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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

As reflexões de José Tolentino Mendonça

O hipopótamo de Deus e outros textos é um livro em que José Tolentino Mendonça recolhe crónicas diversas, normalmente curtas, que apresentam as características comuns indicadas no subtítulo “Cristianismo e Cultura” (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010). São pouco mais de quatro dezenas de escritos, reelaborados a partir de colaborações diversas na imprensa e na internet, coligidos sob o título de um deles.
A leitura destes exercícios de reflexão não pode andar arredada do poeta que o seu autor (também) é e que busca a poética do cristianismo, a poética de Deus. Na sua maioria, os textos partem de registos de leitura de manifestações artísticas diversas – a literatura, é evidente, mas também a música, a fotografia, o cinema ou a pintura – por aqui passando pretextos como Steinbeck, Frei Angélico, Barthes, Benjamin, Valéry, Pascoaes, Sontag, Mozart, Péguy, Galileu, Steiner, Boticelli, Matisse, Herberto Helder, Ruy Belo, Flannery O’Connor, entre muitos outros, além de um motivo maior como a Bíblia ou os evangelistas ou vários teólogos, com Bento XVI a constituir centro dos dois últimos textos.
Os pensamentos de Tolentino Mendonça constituem um desafio aos leitores, mas também à Igreja, convidando a interpretações e atenções bíblicas e a um olhar o mundo de forma empenhada e assumida, partilhando reflexões sobre o ser padre, a política, o outro, o mundo do trabalho, a vida editorial, o ser peregrino, a construção do mundo, sempre numa perspectiva do “cristianismo como estilo” (título de uma das crónicas), modelado a partir da imagem de Cristo, que “potencia uma vida humana onde aquilo que pensamos serem coisas relativas, como o amor, a justiça, o bem e a beleza, podem ser vividas em absoluto ou como patamares do absoluto”.
Frases que ficam:
1. “Brincar significa agir, não a partir do necessário ou utilitarista, mas como pura expressão gratuita, amorosa.”
2. “As lágrimas são um mapa pleno de significação e de leituras. Temos muitas maneiras de chorar, e o modo como o fazemos revela não só a temperatura dos sentimentos, mas a natureza da própria sensibilidade. Ao chorar, mesmo na solidão mais estrita, dirigimo-nos a alguém: esforçamo-nos para que ninguém veja que choramos, mas choramos sempre para um outro ver. As lágrimas emprestam um realismo único, irresistível à dramática expressão de nós próprios. São um traço tão pessoal como o olhar ou o mover-se ou o amar.”
3. “Somos acessíveis e também de uma inacessibilidade irredutível. Cada um é uma palavra e ao mesmo tempo um segredo.”
4. “Vivemos triturados na digestão que o mundo faz de nós. Consumimos em vez de consumar. (…) Sem darmos conta, são tantas as correntes que nos prendem e as dependências que nos diminuem.”
5. “O crepúsculo da arte de contar liga-se à incapacidade crescente de trocar uma experiência autêntica. Por isto, será cada vez mais raro encontrar pessoas que saibam contar uma história como se deve. (…) O narrador toma aquilo que narra da experiência – a sua própria ou alguma que lhe tivesse sido referida – e transforma-a em experiência para aqueles que escutam a sua história. O que alenta a narração é a moral da história e o seu desfecho, que abre para a questão: ‘E em seguida, e depois?’ Não há narração à qual não se possa opor a pergunta da sua continuação.”
6. “O que mais ameaça o natal é o próprio natal, isto é, a sua representação diminuída, estagnada culturalmente entre a quinquilharia dos símbolos e a oportunidade comercial, domesticada pela pieguice das frases feitas e das boas-maneiras.”
7. “Se a linha azul do mar tanto nos seduz é também porque essa imensidão nos lembra o nosso verdadeiro horizonte. Se nos elevamos até aos montes é porque na visão clara que aí se alcança do real, nessa visão sem cesuras, reconhecemos parte importante de um apelo mais íntimo. Se buscamos outras cidades (…) é também perseguindo uma geografia interior. (…) É tão decisivo que as férias, tempo aberto a múltiplas errâncias, não se tornem um período errático e vago; tempo plástico e criativo, não se enrede nas derivas consumistas; tempo propício à humanização, não se perca na fuga a si mesmo e no ruído do mundo. (…) O repouso é uma oportunidade privilegiada para mergulhar mais fundo, mais dentro, mais alto.”
8. “O que caracteriza a obra literária é uma determinada relação com a linguagem, é o facto de transpor e transformar, mediante um sistema verbal, uma experiência humana, mais simples ou mais sofisticada, criando um universo próprio.”
9. “A amizade é singularíssima e mune-se de uma desconcertante simplicidade de meios. O traço mais universal da sua gramática é, talvez, o da presença: mas esta tanto se faz de muitos encontros, como de poucos; de muitas palavras ou de um silêncio espaçado e confidente; de um telefonema por dia ou por ano; de uma ou de incontáveis atenções… O importante é que tudo isso se torne, a dada altura, uma história que nos acompanha e por onde o essencial da vida passa.”
10. “A beleza é um experiência que os sentidos não circunscrevem completamente, mesmo quando palpam, pois ela permanece inexprimível.”

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Rostos (73)

As crianças e os jogos Lego, em Billund (Legoland)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Patrimónios do nosso brincar

Patrimónios do nosso brincar – Brinquedos e jogos das 4 cidades é uma monografia que dá a conhecer brinquedos e brincadeiras de antigamente de quatro cidades portuguesas que estão geminadas e através de cujas Câmaras Municipais se tornaram co-editoras deste livro – Fundão, Marinha Grande, Montemor-o-Novo e Vila Real de Santo António.
Ao longo de uma centena e meia de páginas, o leitor pode ver alguns brinquedos antigos e ler a sua história, bem como confrontar-se com alguns testemunhos de brincadeiras antigas, num trabalho que resultou do empenhamento de cerca de 400 alunos de oito escolas (100 alunos de duas escolas de cada um dos municípios participantes). O projecto, que englobou os quatro municípios, decorreu entre 2005 e 2007.
A par com as descrições dos jogos e dos brinquedos e com os testemunhos de muitas pessoas, que vão contando os seus brincares, há também fotografias documentais e poemas de Miguel Torga, Fernando Pessoa, Francisco Bugalho, António Gonçalves, Terezinha Tavares e Sebastião da Gama.
João Amado, da Universidade de Coimbra, prefacia o livro, escrevendo, a dada altura, que “falar de brinquedos, tal como construí-los, é uma forma de fazer poesia”. E é através dessa poesia que o leitor (depois dos participantes no projecto) viaja até à infância (a sua ou a de outros tempos), às memórias, à sociedade, ao tempo, num percurso balizado pela recordação e pela inovação e experiência.
Apresentado em três capítulos – “A infância, o brincar e o brinquedo popular”, “Brinquedos populares” e “Jogos tradicionais infantis” –, o livro vale pelo prazer de ver um bonito objecto gráfico e de olhar o registo de uma infância que se constrói e inventa a partir de coisas tão simples como subir às árvores, ir aos ninhos ou tomar banho no rio… Sobre essa capacidade de invenção fala a informante Célia Domingues, por exemplo (n. 1969, na Marinha Grande): “Os brinquedos eram poucos! Nós brincávamos mais era na rua com terra, com água, com lama… Era a brincar com a lama, era a apanhar flores. Fazia barcos de cascas de pinheiro e brincávamos assim… entretínhamo-nos assim…” Há ainda a conotação da escola com o tempo feliz por ser aquele em que se podia brincar – “Mas eu brincava muito era na escola, era uma judia… Jogava à malha, ao calhau, que é com cinco pedrinhas…”, rememora Maria José Brito (n. 1933, em Tavira). Pelo meio, há também descrições e lembranças mais atrevidas, tal como recorda António Sousa Carvalho (n. 1939, Fundão): no jogo do cântaro, “às vezes, os rapazes faziam de propósito para partir o cântaro, a rapariga aventava-o para o apanharem, o rapaz desviava-se…” Brincadeira com malandrice à mistura, traz Ramiro Mosca (n. 1937, Marinha Grande) a propósito do jogo da cabra-cega: “À cabra-cega arranjávamos sempre raparigas para brincar com a gente e a gente aproveitava e também apalpava um bocadinho”.
E vale a pena terminar relendo parte do poema que de Sebastião da Gama é transcrito – em “O menino grande” (poema de Fevereiro de 1946, publicado pela primeira vez na obra Itinerário paralelo), relembra: “Nem tudo se foi: / Ficou-me, dos tempos de menino, / Esta alegria ingénua / Perante as coisas novas / E esta vontade de brincar.”