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segunda-feira, 7 de julho de 2014

O soldado "Milhões", herói da Grande Guerra, contado por Francisco Galope



Aníbal Augusto Milhais, o conhecido “Milhões”, nasceu em 9 de Julho de 1895 e faleceu em 3 de Junho de 1970. Ainda não tinha 22 anos na data em que embarcou para a Flandres, incorporando o Corpo Expedicionário Português (CEP), no final de Maio de 1917, como militar do Regimento de Infantaria 19.
Vindo de Valongo (a que mais tarde se juntou “de Milhais” em sua honra), no concelho de Murça, Aníbal Augusto fazia parte do grande grupo de incorporados que nunca saíra do seu torrão. Muito saberia da vida, mas não conseguia adivinhar que, com o passar dos tempos, o seu nome viraria lenda, o seu rosto de herói desafiaria a memória numa praça da sua sede de concelho e a sua vida seria resguardada numa biografia publicada no primeiro ano do centenário da Grande Guerra, aquela em que ele se expôs diariamente à fortuna e de onde conseguiu regressar, contrariamente ao que foi o fado de camaradas de armas e de amigos e vizinhos.
Francisco Galope, jornalista, encontrou-se com a narrativa do soldado “Milhões” em 2008, quando preparava uma reportagem com informação de carácter histórico para a revista Visão – História, para um número que assinalaria os 90 anos do fim da Grande Guerra e da assinatura do Tratado de Versalhes. Mas a descoberta pedia mais do que uma reportagem e, cinco anos depois dessa publicação, Francisco Galope apresenta a biografia de Aníbal Augusto Milhais, o “Milhões” da lenda, sob o título O herói português da I Guerra Mundial (Lisboa: Matéria-Prima Edições, 2014).
Curiosamente, a forma de Aníbal Augusto ter ascendido ao lugar de herói ficou a dever-se a um jornal, o Diário de Lisboa, quando corria o mês de Abril de 1924, que desencantou o combatente transmontano e o fez andar num périplo que teve vários pontos altos de reconhecimento e de vivência, como foi, por exemplo, o da presença na Batalha, quando no dia 9 desse mês ali se procedeu à inauguração do lampadário junto do túmulo do “soldado desconhecido” (criado em 1921), homenagem aos caídos na Grande Guerra, em data cara para Milhais: fora na sequência da sua acção, em 9 de Abril de 1918, ao defender-se e ao defender muitos dos seus camaradas perante o inimigo alemão, que ele se tornou numa imagem do heroísmo no campo de batalha. Posteriormente, o desabafo de um dos seus comandantes, João Maria Ferreira do Amaral, ao dizer-lhe, num jogo de palavras, que ele ”era Milhais, mas valia Milhões”, abria-lhe a porta para a memória, de tal maneira que, no pedestal de Murça, a frase do comandante surge lavrada em lápide.
Se, em 1921, Menezes Ferreira contou a história heróica dos soldados portugueses, construindo uma personagem que seria resultado das vivências de todos eles, na obra João Ninguém – Soldado da Grande Guerra (contendo tanto de épico como de humorístico como de crítico), se designações como “serrano”, “gambúzio” ou “folgadinho” assentavam na tipificação do soldado herói português que combateu na Grande Guerra, o conhecimento de “Milhões” deu um rosto, um corpo e um sentir a esse herói, várias vezes aclamado, em diversas oportunidades alcandorado a representante da valentia dos homens do CEP.
Francisco Galope marcou encontros vários com a memória de “Milhões”, fosse através da leitura do que disseram os jornais, da consulta ao arquivo da RTP (onde surge registo de entrevista com o herói de Valongo de Milhais) e nos arquivos militares, fosse por via de fontes orais de familiares do “Milhões”, fosse ainda pelo recurso à literatura memorialística portuguesa deste período (cujos títulos vão sendo referidos ao longo da obra). Todo este viajar pela pesquisa no sentido de ser reconstituída uma biografia permitiu ao autor a elaboração de uma tela completa do que pode ter sido a vida de Aníbal Milhais, sobretudo na experiência na trincheira da Flandres. Afinal, aquilo por que Milhais passou não terá sido diferente do que foi vivido pelos outros companheiros conforme registado pelo memorialismo. Assim, Francisco Galope preenche lacunas, dando a imagem possível do herói e do seu feito.
O desenvolvimento da narrativa vai sendo sujeito a reflexão do próprio narrador, que, frequentemente, se cola ao seu protagonista no sentido de o entender ou de justificar as suas atitudes, sempre com o objectivo de tornar a narrativa mais viva, quase como se uma memória se reproduzisse, não esquecendo pormenores como o da maneira de falar ou o da linguagem utilizada, sobretudo no que diz respeito a gíria militar, ou mesmo o que advém da possibilidade de adivinhar o que correria no pensamento do soldado e na sua maneira de ver o mundo.
Aníbal Milhais não sai endeusado, antes nos é apresentado um cidadão, que, perante uma experiência rara e intensa, em que havia a vida para defender, hesita, ganha, perde e luta, não visando ser herói, mas procurando a sobrevivência, agindo com a naturalidade que a vida lhe ensinou. Francisco Galope, apesar do título dado ao livro, é cauteloso no apuramento da verdade em torno do gesto que fez Milhais subir ao estatuto de “herói” (o que se terá passado em Huit Maisons em 9 de Abril e nos dias subsequentes), apresentando, no final, documentos de Ferreira do Amaral e de David Magno, um justificando o reconhecimento e a atribuição de galardão a Milhais e o outro assumindo que o feito do soldado transmontano não foi mais glorioso que o de muitos outros dos seus homens, ainda que reconhecendo Magno que a imagem do “Milhões” se transformou em “símbolo dos nossos humildes soldados”.
Uma biografia a ler. Porque dá uma imagem do que foi a vida dos portuguese nas trincheiras, porque recria com base em fontes importantes um aspecto da participação portuguesa na Flandres, porque, ainda que falando de um “herói”, o humaniza. E porque, tal como nas histórias que conhecemos, não ficamos a saber tudo sobre os heróis, apenas o essencial.

sábado, 27 de julho de 2013

Anita Vilar: mulheres da história de Setúbal



Oito anos foi o tempo que Anita Vilar levou a preparar a obra recentemente apresentada, Panorama de uma história local no feminino (Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2013), livro organizado em jeito de dicionário, biografando 74 mulheres que estiveram ligadas à história de Setúbal.
O trabalho não terá sido fácil, referindo a autora a sua principal dificuldade: “os arquivos, desvalorizando os contributos femininos, não registavam dados pessoais tais como o local e data de nascimento e a profissão (…), sendo muitas vezes a mulher, a mãe de”. Daí também a cautela com que a autora apresenta este trabalho, afirmando não estar concluído, pois, além de ser o primeiro levantamento exaustivo do género, ressaltou também a dificuldade da impossibilidade de “obter todos os dados biográficos referentes a algumas mulheres”, obstáculo que não condicionou a decisão de, mesmo assim, no livro constarem nomes com uma biografia de conjectura ou de dúvidas, honestamente assinaladas.
As biografadas abrangem um longo período da história sadina, desde o século XV até à actualidade, e foi critério referir apenas nomes que já tivessem concluído o seu ciclo de vida: no século XV, contam-se os percursos de Justa Rodrigues Pereira e de Maria da Pipa; no século XVI, visita-se Margarida Dias e Leonor de S. João; no século XVII, conhece-se Beatriz Gonçalves, Maria Guadalupe de Lencastre e Ângela Maria; no século XVIII, é o encontro com Mariana du Bocage, Cecília Rosa de Aguiar, Isabel Ifigénia de Aguiar, Ana Maria do Amor Divino e Luísa Todi; no século XIX, o que mais nomes conta,  cruza-se o leitor com Gertrudes Angélica de Andrade, Ana de Almeida, Maria Emília da Mota Negrão Barradas, Maria Henriqueta de Campos Valdez, Maria Adelaide Vieira, Maria de Jesus Almeida do Soveral, Maria Angélica de Andrade, Maria Amália, Hermínia Augusta Marreiros Borges Campos, Maria Baptista, Maria Amélia de Orleães, Maria Júdice da Costa, Joaquina Aurélia Baptista Guerreiro, Ana de Castro Osório, Francisca Romana Lino da Silva, Angelina Paula Mota Quintas, Ana de Broughton de Meneses Ferro Gamito, Ema Garcia Peres Grill, Raquel Elvas Mascarenhas, Maria Felicidade de Ferreira Miranda, Maria Cândida de Oliveira Parreira, Maria Augusta Ferreira de Sousa Fialho, Joaquina Rosa de Lima, Luísa Eduarda Gonçalves, Olga de Morais Sarmento, Maria Bárbara Falcão, Falcão Mercês, Mariana Torres, Laura de Jesus de Almeida, Benedita Maria, Carlota Rosa Ramos, Maria Ilda da Conceição de Oliveira, Lúcia da Encarnação Maracoto, Amélia Azevedo, Albertina Aldegundes de Moura Benício, Ária Amazonense Ferreira Ramos, Pátria Amazonense Ferreira Ramos, Alda Machado Santos, Ernestina Esteves Vieira Abreu, Cândida Marques Pascoal, Marta de Jesus da Silva Lebre, Deolinda Macedo, Eufrásia Lino da Silva, Bárbara Marques Pascoal, Ilda Stichini, Teresa Lino da Silva, Irene Augusta Faria Costa do Nascimento e Maria Campos; do século XX, são figuras como Maria Arminda Cândido Graça, Madalena da Costa Claro, Emília Rosa Colaço, Margarida Caineta, Arlete Soares Silva de Oliveira Guimarães, Oceana Rosa de Sousa Zarco, Clarinda Silva Carvalho, Maria Adelaide Miguéns Rosado Pinto, Maria Clementina da Conceição Coelho Amália, Maria Inácia Simão Godinho, Lygia Messodi Toledano Ezaguy, Susana Soveral Gomes, Maria do Rosário Fátima Almeida Santos e Maria Cecília Pereira Anjo.
Por estas cerca de sete dezenas de fichas desfilam figuras ligadas à política, à intervenção social, ao desporto, à educação, ao mundo do trabalho, às artes, algumas constando na toponímia sadina mas a maioria delas tendo uma biografia de lacunas. O trabalho que Anita Vilar nos apresenta refere essas mesmas adversidades, mas tem a vantagem histórica de ser uma primeira abordagem de conjunto, diversificada, mostrando o peso que a mulher tem tido na história local, apesar de, habitualmente, ser relegada para um plano mínimo ou para a omissão. Trata-se de uma obra útil, indispensável para a bibliografia local, a merecer consulta ou mesmo leitura integral, assim se descobrindo uma faceta importante da identidade setubalense.

sábado, 18 de maio de 2013

Jorge Calheiros: a biografia do músico Rui Serodio



O livro que temos perante nós e que aqui nos trouxe hoje (Jorge Calheiros. “Je suis le pianiste!” – A vida e a música de Rui Serodio. Linda-a-Velha: DG Edições, 2013) valerá por muitas razões, mas sobretudo por esta: é uma prova de amizade. Assim, sem adjectivos, sem intensificadores. Uma prova de amizade em tudo aquilo que estas palavras querem dizer. Poderemos vir a gostar deste livro por muitas razões, mas continuaremos a apreciá-lo por este gesto intenso que é o de um livro falar sobre alguém e ser-lhe dedicado ou oferecido, em simultâneo. Uma prova de amizade, de irrefutável amizade, pois.
Jorge Calheiros nunca terá pensado escrever um livro. No entanto, fê-lo. E a mola que o impulsionou foi a mesma que consolidou um relacionamento de anos de convívio e de amizade. Sem outros alcances que não os do afecto e de manter a memória. Viva, claro, porque a memória é sempre uma forma viva de se estar.
Veja-se o primeiro parágrafo do “prefácio”: “Nunca fui, não sou, e provavelmente nunca serei um escritor. Mas decidi escrever um livro, o que me colocou desde logo inúmeras questões. A primeira de todas foi: como fazê-lo?” Expressas as dúvidas e as hesitações, a reflexão chega a uma certeza: “Sentado na minha varanda, com um café já meio frio, numa contínua pesquisa da inspiração, encontrei a solução: Vou escrevê-lo com o coração! E assim ficou definida a forma como escrevi este livro.”
Quanto ao título, não tem o leitor dúvidas: é uma biografia e, como tal, conta-nos a vida de alguém. Cruzando o título com o que o prefácio relata, outra certeza o leitor terá: é a vida de alguém, narrada por quem também entra na história. Esta obra vai então muito além da biografia, uma vez que é também testemunho de uma amizade vivida e, se dúvidas existissem, bastaria estarmos atentos à forma como o herói desta história é tratado – o seu nome quase sempre antecedido do determinante “o”, que revela a familiaridade do protagonista biografado com o protagonista que é também o biógrafo. Esta obra não fala apenas “de” Rui Serodio; fala sobretudo “do” Rui. Uma escrita de afecto, ainda por cima partilhada por várias mãos.
“Je suis le pianiste!” – A vida e a obra de Rui Serodio é um livro que se constrói com base numa trindade: por um lado, o relato da vida do Rui segundo uma perspectiva nada isenta de amizade, como vimos; por outro lado, os textos de Rui Serodio, uns narrativos, outros críticos, muitos autobiográficos; de outro ângulo ainda, os apontamentos testemunhais de mais de três dezenas de amigos do Rui (lista em que estou incluído). Chamei “trindade” a esta conjugação porque é impressionante o retrato que resulta no final, sobretudo do ponto de vista da conjugação de observações, da sobreposição de opiniões: não é um rol em que os convidados vão todos dizer bem; é um conjunto de experiências muito diversificadas no calendário, na duração, nas condições, nos propósitos, em que as opiniões testemunhadas se rendem perante a particularidade e a genialidade de uma figura como a de Rui Serodio, na sua bonomia, no seu saber, na sua sensibilidade, na sua postura perante a vida, na sua superioridade de homem bom, disponível e aberto. Se todas as testemunhas deste círculo tivessem combinado previamente o que iriam fazer, o retrato não sairia por certo nem tão completo, nem tão coincidente!...
A escrita de Jorge Calheiros acompanha o percurso biográfico de Rui Serodio em variadas áreas: na profissional, na artística, na familiar, sempre com o preceito da informação exacta e objectiva, eivada de histórias presenciadas, de situações de humor, frequentemente dando a palavra ao biografado, seja através da evocação de acontecimentos, seja pela reprodução de mensagens trocadas. O tom, ora narrativo ora descritivo, de precisão, permite ao leitor o convívio com Rui Serodio. E quem o conheceu facilmente o ouvirá ou o sentirá ali ao pé, com o seu humor e simplicidade desarmantes, como nesta situação: “Muita gente tratava Rui Serodio por maestro, ao que ele normalmente respondia: Eu não sou maestro! (…) Um dia comentou: Não sei por que raio as pessoas me chamam maestro! Talvez seja do cabelo e barba branca, que dão assim um ar distinto…
Ao longo das quase 130 páginas de discurso biográfico, fica o leitor perante uma história completa, com certezas e emoções, acompanhando as inconstâncias e as paixões de uma vida. O relato é de tal  forma vivo e dinâmico que, por vezes, se tem a ilusão de que se está a ler (ou a ouvir) uma conversa entre Rui Serodio e Jorge Calheiros, um género de tertúlia em que se vai contando uma vida, repondo histórias.
No grupo de textos de Rui Serodio impressiona o ritmo da escrita, ficando o leitor com a sensação de que, muitas vezes, se oscila entre um trecho musical, a cena de um filme ou o próprio texto escrito, tal é o poder descritivo e narrativo, tal é o empenho que o narrador empresta ao discurso. O primeiro texto, uma magnífica evocação da mãe, intitulado “Berta”, assenta na perspectiva autobiográfica, aliando coisas aparentemente inconciliáveis – a história de um certo desprendimento entre pessoas que se admiram e amam, a amargura pelo que não se partilhou e a confidência com a memória, tudo rematado com uma homenagem salutar e revitalizante: “Conservei muito do que ela me transmitiu: a resignação, a reserva comedida das atitudes, o respeito pelos outros, o silêncio em vez do espavento, o convencimento de que, se existimos, é para cumprirmos uma missão que nos foi destinada, sem pedir nada em troca. E, se nascemos com um dom especial, não nos devemos vangloriar disso, mas sim cultivá-lo e partilhá-lo com quem o queira apreciar. E agradecer a Deus por nos ter concedido o privilégio da diferença. E nunca – mas nunca – querer parecer ou ser o que se não é.” Este parágrafo é muito mais do que uma lembrança: é uma herança que se reconhece, é um testemunho, um acto de amor e um testamento. Que belo conjunto de ensinamentos para se poder estar num mundo melhor!
Por estes textos passam as imagens da(s) mulher(es) da sua vida, retratos de Setúbal, a valorização do autor e do respeito pela criação artística, as pequenas epopeias de uma vida, o humor sobre si próprio, a pedagogia pela música, a prática auto-reflexiva, o registo de pequenos momentos de prazer que a vida vai segredando e até um texto para memória futura – umas quase memórias póstumas – teatralmente intitulado “A cerimónia de encerramento”. Tão importantes como as suas composições musicais, estes textos de Rui Serodio captam o essencial das coisas, bem tecidos, certeiros, delicados, tendo sempre a acompanhá-los um narrador experimentado e em estado de bem com a vida.
Quanto aos testemunhos dos amigos, a sua leitura complementa os anteriores, pois impressiona ver como, sendo oriundos de diversas longitudes de convivência ou de variadas latitudes de geografia, todos se rendem a essa figura ímpar que foi o Rui Serodio. Fica a sensação de que não se está perante a homenagem forçada e conveniente, antes se caminha na estrada da sinceridade e na linha da descoberta e da aprendizagem que foi ter encontrado esta personagem em dado momento do percurso. Esta perspectiva é tanto mais aliciante quanto alguns dos que testemunham nem sequer conheceram o Rui pessoalmente, mas só através da comunicação virtual e, claro, com a música como mediadora, como ponte, que é como quem diz com a sensibilidade do Rui.
Fecha o livro o “epílogo”, assinado pelo autor desta obra, escrito sob a forma de carta, dirigida pelo biógrafo ao biografado. É a satisfação pelo cumprimento de um dever – o da amizade, o da preservação da memória. É o prazer por este bocado de tempo, em mais de trezentas páginas, ter permitido a recordação de muitos momentos de aproximação. É o assumir da emoção como um dos motores e uma das condicionantes desta obra. É o confronto com a insuficiência em que a palavra se torna quando o que está em causa é a amizade. É a manifestação da impossibilidade de voltar a viver tudo de novo: “Tentei contar a tua história. Mas nunca, mesmo nunca, os versos da Manuela de Freitas significaram tanto como neste momento. Na verdade… eu só sei contar a história / da falta que tu me fazes.”
Como leitor que fui desta obra quando ela estava já em gestação adiantada e como amigo que também tive a sorte de ser do Rui, termino com a expressão que Ana Carvalho relembra ser usada pelo Rui de cada vez que acontecia um ensaio do grupo “Afina Setúbal”: “hoje fez-se magia”! E devemos agradecer isso ao Jorge Calheiros e ao Rui Serodio!

[Na apresentação do livro, ontem, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.]

OBS 1: O projecto levado a cabo por Jorge Calheiros inclui, além da edição da biografia, a edição de 5 cd's com as composições musicais inéditas de Rui Serodio. Além de poderem ser adquiridos em livraria, estes materiais estão também disponíveis em http://www.m-oceans.com/

OBS 2: Documento videográfico desta sessão de apresentação, assinado por Simões da Silva, pode ser visto aqui.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Para a agenda: a biografia e a música de Rui Serodio



17 de Maio seria o dia de aniversário de Rui Serodio, músico que viveu em Setúbal os últimos anos da sua vida, aqui tendo participado em múltiplos e valiosos projectos culturais. Nesse mesmo dia, pelas 21h30, é apresentada a sua biografia, volume de 300 páginas que comporta também um conjunto de textos do biografado e variados testemunhos. A cerimónia segue com a apresentação de cinco cd's, que reúnem toda a obra que Rui Serodio deixou por gravar. Por iniciativa de Jorge Calheiros, autor do livro e coordenador da antologia musical. No Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.
Um projecto forte e intenso. Um projecto de amizade. Um projecto de memória. Para a agenda!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Para a agenda - A biografia de Rui Serodio



17 de Maio seria o dia de aniversário de Rui Serodio e vai ser a ocasião para apresentação da sua biografia e da sua obra musical. Responsável pelo projecto - da biografia e da discografia - é Jorge Calheiros, que em toda esta obra deixa passar a força da amizade. A não perder. Para a agenda!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Luísa Todi vista por Mário de Sampaio Ribeiro há 70 anos




O livrinho já carrega umas décadas em cima de si. Tanto como 70 anos, que passarão em 12 de Junho deste ano. É uma biografia de personagem ligada a Setúbal e lê-se em pouco mais do tempo que leva uma palestra. Refiro a obra Luísa de Aguiar Todi, de Mário de Sampaio Ribeiro (Lisboa: Revista “Ocidente”, 1943), inserida numa colecção dedicada à cultura artística, cerca de 90 páginas de história com notas e gravuras.
Formado por três capítulos, este estudo inicia-se com um olhar para o mundo que nos envolve, numa viagem pela cidade quotidiana, desta vez com olhar menos distraído. É que, “normalmente, qualquer de nós, ao calcorrear na parte de Lisboa, que tem pergaminhos, não atenta nas coisas por que adrega de passar, alheado que vai, se não divorciado, do cenário que o rodeia”. O pretexto pode ser o nome de uma rua, por exemplo. E aquela antiga Travessa da Estrela fora rebaptizada, recebendo o nome de Luísa Todi (n. 9.Janeiro.1753) por edital camarário de Junho de 1917, uma vez que, no número 2 daquela artéria, vivera a artista e aí falecera no primeiro dia de Outubro de 1833.
Quase um século depois do desaparecimento da cantora, em 1934, Mário de Sampaio Ribeiro foi convidado para palestrar em Lisboa sobre esta setubalense, conferência que retomaria oito anos mais tarde, em 24 de Julho de 1942, ao repeti-la a convite do grupo “Amigos de Lisboa”. Cerca de um ano depois, saía o livrinho, que o autor apresenta como “refundição parcial” da comunicação de 1934, enriquecida com gravuras e notas. Um pretexto para a repetição da palestra foi o facto de, poucos dias antes, o governo ter sido autorizado a adquirir a uma descendente de Luísa Todi o “célebre quadro que a Vigée-Lebrun pintou, em Paris, no ano de 1785”, retratando a lírica setubalense, tela que importou em “vinte e cinco contos” e se destinava a “ser incorporada no futuro museu do Conservatório Nacional de Música”.
No segundo capítulo, o autor imagina o filme que permite o encontro com Luísa Todi, a biografada, “em dia canicular”, saindo manhãzinha rumo à igreja, amparada no braço de uma outra personagem feminina, sua filha. Cerca de uma hora depois, regressavam as duas a casa e da mais velha se voltaria a saber apenas no dia seguinte. Era este o quotidiano daquela “velhinha, de aspecto tão grave e respeitável”, que passava os dias recolhida no lar, depois que perdera a visão, a recordar os tempos passados.
E assim estava dada a entrada para o mais extenso dos capítulos, em que o leitor revê, pelos olhos da memória da biografada, a sua vida de glória e de arte, de uma carreira internacional, não isenta de invejas, em salões nobres, na presença de régias figuras e de outros artistas de próximo gabarito, num processo de recuo no tempo. Mário de Sampaio Ribeiro faz uso intenso de bibliografias, de notícias da imprensa e de outros testemunhos para que a narrativa seja credível, nunca esquecendo o acompanhamento emocionado da história pela sua personagem – chegada a biografia ao final, “fundo suspiro rematava tão longo desfiar de saudades, que, a despeito de seu amargo travo, eram o consolo que sua atribulada alma encontrava para fazer esquecer as trevas em que o Destino a mergulhara para sempre.”
O terceiro capítulo contém já um olhar do apreciador e estudioso de música e do percurso de Luísa Todi, procurando revelar ao leitor quais os dotes que permitiram a chegada da cantora tão longe, com delirantes públicos e impressionantes actuações. “A voz da Todi era de contralto, embora um tudo-nada mais extensa que de uso. Subia mais um bocadinho e, nas notas agudas, adquiria um timbre velado, que lhe era peculiar e que a artista aproveitava sabiamente para conseguir certos efeitos.” O temperamento artístico da cantora é sublinhado, associando o prodígio do seu canto à capacidade de representar, de tal forma que conclui Sampaio Ribeiro: “O cantar da Todi criava ambiente de êxtase e de encanto tais que o auditório como se não lembrava de aplaudi-la. Só depois de desvanecida essa como embriaguez as palmas irrompiam e então, a partir desse momento, a multidão electrizada devinha como possessa e aclamava com delírio a artista privilegiada”.
Quase metade do livro é composto por cerca de meia centena de notas, eivadas de um discurso em que pesa mais o tom documental e de investigação, ainda que comprovando e seguindo a par a narrativa que foi sendo construída. Por aqui passam informações documentadas sobre a sua biografia (desde o seu nascimento em Setúbal), sobre os recursos utilizados, sobre a investigação levada a cabo pelo autor, sobre os retratos que em honra de Luísa Todi foram criados, sobre a recepção havida às suas interpretações, sobre os desaires que afectaram a protagonista (a morte do marido, o desastre portuense da “ponte das barcas”, a cegueira), sobre a memória que dela ficou e sobre as homenagens que muitos apreciadores lhe prestaram ainda em vida.
Quanto a reconhecimento póstumo, também o autor o não esquece, tal como se pode ler numa nota em que aborda a questão do centenário da morte da cantora, ocorrido em 1933, aí destacando o papel desempenhado pela cidade onde ela nasceu: “No 1º de Outubro de 1933, ao completar-se o centenário da morte, foi inaugurada em Setúbal, no chamado Parque das Escolas uma pequena glorieta (desenho de Abel Pascoal, escultura de Lepoldo de Almeida e construção de Abílio Salreu) em honra da cantora. O busto da Todi é obra digna de apreço e o pequeno monumento (actualmente deslocado para a avenida Luísa Todi) foi descerrado por Leopoldo Tomás Todi Gonçalves, trineto da artista. Lisboa ficou de levar a efeito a sua comemoração. Projectaram-se, como sempre, coisas espaventosas, mas… não se fez nada. A única celebração – tardia e desluzida – foi a minha conferência na tarde de 8 de Julho de 1934, a meio da rua Luísa Todi.” É interessante este reconhecimento da iniciativa sadina perante a discussão e incumprimento da capital…
A capa do livro reproduz o perfil de Luísa Todi, traçado numa gravura anónima veneziana de 1790, evocativa do desempenho da cantora na obra Didone abbandonata, justamente a mesma imagem que serviu para modelo da recente escultura devida a Sérgio Vicente, exposta no exterior do Forum Municipal Luísa Todi, em Setúbal, desde Setembro passado.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A biografia de Domingos Garcia Peres




O nome de Domingos Garcia Peres não é desconhecido na cidade de Setúbal, seja pela inserção do seu nome na toponímia (um beco, um largo e uma rua), seja pela existência de um fundo bibliotecário com o seu nome, doado em 1964 para integrar o Museu da Cidade. No entanto, a sua biografia, baseada em fontes e estabelecida com rigor, teve de esperar até aos finais de 2012, em que foi assinalado o bicentenário do seu nascimento, a acompanhar uma exposição, uma e outra actividades devidas a António Cunha Bento, Carlos Mouro e Horácio Pena.
A biografia, intitulada Domingos Garcia Peres (1812-1902) – Um setubalense pelo coração (Setúbal: Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, 2012), é justificada pelo acto comemorativo, pela admiração que esta personalidade despertou em vida, pela sua intervenção cívica e cultural assente em Setúbal mas fazendo a ponte com outros meios (foi clínico e deputado e manteve colaboração e amizade com o bibliógrafo Inocêncio da Silva e com o espanhol Menéndez y Pelayo, eruditos de renome na área da cultura).
Thomaz de Mello Breyner, médico e amigo de Garcia Peres, no elogio fúnebre do amigo, caracterizou-o como “homem que nunca fez falar de si, por ter sido dotado de uma modéstia tão grande como era o seu coração, a sua inteligência e o seu saber”. Estas qualidades determinaram a admiração, mas não podem ser responsáveis por um desconhecimento sobre a sua personalidade que levou tanto tempo a ser suprido, mesmo em Setúbal, terra onde esteve ligado a eventos e criações importantes como o exercício da medicina, a eleição como deputado, a intervenção no Asilo da Infância Desvalida, a participação na Sociedade de Recreio Familiar, a fundação da Sociedade Arqueológica Lusitana ou a autoria de uma obra importante para a bibliografia como o Catalogo razonado biográfico e bibliografico de los autores portugueses que escribieron en castellano (obra de uma vida, publicada em Madrid em 1890).
Fruto das suas viagens a Espanha, Garcia Peres teve ainda possibilidade de, resultado do acaso, ter conhecido Hans Christian Andersen e com ele ter viajado entre Madrid e Lisboa, em Maio de 1866, época em que o escritor dinamarquês visitou Portugal a convite dos seus amigos O’Neill (tendo permanecido cerca de um mês em Setúbal).
A biografia que Cunha Bento, Carlos Mouro e Horácio Pena assinam passa por todos esses aspectos e momentos da vida deste alentejano nascido em Moura, que, aos 34 anos, chegou a Setúbal (depois de quatro anos em Alcácer do Sal) e que pelas margens do Sado se deixou ficar, numa ligação intensa à terra. Lidaram os três autores com variadas fontes, sobretudo do Arquivo Distrital de Setúbal, da imprensa sadina da época e da correspondência entre Peres e Pelayo, o que permitiu corrigir informações que têm sido divulgadas sobre o biografado, assim se revendo os seus aspectos biográficos.
Num texto preocupado com o rigor e com informação exigente, bem anotado, esta viagem pela vida de Garcia Peres não esquece mesmo a recolha de testemunhos sobre a personalidade e o quotidiano do médico alentejano, resultante de uma leitura que permite inclusivo que o biografado se autorretrate, como se pode verificar em duas passagens bem reveladoras do seu sentido de humor e de disponibilidade – ao escrever sobre a sua prática em Alcácer do Sal, referirá: “ali desfalquei a humanidade até 1844”; em correspondência com Menéndez y Pelayo, dirá: “de há muito que seus são todos os meus livros”, numa prova de permuta incondicional que girava em torno das bibliografias entre os dois autores, levada ao extremo, quando numa outra carta o desafia para lhe renovar a assinatura de uma revista espanhola e redigirá numa outra carta um pacto de troca em termos humorísticos – “a respeito de contas creio-as saldadas; saqueemo-nos mutuamente, segundo possamos; eu, pela minha parte, não deixarei de tentá-lo; faça Você o mesmo e veremos depois quem leva a melhor.”
Figura grada no seu tempo, que suscitou admiração e esteve envolvido em marcos importantes para a história sadina, Garcia Peres tem agora o ensaio biográfico que merecia, enriquecido ainda com alguma documentação fotográfica e com uma tábua cronológica. Um documento cheio de interesse e, sobretudo, credível.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

N'«O Setubalense» de hoje - Alice Brito e Maria Barroso, dois livros



Duas mulheres, dois livros. Duas mulheres ligadas a Setúbal, duas mulheres conhecidas pelo seu compromisso social e político, duas mulheres que (se) escrevem, em duas boas propostas de leitura.
De Alice Brito saiu já há uns tempos a narrativa de ficção As mulheres da Fonte Nova (Lisboa: Planeta, 2012), um romance que, sem exagero, pelo menos os setubalenses deveriam ler, não só por uma questão de apreço por uma autora local, mas sobretudo pelos vectores de identidade ligados à cidade do Sado que por esta obra ressaltam.
Dispenso-me de contar a história que povoa o livro. Mas chamarei a atenção para essas personagens que são a cidade e as suas gentes, ondulantes, uma e outras, pelos meandros de uma trama de famílias, de política, de grupos sociais, de tomadas de posição. Não há uma única referência ao nome da cidade, mas também não era necessária porque o topónimo Fonte Nova não deixaria enganar… No entanto, todas as referências a sítios ou ruas são facilmente reconhecíveis para os setubalenses. Assim se transforma uma história local(izada) em algo cujo interesse ultrapassa essa fronteira, haja em vista o retrato social apresentado, por exemplo, que não é exclusivo de Setúbal.
De um ponto de vista de informação, o livro de Alice Brito, apesar de ser uma ficção, introduz o leitor no ambiente vivido na cidade conserveira entre os anos 30 e 70 do século passado, caracterizando uma época e dando ideias sobre a intervenção política, sobre o papel da mulher, numa cidade e numa sociedade grávidas de contrastes e de contrariedades.
É uma história bem contada, bem escrita, com imagens muito sugestivas, num jogo assumido entre narradora e personagens, saltando entre o tempo da narrativa (no passado) e o tempo do leitor (no presente), criticando, reflectindo. Uma obra a ler, repito.
Maria Barroso é trazida para esta crónica devido ao projecto que o semanário Sol está a levar a cabo: uma edição em 18 volumes, com publicação semanal, reunindo duas obras – oito fascículos de correspondência, Cartas a Mário Soares (1961-1974), título constituído pelas missivas enviadas por Maria Barroso ao marido durante o seu tempo de prisão, de viagem, de degredo ou de exílio, e dez fascículos memorialísticos, Álbum de memórias, redigidos pelo jornalista Vladimiro Nunes.
A ligação de Maria Barroso a Setúbal vem contada no segundo volume das memórias – na sua infância, entre 1926 e 1935, viveu em Setúbal e episodicamente em Palmela, acompanhando a mãe, professora que foi nestas duas localidades, e o pai, militar em Setúbal, com interrupções várias. Há ainda a ligação de Maria Barroso ao poeta Sebastião da Gama, recordada no quarto volume das memórias, conhecimento e amizade vindos desde a Faculdade de Letras.
Se as biografias são importantes para o leitor se confrontar com trajectos de vida singulares, não menos interessante é o passeio pela correspondência produzida pela imagem que o próprio de si dá, sem intermediários, sem preparação propositada, retrato espontâneo e descomprometido, ainda por cima quando se trata de cartas dirigidas a familiares.
As cartas de Maria Barroso para Mário Soares revelam uma mulher actuante, assumindo todos os compromissos familiares, profissionais e sociais em seu nome e em nome do marido. Por aquelas cartas passam valores, momentos de desabafo, preocupações, considerações sobre a vida e sobre a política, combates à solidão, afecto e preocupação, dádiva, organização e necessidade de lutar e de trabalhar, acompanhamento dos filhos e dos familiares, entendendo o leitor que a intenção de Maria Barroso era a de tornar o mundo familiar presente a Mário Soares, assim impedindo que as interrupções da vida em comum equivalessem a descontinuidades e possibilitando que os projectos em que estavam envolvidos pudessem continuar a ser gizados a dois. São cartas que apaziguam quem as escreve e que pretendem idêntico efeito no destinatário, que se alicerçam na partilha e na comunhão para que o sofrimento das lonjuras seja, pelo menos, esbatido.
Duas possibilidades de leitura de escritas no feminino, uma e outra eivadas de um sentido de intervenção e de responsabilidade cívica, uma e outra devidas a mulheres que se cruza(ra)m com Setúbal em áreas diversas e em tempos vários. Alice Brito e Maria Barroso, uma na ficção e outra no testemunho, são dois bons nomes para leitura nestes tempos de certa desolação e aridez.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Maria Barroso: "Cartas a Mário Soares" e uma biografia



Aos 87 anos, Maria Barroso resolveu partilhar a narrativa da sua vida com os leitores através da publicação das suas memórias e da correspondência mantida com o marido, Mário Soares, entre 1961 e 1974, num projecto co-editado pelo semanário Sol e pela Fundação Pro-Dignitate. É um conjunto de 18 volumes, publicados a ritmo semanal, em que a epistolografia ocupará 8 deles (Cartas a Mário Soares 1961-1974) e a biografia os restantes (Álbum de memórias). O trabalho foi coordenado pelo jornalista Vladimiro Nunes, que anotou as cartas e redigiu os volumes de cunho biográfico. Até ao momento, foram publicados cinco volumes deste projecto [o próximo sai amanhã, com o jornal Sol], sendo quatro deles da correspondência.
O primeiro volume da biografia ocupa-se sobretudo da história da ascendência de Maria Barroso, incidindo bastante sobre a actividade do pai, militar e republicano, alvo de perseguições e de prisões graças aos compromissos assumidos. O final do volume encontra Maria Barroso na sua infância em Setúbal, aos dezasseis meses (em Setembro de 1927).
Preocupação de Vladimiro Nunes é de contextualizar a narrativa no Portugal da época, com referências adequadas à vida política, cultural e social do país, com indicações cronológicas sobre acontecimentos e sobre outras personalidades que viriam a ser referências para o século XX português e que viriam a cruzar-se também com o percurso de Maria Barroso e de Mário Soares em muitos casos. Para a elaboração deste trajecto biográfico, Vladimiro Nunes teve como fontes a própria Maria Barroso, um vasto leque de amigos e de familiares da biografada e o arquivo de família, assim se justificando o título, que alia a capacidade da memória e a característica antológica dos eventos, das histórias e das personagens que fazem uma vida.
Quanto aos quatro volumes de correspondência já publicados, o leitor entra nos tempos de ausência de Mário Soares relativamente à família, fosse por estadias longas no estrangeiro, fosse pelos tempos de cárcere ou de desterro. As cartas de Maria Barroso para o marido são um ritual diário nesses tempos de ausência, muito próximas da escrita diarística, relatando o acontecido naquele dia, com considerações a propósito, por onde passam os registos da vida do Colégio Moderno (sobre os professores, sobre a gestão e organização, sobre as inscrições, sobre as obras, sobre as colónias de férias), o acompanhamento dos filhos João e Isabel (nos estudos, nas relações sociais, na educação), o cuidado prestado a familiares (sobretudo ao sogro, João Soares, na vigilância da sua saúde, no acompanhamento, na gestão das relações familiares), a gestão do património familiar (acompanhamento das obras na casa de Nafarros, da actividade no escritório de advocacia de Mário Soares e manutenção da casa de Cortes), as relações sociais (manutenção das amizades e presenças em eventos, muitas vezes em representação do casal ou do marido), a preocupação em minimizar os efeitos do afastamento (fazendo chegar à prisão livros, refeições por si confeccionadas, marcando presença nos escassos tempos de visita), as emoções (provas de afecto, considerações sobre a vida do casal, incentivo contra a solidão e a humilhação do estatuto de preso), a vida cultural em que estava envolvida (leituras, filmagens, sessões de poesia e de teatro).
Percebe o leitor que a intenção de Maria Barroso era a de tornar o mundo familiar presente a Mário Soares, assim impedindo que as interrupções da vida em comum equivalessem a descontinuidades e possibilitando que os projectos em que estavam envolvidos pudessem continuar a ser gizados a dois.
As cartas de Maria Barroso assumem também essa perspectiva de luta contra a solidão, passeando pelos relatos do quotidiano, mas demonstrando ainda as angústias e as dúvidas de quem não quer vacilar, de quem quer ser presente e vencer a distância, muitas vezes confessando o exercício de aprendizagem que aqueles afastamentos lhe proporcionam à medida que cresce a admiração pela forma como o marido enfrenta a adversidade da perseguição política.
No fundo, estas cartas são o retrato, a fixação do tempo comum possível naquelas circunstâncias, uma prova de cumplicidade efectiva na forma de fazer a vida com sentido, sempre com horizontes de esperança, muitas vezes matizados com as cores das plantas do jardim ou com os tons do dia, a evocarem momentos passados ou recortados por alusões a versos e à memória. São cartas que apaziguam quem as escreve e que pretendem idêntico efeito no destinatário, que se alicerçam na partilha e na comunhão para que o sofrimento das lonjuras seja, pelo menos, esbatido. Um belo documento humano e cultural, um bom testemunho de sinceridade e do que pode ser a vida de pessoas que caminham na mesma direcção!

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Homem (e mulher) – “Chego a pensar se de facto os homens merecem tanta ternura, tanta dedicação como aquela que algumas mulheres sabem dar. Afinal de nada serve a amizade, a dedicação, a profunda ternura de anos e anos lado a lado. A mulher chega a certa altura e está velha, gasta e já não serve – há que substituí-la por outra mais jovem, mais válida. Esta confusão, esta inversão de valores ou nos conduzem a uma atitude cínica e egoísta ou nos levam ao desespero. Sinto-me verdadeiramente atordoada com tudo isto!” [Cartas a Mário Soares 1961-1974 (vol. 2) – a propósito do divórcio previsto de um casal amigo, em carta de 19-08-1966]
Esperança – “A esperança é a mais linda flor que eu conheço mas a terra dela é o coração dos homens.” [Cartas a Mário Soares 1961-1974 (vol. 3) – em carta de 29-02-1968]
Olhar em frente – “O voltarmo-nos excessivamente para dentro de nós próprios é que nos conduz muitas vezes a situações de angústia e de nervosismo. Se olharmos para a frente, para o que é jovem e espontâneo, por muito duro que seja o que nos rodeia, por muito violenta e injusta que seja a realidade que tenta esmagar-nos, há sempre maneira de encontrarmos dentro de nós a força e a coragem de seguirmos o nosso caminho, que é o caminho da dignidade e da compreensão humana.” [Cartas a Mário Soares 1961-1974 (vol. 4) – em carta de 11-06-1968]
Palavra – “Duas pequenas palavras, repassadas de ternura e saudade, bastam, por vezes, para animar um coração desolado, para reanimar uma pessoa fatigada.” [Cartas a Mário Soares 1961-1974 (vol. 4) – em carta de 08-07-1968]

sábado, 21 de abril de 2012

Para a agenda: Ricardo Saavedra biografa António Manuel Couto Viana

É de Ricardo Saavedra a primeira biografia sobre António Manuel Couto Viana. De Ricardo Saavedra e do biografado, já que o texto resulta de longa entrevista e não menos longas conversas entre os dois. Daí, um livro a quatro mãos este António Manuel Couto Viana - Memorial do Coração, a ser editado pela Quetzal e com apresentação pública marcada para 4 de Maio, na Feira do Livro de Lisboa. Ler mais aqui >>>

sábado, 11 de fevereiro de 2012

As paixões de Fernando Assis Pacheco contadas por Nuno Costa Santos

São duas centenas de páginas, recheadas com algumas fotografias, que constituem Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco (Lisboa: Tinta da China, 2012), de Nuno Costa Santos.
O título parte de uma obra do biografado – Trabalhos e paixões de Benito Prada (1993) –, romance sobre um antepassado galego. E esta obra é, de alguma maneira, o romance de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), o contar da sua vida, do seu quotidiano, quase o trazendo à convivência, seguindo-lhe os passos.
É biografia na medida em que alguém conta uma vida de alguém. Mas foge do estilo canónico da biografia, demarcando-se mesmo do carácter de estudo e de ensaio que a biografia também é, optando o autor por uma escrita mais próxima do género da reportagem jornalística, em que são recolhidos testemunhos, muitos testemunhos, de quem conviveu e conheceu o biografado, pessoas que falam mais do que as obras do próprio, citadas, é certo, mas sem serem a tónica desta obra.
Muito mais do que a obra de Assis Pacheco passa por aqui o seu trajecto – o canto familiar, os locais de trabalho, os refúgios para a escrita, os prazeres da gastronomia, os amigos, as disposições, as geografias e os fragmentos da vida, os hábitos, as teimosias. E as memórias de quem com ele conviveu.
Leitura fácil e próxima, este livro é ponto de encontro de todas as vozes que privaram com Fernando Assis Pacheco e que, quase dúzia e meia de anos volvidos sobre a sua despedida, o tornam presente, ficando ao leitor a sensação de que, num destes dias, se cruzará algures com esta personagem que caprichava no convívio, nas histórias, no humor e no prazer de viver.
Recorrentemente, é o discurso do biografado que nos visita, saltando das entrevistas dadas, em excertos que dialogam com os testemunhos recolhidos, sem se lhes sobreporem, ficando mesmo a ilusão de que estes encontros são recentes e são reais.
Para alguém que foi jornalista e contador de histórias, uma biografia só se poderia entender desta forma, isto é, uma longa peça jornalística, que não um estudo, que não uma moldura, que não um retrato distante. E se tivesse o seu quê de poético, mesmo que apenas com os versos do herói, tanto melhor. São estes atributos que permitem ao leitor esse encontro com Fernando Assis Pacheco. Só falta mesmo a fotografia que memorize essa conversa entre os dois… e, já agora, aprofundar algumas questões que vão ficando em aberto ao longo do livro ou, pelo menos, tratadas de passagem…

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Luiz Pacheco biografado

Encontrei-me no final do dia com esta biografia de Luiz Pacheco (Puta que os Pariu - A Biografia de Luiz Pacheco. Lisboa: Tinta-da-China, 2011), devida a João Pedro George. Trouxe-a, ansioso por nela entrar. Ainda só li a "Introdução", mas fiquei à espera de assunto sério, de um percurso como o Pacheco merece, mesmo pela literatura, sobretudo pela literatura. Será uma leitura para estes dias, entre outras, pelo meio de outras.
A "Introdução" abre com uma verdade perfeita sobre o biografado: "Luiz Pacheco era capaz das loucuras mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade. Pessoa cheia de contrastes, de oscilações e de incoerências, tinha uma enorme facilidade para relacionar-se com os outros e, depois, para cortar relações."
Polémico, sempre polémico, era assim Luiz Pacheco. Conheci amigos dele nas circunstâncias desta abertura. Tive a sorte de o ter conhecido para além da escrita e de termos construído cavaqueira em várias tardes. Também por isso o quero reencontrar.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Agostinho da Silva, biógrafo de Pestalozzi

A Vida de Pestalozzi, de Agostinho da Silva (Lisboa: ed. Autor, 1943), é uma biografia do pedagogo suíço Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) que Agostinho da Silva integrou numa colecção de biografias por si editadas no início da década de 1940, esta publicada justamente no ano em que Agostinho da Silva foi preso no Aljube.
O leitor que se confronte com esta biografia corre atrás da história que é contada. Alheia a datas, o que a determina é a acção do biografado, associada às contrariedades que minaram o seu projecto e eivada de sublinhados quanto a valores. De facto, Agostinho da Silva poucas datas refere – além do ano de nascimento do biografado, poucas mais são registadas, ainda que na maior parte dos casos as escassas datas apontadas estejam ligadas a acontecimentos históricos contemporâneos de Pestalozzi. No limite, nem a data de morte do pedagogo é referida, ainda que seja dado a entender que ela aconteceu depois dos oitenta…
A insistência de Agostinho da Silva vai para a obra de Pestalozzi e para os princípios que a nortearam, sobrevalorizando a tarefa da educação, e para a persistência com que este rousseauniano enfrentou as adversidades, fossem elas de origem económica ou social. O propósito de Agostinho da Silva parece ser pedagógico, sobretudo, chamando a atenção para os valores da determinação, da necessidade da educação para todos, da força das convicções.
Assiste-se ao peregrinar de um homem que não desiste, que acredita num projecto, que foi rejeitado por muita gente, desde vizinhos a políticos, ao mesmo tempo que a sua escola recebeu a visita de figuras gradas da época, como a Mme. de Stael ou Fichte, ou foi por si apresentada a outras como, por exemplo, Goethe. Na bagagem, Pestalozzi tinha apenas o seu projecto, o seu ideal: uma escola que devia ser para os alunos, sobretudo para os pobres, “uma experiência de vida; por consequência, o que lhe compet[ia] sobretudo, como mestre, [era] orientar, ensinar a fazer”, porque acreditava que “o professor que faz, embotando a iniciativa do aluno, o que o impede de agir, é um mau professor” e “só o contacto com os problemas e as dificuldades, só a busca interessada das soluções são capazes de educar”.
Pelo caminho, vai ficando registo da obra de Pestalozzi, das invejas de grupos ou individuais, da luta por um ideal, da importância de Ana (a mulher de Pestalozzi), da tenacidade e da fé, do esforço, havendo ainda lugar para as traições de discípulos.
Cerca de cem páginas depois de ser relatado o nascimento de Pestalozzi em Zurique, o narrador relata o funeral, ponto final no percurso, rumo à escola cuja ideia ele alimentara. “Sobre a última terra a neve caía, rápida e leve, em flocos ligeiros. Mais tarde, plantaram na campa uma roseira; e em cada primavera as rosas desabrocharam e vieram trazer aos homens, sob uma forma nova, a perpétua juventude e amor ardente de Henrique Pestalozzi.”

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Rogério Fernandes em Palmela

Hoje, Rogério Fernandes faria 78 anos. Coincidentemente, hoje, em Palmela, no cine-teatro S. João, foi inaugurada a exposição “Rogério Fernandes – Vida e Obra – 1933/2010”, integrada no programa da Recepção à Comunidade Educativa, promovido pela Câmara Municipal de Palmela.
A exposição, resultante de parceria entre a Universidade Lusófona e a Fundação Calouste Gulbenkian, perpassa pelas diversas áreas de intervenção em que Rogério Fernandes ficou conhecido: a literatura, o jornalismo, o ensaísmo, a educação, a intervenção cívica e política e a investigação. Além dos painéis concebidos por Henrique Cayatte, o visitante poderá ainda apreciar considerável número de espécimes bibliográficos da obra de Rogério Fernandes nas áreas da investigação, da literatura e da tradução. A abertura da exposição teve ainda a participação de Daniel Pires, do Centro de Estudos Bocageanos, que traçou o perfil do homenageado, abordando não apenas o percurso biográfico, mas também o seu legado, sobretudo na afirmação da Seara Nova.
Recordo o que se passou há pouco mais de 31 anos, quando, em 27 de Maio de 1980, com mais três colegas, entrei no gabinete de Rogério Fernandes, ali para os lados de Picoas. Andávamos às voltas com um trabalho sobre o conto “Idílio Rústico”, de Trindade Coelho, destinado a uma cadeira da Faculdade de Letras orientada pela professora Fátima Freitas Morna. Entre a bibliografia de que obtivemos informação, constava o Ensaio sobre a Obra de Trindade Coelho, de Rogério Fernandes (Lisboa: Portugália Editora, 1961). A rapariga que integrava o grupo obteve o contacto do local de trabalho de Rogério Fernandes e resolvemos telefonar-lhe a pedir um encontro para nos falar sobre o autor transmontano. Acedeu e marcou-se data. Quando lá chegámos, nesse dia 27, Rogério Fernandes recebeu-nos com a oferta de um exemplar da obrinha para cada um de nós, já previamente autografado e com dedicatória individualizada. Fiquei impressionado e comovido com o gesto, porque, estudante universitário que era, ainda no início da licenciatura, não esperava tão especial atenção de um autor, que conhecia já de nome… Mais entusiasmado fiquei depois com a conversa – durante quase duas horas, conversámos sobre Trindade Coelho, sobre a universidade, sobre participação. Rogério Fernandes desfez-se em bonomia, em atenção, em generosidade, em empenho e pediu que, depois, lhe fizéssemos chegar uma cópia do nosso trabalhito…
Cruzei-me mais duas vezes com Rogério Fernandes – uma vez, numa reunião em que se debateu o papel da Inspecção-Geral de Educação, promovida por Marçal Grilo, então Ministro da Educação; outra vez, em Setúbal, em 2005, quando Rogério Fernandes aqui veio palestrar no programa do segundo centenário da morte de Bocage. Em ambas as ocasiões lhe relembrei o fascínio que o seu gesto de 1980 tinha exercido sobre mim e a conversa era acompanhada de um sorriso de bonomia, não sei se por lembrança, se por contentamento de ver a memória do meu fascínio, se porque o relacionamento deve ser apenas assim.
Hoje, tive de lembrar estes fragmentos de vida que me deixaram saudade. E houve uma frase patente no catálogo da exposição que me revelou parte do quase mistério daquele sorriso – “educar é aceitar e respeitar a pessoa, ajudando-a a criar a sua felicidade e a participar na felicidade dos outros.” Na memória, agradeci, uma vez mais, a Rogério Fernandes o privilégio daqueles momentos.
Por tudo o que foi o percurso de Rogério Fernandes, esta exposição não pode passar em vão. Ela pode ser vista naquele espaço até 15 de Dezembro.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto X

* “A morte é ao lado ou ao longe, ou não é nada – pois a nossa não existe para nós. Morre-se já fora da vida, o que é um absurdo e uma evidência.” (est. 7)
* “O vocabulário não aumenta com o álcool, mas a rapidez arguta com que as palavras se juntam muda bruscamente.” (est. 9)
* “Quem corre rápido, mesmo com olhos muito abertos, nada vê. Como a imobilidade e a atenção são sinónimos! Não corras tanto: ficas cego.” (est. 25)
* “Os olhos são máquinas que discriminam cores e formas, mas um acto não é apenas cor e forma, é também a sensação que o suporta.” (est. 29)
* “A tradição do tacto é aconselhar imprudências e prazeres diversos; é raro o tacto ser tímido, mas há limites.” (est. 34)
* “Nada melhor que a beleza à frente dos olhos para esquecer a melancolia.” (est. 62)
* “As viagens são um pouco de morte quando se chega, e um pouco ainda de morte quando de um sítio se parte.” (est. 80)
* “O dia não tem margens para onde possamos fugir.” (est. 85)
* “A fisionomia é o primeiro naco a ser conquistado pelo coração.” (est. 90)
* “Não poupes os olhos quando queres seduzir.” (est. 90)
* “Quem não corre quando combate ou dorme longe, esquece aquilo de que se afastou.” (est. 92)
* “O mundo é feito de pequenos parágrafos, grandes saltos, nenhuma continuidade.” (est. 94)
* “Um homem perde o essencial quando não tem uma única vontade forte; pára ou avança, que importa?” (est. 119)
* “A ética é uma espada que separa, nunca juntou ninguém.” (est. 124)
* “Qualquer biografia é assim: avança-se para o sítio de onde se partiu.” (est. 130)
* “O que se faz quando nada se sente é brutal e as circunstâncias arrancam-nos dos bons conselhos.” (est. 134)
* “Quando se foge, quando se tem medo, a ética é nada. E o que, no homem, é patas de animal e velocidade torna-se o importante.” (est. 136)
* “A ingenuidade é irrecuperável.” (est. 155)
Gonçalo M. Tavares. Uma Viagem à Índia. Alfragide: Leya / Caminho, 2010.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Bocage: uma história para jovens leitores

A colecção “Chamo-me…” (Lisboa: Didáctica Editora), destinada a leitores a partir dos 9 anos, apresenta biografias de personalidades célebres, contadas na primeira pessoa. Recentemente, surgiu o título Bocage, com texto de J. M. Castro Pinto e ilustrações de Jorge Miguel.
A vantagem deste livrinho (para o seu público) é a de contextualizar o tempo de Bocage, assim sendo contada outra história para lá da que relata a vida da personagem. No entanto, sendo Bocage de Setúbal, onde viveu a infância e parte da adolescência, natural seria que houvesse alguma contextualização alusiva ao sítio, o que não acontece. O que é caracterizado é o ambiente de Lisboa, restando para a pátria sadina do poeta uma escassa e lacónica apresentação que informa ter sido Setúbal “um próspero porto de pesca e também importante pela exportação de sal e fruta que produzia”. Por outro lado, para caracterizar o ambiente do tempo, também poderia haver uma alusão a Luísa Todi, figura sadina da época, adolescente à data em que Bocage nasceu. E, já agora, na referência à Nova Arcádia, tertúlia frequentada pelo poeta, sendo feita referência a vários dos seus componentes, também teria sido útil que fosse mencionado o nome de Tomás António Santos Silva, árcade (com o pseudónimo de Tomino Sadino) e amigo de Bocage, setubalense como ele.
O percurso biográfico de Bocage é escasso neste livro, sendo possível um pouco mais de informação (mesmo tendo em conta o público a que se destina) e sendo imperioso que o capítulo “Ditos e anedotas” não tivesse sido integrado na biografia como se as anedotas contadas tivessem real fundamento… apesar de, na última página, constar a informação de que “é preciso ter cuidado (…) porque atribuíram-se a Bocage muitas anedotas ou poemas de mau gosto”.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Mistérios que o tempo resolve: a lápide que lembrava Tomás António Santos Silva, em Setúbal

Em 28 de Fevereiro de 2001, o Jornal da Região (na sua edição de Setúbal e Palmela) publicou um texto meu sobre o poeta Santos Silva, que se iniciava da forma seguinte: «O nome de Tomás António dos Santos e Silva não dirá muito à maioria dos setubalenses, apesar de constar na toponímia da cidade. O jornal A Mocidade, de 1 de Março de 1909, disse ter sido este poeta cruelmente perseguido pela fatalidade e, se isso foi verdade em vida, não foi menos verdade depois da sua morte. Com efeito, a memória tem tido tendência para apagar o nome de Santos e Silva: por um lado, o largo que tem o seu nome e onde se localizava a casa em que nasceu é incaracterístico e de escassa circulação; por outro lado, a casa foi demolida há anos, surgindo no seu lugar um edifício de vários andares; a acrescer, houve ainda o facto de a lápide que estava no exterior da casa que foi berço do poeta ter sido removida com a demolição e não ter havido a iniciativa de assinalar a ligação do poeta ao dito arruamento; finalmente, a sua obra não está divulgada, tendo o poeta sido remetido para o rol dos esquecidos.»
O tempo desvenda-nos sempre alguns mistérios e a edição de O Setubalense de hoje mostra aos leitores o destino da dita lápide numa reportagem sobre alguns sem-abrigo que usam a divisão de um prédio renovado, na Rua Francisco José da Mota. Segundo o jornal, as obras de recuperação terão abrangido também o prédio traseiro, onde nasceu, em 1751, o poeta setubalense Tomás António dos Santos e Silva, amigo de Bocage. A lápide que existia nessa casa, alusiva ao poeta ali nascido, terá ficado abandonada no chão e um morador arrecadou-a e preservou-a, “devido ao seu significado histórico”. O mesmo morador lamenta ao jornal que a lápide “não tenha sido devidamente conservada e afixada na fachada da renovada casa”.
Pois ainda se está a tempo, assim haja conjugação de vontades! A memória desta terra agradeceria o gesto da reposição.
Aqui reproduzo a fotografia de O Setubalense com a lápide encontrada, cuja inscrição é a seguinte: "N'esta casa nasceu em 12 de Abril de 1751 o distincto Poeta Thomaz Antonio dos Santos Silva na Arcadia Thomino Sadino /A redacção de A Mocidade por subscripção publica mandou collocar esta lapide no anno de 1909".
Uma lápide pela memória, em 1919
Foi no seu número centenário, em 1 de Março de 1909, que o quinzenário sadino A Mocidade, em artigo sobre o poeta Santos e Silva, lançou o seguinte repto aos leitores e à população de Setúbal: "sendo hoje conhecida a casa onde este poeta nasceu, bom seria tratar-se da colocação de uma lápide comemorativa de tal facto, para que de futuro se não perca a indicação desta casa célebre".
A ideia teve logo adeptos e, ao longo de vários números, o jornal foi publicando listas de subscritores, informando, no número do início de Abril, que já obtivera de António João Guerreiro, proprietário da casa, autorização para a colocação da lápide. Tal manifestação aconteceu em 30 de Dezembro de 1909, tendo a lápide sido descerrada por José Maria da Rosa Albino, vereador representante da Câmara Municipal, com os seguintes dizeres: "Nesta casa nasceu em 12 de Abril de 1751 o distinto poeta Tomás António dos Santos e Silva - na Arcádia, Tomino Sadino. A redacção de 'A Mocidade' por subscrição pública mandou colocar esta lápide no ano de 1909".
O trabalho de cantaria foi da responsabilidade de João Gomes e a colocação da lápide deveu-se ao mestre de obras Francisco Augusto Martins, que ofereceu os trabalhos. Na subscrição, foi conseguida a verba de vinte mil e quinhentos réis, de que foram gastos dezoito mil réis para pagar a pedra e o trabalho de cantaria. Quanto aos dois mil e quinhentos réis sobrantes, por iniciativa do jornal, foram parar direitinhos "ao estimado poeta popular Sr. António Maria Eusébio, o Cantador de Setúbal", como referia a edição do jornal do dia 15 de Janeiro de 1910.
Tomás António Santos Silva:
notas para uma biografia
Em 12 de Abril de 1751, nasceu numa casa que se situava no Largo do Cemitério, mesmo em frente da porta do Cemitério da Misericórdia, o filho de Manuel António dos Santos e de Francisca Inácia. A criança recebeu o nome de Tomás António dos Santos e Silva.
A casa tinha, no princípio do século XIX, o nº 2 sobre a porta e o largo tem hoje o nome de Santos e Silva e apresenta uma configuração incaracterística, estando reduzido a dois becos, ambos a sair da Avenida Jaime Cortesão, com circulação restrita. Tendo a casa sido demolida, hoje pode ser vista através de postais que circulavam no início do século XX ou por meio de reproduções fotográficas.
Os pais de Santos e Silva eram pobres e a criança apresentava deficiências nos pés logo à nascença. A família cedo reparou que Tomás tinha inclinação para as letras e, graças à protecção do seu padrinho, o desembargador Tomás da Costa de Almeida Castelo Branco, o jovem estudou, tendo chegado a frequentar a Faculdade de Medicina coimbrã. No entanto, devido ao falecimento do seu protector, os estudos foram abandonados e o jovem dedicou-se à escrita, pois já versificava desde os 15 anos e dominava várias línguas. A marca do desgosto não o largou e a morte roubou-lhe a mulher com quem estava para casar.
Com cerca de 30 anos, vivia já em Lisboa, onde se dedicava à literatura dramática. Integrou a academia "Nova Arcádia", onde escolheu o nome de Tomino Sadino, numa evocação da sua terra, tal como o fizera Bocage, conterrâneo com o qual Santos Silva privou e de quem foi amigo. Com 45 anos, adveio-lhe a cegueira e passou a viver no Hospital de S.José, graças à protecção dos enfermeiros-mores D.Lourenço de Lencastre e D.Francisco de Almeida Melo e Castro. Porém, a administração seguinte retirou-lhe os privilégios e não lhe deu abrigo. Santos e Silva voltaria para o hospital, em 1814, já aniquilado pela doença, falecendo em 19 de Janeiro de 1816.
Depois de ter cegado, Santos e Silva não parou na escrita e socorreu-se de amanuenses que lhe preparavam os seus textos e com quem repartia o pouco que tinha. Num texto com cunho autobiográfico, que serve como introdução à sua epopeia Brasilíada ou Portugal Imune e Salvo (1815), Santos e Silva fez alusão às circunstâncias em que escrevia, considerando que muita gente não as supunha: "Nesta Casa [o Hospital], eu entrei totalmente cego, estropiado, em uma idade já provecta; e nela eu me conservo sem outro auxílio mais que o proveniente de meus tais ou quais escritos, de pouco ou nenhum momento em dias tão calamitosos, e a Caridade, que diariamente recebo, da qual me vejo comummente obrigado a repartir com os meus amanuenses, aproveitando-me dos primeiros que me aparecem, qualquer que seja o seu préstimo". Para Santos e Silva, a urgência era escrever e tal desejo e as suas possibilidades não eram compatíveis com grandes escolhas quanto aos amanuenses. Aliás, noutro passo do mesmo texto, referiu não ter possibilidades de grande revisão, publicando o poema a partir "do seu primeiro borrão".
Nessa mesma memória, Santos e Silva revela profundos conhecimentos sobre autores clássicos e sobre as mais recentes sumidades e sobre as características da epopeia, antecipando uma defesa quanto a eventuais críticas ao poema épico de uma dúzia de cantos que editava.
Os antecedentes do poema Brasilíada (que teve 314 subscritores, conforme lista apresentada no final do volume) são curiosos e reflectem o sentir do início do século XIX. Santos e Silva era admirador de Napoleão e, depois da batalha de Austerlitz (ocorrida em Dezembro de 1805), iniciara um poema em honra do corso, intitulado "Napolíada". Mas, em 1807, devido à primeira invasão francesa com Junot, Santos e Silva rasgou o poema e compôs Brasilíada com o objectivo de manifestar o seu "zelo e amor da Pátria".
Entre outras obras, Santos e Silva deixou Écloga de Tomino e Laura (1781), Estro de Tomás António dos Santos e Silva Cetobricense (1792), Por Ocasião do Sempre Deplorável Falecimento do Excelentíssimo Senhor D.Pedro Caro e Sureda (1806), Silveira (1809) e El-Rei D.Sebastião em África (póstumo, 1817). Um dos seus poemas mais conhecidos, com várias edições, é "Sepultura de Lésbia - Poema em 12 Prantos", em memória da noiva falecida.
João Reis Ribeiro. Histórias da região de Setúbal e Arrábida (vol. 1).
Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2003, pp. 72-76.
[Fotos: Lápide na actualidade (trissemanário O Setubalense, de 03.Set.2008); Tomás António Santos Silva, por Luís Resende e F. T. de Almeida (1815); rostos de Poesias Originais e Traduções (1806) e de Brasilíada (1815)]