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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Prémio Literário Bocage entregue pela LASA, em Setúbal

Os três contemplados com o Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage deste ano, promovido pela Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA), estiveram, na tarde de ontem (feriado municipal em Setúbal, em honra de Bocage), numa cerimónia que teve lugar no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal. Aqui reproduzo a apresentação dos trabalhos vencedores, lida em nome do júri, de que fiz parte.

É esta a décima terceira edição do concurso literário Manuel Maria Barbosa du Bocage, que a LASA mantém, numa periodicidade anual e em várias modalidades, para honrar e alimentar a memória do poeta que foi embalado em Setúbal e que, um dia, deixou o seu “pátrio Sado” rumo à glória.
222 trabalhos foram apreciados pelo júri, constituído pela Dra. Adriana Simões, pelo Dr. Alexandre Castanheira e por mim próprio. Se o trabalho de leitura foi árduo na passagem pelos vários milhares de páginas, conseguiu-se algum grau de facilidade na decisão dos jurados, uma vez que, sem termos acertado critérios prévios, fizemos coincidir as nossas opções, resultantes dos nossos gostos e adesões, escolhendo por unanimidade os trabalhos que aqui se apresentam como vencedores, ainda que na modalidade da poesia outros trabalhos existissem que poderiam ser merecedores do prémio.
O que, desde logo, nos chamou a atenção foi a presença de Bocage nestes três trabalhos, não de uma forma redundante ou imitadora, mas através de criações originais, de leituras convidativas, em que se cruza a pertinência de Bocage com o presente, assim como a veia bocagiana com a revelação conseguida pela escrita. A este propósito, convém lembrar um outro poeta da nossa região, Sebastião da Gama, que, num poema ainda não publicado, redigido quando tinha os seus 16 anos, clamava: “Quem me dera – ai, quem me dera! – / ter o estro de Bocage / p’ra esta paixão sincera, / em verso, cantar e a laje / do teu coração quebrar / cessando, assim, meu penar.”
O “estro de Bocage” animava o nosso poeta da Arrábida – estávamos em 1940 – como hoje inflama muitos apreciadores de poesia, designadamente os três autores das obras que motivaram este nosso encontro.
Comecemos pela categoria Revelação, texto intitulado Epílogo, assinado por Eva Corte-Real, pseudónimo que corresponde a Catarina Alexandra Duarte Almeida, de 16 anos. O seu título não nos engana, remetendo-nos para um final – o dos derradeiros momentos de lucidez de Bocage. Peça de ficção, em prosa, alterna o sentir de um “eu” bocagiano com as lembranças do passado da personagem. Temos Bocage num quase exame de consciência, folheando o álbum das suas recordações mais intensas, aguarela por onde passam Pina Manique, o hospício, os frades, o quotidiano a bordo no trajecto da Índia, a vida de marujo, a mãe, o irmão, a boémia, as mulheres. O narrador que é Bocage demanda, em páginas que se assemelham às do memorialismo, “o sentido desta triste vida”, que resume, repentina e exageradamente, no seguinte: “É quase sempre o mesmo: vestígios de vinho barato, duas ou três moças por mês, uns versos e umas cantatas. Nada mais.” Guião possível para o que poderia ser o último quadro da vida de Bocage, esta memória forjada levá-lo-á a estabelecer a diferença entre a tristeza do fim e do abandono e a alegria resultante do prazer de viver, terminando a sua página com um auto-retrato que não desconhecemos: “Aqui estou eu, Bocage. Encharcado e quase morto, delirando sem ser entre um par de pernas.”
Este suposto desabafo de Bocage encontra-se novamente com o poeta Sebastião da Gama que mencionei há pouco – é que foi ele quem, há 61 anos, neste mesmo espaço, palestrou sobre Bocage e a sua poesia de amor, dizendo a dado passo: “No quadro da nossa poesia de amor, em que há lugar para o recato e para o discreto atrevimento, Bocage é aquele poeta que diz de frente o que tem a dizer. Nos outros, nos que se disfarçam e nos que congeminam, seria um amante como Bocage o que encontraríamos, a descermos à essência de cada um.”
A história que Catarina Almeida criou, em torno dos últimos momentos de lucidez de Bocage, revela uma personagem humanamente tratada, com um recurso à descrição equilibrada, mostrando uma faceta do homem que pode ter sido poeta, sentida, determinada pelo auto-retrato que Bocage de si mesmo traçou.
As marcas autobiográficas acentuam o trabalho vencedor na modalidade de ensaio, intitulado Espaço autobiográfico em Apólogos ou Fábulas Morais de Manuel Maria Barbosa du Bocage, assinado por José Vitalício, pseudónimo correspondente a Manuel Branco de Matos. Trata-se de um trabalho documentado, quer sobre o conceito e a história do género fábula, quer sobre a teorização da escrita autobiográfica, com um propósito assinalado: “Detectar, registar, analisar e interpretar indícios de cariz autobiográfico convergentes com a biografia do poeta Bocage, naquela diminuta parte da sua obra, exígua mas não despicienda, que vem na tradição dos três marcos miliários da rota da fábula, os mais conhecidos fabulistas de sucessivos períodos da cultura europeia e ocidental de quem Bocage se mostra epígono de mérito e fabulista original”.
Contendo a fábula um juízo crítico, fácil se nos torna aceitar que, na sua redacção, seja possível encontrar os tais indícios de cunho autobiográfico que o autor persegue. O corpus bocagiano apresentado por Branco de Matos é constituído por 28 fábulas, onde se podem ver valores que se impunham ao poeta setubalense: a liberdade, a revolta com a prisão e com o exercício da justiça, o ensimesmamento, o ciúme, o amor não correspondido, entre outros, com a voz do poeta a manifestar-se num discurso valorativo, cimentado por adjectivação adequada, indo além dos textos que lhe serviram de pretexto. Para o autor, Bocage passou por variados géneros “sem outros intuitos que não fossem a exorcização, catarse do seu sofrimento, ou como resposta necessária, e conscientemente prolongada no tempo, à altura das adversidades e das ofensas de que se sentiu vítima”. Assim, ter escolhido para veículo de princípios e de desabafos personagens animais, é a garantia de que “pela voz do grande poeta, os animais continuam a falar”.
É uma abordagem interessante esta que Branco de Matos nos propõe, chamando a atenção para um género literário muitas vezes relegado para o esquecimento e para uma parte da obra de Bocage de que se fala pouco, apesar de construída sobre fortes raízes da cultura universal e que tem ecos inesquecíveis na obra lírica bocagiana.
Na modalidade de poesia, a escolha encaminhou-se para o título Dois poemas esquecidos, subscritos pelo pseudónimo José Santiago, criado pelo autor João Baptista Coelho, obra composta por dois longos poemas, “Guerra e Paz” e “Cântico do Ser e do Não-Ser”, ambos construídos por sonetos, que surgem ligados porque o último verso de cada soneto constitui o primeiro verso do soneto seguinte.
A escolha da forma – o soneto – é já uma homenagem a Bocage, que foi um dos mais brilhantes sonetistas da nossa literatura. Mas os temas, pela reflexão que constituem sobre a vida e a morte, têm também a sua matriz bocagiana. No primeiro poema, temos o homem como construtor da paz e da guerra, enaltecendo-se a coragem e a sede de ir mais longe, mas reprovando-se as consequências de desmedidas ambições, materializadas na guerra, no sofrimento, na destruição, na morte, com evocações de Hiroshima, do Vietname, de Hitler ou de Nero. Pelos interstícios, passam Antero ou Florbela, numa afirmação de que a poesia brilha apesar de tudo: “E, frente a tais desvarios, tão supremos, / pasmados nos quedamos quando vemos / que ainda se cultiva a Poesia!”
Tempo de paradoxos é este em que o poeta afirma que “a própria guerra / faz parte do pão nosso de cada dia”, conciliando o inconciliável – a guerra e a conquista e partilha do pão –, assim intensificando o absurdo. Grito pela paz, o poema conclui com um convite: “Daí que eu aqui deixe o meu apelo: / Acabem neste mundo o pesadelo / da Vida não passar duma batalha! // Que os Homens compreendam que uma flor / abrolha para a vida e faz-se amor, / bastando-lhe do ar uma migalha!”
O segundo poema constitui uma peregrinação pelo “eu” que se confessa e se revê como ficando muito aquém do que parece, num caminho para o sem sentido, para a nostalgia. Um percurso também bocagiano, afinal, em torno de um herói que vê a deflagração dos ideais e a poeira em que, prestes, se transformará!... Também aqui, Baptista Coelho propõe a salvação através da palavra poética – depois de uma confissão (fórmula querida dos românticos e também seguida por Bocage), o poeta conclui: “Mas há no que vos digo, todavia, / um triste ser não-ser da Poesia / que a Musa quis depor à minha beira: // A mágoa que me dói, um fogo que arde, / de só me vir beijar… tarde, tão tarde… / agora que estou quase a ser poeira.”
Acreditou o júri estar perante três bons trabalhos, com leitura para ser apreciada, sobretudo porque, além de bem construídos, por todos eles perpassa o tal “estro de Bocage” de que lhes falei no início. Por outro lado, a diversidade de géneros e de olhares, um quase poliedro, permite-nos enaltecer Bocage, que, como Luís Forjaz Trigueiros neste mesmo espaço disse em 1947, é “um bloco estriado de mil filamentos”. Daí a sua riqueza!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Prémio Literário Bocage deixa cair o ensaio

O Concurso Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage foi instituído pela Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA) em 1999. Nessa primeira edição, que só abrangia a poesia, o júri foi constituído por Fernando Cristóvão, Manuel Gusmão e Helena Carvalhão Buescu. Em 2002, aquando da quarta edição do certame, a LASA passou a publicar os textos premiados, ideia de Maurício Costa, então Presidente da Direcção. Ainda nesse ano, às duas modalidades de poesia foi acrescentada a de ensaio, que foi ganha por Artur Vaz, com um texto biográfico sobre o patrono do prémio.
Esta modalidade de ensaio manteve-se até 2008, tendo sido ganha por autores brasileiros e portugueses, que revelaram Bocage em vários pormenores biográficos, haja em vista o ensaio de Jorge Morais, em 2006, intitulado Um maçon chamado Bocage, que, posteriormente, chegou a ter edição comercial.
Obviamente, a modalidade ensaística não é a mais fácil. Exige estudo, muito trabalho e muita reflexão. A quantidade de provas aparecidas para essa modalidade era escassa e, em 2003 e 2007, o prémio de ensaio nem sequer foi atribuído.
O Setubalense noticia hoje que a Direcção da LASA, ao anunciar a 11ª edição (para 2009), informou também sobre o fim da modalidade Ensaio, com os argumentos de que “a participação é escassa” e de que “é muito difícil para os autores arquitectarem histórias sobre Bocage e fazerem um trabalho de ensaio”.
Estes argumentos valem o que valem, mas não deveriam constituir razão para acabar a modalidade, antes deveria este prémio incentivar os estudos sobre a cultura e a identidade de Setúbal. Por outro lado, nada obrigaria a que essa modalidade existisse todos os anos, bem podendo ter realização bienal, por exemplo… mesmo porque o estudo e a reflexão não funcionam com pressão de tempo!
Obviamente, a Direcção da LASA, enquanto promotora da ideia, tem autonomia para tomar as decisões que quiser neste capítulo. Mas é pena que esta decisão deixe de valorizar os estudos locais também, sobretudo que deixe de valorizar o estudo e a investigação.
É útil que faça a minha declaração de ligação a este prémio: integrei o júri nas edições de 2002 a 2006, colaborei na preparação de algumas das edições das obras premiadas (2002 a 2007) e, por razões pessoais e profissionais, deixei a colaboração a partir dessas datas; nunca fui concorrente a nenhuma das modalidades.

O Setubalense: 13.Maio.2009

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Bocage à vista (44) - 2ª série

Bocage, por Júlio Pomar (1983)

[a partir de programa do Prémio Literário Bocage 2001, promovido pela LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão)]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Morreu Bocage

21 de Dezembro de 1805
Aos 21 de Dezembro de 1805, na casa onde vivia com sua irmã, na Travessa de André Valente, em Lisboa, faleceu Manuel Maria Barbosa du Bocage, um dos maiores poetas portugueses, que nascera em Setúbal em 15 de Setembro de 1765. Crítico mordaz, amador de boas e experimentadas coisas, apaixonado por deidades mil, teve o seu percurso ligado à boémia e à irreverência. Foi perseguido e encarcerado, teve ligações maçónicas, discutiu arte e política, deixou-se arrebatar pelo génio camoniano, foi conviva de cafés, cantou a liberdade e a vida, poetou, poetou, poetou. A memória não o esquecerá, seja pela obra, seja pelo protagonismo atrevido das anedotas que o futuro irá produzindo.

Gravura inserida na obra Poesias Selectas de Manuel Maria Barbosa du Bocage, coligidas e anotadas por J. S. da Silva Ferraz, de 1864.Nela se pode observar a imagética criada em torno de Bocage na segunda metade do século XIX, não faltando um retrato de Camões colocado numa parede dos aposentos do poeta.



Meus olhos, atentai no meu jazigo,
Que o momento da morte está chegado;
Lá soa o corvo, intérprete do fado;
Bem o entendo, bem sei, fala comigo:

Triunfa, Amor, gloria-te, inimigo;
E tu, que vês com dor meu duro estado,
Volve à terra o cadáver macerado,
O despojo mortal do triste amigo:

Na campa que o cobrir, piedoso Albano,
Ministra aos corações, que Amor flagela,
Terror, piedade, aviso, e desengano:

Abre em meu nome este epitáfio nela:
“Eu fui, ternos mortais, o terno Elmano;
Morri de ingratidões, matou-me Isbela."


21 de Dezembro de 2007
Hoje, passa o 202º aniversário da morte de Bocage. Pelas 18h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, vai ser apresentado publicamente o livro do "IX CONCURSO LITERÁRIO MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE", que dá capa aos trabalhos Livro das Alegrias, de Fernando Paulino, e Nas entranhas do mar, de Sara Ferreira Costa, ambos de poesia. A primeira edição deste concurso aconteceu em 1999 e a Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA), entidade promotora do certame, começou a publicar os textos vencedores a partir da quarta edição do concurso, em 2002. A entrada é livre.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Prémio Bocage - é já amanhã...

Amanhã, passa o 202º aniversário da morte de Bocage. De há uns anos a esta parte, a Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA) tem aproveitado esta data para fazer a apresentação do livro que reúne os textos premiados no Concurso Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage desse ano. A entrega do galardão aos contemplados tem ocorrido noutra data bocagiana, 15 de Setembro, Dia do Município e data em que Bocage nasceu no ano de 1765.
Amanhã, pois, pelas 18h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, vai ser apresentado publicamente o livro do "IX CONCURSO LITERÁRIO MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE", que dá capa aos trabalhos Livro das Alegrias, de Fernando Paulino, e Nas entranhas do mar, de Sara Ferreira Costa, ambos de poesia.
A primeira edição deste concurso aconteceu em 1999 e a LASA começou a publicar os textos vencedores a partir da quarta edição do concurso, em 2002.
A entrada é livre.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Fernando Paulino: o prémio "Bocage" outra vez

Já publiquei neste blog um postal sobre Fernando Paulino, professor em Setúbal e poeta na vida. Hoje, tenho que o referir de novo. É que, na IX edição do Concurso Literário "Manuel Maria Barbosa du Bocage", iniciativa promovida pela Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA), Fernando Paulino foi o vencedor na modalidade de poesia com o conjunto de textos (e proposta de livro) intitulado Livro das Alegrias. Fernando Paulino foi já galardoado em várias edições deste prémio: em 1999, na modalidade "regional", com o título A luz e a rosa; em 2000, na mesma categoria, com Nas margens do azul; em 2001, também na mesma classe, com Seara de palavras.
Por gentileza sua, aqui se reproduz um dos poemas que consta no livro agora premiado:

No primeiro verso liberto o pólen das sílabas
a alquimia entre a terra e a respiração dos versos

depois, teço as artérias do poema
escuto o enlaçar da escrita
traço o mapa dos lugares desse pequeno universo

por fim, prolongo a paixão do verbo
essa feliz expansão que me move no vagar
do tempo humilde da vida.

Entretanto, ficou-se também a saber que a premiada na modalidade "revelação" foi Sara Costa, uma outra (jovem) autora que já tinha sido galardoada na mesma modalidade na edição de 2004 com o trabalho Rasgos. Sara Costa (n. 1987) é natural de Cucujães, obteve já outros e vários prémios literários na área da poesia (nomeadamente, o "Corrente d'Escritas", em 2005), está representada em várias antologias e é de sua autoria a obra A melancolia das mãos e outros rasgos (2004).
A entrega do prémio terá lugar no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal em 15 de Setembro, dia de Bocage e da cidade, pelas 18h00.