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domingo, 31 de maio de 2009

A "roubalheira" de que falou Vital Moreira como cúmulo da demagogia num tempo em que os discursos deviam ser mais inteligentes

«O candidato Vital Moreira tem feito uma campanha oscilante. Ora para se afirmar à esquerda (contra o Bloco), ora para se afirmar à direita (contra o PSD). Para a esquerda inventou, por exemplo, o voto contra Barroso (o cúmplice de Bush). Para a direita, quando as sondagens começaram a mudar, resolveu sair com o escândalo BPN: um acto de outra seriedade e natureza. Vital Moreira é um candidato gaffeur (ponto em que de resto está bem acompanhado). Desde o princípio que passa o tempo a dizer que não disse exactamente o que disse ou a explicar que, se por acaso disse, o que disse não queria dizer o que parecia. Toda a gente via com complacência a irremediável confusão daquela cabeça coimbrã e o zelo sempre extravagante do convertido. Coitado, não era. Mas, no caso do BPN, as coisas não se podem tomar com tanta ligeireza. Vital Moreira ligou expressamente a "roubalheira" do BPN a "figuras gradas" do PSD e pediu a Manuela Ferreira Leite "explicações" sobre o assunto. O tom "heróico" deste despropósito - "A mim (Ferreira Leite) não me intimida, nem me amordaça" - seria só ridículo, se não fosse inadmissível. O que fica implícito nesta posição de Vital Moreira é que o PSD como partido (e não o sr. A. ou sr. B., que a ele acidentalmente pertencem) incitou, facilitou ou escondeu a enorme fraude do BPN e que, por consequência, o PSD deve condenar pública e politicamente o sr. A. e o sr. B., como directo responsável pelos crimes que eles cometeram, se na verdade os cometeram. Nunca ninguém se atreveu a ir tão longe na demagogia eleitoral.
No próprio PS houve quem se espantasse com este delírio, que, tratando o PSD como uma associação criminosa, ignora militantemente as regras básicas da democracia. Maria de Belém (presidente da comissão parlamentar de inquérito ao BPN) protestou. E, como se calculará, José Lello correu a criticar Belém e a confortar Vital. É agora decisivo que se saiba - e se saiba com muita clareza - para que lado Sócrates se vai inclinar. Manuela Ferreira Leite já lhe exigiu, como é óbvio, uma declaração inequívoca. Inequívoca e, convém acrescentar, indispensável, porque se o secretário-geral do PS (e, além disso, primeiro-ministro) aprova, ou tolera, os métodos de Vital Moreira por uns votos numa eleição secundária, tudo é de facto permitido - e tudo inevitavelmente se pagará mais tarde.»
Vasco Pulido Valente. "Vital Moreira". Público: 31.Maio.2009.

domingo, 10 de maio de 2009

A Bela Vista (Setúbal) lida por Vasco Pulido Valente

Um aviso
«No Bairro da Bela Vista, em Setúbal, construído em 1976, vivem à volta de 7000 pessoas. É, segundo o Diário de Notícias, a "zona mais multirracial" da cidade (africanos, ciganos, timorenses). Certamente por isso é também a zona com mais desemprego: no último trimestre o desemprego no distrito andava pelos 10,5 por cento (um número inquietante) e na Bela Vista por mais do dobro - 23,5 por cento. Como seria de esperar, também a taxa de escolaridade está muito abaixo do normal, porque ninguém estuda sem esperança de trabalho. O presidente da junta de freguesia também se queixa da falta de "equipamentos lúdicos", de "equipamentos de lazer" e do mau estado do "parque habitacional". Apesar de tudo, a criminalidade está "muito abaixo" da de outros bairros de Setúbal e as relações entre a população e a polícia têm sido normalmente "boas".
Mas já houve um caso de violência grave, em 2002, quando um agente matou a tiro um jovem e quinta-feira à noite, depois do enterro de outro jovem local também morto a tiro (desta vez no Alvor, pela GNR do Algarve), um grupo atacou a esquadra da polícia à pedrada e com cocktails molotov. Pior ainda: sexta-feira, a meio da tarde, um homem (com capuz) voltou a atacar a esquadra com uma caçadeira de dentro de um carro "em alta velocidade". A PSP não acha - e aparentemente com razão - que se trate de um gang organizado. Acha que o episódio, embora dramático, foi um acto da mesma natureza dos tumultos da véspera: um gesto de revolta contra a ausência de futuro e a miséria de uma geração.
O "Bispo Vermelho", ou seja, o bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, concorda. Numa declaração solene, avisou que um "incidente" desta natureza pode com facilidade "encontrar" uma "fogueira", "preparada para incendiar o país". D. Manuel não pensava, evidentemente, numa conspiração. Pensava na fome. "Sem pão", disse ele, "ou mato ou me mato". Não custa a imaginar que se comece por matar. O bispo emérito não é o primeiro a profetizar uma explosão brutal e generalizada, sem qualquer objectivo político e fora de qualquer partido. Sucedeu em França e sucedeu na Grécia; e Mário Soares não pára de prevenir que nada impede - e muita coisa indica - que venha a suceder aqui. Se o sistema de representação legal - o Parlamento, o Governo, o Presidente - deixa de facto de representar o povo ou parte dele (e não uso aqui a palavra demagogicamente), o que fica é, como de costume, a acção directa.»
Vasco Pulido Valente. "Um aviso". Público: 10.Maio.2009

sábado, 15 de novembro de 2008

A educação vista a partir do "Público" de hoje

1) Manuel Carvalho, "A reforma impossível nas escolas"
2) Vasco Pulido Valente, "Os professores"

sábado, 12 de julho de 2008

"O estado da nação", por Vasco Pulido Valente

No Público de hoje:
«O"Estado da Nação"? Basta olhar para a Assembleia, quieta e calada, para se perceber o "Estado da Nação". Em nenhum parlamento da "Europa" subsiste um partido como o Partido Comunista Português, que não deixou ainda a "guerra fria" e vê Portugal como o via em 1960. Com uma certa razão. O PCP não é, por assim dizer, o artifício de um fanatismo inexplicável e ridículo: é o produto arcaico de uma economia arcaica e de um Estado autoritário e monstruoso. Num país moderno não existiria; na eterna "modernização" de Portugal prospera. Exactamente como o Bloco, que vem do mundo dúbio da heterodoxia marxista e se alimenta da pobreza letrada e de uma velha história, que só neste ermo, esquecido e miserável, continua. O PC e o Bloco são, segundo as sondagens, 20 por cento do eleitorado.
Fora isto, que já chega, há o "debate" entre os presuntivos representantes da democracia "burguesa". De facto, não há debate - de qualquer espécie. A oposição fala do atraso e da insuficiência do país, que naturalmente quase não varia, e atribui ao Governo a culpa dessa interminável desgraça. O Governo devolve a culpa à oposição, que já foi governo, e gaba os méritos das duas ou três coisas, que no meio da balbúrdia conseguiu fazer. Nunca, em tempo algum, se sai daqui. Assistir a uma sessão é assistir a todas. Nem as personagens mudam; e a realidade, essa, não penetra em S. Bento. Para os participantes neste ritual, a substância de uma questão ou de um argumento não contam. "Ganhar" é a afirmação de uma simples superioridade teatral ou da "esperteza" bronca e bruta, que "apanha" o próximo e que o indígena tanto estima.
Em 1975, a Assembleia ainda sabia gramática e usava com alguma eficiência a língua portuguesa. Hoje papagueia sem vergonha os lugares-comuns da propaganda partidária ou perora num calão administrativo e "técnico", que se destina habilidosamente a esconder a verdade ou o vácuo. A tradição oratória, até a salazarista, desapareceu. Não há memória de um discurso organizado e claro, que tenha tido sobre a opinião pública um efeito profundo e duradouro. A Assembleia é um clube privado que, de quando em quando, a televisão mostra a um país mais do que indiferente.
O "debate" sobre o "Estado da Nação" da última quinta-feira exibiu involuntariamente o país como ele é: a indigência intelectual, a mesquinhez de propósito, a irresponsabilidade política. Daquela gente não se pode esperar nada.»

sábado, 8 de março de 2008

"Pelos Professores", por Vasco Pulido Valente

Hoje, 70.000 professores vêm a Lisboa protestar contra o Governo e a ministra da "Educação". Não posso simpatizar mais com eles. Mas não me parece que tenham percebido bem o fundo da questão: nem eles, nem a generalidade do público. Toda a gente parte do princípio que os professores devem ser avaliados; mesmo os próprios professores, que só criticam o método proposto pela 5 de Outubro. Ninguém ainda disse que os professores, pura e simplesmente, não devem ser avaliados, nem que a avaliação demonstra a (incurável?) deformidade do sistema de ensino. Em cada manifestação aparecem professores furiosos proclamando que não temem a avaliação. Acredito que sim. Infelizmente, não se trata disso.
Uma avaliação pressupõe critérios: parece que neste caso à volta de catorze (e pressupõe avaliadores, muitos dos quais sem qualquer competência científica ou pedagógica ou interesses de uma total irrelevância para a matéria em juízo). Os critérios medem, peço desculpa pelo truísmo, o que é mensurável como, por exemplo, a assiduidade ou notas de uma exactidão discutível, como perfeitamente sabe quem alguma vez deu notas. Não medem nem a "moral", nem o "ambiente", nem os valores da escola ou a contribuição de cada professor para a sobrevivência e a força dessa "moral", desse "ambiente" e desses valores. Numa palavra, não medem a qualidade, de que depende, em última análise, o sucesso ou o fracasso do acto de ensinar. Criam uma trapalhada burocrática que esteriliza e que massacra e acaba sempre por promover a mediocridade, o oportunismo e a rotina. A sra. Thatcher ia matando assim a universidade inglesa.
Os professores não precisam de uma vigilância vexatória e nociva por "avaliações". Precisam de um ethos, que estabeleça uma noção clara e unívoca de excelência. Se o ensino superior for de facto excelente (e não o travesti que por aí vegeta) e se tiver inteira liberdade de seleccionar alunos (como agora não tem), os professores ficarão com um objectivo, o de preparar as crianças para o ensino superior, que os distinguirá entre si, sem regras de espécie alguma; e que tornará o seu trabalho pessoalmente mais compensador, interessante e útil. Desde o princípio que o Estado democrático não compreendeu esta evidência. Começou as reformas por baixo e não por cima. Aturou sem vergonha os mercenários que exploravam a universidade. E de repente quer que os professores paguem a conta do desastre. Não é admissível.
Público, 08.Março.2008

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Ainda a entrevista do Primeiro-Ministro à SIC

"Tomar 'medidas'" é o título da crónica de Vasco Pulido Valente no Público de hoje, texto a abordar a entrevista que José Sócrates deu à SIC a propósito dos três anos do seu governo. Para traçar o retrato da entrevista e das ideias veiculadas, Vasco Pulido Valente agarrou a área da educação, uma das selecccionadas para essa entrevista. Da crónica, reproduzo o seguinte excerto:
"(...) Para começar, [José Sócrates] lembrou logo que sem ele não haveria aulas de substituição, como na "Europa" inteira. Sobre a importância, a utilidade e o efeito da coisa, nem uma palavra. Manifestamente, achava a medida "certa" ou, se quiserem, "correcta" e o resto não lhe interessava. A seguir, veio o encerramento de escolas rurais quase sem alunos, outra medida "certa" e "correctíssima". Mas nem uma palavra sobre a espécie de escolas para onde as crianças foram transferidas (professores, equipamento, instalações, dinheiro). Em terceiro lugar, com uma citação de Clinton a favor da "liderança", apareceu inevitavelmente a gestão escolar. Só que Sócrates não se lembrou de explicar o objectivo dessa "liderança" (o autêntico problema, como se calculará) e nem sequer tocou no risco e nos limites da experiência (aliás, legalmente diluída) num país como Portugal. Para ele, a história acaba na medida. Como na medida acaba a introdução do Inglês (de resto, uma disciplina não obrigatória), sem qualquer reverência a quem e como o irá ensinar. E, por fim, o argumento para a avaliação dos professores ficou reveladoramente reduzido à bondade intrínseca da medida pela medida: é melhor uma avaliação má do que nenhuma.
Sentado em São Bento, Sócrates não vê o país, vê a organização jurídica da "educação" (ou da saúde, ou da justiça) e um molho de estatísticas. Depois toma medidas, que julga aplicadamente pelo seu "bom senso" e pela sua racionalidade imediata, ou seja, superficial. Para ele, governar é "tomar medidas". Imagina com certeza que, "tomando medidas", reforma Portugal. A realidade não entra nesta história. Sem sair do seu mundo abstracto e asséptico, na televisão ou no Parlamento, Sócrates convence, até porque está sinceramente convencido. Mas cá fora, embora incomodado aqui e ali pela autoridade do Governo, Portugal continua igual ao que era.
"

domingo, 25 de novembro de 2007

Um iluminismo doido?

No Público de hoje, há dois artigos de opinião que parece terem sido combinados quanto à temática, abordando o espaço de manobra que a todos cada vez menos resta quanto a decisões pessoais e este pendor regulamentador de tudo e de nada, como se o mundo (um outro mundo) estivesse a ser construído agora. Só que este outro mundo é lixiviado e oleado e não se compadece com as pessoas, antes se orienta por quem quer ser dono do mundo e para quem as pessoas são instrumentos da engrenagem. Decididamente, é a era do paradoxo da liberdade regulamentada ou do “despotismo iluminado” (como lhe chama Vasco Pulido Valente) ou de uma época em que… “eles estão doidos” (como diz António Barreto).
De “Eles estão doidos!”, de António Barreto, que inventaria situações de proibições comezinhas que nos vão entrando no curso da vida: “Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo (…). Tudo isto, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.”
De “O despotismo iluminado”, de Vasco Pulido Valente, que se insurge quanto a esta mania de todos terem que pensar igual: “No Portugal de 2007, (…) foi decidido o que devemos pensar sobre: multiculturalismo, sexualidade e moral sexual. O que devemos tolerar e o que não tolerar no próximo ou no comportamento do próximo. O que são ou não são políticas permissíveis para Portugal e para o mundo. E foi decidido o que um cidadão meritório come e bebe e que vícios a vontade geral lhe consente (o tabaco, não; a droga, conforme). Vivemos sob um despotismo iluminado, que não aceita a irregularidade, a dissidência, o direito de cada um à sua própria vida e ao uso irrestrito da sua própria cabeça. Ao pé disto, a pequena política doméstica não vale nada.”

domingo, 11 de novembro de 2007

Vasco Pulido Valente e o Museu Salazar

No Público de hoje, Vasco Pulido Valente escreve sobre "A casa de Santa Comba Dão", pensando sobre a criação do Museu Salazar que tem gerado controvérsia entre a autarquia local, que o quer instituir, e a esquerda, que fomentou um abaixo-assinado, contestando a sua criação, recentemente entregue na Assembleia da República. Diz VPV: «Santa Comba Dão quer agora fazer "um museu" da casa de Salazar. O que se compreende muito bem. Tanto quanto sei, só a casa de Salazar pode atrair a Santa Comba Dão um ocasional turista; e o "museu" fica por uns potes de cal e uma limpeza. Com sorte, o café da terra, se existir, ganha algum dinheiro e aparece um espertalhão a vender "relíquias". Tudo isto é inofensivo e um pouco patético. Mas bastou para provocar a indignação da velha esquerda pliocénica, que nem sempre se distinguiu pelo ardor democrático. Um abaixo-assinado, entregue solenemente na Assembleia da República, pede que se proíba o "museu", como se o "museu" fosse uma espécie de reabilitação de Salazar e o salazarismo ameaçasse ressurgir do Vimieiro a um euro e meio por bilhete. Não ocorre a ninguém que de Santa Comba Dão nunca virá um culto de Salazar como o culto (aliás, ridículo) de Mussolini em Predappio. Ao neo-salazarismo faltam as forças que provocaram e criaram o salazarismo (…). Salazar é um homem do passado remoto. De um passado irreconhecível. O negócio de Santa Comba Dão com a casa do homem é irrelevante para a cultura política do regime. E talvez não seja para Santa Comba Dão. Os censores da consciência nacional deviam, de preferência, olhar para eles.»