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terça-feira, 19 de maio de 2026

O exílio existiu e fez parte do caminho (3)

 


Resulta dos testemunhos recolhidos em O que muitos andaram para aqui chegarmos (edição Poemar, 2025) que, com as vidas retomadas e construídas na Bélgica durante o exílio, o retorno não foi para a maioria uma prioridade e Portugal passou a ser destino regular de visita (depois de 1974), mas sem a obrigação de ser o ponto final de nada: há quem venha a Portugal visitar a família, quem viva entre os dois países, quem tenha regressado, quem oscile entre a raiz e o país de acolhimento, “de coração”. Mas, quando a conversa gira para o que significa hoje o país onde nasceram, as respostas parecem revestir-se mais de nostalgia — Manuela Pereira explica, talvez, esse sentimento que lhe foi dado testemunhar com o marido: “trazia sempre um papel no bolso que dizia que, se morresse, queria ser sepultado na Bélgica e não no país que o obrigou a sair do que considerava ser a sua casa”. E, quando lhe perguntam em qual dos dois países quer ficar, responde, algo laconicamente: “Para mim, é igual: onde estiver, fico.”

Maioritariamente, a parte mais densa destes testemunhos assenta nas razões que conduziram à partida, melhor, à fuga de Portugal, numa quase necessidade de serem explicadas as razões, de ser revivido o contexto, quase para dar sentido à mudança, para justificar a vida. Outra parte significativa é ocupada com as possibilidades que cada um teve de inclusão na nova sociedade e de desenvolvimento dos projectos pessoais, sentindo-se o tom de agradecimento ao país que os recebeu e a conquista da estabilidade pessoal e social, apesar de também ter havido episódios de segregação.

Se as memórias são o ponto nevrálgico que sustenta este livro, ele existe também para celebrar a memória — o último capítulo intitula-se significativamente “In Memoriam” e lembra uma dezena de nomes, companheiros de percurso, nascidos entre 1940 e 1951 e exilados na década de 1960, mencionados pelos entrevistados no cruzamento das histórias, por aqui passando o poeta Al Berto, António Lacerda Setas (“o primeiro português a receber o estatuto de refugiado político da ONU na Bélgica”), António Moura (paladino do movimento associativo dos emigrantes em Liège), Jorge Ramos Tavares da Silva (que divulgou a cozinha portuguesa tradicional), José Neves Morgado (formado em Filosofia em Bruxelas e quadro da RTP), Luís Rosado de Sousa (trabalhador na indústria hoteleira e taxista), Manuel Costa Neves (associativista, empreendedor na restauração, galerista e pintor), Mário Gastão Martins da Costa (autor de ilustrações e de desenhos animados), Raul Sabrosa (ligado à indústria hoteleira e, regressado a Portugal após o 25 de Abril, formado em enfermagem) e Rui Veiga Pinto (advogado e co-autor de um documento aquando do 25 de Abril que afirmava que esta data só se cumpriria com o fim da guerra colonial).

Seja dada ainda nota de algumas relações que os testemunhos recolhidos nesta obra têm com Setúbal. Em primeiro lugar, porque uma das organizadoras, membro do grupo “Poemar”, tem fortes ligações a Setúbal — Maria Manuel Gandra (n. 1944), setubalense por adopção, aqui leccionou no ensino secundário e foi professora acompanhante de estágios de profissionalização na Escola Superior de Educação de Setúbal. Depois, porque dois dos nomes que deram o seu testemunho sobre o exílio tiveram ligação a esta cidade num dado momento das suas vidas: Joaquim Tenreira (n. 1945), natural de Sabugal, diplomado em Teologia, procurou o exílio em 1972, mas, enquanto seminarista na Guarda, acompanhou os movimentos em prol de uma igreja progressista e integrou “uma equipa de padres operários, em Setúbal”, tendo trabalhado “numa fábrica de montagem de automóveis de 1968 a 1970” (experiência de que existe relato na obra Presença e Missão, de Elisário de Sousa, publicada em 1998, referindo o caso da Movauto, onde este grupo de padres operários a que esteve ligado Tenreira interveio); Domingos Ribeiro de Campos (n. 1941), barcelense, chegou ao exílio em 1963 e só voltou à casa da família em 1974, mas, nesse período, chegou a vir a Setúbal “fazer uma acção clandestina” sobre a qual não deu pormenores.

O que muitos andaram para aqui chegarmos é um título eficaz. Inspirado num verso da canção “Eu vim de longe”, de José Mário Branco, ele próprio um exilado pelas mesmas razões que vários dos intervenientes nesta obra o foram, este título homenageia a quantidade de vidas que se alteraram em defesa da liberdade e em busca da esperança, ao mesmo tempo que faz assentar a responsabilidade da manutenção dessa mesma liberdade sobre o presente, quase elaborando um mapa dos riscos, vencidos pela tenacidade de uns tantos corajosos para hoje sermos o que somos.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1757, 2026-05-13, pg. 10.


quinta-feira, 30 de abril de 2026

O exílio existiu e fez parte do caminho (1)

 


Foi Luis Sepulveda (1949-2020) quem escreveu que “todos os exílios duram demasiado tempo e cada experiência é única” (in Histórias daqui e dali, 2010), uma frase que não surge do acaso, mas de uma vivência assumida, resultante de uma imposição exterior ao indivíduo, satisfazendo as convicções e a consciência e rejeitando a pressão sobre a liberdade. Se o exílio rouba o espaço de conforto e de identidade, carrega também a coragem da vivência com a memória e com a esperança, alicerces das incertezas e das dificuldades para quem tem de construir uma vida entre o sobressalto e o medo iniciais e a preservação do mais sério de si, a consciência. E, quando a esperança vira realidade, o sentido do caminho completa-se e o caminhante vê-se construtor da liberdade...

É assim que se justifica um título como O que muitos andaram para aqui chegarmos, antologia de que saiu recentemente o segundo volume, seis anos passados sobre o primeiro, trabalho devido aos colaboradores-testemunhas e a um vivo grupo, “Poemar” (integrado por Maria Manuel Gandra, Joaquim Rodrigues, Fátima Azóia, Maria José Rodrigues e Mário Campolargo), que tem feito, na Bélgica,  um espaço de convívio e de divulgação com os ingredientes que a cultura portuguesa oferece, uma partilha por amor à causa e às artes, um contributo pedagógico para a vida, e que procedeu à recolha.

O exílio, sejam quais forem as suas razões, é um estado que permanece na história, normalmente resultante de um conflituar com a liberdade do cidadão, numa narrativa do mundo que parece não ter fim, porque a liberdade sempre tem dado azo a que os seus adversários a queiram derrubar, haja em vista o fenómeno migratório a que temos assistido, resultante dessa coacção sobre os povos, uma corrida para a defesa da identidade. É quase a fechar o livro que os organizadores sublinham esse trajecto imparável que leva à situação de exilado — “Nestes tempos conturbados que vivemos, assistimos, numa interrogação muda, à humilhação e a um cruel sofrimento daqueles que buscam o pão noutras paragens ou fogem das perseguições a que são sujeitos, como se fossem párias desprezíveis e criminosos, sem direito a qualquer tipo de humanidade.” E, reconhecendo que estes foram também os caminhos dos oito testemunhos recolhidos, todos com origem em Portugal e termo em Bruxelas, onde recebiam o estatuto de refugiado (com alguns a passarem por Paris), o livro termina com um agradecimento ao país de recepção — “Devemos, pois, à Bélgica e aos Belgas esta mão aberta à Fraternidade!”

Nascidos entre 1939 e 1947, numa geografia que corre de Barcelos a Faro, e chegados ao país de exílio entre 1962 e 1972, pelas memórias destas três mulheres e destes cinco homens (tantos são os testemunhos prestados) passam as razões que os levaram ao exílio, as dificuldades sentidas no caminho da fuga, a maneira como foram recebidos, a diversidade de planos postos em prática para agarrar a vida e o regresso (às vezes, apenas em jeito de visitação) a Portugal. “Diálogo com a memória”, dizem os organizadores no texto de abertura, é o fio condutor deste livro, ainda que tenham notado que nem sempre a memória se quisesse expor, fosse pelo efeito do tempo, fosse pela dificuldade em abrir algumas gavetas, confessando ter sido gratificante “pressentir a hesitação e o pudor de revisitar um passado, para muitos, calado há tantos anos que pertencia já a outra vida; calcorrear com os protagonistas os caminhos e os medos de quem se despiu de tudo e se despediu de todos numa interrogação cega sobre o seu destino; descobrir o heroísmo de quem, no anonimato e na persistência, contribuiu com audácia para a denúncia da ruína; confirmar a existência do amor febril a esse país cinzento que todos queríamos livre e azul”.

Mergulhe-se, pois, neste espaço de visitação às memórias. Elas e eles partiram porque a liberdade não podia ser alimentada, ora pela actividade política que alguns desenvolveram, ora pelas ideias que mostraram, ora pela ameaça real de participação numa guerra colonial, ora pela inquietação demonstrada. Partiram e já tinham tido a experiência da prisão (como foram os casos de Mariana Xufre e de João Corrêa); partiram e já tinham tido o olhar da polícia política a focá-los (como aconteceu com Mira de Lacerda); partiram para contrariar o caminho da guerra colonial (como recordaram Fernando Cabrita, Tenreira Martins, Fernando Gameiro ou Domingos Ribeiro de Campos).

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1749, 2026-04-30, pg. 10.


sábado, 1 de junho de 2019

"O que muitos andaram para aqui chegarmos." - Andanças de exílio para conquistar o horizonte



Deixem-me começar por uma quadra de Daniel Filipe, do seu livro Pátria, Lugar de Exílio (1963): “Pátria, mas terra agreste; / terra, apesar da morte. / Pátria sem medo a leste. / Lugar de exílio a norte.” Esta quadra não entrou no arranjo musical que deste poema fez Luís Cília em 1973, no disco “Contra a ideia da violência”, mas bem podia ter entrado!
Se trago estes dois nomes para começar a falar do livro que para aqui nos convocou - O que muitos andaram para aqui chegarmos (Bruxelas: Poemar, 2019) -, tal deve-se ao facto de Daniel Filipe ser um bom poeta do exílio e ter sido perseguido pela polícia política, como vários dos participantes na obra de que hoje falamos, e ao facto de Luís Cília (que foi incentivado a musicar poetas pelo próprio Daniel Filipe) ter sido uma referência para muitos exilados portugueses, designada e assumidamente para um dos participantes nesta antologia testemunhal, Manuel Jorge Gonçalves, que o conheceu em Paris.
Mas há ainda uma outra razão para terem sido estes versos de Daniel Filipe os escolhidos: é que eles condensam muito do que sobre o exílio se possa dizer em termos de expressão literária - o exilado tem de dar corpo à contradição, vivendo a ausência e assumindo esse estar fora com dor (“Pátria, mas terra agreste” é verso que reúne esse estar preso e estar distante em simultâneo, um paradoxo da existência que vai muito para lá da geografia); o exilado procura a utopia para se salvar (“lugar de exílio a norte” é o verso que bem explica o conforto que Maria Augusta Seixas vai encontrar em Bruxelas, a que chama a “casa dos desertores”, abrigo e porto seguro, ou o paraíso que o já citado Manuel Jorge Gonçalves vai descobrir no país que o acolhe, quando exclama: “Bélgica, terra de liberdade, tão mais progressista e evoluída!”). 
Estão assim projectadas duas linhas de leitura que determinam este livro: por um lado, o registo testemunhal do exílio, vivido e sentido, como experiência dos limites e como risco indispensável para dar corpo à existência; por outro lado, a Bélgica e Bruxelas como unidade de espaço, varanda de ver o mundo e desejar o futuro, comum a todos os intervenientes nesta obra.
O livro conta com dez testemunhos e uma justificação, constando esta no capítulo que encerra o volume, em cujo título se questiona Maria Manuel Gandra: “E as mulheres?” Com efeito, das dez colaborações apenas uma é assinada por uma mulher, Maria Augusta Seixas; contudo, tem razão Maria Manuel Gandra quando refere que elas estão “na sombra, discretas e seguras figuras de segundo plano”, apesar de esse “segundo plano” não estar isento de heroísmo, de luta, de dor, de sonho, afinal os mesmos ingredientes que fizeram mover os homens que por aqui passam - é que praticamente todos os textos são povoados pela figura feminina, independentemente de ser a namorada ou a mãe, a companheira ou a protectora dos refugiados, a mulher humilhada por um agente da PIDE ou aquela que é trazida a Portugal e acaba por se deixar adoptar também pela pátria de exílio do companheiro.
Bruxelas foi encarada como “porto seguro” por todos estes “pássaros de arribação” (metáfora que é usada no curto texto introdutório) depois de um voo rasteiro, demasiado rasteiro para não dar nas vistas, com passaporte falso, sob a protecção das sombras da noite, num itinerário “a salto”, calcorreando estradas de fronteira e Pirenéus, vivendo a insegurança e o medo, tudo numa “rocambolesca viagem para o exílio”, como a classificou Carlos Marum.
No horizonte que ficava para trás, estava a polícia política, estava a guerra colonial iminente e impositiva no trajecto de cada um, estava a militância política e obrigatoriamente clandestina. No horizonte que ficava para trás, estava também um tempo em que, como refere José de Matos, “desconfiança era a palavra que filtrava tudo o que ouvia”. Tão intensa era essa treva do receio de dizer e de pensar que Vítor Ascensão reconhece que, mesmo fora de Portugal, “durante muito tempo, viveu com os pesadelos de medo, de insegurança e fragilidade” e “o sentimento de que qualquer coisa [pudesse]acontecer acompanh[ava]-o”.
A insegurança vestia, muitas vezes, a roupagem da ilusão, obrigando estes actores a um regime de atenção e de cuidado, sobretudo na percepção do perigo, como aconteceu com José Matias, quando lhe apareceu uma personagem a querer formar um grupo para uma invasão na ilha da Madeira, criatura que não era outra coisa senão um informador, um “bufo”, que pretendia chegar ao topo da organização política de oposição com que Matias simpatizava.
No trajecto até Bruxelas, havia a França, com paragem em Paris por tempo variável. Era a oportunidade para encontros com outros exilados, para um olhar já mais higiénico sobre o mundo - recorda José de Matos que entrar em França “foi lavar as roupas bolorentas dos regimes fascistas de Portugal e Espanha”. As ruas de Paris foram também o espaço que permitiu a alguns participarem no Maio de 1968, como foi o caso de José Coelho, que sentiu o fascínio de “ver a liberdade com que aqueles milhares de pessoas se manifestavam a reivindicar uma mudança de um sistema autoritário vigente para um sistema com maiores liberdades.”
Contudo, o apelo mais forte vinha de Bruxelas, ali onde lhes era possível deixarem a clandestinidade e reapropriarem-se da identidade, através do estatuto de refugiado político atribuído pela ONU. A cidade era, além disso, o novo mundo, terra de abundância e de trabalho, de liberdade, onde, depois da fuga de um “país triste, acabrunhado, onde o lindo céu azul de Lisboa parecia cinzento” e “podia desabar na cabeça a todo o momento”, como evoca Maria Augusta Seixas, valia a pena o trabalho (muitas vezes, de sobrevivência), o esforço, numa capacidade de adaptação e de mudança impressionantes, alicerçadas na convicção e na esperança.
Os textos até aqui citados caracterizam-se sobretudo pela marca da memória e do testemunho, num contar da experiência pessoal, vários deles redigidos por outro que não o protagonista do que é contado e um deles sob a forma de entrevista. Ressalta em todos um balanço positivo do percurso feito e a passagem do testemunho à escrita afigura-se como uma forma de reencontro ou de aproximação ou de partilha, como descobre Carlos Melro no final da sua prestação: “Acabei por dizer coisas em que nunca tinha pensado, contei histórias que nunca tinha contado, mas tudo saiu espontaneamente.”
Restam ainda por referir dois textos, o de Diogo Pires Aurélio e o de Fernando Gandra. Não porque o percurso até Bruxelas tenha sido diferente ou porque as dificuldades tenham sido menores, mas porque, na sua concepção, estes dois textos ultrapassam o registo do testemunho e deixam-se impregnar pela literatura.
Diogo Pires Aurélio, ao puxar “Vocabulário do exílio” para título, abre o caminho da liberdade da semântica, selecionando palavras, expressões, acrónimos e datas como “a salto”, “carta”, “clandestino”, “comboio”, “esquemas”, “guerra”, “nevoeiro”, “noite”, “ONU”, “STIB” e “25 de Abril de 1974” para, a propósito de cada uma das entradas, contar a sua história. Cada uma delas adquire um novo significado para lá da marca denotativa que o dicionário lhe confere, da mesma maneira que o narrador, por vezes, é independente da personagem sobre quem conta, um tal D., que se percebe ter sido um empréstimo do autor ou que narrador e personagem se mesclam, como se num vaivém entre os arquivos da memória e os acontecimentos tornados presente. Por estas onze secções passam os momentos de glória e de medo e as pequenas histórias que carregam a marca do desespero do momento; passa ainda a reflexão, em termos muito pragmáticos e em tom de resposta antecipada às conjecturas do leitor, para ajudar a entender atitudes que só existiram por causa das circunstâncias, por causa do sofrido.
“Porque não há vento?” é a questão trazida para título por Fernando Gandra, num texto de metáfora forte, enveredando por uma escrita poética, de imagens intensas, em que o leitor é logo desafiado a observar a gare de Austerlitz, onde passam “milhares de portugueses numa aflição calada” ou, depois, levado até Bruxelas, onde “a saudade é uma lâmina sangrenta que nada pode contra a inflamação do longe”. Mas o texto rapidamente adquire um tom épico ao enumerar as razões que os candidatos ao estatuto de refugiado político apresentavam, chamando as razões de um colectivo, que vão configurando também o retrato da alma de um país (se é que ela não estava também em fuga!): “fugimos do Cais de Alcântara e dos seus lenços de adeus até ao meu regresso que era os mesmos que acenavam na Cova da Iria altar do mundo (...) / fugimos da naftalina e do quanto mais me bates mais tenho ciúmes e anda encosta o teu peito ao meu / (...) / fugimos dos raciocínios do contumaz almirante Américo que sofria de microcefalia (...)”, etc. No total, dezoito recorrências anafóricas, todas pintando um país que fora abandonado e era satirizado em cada um dos motivos apresentados.
Numa segunda parte, o texto de Fernando Gandra aproxima-se da escrita biográfica, traçando o seu perfil na terceira pessoa e concluindo com a afirmação da identidade da actualidade: “Anos depois, cansado da bruma, optou pelo sol e dedicou-se exclusivamente à escrita, a sua vocação de sempre.” Um terminar que justifica o rasgo literário posto neste texto de memórias!
Mas até onde se projectava o horizonte de todos estes intervenientes e autores e actores dos seus percursos? Esse horizonte, que a utopia prometia e que a luta pela vida caldeou, foi comum a todos eles, cristalizado numa data repleta de promessas e de esperança: o 25 de Abril de 1974. Fernando Gandra refere que esse dia fez com que tivesse “terminado o Portugal teologal”; José de Matos não consegue descrever o que sentiu, apenas “uma alegria, uma coisa grande”; outros revelam que acreditaram com reservas; outros viveram o dia normal de trabalho, porque tinha de ser e talvez porque fosse preciso ver... Mas aquela quinta-feira acabou por tocar todos, uns com a ânsia de regressarem, outros observando a distância, uns a querem descobrir a diferença possível relativamente àquilo que tinham deixado, outros a assumirem a continuidade em Bruxelas... no entanto, sempre com a ideia de que o horizonte tinha sido conquistado.
Enfim, O que muitos andaram para aqui chegarmos. é um repositório intenso de emoções e de humanidade, um bom retrato do exílio na literatura, um contributo para mapear as distâncias entre o país triste que foi abandonado e o país reencontrado. Vale por isso este livro, mas vale ainda, e sobretudo, para percebermos que o “aqui” que se afirma no título é o sinónimo do “hoje” e do nosso estado, possível pelo que outros, muitos, andaram e lutaram, registo que a memória deve ajudar a ser incorporado na nossa identidade para que o presente valha sempre a pena, não apenas porque estamos cá, mas porque ele foi construído também por aquilo que muitos andaram.

(Na apresentação do livro, em 30 de Maio de 2019, na Fundação José Saramago, em Lisboa)