No Público de hoje (pg. 45), Miguel Esteves Cardoso escreve sobre a leitura e o prazer de ler. Vale a pena ler - por obrigação e por prazer!
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segunda-feira, 24 de outubro de 2016
sábado, 11 de julho de 2015
António Cagica Rapaz - A memória e a identidade nas crónicas
É reedição recente a obra Noventa e Tal Contos, de António Cagica Rapaz (1944-2009), que a
Câmara Municipal de Sesimbra levou a cabo, quando passam quinze anos sobre a
primeira publicação. Na verdade, trata-se de noventa e sete textos, que o
próprio autor, em nota de abertura, hesitava em classificar quanto ao género: “não
sei se são contos, se são crónicas, memórias, olhares ou retratos”, para logo
acrescentar “se calhar é um pouco de tudo isso ou nada disso”, porque, “no
fundo, são simplesmente coisas que, ao longo dos anos, fui buscando no sótão
desarrumado que é esta minha cabeça e que fui escrevendo, ao correr da pena que
tenho de não saber fazer melhor”.
E, na verdade, assim é. Os textos respeitam a
modalidade da crónica pela sua extensão, pela forma de tornar actuais muitas
histórias, por se cruzarem com o quotidiano de personagens com as quais o autor
também se cruzou, por partirem para pequenas reflexões sobre a memória e as
formas de vida, os exemplos, as convivências, os tempos. Havendo apenas um dos
textos sem data, os mais antigos remetem-se para 1972, com publicação no jornal
Record, enquanto os mais recentes
surgem datados de 2000.
O estilo de Cagica Rapaz é vivo, intenso, medido ao
pormenor, eficaz, levando o leitor a comungar os instantes e as situações, a
viver aquilo que o próprio narrador quer fazer reviver. São histórias de
Sesimbra, das suas gentes, do sítio. São narrativas de tempos recuados, assentes
na infância do seu contador, que vogam até às figuras que fizeram parte do seu
universo e que povoaram o tempo e a geografia entre Caixas, Cotovia e Sesimbra. São relatos que vivem
sobretudo pela sua humanidade, pelas relações que tal evocação gera entre as
pessoas, todas protagonistas de vidas e da vida do narrador, que nunca se
esconde atrás de um memorialista distante, antes insiste em tornar presentes os
momentos que sentiu e as personagens que os condimentaram, sempre levado por um
apego à terra, uma Sesimbra em que a paisagem tem de ser dominada, sem dúvida,
pelo mar – “O mar e os barcos fazem parte da nossa vida, dos nossos sonhos. Por
isso, no campo, mesmo sem searas a ondular, nos parece ver barcos onde, afinal,
só há uma casa cercada por um muro pontiagudo, à beira da estrada.”
A pouco e pouco, ao longo da quase centena de
crónicas, o autor vai revelando o seu propósito: vencer o tempo, revivendo-o
pela memória, que se torna escrita. É assim que, poucas páginas de leitura
volvidas, o leitor começa a entrar no desvendamento do porquê desta escrita: “foi-se
o tempo, fica-nos a fantasia e a memória vacilante…” Um pouco adiante, ao fixar
o retrato de uma personagem, um pouco mais de confissão – “é o passado que
penetra o presente com ingénua autenticidade”. As histórias vão-se acumulando
e, uns encontros à frente, é dito que “ficam as recordações aqui e ali
reavivadas”. Já quase no final desta colectânea de crónicas, uma surge em que o
autor cimenta o seu gesto de caminhar pela memória – refere-se à colaboração de
António Lobo Antunes num periódico, entretanto recolhida sob o título de Crónicas, que, relidas, merecem de
Cagica Rapaz a seguinte reflexão: “Sentimos quão vivas estão as recordações da
infância, a ternura com que fala dos familiares, dos amigos, dos lugares, das
coisas e de um tempo.” O leitor percebe que este narrador sente a felicidade da
identificação, que cauciona o seu trajecto, mas, num gesto de simplicidade,
conclui, linhas adiante: “Desta leitura acabei por extrair uma satisfação
adicional que é o paralelismo que, vagamente, a espaços, a grande distância
qualitativa, me atrevo a vislumbrar entre algumas das suas crónicas e um ou
outro dos meus pobres escritos.”
A dimensão pictórica no traçado das personagens é
intensa em António Cagica Rapaz, como se pode ver pela descrição de memória que
faz de Maria Amália, sua familiar, impressão que quase nos remete para
Arcimboldo: “Com os meus oito ou nove anos, eu via nela um fruto autêntico da
terra, feito de trigo maduro, de sol cor de romã, de uva generosa, de bom pão
amassado com amor e cozido em forno de tijolo moreno”. Impressionante também é
a caracterização de uma outra personagem, que se manifesta em vários textos, o
padre João, a quem está associada uma construção literária – “foi, para todos
nós, o senhor abade das aldeias poetizadas do Júlio Dinis” –, resultante de um
retrato todo ele eivado de sentimento – “felizmente, acima dos dogmas rígidos e
tenebrosos, havia o Padre João, com a sua bondade, a sua jovialidade, a sua
ternura, o seu sorriso cativante, a calorosa cumplicidade que estabelecia
connosco”. Intenso também é o passeio na memória através de uma professora,
Auzenda Pereira, que leccionava Francês no Liceu de Setúbal no início dos anos
60 e revelou aos alunos os caminhos da beleza e da arte – “Pessoas como a Dona
Auzenda acompanham-nos ao longo das nossas vidas, ensinando-nos a apreciar as
coisas bonitas da existência, com amor e o mesmo tacto poético com que nos
levava pela mão através dos campos da Provença, em manhãs de evasão na
biblioteca acolhedora do velho Liceu…” O recorte no tratamento das personagens
é fino e sensível e assistimos a um desfile que integra o sapateiro, o
pescador, o condutor do autocarro, o barbeiro, os amigos do café, aqueles que
chegam e se deixam tornar íntimos de Sesimbra (terra de recepção também) e
todos quantos acabam por fazer parte de uma vida, de uma comunidade, com
ligação aos sítios (o café, a praça, a praia, o campo), aos momentos (a
infância, a escola, a igreja, o futebol, as festas) e aos afectos. No fundo,
são os contares do que alimentou o quotidiano, do que foi a epopeia de cada um –
não por acaso, será a propósito da narração da matança do porco que o narrador
dirá que, nesse dia, “se escrevia mais um capítulo dos muitos que compõem a
epopeia do campo”…
Se dúvidas tivéssemos quanto ao que motivava António
Cagica Rapaz nestas crónicas, o mistério seria desfeito por este curioso
parágrafo que registou no texto “Omar” (designação vinda de poeta persa do século
XI, evocado por Amin Maalouf), de 1999: “O que resta da nossa urbe é o olhar
melancólico que alguns teimosos palermas, como eu, teimam em pousar sobre
Sesimbra, tentando descobrir, desenterrar, trazer à superfície restos de beleza,
de poesia, do encanto do passado.” E, quase no final do livro, mais um
contributo para ajudar a desvendar o porquê destas evocações: “continuaria a
fazer o que faço com as pessoas de quem gosto, evocando-as aqui e mais logo,
por isto, por aquilo, como quem diz adeus de longe, do muro da lota…” Duzentas
e poucas páginas de um livro que, dizendo adeus, traz o passado até ao presente,
assumindo-se como um percurso que (re)constrói a identidade!
Sublinhados
Felicidade – “Se calhar, a felicidade é apenas meia dúzia de
horas felizes, momentos espaçados e fugidios, uma sensação de paz, uma ilusão
de eternidade, um riso de criança…”
Vida – “A nossa vida é um filme de que somos actores, de que nos julgamos
realizadores e do qual, muitas vezes, somos apenas espectadores incapazes de
interferir, impotentes para reagir. Até
ficarmos sozinhos na sala escura quando toda a gente já saiu, olhando para o
relógio. Lá fora, na rua, já começa outro filme, outras vidas. Ou talvez seja apenas
o mesmo filme que continua, em trinta e uma partes…”
Outro – “Andamos anos a cruzar-nos com pessoas de quem gostamos, a
falar-lhes de raspão, ao dobrar a esquina, e não somos capazes de arranjar
tempo para elas, para nós, para estarmos juntos, sempre a deixar para um
qualquer dia que, quando e se chega, não é o que sonhámos. (…) Importante é
gostarmos das pessoas e das coisas, sermos capazes de partilhar sentimentos e
emoções.”
Escrever – “Escrever não é indispensável, faz parte das coisas
supérfluas. Ninguém morre se não escrever e todos passam sem ler. Apenas
acontece que alguns de nós, com ou sem razão, com mais ou menos jeito, julgam
ter coisas para dizer. E escrevem. Por gosto, com paixão, por amor, escrevem.”
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sábado, 23 de maio de 2015
O paraíso, segundo Miguel Esteves Cardoso
O título é original: "Algumas verdades fofas e nuas sobre o paraíso que de modo algum precisavam de ser ditas". Outra forma de dizer que o paraíso está ao nosso alcance... assim o queiramos! E o início do texto é forte: “O paraíso é a repetição esperada do desejo e inesperada do
prazer. O paraíso nunca pode ser imaginado. Se é preciso imaginar é porque não
se está lá. O paraíso pode ser sonhado mas nunca satisfaz porque, para ser um
paraíso, é preciso consciência que se está lá, acordado, cheio de toda a sorte do
mundo. (…) O paraíso é uma extrema felicidade
passageira que promete poder voltar, talvez. Se nunca mais pudesse voltar, fosse de que forma
fosse, seria uma tragédia.”
Quem o diz é Miguel Esteves Cardoso, na revista "Fugas" que acompanha o Público de hoje (pg. 3) e é dedicada à temática do paradisíaco. A ler! E a construir!
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domingo, 10 de maio de 2015
"Que coisa são as nuvens", de José Tolentino Mendonça
Algumas crónicas (quase uma centena) de José
Tolentino Mendonça que viram a luz no Expresso
ao longo dos anos de 2013 e de 2014 estão agora ao alcance do leitor sob o
título Que coisa são as nuvens
(Lisboa: “Expresso”, 2015). Não é experiência nova do autor, uma vez que já em
2010 dera à estampa a colecção O
Hipopótamo de Deus e outros textos (Lisboa: Assírio & Alvim), reunião
de crónicas saídas nos “media”, entre os quais se contava também o semanário Expresso.
De crónicas não se pode esperar o que vá além
de uma reflexão sobre algo do quotidiano; mas das crónicas se pode esperar tudo
isso que é a reflexão, uma maneira de olhar o mundo, de o sentir, de nele
reparar. O título da colectânea, vindo de uma filme de Pasolini (1967), alberga
pensamentos que foram “uma iniciação, mesmo que imprevisível, à arte do espanto”;
daí que o título do texto introdutório passe mesmo por essa virtude do olhar
reforçada com o verbo “reparar”: “Para quem não tiver reparado”.
As crónicas de Tolentino Mendonça passam por
esse espanto com as coisas do mundo e da vida, algo que nos surpreende e
cativa, que se constrói sobre a estética, venha ela da escrita ou das outras
artes, corra ela desde os sentimentos ou decorra dos acontecimentos, conflitue
ela com as nossas formas de vida ou
abra-nos caminhos de descoberta.
Tanto é merecedor da crónica o bolo de
bolacha como o bolo de arroz ou o chocolate, os prazeres experimentados como as
descobertas, o sentido poético como as grandes obras. E o leitor vai saltando
de Eugénio de Andrade para Ana Teresa Pereira, pensando sobre a morte ou sobre
a poesia ou sobre os avós, entrando na pedagogia de Ruben Alves ou no fascínio
de El Greco, convivendo com Van Gogh ou com José Saramago, ouvindo Rosenzweig
ou Cesariny, pensando com Sophia ou com Simone Weil (dois dos nomes que emergem
com mais frequência).
Estes pensares de Tolentino Mendonça vão ao
encontro de formas de ser e de viver o mundo e a vida, congregando a
espiritualidade inerente a cada gesto ou a cada momento, convidando a entradas
por reflexões de outros, povoadas por citações exemplares do lido e do
conhecido como se fossem ingrediente ou condimento. São textos curtos, que não vão
além das duas páginas mas que nos deixam à porta das descobertas, no limiar do
que é “reparar”, lá onde as nuvens mostram as suas diferenças e as suas
consistências.
Uma boa iniciativa do Expresso, numa luta contra a efemeridade, em prol de momentos de encontro do leitor com o pensamento e com o mundo!
Sublinhados
Abraço – “Um abraço é uma hipótese de equilíbrio
que a hospitalidade dos corpos é chamada a inventar. Qualquer abraço começará
por ser uma coreografia instável. Se calhar, a primeira forma do abraço é só um
agarrar-se para não cair. Pouco a pouco, o abraço deixa de ser uma coisa que tu
me dás ou que eu te dou e surge como um lugar novo, um lugar que não existia no
mundo e que juntos encontramos.”
Acabar – “O momento de viragem acontece quando
olhamos de outra forma para o inacabado, não apenas como indicador ou sintoma
de carência, mas condição irrecusável do próprio ser. Ser é habitar, em
criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo. O inacabado
liga-se, é verdade, com o vocabulário da vulnerabilidade, mas também com a
experiência de reversibilidade e de reciprocidade.”
Amigo – “A banalização da palavra amigo produz uma
incapacidade de compreender (e de viver) amizades verdadeiras.”
Arte – “Há três dimensões fundamentais (e esquecidas)
na arte, companhia que importa recordar: a gratuidade, a aceitação e a capacidade
de partilhar o silêncio.”
Casa – “As casas são uma máquina de habitar e
desempenham um papel chave na construção da nossa experiência humana. Mas todas
as casas falam, pela presença ou pela ausência, de outra coisa que está para lá
delas. Falam disso que um humano é, matéria ao mesmo tempo sucinta e imensa, de
fazer espanto. Falam do conhecimento que só é verdadeiro se alojar em si a
consciência do que ignora hoje e ignorará até ao fim. Falam da luta pela
sobrevivência, com a sua rudeza, a sua dor e tumulto, mas também da excedência
que experimentamos, porque se a vida não transbordar não é vida. Falam da
intimidade, aquém e além da pele. Falam do silêncio e da palavra, que umas
vezes se contradizem e outras não. Falam do cumprido e do adiado, do sono e da
vigília, do fraterno e do oposto, da ferida e do júbilo, da vida e da morte.”
Desgraça
(íntima) – “A nossa cabeça de pessoas
crescidas é complicada. Descobrimos que há um prazer em listar achaques e
traições, e se a minha chaga puder ser maior do que a tua tanto melhor, isso
reforça o meu estatuto. A verdade é que, se não tomarmos atenção, a desgraça
íntima torna-se um escanzelado pódio onde nos blindamos.”
Dinheiro – “O dinheiro não se fica a orientar apenas
o ordenamento material da vida comum, mas contamina indelevelmente a dimensão
imaterial da vida, as suas aspirações mais profundas. (…) Quer dizer, passou a
ser um poderio, pois actua por si mesmo, detendo uma autonomia que só conhece
como lei a sua. O dinheiro só tem respeito pelo dinheiro: nas relações que
estabelece, tudo se compra e se vende, e é nessa espécie de delírio totalitário
que ele prefere viver.”
Futuro – “Embora nos pese toda a indefinição ou os
maus prognósticos, conservamos em relação ao futuro uma expectativa que nunca é
completamente fechada. Quem sabe? – insistimos nós.”
Lentidão – “A lentidão ensaia uma fuga ao
quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário; escolhe mais
vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as
trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e
tão íntimo que pode ter luz.”
Passado – “O passado é, em grande medida, um tempo
confortável, mesmo quando nos esmaga. Provoca-nos o alívio, (…) está num lugar
certo, mesmo se nos espaventa de tão completamente errado.”
Presente – “Do presente, da pressão do presente, da
sua irrefutável factualidade, desatamos facilmente a escapar.”
Reparar – “Reparar introuz-nos por si só numa
lentidão, porque aquilo a que alude não é um observar qualquer: é um ver
parado, um revisar porventura mais minucioso do que o mero relance; é uma visão
segunda, uma nova oportunidade concedida não apenas ao objecto, nem sequer
apenas ao olhar, mas à própria visibilidade. [Reparar] põe também em prática
uma reparação, um processo de restauro, de resgate, de justiça. Como se a
quantidade de meios-olhares e sobrevoos que dedicamos às coisas fosse lesivo
dessa ética que permanece em expectativa no encontro com cada olhar. Por isso,
de certa forma, só quando reparamos começamos a ver.”
Saber – “Reconhecer que ‘não se sabe’ pode trazer
desconforto, mas traz também saúde interior e criatividade.”
Silêncio – “Aquilo a que chamamos silêncio só se
torna real e efectivo através de um processo de despojamento interior, e de
nenhuma outra maneira.”
Simplicidade – “Nada nos pede mais trabalho e arte do que
a simplicidade.”
Vida – “A vida é completamente artesanal. Não é possível
reproduzi-la em série, nem encontra-la feita noutro lado. A vida requer a
paciência do oleiro, que, para fazer um vaso que o satisfaça, faz duzentos só a
treinar o gosto, a habilidade, a testar a sua ideia.”
Vida – “Privamo-nos a nós próprios
do tempo necessário para colher o sabor, o silêncio ou as cintilações que
temperam a vida. No atropelo ofegante a que nos entregamos há um crescente
alheamento de nós próprios. Não lhe damos o estatuto de patologia, mas esta
desertificação da vida interior disfarçada de eficácia o que é senão isso? As
nossas sociedades medem infelizmente o seu progresso esquecendo, quando não
obliterando, domínios da vida humana que não são mensuráveis e que têm a ver
com a interioridade, a criação, o dom, a alegria, o sentido.”
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domingo, 5 de outubro de 2014
Vale sempre a pena a passagem para Tróia...
A crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público de hoje versa a travessia do Sado de Setúbal para Tróia e volta. Uma travessia pessoal, com paisagem, vistas e sabores, com sensações e com reparos. Vale sempre a pena a travessia...
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Duas marcas da prática política no nosso país
1)
«Em matéria de reformas sou licenciada já assisti a reformas do ensino da
linguagem da administração do vocabulário dos costumes e sei lá que mais e só
uma coisa é certa essa coisa é que “atrás de reforma vem reforma” tão certo
como dois e dois serem quatro e que para reformar não há como os portugueses
que reformam rerreformam e rerrerreformam e está tudo sempre a pedir reforma
enfim como já percebi que a reforma é a vocação natural da Pátria (…) sento-me
na minha cadeira e deixo-as passar porque as reformas são como o vento passam
sempre até vir outra mais tarde ou mais cedo embora para dizer a verdade venham
quase sempre mais cedo.»
2)
«Está tudo na mesma e estar tudo na mesma quer dizer que os partidos não se
entendem e os partidos não se entenderem é estarem a ter conversas uns com os
outros para depois mandarem comunicados a dizer que não se entendem eu cá por
mim acho que eles podiam poupar as línguas eliminando as conversas e mandando
logo os comunicados sempre se poupava papel nos jornais e sempre se poupava a
nossa paciência que está a rebentar.»
Os leitores mais atentos reconhecerão o estilo: as
redacções da Guidinha, essa personagem criada pelo Luís de Sttau Monteiro (1926-1993), que
compunha crónicas humorísticas e apimentadas sobre os hábitos sociais, lidas
avidamente no Diário de Lisboa ou em O jornal. Os dois excertos que
apresento mantêm-se oportunos, apesar de terem data: ambos foram publicados em O
jornal, o primeiro em 22 de Junho de 1979 e o segundo em 8 de Setembro de
1978. Isto é: 35 anos não alteraram algumas práticas políticas do nosso país!
Algumas crónicas da Guidinha podem ser lidas em Redacções da Guidinha (Lisboa: Areal Editores, 2003), que recolhe uma selecção de algumas saídas no Diário de Lisboa entre 1969 e 1970, e em A Guidinha antes e depois (Lisboa: "O Independente", 2004), compilação de vários textos surgidos entre 1972 e 1979 em ambos os jornais.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
As bibliotecas, segundo Valter Hugo Mãe
No JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias de ontem (nº 1112, pg. 34), um belo texto de Valter Hugo Mãe sobre as bibliotecas. A ler.
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Valter Hugo Mãe
domingo, 10 de julho de 2011
André Brun e o "Sumário de Várias Crónicas"

Dedicado a João Chagas, Sumário de Várias Crónicas (Lisboa: Guimarães & Cª Editores, 1923), de André Brun, é constituído por quatro partes, todas reunindo uma centena de crónicas publicadas nos jornais entre Setembro de 1907 e Março de 1922 – “A Menina dos Meus Olhos”, com 15 textos, dedicada “a minha filha, Dona Aninhas”; “Factos e Momentos”, consagrada “à memória de Paulo Barreto”, coligindo 31 crónicas; “Homens de Letras e Aves de Pena”, dirigido a Gualdino Gomes, reunindo 25 memórias; “Alfaciadas”, oferecido a Alfredo Mesquita, juntando 30 composições.
O que levou André Brun a reunir estes textos em livro di-lo ele no texto introdutório: “pareceu-me curioso ressuscitá-las do natural olvido em que estavam sepultadas, por isso que, à míngua de um valor literário que as recomende à posteridade, me interessam particularmente, ou pelo momento em que foram escritas, ou pelo que nelas pus do meu coração ou do meu espírito ou, ainda, porque fixam uma atitude da minha vida e contribuem assim para desenhar a minha fisionomia moral”. O tempo, os afectos e as atitudes constituem, assim, as três motivações fortes que levaram Brun a esta antologia, três ingredientes que têm muito de pessoal, de tal maneira que, umas linhas adiante, escreverá que as crónicas aqui reunidas constituirão “o primeiro volume das [suas] Memórias”.
Na primeira parte, os textos acompanham a evolução e crescimento de Dona Aninhas, a filha, desde o nascimento, dando conta de cada nova manifestação – quando se sentou, o nascimento do primeiro dente, o reconhecimento da imagem no espelho, a ida ao teatro, a ida ao colégio. Surpreendido pelas diversas manifestações, alguns dos momentos constituem ocasião para uma missiva destinada à herdeira, quase em jeito de ensinamento a legar para a posteridade, como sucede no texto “O Relógio”, de Janeiro de 1916, motivado pelo facto de a criança ter encostado o ouvido ao mostrador: “À medida que fores crescendo, verás que te não pertences. Pertences ao relógio. Ele te dirá a que horas te deves levantar, quando te deves deitar, o momento em que deves comer, o instante em que chegarão as tuas alegrias e aquele em que despontarão as tuas amarguras. (…) Acabarás por te acostumar e deixar-te-ás conduzir, na impossibilidade de te resgatares dessa prisão, dessa galera. Vai-te entretendo com ela agora. Outros dias chegarão em que deixarás parar o teu relógio na doce intenção de o não ouvir, para afinal lhe dares corda, poucos momentos volvidos, ao reconheceres a tua insignificância perante o Tempo, que a todos nós governa.” São crónicas de ternura paternal e de descoberta, onde nem falta uma “Carta das Trincheiras” a explicar à filha o porquê da sua ausência, a participar na Grande Guerra – “Bem vês, ó meu bem, ó minha Aninhas linda, que, sendo eu um soldado, entre os soldados tinha obrigação de estar e na primeira linha”. A explicação poderá não ser suficiente para a criança destinatária, mas fica a promessa de mais coisas serem contadas “um dia, no regresso”.
A Primeira Grande Guerra constitui, de resto, o eixo central das crónicas da segunda parte, seja para elogiar combatentes de Naulila, seja para ir comentando os acontecimentos na Europa – enaltecimento da coragem belga e do rei Alberto, a batalha de Verdun (em que “a fera quebrou os seus melhores dentes contra a mole de aço da resistência francesa”), o sentimento de solidariedade devida pelos portugueses (“Nenhum português tem o direito, seja qual for a latitude política em que se encontra, de se manifestar insensível ao momento que vivemos. (…) Estamos em guerra e estamos todos em guerra. Daqui não há que sair.”), a impressão causada pelo relato de um marinheiro francês participante na defesa de França, tristeza pelo abandono a que o Corpo Expedicionário Português foi votado pelo governo português, sofrimento perante a destruição da catedral de Reims, a alegria perante o desfile dos vencedores em Paris, o sacrifício dos soldados mortos e a sua entrada na memória. Ainda que algumas crónicas tenham data anterior à partida de Brun para a Flandres (em Abril de 1917), elas demonstram o espírito que animou muitos adeptos da participação de Portugal no conflito, designadamente André Brun, apelando para uma consciência do que nessa região europeia acontecia.
A sua obra maior, em termos de memorialismo da sua participação na guerra, publicara-a André Brun em 1918, A Malta das Trincheiras (que já ia na 3ª edição em 1923). Além desta obrigação de partir para a Flandres por ser militar, Brun cumprira também uma promessa feita a seu pai, André Regis Brun, combatente francês em 1870, quando a França perdeu território a favor da Alemanha – se voltasse a guerra, o filho entraria para dar continuidade à desforra desejada pelo progenitor…
A terceira parte do livro contém capítulos memorialísticos e notas de leitura sobre Mercedes Blasco, Teófilo Braga, Bulhão Pato, António Bandeira, D. João da Câmara, Augusto Gil, Fialho de Almeida, Olavo Bilac, Rafael Pinheiro, Henrique Trindade Coelho, Gabriel d’Annunzio, Júlia Lopes de Almeida, Camões, Manuel de Arriaga, Coelho Neto, Paulo Barreto (João do Rio), José Queirós, Mário Pederneiras, João Chagas, Campos Monteiro, Eduardo Schwalbach, José Duro, Augusto de Castro, Eugénio Vieira, Chagas Franco (a propósito de um romance relacionado com a Grande Guerra) e Henri Bataille. Por estas crónicas passa a leitura atenta e sensível, a apreciação fundada, o testemunho de momentos únicos e o cruzamento da cultura portuguesa com o Brasil.
Na quarta parte, surgem as crónicas sobre costumes, sobre a Lisboa de bairro, de onde não estão ausentes as festas, os dizeres, a graça, a ironia, podendo o leitor de hoje encontrar ali motivo de boa gargalhada, quer pela forma de dizer, quer pela parecença com situações que ainda hoje vivemos.
Esta obra de André Brun faz jus àquela verdade que sobre si mesmo escreveu quando, um dia, alguém lhe observou que ele andava sempre sorridente e bem disposto: “A vida não me poupa e o meu quinhão de aborrecimentos não é menor que o dos outros. Porém, em vez de o contar ou comentar de lágrima na voz e rancor na boca, relato-o ou analiso-o com o sorriso nos lábios e a serenidade no coração.” (in Os Meus Domingos). Além desta razão, a visita a este livro justifica-se pela qualidade dos textos, pela abertura com o leitor, pelo estilo praticado, pelo tom de mestre que Brun reflecte na estrutura das crónicas.
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quarta-feira, 25 de maio de 2011
O Charroque chegou a "O Setubalense"
O “Charroque da Prrofundurra” chegou ao jornal O Setubalense. A primeira crónica com a personagem sadina saiu na edição de hoje e intitula-se “O Chique Zarroulhe”, suposto primo do narrador.
Crónica com humor, imitando o falar setubalense, o seu espírito vem no seguimento do que aconteceu no livro O Charroque da Prrofundurra e do que tem sido o blogue com o mesmo nome.
Prometida está colaboração semanal do Charroque, com vistas e leituras sobre Setúbal, num quase auto-retrato que dispõe bem.
Ora veja-se o início da crónica de hoje: “O mê prrime Chique quié zarroulhe é um ganda maluque por esse famouse tipo de transporte quié os matavélhes, aquelas motas trricicles que só há em países do terrceirre mundo e aqui em Porrtugal.”
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quarta-feira, 18 de maio de 2011
“Histórias daqui e dali”, de Luis Sepúlveda

Vinte e cinco crónicas compõem o volume Histórias daqui e dali, de Luis Sepúlveda (Porto: Porto Editora, 2010), numa ponte que nos remete para espaços, para os lugares, que se estende entre a América Latina e a Europa, pontos de fixação do próprio cronista.
Em grande parte dos casos, estas crónicas são visitações a tempos passados, num percurso através da memória, insistentemente mostrando a faceta do exilado. Por elas passam convicções, recordações, amigos, experiências, reencontros, histórias de livros, ironias da vida, chamadas de atenção, não esquecendo um pendor crítico sobre formas de viver de hoje.
Por Portugal e pela literatura em português passam também estas crónicas, havendo uma delas que toma o cenário do “Correntes de Escritas” poveiro e o contador de histórias que é o angolano Nelson Saúte.
Estas crónicas caminham sempre no sentido da procura de pontos de apoio, cimentados por referências comuns, independentemente das latitudes, atitude talvez justificada por esta afirmação de identidade – “Nós, os exilados, somos como os lobos, para onde vamos juntamo-nos às alcateias que não são as nossas, mas convivemos, caçamos juntos, e, no entanto, a lua convida a afastar-nos para uivar de solidão.”
Marcadores
Velhos textos - “Quando nos deparamos com velhos textos é como se nos encontrássemos de novo connosco, e estes reencontros são sempre comoventes.”
Exílio - “Todos os exílios duram demasiado tempo e cada experiência é única.”
Viajar - “O direito de viajar ou de permanecer é inerente ao ser humano. O visto para ir ou ficar é um golpe cruel e planificado na liberdade do indivíduo.”
Alfarrabistas - “As lojas de livros usados são pátrias especiais e necessárias.”
Ficção - “A ficção é sempre um prolongamento da realidade.”
Jornalismo - “A precariedade em que caiu o jornalismo faz com que ninguém seja responsável pelo que se escreve, diz, ou emite, salvo raras excepções, e com que sejam poucos os jornais feitos por jornalistas que, com absoluto rigor, assistem ao funeral de uma profissão tão bela quanto necessária.”
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terça-feira, 28 de setembro de 2010
Que presente é este?
Perguntei-lhe pela neta, nascida há meses, e lá me disse que ia estando bem, que se ia afeiçoando ao mundo, que os pais estavam muito contentes, mas que não iriam para o segundo filho e, assim, não havia esperanças de ter também um neto. “A vida está difícil, cada vez mais difícil…Sabe que eu e o meu marido já nem vemos televisão quando é tempo de notícias?”
Fartaram-se de ver e de ouvir notícias, vozes, opiniões alarmistas, duras, rígidas, pairando pouca verdade. “Nada sabemos ao certo, parece que ninguém quer dizer o que realmente interessa, só se desmentem e nada corresponde ao que sentimos todos os dias”, explicou. “Não vê o que se passou com os medicamentos? Numa semana, iam descer não sei quanto e, na semana seguinte, já se dizia que as comparticipações iam acabar e iam ficar mais caros a quem deles precisar… Mal de quem precisa, não é? Dantes, as notícias eram um chorrilho de calamidades, de desastres, de azares… agora, é só economia, dinheiro, intriga e nós a termos cada vez menos… Deixámos mesmo de ver notícias… Não acreditamos…”
Há quem meta a cabeça na areia, há quem se revolte e manifeste essa revolta de forma visível, há quem se revolte e se remeta ao silêncio. Não será ainda desespero o sinal máximo, não. Mas é a desesperança que nos está a invadir, qual onda de areia que tudo vai secando e impedindo que o olhar sorria para o futuro.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Mia Couto, "Pensageiro frequente"
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São 26 crónicas de Mia Couto que tiveram já um primeiro aparecimento na revista Índico, das Linhas Aéreas de Moçambique, e agora dão corpo a Pensageiro frequente (Alfragide: Editorial Caminho, 2010), datando a mais antiga de Janeiro de 1999 (“Zambezeando”) e sendo a mais recente de Maio deste ano (“Fintado por um verso”, texto que abre o livro).
Em “Nota Introdutória”, Mia Couto não esconde o propósito que esta sua colaboração na revista teve: “fazer com que o meu país voasse pelos dedos do viajante, numa visita às múltiplas identidades que coexistem numa única nação”. Esta apresentação acaba por sintetizar alguns pontos comuns às crónicas ora reunidas em livro – a viagem pelas várias facetas de uma identidade, a mística dos lugares e das gentes, a poesia dos sítios, a partilha do mundo com a natureza, tópicos que resultam dessa viagem que o pensamento assume e de uma leitura do mundo também perfilhada pelo olhar do biólogo que Mia Couto é.
O leitor voa nestas crónicas contemplando e descobrindo segredos da paisagem, do reino animal, do mundo, da história e da vida, desvendando um país, encontrando-se com marcas de identidade(s) do outro e de si. São crónicas felizes estas, em que o cronista usa a palavra para a sua vocação de viajeiro e partilha as suas aprendizagens com outros intervenientes nas crónicas, com os próprios leitores, assim lhes apresentando um país, pintado com as cores da diversidade, num quase roteiro de moçambicanidade.
Sublinhados:
Beleza – “A beleza do futebol não está no golo. Como na arte do namoro: o fascínio está nos preparativos. O encanto está no que não pode ser traduzido nem em número nem em palavra.” (12)
Vida – “Pode haver um mister para as artes da bola. Mas o único treinador para as lides da Vida somos nós mesmos.” (16)
Paraíso – “O paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos dentro de nós.” (23)
Acreditar – “Há coisas que fazemos por acreditarmos. Outras coisas passamos a fazer por deixarmos de ter crença.” (59)
Verdade – “Por vezes a resposta é errada simplesmente porque a pergunta é incorrecta. (…) Certas coisas são verdade numa dada relação, num dado momento.” (69)
Lugar – “Os lugares são da natureza, pensamos. E não há mais que pensar. Mas os lugares foram fabricados por histórias. E são fazedores de tantas outras histórias.” (75) “Os lugares só são nossos quando cabem num nome. Quando os reduzimos a palavras, simples como coisas que se arrumam na algibeira. Ao fim de um tempo, porém, o nome acaba substituindo o próprio lugar.” (108) “Não é o voarmos sobre os lugares que marca a memória. É o quanto esses lugares continuarão voando dentro de nós.” (115) “Os lugares não se comparam. Como as pessoas, cada um deles acontece num momento único, numa única e irrepetível vida.” (118)
Fotografia – “O mais importante nunca se pode fotografar (…). O que fica para sempre, o que nos revolve a alma é o que não pode ser capturado pela moldura.” (103)
Ilha – “As ilhas são como pessoas: querem existir por si mesmas mas receiam a lonjura.” (111)
Bichos – “A ética dos bichos não pode ser transferida para o nosso universo social, a não ser em texto de fábula.” (122)
Menino – “Ser menino é estar cheio de céu por cima.” (129)
sábado, 27 de junho de 2009
Sobre exames, que se está no tempo deles
Diário da Auto-Estima – 102
Exames I – Os exames nacionais dos Ensinos Básico e Secundário têm causado pouco impacto nos media, ainda que algumas opiniões tenham já saltado para a ribalta a falar da facilidade e do futuro enriquecimento dos dígitos positivos na estatística. O costume. Os resultados o dirão e, como é óbvio, servirão para cimentar opiniões, ainda que diversas. O resultado de um exame vale o que está estabelecido e é também fruto de condicionantes momentâneas. É sempre a consequência de um princípio social e politicamente aceite. Deve ser ponderada a interpretação do que ele significa quanto ao valor do trabalho de um ciclo ou de um ano de estudos. Nos exames, o momento ou a estrutura da prova também contam para quem tem que a resolver. E estes aspectos também têm o seu quê de convencional. Depois, virão os “rankings”, uma amostragem ou uma seriação que vale o que vale porque existem muitas condicionantes escondidas para que os resultados sejam aqueles, a começar pelos melhores… E choverão as pressões quanto às opções, deslizar-se-á sobre o porquê de serem estas escolas e não outras no princípio ou no fim… como se tudo fosse um jogo de sorte ou de azar apenas… E tudo acalmará logo que a época passe!
Exames II – Leccionei Língua Portuguesa de 9º ano. Sei como os meus alunos foram para o exame. Todos partilharam a noção de que os enunciados de exame eram mais fáceis do que os testes havidos ao longo do ano lectivo. Isto podia causar-lhes ilusões, que tentei desfazer. O exame de Língua Portuguesa de 9º ano respeitava o programa, mas aparecer uma pergunta pedindo para assinalar, de uma lista de 10 palavras, as 5 graves é, do meu ponto de vista, descer a fasquia e pôr perguntas ao nível das provas de aferição de 4º ano. Por outro lado, não haver sequer uma alínea que testasse as funções sintácticas ou os recursos expressivos é falta que me parece exagerada. Tudo isto pode parecer pormenor, eu sei. Mas não é, porque, mesmo num exame, deve haver reflexão sobre a língua e sobre a matéria leccionada. E os alunos de 9º ano já têm condições para fazer isso! Consequência: “Ó professor, o exame foi fácil, bué de fácil!” Não sei porquê, mas fica-me sempre a dúvida de tal facilidade. “Vamos ver! Oxalá as notas sejam boas, claro!”, respondo. Vamos ver, pois!
OBS: Esta crónica deveria ter saído no Correio de Setúbal de hoje.
Por razões de calendário e de prazos de entrega, não saiu.
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sábado, 13 de junho de 2009
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Sobre heróis (de ontem e não de hoje...)
Na habitual rubrica “Viagens na história” que assina na revista Tempo Livre, João Aguiar escolheu para título deste mês “Como o tempo passa!” (Tempo Livre. Lisboa: INATEL, nº 195, Julho/Agosto.2008, pg. 54). O texto foi escrito em época das euforias do Euro 2008 e pretende falar de heróis…
Nuno Álvares Pereira (séc. XIV), Luís de Camões (séc. XVI), Luís da Câmara Pestana (1863-1899), Aníbal Augusto Milhais (mais conhecido por “soldado Milhões”, 1895-1970) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952) são os cinco heróis portugueses escolhidos por João Aguiar, homens que, “nos seus diversos domínios, conseguiram realizar obras verdadeiramente importantes que marcaram o rumo da nossa História”, cada um deles por uma boa razão – pela genialidade estratégica e pelo misticismo, pela poesia e pelo aventureirismo, pela luta contra a peste bubónica, pela acção na 1ª Grande Guerra e pelo prestígio na cultura, respectivamente.
E que tem isto tudo a ver com o Euro 2008? Eis a conclusão, de necessária leitura para rejeitarmos os excessos que nos foram impingidos, com a ajudinha costumeira da comunicação social, em tempo de simultaneidade de crise e de construção de heróis:
Nuno Álvares Pereira (séc. XIV), Luís de Camões (séc. XVI), Luís da Câmara Pestana (1863-1899), Aníbal Augusto Milhais (mais conhecido por “soldado Milhões”, 1895-1970) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952) são os cinco heróis portugueses escolhidos por João Aguiar, homens que, “nos seus diversos domínios, conseguiram realizar obras verdadeiramente importantes que marcaram o rumo da nossa História”, cada um deles por uma boa razão – pela genialidade estratégica e pelo misticismo, pela poesia e pelo aventureirismo, pela luta contra a peste bubónica, pela acção na 1ª Grande Guerra e pelo prestígio na cultura, respectivamente.
E que tem isto tudo a ver com o Euro 2008? Eis a conclusão, de necessária leitura para rejeitarmos os excessos que nos foram impingidos, com a ajudinha costumeira da comunicação social, em tempo de simultaneidade de crise e de construção de heróis:
Poderá já vir um pouco fora de tempo, porque a época do Euro 2008 já passou… Mas esta opinião ajuda a perceber a grandeza dos desgostos assim como os excessos a que aderimos!
terça-feira, 15 de julho de 2008
Como a "pen drive" da Maia anda a agitar o mundo
A crónica intitula-se "O mundo inteiro numa pen drive", é assinada por Nuno Pacheco e vem no Público de hoje:
«Se julgavam que o último grito em matéria educativa eram os artifícios para simplificar os exames de Matemática e fazer de todo o aluno um génio em potência, esqueçam. Há mais e bem melhor do que isso. Na Maia, um sistema revolucionário vai permitir aos mais tenros rebentos em idade escolar andarem mais leves e deixarem de vez aquelas terríveis mochilas que os fazem parecer turistas de inter-rail. Além do mais, é simples e conciso. Basta pôr tudo numa pen drive. E a dita cuja no bolso. O velho Caderno Diário do tempo dos avós dará, assim, lugar a um novo Caderno Digital. A heróica tarefa tem já data de arranque e no próximo ano lectivo a felicidade invadirá o básico. Pelo menos os lugares (além da Maia) onde a tal pen drive substituir os pesados livros e cadernos.
«Se julgavam que o último grito em matéria educativa eram os artifícios para simplificar os exames de Matemática e fazer de todo o aluno um génio em potência, esqueçam. Há mais e bem melhor do que isso. Na Maia, um sistema revolucionário vai permitir aos mais tenros rebentos em idade escolar andarem mais leves e deixarem de vez aquelas terríveis mochilas que os fazem parecer turistas de inter-rail. Além do mais, é simples e conciso. Basta pôr tudo numa pen drive. E a dita cuja no bolso. O velho Caderno Diário do tempo dos avós dará, assim, lugar a um novo Caderno Digital. A heróica tarefa tem já data de arranque e no próximo ano lectivo a felicidade invadirá o básico. Pelo menos os lugares (além da Maia) onde a tal pen drive substituir os pesados livros e cadernos.

Para quem não sabe o que é uma pen drive, digamos que é uma espécie de disco rígido de computador disfarçado de caneta. É pequena e tem vindo a ganhar memória, como se fosse uma esponja ou uma amiba. No curto espaço de escassos centímetros armazena-se hoje o que há 30 anos exigiria salas inteiras. É o progresso. E como deixar as crianças longe dele? De modo algum. Assim, tira-se-lhes peso das costas e põe-se-lhes tudo no bolso. "Menino, onde estão os trabalhos de casa?" "Tá tudo aqui na pen drive, stôr." E os cadernos? E os apontamentos da aula de ontem? Pen drive, claro. E os conteúdos, perdão, os livros? Na pen drive, onde haviam de estar? O projecto tratará do assunto.
E as canetas, os lápis, as borrachas, aquelas coisas que servem para escrever, para apagar, para rascunhar e escrever de novo? No museu. Porque agora há a pen drive. Escrever é só no computador, com teclas. À mão cansa. E a caneta pesa. E não cabe na pen drive.
Neste dilema revolucionário, os alunos vão começar a atirar para a pen drive tudo o que puderem. Até o lanche há-de um dia, miraculosamente, ser-lhes servido numa pen drive. Exagero? Esperem pelo futuro. Até lá, porque as coisas são assim mesmo, há que pensar em que ranhura vão os pequenos estudantes encaixar a respectiva pen drive. Terão um computador para cada um, certo? Ou vão fazer fila no computador único da aula, para descarregar a "mala" enquanto os outros ficam a ver? Dúvidas ridículas. Certamente que os autores do projecto pensaram em tudo. Como tornar produtivo tal sistema, como evitar que as crianças não tragam na pen drive o que habitualmente trazem (jogos, fotos, brincadeiras, etc.), como fazer disto tudo uma coisa eficaz e responsável. Sim, porque até os professores já trazem tudo o que precisam em pen drives. Eles e os gestores, os empresários, os corretores da bolsa. As pastas que trazem na mão é só para disfarçar. Na verdade, tudo aquilo de que realmente necessitam já vem no bolso, no disco de plástico.
Os anos que perdemos numa confusão de papéis! Agora, o admirável mundo novo das pen drives, além das maravilhas na redução de peso, trará conteúdos didácticos, quadros interactivos, jogos pedagógicos. Trará até interfaces da escola com a autarquia. E da escola com os pais. E de todos uns com os outros, que é para isso que estas coisas servem.
Se trará ou não melhores alunos é o que ninguém consegue ainda saber. Mas isso é porque ainda não conseguem metê-los em pen drives, embora o desejassem. Há-de chegar o dia e, nessa altura, serão mais portáteis. Em lugar das carrinhas para levá-los até à escola, bastará um distribuidor de pen drives. E com um saco bem pequeno. Quando finalmente dermos cabo do mundo, podemos deixar as sobras numa pen drive. Assim, os extraterrestres não terão dificuldade em encontrá-lo. Desde que tragam com eles um laptop, claro. Nas viagens intergalácticas, há que andar sempre prevenido.»
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