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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Frei António das Chagas, o frade de Brancanes


Frei António das Chagas (Biblioteca Nacional de Portugal); Cartas Espirituais (1957) 

António de Sousa Soares (1631-1682), alentejano da Vidigueira, teve vida aventurosa e repartida e passou várias vezes por Setúbal, onde foi comandante do terço de cavalaria. Um dia, sugestionado pela leitura de Frei Luís de Granada, decidiu enveredar pela vida eclesiástica, ingressando na Ordem Franciscana. Contudo, em função do seu percurso, foram-lhe levantadas dificuldades várias. Apesar dessas adversidades, a persistência não o abandonou e, em 1663, tomava o hábito no convento de Évora, passando a usar o nome de Frei António das Chagas. Tornou-se pregador e guia espiritual e passou por Setúbal (onde está consagrado na toponímia, na zona de Montalvão) em ocasiões diversas, estando o seu nome ligado à criação do convento de Brancanes.
Na colecção “Clássicos da Sá da Costa”, publicou Manuel Rodrigues Lapa um volume de correspondência de Frei António das Chagas, aí reunindo uma centena de cartas (das inúmeras que escreveu e distribuiu por um vasto leque de correspondentes), em que duas são redigidas a partir de Setúbal e numa outra há referência a uma sua vinda a Setúbal para acompanhar a fundação do seminário de Nossa Senhora dos Anjos de Brancanes.
Lê-se este volume das Cartas Espirituais (2ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1957) e contacta-se com um espírito sábio e delicado, feito pelas agruras da vida, usando a ironia e a objectividade, defendendo a humildade, por vezes de forma dura, e assumindo a vida como acção e caminho. Deixo alguns sublinhados por serem ensinamentos importantes.

Apetite- “Calar os apetites é conhecida ganância da alma, porque é dura violência da natureza.”
Árvore- “Árvore que com pequena tempestade cai ou tem poucas raízes ou é muito tenra ainda.”
Caminho- “O negócio de quem caminha consiste em não parar e ir por diante, ou seja por serras ásperas ou por vales aprazíveis ou por flores de consolação ou por espinhas de tribulação, apesar de que picam e magoam.” 
Conduzir- “Destreza é dos pilotos saber mudar as velas, de modo que se não perca o caminho na tempestade e que os mesmos ventos contrários nos metam no porto.”
Dizer- “Umas coisas se dizem porque se sabem dizer sem se chegar a sentir; outras, porque de senti-las nasce o dizê-las.”
Espelho- “Quem se vê muitas vezes ao espelho disforme, de algumas se deseja compor.” 
Excesso- “Tanta ruína padecemos às vezes por acendidos como por areados, tantas pelo fogo que nos abrasa, como por um mar que nos cerca; porque, se naquele o ardor é o maior perigo, neste a frieza não vem a ser menor dano.”
Fogo- “O fogo sempre deita faíscas que nos ferem quando não haja chama que nos queime.”
Governar- “Quase todos os que governam sabem por onde esta nau se vai ao fundo, e por onde entrou o mar da relaxação e distraimento, que especialmente é por ambições de mando, séquito e governo; e por carear votos e séquito se não repara na insuficiência e incapacidade dos sujeitos, e ficando nestes as prelazias imprimem em seus súbditos as suas semelhanças, dando cargos e vivendo para passar a subir e merecer ao humano, com pouca atenção ao divino.”
Herói- “A Hércules convidaram-no os conflitos e fizeram-no Hércules os trabalhos.”
História- “O fim principal da história é fazer presentes para a nossa doutrina os séculos passados e estender na duração das memórias aquelas posteridades da fama a quem faz ordinariamente injúria o esquecimento dos tempos.”
Mal- “As coisas más não se podem tratar sem medo.”
Mundo- “Não é o mundo lugar para o descanso.”
Nada- “O nada não faz ruído.”
Notícia- “A verdade é alma das notícias.”
Prémio- “Quem vai buscar o tesouro na mina vai por baixo da terra às escuras, não só com escuridades, mas com fadiga, abaixando sempre a cabeça. Depois dessas trevas, há-de vir a luz e, em dando na mina, veremos que todo o trabalho é pouco e toda a fadiga leve para o prémio que se acha e para o bem que se logra, que excede a toda a comparação.” 
Queda- “A queda, que para o vidro é ruína, para a pedra é descanso e sossego: os fracos como o vidro quebram, em caindo perdem-se, quebrando-se-lhe o coração, o ânimo e a confiança; e maior dano lhe faz a sua fragilidade que a sua queda. A pedra, como é forte, na sua queda descansa; e quanto é maior o baixo a que se despenhou, maior segurança adquiriu, porque no mesmo precipício achou fundamento para maior fortaleza.”
Rio- “Um rio, por pequenino que nasça, por fonte que comece, rio continua e mar acaba, se persevera.”
Santidade- “A santidade não consiste em muito contemplar, senão em muito obrar. Mais vale um dia, em que andais fazendo obras de caridade ou de humildade ou de obediência ou de paciência, que estar um mês em contemplação, êxtases e em raptos. Porque isto é comer a iguaria sem a merecer e aquilo é merecê-la, ainda que a não chegueis a comer.” 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Em dia de Fernando Pessoa (6), 82 anos depois da partida



Fernando Pessoa: "Para ser grande sê inteiro." Em capa de caderno, para lembrar sempre... 

domingo, 30 de abril de 2017

Sobre a vida e a sua alegria, de acordo com José Tolentino Mendonça



"Resmungamos com a vida. Falta-lhe alguma coisa, nunca nada é perfeito, nada está acabado ou resolvido. É como se estivéssemos a jogar um jogo insolúvel: se temos o poço, falta-nos a corda; se temos a corda, falta-nos o balde; se temos a corda, o balde e o poço, falta-nos a força de ir até ao fundo da nascente buscar a água que nos dessedente. (...) Cada um de nós tem tudo o que precisa para experimentar a alegria. Não é um problema de conhecimento, é uma questão de olhar. Olharmos para o que somos e para o que nos rodeia com um coração simples, capaz de perceber o dom que nos habita. Pois, se encostarmos o ouvido até mesmo junto das nossas maiores derrotas compreenderemos que a nossa vida canta!"
José Tolentino Mendonça. "Do uso do fracasso".
(Expresso - revista E: nº 2322, 2017-04-29, pg. 94)
Foto: Convento dos Capuchos, Sintra

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

João Coelho e Salvador Peres: Correspondência entre amigos que pensam a vida e o mundo



Quando se escreve a alguém, o acto é feito com o objectivo de ser obtida resposta, mas, em primeiro lugar, surge a intenção de que se seja lido. Andrée Rocha, no seu estudo A Epistolografia em Portugal (1965), refere que, “no acto de ser escrita, a carta dirige-se, normalmente, a um leitor vivo e único”, defendendo que ela deve ser lida “sem perder nunca de vista a repercussão que provocou nesse correspondente”. Estabelece-se assim o sentido que uma carta faz: só fica completo quando, do outro lado, está alguém, o destinatário da missiva, disposto a ler, a reagir.
Assim adquire sentido um título como Está alguém desse lado?, volume de correspondência entre João Coelho e Salvador Peres (Lisboa: Chiado Editora, 2016), mensagens trocadas num período de cerca de duas décadas, entre 1993 e 2015, muito embora os anos de 1995, 1999 a 2001 e 2013 estejam em branco quanto a comunicação. No total, 112 cartas, sendo metade de cada um dos autores, apesar de essa colaboração equitativa não corresponder exactamente a pergunta e resposta.
Ao longo destas mensagens, veiculadas por correio electrónico, o compromisso não é com uma história, mas com o prazer de escrever e de ensaiar, por aqui passando reflexões assentes em: histórias (como a do pescador que deixou uma enguia no buraco de uma árvore na floresta, contada por João Coelho); jogos de palavras (um deles, longo, quase imparável, deve-se a João Coelho, sobre a dúvida e a circularidade entre os primeiros e os últimos); momentos de romantismo e de poesia (como um desabafo sobre o mar, sentido por Salvador Peres); humor (como aquele momento em que João Coelho responde a Salvador Peres “Quanto à tua dúvida sobre se Deus saberá, escrevi-lhe ontem a pedir confirmação, como mandei a carta por correio azul espero que a resposta seja rápida”); locais (de que é exemplo magno o momento em que Salvador Peres tenta explicar a magia da Arrábida); actualidade (como o desafio proposto por João Coelho de se imaginar uma discussão sobre o país à volta de “uma mesa de reuniões oval muito grande”); vida (como a amarga verificação do que é hoje a rua - muita coisa menos “um lugar de paragem, de construção do mundo”, como diz João Coelho).
Também vão circulando nomes e referências da arte e da cultura por linhas em que o dizer se cruza com figuras como Platão, Álvaro de Campos, Bocage, Luísa Todi, Bernardim Ribeiro, Eça, Saramago, Agostinho da Silva, José Afonso ou Piazzolla. Habitualmente, há uma provocação, em tom sério ou de riso, e daí parte-se para o espaço da escrita, por vezes no mesmo dia, muitas vezes depois de o tempo se acumular. É de João Coelho (2 de Julho de 1998) a explicação: “Quando se escreve podem-se criar universos novos, diferentes, estimular a imaginação, não tendo de se ficar preso ao real. Podem-se ultrapassar muitas fronteiras e erguer algumas.” O mesmo autor, oito anos depois (24 de Outubro de 2006), confessa: “Eu apenas opino e brinco, não leves a mal.” E Salvador Peres justifica a entrada no jogo (1 de Setembro de 2004): “Foi bem oportuno o teu texto. Obrigou-me a escrever e isso é já um começo.” Estes desafios e justificações (serão?) não se repetem, mas o leitor tem a sensação de que eles estão sempre presentes, em cada interpelação e em cada resposta, em cada pergunta e em cada especulação.
Os pontos de vista abraçam-se nas diferenças e na chegada a momentos de partilha, com um discurso directo e, muitas vezes, acutilante, como defende Salvador Peres (17 de Julho de 2014): “Ser afectivo sem ser lamechas é um exercício nem sempre fácil de conseguir. Eu não gosto, de todo, do registo fofinho. Prefiro as subtilezas da ironia e o gume afiado do humor.”
Este livro conduz o leitor a momentos de encontro com o mundo, possibilidade que acaba por responder à provocação que o próprio título, produzido em uníssono pelos dois autores, pode ser: claro que tem de estar alguém deste lado, claro que deve estar alguém deste lado! Para que estas cartas agora publicadas façam sentido. Elisabete Caramelo, que prefaciou a escolha dos autores, termina a sua apresentação dizendo que este livro é “a narrativa de quem não está fechado no seu pequeno mundo e mostra, todos os dias, que ser humano é pensar e sentir e protestar e agir e, sobretudo, imaginar”. Eis a razão por que é obrigatório estar alguém deste lado!

Sublinhados
Absoluto - “O absoluto está fora do alcance da nossa razão. Um ser limitado e condicionado temporalmente como nós não pode ter a pretensão de o conhecer.” (Salvador Peres, pg. 99)
Anonimato - “É penoso não falarmos de nós. Não há pior sina do que o anonimato. A alternativa a não se ser mediático, nos tempos que correm, é ser uma espécie de vegetal, não comestível, ainda por cima.” (Salvador Peres, pg. 56)
Bom senso - “O bom senso é uma invenção recente. Nunca, na história da humanidade, houve bom senso nem mau senso. As coisas acontecem sempre a despeito de sensos, sejam eles bons ou maus. E se contarmos com o bom senso acordamos mijados. A sabedoria não reside no bom senso, mas sim na posição que ocupamos relativamente às ameaças ou desafios da vida.” (Salvador Peres, pg. 74)
Dizer - “O indizível só se diz por equívoco.” (Salvador Peres, pg. 60)
Escrita - “A escrita não me serve para fixar a memória, antes para criar novas memórias. Isto é, não me é relevante em termos de registo histórico para fixar factos, nem sequer pessoas, mas para fazer emergir factos, pessoas e pensamentos, cuja realidade existe paralelamente ou para além do mundo real.” (João Coelho, pg. 117)
Fala / Escrita - “A escrita, por ser um acto reflexivo e analítico, é, por excelência, o discurso da inteligência. A fala, pelo seu carácter mediático e informal, é mais o discurso do afecto. A escrita luta para ordenar o espírito. A fala é, por natureza, dissimuladora e desestabilizadora. Uma constrói, outra desconstrói. Ambas são necessárias para tentar perceber as fronteiras.” (Salvador Peres, pg. 92)
Felicidade / Infelicidade - “Ser infeliz não é não ser feliz. A infelicidade é um fenómeno bem mais complexo. A infelicidade não é causada pela ausência de felicidade. A felicidade não se encontra como quem encontra uma pessoa que não víamos há algum tempo. A felicidade é um processo, uma construção que não tem fim à vista. Somos ou não somos felizes no decurso desse processo ou construção. Não somos felizes de forma estática. (...) A ausência de felicidade é um estado neutro, muitas vezes confortável e suficiente para se viver com qualidade. A sofreguidão da felicidade, o querer conquistá-la a qualquer preço, isso sim, pode conduzir a estados de depressão que confusamente se podem confundir com estados de infelicidade. Ser infeliz não é não ser feliz.” (Salvador Peres, pg. 222)
Mudança - “Para o mundo, tanto lhe dá que empreendamos a tarefa de o mudar: ele não muda, quem muda somo nós, isto é, a parte de nós que se convence de que há mudança.” (Salvador Peres, pp. 73-74)
Mundo - “O mundo é nosso no breve instante cósmico em que o sentimos na palma da mão, na ponta da caneta, ou algures, por entre os labirintos da alma, às vezes pelas razões mais simples e aparentemente sem importância.” (Salvador Peres, pg. 101)
Passado - “O passado é um lugar estranho e perturbador. Às vezes, quando o olhamos, parece já não cabermos nele. Não sei se crescemos ou encolhemos: mas caber, não cabemos.” (Salvador Peres, pg. 119)
Perguntar - “As respostas nunca são uma consequência das perguntas, mas sim o contrário, precisamente o inverso.” (Salvador Peres, pg. 68)
Tempo - “O nosso tempo é tangível e curtíssimo. Há, portanto, que aproveitá-lo, vivendo-o o melhor que soubermos e pudermos, com a certeza de que aquilo que somos é único e irrepetível e que não há, tanto quanto se conhece, uma segunda oportunidade: é agora ou nunca! Mesmo na hipótese remota da reencarnação, o que se vive é outro tempo, sem ligação ao anterior, sem lembranças nem saudades de um tempo que não se conheceu e de amigos que se perderam para sempre.” (Salvador Peres, pp. 167-168)
Tempo - “O tempo é a soma de todos os anos passado com todos aqueles que ainda estão por vir.” (Salvador Peres, pg. 17)
Vida - “Esta vida é muito incerta e o que de certo nos for oferecido deve ser tomado a duas mãos, ou a três, se alguém as tiver, para que a nossa vida seja mais feliz e iluminada.” (João Coelho, pg. 32)

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Sublinhados - José Rodrigues Miguéis, "O Espelho Poliédrico"



O Espelho Poliédrico, de José Rodrigues Miguéis (Lisboa: Estúdios Cor, 1972), é um conjunto de textos em que o cronista se assume como “simples narrador de histórias reais e experiências inventadas” (como refere no intitulado “O galo, o estudante e o professor”), embora algumas vezes povoando esses mesmos textos com uma dose de memorialismo, mesmo que tenha registado algo como: “Não escrevo memórias, talvez nunca as escreva: a não ser transpostas em ficção, ou quando um flash de lembrança, como agora, me ilumina.” (em “O Corcundinha”). No final da obra, lá vem a “nota do autor” a explicar que as crónicas são um conjunto vasto e diversificado de “memórias, comentários e ficções” e a indicar a origem - publicadas no Diário de Lisboa, na sua maioria, entre 1968 e 1971, algumas inéditas e outras surgidas em várias publicações periódicas.

Sublinhados
Automóvel - “O automóvel é também um prolongamento mórbido da personalidade e da sensibilidade: ao mais leve contacto, risco ou amolgadela no verniz da carroçaria ou nos niquelados, pior que insultos ou facadas; se alguém se me atravessa no caminho, me obriga a desacelerar a marcha, me ultrapassa ou me rouba o precioso parking - eu pulo fora do carro, espumante e de punhos em riste, pronto a insultar, a agredir, a matar até, como é frequente, o transgressor dos meus sacratíssimos ‘direitos’. O carro fez dos homens autênticos artrópodes metalomecânicos, lavagantes desmiolados, impessoais, isolados entre si pela carapaça de duas toneladas de aço-lata com motor e quatro rodas, capaz de esmigalhar ossos, carnes e nervos, na qual andam metidos e conduzem (ou são conduzidos) sem verem os seus semelhantes: com a mesma anarquia de sentimentos, a mesma fúria, indiferença ou hostilidade com que andariam entre inimigos ou em terra conquistada.” (“Sua Majestade o Automóvel”)
Eternidade - “A Eternidade não é feita da soma dos dias, dos instantes, mas do aprofundamento de cada instante, de cada átomo, de cada ser, em que a própria matéria se dissolve.” (“Enterro de um Poeta”)
Homem - “É nas mínimas circunstâncias do quotidiano que os homens, por vezes, melhor revelam a sua têmpera.” (“O galo, o estudante e o professor”)
Juventude - “O tempo da mocidade é curto, mas denso de afectos e actividades.”  (“Levanta-te e Caminha”)
Mudança - “As coisas, quando mudam, é: a) para melhor; b) para pior; c) para ficarem na mesma. Esta saída é mais frequente do que se imagina.” (“Aforismos e Venenos de Aparício - III”)
Ódio - “Os ódios e rancores não se calam nem à beira do túmulo.” (“Requiem para Junqueiro”)
Palavra - “Vale mais um pensamento lúcido, embora sem palavras, do que a verborreia a mascarar o vácuo ou pobreza das ideias.” (“Aforismos e Venenos de Aparício - III”)
Política - “O a-politismo é quase sempre uma política de sinal contrário (ou resulta nela).” (“Levanta-te e Caminha”)
Vida - “A vida é feita de tanta coisa! E nem toda a sabedoria se aprende nos livros.” (“A garrafa de conhaque”)

sábado, 23 de maio de 2015

"Orpheu" - sublinhados no seu centenário



Em 1915, surgiu a revista Orpheu, sendo o primeiro número (alusivo aos meses de Janeiro a Março) dirigido por Luís de Montalvor e por Ronald de Carvalho e o segundo (referente ao trimestre de Abril a Junho) por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. O terceiro número não chegaria a ser publicado e só em 1984 apareceu a edição das respectivas “provas de página” (em fac-símile) pela mão da revista Nova Renascença e do seu director, José Augusto Seabra.
Neste ano de centenário, uma revisita às páginas da revista (cuja edição fac-similada dos dois números editados, em volumes autónomos, saiu recentemente com o diário Público) deixa-nos com a verdade de que a revista surpreende de cada vez que a ela se volta. Por aqui deixo uns sublinhados de Orpheu, pela ordem em que aparecem em dada um dos três números (a paginação da revista foi continuada de número para número, visando a organização em volume).

Eu – “Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.” (Mário de Sá-Carneiro. “7”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 14)
Eu – “Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes / Que um outro, só metade, quer passar / Em miragens de falsos horizontes / Um outro que eu não posso acorrentar…” (Mário de Sá-Carneiro. “Ângulo”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 15)
Tu – “Dentro da água dos teus olhos / minha alma treme como um lírio…” (Ronald de Carvalho. “Reflexos”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 25)
Mar – “Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 30)
Sentir – “Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!...” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 32)
Sonho – “O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas.” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 34)
Sonho – “Só vós sois feliz, porque acreditais no sonho…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 39)

Erro – “Eu fui alguém que se enganou / E achou mais belo ter errado…” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas sem suporte – Elegia”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 97)
Admiração – “Não admiramos o que a nós é estranho, sentindo então, o que já não admiramos?” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 117)
Ideal (em arte) – “O indefinido a que na arte nós aspiramos, essa ânsia de ideal que mais do que o ideal para nós vale, essa ânsia, esse desejo infinito e jamais satisfeito, deve encher a nossa vida que a mais alta expressão se tornará assim da arte pura!” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 119)
Arte – “Toda a obra de arte é a justificação de si própria.” (Nota da redacção sobre os poemas assinados por Violante de Cisneiros. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 122)
Vida – “A vida é só o Espaço / Que vai da própria Linha / À sombra dela num traço. // Quando a Morte for vizinha, / Fundidas no mesmo Espaço / Será tudo a mesma Linha.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 123)
Presente – “Só sensações são Presente, / Só nelas vive a Verdade.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 124)
Infância – “Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, / E ficar lá sempre, sempre cirança e sempre contente!” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 147)
Longe – “Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve – / Em parte nenhuma, graças a Deus.” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 149)
Eu – “Contemplo o meu destino em mim.” (Luís de Montalvor. “Narciso”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 156)

Vida – “Atapetemos a vida / Contra nós e contra o mundo.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Sete Canções de Declínio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 167).
Tempo – “Passar tempo é o meu fito, / Ideal que só me resta: / Pra mim não há melhor festa, / Nem mais nada acho bonito.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Cinco Horas”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 174).
Deus – “Olho o Tejo, e de tal arte / Que me esquece olhar olhando, / E súbito isto me bate / De encontro ao devaneando – / Que é ser rio, e correr? / O que é está-lo eu a ver? // Sinto de repente pouco, / Vácuo, o momento, o lugar. / Tudo de repente é oco – / Mesmo o meu estar a pensar. / Tudo – eu e o mundo em redor – / Fica mais que exterior. // Perde tudo o ser, ficar, / E do pensar se me some. / Fico sem poder ligar / Ser, ideia, alma de nome / a mim, à terra e aos céus… // E súbito encontro Deus.” (Fernando Pessoa. “Além Deus – Abismo”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 186).
Política – “E vós também, nojentos da Política / que explorais eleitos o Patriotismo! / Maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 200).
Jornalismo – “E vós também, pindéricos jornalistas / que fazeis cócegas e outras coisas / à opinião pública!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 201).
Portugal – “E ainda há quem faça propaganda disto: / a pátria onde Camões morreu de fome / e onde todos enchem a barriga de Camões!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Homem – “Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio / que Deus perdeu de vista o Adão de Barro / e com pena fez outro de bosta de boi / por lhe faltar o barro e a inspiração! / E enquanto este Adão dormia / os ratos roeram-lhe os miolos, / e das caganitas nasceu a Eva burguesa!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Vida – “Vivemos tão pouco / que ficamos sempre a meio caminho do Desejo.” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 205).
Natureza – “Ouve a Terra, escuta-A. / A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 209).
Sonho – “Os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos / Como outros quaisquer.” (C. Pacheco. “Para além doutro oceano”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 221).

domingo, 10 de maio de 2015

"Que coisa são as nuvens", de José Tolentino Mendonça



Algumas crónicas (quase uma centena) de José Tolentino Mendonça que viram a luz no Expresso ao longo dos anos de 2013 e de 2014 estão agora ao alcance do leitor sob o título Que coisa são as nuvens (Lisboa: “Expresso”, 2015). Não é experiência nova do autor, uma vez que já em 2010 dera à estampa a colecção O Hipopótamo de Deus e outros textos (Lisboa: Assírio & Alvim), reunião de crónicas saídas nos “media”, entre os quais se contava também o semanário Expresso.
De crónicas não se pode esperar o que vá além de uma reflexão sobre algo do quotidiano; mas das crónicas se pode esperar tudo isso que é a reflexão, uma maneira de olhar o mundo, de o sentir, de nele reparar. O título da colectânea, vindo de uma filme de Pasolini (1967), alberga pensamentos que foram “uma iniciação, mesmo que imprevisível, à arte do espanto”; daí que o título do texto introdutório passe mesmo por essa virtude do olhar reforçada com o verbo “reparar”: “Para quem não tiver reparado”.
As crónicas de Tolentino Mendonça passam por esse espanto com as coisas do mundo e da vida, algo que nos surpreende e cativa, que se constrói sobre a estética, venha ela da escrita ou das outras artes, corra ela desde os sentimentos ou decorra dos acontecimentos, conflitue ela com as nossas  formas de vida ou abra-nos caminhos de descoberta.
Tanto é merecedor da crónica o bolo de bolacha como o bolo de arroz ou o chocolate, os prazeres experimentados como as descobertas, o sentido poético como as grandes obras. E o leitor vai saltando de Eugénio de Andrade para Ana Teresa Pereira, pensando sobre a morte ou sobre a poesia ou sobre os avós, entrando na pedagogia de Ruben Alves ou no fascínio de El Greco, convivendo com Van Gogh ou com José Saramago, ouvindo Rosenzweig ou Cesariny, pensando com Sophia ou com Simone Weil (dois dos nomes que emergem com mais frequência).
Estes pensares de Tolentino Mendonça vão ao encontro de formas de ser e de viver o mundo e a vida, congregando a espiritualidade inerente a cada gesto ou a cada momento, convidando a entradas por reflexões de outros, povoadas por citações exemplares do lido e do conhecido como se fossem ingrediente ou condimento. São textos curtos, que não vão além das duas páginas mas que nos deixam à porta das descobertas, no limiar do que é “reparar”, lá onde as nuvens mostram as suas diferenças e as suas consistências.
Uma boa iniciativa do Expresso, numa luta contra a efemeridade, em prol de momentos de encontro do leitor com o pensamento e com o mundo!

Sublinhados
Abraço – “Um abraço é uma hipótese de equilíbrio que a hospitalidade dos corpos é chamada a inventar. Qualquer abraço começará por ser uma coreografia instável. Se calhar, a primeira forma do abraço é só um agarrar-se para não cair. Pouco a pouco, o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou e surge como um lugar novo, um lugar que não existia no mundo e que juntos encontramos.”
Acabar – “O momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado, não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas condição irrecusável do próprio ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo. O inacabado liga-se, é verdade, com o vocabulário da vulnerabilidade, mas também com a experiência de reversibilidade e de reciprocidade.”
Amigo – “A banalização da palavra amigo produz uma incapacidade de compreender (e de viver) amizades verdadeiras.”
Arte – “Há três dimensões fundamentais (e esquecidas) na arte, companhia que importa recordar: a gratuidade, a aceitação e a capacidade de partilhar o silêncio.”
Casa – “As casas são uma máquina de habitar e desempenham um papel chave na construção da nossa experiência humana. Mas todas as casas falam, pela presença ou pela ausência, de outra coisa que está para lá delas. Falam disso que um humano é, matéria ao mesmo tempo sucinta e imensa, de fazer espanto. Falam do conhecimento que só é verdadeiro se alojar em si a consciência do que ignora hoje e ignorará até ao fim. Falam da luta pela sobrevivência, com a sua rudeza, a sua dor e tumulto, mas também da excedência que experimentamos, porque se a vida não transbordar não é vida. Falam da intimidade, aquém e além da pele. Falam do silêncio e da palavra, que umas vezes se contradizem e outras não. Falam do cumprido e do adiado, do sono e da vigília, do fraterno e do oposto, da ferida e do júbilo, da vida e da morte.”
Desgraça (íntima) – “A nossa cabeça de pessoas crescidas é complicada. Descobrimos que há um prazer em listar achaques e traições, e se a minha chaga puder ser maior do que a tua tanto melhor, isso reforça o meu estatuto. A verdade é que, se não tomarmos atenção, a desgraça íntima torna-se um escanzelado pódio onde nos blindamos.”
Dinheiro – “O dinheiro não se fica a orientar apenas o ordenamento material da vida comum, mas contamina indelevelmente a dimensão imaterial da vida, as suas aspirações mais profundas. (…) Quer dizer, passou a ser um poderio, pois actua por si mesmo, detendo uma autonomia que só conhece como lei a sua. O dinheiro só tem respeito pelo dinheiro: nas relações que estabelece, tudo se compra e se vende, e é nessa espécie de delírio totalitário que ele prefere viver.”
Futuro – “Embora nos pese toda a indefinição ou os maus prognósticos, conservamos em relação ao futuro uma expectativa que nunca é completamente fechada. Quem sabe? – insistimos nós.”
Lentidão – “A lentidão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário; escolhe mais vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.”
Passado – “O passado é, em grande medida, um tempo confortável, mesmo quando nos esmaga. Provoca-nos o alívio, (…) está num lugar certo, mesmo se nos espaventa de tão completamente errado.”
Presente – “Do presente, da pressão do presente, da sua irrefutável factualidade, desatamos facilmente a escapar.”
Reparar – “Reparar introuz-nos por si só numa lentidão, porque aquilo a que alude não é um observar qualquer: é um ver parado, um revisar porventura mais minucioso do que o mero relance; é uma visão segunda, uma nova oportunidade concedida não apenas ao objecto, nem sequer apenas ao olhar, mas à própria visibilidade. [Reparar] põe também em prática uma reparação, um processo de restauro, de resgate, de justiça. Como se a quantidade de meios-olhares e sobrevoos que dedicamos às coisas fosse lesivo dessa ética que permanece em expectativa no encontro com cada olhar. Por isso, de certa forma, só quando reparamos começamos a ver.”
Saber – “Reconhecer que ‘não se sabe’ pode trazer desconforto, mas traz também saúde interior e criatividade.”
Silêncio – “Aquilo a que chamamos silêncio só se torna real e efectivo através de um processo de despojamento interior, e de nenhuma outra maneira.”
Simplicidade – “Nada nos pede mais trabalho e arte do que a simplicidade.”
Vida – “A vida é completamente artesanal. Não é possível reproduzi-la em série, nem encontra-la feita noutro lado. A vida requer a paciência do oleiro, que, para fazer um vaso que o satisfaça, faz duzentos só a treinar o gosto, a habilidade, a testar a sua ideia.”
Vida – “Privamo-nos a nós próprios do tempo necessário para colher o sabor, o silêncio ou as cintilações que temperam a vida. No atropelo ofegante a que nos entregamos há um crescente alheamento de nós próprios. Não lhe damos o estatuto de patologia, mas esta desertificação da vida interior disfarçada de eficácia o que é senão isso? As nossas sociedades medem infelizmente o seu progresso esquecendo, quando não obliterando, domínios da vida humana que não são mensuráveis e que têm a ver com a interioridade, a criação, o dom, a alegria, o sentido.”

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Brissos-Lino: a propósito de "Fado - A torcer o destino"



Quase uma centena de páginas depois de começar a narrativa que integra a obra Fado – A torcer o destino, de José Brissos-Lino (Lisboa: Novos Autores, 2013), há uma frase-chave sobre a personagem Maria João – “não era da terra e ninguém sabia exactamente de onde viera”.
Está o leitor em companhia da personagem que vai sustentar toda a história, Maria de Fátima por nascimento, que assume o seu trajecto mudando o nome para Maria João (e, depois, para Mary Jane), numa atitude de escolha do nome mais adequado (questão identitária), um pouco a misturar atributos de géneros, a tornar-se um ser outro a partir do momento em que descobre que a vida pode ser outra coisa. Com efeito, a frase que seleccionei mais não é do que um indício do que pode vir a ser a trama desta história – a descoberta da história da própria personagem, num percurso de reconstrução da identidade, num recuo até às origens, sempre dando crédito à sua força de viver o presente.
Essa frase marca a viragem no curso da narrativa, que passa a viver em torno dessa personagem de enigmática origem e de não menor enigmática forma de ser e de ver o mundo. Mas, por outro lado, é também o percurso de descoberta que Maria João vai fazer o responsável pela coerência da narrativa, a explicação para outra não menos enigmática figura que surpreende o leitor desde o início, o Algarvio, pescador em Setúbal, que se sentia mais seguro sobre a água do que sobre a terra.
A história de Maria João é um itinerário através de enigmas, não só do seu (quanto à sua origem), mas também dos de outros – como o de Arcanjo ou o da própria organização denominada “Fadistas”, em que acaba por colaborar.
A narrativa passa por locais como Setúbal, Santiago do Cacém e Lisboa (em Portugal) e Nova Iorque (nos Estados Unidos), todos eles albergando os seus segredos e outros tantos conjuntos de histórias ou episódios que vão marcando o todo que Fado é, haja em vista segmentos como os dos encontros com o jovem poeta Sebastião da Gama, com o eremita da Arrábida (figura entre o humano e o profético) ou com o moleiro Arcanjo (figura que só por si valeria uma longa história, mestre que despoleta o percurso de demanda em Maria João); haja em vista ainda trechos com pequenos quadros que vivem pela sua autonomia também, como os da procissão da Senhora do Monte, da matança do porco, do Monte dos Malucos, do Cabeça de Abóbora ou dos tratadores enjaulados no Jardim Zoológico.
Quanto às personagens, os seus nomes carregam frequentemente uma dimensão simbólica com resquícios mais ou menos bíblicos, pelo menos proféticos e sábios, sendo que algumas das figuras surgem retratadas numa dimensão que ultrapassa o humano, assumindo-se como marcos ou referências, com um saber indiscutível aliado a uma simplicidade desconcertante. O narrador não passa incólume pelo meio destas figuras, deixando que o seu ponto de vista surja frequentemente grudado ao pensamento das próprias personagens, numa quase relação de identificação, sobretudo com Maria João.
O tempo desta história ocorre entre Fevereiro de 1941 e Setembro de 1945, percurso fortemente marcado por indicadores históricos conhecidos: o ciclone de 1941 marca o início da obra e da história, descrição bem construída quanto aos efeitos locais e também quanto ao retrato calamitoso que deixou como herança, podendo mesmo ser visto como metáfora de outros ciclones que assolavam o mundo, à data – o do regime político em Portugal, que aprisionava, com referências múltiplas à polícia política e à perseguição, e o da Segunda Grande Guerra, também ela um intenso marcador do tempo nesta história, que se conclui, de resto, com a assinatura da rendição japonesa, em Setembro de 1945, quando o grupo “Fadistas” é desmantelado e Maria João, agora Mary Jane, vive fase de sucesso e de estabilidade nos Estados Unidos, o “eldorado” para todos os que da Europa tinham fugido na primeira metade da década de 1940.
Por este romance circulam personagens históricas como Peggy Guggenheim, Max Ernst, Saint-Exupéry, Salazar, Aristides Sousa Mendes ou Sebastião da Gama; passam referências à Grande Guerra, ao regime político, à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, aos espiões que povoavam Lisboa e a zona do Estoril, às falsificações documentais, aos recursos usados para a expressão crítica e oposicionista – como é paradigmático o caso do nome Lazaras dado ao burro por Arcanjo, anagrama de Salazar. A região de Setúbal revê-se também neste trajecto, com referências à vida dos pescadores, ao Sado, à Arrábida, à fábrica de óleo de baleia, ao desenho da cidade ou ao acidente com uma aeronave em Tróia.
Algumas das personagens vão fazendo aprendizagens ao longo da história, sendo o caso mais evidente o da própria Maria João, que começa um percurso de regras numa organização, paradoxalmente a actuar à margem da lei, passo que concilia a personagem consigo própria, ela que se definia à custa de uma metáfora, que contrariava toda a norma: “O pensamento é um cavalo selvagem a correr nos campos, não o posso amarrar.”
Maria João, que descobre a sua data de nascimento e a origem da morte da mãe numa lápide de cemitério, é a personagem que pauta o avanço da narrativa e que também a faz pausar com o recurso ao “flashback” da sua memória ou da tentativa de reconstituição do seu percurso de vida. Esta personagem lida com tanto à-vontade com o universo agitado onde existe “o ronco irritante dos automóveis em coro nas ruas a engasgarem-se nas subidas mais íngremes” como com o “interior despovoado, sem vivalma”, da “cidade dos mortos”, duas imagens que são também os extremos da sua história – o vazio que se fizera quanto aos primeiros tempos da sua vida e a plenitude que encontrou ao descobrir a sua história, afinal, o poder da inscrição.
Fado – A torcer o destino tem, assim, o título plenamente justificado, estabelecendo a circularidade entre o “fado” e o “destino”, ao mesmo tempo que proporciona ao leitor o contacto com momentos que também fizeram a identidade e o retrato do século XX, deixando que da sua personagem principal irradie o ritmo que formata e condiciona a própria história, uma história que cada leitor faz de cada vez que procura afinidades no universo que são as vidas das personagens.


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Adversidade – “Quando vem a adversidade sabe sempre bem encher o peito e fazer-lhe frente. Mostrar-lhe que um dia ela há-de passar, por ser episódica ou mesmo cíclica, e nós ainda continuaremos por cá, porque a vida é nossa e não dela. É a nossa vingança secreta.” (pg. 106)
Aparência – “Nesta vida temos de ser sempre camaleões, estar sempre a mudar de aparência. Num dia senhor, noutro dia operário. Num dia dama, noutro dia criada. Não nos podemos arriscar a ser reconhecidos pela roupa…” (pg. 176)
Casa – “A nossa casa é onde está o nosso coração.” (pg. 52)
Conflitos – “Os conflitos entre os homens, apesar de estúpidos na sua natureza o mais que se possa imaginar, são sempre episódios pontuais na eterna linha do tempo.” (pg. 250)
Coragem – “Ser corajosa não é ter medo. (…) Ser corajosa é enfrentar a situação, mesmo quando temos medo.” (pg. 64)
Dor – “A melhor maneira de lidar com a dor de uma pessoa é (…) exorcizá-la pela via do disparate e da loucura. Resulta no momento, pelo menos.” (pg. 164)
Estar consigo – “Quem está sempre rodeado de muita gente não tem tempo, nem condições, de ficar consigo mesmo. Está centrado nos outros, na forma como comunica, na opinião das pessoas, nos seus sentimentos e ideias. (…) Qualquer pessoa precisa de ter momentos a sós consigo mesmo, reflectir nas suas próprias ideias, sentimentos e sensações. Se não o fizer, corre o risco de viver sempre em função do eco que recebe dos outros sobre si mesmo.” (pp. 45-46)
Guerra – “A guerra é uma fábrica de órfãos e de viúvas. E de loucos.” (pg. 29)
Morte – “Tudo o que fala em morte incomoda as pessoas.” (pg. 157)
Tempo – “Um minuto é um minuto e um segundo é um segundo. Tudo conta. Se querem ser bons profissionais têm de ser pontuais. Se marcamos qualquer coisa às cinco, é mesmo às cinco, não é às cinco e dois minutos. Se (…) falharem um minuto, falham em qualquer coisa.” (pg. 186)
[Na apresentação da obra, em 4 de Outubro, no Salão Nobre da CMS]