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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Raul Reis - Fotografia, cartas e a memória de um universo



“Envia-me cartas” é a exposição de fotografia de Raul Reis que está em mostra na Casa da Cultura, em Setúbal, até 5 de Setembro. Poucos dias até ao final, pois. E, se o leitor ainda por lá não passou, aproveite os dias que restam. Vai confrontar-se com umas dezenas de fotografias de caixas de entrada de correio, centradas naquela pala bem conhecida que servia como gps dos carteiros, indicando “cartas”.
Sabemos que as caixas de correio de hoje são sobretudo virtuais e que aquelas que têm existência física nas portas das casas ou dos prédios jazem silenciosas e abandonadas por muito tempo (condizendo com o abandono de muitas edificações) ou servem para receber apenas as notas fiscais e as facturas de serviços... Já não são alimentadas de emoções e de histórias, já não adquirem marcas de aproximação entre humanos. Como escreve o setubalense Raul Reis na nota introdutória ao livro que acompanha a exposição (objecto belo e recomendado), essas caixas de correio com a palavra “cartas” empurram-nos “para as reminiscências de um tempo passado - aquele em que os sentimentos eram deixados no papel”. Quase como se de narrativas se tratasse...
Mas Raul Reis alargou o âmbito da sua exposição ao público, tendo criado sítio adequado na net, em que cada visitante podia escolher a fotografia de uma das caixas de correio e escrever-lhe uma carta. E assim surgem disponíveis para o público visitante 32 cartas com destinatários múltiplos - amigos, familiares (avó, pai, filhos), amores, locais, etc. E, no final da exposição, o visitante pode escolher entre 32 postais que numa face exibem a respectiva porta e caixa de correio e na outra a carta que lhe foi dirigida. Pode escolher e pode trazer. Uma, duas, três ou todas as portas e todas as cartas, que ali estão para oferta.
E, nos escritos que ali surgem reproduzidos, há para todos os gostos e tipologias, como se imagina. Desde o mais elaborado ao mais simples, do mais loquaz ao mais reservado, do mais metafórico ao mais imaginativo, do mais pessoal ao mais colado a um momento histórico. Refiro alguns exemplos, entre vários que poderia escolher: escreveu Filipe Lourenço que “as cartas são pessoas com selos na ponta da língua”, bela imagem que carrega todo um historial ligado ao gesto de escrever e enviar uma carta; Marco Dias aproveitou o momento histórico e enviou missiva a Donald Trump, em tom sarcástico e de medição de forças em nome da humanidade, contendo uma praga rogada; Susana Albuquerque escolheu Lisboa como destinatária, escrevendo desde Madrid e concluindo a sua mensagem com uma declaração de amor - “querida Lisboa, se eu pudesse, vivia em todas as boas cidades do mundo só para descobrir tudo o de que eu gosto mais em ti”; Tiago Gonçalves optou por uma carta aos filhos, que fecha a declarar-lhes que “devia poder mandar fazer uma gaiola para guardar os vossos sonhos”.
Há, contudo, uma carta que se me apresentou como preferida. Com autoria de NQ, estabelece uma relação entre Lino Nossa, 2º Sargento do CEP (Corpo Expedicionário Português) na Flandres em 9 de Abril de 1918, e Celeste, que ficara em Portugal, a quem o combatente promete casamento se regressar ao seu país. É uma carta apócrifa que bem poderia ser verdadeira e que dá a noção do sofrimento e da dor nas trincheiras na Grande Guerra - mesmo neste contexto o valor da metáfora é extraordinário ao referir que a guerra é “um purgatório em vida”.
Ao leitor caberá descobrir outras mensagens, outros segredos, outras sublimes frases em cartas que não entrarão em caixas de correio mas que estão ao dispor nesta exposição, que é quádrupla: a dimensão das fotografias de Raul Reis, a dimensão das cartas de 31 autores (há dois textos de uma autora), a associação das cartas às fotografias nos postais, o mundo das caixas de correio em livro (Envia-me Cartas / Send Me Letters. No Frame Publishing, 2017). Vale a pena!
Refira-se ainda que “Envia-me cartas” é a primeira fase de um projecto em trilogia designado “A Cidade está Deserta”. E como, em nota final, Raul Reis revela, “Envia-me Cartas” é a parte em que “se explora a nostalgia dos objectos que perderam o seu significado original”. Uma reflexão sobre a cidade, sobre a vida, sobre a actualidade. A ver!

Carta de autoria de NQ, emprestando o momento a um combatente do CEP em 1918

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Filatelia evoca participação portuguesa na Grande Guerra



A participação portuguesa na Grande Guerra (1914-1918) é tema de uma emissão filatélica promovida pelos CTT com data de hoje.
Esta evocação é constituída por três selos, cada um deles homenageando um dos ramos das forças armadas que, em nome de Portugal, intervieram nas operações: um, de 0,50 €, evocando a força aérea, em que se destacam a figura do tenente Lello Portela (que participou no maior número de missões de combate e teve maior tempo de permanência no "front") e a imagem do aeroplano SPAD VII; um, de 0,63 €, lembrando a participação da marinha, mostrando o comandante Afonso de Cerqueira (que chefiou o Batalhão Expedicionário da Marinha do Sul de Angola) e o NRP Adamastor; um, de 0,85 €, destacando o exército, pondo em relevo a figura do soldado Aníbal Milhais (conhecido por "Milhões", herói do 9 de Abril) e um momento da instrução do CEP.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Vincent Bernard: Uma cronologia da Grande Guerra



São 120 páginas de referências cronológicas relacionadas com a Primeira Grande Guerra, umas telegráficas, outras com algum desenvolvimento, aquilo que Vincent Bernard apresenta em Petite Chronologie de la Grande Guerre (Col. “Repères d’Histoire”. Bordeaux: Éditions du Sud Ouest, 2014), num horizonte que se inicia em 28 de Junho de 1914 (“pelas 10 horas da manhã, em Sarajevo… primeiros tiros”, referindo o atentado ao arquiduque Francisco Fernando) e se conclui em 10 de Novembro de 1920, com o “soldado desconhecido” depositado no Arco de Triunfo. Apesar deste limite temporal, a cronologia tem ainda uma entrada alusiva a 3 de Setembro de 1939, data em que “a França e a Inglaterra declaram guerra à Alemanha nazi”, o que estabelece a ponte entre as duas Guerras Mundiais que marcaram o século XX…
O tempo passa por este livro num registo do dia a dia, sobretudo organizado para o leitor francês, com apontamentos em que entram as operações militares terrestres, marítimas e aéreas, a tecnologia e o armamento, a intervenção política e a diplomacia, a economia e a sociedade, a vida na retaguarda e a cultura. Tão amplo espectro de informação trazido para uma cronologia é justificado pelo autor nos seguintes termos: “Si le monde de 1918 n’est plus celui de 1914, ce n’est pas seulement parce que les poilus français, landser allemands, tommies anglais, diggers australiens ou autres doughboys américains ont combattu et souffert dans un véritable enfer, c’est aussi parce que la guerre même, en tant qu’événement, en tant que rupture historique, a orienté en profondeur la marche du monde, l’a fait entrer véritablement dans le XXe siècle, ce siècle si proche mais que, déjà, s’enfuit tout doucement de nos mémoires.” Assim, em jeito de preservar e de ajudar a memória, Bernard pretende que esta obra ajude “à la découverte des jalons essentiels de cette Grande Guerre mondiale de quatre ans dans toutes ses dimensions”.
Para cada ano do conflito é escolhido um título interpretativo que ajuda a uma leitura dos acontecimentos: “1914 – La fin d’un monde”, “1915 – L’épouvantable enlisement des tranchées”, “1916 – L’année des batailles titanesques”, “1917 – Année charnière ou année de trop?”, “1918 – D’une nouvelle guerre à l’amère victoire” e, finalmente, “Épilogue, 1919-1920 – Paix européenne ou règlement provisoire?”. O leitor vai avançando nas datas e assiste à construção do puzzle que levou ao recrudescimento do conflito, às intrigas, à movimentação, à paragem, às implicações, à destruição, à morte, à movimentação política e militar, ao sofrimento, ao desfazer dos impérios, ao nascimento de um novo mapa europeu, passo a passo, como quem acompanha o trajecto em todas as frentes. Assiste a execução de prisioneiros, à morte de artistas e de outras personalidades participantes (Charles Péguy, Alain Fournier, Alfred Lichtenstein, Henry Moseley, Charles de Foucauld, von Richtoffen, Roland Garros, Guillaume Apollinaire), ao sofrimento que não poupou ninguém (Georges Braque, Blaise Cendrars, Henri Barbusse), ao episódio dos táxis do Marne e à destruição conhecida pelo “Chemin des Dames”, ao primeiro apelo à paz entre os beligerantes lançado pelo Papa Bento XV, à confraternização natalícia entre soldados inimigos, à primeira utilização do gaz de combate, ao aparecimento dos tanques, aos bombardeamentos sobre Paris, aos raids sobre Londres e sobre Colónia, à violência de Verdun e de Somme e às várias (doze) ofensivas sobre Isonzo, à mudança do papel da mulher, à queda e ascensão de políticos e… em 13 de Outubro de 1918, ao gazeamento e evacuação do cabo Adolfo Hitler.
Relativamente a Portugal, há uma dezena de referências que acompanham o que se passou nas colónias em África e o que foi o Corpo Expedicionário Português, tais como: em 26 de Outubro de 1914 (“Les Allemands pénètrent en Angola portugais, et donc théoriquement neutre”), em 23 de Novembro de 1914 (“Le gouvernement portugais annonce une coopération accrue avec le Royaume-Uni”), em 23 de Fevereiro de 1916 (“Les autorités portugaises saisissent les navires allemands sur le Tage”), em 9 de Março de 1916 (“Le Portugal rejoint l’Entente – Après des mois de collaboration militaire anglo-portugaise, de nombreux incidentes dans les colonies et la réquisition par Lisbonne des navires allemands sur le Tage, Berlin régularise une situation diplomatique exécrable en déclarant la guerre au Portugal. Le Portugal prépare un petit corps expéditionnaire pour la France et entreprend de renforcer ses positions dans les colonies d’Afrique”), em 15 de Março de 1916 (“L’Autriche-Hongrie déclare à son tour la guerre au Portugal”), em 8 de Agosto de 1916 (“Le gouvernement portugais étend sa coopération avec l’Entente au front européen”), em 3 de Janeiro de 1917 (“Les premières unités du corps expéditionnaire portugais, qui doit comprendre deux divisions et se battre au sein de l’armée britanique, débarquent en France”), em 17 de Junho de 1917 (“Le corps expéditionnaire portugais est engagé pour la première fois sur le front de l’Ouest”), em 9 de Abril de 1918 (no âmbito da operação Georgette, uma ofensiva alemã que pretendia fazer recuar os britânicos até à Mancha, “le corps expéditionnaire portugais, en particulier, est presque anéanti par la violence de l’assaut allemand”), em 1 de Julho de 1918 (“Les petites forces allemandes du colonel von Lettow-Vorbeck, poursuivant leur petite guerre face à des forces de l’Entente infiniment supérieures, atteignent Namyakura, en Afrique portugaise (Mozambique actuel)”).
A obra carece da indicação da bibliografia consultada, sobretudo quanto à origem ou fontes de datas de outros países que não a França. Quanto a índices, parte importante neste tipo de obras, existe apenas um “de personalidades” quando poderia haver também um geográfico.
Apesar das deficiências que uma obra deste tipo possa conter, obrigados somos a reconhecer tratar-se de um bom contributo de condensação da História que fez crescer a Europa como ela é, que permite consulta e informação rápidas, ainda que limitada ao estilo de uma cronologia (sublinhada no título com o adjectivo “petite”).

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O soldado "Milhões", herói da Grande Guerra, contado por Francisco Galope



Aníbal Augusto Milhais, o conhecido “Milhões”, nasceu em 9 de Julho de 1895 e faleceu em 3 de Junho de 1970. Ainda não tinha 22 anos na data em que embarcou para a Flandres, incorporando o Corpo Expedicionário Português (CEP), no final de Maio de 1917, como militar do Regimento de Infantaria 19.
Vindo de Valongo (a que mais tarde se juntou “de Milhais” em sua honra), no concelho de Murça, Aníbal Augusto fazia parte do grande grupo de incorporados que nunca saíra do seu torrão. Muito saberia da vida, mas não conseguia adivinhar que, com o passar dos tempos, o seu nome viraria lenda, o seu rosto de herói desafiaria a memória numa praça da sua sede de concelho e a sua vida seria resguardada numa biografia publicada no primeiro ano do centenário da Grande Guerra, aquela em que ele se expôs diariamente à fortuna e de onde conseguiu regressar, contrariamente ao que foi o fado de camaradas de armas e de amigos e vizinhos.
Francisco Galope, jornalista, encontrou-se com a narrativa do soldado “Milhões” em 2008, quando preparava uma reportagem com informação de carácter histórico para a revista Visão – História, para um número que assinalaria os 90 anos do fim da Grande Guerra e da assinatura do Tratado de Versalhes. Mas a descoberta pedia mais do que uma reportagem e, cinco anos depois dessa publicação, Francisco Galope apresenta a biografia de Aníbal Augusto Milhais, o “Milhões” da lenda, sob o título O herói português da I Guerra Mundial (Lisboa: Matéria-Prima Edições, 2014).
Curiosamente, a forma de Aníbal Augusto ter ascendido ao lugar de herói ficou a dever-se a um jornal, o Diário de Lisboa, quando corria o mês de Abril de 1924, que desencantou o combatente transmontano e o fez andar num périplo que teve vários pontos altos de reconhecimento e de vivência, como foi, por exemplo, o da presença na Batalha, quando no dia 9 desse mês ali se procedeu à inauguração do lampadário junto do túmulo do “soldado desconhecido” (criado em 1921), homenagem aos caídos na Grande Guerra, em data cara para Milhais: fora na sequência da sua acção, em 9 de Abril de 1918, ao defender-se e ao defender muitos dos seus camaradas perante o inimigo alemão, que ele se tornou numa imagem do heroísmo no campo de batalha. Posteriormente, o desabafo de um dos seus comandantes, João Maria Ferreira do Amaral, ao dizer-lhe, num jogo de palavras, que ele ”era Milhais, mas valia Milhões”, abria-lhe a porta para a memória, de tal maneira que, no pedestal de Murça, a frase do comandante surge lavrada em lápide.
Se, em 1921, Menezes Ferreira contou a história heróica dos soldados portugueses, construindo uma personagem que seria resultado das vivências de todos eles, na obra João Ninguém – Soldado da Grande Guerra (contendo tanto de épico como de humorístico como de crítico), se designações como “serrano”, “gambúzio” ou “folgadinho” assentavam na tipificação do soldado herói português que combateu na Grande Guerra, o conhecimento de “Milhões” deu um rosto, um corpo e um sentir a esse herói, várias vezes aclamado, em diversas oportunidades alcandorado a representante da valentia dos homens do CEP.
Francisco Galope marcou encontros vários com a memória de “Milhões”, fosse através da leitura do que disseram os jornais, da consulta ao arquivo da RTP (onde surge registo de entrevista com o herói de Valongo de Milhais) e nos arquivos militares, fosse por via de fontes orais de familiares do “Milhões”, fosse ainda pelo recurso à literatura memorialística portuguesa deste período (cujos títulos vão sendo referidos ao longo da obra). Todo este viajar pela pesquisa no sentido de ser reconstituída uma biografia permitiu ao autor a elaboração de uma tela completa do que pode ter sido a vida de Aníbal Milhais, sobretudo na experiência na trincheira da Flandres. Afinal, aquilo por que Milhais passou não terá sido diferente do que foi vivido pelos outros companheiros conforme registado pelo memorialismo. Assim, Francisco Galope preenche lacunas, dando a imagem possível do herói e do seu feito.
O desenvolvimento da narrativa vai sendo sujeito a reflexão do próprio narrador, que, frequentemente, se cola ao seu protagonista no sentido de o entender ou de justificar as suas atitudes, sempre com o objectivo de tornar a narrativa mais viva, quase como se uma memória se reproduzisse, não esquecendo pormenores como o da maneira de falar ou o da linguagem utilizada, sobretudo no que diz respeito a gíria militar, ou mesmo o que advém da possibilidade de adivinhar o que correria no pensamento do soldado e na sua maneira de ver o mundo.
Aníbal Milhais não sai endeusado, antes nos é apresentado um cidadão, que, perante uma experiência rara e intensa, em que havia a vida para defender, hesita, ganha, perde e luta, não visando ser herói, mas procurando a sobrevivência, agindo com a naturalidade que a vida lhe ensinou. Francisco Galope, apesar do título dado ao livro, é cauteloso no apuramento da verdade em torno do gesto que fez Milhais subir ao estatuto de “herói” (o que se terá passado em Huit Maisons em 9 de Abril e nos dias subsequentes), apresentando, no final, documentos de Ferreira do Amaral e de David Magno, um justificando o reconhecimento e a atribuição de galardão a Milhais e o outro assumindo que o feito do soldado transmontano não foi mais glorioso que o de muitos outros dos seus homens, ainda que reconhecendo Magno que a imagem do “Milhões” se transformou em “símbolo dos nossos humildes soldados”.
Uma biografia a ler. Porque dá uma imagem do que foi a vida dos portuguese nas trincheiras, porque recria com base em fontes importantes um aspecto da participação portuguesa na Flandres, porque, ainda que falando de um “herói”, o humaniza. E porque, tal como nas histórias que conhecemos, não ficamos a saber tudo sobre os heróis, apenas o essencial.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Para a agenda: Memórias portuguesas da Grande Guerra


Hoje, no MAEDS. Um contributo para a memória da Grande Guerra, para as memórias portuguesas da Grande Guerra. Para a agenda!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Vicente Penim, um setubalense na Grande Guerra


«Ontem, pelas 15 horas e 25 minutos, na altura em que passava pela Rua 24 de Julho o eléctrico 328 repleto de passageiros, o conhecido e destemido gatuno Farruca dos Santos agarrou o eléctrico e meteu-o debaixo do braço desaparecendo para nunca mais ser visto. A polícia procura o paradeiro do gatuno e do eléctrico.»
Surrealista? Talvez. Seu autor? Um combatente setubalense na Flandres, em data incerta, entre 1917 e 1918. Objectivo? Aligeirar a tensão e alegrar os ânimos dos camaradas, oficiais incluídos, todos habituados ao sofrimento da guerra, inventando histórias que eram comunicadas como notícias, em imitação de leitura num qualquer número do Século ou do Diário de Notícias, nas edições que conseguiam chegar ao campo de batalha.
Socorro-me do testemunho de Pedro de Freitas (1894-1987), que foi contramestre de clarins do Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro e rumou em 1917 para a Flandres, tendo, duas décadas depois, partilhado as memórias desse tempo na obra As minhas recordações da Grande Guerra (Lisboa: 1935), título que albergou também a sua lembrança do cruzamento e do contacto com o setubalense Vicente José da Silva Penim (1888-1957), ferreiro de profissão e, depois da Guerra, operário na Fábrica de Material de Guerra.
No retrato deste setubalense sobressai a sua faceta de bem-disposto, homem de narrativas interessantes, com refinado humor (como se depreende da “notícia” sobre o roubo do eléctrico) e também a de poeta, que, não tendo publicado livro, teve a sorte de encontrar Pedro de Freitas, responsável por ter passado a escrito os seus versos, por vezes entoados com o acompanhamento de uma improvisada guitarra de latão.
Os poemas que estão reproduzidos na obra acima mencionada versam o quotidiano dos soldados portugueses na Flandres, por vezes manifestando a opinião corrente, outras vezes satirizando situações, outras ainda evocando momentos desse dia a dia. Num dos poemas, Penim deixa passar o paradoxo do que é estar na guerra: “Guerra medonha, odiosa, / Que obrigas a criatura / A procurar sepultura / Na idade mais ditosa. / Tua atitude horrorosa / Como ambição encarei, / Razão porque detestei / O teu bárbaro destino: / Fazes de mim assassino / Obrigado pela lei.”
Num outro poema, em que relata o sofrimento sentido em La Lys em 9 de Abril de 1918, evoca a figura da mãe para redobrar a coragem no combate contra o alemão, como sugere no mote: “Quando a forte artilharia / Produz a explosão, / Julgo ver-te, pobre mãe, / Entre o fumo do canhão.” As décimas seguintes serão explícitas – logo a primeira: “Nesta guerra envolvido / Tendo da vitória a esperança, / Para defender a França / Eis-me pronto e decidido. / Ao lembrar-me o lar querido, / Fonte da minha alegria, / Profunda melancolia / O coração me invade; / E rebenta de saudade / Quando a forte artilharia.” E, na última estrofe: “Mãe, que deste à luz um filho / E que jamais o esqueces, / Mil elogios mereces / Por seu tormentoso trilho. / Dá-te orgulho, dá-te brilho, / A minha honrosa missão. / Resistindo ao alemão / Morro cheio de coragem / Por julgar ver tua imagem / Entre o fumo do canhão.”
Entre os designados fados da trincheira, ocorre um muito conhecido versando o tipo de alimentação, que tem a seguinte quadra como mote: “O corned-beef afamado / Zangou-se com o feijão. / Foi dado incapaz o vinho, / Anda de licença o pão.” O título foi buscá-lo o fado ao primeiro verso e, com frequência, é a letra mencionada como tendo sido escrita nas trincheiras. É verdade, como também é verdade que o seu autor, quase nunca indicado, a produziu em 25 de Setembro de 1917, mal sabendo ler e escrever, confiando o momento de inspiração a Pedro de Freitas: o fado do “corned-beef” tem como autor o setubalense Vicente Penim.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Aarão de Lacerda e a Grande Guerra



Em 4 de Maio de 1919, na Junta Patriótica do Norte, Aarão de Lacerda proferiu a conferência intitulada “O instante sangrento”, em homenagem aos Aliados. A comunicação passaria a livro, editado em Outubro (Para a filosofia da guerra. Porto: edição de Autor, 1919).
De maneira rápida, dado o propósito do texto, o autor relata o que levou o mundo à Grande Guerra, num percurso pessoal de que não está ausente a sua tomada de partido. Se olha para a cultura alemã com interesse e emoção, o mesmo não dirá da progressão psicológica do povo germânico ao longo dos tempos, como se pode ver na referência feita ao que aconteceu em 1870 e que esteve na origem de conflito entre a França e a Alemanha por causa da Alsácia-Lorena: “Vem 1870 e o alemão tornou-se agressivo e intolerante, envolvendo-se crescentemente numa ambição de mando, de hegemonia, que a dinastia Hohenzollern personalizou inconfundivelmente”.
A história é contada a partir de um retrato psicológico dos contendores, tal como adiante refere: “Vamos compreendendo as causas primárias da guerra consubstanciadas em fortes antinomias psicológicas que extremavam a Alemanha da França e da Inglaterra, o país por excelência do governo representativo.” Nesse percurso, há lugar recorrente para imagens fortes: “A Alemanha tentacular começa a empreender a luta política, ambicionando a conquista dos mercados mundiais em luta aberta com a Inglaterra que ela chamava estado vampiro. Assustava-a o imperialismo britânico, que resolveu combater incessantemente por meio de uma organização artificial que decerto a faria baquear, tão forçada era.”
O uso de referências a poetas e pintores que pela sua arte traçaram quadros de momentos da guerra leva o próprio autor a explorar determinadas imagens, como a do “Mefistófeles transfigurado em Bismarck” que escolhe para pintar Guilherme II, assim traçando um quadro de glória e de poder: “Toda aquela gente da Germânia se sentia próxima dos deuses quando via desfilar ante seus olhos maravilhados as longas revistas militares ao som de acordes marciais e despertivos. O kaiser aureolava-se de um prestígio estranho: era ele o Messias, o futuro senhor do mundo.” E, logo a seguir, a destruição do mito, em antítese, também pelo recurso a imagens intensas: “Por fim, o último acto da guerra veio mostrar que esse chefe invencível dos exércitos germânicos não passava do arremedo ridículo de um Lohengrin ou Parsifal de papelão.”
A evolução do que foi o início da Primeira Grande Guerra apresenta-se rápida, tal como veloz foi o tempo em que o conflito se agudizou, porque “o atentado contra o príncipe herdeiro da Áustria não passou de um simples pretexto para lançar a Europa no embate temeroso” que já vinha sendo temido e anunciado.
Aarão de Lacerda conclui a sua conferência com a invocação do papel corajoso demonstrado pelo povo belga, logo a partir da invasão germânica: “a resposta foi a resistência heróica em defesa da justiça, levando a efeito uma epopeia lendária digna do maior conto épico”, gesto prontamente ajudado por aliados. Mas o olhar do autor sobre a Bélgica enche-se de tristeza e de revolta pelas mortes e pela destruição de obras de arte que os invasores cometeram – construções, pinturas, bibliotecas, num clima de barbárie em que as “lacrimas rerum caíam das ruínas, dos monumentos esfacelados que rangiam em derrocadas sinistras”.
O final da palestra é um apelo à paz e uma incursão na memória – “Recordemos com unção os nossos que se bateram e morreram na batalha de La Lys e em África! A sua lembrança sempre vívida dita-nos um grande dever a cumprir: esquecer os ódios que nos separam e salvar com o nosso trabalho, com a nossa fé, a Pátria ameaçada de tantos perigos.” É que já se apagara “a labareda do inferno”, mas ficara “a saudade dos queridos soldados que lá se consumiram”!
Nesta leitura emocionada do que foi o percurso da Grande Guerra, de que Aarão de Lacerda (1890-1947) foi contemporâneo, ressalta o carácter desumano do conflito bélico, fortemente construído sobre imagens de ambição excessiva por parte da política e sobre imagens de catástrofe e de sofrimento no que aos povos respeita.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A batalha do 9 de Abril de 1918 vista por Ferreira do Amaral



A batalha do Lys, conhecido feito militar em que os portugueses participaram em Abril de 1918, no decurso da Primeira Grande Guerra, quando estavam em campanha na Flandres, nem sempre reuniu o consenso na interpretação, sobretudo dentro de Portugal. Prova disso é a obra de João Maria Ferreira do Amaral (1876-1931) intitulada A batalha do Lys, a batalha de Armentières ou o 9 de Abril (Lisboa: Tipografia do Comércio, 1923), escrita quando o autor estava em Benguela, por 1920, inicialmente publicada “em folhetim no Jornal de Benguela”, depois em separata de um milhar de exemplares pelo mesmo periódico e, posteriormente, em volume autónomo, em Lisboa.
As razões para tal publicação, surgida no jornal logo dois anos depois do acontecimento da La Lys (e em livro cinco anos depois), refere-as o autor em “Explicação prévia”: “nunca será demais marcar factos que tão deturpados têm sido pela confusão política, que sobre tudo o que respeito diz à nossa participação na Guerra, se tem dito e escrito”. Assim, pisando um caminho em que é dada a voz justamente ao homem que coordenou o ataque à frente portuguesa, o general Erik Ludendorff (1865-1937, através da sua obra Souvenirs de guerre, de 1920), e ao general Gomes da Costa (1863-1929), que estivera nas funções de comando do Corpo Expedicionário Português na Flandres (através do seu escrito Batalha do Lys), Ferreira do Amaral insiste nas preocupações que o orientaram: elaborar “um vulgaríssimo trabalho de compilação e sobretudo um relato de pessoas, lugares, factos e datas, que a actual geração portuguesa não pode nem deve ignorar” e “apresentar os factos sem paixão, colocando-me tanto quanto possível como árbitro”. Assinalar essa ausência de paixão esbarra com o percurso do próprio autor, que esteve na Flandres e que, num outro livro, A mentira da Flandres e… o medo! (Lisboa: Editores J. Rodrigues & Cª, 1922), redigiu curta nota biográfica logo na página de rosto, dizendo que, enquanto esteve em França, “nunca quis vir de licença a Portugal” e que “marchou para França sem lhe competir por escala ou por escolha, mas simplesmente coagido por motivos de ordem pessoal e razões de ordem puramente militar”… No entanto, Ferreira do Amaral mostra-se coerente, pois não fala da ausência de paixão sem reconhecer também que desempenhará o papel de árbitro “tanto quanto possível”.
A primeira frase da sua monografia retoma o que vem da “explicação”: “Como é do conhecimento de todos, ninguém em Portugal chegou até hoje a ter uma noção aproximada do que foi o 9 de Abril”. Mas não é apenas esta ignorância que preocupa o autor, porque, umas linhas adiante, a acusação tem destinatário: “Toda a política do meu país, dos últimos seis anos, caiu [itálico do autor] sobre os soldados de Portugal, que na Flandres receberam um dos muitos e vários ataques com que os alemães procuraram vencer os aliados”. Uns parágrafos depois, o humor e a ironia de Ferreira do Amaral não perdoam as diferentes interpretações atribuídas aos democráticos e aos sidonistas, uns e outros culpando-se quanto à responsabilidade do que se passou na Flandres: por um lado, esqueceram-se ambas as ideologias “de que o general alemão Ludendorff não consultou nenhum dos partidos políticos de Portugal para tomar a deliberação de forçar o caminho de Calais nesse dia”; por outro lado, “ambos os adversários chamam desastre ao que se passou nesse dia com os portugueses, que procuraram evitar o avanço alemão até onde o seu máximo esforço o permitia”, sendo “caso para notar uma falta que ambos os partidos cometeram para se poderem acusar mutuamente – foi a de não terem enviado a tempo delegados especiais para assistirem ao desastre!”
Depois de acompanhar as leituras apresentadas por Ludendorff e Gomes da Costa, Ferreira do Amaral tenta desfazer os equívocos, apresentando os acontecimentos do 9 de Abril de 1918 como um episódio de um projecto mais vasto, ligado à estratégia militar e bélica germânica, de uma ofensiva que se iniciara em 21 de Março e teve conclusão em 18 de Julho (quando os franceses passaram a “muralha” dos alemães, assim se iniciando uma ofensiva dos aliados): “Não se julgue que o 9 de Abril se resumiu a um ataque isolado contra os portugueses, que estavam nesse dia a defender 12 quilómetros de frente. Até 25 de Abril, houve todos os dias… um 9 de Abril para ingleses e franceses, isto é, a batalha começou em 9 de Abril e acabou em 25 de Abril. (…) A anterior batalha [de Amiens] começara a 21 de Março e terminara a 4 de Abril. À batalha começada a 21 de Março chamaram os alemães a batalha da França. À que começou em 9 de Abril chamaram aliados e alemães a batalha de Armentières. Nós tomámos parte em um dia dessa batalha, o começo, e o general Gomes da Costa chama-lhe a batalha do Lys reservando assim um justo título para o nosso esforço entre os aliados, pois que nós não defendíamos Armentières, mas sim parte da bacia da ribeira de La Lys.” Se ainda assim se mantivessem os detractores da coragem portuguesa, Ferreira do Amaral deixava a lembrança: “de 18 de Julho em diante, tivera Ludendorff muitos 9 de Abril, tal qual ingleses e franceses os tiveram de 21 de Março até essa data”. E, para que dúvidas não restassem, uma citação do amigo e camarada Gomes da Costa enaltecia a participação lusa: “a 2ª Divisão Portuguesa com os seus 7500 homens perdidos, dos quais 327 oficiais, demonstrou à evidência que se bateu com bravura e com honra e que, se mais não fez, foi porque era humanamente impossível”.
O plano alemão de, através desta ofensiva, conseguir chegar a Calais e assim dominar o Norte de França não começou favoravelmente para os seus autores e, em Julho, teria o seu termo. Pelo caminho, muitos momentos semelhantes aos do sofrimento e luta dos portugueses ficaram: “que a ninguém fiquem dúvidas sobre o destino que uma divisão francesa, inglesa ou americana teria no dia 9 de Abril se estivesse onde esteve a 2ª Divisão Portuguesa – quem lá estivesse seria esmagado, atropelado e… varrido.”
Para atestar o feito português, o autor não hesita em convocar excertos de reconhecidíssimos órgãos de informação (Reuter, Times, Daily Mail, Matin) que foram elogiosos na classificação da atitude lusa. Mas o humor de Ferreira do Amaral avança, questionando os maldizentes: “Que situação resta agora aos mortos, feridos e sobreviventes da batalha do Lys?” A resposta é longa, sugerindo que talvez todos tenham de “pedir desculpa ao cidadão português”, uns porque não resistiram “à caqueirada de ferro”, outros por “não lhes ter sido possível morrer” e outros “por não terem fugido logo de manhã”…
O próprio comandante do CEP, o general Tamagnini de Abreu (1856-1924), não é poupado, sendo invectivado de forma contundente: “O que diz do 9 de Abril o general português Tamagnini de Abreu, comandante do CEP? Até agora não disse nada nem dirá nunca, porque as maçadas estão proibidas”. E os políticos também não escapam a acusações e ironias: “Ludendorff nesse dia atacou os soldados de Portugal que encontrou pela frente e deixou em paz todos os nossos políticos”.
É, pois, sugerido ao leitor que aqueles que foram heróis estão isolados e desprezados, mesmo quando o valor lhes é reconhecido por alguns. No entanto, este livro quer repudiar essa ideia transmitida pela depreciação e conclui com uma lição sobre o mérito, depois de mais um libelo contra quem desprestigia uma condecoração como a Cruz de Guerra Portuguesa, contra os comentários depreciativos movidos pela inveja e pela mesquinhez: “em qualquer dos países que se bateu nesta guerra, vencido ou vencedor, [o soldado português] sentiria que era duas vezes cidadão: primeiro porque tinha uma bandeira que representava para todos (…) um símbolo de tradições honrosas (…); segundo, porque os seus compatriotas se sentiram honrados por Eles e pelo Seu Esforço Particular e Pessoal no campo aberto aos maiores sacrifícios”.
Em pouco mais de sessenta páginas, Ferreira do Amaral pretendeu chamar a atenção para o estado do CEP, para as dificuldades que lhe tinham sido criadas e para a singularidade do combatente português. Foi uma maneira de dar azo a que a verdade saltasse e a que a história fosse reconstruída.
[Esta obra está disponível no formato e-book]

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Em La Lys, na Flandres, há 94 anos

Na obra Notas do Cativeiro – Memórias dum Prisioneiro de Guerra na Alemanha [Lisboa: J. Rodrigues & Cª (depositário), 1919], Adelino Delduque ocupa o primeiro capítulo, intitulado “De Cense de Raux a Salomé-La Bassée”, transmitindo a visão do que ficou do 9 de Abril, dia da batalha de La Lys.
Datado de “Rastatt, Abril de 1918”, este texto é a memória do momento em que o narrador e camaradas seus (entre os quais o então tenente-coronel Craveiro Lopes) foram feitos prisioneiros pelos alemães em 9 de Abril. Depois da descrição do saque produzido pelos soldados inimigos aos souvenirs (“termo extremamente singelo e não sei se quase carinhoso, à sombra do qual fomos ficando sem as coisas que lhes iam apetecendo e que para nós em não sei quantos casos tinham além do seu valor intrínseco o da recordação que representavam”) que eram os objectos de uso pessoal (artigos de toilette, relógio, carteira, casaco e outros), torna-se forte a impressão causada pela destruição, pela ruína – dos homens e dos sítios:
«(…) A barragem de artilharia, essa música ensurdecedora e horrível de nove horas consecutivas, ouve-se já a maior distância. (…) Agora vamos ao longo da rua du Bois, antiga estrada que atravessava as linhas e que entre elas estava quase desaparecida. (…) A todo o longo há um horroroso espectáculo de carnificina. Jazem a um e outro lado numa verdadeira igualdade, nesta que só nestas condições é verdadeiramente igual, soldados nossos e inimigos. Há-os desfigurados, disformes, contorcidos, despedaçados, as mãos crispadas, o rosto profundamente contraído, mostrando bem o horror do sofrimento em que se debateram e em que morreram. Lutaram como soldados e diz-nos o aspecto que nos últimos momentos em que os rostos da lucidez lhe avivaram memórias que não falham, sentimentos que se não perdem, lutaram ainda desesperadamente para viver. (…) Foi por entre este horrível espectáculo que atravessámos as linhas. (…) O efeito do nosso bombardeamento íamo-lo encontrando a cada passo. Havia muitos cavalos mortos, muitas viaturas em destroços. Infelizmente, porém, não fora o bastante. (…)»

Adelino Delduque da Costa (10.Jun.1889-25.Jun.1953), natural de Viana do Castelo, foi oficial do Exército. Passou à situação de reserva como coronel em 1948. Participou no CEP, tendo sido feito prisioneiro em 9 de Abril; leccionou no Instituto dos Pupilos do Exército e no colégio Militar; foi Chefe do Estado-Maior do Estado da Índia e Governador do distrito de Damão. Pertenceu ao Instituto Vasco da Gama e à Comissão de Arqueologia do Estado da Índia. Foi autor de Notas do Cativeiro – Memórias dum Prisioneiro de Guerra na Alemanha (1919), Diu – Breve notícia histórica e descritiva (1928) e Os Portugueses e os Reis da Índia (1933).

terça-feira, 20 de março de 2012

N'«O Setubalense» de ontem - Memórias de uma guerra longínqua (ou talvez não)

Durante quase um mês, entre 14 de Janeiro e 11 de Fevereiro, teve a Biblioteca Municipal de Palmela uma exposição bibliográfica consagrada às memórias portuguesas da Grande Guerra, em torno de cerca de oitenta títulos, mostrados entre o memorialismo português do conflito de 1914-1918 e algumas recriações literárias sobre as trincheiras, quer da literatura portuguesa, quer de literaturas estrangeiras. Paralelamente, ocorreram duas conferências sobre o tema, uma na perspectiva da literatura de ficção, outra seguindo o ponto de vista da historiografia.
Na primeira, a conversa esteve a cargo de Sérgio Luís de Carvalho, escritor, autor do romance O destino do capitão Blanc, obra de 2009, uma das boas obras escritas em português, ficcionando esse tempo das trincheiras. A sessão abundou em informação ilustrada sobre a participação portuguesa na Grande Guerra e entrou por pormenores da construção do romance, ao jeito das “pequenas histórias” que vão ajudando um autor a cimentar uma narrativa.
A segunda sessão, orientada por Ernesto Castro Leal, da Faculdade de Letras de Lisboa, intitulou-se “Pátria e República: Memorialismo de Guerra nas edições da Renascença Portuguesa”. Acentuado foi o papel da memória e o pretexto da participação na Grande Guerra como bandeira de afirmação, bem como a carga simbólica em torno da intervenção de Portugal. Mas a palestra de Castro Leal, conduzida por uma leitura cuidada do melhor e mais significativo memorialismo português da época, teve ainda a vantagem de chamar a atenção para vários aspectos: para a propagação de mitos que se vão arrastando na história de um povo (o de Portugal ter sido o primeiro país a abolir a pena de morte é um deles, uma vez que tal abolição foi acontecendo, mas durou cerca de 70 anos até que ocorresse o último fuzilamento debaixo de responsabilidade portuguesa, em Setembro de 1917, na Flandres, no Corpo Expedicionário Português); para o facto de, recorrentemente, nos confrontarmos com o princípio de que Portugal não estava preparado para a guerra, cabendo saber se algum país estaria preparado para tal naquela altura (como estaria algum dos intervenientes preparado se, no início, os estrategas e os políticos pensavam que ela acabaria antes do Natal de 1914, quando acabou antes do Natal, mas de 1918?); para a necessidade de, aquando do centenário da Grande Guerra (a ter início dentro de dois anos), a participação portuguesa ser mais divulgada e conhecida, por justiça com a memória, iniciativa que deverá ter também marcas locais, uma vez que não terá havido concelho que não tenha perdido alguns dos seus filhos no conflito (recorde-se, a propósito, que de Setúbal saíram tropas para a Flandres e que houve o monumento aos mortos da Grande Guerra em 1931 exactamente na mesma data em que, em Lisboa, era inaugurada semelhante evocação); para o facto de Portugal ter tido a situação curiosa de dois soldados desconhecidos, um dos campos da Europa, outro das batalhas em África (efectivamente, Portugal esteve na guerra em dois cenários de operações – na África, em defesa das colónias, desde início do conflito, e na Flandres, como aliado da França, desde Janeiro de 1917 – passaram há poucos dias os 95 anos do embarque do primeiro contingente português rumo a Brest).
A questão da memória portuguesa da Grande Guerra é caso a ser estudado. Como se compreende que tenha havido algum memorialismo publicado até aos anos 30 do século passado, mas, depois, se tenha ficado pelas evocações esporádicas? Provavelmente pelo facto de ter havido a Guerra Mundial de 1939-1945 sem a participação de Portugal e a memória do que se passara duas décadas antes ter sido ultrapassada; provavelmente porque a guerra colonial nos trouxe o convívio com o sofrimento; provavelmente porque a catarse é sempre difícil; provavelmente porque…
Em França, em Novembro de 1998, quando passavam 80 anos sobre o armistício que pôs fim à Grande Guerra e quando se estava num tempo finissecular, num inquérito conduzido pelo jornal “Le Monde” e pela “France 3” sobre os dez acontecimentos marcantes do século XX, a guerra de 14-18 ficou em quarto lugar, depois da 2ª guerra mundial, do Maio de 68 e da queda do regime soviético e antes da construção europeia, da descolonização, do choque petrolífero dos anos 70, da crise de 1929, da revolução russa de 1917 e da revolução islâmica iraniana. Mais: na faixa etária dos 15-19 anos, a Grande Guerra foi o segundo acontecimento lembrado.
Surpreendente? Talvez não. Não terá havido família francesa que não tenha perdido um parente no conflito de 14-18, é certo (a França teve 76% de baixas entre os seus oito milhões e meio de mobilizados). Mas também ajuda muito o facto de um respeito intenso pela memória. E esse é um dever de cidadania, sobretudo para se poder fazer frente a políticas ou a épocas que pretendem esquecer os ensinamentos da história.
Os dados do sofrimento português na Grande Guerra não devem ser desprezados, sejam eles vistos no contexto do envolvimento geral, sejam no de Portugal apenas. Proporcionalmente, Portugal teve mais baixas do que exércitos como o do Império Britânico, dos Estados Unidos, do Japão, da Bélgica, da Grécia, da Turquia ou da Bulgária, analisando cada um individualmente. Os números das nossas baixas cifram-se em 38012, correspondendo a 36% dos mobilizados – 7760 mortos, 16607 feridos, 13645 prisioneiros e desaparecidos. Vale a pena que a memória se preocupe com estes números e com a intervenção portuguesa, porque, como Luis Sepúlveda escreveu, “os povos que não conhecem a fundo a sua História caem facilmente na mão de vigaristas, de falsos profetas e voltam a cometer os mesmos erros”. Independentemente do lado da trincheira em que nos encontremos…

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Menezes Ferreira, "O fuzilado" (1923)



O fuzilado, de Menezes Ferreira (1889-1936), é novela curta, ao jeito do ritmo de publicação da série em que se integrava – semanal –, tomando para ambiente a Grande Guerra, que outro não podia ser o contexto, cinco anos depois do seu termo, para o narrador – “eu sou um caturra da Grande Guerra e pesa-me deixar passar esta data do 9 de Abril sem lhes contar a lamentável história do meu amigo Harry Budd.” Para um combatente do Corpo Expedicionário Português (CEP), o 9 de Abril era data memorável e este volume da colecção, que saía às quintas, viu o público a 12 de Abril.
O narrador de O fuzilado (Col. “Novela Sucesso”. Lisboa: 1923) explica o efeito da presença na linha da frente sobre a memória, o que serve também de pretexto para justificar o tema: “Os que viveram aqueles torturados momentos da Guerra no tempo do Gross Bertha, dos gases asfixiantes e dos bombardeamentos feéricos do front, mal podem ainda alinhavar meia dúzia de ideias concretas ou quadros definitivos sobre a formidável tragédia” – forma de dizer que as memórias estão ainda muito vivas e não permitem uma distância analítica suficiente relativamente ao vivido, maneira de justificar uma história com laivos de humanidade e de valores, nela preponderando a afirmação da vontade do homem e até uma atitude contrária à guerra.
O tom é crítico quanto ao vivido na frente, um conjunto de “sucessos grandiosos, trágicos, brutais ou miseráveis que, uma vez abertos os diques da ferocidade humana, foram vividos em todos os campos de batalha, tanto de cá como de lá do arame farpado e até muitas vezes ali mesmo na Terra de Ninguém.”
Assim contextualizado o estatuto da memória, o narrador, dialogando com o leitor e aproximando os espaços e o tempo, convida: “os senhores não se importarão decerto a ir comigo ali à Flandres, no norte da França, onde uma mancha cinzenta que é a soldadesca portuguesa se agita, combate e sofre pela maior glória de Portugal”.
Antes de ser contada a história do herói Budd, há ainda lugar para contestar o retrato desfavorável que em Portugal estava feito sobre o CEP, sobretudo porque não eram consideradas as circunstâncias em que os contingentes desembarcaram em França – bem diferentes das que marcavam as tropas britânicas, por exemplo – com ausência de motivação e com medo e ignorância quanto ao saber com actuar perante o desconhecido – “uma vergonha”, conclui o narrador, para testemunhar de seguida que foram necessários três meses para haver mudanças. Se o tom utilizado serve para responder ao que fora a negativa opinião que tinha sido construída sobre o CEP pelos seus detractores – “eu bem sei que os senhores costumam sorrir-se incrédulos quando se fala nos dias afadigados e nos transes perigosos a que frequentemente se sujeitava essa mísera população das trincheiras” –, também não estará ausente uma crítica às parcas condições proporcionadas aos convocados portugueses.
A história do tenente Harry Budd ocupa metade do volume e conta-se rapidamente. Homem habituado aos combates, Budd fora nomeado intérprete das forças portuguesas em Laventie, uma vez que falava castelhano, pois tinha andado pela América do Sul. Apesar de habituado às guerras (participara em vários conflitos), Budd não escapou à chamada neurastenia das trincheiras e, num belo dia, por sua conta e risco, despediu-se dos amigos portugueses, dizendo “já estar chateado de guerras”. O que podia ser apenas uma atitude precipitada teve consequências, pois Budd decidira mesmo a sua retirada e, em presença dos superiores, recusou-se a cumprir uma missão arriscada – ele, que já cumprira tantas! –, tendo declarado por escrito a sua resolução de “não estar disposto a guerrear mais”.
Combatente galardoado por serviços prestados, a sua decisão foi responsável pelo seu infortúnio: “Na madrugada seguinte, quando no horizonte o sol rompia numa enorme sangueira por entre nuvens roxas de tragédia, o tenente Harry Budd, cinco citações, três ferimentos em combates, duas promoções e a Victoria Cross, caía ingloriamente junto aos muros arruinados de uma ferme, varado por uma dúzia de balas de um pelotão de execução.”
A história de Budd, que Menezes Ferreira apresenta, dá a dimensão da tragédia individual do combatente, que, estando no campo de operações, se revolta contestando a guerra e a carnificina. É com uma reflexão desse tipo que a narrativa se conclui: “Assim, o meu infeliz amigo, num supremo arranco de revolta, e com o sacrifício da própria vida, impusera pela primeira vez a sua vontade de homem e dispusera a seu talante da sua carne desprezível de soldado. Os outros que o julguem se puderem.”
Moralizador? O último fuzilamento português de que há notícia ocorreu justamente durante a Primeira Grande Guerra, em Setembro de 1917, quando um soldado condutor foi acusado de tentativa de passagem para o inimigo e o julgamento militar foi no sentido da execução. A história que Menezes Ferreira narra não resulta de traição, antes de uma decisão individual de pôr cobro à guerra e à matança. Mas, num conflito como este, não havia lugar para decisões individuais nem para objecções de consciência nem para recuos. Segundo a lógica bélica, Budd teria de continuar a matar; recusar isso podia ser uma libertação, mas também era matar-se a si próprio.