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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Francisco de Paula Borba biografado (3)



Ao biografar o avô, Francisco Moniz Borba confessa a angústia do investigador perante a reconstituição do percurso - “Até há poucos anos, senti sempre a falta de algo que, escrito pelo seu punho, em discurso directo, nos desse a conhecer, de forma mais clara e objectiva, o que era o seu pensamento e o que na realidade o motivava nas suas iniciativas e realizações”, algo que se impusesse às entrevistas dispersas pelos jornais ou aos excertos que a imprensa divulgava dos discursos das cerimónias.

A tenacidade do biógrafo e o arquivo de família permitiram, no entanto, que a esta biografia sobre Francisco de Paula Borba chegassem dois documentos com a marca do biografado, ambos incluídos no livro como anexos: um, de 1920, “Relatório da Associação de Beneficência da Misericórdia de Setúbal relativo ao triénio 1917-18, 1918-19 e 1919-20”, que ultrapassa em muito o típico relatório circunstancial para revelar uma forma de pensamento própria relativamente aos assuntos abordados; outro, presumivelmente de 1932 ou do ano seguinte, uma “nota sobre a conferência a realizar em Évora”, em que o médico setubalense falou “sobre a assistência em geral e sobre a forma como a assistência era efectuada em Setúbal”.

O primeiro documento está imbuído da emoção e da sensibilidade do seu redactor, começando por uma apreciação crítica relativamente aos agentes da assistência social - “é quase sempre a iniciativa particular quem a alimenta e desenvolve”, mencionando, para o caso de Setúbal, uma rede de parceiros (como  as organizações operárias dos Montepios de Socorros Mútuos, a Cruz Vermelha ou a Associação Vicente de Paula, entre outros) que em muito ajudaram a Associação de Beneficência da Misericórdia. Depois, relata a obra no triénio, destacando a instalação da farmácia no edifício do hospital, a construção de uma padaria num anexo do hospital para fazer face à escassez de géneros trazida pela Grande Guerra, a dignificação da casa mortuária ou as condições da lavandaria como medida de higiene pública, entre outras iniciativas. Merecem ainda realce a coerência mostrada quanto ao Asilo Barradas, defendendo que deveriam ser cumpridas as disposições da benfeitora quando havia quem propusesse, em nome da sustentabilidade financeira, a diminuição do número de assistidas, bem como, para registo da história local, a indicação do início da pneumónica em Setúbal, em Setembro de 1918, sendo os primeiros pacientes da zona de Rio Frio, um dos quais faleceu antes de chegar à enfermaria.

O segundo documento é um bom resumo do pensamento de Francisco de Paula Borba quanto à prática da medicina e da assistência, muitas vezes crítico da demagogia em torno desta questão, como acentua no início da prelecção: “Muitas são as pessoas que emitem a sua opinião, mas menos as que se preocupam com os deveres que todos devemos ter para com o nosso semelhante.” O Estado também não é poupado - “A assistência feita pelo Estado é sempre cara e muito burocrata. Falta-lhe o desinteresse material e o muito do sacerdócio indispensável para o bom exercício de uma assistência profícua e útil.” Fazendo valer circunstâncias como a riqueza da localidade, o clima, o espírito religioso e a gestão dos óbolos, enuncia um programa do que deveria ser a organização da saúde pública, desde o posto médico nas aldeias até aos hospitais centrais de Lisboa, Porto e Coimbra, passando pelos hospitais concelhios e pelos distritais, valorizando a iniciativa particular, sobretudo das Misericórdias. Para Paula Borba, a mensagem essencial estava na vontade de que “a assistência continue sendo acarinhada e protegida pelas almas benfeitoras para todos os que compreendem o sagrado dever de fazermos aos outros o que desejamos para nós.”

Não admira, assim, a quantidade de retratos emotivos que sobre Francisco de Paula Borba foram traçados aquando do seu passamento em 26 de Setembro de 1934. Esta biografia é a homenagem justa nos 150 anos do seu nascimento e o avivar da memória sobre uma figura incontornável na identidade setubalense.

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 984, 2022-12-21, pg. 21.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Francisco de Paula Borba biografado (2)


Grande parte do percurso biográfico de Francisco de Paula Borba era já conhecido, sobretudo no seu papel de médico e de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, muitos pormenores tendo já sido trazidos ao saber público por Francisco Moniz Borba em trabalhos anteriormente publicados. Se, na obra Francisco de Paula Borba - Vida e Obra (1872-1934), o leitor fica a conhecer alguns aspectos da história familiar (origem, casamento, constituição da família, aquisição da quinta da Gâmbia), também por aqui passam as ideias e a forma de estar em sociedade do biografado, quer pela forma como se impôs enquanto profissional (inovando, construindo e governando a saúde local, visando a existência de melhores condições, no hospital e na Misericórdia), quer pelo relacionamento mantido com o operariado e com os mais carenciados (prestando-lhes assistência e envolvendo-se pessoalmente em algumas causas sociais, como a do pagamento da caução para dez trabalhadores serem absolvidos, depois de destruírem, por protesto, várias máquinas numa fábrica), quer pela recusa na aceitação de cargos públicos (republicano, renunciou a cargos políticos, argumentando com a sua actividade clínica).Cedo começou em Setúbal o reconhecimento pela figura de Paula Borba - ao saber-se que fora mobilizado para médico miliciano em 1917, a população manifestou-se, exigindo do poder político que o médico se mantivesse em Setúbal. Conseguido o intento, uniu-se a cidade para lhe fazer uma oferta. Porém, ao saber desta intenção, o seu pedido foi no sentido de destinarem a colecta feita à construção de um balneário, estrutura que era fundamental para o fomento da saúde pública. As homenagens, contudo, foram muitas ao longo da vida, com particular destaque para a atribuição do estatuto de “cidadão de Setúbal”, a primeira figura a receber tal título honorífico.

Para lá do reconhecimento institucional, houve também a gratidão individual do cidadão comum, muitas vezes apoiado pela acção de Paula Borba, como o prova a quantidade de poemas feitos em seu louvor - em 1932, compunha João Henrique um soneto sobre o médico, do grupo de “auto-silhuetas”, em que o retratado se contava na primeira pessoa: “Se adoro, e muito, o berço onde fui nado, / formosa ilha cujo amor cultivo, / Não amo menos a terra, à qual cativo / Me traz o encanto do formoso Sado. // (...) // Mas pertence esta vida aos pobrezinhos, / E é tão curta - por longa que eu a conte - / Que a absorve o meu amor pelos velhinhos.” Em Outubro de 1934, pouco tempo depois do falecimento de Paula Borba, “uma sua protegida”, Mariana Pereira, publicava largo conjunto de quadras “em homenagem ao distinto médico e benemérito”, cantando: “Está Setúbal de luto / com sentimento profundo / Morreu o pai da pobreza / Outro igual não há no mundo. // (...) // Ai que se eu pudesse / A minha vida por a dele trocar / Eu queria ser enterrada / Para ele neste mundo ficar. // (...) // Para nós era um Anjo / Digo e torno a repetir / Um homem como o Dr. Borba / Não veio nem torna a vir.”

Com razão regista Fátima Ribeiro de Medeiros, na abertura do prefácio a este livro, que “há pessoas raras que conseguem delinear e marcar o percurso dos outros, dos seus contemporâneos e dos que lhe virão a seguir na dinâmica das gerações”, mencionando o caso do “Dr. Paula Borba, como lhe chama desde sempre o povo, como se dissesse pai ou avô”, que classifica como “um dos nossos grandes, sem dúvida”, que optou por Setúbal para “aqui construir o seu futuro, contribuindo para o sucesso e crescimento da cidade.”

J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 979, 2022-12-14, p. 8.


segunda-feira, 22 de julho de 2013

António Marcelino Igreja (1867-1952), o benemérito biografado por Ana Gomes



A vida de António Marcelino Igreja não é muito conhecida, apesar de ter sido um dos grandes beneméritos das Misericórdias de Lisboa e de Setúbal. Para isso concorre a escassez de testemunhos e o facto de a própria documentação existente ser sobretudo de carácter notarial, que, apesar de dar um contributo fidedigno, não vai muito além do cunho transaccional que a marca. Certo é que o período de vida de Marcelino Igreja está associado a uma série de circunstâncias que se cruzaram com a história do país, num tempo ocorrido entre a segunda metade oitocentista e o final da primeira metade do século XX. Foi por entre estas dificuldades que se moveu Ana Gomes, autora da obra António Marcelino Egreja (1867-1952), pretextada por se tratar de um benemérito importante para a obra de Misericórdia da capital [col. “Beneméritos” (7). Lisboa: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, 2013].
O percurso do biografado é construído segundo o modelo do estilo da reportagem, numa escrita que viaja pelos documentos consultados e que tenta preencher esse esqueleto com alguns testemunhos de memórias já longínquas de mais de seis décadas, recorrendo a uma excelente caracterização dos momentos, circunstâncias e ambientes em que a vida de Marcelino Igreja decorreu.
Oriundo de família com origem galega por parte do pai (que de Pontevedra veio para Lisboa na leva da chegada dos galegos migrantes de meados do século XIX), esta condicionante constitui pretexto para uma ilustração e lembrança do que seria a Lisboa da época, frequentemente percorrida por galegos, sobretudo em funções subalternas – aguadeiro, empregado em casas de pasto, fazendo fretes, amolador, etc. Nada se sabendo sobre a infância e a juventude do biografado, o leitor vai encontrá-lo, vinte anos feitos, como sócio do seu tio, e depois sogro, António Igreja Moinhos, na empresa Moinho & Sobrinho, fortemente ligada a Setúbal nas duas últimas décadas oitocentistas. Motivo para tão íntima ligação é a indústria conserveira, que leva a empresa a agir na área da conservação dos produtos alimentares e seus satélites, como a aquisição da Litografia Setubalense, essencial para a estampagem das embalagens das conservas, ou a constituição de uma fábrica de guano. O nome de Marcelino Igreja surgiu ainda envolvido na criação da Empresa de Recreios Setubalense, responsável pela construção da Praça de Touros D. Carlos (actual Praça Carlos Relvas) e do Teatro D. Amélia (antepassado do Forum Luísa Todi).
Com um tal percurso, não podia António Marcelino Igreja estar distante da intervenção cívica e assim o vamos encontrar como responsável do Partido Republicano Português (PRP) em Setúbal. Paralelamente, em 1901, entra no Ministério dos Negócios da Fazenda com o cargo de inspector do serviço das contribuições, início de uma carreira que seguiu até 1935, ano da sua reforma, em que um dos passos foi o desempenho da função de Director de Finanças do distrito de Setúbal.
Este cruzamento de Marcelino Igreja com Setúbal forneceu a Ana Gomes a condição necessária para a apresentação de um quadro sobre o que foram as condições vividas na cidade do Sado durante o período situado entre a última década do século XIX e a de 1930, cronologia fortemente dominada pelo desenvolvimento industrial, pela organização dos trabalhadores e das profissões e pelo palco da política, cenário que a autora muito bem sintetiza, apoiada em recente e informada bibliografia de autores setubalenses como Albérico Afonso, Carlos Mouro ou Maria da Conceição Quintas.
Ao longo desta biografia, o leitor vai assistindo ao que foi o crescimento do espólio e da fortuna de António Marcelino Igreja e de sua mulher (de cujo casamento não houve descendência), nuns casos por negócio e aquisição, noutros casos por herança familiar, sobretudo através do contributo que é o último capítulo, “O legado”, em que os bens do benemérito são cuidadosamente enunciados, cruzando-se a informação com testemunhos e memórias de algumas pessoas que com ele privaram. Num universo dominado por considerável quantidade de bens, salta também a imagem de uma personalidade austera, culta, sensível e generosa. No seu testamento, foram beneficiados os seus mais próximos colaboradores e duas instituições ligadas ao bem-fazer, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a sua congénere setubalense – a esta última coube a herança de uma centena de contos, bem como todos os imóveis que o benemérito possuía no concelho de Setúbal.
Para se avaliar a dimensão da fortuna legada, o final do livro contém o “Inventário e Encargos do Testamento”, organizado por Cristina Gil, que refere a verba de quase 54 mil contos resultante do valor patrimonial de imóveis, de depósitos bancários, de móveis e sucata, de objectos de ouro e prata, de títulos e papéis de crédito, da venda de imóvel e do rendimento dos imóveis. A fechar a biografia, Ana Gomes considera: “ainda hoje, em pleno século XXI, decorridas seis décadas sobre a morte do benemérito, mais de uma dezena de prédios de Lisboa, oriundos da herança que confiou à Santa Casa, contribuem para manter pujante o gesto filantropo que assinou no passado.”
A obra conclui com uma útil cronologia, válida sobretudo por ser um documento que apresenta a relação do trajecto de Marcelino Igreja com as vivências histórico-sociais da época e dos lugares que o biografado frequentou, com uma bibliografia (fortemente dominada pelos documentos e registos notariais) e com a árvore genealógica do biografado. E, chegado ao final, o leitor vê-se com o retrato possível da personagem com quem conviveu ao longo de centena e meia de páginas, em tudo fiel àquele que a autora forneceu logo no início da obra, na “Introdução”: “Figura austera e discreta. Homem de firmes princípios e sólidas crenças. Republicano convicto. Espírito laborioso. Cavalheiro e distinto. Empresário invicto. Gestor hábil. (…) Personagem que a penumbra do passado torna enigmática. (…) Conquistou créditos enquanto industrial pioneiro do sector conserveiro, zeloso funcionário das Finanças ou astuto proprietário imobiliário. Para lá do êxito que colheu e do empenho que investiu em cada uma das acções a que se dedicou, em todas preferiu a sombra dos bastidores aos holofotes do protagonismo.” Esta biografia trouxe a luz possível sobre este retrato, reunindo as peças do puzzle necessário para o conhecimento de António Marcelino Igreja, dono de vida intensa e longa mas, até aqui, muito pouco conhecida.