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quarta-feira, 5 de maio de 2010

No Dia da Língua Portuguesa, entre Pessoa e as provas de aferição

"Minha pátria é a língua portuguesa", escreveu Fernando Pessoa. E esta frase tem feito, como legado, sucesso em tudo quanto seja politicamente correcto sobre a força, a expressão, a vida da língua portuguesa. E poderia haver razões para assim ser, de facto, porque uma língua faz também um povo, porque uma língua é ponte que liga pontos inimagináveis.
Coincidência foi o facto de as provas de aferição de Língua Portuguesa do 6º ano terem ocorrido hoje, com a petizada a preparar-se para o efeito, com preceito. Haja em vista que estas provas não contribuem para a avaliação dos alunos, mas editoras há que publicam uns livros de exercícios com os sugestivos títulos do género de "preparar as provas de aferição"... algo que só pode ser entendido como uma ajuda à imagem que o Ministério da Educação quer ter de si mesmo. E o sistema embarca nisto, mesmo sabendo que os resultados não contam para a avaliação dos alunos, mas para algo como a avaliação do próprio sistema, contribuindo com preparação dos alunos para as provas de aferição, etc., etc.
É claro que a miudagem não pensa nisto, só pensa em alcançar o tão propalado sucesso, pequeno espelho do que pode ter sido o seu trabalho ao longo dos tempos. Mas, apesar de tudo, pensa. Querem ver?
"Ó pai, sabes o que foi uma das perguntas da prova de aferição de hoje? Foi pedido para ordenarmos alfabeticamente uma lista de palavras... Já viste? No 6º ano a fazermos isto!..." E não há palavras. Ou há: com elas se faz a língua portuguesa e hoje era o seu dia. Pena é que com elas também se fazem os padrões de exigência... e, no 6º ano, podia haver perguntas mais interessantes. Ou não?
De qualquer forma... o Pessoa continuará a ter razão: a minha pátria é a língua portuguesa. Mas tratemo-la com um pouco mais de cerimónia, já agora que até celebramos o seu dia!...

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Hoje, no "Correio de Setúbal"

Diário da Auto-Estima – 99
Dicionário – Será que as definições apresentadas na crónica anterior mexeram, fizeram sorrir, aclamaram a indiferença? Mais algumas: uma “bomba” é “o que faz o som bom-bom”, “marisco” é “peixe de concha”, “magano” é “encantador com falsos afagos”, “bacharel” é “falador formado”, “cachaço” é “caixa dos miolos”, “pia” é “vaso de purificar pelo baptismo e de beber o gado”… Estas definições e as que transcrevi na anterior edição devem-se ao padre Bernardo Lima e Mello Bacelar, prior no Alentejo e, depois, franciscano, época em que tomou o nome de Frei Bernardo de Jesus Maria. Em 1783, publicou em Lisboa um Dicionário da Língua Portuguesa (de onde são retiradas as definições), que acabaria por ser proibido por causa dos sarcasmos lançados sobre o redactor e sobre a sua obra. Registou Inocêncio Francisco da Silva que este autor, “à força de querer ser conciso e sistemático em demasia, tornou-se escuro e, por vezes, ridículo”. E assim tem o leitor a história brevíssima de um dicionário português que se deixou tramar pela linguagem utilizada… Sente-se a razão que teve Daniel Pennac ao escrever que “os dicionários só nos garantem um leve sopro de eternidade” (em Mágoas da escola, 2009).
Sebastião da Gama – O mês de Abril teve, em Setúbal, Sebastião da Gama como uma das personalidades a evocar. Participei em algumas e sinto-me obrigado a fazer referência a duas: a primeira, em 18 de Abril, no Clube Setubalense, organizada pela professora Ermelinda Capoulas, da Escola Secundária Sebastião da Gama, com alunos de duas turmas de 8º ano, pelo esmero e empenho que os jovens puseram na selecção, organização e apresentação do poeta ao público (maioritariamente familiares dos participantes); a segunda, em 23 de Abril (Dia Mundial do Livro), na Escola Secundária da Bela Vista, em que alunos do 3º ciclo assistiram a uma sessão sobre o poeta, atentos e interessados, colaborantes e curiosos, contribuindo com a leitura de alguns poemas do “poeta da Arrábida”. Apetece perguntar: que é que a poesia de Sebastião da Gama tem que atrai a juventude? Ou: quais são as faltas que a poesia de Sebastião da Gama supera?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Hoje, no "Correio de Setúbal"

Diário da Auto-Estima – 98
Perdidos – Na recepção de um parque de diversões destinado a famílias, surge uma inscrição sobre fundo metálico a dizer: “Pais perdidos, perguntem aqui pelas vossas crianças.” Assim, de repente, parece que o mundo se inverte: pais perdidos? Exactamente. A frase envia os leitores em várias direcções: num tal parque, todos os utilizadores se confrontam com a criança que há dentro de si e vão atrás dos apelos da fantasia; a infância define a sua orientação no parque; aquele que não se envolver com uma dose de infância qb sentir-se-á perdido; os pais devem andar atentos aos filhos e por isso ser responsabilizados. Assim, não serão as crianças que se perdem, mas os progenitores. Pelo menos, do ponto de vista emocional e da responsabilização. O mundo, numa tal situação, ficará, de facto, ao contrário. Mais vale não experimentar!
Estacionamento – Em Setúbal, no troço da Avenida Luísa Todi entre o mercado e o quartel do 11, em ambos os sentidos, o automóvel perdeu lugares de estacionamento, seja pela configuração atribuída ao novo estacionamento e ao arruamento, seja pela quantidade de lugares privados atribuídos. Neste tipo de decisões, se era pretendido que lá não houvesse carros, que se assumisse isso, transformando a Avenida em lugar de passagem apenas. Ir à “baixa” da cidade e frequentar o seu comércio tornou-se mais complicado. Não admira, pois, que a movimentação das pessoas se faça noutras direcções…
Dicionário – O leitor já imaginou as implicações sociais e culturais de um dicionário? Já pensou que o próprio conceito de definição sofre os efeitos dos tempos? O que diria de um dicionário que lhe definisse “acordar” como “tornar a cogitar acabando o sono”, “bigode” como “duas torcidas da barba”, “bilha” como “vaso que faz o som bil bil no vasar”, “cabra” como “animal de pêlo”, “carneiro” como “ovelha macha”, “cuecas” como “panos do cu”, “gaiola” como “vaso furado para ter pássaros”, “macaco” como “animal de trejeitos delirantes”, “vértebra” como “dobradiças das costelas” ou “vertigens” como “rodadura do cérebro”? Pois esse dicionário existe. Deixo a sua história para a próxima crónica, porque espaço é coisa que não sobra por estes lados…