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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Visitar a Arrábida em 1903 (3)

 


O comentário de Sousa Gonçalves aos divulgados guias Baedeker quanto à importância que davam às localidades (mencionado na crónica anterior) e à necessidade de cada visitante fazer a sua própria exploração do lugar visitado pode partir de uma observação tão simples quanto esta: na terceira edição do Spain and Portugal Handbook for Travellers, de Karl Baedeker, datada de 1908 (cinco anos depois do escrito de Sousa Gonçalves), a referência a Setúbal ocupa um parágrafo que menciona o Hotel Esperança, o sal, o moscatel, o facto de ter servido de residência régia, os efeitos do terramoto de 1755, a Igreja de Jesus, a Avenida Todi, o porto, o Campo do Bonfim, a igreja de S. Julião, a estátua de Bocage, Tróia e a Arrábida — “Uma excursão pode ser feita em carruagem, ao longo da costa, até ao sanatório do Outão. De barco, pode ser alcançado o Portinho, a partir de onde um trajecto de meia hora nos leva ao Convento da Arrábida, e perto do qual existe a Rocha de Santa Margarida, gruta com estalactites e uma capela”; o Estoril, valorizado pela imagem de Cascais, ocupa dois parágrafos, referindo o Hotel de Paris e o Hotel do Monte Estoril, a praia, o restaurante do Casino, a Boca do Inferno, e aliciando os turistas ingleses — “Cascais, conhecida como a Riviera de Portugal, é o local favorito para as férias das famílias no verão e no outono, embora a época de banhos mais apropriada seja Agosto. (...) Mais recentemente, esta região tem sido também local de férias de inverno, sobretudo frequentada por visitantes ingleses. (...) Ao longo das colinas há numerosos palácios e ‘villas’ com jardins repletos de uma luxuriante vegetação subtropical”. Como referiu Sousa Gonçalves, o guia estava muito mais voltado para orientar turistas, cabendo ao visitante a argúcia para ir muito além daquilo que o guia refere...

O livro Uma Excursão à Serra da Arrábida fica completo com as colaborações de Francisco Luís Pereira de Sousa e de Guilherme A. Vidal Júnior, muito mais curtas do que a de J. Cardoso de Sousa Gonçalves, que apresenta a serra de um ponto de vista histórico-cultural, cruzando no seu texto informações de múltiplas áreas do saber, enquanto estes dois autores se limitam a áreas específicas nos seus escritos — a geologia, no caso de Pereira de Sousa, e o roteiro de barco entre Lisboa e Setúbal, no texto de Vidal Júnior.

No escrito de Pereira de Sousa, “Ideia muito geral da geologia da Serra da Arrábida”, parte-se dos “terrenos jurássicos”, enunciam-se as várias “camadas geológicas” que compõem a serra e é comparado o desgaste geológico — “na parte sul da serra da Arrábida, houve uma destruição mais intensa do que ao norte. Desapareceram em grande parte as camadas superiores e existem as que vemos no alto das montanhas e que, depois, descem abruptamente até serem banhadas pelo oceano”. Enaltecidos são os seus calcários — “A serra da Arrábida, maciço escalvado, notável pela arrogância das suas linhas perante a virente planície que ao norte se desenrola e pelo modo aprumado como ao sul as suas escarpas se erguem no oceano, encerra no seu seio preciosos calcários com que se podia edificar faustosamente uma bela cidade.” A brecha da Arrábida, a utilização dos calcários de Casais das Pedreiras e do Zambujal para cantarias, assim como o uso dos calcários junto à Torre do Outão para cimento numa “fábrica na quinta da Rasca” merecem referências breves. A finalizar o seu texto, Pereira de Sousa traça o retrato de uma serra despida de vegetação, apesar de ser “provável que, como muitas outras serras do país, fosse noutros tempos coberta de frondosos arvoredos”.

Igualmente motivado por uma descrição mais técnica é o texto de Vidal Júnior, “De Lisboa a Setúbal”, que traça o itinerário entre os porto da capital e o cais de desembarque em Setúbal, numa viagem por mar, preocupando-se sobretudo com a enunciação das edificações (fortalezas e faróis) que auxiliavam a navegação e seus anos de construção — S. Julião e Bugio (1775), Porto Covo e Caxias (1877), Guia (1775) e Santa Marta, Cabo Espichel (1790), Fortim da Arrábida, fortaleza do Outão (1775) — e com o reconhecimento geográfico da costa — Monte Córdova, Monte Formosinho, Mar da Lage, Moinho da Chibata, Albufeira, Casa do Infantado, Cabo Espichel, Sesimbra, Sanatório do Outão, Forte de Albarquel, Forte de S. Filipe — até ao desembarque em Setúbal: “A uma milha para Este do Forte de Albarquel, vê-se o Cais de Nossa Senhora da Conceição que dá magnífico acesso e desembarque à cidade de Setúbal. Foi importante antigamente o movimento comercial do porto de Setúbal, feito em grande parte por navegação portuguesa. Actualmente o seu movimento comercial está reduzido à exportação de sal, conservas, cortiça, arroz, etc.”

Eram estes os registos que os excursionistas da Academia de Estudos Livres (origem das Universidades Populares) levavam, em 1903, do seu passeio à Arrábida, num roteiro de informação muito plural, enriquecido com elementos da história cultural, das ciências dedicadas à Natureza e da arte de navegar, assim se cumprindo o estatuto da organização: “desenvolver o gosto pelo estudo e pela ciência” e “proporcionar aos sócios o conhecimento das ciências”.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1690, 2026-02-04, pg. 2


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Visitar a Arrábida em 1903 (2)

 

            

A “Notícia Histórica” com que Sousa Gonçalves abre o livro Uma Excursão à Serra da Arrábida prossegue com o elogio a Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), figura indispensável neste trajecto, porquanto a montanha “está tão cheia de recordações do inspirado vate que é de justiça esboçar o seu perfil de asceta, cheio de talento”. Tendo a consciência da importância do frade arrábido, o texto é enriquecido com a transcrição de um artigo datado de 1872 assinado por Bulhão Pato (1828-1912), centrado nas vivências do místico franciscano na Arrábida e nas suas composições poéticas, figura aureolada de santidade — “Catorze anos durou o seu voluntário exílio. A serra, o mar, a lua, as estrelas e as carregadas nuvens, os relâmpagos e as tormentas, foram alternadamente testemunhas das suas dores, das suas santas alegrias, dos seus desalentos e dos seus êxtases místicos! A morte recebeu-o nos braços meiga, risonha e solícita, como um anjo de redenção. O povo, numa piedosa lenda, contava que, ao tirarem o retrato, depois de morto, sorrira alegremente o bem-aventurado monge, concluindo, deste suposto facto, que não era só um bom padre o eremita da serra, mas um inspirado e um santo.” Para Sousa Gonçalves, imperativo se torna visitar a cela que o frade habitou, conforme explica numa rápida justificação em que não estão alheias as suas próprias descobertas e emoções — “O excursionista da Academia de Estudos Livres que chegar até estas paragens por certo relembrará a vida do grande poeta, tão cheio da delicadeza do verdadeiro artista como despido de todos os preconceitos que a vaidade humana acaricia! Um instante de recolhimento, dedicado à memória do asceta retemperará o nosso espírito fortalecendo-o para as lutas da vida. É sempre consoladora a contemplação duma vida pura e desinteressada.”

Sugere depois a “Notícia Histórica” uma visita à Lapa de Santa Margarida, “uma das maiores curiosidades” da Arrábida, com as suas duas entradas (pelo lado da serra e pelo lado do mar), à época, ponto de devoção dos pescadores do Cabo, espaço que alojaria meio milhar de pessoas. Também neste ponto a emoção do narrador se evidencia: “Na hora do maior calor goza-se ali uma frescura deliciosa, ouvindo-se apenas o quebrar monótono das ondas, que, através da boca voltada para o oceano, vêm espraiar-se quase até ao pé do altar. Sentimos então um bem-estar indefinível, acodem-nos ao espírito lembranças acariciadoras da vida passada. É a natureza na manifestação pacífica da sua força, como a incutir-nos pensamentos de paz e amor. Estamos bem longe, então, dos desenganos da vida, embalados pela música das ondas, que maestro algum ainda soube fixar em página genial.” Neste divagar, há ainda espaço para uma nota de cunho científico, ao dar ao leitor “uma ligeira ideia do que são e como se formam essas singulares incrustações calcárias” que são as estalactites e as estalagmites presentes na gruta, umas e outras “produzindo efeitos tão surpreendentes como característicos”.

O final do texto de Sousa Gonçalves para este roteiro de 1903 enuncia os objectivos da apresentação: “despertar o gosto pelas excursões na famosa serra”. Referindo que os muito populares guias Baedeker (existentes desde final da década de 1820) não devem ser “servilmente” seguidos por quem os consulte e goste de “percorrer caminhos novos”, conclui com dois desafios: o primeiro, exigindo a colaboração do leitor excursionista ao dar-lhe “a liberdade de seguir o itinerário que bem lhe aprouver” e incumbindo-o de preencher “as lacunas do presente artigo”; o segundo, apelando ao equilíbrio que o ser humano deve fomentar na sua relação com a Natureza, num repto que, no essencial, faz ainda sentido no tempo em que vivemos, tanto mais surpreendente quanto tem já mais de 120 anos de idade: “Por último, seja-nos permitido desejar que, se alguma vez o progresso invadir a serra da Arrábida, venha pela mão da verdadeira e pura arte. Respeitem-se as ruínas do passado como documentos de sinceridade e respeitem-se não lhes levantando a par, por exemplo, esses horrendos ‘chalets’ de cartão com que qualquer burguês da Baixa se presenteia para gozar os ócios e para digerir a farta pitança. Mandem-nos, a uns e a outros, para os famosos Estoris, que aí é o seu lugar. A serra da Arrábida é uma flor agreste de rara beleza. Se lhe mexem muito, estragam-na.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1685, 2026-01-28, pg. 10.