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segunda-feira, 19 de março de 2018

Para a agenda: Dia Mundial da Poesia em Setúbal com maratona poética e mais...



Entre as 09h30 e as 23h00 de 21 de Março, Setúbal vai celebrar o Dia Mundial da Poesia num programa bem preenchido, o da "VIII Maratona da Poesia de Setúbal". Apresentação de livros (de Alexandrina Pereira e de Dina Barco), sessões de leitura de poemas, evocação de Bocage (com José Nobre), música (com Manuel Guerra) e uma conferência sobre Miguel Torga (com José Cymbron e Eugénio Lisboa), eis um programa a convidar.


A celebração do Dia Mundial da Poesia vai também ser acontecimento no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), em sessão prevista para as 21h30, com a presença de Sara Loureiro e António Marrachinho, que dirão poemas, e com uma mini-Feira do livro de poesia.
Para a agenda, inevitavelmente!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Efemérides - Há 64 anos, em Hiroshima

Há 64 anos, por esta altura, Miguel Torga estava em Caldelas. Em 6 de Agosto, acontecia a bomba atómica sobre Hiroshima. Torga, escritor e cidadão do mundo, registaria os efeitos no seu Diário, com datas dos dois dias seguintes, passos que aqui reproduzo:
Miguel Torga. Diário - III. Coimbra: 1946.

domingo, 27 de julho de 2008

João Ubaldo Ribeiro, o "Camões" de 2008

João Ubaldo Ribeiro (n. 1941) foi o vencedor do Prémio Camões. O que aprecio na sua escrita é o tom de ironia e de coerência, de frontalidade e de conhecimento do homem. E dizer que o seu livro A casa dos Budas ditosos teve venda interdita em Portugal em supermercados por causa da linguagem, corria o final do século XX! É justamente dessa obra, a cujo lançamento assisti no Estoril e em que Ubaldo Ribeiro me ensinou o significado da palavra “xará” ao escrever uma dedicatória, que transcrevo um excerto sobre deuses e religião:
Os católicos são politeístas, botaram os santos no lugar dos deuses especializados. Os gregos e os romanos tinham um deus menor para cada coisa, regras atrasadas, artistas falidos, transações impossíveis, dívidas falimentares, casamentos, músicos bêbedos, agricultores, criadores de cabra, tudo, tudo, tudo. Os católicos substituíram os deuses pelos santos. Os músicos? Santa Cecília. Os ruins da vista? Santa Luzia. As solteironas? Santo António. E por aí, como você sabe. Até lugares. São José de Não Sei Onde? Diana de Éfeso, a mesmíssima coisa. Os deuses não foram derrotados ou eliminados, continuam imortais como sempre foram e somente mudaram de nome, se adaptaram às mudanças.” (A casa dos Budas ditosos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999).
O Prémio Camões, criado ao abrigo do Acordo Cultural Luso-Brasileiro em 1988 por iniciativa de Mário Soares e José Sarney, teve como primeiro vencedor Miguel Torga (1989) e foi já atribuído a outros escritores brasileiros – João Cabral de Melo Neto (1990), Rachel Queirós (1993), Jorge Amado (1994), António Cândido (1998), Autran Dourado (2000), Rubem Fonseca (2003) e Lygia Fagundes Telles (2005).
[foto a partir de www.focojornalistico.com.br]

sábado, 29 de dezembro de 2007

Hoje, deveria ter saído no "Correio de Setúbal"

DIÁRIO DA AUTO-ESTIMA – 73
29 de Dezembro de 1915 – “O acaso fez-me descobrir hoje um livro escolar onde encontrei enfim aquelas regras de redacção, de criação e de elocução que há tanto tempo buscava e que são o segredo da escrita e da dicção tão precisas e tão claras dos franceses. Os portugueses escrevem pouco e com dificuldade. Não respondem, ou só tardiamente respondem a cartas, o que eles explicam pela preguiça. Nesse livro encontro esta frase: ‘On est toujours paresseux pour une chose qu’on fait mal’. Talvez me dedique a fazer um livro como esse, destinado às nossas escolas, e talvez seja esse o último serviço que preste ao meu país.” (João Chagas, Diário II).
29 de Dezembro de 1942 (Coimbra) – “Uma grande discussão sobre liberdade e justiça com um amigo magistrado, que há dois ou três anos vestiu a toga cheio de inquietações e que me apareceu agora relativamente sereno na sua função de julgar. (…) Dantes, quer ele a aceitar teoricamente um pragmatismo judicativo, quer eu a negá-lo, púnhamos ambos sobre a mesa dois corações igualmente ciosos da intangibilidade humana, só abertos à transcendência de cada destino, fossem quais fossem as razões da cabeça. Mas os anos passaram, a função fez o órgão, e hoje encontrei-me diante dum funcionário calmo e objectivo, apenas interessado em desempenhar proficientemente o seu papel de parafuso sem fim na complicada engrenagem social. E muito embora seguro da honradez profissional do meu interlocutor de agora, passei o tempo a ter saudades do outro, que ficava branco só de pensar que alguém pudesse erigir-se em juiz absoluto e condenar um semelhante à morte viva de trinta anos de cadeia.” (Miguel Torga, Diário – II).
29 de Dezembro de 1943 – “Ontem à noite estive muito triste. Tive a visão da avozinha e da Lies! Avozinha, querida avozinha! Não compreendemos bem quanto ela sofria. Só pensava em nós, mostrando-se sempre muito compreensiva em face dos nossos problemas. Sofria de uma grave doença. (…) Sou egoísta e cobarde! Não sei porque é que os meus sonhos e pensamentos só giram à volta das coisas tristes, até quase me apetecer gritar. Decerto não tenho bastante confiança em Deus! Afinal Ele deu-me tanta coisa que não mereço e só faço asneiras. Quando pensamos no próximo, devíamos chorar. A dizer a verdade, não devíamos fazer mais nada do que chorar. Resta-nos pedir a Deus que faça um milagre e que salve aquela pobre gente! E eu rezo do fundo do meu coração.” (Anne Frank, Diário).
1987, Ainda Dezembro, Matosinhos – “O tempo arrefece. Mas há sol e na linha do horizonte uns flocos de nuvens levemente rosadas como borlas de pó-de-arroz, 1920. Sobre as águas um jogo de velas. Os brancos fendidos oscilam, bailam sobre o azul – rodinha de borboletas, entre o leque aberto da rama dos pinheiros. De manhã, dava logo de rosto com o mar, porquê então aquela melancolia? Olhava aquela beleza balética, oscilante, grácil, como se olhasse um campo lavrado de lágrimas. Era dela, dentro dela, que a melancolia morava.” (Luísa Dacosta, Na água do tempo).
Com Dezembro quase no fim – Ano a caminho do termo. Mais um cabo de tormentas prestes a ser passado. E também a sensação de que as desigualdades se têm acentuado. E ainda: a dureza do quotidiano está muito longe da festa europeia com que Portugal pretendeu fazer História.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Miguel Torga na Biblioteca Nacional

Os passos da vida de Miguel Torga podem ser acompanhados em exposição que está na Biblioteca Nacional, em Lisboa, com a presença da voz e da escrita do próprio. É a “Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento” do escritor, que já esteve em Amarante, Famalicão e Coimbra e que irá ainda até ao Porto, Bragança e Santiago de Compostela. Em Lisboa, Torga pode ser visitado até 12 de Outubro.
Por esta exposição passam imagens, livros, manuscritos, jornais e citações do Diário, o espelho em que Torga se quis deixar reflectido para a memória, feito ele mesmo com as memórias dos dias de uma vida que decorreu entre 1907 (12 de Agosto) e 1995 (17 de Janeiro).
Nas palavras do comissário da exposição, Carlos Mendes de Sousa, reproduzidas do catálogo, esta exposição é “o trajecto delineado pela vida e pela obra de Miguel Torga, revelando-se, deste modo, a extensão e a coerência do percurso de um dos maiores escritores de língua portuguesa do século XX”. A exposição é, então, um ponto de partida, um convite para a leitura e para o conhecimento de Torga, sendo, no entanto, pena que o espaço da mostra não tenha a profundidade necessária para uma visita sem estorvo e sem esforço, dada a sua exiguidade.
Em exibição estão também documentos sobre as perseguições que a polícia política moveu a Torga, assim como um abaixo-assinado protestando contra a apreensão de um dos seus livros, pouco tempo depois de o mesmo ter acontecido com Aquilino Ribeiro, que transcrevo: “O Governo Português, ao proibir a venda do 8º volume do Diário de Miguel Torga – proibição efectivada pela polícia na ronda às livrarias em 20 de Fevereiro – perpetrou novo atentado contra a dignidade da inteligência e a liberdade de expressão. Essa prepotência, vinda a seguir à apreensão do romance Quando os lobos uivam, e instauração de processo judicial ao seu autor Aquilino Ribeiro, não pode passar indiferente à consciência nacional, por muito habituada que ela esteja a ver açaimado hora a hora, dia a dia, tudo o que seja liberdade de pensamento e de expressão. Os abaixo-assinados protestam, com toda a indignação, contra mais esse atentado e afirmam ao admirável poeta e grande escritor que é Miguel Torga a sua inteira solidariedade.” Entre os subscritores estão José Cardoso Pires, Etelvina Lopes de Almeida, Fernando Piteira Santos, Pedro da Silveira, Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, Jaime Cortesão, Raul Rego, Armindo Rodrigues e Manuel Mendes. Não estando datado, percebe-se ser de 1960, dados os factos relatados – publicação do oitavo volume do Diário nesse ano e apreensão de romance de Aquilino, que acontecera em Março do ano anterior. [foto a partir do catálogo da exposição]

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Coimbra: o memorial para Torga

Coimbra ficará para sempre associada a Miguel Torga, depois que Adolfo Rocha, o autor do pseudónimo, ali decidiu fixar residência e exercer a medicina e, também a partir dali, emitir para o mundo a sua obra literária vasta, intensa e de reconhecido valor. Quando passou o centenário do seu nascimento, em 12 de Agosto, Coimbra homenageou-o com um memorial da autoria dos artistas José António Bandeirinha e António Olaio, uma obra escultórica que liga o Largo da Portagem (onde o médico teve consultório) ao Mondego por um passadiço em xisto que termina sobre o rio. Os dizeres destacados do monumento são poucos: Torga, de tal forma o nome se impôs na literatura e na cultura portuguesa. No entanto, no gradeamento, surgem os versos que Torga escreveu em 1 de Novembro de 1983, no poema “Memória” (cf. Diário – XIV. Coimbra: 1987): “De todos os cilícios, um, apenas, / Me foi grato sofrer: / Cinquenta anos de desassossego / A ver correr, / Serenas, / As águas do Mondego.
O percurso de Torga prolonga-se pela memória e pela leitura da sua obra. Em jeito de corolário deste poema, Torga escreveria, dez anos volvidos, em 10 de Dezembro de 1993, o “Requiem por mim”, poema com que finaliza o derradeiro volume do seu registo dos dias (cf. Diário – XVI. Coimbra: 1993), em que diz: “Rio feliz a ir de encontro ao mar / Desaguar, / E, em largo oceano, eternizar / O seu esplendor torrencial de rio.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A propósito do centenário de Miguel Torga

As datas que assinalam centenários, pelo menos essas, servem para que seja feita (ou mantida) a inscrição da identidade de um povo, de um país, de uma cultura. No domingo, 12, passou o primeiro centenário do nascimento de Miguel Torga (1907-1995), assinalado em Coimbra (terra onde viveu) com a inauguração de um memorial junto ao Mondego e com a abertura ao público da sua casa-museu.

O Governo português não esteve presente no evento, gesto que nem o facto de se saber que este é um período de férias para imensa gente desculpa, mesmo porque, é sabido, o centenário do nascimento de Miguel Torga estava anunciado desde 12 de Agosto de 1907, há cem anos, portanto.
O que esta ausência significa de um ponto de vista cultural e identitário é evidente… e é triste. O que esta ausência mostra quanto ao valor dado às referências socialistas por um governo que pertence a essa área política também é evidente, sobretudo se relembrarmos o que Mário Soares ainda recentemente escreveu no número que o JL dedicou ao poeta transmontano (“Um testemunho pessoal”, in JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 961, 1.Ago.2007, pp. 17-18): “Foi depois do 25 de Abril que comecei – por força das circunstâncias políticas da época – a conviver mais intimamente com Torga. Acho que nunca se inscreveu no Partido Socialista, mas tornou-se, rapidamente, a principal figura socialista de referência de Coimbra e da zona centro do país. Presidiu a inúmeros comícios realizados antes e depois das eleições para a Constituinte e interessava-se, ao pormenor, pela vida interna do Partido, com uma militância e um cuidado superiores aos da maioria dos nossos aderentes.
Olhamos e não acreditamos, pois: é que mais valeu ganhar a Câmara de Lisboa (em cuja tomada de posse o Governo esteve presente em peso) do que patrocinar o respeito pela identidade que faz Portugal, como foi o caso do centenário torguiano (em cuja celebração o governo esteve ausente em peso)!

Miguel Torga visto por Francisco Simões (Oeiras, Parque dos Poetas)

Em 1992, os correspondentes da imprensa estrangeira em Portugal elegeram Torga como “Figura do Ano”. Em 8 de Julho, em discurso a esses mesmos correspondentes aquando da entrega do respectivo prémio, Torga assumia-se como o “repórter inquieto dum quotidiano sem fronteiras” e lançava-lhes o seguinte repto: “De mim, ireis naturalmente repetir o que consta, como pareço e me declaro. Acrescentai, por favor, que lutei, luto e lutarei até ao derradeiro alento pela preservação dessa identidade, última razão de ser de qualquer indivíduo ou colectividade, e que repudio com todas as veras da alma a irresponsabilidade da Europa que em Maastricht, sornamente, a tenta negar, trair-se e trair-nos. E que, além de no presente recusar assim radicalmente o cerceamento à minha expressão ocidental, me orgulho de no passado, sem compromisso de nenhuma ordem, e às claras, ter pensado sempre em termos de livre comunhão e desinteressada fraternidade o mundo redondo que proficientemente representais. Que sou, desde que me conheço, um seu devotado cidadão português.” (in Diário, vol. XVI, 1993, pg. 130). Que rica lição sobre identidade!

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Cinco livros - o segundo

Conjunto dos dias experimentados entre 3 de Janeiro de 1932 e 10 de Dezembro de 1993 e projecto de escrita de autor levado a cabo com a minúcia do tempo e da vida, o Diário, de Miguel Torga (1907-1995), é uma das mais extensas práticas diarísticas que existe na escrita autobiográfica portuguesa. Tomando como máxima uma citação de Amiel ("Chaque jour nous laissons une partie de nous-mêmes en chemin"), Torga inscreveu nesta obra (publicada entre 1941 e 1993) os seus momentos de poesia, de dureza, de histórias, de afectos, de cenas, de trajectos, de retratos, de desabafos, de vivências, aí ressaltando o homem (na sua experiência e no seu encarar a vida) mas também o escritor (na forma como selecciona os momentos e como inscreve a vida na literatura). Entre o primeiro e o 16º volumes, há o itinerário entre dois poemas, ambos escritos em Coimbra: "Santo e senha", que inicia o volume inaugural (em 3 de Janeiro de 1932), abertura para o caminho - "Deixem passar quem vai na sua estrada" diz o primeiro verso - e "Requiem por mim", que finaliza o derradeiro volume (em 10 de Dezembro de 1993), ponto final na escrita - "Aproxima-se o fim. / (...) / Longo foi o caminho e desmedidos / Os sonhos que nele tive. / Mas ninguém vive / Contra as leis do destino."
Percurso de um narrador que se move entre S. Martinho da Anta e o Mundo, o Diário de Torga é uma das mais belas e interessantes obras que li, ainda na apresentação em 16 volumes, de folhas cujo corte exigia a participação do leitor, numa edição simples e sóbria [há edição recente do Diário em dois volumes].