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quinta-feira, 21 de março de 2013

Rafael Bordalo Pinheiro, 167 anos - entre o Zé Povinho e o manguito (descrito por Camilo)


Lembra o "google" que passa hoje o 167º aniversário do nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro, o criador dessa fabulosa figura que é o Zé Povinho. Aqui se evoca, pois, com o conhecido gesto da imortal figura, na companhia de uma citação sobre a utilidade do manguito, devida a Camilo Castelo Branco.


O manguito... “é um gesto anguloso que exprime mudamente todos os desdéns e ironias figuradas da retórica; não se acha assinalado como indecente nos compêndios de civilidade, mas ainda não está bastante usado em desavenças de deputados nas salas das sessões onde se fazem as leis e os manguitos para a nação; usa-se, todavia, nas aldeias como expressão de solércia e de fina velhacaria.” [Camilo Castelo Branco. O Senhor Ministro (ed. original: Narcóticos). Col. “Mnésis”. Lisboa: Vega, 1989, pg. 35] 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Memória: Vítor Wladimiro Ferreira (1934-2012)



Quando, há dois dias, o telefone tocou e vi que era uma chamada da Ângela, o filme começou a correr. A conversa confirmava a suspeita. O Vítor Wladimiro, o pai da Ângela, tinha partido. Ao mesmo tempo que a saudade e a tristeza, agarrava-me a alegria de ter conhecido o Vítor e de termos construído uma amizade de 26 anos, com início da história numa tarde de sábado de 1986, graças a uma boleia de Beja para Lisboa, sugerida pelo Miguel, também filho do Vítor e meu companheiro no serviço militar no Regimento de Infantaria local, viagem em que vinha ainda a Ana Maria, esposa do Vítor.
A partir daí, tive o privilégio do convívio com uma pessoa extraordinária: no seu saber e na sua cultura, na sua disponibilidade para os outros, na sua amizade, na sua frontalidade e sinceridade, na sua liberdade. (Recomendo a leitura do postal que o Miguel publicou ontem sobre o pai, uma biografia que em nada exagera o retrato e com um percurso que eu testemunhei em muitas ocasiões.)
Foram muitos os nossos encontros. Alguns tinham como pretexto o trabalho (numa dessas ocasiões, conheci o Nuno, o outro filho), já que o Vítor Vladimiro me convidou para integrar alguns dos projectos que coordenou. Todos tiveram o condimento da amizade.
Bom conversador, de palavras certeiras e análise camiliana, muito aprendi nestes encontros e na correspondência que trocámos. Aproximámos famílias, de tal forma que os meus filhos com frequência me perguntavam pelo amigo Vítor, tão cuidadoso era ele em mandar sempre uma saudação ou um alegre dizer para a rapaziada!
Nunca esquecerei uma viagem que fizemos, em Junho de 2005, até S. Miguel de Seide, à casa de Camilo, itinerário de um dia, a matar saudades do seu parente afastado e eu a ver Camilo por um mais próximo olhar, dia ainda enriquecido por uns rojões que minha mãe nos aprontou, polvilhados por um gosto que o Vítor recordaria várias vezes… (Ironia do destino: o Vítor Wladimiro desapareceu quando se estão a celebrar os 150 anos do camiliano Amor de Perdição!...)
Há cerca de um mês e tal, quando o visitei pela última vez, vim com a tristeza a querer invadir-me, mas também com a ligeira esperança de que ainda iríamos ter mais encontros. Enganei-me, claro! E o telefonema da Ângela provou-o.
Tive sorte por ter conhecido o Vítor Wladimiro Ferreira, de quem era difícil não se gostar. Estou muito contente por essa possibilidade que se me proporcionou. Tenho muita, muita pena por não poder continuar a contar com ele, com a sua presença, com o seu saber e sentir. Presto-lhe a minha homenagem.
[na foto: Vítor Wladimiro Ferreira, em 24 de Junho de 2005, em Seide, na casa de Camilo]

domingo, 7 de agosto de 2011

António Guerreiro, a escola e Camilo


Na crónica “Ao pé da letra” publicada na revista “Actual”, no Expresso de ontem, António Guerreiro voltou a reflectir sobre o vazio de significado que algumas palavras transportam, tomando o caso de nomes com que, nos últimos tempos, se tem feito o ramalhete da crítica ao sistema educativo – “eduquês” e “facilitismo”, termos fáceis para esconder as razões menos boas no próprio sistema.
No mesmo saco mete Guerreiro o lamento por Camilo não integrar os programas do ensino secundário, no que me parece ser um “esticar a corda” desnecessário, mesmo tendo em conta as considerações que faz para as ausências da escrita camiliana.
Lamentar o silêncio sobre Camilo Castelo Branco nos programas escolares não pode ser visto apenas como algo pertencente ao grupo das “palavras de ordem”. A retirada é facilmente demonstrável, o que não acontece com os outros termos apresentados. No entanto, é forte o que é dito para explicar a ausência de Camilo: não é só dos programas, mas também do mundo da edição e, consequentemente, das livrarias.
De vez em quando lá vão surgindo umas edições de obras camilianas, por vezes até de custo bastante acessível. O que acontece é que vão sendo acontecimentos avulsos, devorados pelas novidades e pelas publicidades, muitas vezes sem direito a lugar nos escaparates.
A escola deve ser superior aos modismos, é verdade. Mas também é preciso que os programas escolares o sejam. E, nestas coisas, os cânones valem muito. Dependendo de por quem e como são estabelecidos. Ler Camilo na escola não pode ser um acto de missionação ou de gosto de um determinado professor, mas deve ser uma questão de obrigatoriedade. Quer pela literatura, quer pela identidade cultural.
A pergunta com que Guerreiro conclui a sua crónica é avassaladora, sobretudo pelo que sugere. É necessário que as instituições honrem o seu estatuto, é indispensável que a escola seja o território do saber, da cultura e da identidade. Camilo desancaria forte e acutilantemente nesta escola que omite os clássicos da sua cultura, estou certo!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Camilo - e por cá, que lhe fizemos?



A notícia é do Público. E a adesão dos franceses à obra camiliana pode deixar-nos satisfeitos pelo reconhecimento de um dos nossos escritores em França, mas deve deixar-nos descontentes pelo pouco que pela sua obra se tem feito, designadamente no âmbito dos programas escolares. Camilo continua a ser um mestre - da escrita e do conhecimento e retrato da sociedade portuguesa. Continua a ser acutilante nas suas críticas e apreciações, quer dizer: é actual.
Camilo Castelo Branco deveria ser de leitura obrigatória. Obrigatória, insisto.
Imagino que Eco, Padura e Sepúlveda se sentirão honrados por acompanharem o nome de Camilo na lista dos mais vendidos...
Já agora, que razão terá levado o Público a mencionar o título de Sepúlveda em francês, quando temos esse título já traduzido para português?
[Foto: busto de Camilo Castelo Branco em Seide,Vila Nova de Famalicão]

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Camilo e (alguma) moda

Ontem, escrevi sobre uma exposição de moda de que gostei. Hoje, apresento uma leitura da moda de há 150 anos, cuja escrita me diverte. As imagens são da exposição a que ontem aludi: a primeira, da época rococó, e a segunda, contemporânea do escrito cuja leitura sugiro, apesar da extensão...
Em 1856, Camilo Castelo Branco colaborava no periódico vianense A Aurora do Lima (criado em Dezembro de 1855, ainda hoje editado, e em continuidade, o que o torna no mais antigo jornal do continente português em publicação), assinando umas crónicas críticas sob o pseudónimo de João Júnior. Saiu em 23 de Setembro de 1856 o texto que contém o excerto que a seguir reproduzo, meio século mais tarde recolhido em Folhetins de Camilo Castelo Branco publicados n’A Aurora do Lima - 1ª série (Viana do Castelo: 1911). Nele pode o leitor ver a linguagem forte e irónica de Camilo, a crítica intensa aos barões e à sociedade, a graça camiliana em todo o seu esplendor.
Ó meu redactor, se V. soubesse quem as elegantes do Porto arremedam no seu andar requebrado, mórbido e voluptuoso!... Benzia-se!
As saias-mirinais aumentam gradualmente o bojo. Em rua estreita, o encontro de mulher-balão com homem gordo é um perigo. Eu de mim, espadela humana, achato-me como inteligência de barão e deixo passar o leviatã de pano cru e barba de baleia.
A respeito destas saias quer o meu amigo ver o que há mais de cem anos disse um folhetinista português? A coisa é um diálogo:
'SOLDADO: No tempo da minha avó, quando tinha caído nesta terra uma praga de donaires que aqui andou e fazia inchar a gente de sorte, que uma mulher, por magra que fosse, parecia um tonel, que em lugar de alguma aduela, que lhe faltava, tinha muitos arcos de sobejo – perguntei eu a um curioso de antigualhas se sabia donde eram oriundos aqueles inchaços? E ele me respondeu: que as mulheres tanto morreram por andar à moda que a moda lhes pagou o afecto em lhes oferecer aqueles mausoléus ou essas em que jaziam embalsamadas para espectáculo do povo; mas ainda esta razão me não quadrava, e não achei quem me desse outra, antes me disseram que a não havia.
LETRADO: Olhai: arremataram o contrato da mentira, um poeta e um alfaiate, e para que mais lhe rendesse, disse aquele que as damas não tinham pernas, e este então inventou aquela forma de peanhas em que assentassem os meios corpos que lhes atribuíam para com mais decência serem veneradas estas figuras. Se não foi este despropósito, não tenho até agora notícia doutro que engendrasse aquele.'

Não lhe comunico o fragmento como coisa muito engraçada, mas é para que fiquem sabendo os que o não sabiam que tivemos, há mais de um século, folhetinistas com juízo e senhoras que podiam muito bem fingir que o não tinham. As de então chamavam-se almotacés da bizarria, as de hoje são janotas. Ora o folhetinista ninguém hoje fala dele: chamava-se Silvestre Silvério da Silveira e Silva. Os de hoje não têm tantos SS, mas têm mais TT.
Lá por Lisboa já há quem ponha em letra redonda que o tal balão é necessário para o enfeite da mulher. Quem tal diz é um herege do senso comum e reclama um sedenho na nuca e panos de água fria na cabeça! É abusar muito dos tipos! É querer fazer depender o mérito duma mulher de mais oito varas de paninho, quatro arráteis de pós de goma e dois costais de algodão. É preconizar a impostura, fomentar a traição aos olhos da humanidade. É colocar um marido, no seu primeiro dia de felicidade, na dolorosa alternativa do divórcio ou da resignação com os ossos da esposa que se lhe tinham perfidamente mostrado cobertos de túmidos rofegos e velas de mezena. Celibatários, ponde os vossos olhos nisto! Não vos caseis sem um atestado reconhecido da costureira da noiva. Um homem, que tem na fronte escrito o lema glorioso do seu destino, não deve casar-se com mulher-mirinae. As mulheres vestem de modo que falsificam o Evangelho. O marido não pode dizer da mulher: a carne da minha carne; metade é algodão em pasta.