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quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Olhar Creta com José Augusto Seabra



Foi à imagem do palimpsesto que José Augusto Seabra (1937-2004) recorreu, em A Luz de Creta (2000), para estabelecer a relação entre a ilha grega, as referências pessoais acumuladas sobre a ilha ao longo da vida e a escrita diarística que constitui o livro, num tempo de seis anos, correspondentes a outras tantas estadas na ilha, no período entre 1986 e 1997.

Logo à partida, o livro chama a atenção para uma determinada forma de escrita, pois apresenta, abaixo do título, a indicação de “Diário Poético”, formulação que remete para géneros e para modalidades específicas, afigurando-se como encontro de um continuum na descontinuidade da vida. Desta mesma relação dá conta Seabra, ao registar no primeiro texto (“A Ilha”): “De viagem em viagem à ilha, foi-se adrede escrevendo um texto intermitente. Ele ganhou pouco a pouco (...) a forma de uma espécie de diário de mareante, de retorno em retorno a um porto”. 

Nos vários registos, o diaristafaz a colagem da história cultural nas suas múltiplas referências a Creta, num texto de reencontro do autor com o seu percurso e com a sua obra, num desvendar das atracções que de Creta lhe provocavam o fascínio, permanentemente mantido e cultivado desde a adolescência, tempo de leitura e de encontro com Ulisses e com o Minotauro (“o mito fascinara-me e perturbara-me de raiz”), passando pela marca da resistência de que, na Segunda Guerra Mundial, Creta se revestiu, valores fortalecidos pela leitura de Kazantzakis (“intérprete inesquecível da identidade do povo cretense”) e pela música e conhecimento pessoal de Theodorakis (que Seabra conheceu no exílio e com quem participou em manifestação contra a ditadura grega), não esquecendo ainda o eco trazido por Jorge de Sena no poema “Em Creta, com o Minotauro”, evocativo do expatriado em absoluto e de um tempo de paz e de reencontro. 

Nas palavras de Seabra, datadas de 31 de Julho de 1989, este livro será “um tributo pago regularmente a Cronos, que aqui nos devora os dias e as noites”, um conjunto de “instantâneos breves, com a obsessão de sorver o tempo todo, em momentos raros de aproximação da plenitude: fóricos, disfóricos”, um acto que se impõe – “recomeçar este diário intermitente, de Creta em Creta reencontrada”, isto é, afirmando a possibilidade de o tempo ter intermitências sem ser repetitivo.

As referências a autores ocorrem em abundância, sejam eles portugueses (Pessoa, Camões, Almada, António Ferreira), do mundo clássico (Homero, Sófocles, Ésquilo), gregos (Cavafis, Seferis, Kazantzakis) ou contemporâneos (Barthes, Darío, Steiner, Yourcenar, entre muitos outros), ao mesmo tempo que desfila uma galeria de personagens míticas (Zeus, Europa, Ariadna, Dédalo, Minos, Afrodite, Apolo, Diónisos, Édipo, Antígona, Cronos), num percurso que pretende lidar com uma ideia universal de cultura e de pensamento a partir de uma ilha que terá sido a mãe da civilização.

Mesmo refugiado na paz de Creta, o diarista não se ausenta do mundo e segue o seu romance - foi durante estadas na ilha que aconteceram factos como a liderança de Walesa na Polónia, as consequências da queda do Muro de Berlim, os conflitos com os albaneses refugiados, a destituição de Gorbatchov, entre outros. 

As suas interrogações remetem sempre para o futuro, num misto de dúvida, mesmo quando a reflexão paira sobre o que lhe está próximo. No entanto, quanto ao passado, uma certeza é inabalável, resultante de um sentir humanista, que valoriza a relação do homem profundamente ligado à cultura, vector muito acentuado em Seabra: “A civilização é, de facto, o que perdura, através das barbáries”.

* J.R.R. "500 palavras". O Setubalense: nº 707, 2021-10-06, p. 14.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Adolfo Casais Monteiro: (um)a certa ideia de Europa



O dia 23 de Maio de 1945, uma quarta-feira, tem um registo incerto na cronologia da II Grande Guerra: provavelmente, terá sido o dia em que Himmler, com 45 anos, poderoso do III Reich, chefe das SS e da Gestapo, se suicidou, num trajecto vertiginoso de final de uma época, depois que Hitler cometera o mesmo feito no derradeiro dia de Abril e, sobretudo, depois que a paz voltara à Europa a partir de 8 de Maio. Na capital portuguesa, o jornal Diário de Lisboa desse dia 23 (dir.: Joaquim Manso. Lisboa: nº 8078) mostrava na sexta página uma pequena nota em que referia: “A Europa, durante cinco anos, correu em busca de abrigo para as tormentas da sua dor. Para onde? Para onde houvesse indício de aquietação, ao menos para onde o cenário não fosse o mesmo. (…) Agora, passado o temporal, cada um tenta a viagem de regresso.” Era o regresso dos exilados, de volta à Europa-mãe, numa tentativa de reencontro e de reconstrução de um continente de paz.
Nesse mesmo dia 23 de Maio [passaram há pouco 70 anos], acontecia um evento que não consta nas cronologias da II Guerra Mundial e que envolveu portugueses: aos microfones da BBC, António Pedro lia o poema Europa, de Adolfo Casais Monteiro, texto que só viria a ser publicado no ano seguinte (1946) por responsabilidade da editora Confluência (com desenho de António Dacosta), ainda que com alterações. Por 1945, António Pedro era autor de palestras na BBC, em que não poupava o regime alemão. Em 16 de Novembro desse ano, em carta, Casais Monteiro anunciava ao palestrante da BBC: “desde que o ouvi ler a minha Europa tornou-se uma espécie de pesadelo; a pura verdade é esta: queria umas boas horas de cavaco consigo – e não tenho vontade de aqui estar a falar só” e, mais adiante, refere a publicação do poema, que lhe será oferecido, por ser “a mínima justiça que lhe posso fazer”. Com efeito, o livro abre com a dedicatória “Ao António Pedro, que foi na hora própria a voz de todos os Portugueses que não esqueceram a sua condição de Europeus e cidadãos do mundo”. De uma só vez, três linhas de orientação sobre o ser português – a memória, a condição europeia e a cidadania.
O poema seria publicado no início de 1946 e, da parte de José Régio, mereceu uma apreciação epistolográfica datada de 24 de Fevereiro, a partir de Portalegre: “De facto, penso que ele não vale – como arte – uma página dos Adolescentes [de 1945]. Já sei que esta minha opinião também o não surpreende. Mas não acho mal que Você o tenha escrito e publicado. A poesia desse género tem dois grandes perigos: o mero interesse de actualidade – e a quase irresistível tendência para se sobrepor à poesia – à verdadeira poesia – a declamação retórica. Mas o seu poemeto salva-se menos mal desses terríveis riscos pela vibração de sinceridade que o atravessa.”
Constituído por cinco partes, o poema apela para a existência de uma Europa civilizada, com identidade, a ser recriada, valorizadora do homem. Logo na primeira parte, a ideia é a do sonho de uma Europa humanizada, rejeitando o que tinha acontecido antes: “Tua grandeza a fizeram / os que nunca perguntaram / a raça por quem serviam. / (…) // Europa, ó mundo a criar! // Europa, ó sonho por vir / (…) / Europa, sonho incriado. / (…) /// Europa, tu virás só quando (…) / O homem que sonhaste, Europa, seja vida!” Depois deste desafio deixado na abertura do poema, há a contemplação adequada ao tempo histórico “de discursos, / florindo em chaga, em pus, em nojo / (…) de guerras de fronteiras”, para, a seguir, ser marcado o espírito de vigilância e ainda o receio: “Os que não morreram velam. // (…) / o medo ronda, / o ódio espreita.” E o poeta intervém, no seu momento, sentindo o desdém pela obra cometida, pela destruição conseguida, pela desumanidade: “Olho num pasmo sem limites, / e fico sem palavras, / na dor de serem homens que fizeram tudo isto”, sendo o pronome a moldura para um quadro de terror – “esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, / esta lama de sangue e alma, / de coisa e ser”.
Tão intenso trajecto só poderia terminar em protesto, em compromisso contra a malícia e contra a desumanização. As exclamações e as perguntas retóricas ajudam a pensar, numa condução para o repúdio pela obra feita – “De que são feitos os homens / (…) / que matavam ou deixavam morrer homens aos milhões?” –, levando a uma conclusão inevitável, forte – “O homem não se há de submeter à / violência” –, e a uma proclamação – “Só o homem livre é digno de ser homem!”, máxima que fecha o grito escrito.
O poema afirma-se em forma de declaração de intenções, num acto compromissivo com a vida e com o futuro, na busca de um paraíso cultural e humanizado, sonhado, capaz de curar a Europa devastada e sofrida que sobrevivia. Como José Augusto Seabra reconheceu (“Um poema português para a Europa”, prefácio à edição de Europa, em 1991 – Porto: “Nova Renascença” / Europalia), este era um texto de “apelo à fraternidade”, mas também de “prevenção lúcida” aos povos, aos políticos e aos países no sentido de serem afirmados valores como “a liberdade, os direitos humanos, a solidariedade social”.
O que a Europa foi depois, o que a Europa é agora, até que ponto a marca emblemática apregoada por Casais Monteiro se configurou… essas são outras questões que vão além da literatura e, especialmente, da poesia!

sábado, 23 de maio de 2015

"Orpheu" - sublinhados no seu centenário



Em 1915, surgiu a revista Orpheu, sendo o primeiro número (alusivo aos meses de Janeiro a Março) dirigido por Luís de Montalvor e por Ronald de Carvalho e o segundo (referente ao trimestre de Abril a Junho) por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. O terceiro número não chegaria a ser publicado e só em 1984 apareceu a edição das respectivas “provas de página” (em fac-símile) pela mão da revista Nova Renascença e do seu director, José Augusto Seabra.
Neste ano de centenário, uma revisita às páginas da revista (cuja edição fac-similada dos dois números editados, em volumes autónomos, saiu recentemente com o diário Público) deixa-nos com a verdade de que a revista surpreende de cada vez que a ela se volta. Por aqui deixo uns sublinhados de Orpheu, pela ordem em que aparecem em dada um dos três números (a paginação da revista foi continuada de número para número, visando a organização em volume).

Eu – “Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.” (Mário de Sá-Carneiro. “7”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 14)
Eu – “Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes / Que um outro, só metade, quer passar / Em miragens de falsos horizontes / Um outro que eu não posso acorrentar…” (Mário de Sá-Carneiro. “Ângulo”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 15)
Tu – “Dentro da água dos teus olhos / minha alma treme como um lírio…” (Ronald de Carvalho. “Reflexos”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 25)
Mar – “Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 30)
Sentir – “Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!...” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 32)
Sonho – “O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas.” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 34)
Sonho – “Só vós sois feliz, porque acreditais no sonho…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 39)

Erro – “Eu fui alguém que se enganou / E achou mais belo ter errado…” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas sem suporte – Elegia”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 97)
Admiração – “Não admiramos o que a nós é estranho, sentindo então, o que já não admiramos?” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 117)
Ideal (em arte) – “O indefinido a que na arte nós aspiramos, essa ânsia de ideal que mais do que o ideal para nós vale, essa ânsia, esse desejo infinito e jamais satisfeito, deve encher a nossa vida que a mais alta expressão se tornará assim da arte pura!” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 119)
Arte – “Toda a obra de arte é a justificação de si própria.” (Nota da redacção sobre os poemas assinados por Violante de Cisneiros. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 122)
Vida – “A vida é só o Espaço / Que vai da própria Linha / À sombra dela num traço. // Quando a Morte for vizinha, / Fundidas no mesmo Espaço / Será tudo a mesma Linha.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 123)
Presente – “Só sensações são Presente, / Só nelas vive a Verdade.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 124)
Infância – “Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, / E ficar lá sempre, sempre cirança e sempre contente!” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 147)
Longe – “Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve – / Em parte nenhuma, graças a Deus.” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 149)
Eu – “Contemplo o meu destino em mim.” (Luís de Montalvor. “Narciso”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 156)

Vida – “Atapetemos a vida / Contra nós e contra o mundo.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Sete Canções de Declínio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 167).
Tempo – “Passar tempo é o meu fito, / Ideal que só me resta: / Pra mim não há melhor festa, / Nem mais nada acho bonito.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Cinco Horas”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 174).
Deus – “Olho o Tejo, e de tal arte / Que me esquece olhar olhando, / E súbito isto me bate / De encontro ao devaneando – / Que é ser rio, e correr? / O que é está-lo eu a ver? // Sinto de repente pouco, / Vácuo, o momento, o lugar. / Tudo de repente é oco – / Mesmo o meu estar a pensar. / Tudo – eu e o mundo em redor – / Fica mais que exterior. // Perde tudo o ser, ficar, / E do pensar se me some. / Fico sem poder ligar / Ser, ideia, alma de nome / a mim, à terra e aos céus… // E súbito encontro Deus.” (Fernando Pessoa. “Além Deus – Abismo”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 186).
Política – “E vós também, nojentos da Política / que explorais eleitos o Patriotismo! / Maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 200).
Jornalismo – “E vós também, pindéricos jornalistas / que fazeis cócegas e outras coisas / à opinião pública!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 201).
Portugal – “E ainda há quem faça propaganda disto: / a pátria onde Camões morreu de fome / e onde todos enchem a barriga de Camões!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Homem – “Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio / que Deus perdeu de vista o Adão de Barro / e com pena fez outro de bosta de boi / por lhe faltar o barro e a inspiração! / E enquanto este Adão dormia / os ratos roeram-lhe os miolos, / e das caganitas nasceu a Eva burguesa!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Vida – “Vivemos tão pouco / que ficamos sempre a meio caminho do Desejo.” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 205).
Natureza – “Ouve a Terra, escuta-A. / A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 209).
Sonho – “Os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos / Como outros quaisquer.” (C. Pacheco. “Para além doutro oceano”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 221).

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

José Augusto Seabra: a descoberta de Creta

Foi à imagem do palimpsesto que José Augusto Seabra recorreu, em A Luz de Creta (Lisboa: Edições Cosmos, 2000), para estabelecer a relação entre a ilha grega, as referências pessoais acumuladas sobre a ilha ao longo da vida e a escrita diarística que constitui o livro. A Luz de Creta assume uma escrita produzida num tempo de seis anos, correspondentes a outras tantas estadas na ilha, no período entre 1986 e 1997. Logo à partida, o livro chama a atenção para uma determinada forma de escrita, pois apresenta, abaixo do título, a indicação de “Diário Poético”, formulação que remete para géneros e para modalidades específicas.
Comecemos pelo “diário”. Escrita das descontinuidades do tempo, abarca os dias, sem dúvida. Mas também os anos. Aqui, é a passagem por vários anos (1986, 1988, 1989, 1991, 1994 e 1997), sempre em época de estadia em Creta, o encontro de um continuum na descontinuidade da vida. Desta mesma relação dá conta Seabra, ao registar no primeiro texto (“A Ilha”): “De viagem em viagem à ilha, foi-se adrede escrevendo um texto intermitente. Ele ganhou pouco a pouco (...) a forma de uma espécie de diário de mareante, de retorno em retorno a um porto”. Um pouco adiante, é o autor quem justifica o subtítulo atribuído à obra – “de escrita em escrita, o que se retraça é a cartografia íntima de uma viagem de circum-navegação, à volta de um espaço insular circunscrito mas aberto ao universal poético”. Isto é: a escrita surge como registo, como mapa de orientação, tentando conciliar algo cuja aproximação é impossível, ou, pelo menos, difícil.
A ilha tornou-se mais pessoal do que geográfica, dando azo à utopia, sendo povoada “dos nossos fantasmas” depois que, nos vários momentos de atracagem, foi possível “conhecer-lhe as costas irregulares, as cavernas recônditas, os relevos e as planuras, os córregos e os caminhos ínvios, os casarios e as gentes estranhas que a habitam”.
A Luz de Creta é também um diário cultural, no sentido em que o eu faz a colagem da história cultural nas suas múltiplas referências a Creta, num texto de reencontro do autor com o seu percurso e com a sua obra, num desvendar das atracções que de Creta lhe provocavam o fascínio, permanentemente mantido e cultivado desde a adolescência, tempo de leitura e de encontro com Ulisses e com o Minotauro (“o mito fascinara-me e perturbara-me de raiz”), motivador da ficção de uma personagem mista de “herói cívico e libertador”, passando pela marca da resistência de que, na Segunda Guerra Mundial, Creta se revestiu (ponto forte de combate entre ingleses e alemães, culminando em importante batalha aérea em Maio de 1941, época em que o autor tinha 4 anos), valores sobretudo fortalecidos em José Augusto Seabra pela leitura de Kazantzakis (“intérprete inesquecível da identidade do povo cretense”) e pela música e conhecimento pessoal de Theodorakis (que Seabra conheceu no exílio e com quem participou em manifestação contra a ditadura grega), não esquecendo ainda o eco trazido por Jorge de Sena no seu livro de 1969, Peregrinatio ad Loca Infecta, particularmente no poema “Em Creta, com o Minotauro”, evocativo do expatriado em absoluto e de um tempo de paz e de reencontro.
Este encantamento que prendeu Seabra a Creta, durante muito tempo mantido à distância e quase secreto, encontrou concretização já na década de 80 – “Só mais tarde, em 1984, pude pela primeira vez pôr pé na ilha desejada e temida”. Dessa primeira afloração à ilha não há diário, mas memória, sobretudo do entusiasmo vivido – “Sentia-me talvez com uma nova vocação de Teseu e confiava em Ariadna – leia-se: Norma – para desenrolar o novelo da viagem labiríntica. Ela foi de uma solicitude total e lá partimos nós para Creta, via Atenas”. Surge aqui um comprovativo da escrita autobiográfica, com a sobreposição das personagens principais deste diário a pessoas reais e conhecidas: José Augusto Seabra e Norma Backes Tasca, sua mulher. Dessa primeira abordagem a Creta, a memória ficou povoada pelas marcas do abrigo e da descoberta, sobretudo no domínio cultural. É a partir da referência a Norma Tasca que o sujeito “nós” passa a ter um valor de referência reduzido ao casal, uma vez que, antes, se afirmava como um equivalente mais global, diluído na generalidade dos humanos.
O primeiro texto de A Luz de Creta constitui um registo memorialístico, porque não apresenta data, relata a experiência de um eu e evoca um conjunto de indicadores que acabam por justificar os textos diarísticos que seguem. Afinal, este primeiro texto explica, quase em jeito de crónica, o aparecimento do diário ligado a Creta, mantendo a escrita sobre um eu na perspectiva dum tempo e dum meio primordiais, incitadores do que viria a seguir, o diário, em termos de escrita, ou as sucessivas viagens a Creta, em termos de experiência de vida. O que é, ou pretende ser, este diário? Nas palavras de Seabra, datadas de 31 de Julho de 1989, terceiro ano de diário de estadia em Creta, será “um tributo pago regularmente a Cronos, que aqui nos devora os dias e as noites”, um conjunto de “instantâneos breves, com a obsessão de sorver o tempo todo, em momentos raros de aproximação da plenitude: fóricos, disfóricos”, um acto que se impõe – “recomeçar este diário intermitente, de Creta em Creta reencontrada”, isto é, afirmando a possibilidade de o tempo ter intermitências sem ser repetitivo.
Os textos do diário alusivos a 1989 tinham já sido parcialmente publicados na revista Nova Renascença (“De um Diário Grego”. Nova Renascença. Porto: Associação Cultural “Nova Renascença”, vol. X, nº 39, Outono.1990, pp. 61-64). No entanto, há algumas diferenças entre os textos publicados na revista e os que constam em A Luz de Creta, por vezes revertendo a alteração a favor de um rigor da palavra, marcado pela economia, pelo ritmo e pela vantagem da metáfora; noutras passagens, a economia de palavras levou a uma redução no campo ideológico, ocorrendo mesmo a supressão de algumas reflexões.
Os momentos de chegada a Creta são sempre repletos de entusiasmo, seja ele devido ao encontro com um estado de harmonia, seja motivado pelo retomar do diário, seja graças à proximidade relacional com os lugares, seja pela preservação interior, seja pela necessidade de cumprir um ritual já assumido.
Simetricamente, os afastamentos de Creta são autênticas promessas de retorno, com uma quase ideia de “saudade grega”, indispensável, sempre registada no dia da partida, com a mais intensa despedida registada em 18 de Agosto de 1997, que constitui o derradeiro texto do livro, anunciando a interrupção do diário e afirmando a vinculação do diarista à liberdade cretense, numa associação de história, cultura e cidadania, em que não faltam as invocações a Camões e a Homero, referências inabaláveis, nem a promessa do regresso: “No mais, Musa, no mais: é o verso indelével que de Camões ecoa neste Egeu homérico, de que tenho de despedir-me por agora, na suspensão deste diário intermitente, escrito à luz da ilha solitária entre as vagas, num outro exílio onde aprendi, ao lado da companheira amada, a descobrir a habitação do ser, nas línguas que nela se mesclam… Voltarei, voltarei… Tal como, um dia, prometi à ‘pátria de joelhos’, assim agora o asseguro a esta nova pátria livre que é para mim Creta, mátria da Grécia e da Europa toda, de que Portugal é o rosto com que fita o Ocidente, futuro do passado.” A obra encerra-se, assim, com a descoberta da liberdade, que só poderia acontecer após outra importante descoberta – a do eu –, uma e outra construídas no diário – no registo de 1 de Agosto de 1997, escrevia: “Renasci, como se emergisse do tempo, num lento amanhecer ao sol irradiante, que nos entra pelo corpo todo, desde o olhar às pregas mais íntimas. Era a luz de Creta a germinar entre o céu, terra e mar, em cada elemento mínimo do ser.”
As referências a autores ocorrem em abundância, sejam eles portugueses (Pessoa, Camões, Almada, António Ferreira), sejam do mundo clássico (Homero, Sófocles, Ésquilo), sejam gregos (Cavafis, Seferis, Kazantzakis), sejam contemporâneos (Barthes, Darío, Steiner, Yourcenar, entre muitos outros), ao mesmo tempo que desfila uma galeria de personagens míticas (Zeus, Europa, Ariadna, Dédalo, Minos, Afrodite, Apolo, Diónisos, Édipo, Antígona, Cronos), num percurso que pretende, cada vez mais, lidar com uma ideia universal de cultura e de pensamento a partir de uma ilha que terá sido a mãe da civilização. Todas estas figuras, naquilo que elas representa(ra)m para a cultura, surgem por oposição a uma ideia de caminho para a decadência que a sociedade parece estar a seguir.Mesmo refugiado na paz de Creta, o diarista não se ausenta do mundo e tenta, pela televisão ou pelos jornais atrasados, o contacto com o universo. Foi durante estadas na ilha que aconteceram factos como a liderança de Walesa na Polónia, as consequências da queda do Muro de Berlim, os conflitos com os albaneses refugiados, a destituição de Gorbatchov, entre outros. A propósito de todos estes eventos, Seabra não esconde o seu sentir de cidadão, ora manifestando a vergonha por os comunistas portugueses terem apoiado a ocupação de Praga em 1968, ora mostrando a preocupação do ritmo do mundo – “Não podemos dormir tranquilos, mesmo nesta Creta sonolenta” era o pesar manifestado em 19 de Agosto de 1991, aquando da destituição de Gorbatchov, numa altura em que a humanidade não sabia que rumo iria orientar o mundo, em resultado do caminho a seguir pela Rússia – o avanço da liberdade ou o retrocesso para o estalinismo.
As suas interrogações remetem sempre para o futuro, num misto de dúvida, mesmo quando a reflexão paira sobre o que lhe está próximo – em Creta, em 7 de Agosto de 1989: “E o mar? Será ainda o futuro para este povo? Poderá ele viver só das divisas do turismo? Ou será necessário encontrar outras formas de trabalho criador, sem perda da sua identidade nem da alegria de viver nas suas tradições? Como é que a democracia grega, recuperada, está a encarar a educação profissional, enxertando-a na antiga civilização e cultura, de modo a abrir estas comunidades à modernidade?” De dúvidas parece ser o futuro, porque, quanto ao passado, uma certeza é inabalável, resultante de um sentir humanista, que valoriza a relação do homem profundamente ligado à cultura, vector muito acentuado em Seabra: “A civilização é, de facto, o que perdura, através das barbáries”.
A permanência em Creta, para lá da intensidade pessoal que possa transmitir a ideia do refúgio, afigura-se também como uma deificação das personagens, se não pela mudança de estatuto, pelo menos pela possibilidade de convívio dos humanos com o divino, à semelhança da camoniana Ilha dos Amores, em que o prémio foi a aproximação dos nautas portugueses das deusas, assim os elevando à mesma categoria: “Inundados de azul, abrimo-nos ao céu olímpico dos deuses, que nos revisitam com o seu rumor silencioso e fugidio, como seres imprevisíveis”! Que contacto é este senão o teste ao lugar do eu? Este diário, contendo testemunhos pessoais, mesmo partilhados por duas pessoas (Seabra e Norma), acaba por corresponder àquilo que Clara Rocha definiu como constante dos géneros autobiográficos (“A Poética dos Géneros Autobiográficos”. Nova Renascença. Porto: Associação Cultural “Nova Renascença”, vol. X, nº 39, Outono.1990, pg. 18), apesar da esperada evolução da sua poética: “trata-se sempre de procurar o lugar do eu no mundo, de sondar os mistérios do destino e de conhecer melhor a natureza humana”.