativa do soldado “Milhões” em 2008, quando preparava uma reportagem com informação de carácter histórico para a revista Visão – História, para um número que assinalaria os 90 anos do fim da Grande Guerra e da assinatura do Tratado de Versalhes. Mas a descoberta pedia mais do que uma reportagem e, cinco anos depois dessa publicação, Francisco Galope apresenta a biografia de Aníbal Augusto Milhais, o “Milhões” da lenda, sob o título O herói português da I Guerra Mundial (Lisboa: Matéria-Prima Edições, 2014).
Curiosamente, a forma de Aníbal Augusto ter ascendido ao lugar de herói ficou a dever-se a um jornal, o Diário de Lisboa, quando corria o mês de Abril de 1924, que desencantou o combatente transmontano e o fez andar num périplo que teve vários pontos altos de reconhecimento e de vivência, como foi, por exemplo, o da presença na Batalha, quando no dia 9 desse mês ali se procedeu à inauguração do lampadário junto do túmulo do “soldado desconhecido” (criado em 1921), homenagem aos caídos na Grande Guerra, em data cara para Milhais: fora na sequência da sua acção, em 9 de Abril de 1918, ao defender-se e ao defender muitos dos seus camaradas perante o inimigo alemão, que ele se tornou numa imagem do heroísmo no campo de batalha. Posteriormente, o desabafo de um dos seus comandantes, João Maria Ferreira do Amaral, ao dizer-lhe, num jogo de palavras, que ele ”era Milhais, mas valia Milhões”, abria-lhe a porta para a memória, de tal maneira que, no pedestal de Murça, a frase do comandante surge lavrada em lápide.
Se, em 1921, Menezes Ferreira contou a história heróica dos soldados portugueses, construindo uma personagem que seria resultado das vivências de todos eles, na obra João Ninguém – Soldado da Grande Guerra (contendo tanto de épico como de humorístico como de crítico), se designações como “serrano”, “gambúzio” ou “folgadinho” assentavam na tipificação do soldado herói português que combateu na Grande Guerra, o conhecimento de “Milhões” deu um rosto, um corpo e um sentir a esse herói, várias vezes aclamado, em diversas oportunidades alcandorado a representante da valentia dos homens do CEP.
Francisco Galope marcou encontros vários com a memória de “Milhões”, fosse através da leitura do que disseram os jornais, da consulta ao arquivo da RTP (onde surge registo de entrevista com o herói de Valongo de Milhais) e nos arquivos militares, fosse por via de fontes orais de familiares do “Milhões”, fosse ainda pelo recurso à literatura memorialística portuguesa deste período (cujos títulos vão sendo referidos ao longo da obra). Todo este viajar pela pesquisa no sentido de ser reconstituída uma biografia permitiu ao autor a elaboração de uma tela completa do que pode ter sido a vida de Aníbal Milhais, sobretudo na experiência na trincheira da Flandres. Afinal, aquilo por que Milhais passou não terá sido diferente do que foi vivido pelos outros companheiros conforme registado pelo memorialismo. Assim, Francisco Galope preenche lacunas, dando a imagem possível do herói e do seu feito.
O desenvolvimento da narrativa vai sendo sujeito a reflexão do próprio narrador, que, frequentemente, se cola ao seu protagonista no sentido de o entender ou de justificar as suas atitudes, sempre com o objectivo de tornar a narrativa mais viva, quase como se uma memória se reproduzisse, não esquecendo pormenores como o da maneira de falar ou o da linguagem utilizada, sobretudo no que diz respeito a gíria militar, ou mesmo o que advém da possibilidade de adivinhar o que correria no pensamento do soldado e na sua maneira de ver o mundo.
Aníbal Milhais não sai endeusado, antes nos é apresentado um cidadão, que, perante uma experiência rara e intensa, em que havia a vida para defender, hesita, ganha, perde e luta, não visando ser herói, mas procurando a sobrevivência, agindo com a naturalidade que a vida lhe ensinou. Francisco Galope, apesar do título dado ao livro, é cauteloso no apuramento da verdade em torno do gesto que fez Milhais subir ao estatuto de “herói” (o que se terá passado em Huit Maisons em 9 de Abril e nos dias subsequentes), apresentando, no final, documentos de Ferreira do Amaral e de David Magno, um justificando o reconhecimento e a atribuição de galardão a Milhais e o outro assumindo que o feito do soldado transmontano não foi mais glorioso que o de muitos outros dos seus homens, ainda que reconhecendo Magno que a imagem do “Milhões” se transformou em “símbolo dos nossos humildes soldados”.
Uma biografia a ler. Porque dá uma imagem do que foi a vida dos portuguese nas trincheiras, porque recria com base em fontes importantes um aspecto da participação portuguesa na Flandres, porque, ainda que falando de um “herói”, o humaniza. E porque, tal como nas histórias que conhecemos, não ficamos a saber tudo sobre os heróis, apenas o essencial.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Sobre heróis (de ontem e não de hoje...)

Na habitual rubrica “Viagens na história” que assina na revista Tempo Livre, João Aguiar escolheu para título deste mês “Como o tempo passa!” (Tempo Livre. Lisboa: INATEL, nº 195, Julho/Agosto.2008, pg. 54). O texto foi escrito em época das euforias do Euro 2008 e pretende falar de heróis…
Nuno Álvares Pereira (séc. XIV), Luís de Camões (séc. XVI), Luís da Câmara Pestana (1863-1899), Aníbal Augusto Milhais (mais conhecido por “soldado Milhões”, 1895-1970) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952) são os cinco heróis portugueses escolhidos por João Aguiar, homens que, “nos seus diversos domínios, conseguiram realizar obras verdadeiramente importantes que marcaram o rumo da nossa História”, cada um deles por uma boa razão – pela genialidade estratégica e pelo misticismo, pela poesia e pelo aventureirismo, pela luta contra a peste bubónica, pela acção na 1ª Grande Guerra e pelo prestígio na cultura, respectivamente.
E que tem isto tudo a ver com o Euro 2008? Eis a conclusão, de necessária leitura para rejeitarmos os excessos que nos foram impingidos, com a ajudinha costumeira da comunicação social, em tempo de simultaneidade de crise e de construção de heróis:

Poderá já vir um pouco fora de tempo, porque a época do Euro 2008 já passou… Mas esta opinião ajuda a perceber a grandeza dos desgostos assim como os excessos a que aderimos!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

La Lys, em 9 de Abril de há 90 anos… (2)

As perdas portuguesas em La Lys rondaram os 7 mil homens, tanto como cerca de um terço da força combatente portuguesa nessa data: 398 mortos e 6585 prisioneiros. A acrescer, mais ou menos um milhar e meio de feridos. Entre os prisioneiros, 233 viriam a morrer durante o cativeiro. Portugal mobilizara cerca de 100 mil homens para participar na Primeira Grande Guerra, deixando no local do confronto cerca de 8 mil. Ao longo dos 51 meses que a guerra durou (a contrariar as expectativas iniciais de que o conflito seria rapidamente resolvido), houve 65 milhões de mobilizados, 8 milhões e meio de mortos, 20 milhões de feridos e milhares de prisioneiros e desaparecidos. Números que impressionam nesse tempo entre o início de Agosto de 1914 e 11 de Novembro de 1918, data da assinatura do armistício.
Com a batalha de La Lys, o sector português foi aniquilado. Às perdas somava-se o cansaço pela longa permanência na frente, o abatimento moral, o abandono a que Lisboa votara o Corpo Expedicionário Português (CEP) e a falta de pessoal, essencialmente de oficiais.
De todas as figuras participantes em La Lys bem poderíamos falar de um herói colectivo, mas a história encarregou-se de encontrar um símbolo no soldado “Milhões”, de seu nome Aníbal Augusto Milhais, originário da Infantaria de Chaves. Em 9 de Abril, com uma metralhadora, em Huit Maisons, esquecendo o fogo inimigo, protegeu a retirada de muitos militares portugueses e escoceses.
Em Portugal, já não há combatentes da Primeira Grande Guerra vivos, mas muitos dos seus nomes são lembrados em placas toponímicas, em listagens locais, em pequenos memoriais, nas sempre procuradas avenidas “dos Combatentes” e nos monumentos aos “Mortos da Grande Guerra”. São marcas que vão ficando e bom seria que não passassem. Estamos, obviamente, longe do que aconteceu em França, onde não houve família que não tivesse um parente na linha de combate. Talvez por isso a memória seja lá mais viva e constantemente estejam a ser produzidos estudos sobre a Primeira Guerra Mundial. Lá mesmo, num inquérito a 1015 pessoas realizado no início de Novembro de 1998 para o jornal Le Monde e para France 3, a fim de serem indicados os acontecimentos marcantes do século XX, foram obtidos os seguintes resultados: 2ª Guerra Mundial – 62%; movimentos estudantis do Maio de 68 – 43%; queda do regime soviético – 38%; 1ª Grande Guerra – 35%, seguindo-se a construção europeia, a descolonização, o choque petrolífero dos anos 70, a crise de 1929, a revolução russa de 1917 e a revolução islâmica iraniana – dados que se tornam importantes uma vez que foram os inquiridos mais jovens a colocar a 1ª Guerra nos lugares cimeiros (a classe dos 15-19 anos atribuiu-lhe o 2º lugar).
A literatura memorialística e militar deu destaque ao 9 de Abril. Mas também a ficção não lhe foi alheia, tendo a data servido, por exemplo, para título de uma narrativa assinada por José Rosado e pelo capitão Silva Neves (Lisboa: João Romano Torres & Cª – Livraria Editora, s/d) e de uma peça de teatro assinada por António Botto (Lisboa: Livraria Popular de Francisco Franco, s/d). E ainda recentemente, em 2004, José Rodrigues dos Santos procedeu à recriação do sucedido em La Lys no seu romance A filha do capitão (Lisboa: Gradiva, 2004).
Muito embora a presença de Portugal nos campos da Flandres tenha ocorrido apenas a partir de Janeiro de 1917, certo é que o nosso país teve de combater também nas frentes de África, em Angola e em Moçambique. Das três participações ficaram relatos interessantes e sentidos, numa prática da literatura do vivido, do testemunhado, da memória, intensa, ainda que, hoje, quase só sejam lembrados os escritos memorialísticos de autores como Pina de Morais - Ao parapeito (Porto: Renascença Portuguesa, 1919) e O soldado-saudade na Grande Guerra (Porto: Renascença Portuguesa, 1921) -, André Brun - A malta das trincheiras (Lisboa: Guimarães & Cª, 1919) -, Augusto Casimiro - Nas trincheiras da Flandres (Porto: Renascença Portuguesa, 1919) e Calvários da Flandres (Porto: Renascença Portuguesa, 1920) - e Jaime Cortesão - Memórias da Grande Guerra (Porto: Renascença Portuguesa, 1919) -, apesar de muitos outros terem deixado o seu testemunho.