Mostrar mensagens com a etiqueta Camões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Camões. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Manuel dos Santos Rodrigues - Ofício poético em louvor da vida



“Não me considero um poeta.” É a primeira frase que salta neste Altar de Pena Escrita, de Manuel dos Santos Rodrigues (Ed. Autor, 2018), que carrega ainda o subtítulo de “Tríptico Poético”. Poucas palavras andadas, uma explicação: “Isto não quer dizer que não tenha momentos, raros talvez, mas genuínos, de sensibilidade poética”. E, logo a seguir: “nesses momentos, com um pouco de habilidade versífera, pode surgir um poema”.
Um poema é um estado, uma técnica, uma voz própria, resulta de um momento, congrega tudo isso? Um poema é o sublime de uma língua que se escreve? Um poema justifica-se? O “prólogo” que Manuel Rodrigues apresenta tenta fundamentar os momentos poéticos que constituem este livro, desde logo assinalando a capacidade metafórica e a alegoria que podem existir nas pequenas coisas - “Um dia, alguém passa e repara naquele pequeno pormenor. Visto ao longe, é massa indistinta na paisagem, mas eis que, tocado pela vista, brilha com um relevo particular, dotado de especial encanto.” A poesia exige então esse movimento que se estabelece entre o “parar” e o “reparar”, daí surgindo a revelação, uma descoberta - “Viesses tu, poesia, / e o mais estava certo”, escreveu Sebastião da Gama, assim como quem diz que a poesia cauciona a graça, impõe a maravilha.
O jeito deste “prólogo” é semelhante ao “imprimatur” aposto pela autoridade para que o livro possa ser publicado, com a diferença de que, aqui, é o próprio autor que o atribui - “Este será o meu único livro de poesia. Valerá a pena? (...) Ainda assim, publique-se.” Quase parece que o autor tem de se pôr de acordo com o poeta que se esconde para que o livro aconteça!
E o autor volta a intervir logo a seguir, agora sob a forma de “Manifesto”, um conjunto de dez quadras em defesa da forma de escrita, em contestação do Acordo Ortográfico, por onde circulam a ironia e a recusa, mesmo o maldizer, em jeito de bengalada mais camiliana que queirosiana, numa brincadeira poética que não pode ser lida sem o acompanhamento da nota que, no início adverte que o autor não segue o Acordo “por o considerar inconsistente do ponto de vista científico e incoerente do ponto de vista técnico”.
Só a partir daqui entra o leitor no caminho do Altar de Pena Escrita, obra que se apresenta organizada em três partes: “Memória”, “Insano Amor” e “O Canto e a Pena”. É obrigatório de imediato associar esta trilogia a três momentos de um percurso - desde “Memória”, o primeiro conjunto de poemas, que nos remete para o tempo mais distante, para os fragmentos que desse tempo ficaram gravados, até “O Canto e a Pena”, a última parte, que nos chama a atenção para o título da obra, a juntar a necessidade da expressão (o “canto” ou a escrita que coroa a vida) e o sofrimento e dificuldade que compõem a vida (a “pena”). A escolha dos títulos para estas partes acaba por ser uma decisão poética que lhes associa os epítetos de clássicos como Plutarco, Anacreonte e Estesícoro e ainda criações mitológicas como Eros (na segunda parte) e Apolo e Hades (na terceira), assim se conferindo um tom alegórico a esta obra.
De facto, o leitor está perante uma obra em que se misturam o autor e o poeta, nisso se estabelecendo um certo pacto autobiográfico, umas vezes mais assumido, outras vezes mais sugerido. Poderemos dizer que este Altar de Pena Escrita é uma autobiografia que se aloja numa alegoria, grande sucessão de imagens que se colam a momentos, a lugares, a gestos. Um exemplo: qual a função das seis histórias que iniciam a primeira parte do livro, sob o título “Fábulas”? As histórias são conhecidas e circulam em todo o lado - a raposa e as uvas, o corvo e a raposa, a rã e a vaca, a cegonha e a raposa, o lobo e o cordeiro, o burrinho e o lobo -, tenham elas chegado a partir de Esopo, de La Fontaine ou da tradução que Bocage de algumas fez. Se as fábulas remetem para os ensinamentos através das narrativas, também nos lembram a simplicidade dos primeiros textos orais e sugerem ainda o tempo da infância. Ora, o percurso inicia-se numa infância, que pode ter uma dupla interpretação: a infância do traçado autobiográfico e a infância da escrita.
Este grupo é ainda constituído por poemas que denotam a aprendizagem veiculada pela via religiosa e por outros em que a prova autobiográfica surge evidente, desde logo pela evocação de Marmelos, a aldeia do concelho de Mirandela em que o autor nasceu, designada por “aldeia pequenina” (em que o adjetivo tem a dupla leitura da dimensão do lugar, por um lado, e a associação à infância - logo a seguir, há um poema, “História de vida”, cujo primeiro verso recorre ao mesmo qualificativo, “quando eu era pequenino”). Outras marcas topográficas povoam esta primeira parte, todas fazendo parte do trajecto geográfico que seguiram os passos do autor, como Moçambique, Lourenço Marques, Ourique ou a terra africana. A estas referências espaciais, estão associadas vivências felizes, despertando alegria e nostalgia, que não é apenas dos sítios, mas também de um tempo, o da infância despreocupada e satisfeita, imaginativa e revivida, como se pode verificar no poema “No meu tempo de cow-boy”: “No meu cavalo de pau / Ia fazendo tau! tau! / Co’a pistola de madeira. / Desta forma, a tauitar, / Via as horas a passar / Sem nunca sentir canseira.” (com a particularidade daquele neologismo inventado para relembrar o poder da voz associado ao gesto de brincar).
A primeira parte conclui-se com o poema “Ocaso”, melódica forma de pôr fim a esse tempo infantil, ainda que passando em revista todos os estádios da vida - o sol vai-se embora com saudades da criança  que “não se cansa de saltar e de correr”, do jovem “a nascer para a poesia”, do par que debica “segredos de amor, do velho que risca com a bengala “como querendo traçar / os passos da sua vida”. Um poema que fecha uma das partes parece congregar um tríptico dos ciclos da vida, assim como se anunciar a continuidade...
A segunda parte, “Insano Amor”, corre sob o signo de Eros e, logo no primeiro poema, não podemos esquecer a imagem de Fernando Pessoa, ainda que sob a capa de Ricardo Reis: “Vem, senta-te junto a mim, / tranquilamente, na margem verde do regato, / e escuta este rumorejar interior...” Reis diria: “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. / Sossegadamente fitemos o seu curso (...) / Amemo-nos tranquilamente.”
Alguns poemas fazem ecoar estruturas da lírica amorosa galego-portuguesa, seja pela semelhança temática do questionamento da ausência - “Onde estás, por que não vens?” -, seja pelo recurso ao refrão, que vai deixando um ressoar de sentido no poeta - “Ai, Deus, onde irás tu!”. Outros textos acompanham Camões na sua forma de sentir o amor como algo impossível de definir - “Há uma incógnita pendente / Um não sei quê mal assente / Entre ti e mim.” - ou como algo que faz assumir uma nova identidade - “Concedessem os deuses a quem ama / transformar-se o amador na coisa amada / Unindo os corações numa só chama” - ou pelas ressonâncias de imagens como a do “cativo” de amor. O erotismo afirma-se também por via da invocação dos mestres (Bocage e Camões, de novo, para aqui chamados), demonstrando que a arte da sedução visa também aquilo que será a mais humana reacção - “Não quero honras, não, só quero engenho / Pra levar-te comigo para a cama. (...) / Dou-te versos, em troca peço beijos, / Só por amor construo os meus poemas.”
Este grupo de poemas consagrados à temática do amor e da paixão faz reviver mitos clássicos que lhe estão associados, como o do rapto de Europa, de Hero e Leandro, de Narciso. Por ele transitam também princípios como o “carpe diem” - “simples mortal que sou, sem vã magia, / contente de ir vivendo o dia a dia” -, como o da escrita enquanto momento de celebração - “Flor que eu celebro, em poesia ou prosa, / Acirrado p’la força do desejo.” Ainda nesta parte, é valorizada a dimensão artística da escrita - “Não me apetece / ler ou escrever / ou sequer conversar”, como se estas três acções fossem as mais importantes que dominavam o poeta -, bem como a dimensão autobiográfica (num texto “feito a pedido de um amigo, que, tendo de se ausentar, lhe confiou a sua amada”, o nome do autor aparece registado) - “Pra ti espero um dia regressar, / Mas deixo-te, entretanto, em meu lugar / O bom Manuel, um grande e fiel amigo.”
O texto que encerra esta parte contém um tom algo disfórico ao intitular-se “Poema de fim de Verão”, dominado por verbos que remetem todas as acções para um passado concluído, fechado, mesmo no que aos deuses respeita: “Afrodite sorriu, Dioniso falou, / Eros feriu, esse insano e cruel deus. / O ciclo fechou-se. Resta dizer adeus...”
O terceiro grupo de poemas, “O canto e a pena”, deixa-se dominar pelo par mitológico de Apolo e Hades, a aproximação à luz e à glória, por um lado, e a certeza do sofrimento e da morte, por outro. O poema que abre este ciclo, “Invocação”, sugere aquela parte da escrita épica em que é pedida ajuda às musas para que a arte não falte. Sendo disso mesmo que se trata, o terceto que o encerra afirma-se pelo pragmatismo e por alguma ironia - “Pudera eu ser Camões no grande engenho, / No engenho sim, mas não no triste fado, / Pois penas que me cheguem já eu tenho.” -, embora no poema seguinte, o poeta reconheça a sua modéstia - “Perdoa, pois, ó divina Poesia, / Que a minha oração seja um mero bocejo”.
Nesta secção, o percurso parece ser muito mais autónomo, mais distante do convencional, seja pela mistura do cantar ao desafio com a poesia de José Afonso e de Sophia, seja pela pressão do academismo, que é violentamente recusado - “Poético. Vulgarmente poético. Pouco me importa, / odeio a poesia. Há alturas em que a odeio. Melhor, não / odeio a poesia, odeio as figuras de estilo, a conotação, a / literariedade, a metáfora, essa peste que se mete em / tudo que se presume literário.” A vida do poeta é atrofiada pela cidade e deixa enredar-se nas imagens clássicas do labirinto, da efabulação, dos temas horacianos (retomando Ricardo Reis).
É o momento da aprendizagem dolorosa das incapacidades que governam as vidas, como a invencibilidade do tempo ou o desgaste da memória - “E dói, dói, dói - caramba, se dói! / esta incapacidade de aprisionar a memória, / que o tempo, esse, nem vale a pena tentar pará-lo.”
À medida que o livro se aproxima do final, também a geografia das origens vai ocupando um cada vez maior espaço, numa posição antípoda das referências do início. Aqui, é a procura de lugares míticos, antigos, repletos de simbologia, começando por um “marco miliário”, medidor de distâncias quilométricas ou temporais, cruzando a ponte romana, bebendo na fonte também romana, olhando Vilarinho das Furnas, contemplando ruínas, cumeando uma mitologia própria que se diviniza no Larouco.
Aqui chegados, o derradeiro poema toma o título do livro, justificando-o - é sobre esse “altar” que a obra é posta, seja ela a obra poética, seja o percurso que se conclui. A poesia mistura-se com a braveza, a dureza e a eternidade da pedra - “Em pedra escrevi teu nome, Poesia, / Na pedra dura em que minha alma habita. / Na pedra o escrevi com pena esguia / Na pedra pura do altar de pena escrita.”
Este poema surge como a celebração final, cerimónia de conclusão, prova de que esta escrita outra coisa não foi senão a prova de uma vida - seja ela uma biografia, seja ela uma viagem de aprendizagem da poesia. Não faltam os elementos simbólicos como o sangue e o fogo, elementos fortes para gravar, exprimir, destruir, renovar; não falta o “sacerdote” perante a ara em que ritualiza e oferece a vida em sacrifício poético. E fica a oração final: “Eu te invoco, Poesia, eu te conjuro / Sobre esta pedra dura derrama teu olhar / Aceita minha vida, meu sangue puro / Que deponho na pena escrita deste altar.”
Uma vida que se conta (ou que se alegoriza), um poema que se conclui, um livro que termina. “Viesses tu, poesia, / e o mais estava certo”, dizia Sebastião da Gama. Esta poesia certificou a certeza desta vida.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Ana Pacheco em fado - "Cantar é Preciso..."




Ana Pacheco envereda pelo fado porque... "cantar é preciso", como poetiza o título do álbum! E, no final do dia de ontem, que bom foi poder ouvir este cd acabadinho de sair, o primeiro cd da Ana! Suave, harmonioso, simples. Bonito. Uma espantosa juventude casada com a tradição!
São dez os temas que o compõem: "Estarei onde" (versão portuguesa de "Tango to Évora", de Loreena McKennitt), "Com que voz" (poema de Camões, com música de Alain Oulman), "Fado das Cerejas" (letra de José Gago e música de Fado Pintadinho), "Fado das Violetas" (palavras de Florbela Espanca e música de Augusto Hilário), "Fado Loucura" (letra de Frederico de Brito e música de Júlio de Sousa), "A Minha Oração" (poema de Mário Rainho e música de Menor do Porto), "O sonho e a Vida" (letra e música de Ana Pacheco), "Costumei tanto os meus olhos" (letra popular e música de Fado das Horas), "Voz do Fado" (poema de Arnaldo Ruaz e música de "Fado Santa Luzia") e "Tantos Fados, Tanta Vida" (poema de Manuela de Freitas e música de Fernando Alvim). A voz de Ana Pacheco é acompanhada por Sérgio Costa (guitarra portuguesa), Albano Almeida (viola), Filipe Martins (contrabaixo), Rui Rosado (percussão) e Miguel Batista (guitarra de Coimbra).
Ana Pacheco é professora (somos amigos, para declaração de interesses) e, quando nos conhecemos, logo confidenciou a sua paixão pelo canto e pelo fado, arte que tem trazido para várias realizações da escola e com que tem atraído muitos ouvidos. Nos intervalos, anda por aí a cantar, entre Setúbal, Palmela e Lisboa. Para este cd trouxe alguns nomes ligados à região do Sado - o Albano Almeida, na música; o Arnaldo Ruaz e o José Gago, nos versos. E trouxe poemas que agora aparecem musicados pela primeira vez. Uma escolha criteriosa e sensível...
Para ouvir! Muitas vezes!

sábado, 19 de setembro de 2015

Fernando Pessoa chega de "Expresso"



O semanário Expresso iniciou hoje a distribuição gratuita da colecção “Obra Essencial de Fernando Pessoa” com o volume Mensagem e Outros Poemas, prefaciado por Fernando Pinto do Amaral.
Com edição coordenada por Ivo de Castro, cada uma dos nove volumes da colecção vai ser prefaciado por nome conhecedor da obra pessoana – Richard Zenith, Nuno Júdice, António Feijó, Ana Luísa Amaral, Rita Patrício, Clara Ferreira Alves, Miguel Tamen e Pedro Mexia são as assinaturas que se seguem para os restantes volumes.
Neste título de abertura, Fernando Pinto do Amaral usa o título “A matéria dos sonhos” para o seu prefácio e, depois de contar a história do aparecimento do único livro de Pessoa publicado durante a sua vida, estabelece um paralelo entre Mensagem e Os Lusíadas, sendo que “enquanto Camões nos conta a nossa História, a atitude de Pessoa é a de subentender nos leitores o conhecimento dessa História”. Outra dimensão abordada nesta apresentação relaciona-se com uma linha de leitura que passa pelo poder visionário, pela loucura, responsável por “distorcer ou alterar para sempre as coordenadas da realidade”, a que é cometida a capacidade de inovar, de construir, de dar alma ao mundo. Finalmente, o terceiro vector de leitura apontado é o da actualidade desta obra, assente sobre a realidade que nos rodeia e nos afoga – “Neste Portugal do século XXI, bem comportado e integrado numa Europa esvaziada dessa loucura – Europa essa onde o único valor parece resumir-se ao dinheiro e a alguns cadáveres adiados se ocupam a negociar orçamentos em Bruxelas enquanto milhares de cadáveres não adiados vão desaguando nas praias do Mediterrâneo –, um livro como Mensagem interpela os que não se resignam a essa tranquila mediania, insistindo em procurar outras dimensões onde possam projectar a sua febre de Além – uma febre perigosa ou insensata pelos padrões do senso comum, mas ainda assim uma febre que talvez nos faça alguma falta e de que Fernando Pessoa foi um dos soberanos intérpretes."

Um bom convite para uma boa visita à leitura pessoana!

domingo, 2 de agosto de 2015

Urbano Tavares Rodrigues: Encontro com Vasco da Gama em "Os campos da Promessa"



Corria o ano de 1490, era a data em que se celebravam as festas do casamento do infante D. Afonso com Isabel de Castela, descendente dos Reis Católicos, evento que fazia fervilhar Évora de tanta gente e de tanta alegria. Entre os presentes constavam Vasco da Gama e um amigo, Luís de Mendonça, que tinham cavalgado desde a costa alentejana. Está o leitor perante o início da trama de Os campos da promessa, de Urbano Tavares Rodrigues (Évora: Ataegina, 1998), obra que abre com a transcrição do poema “Au seul souci de voyager”, dedicado a Vasco da Gama, de Stéphane Mallarmé (poeta que morreria no ano em que se celebrava o quarto centenário da primeira ida do Gama à Índia).
Durante a viagem, a conversa ajuda a definir o perfil de Vasco da Gama, que confidenciava ao amigo sentir-se “homem de um tempo novo”. Vindo desde Sines, terra ao pé do mar, de pescadores e de mestres de embarcação, Vasco explica: “Eu aprendi sobretudo com velhos pilotos, gente nossa, que se fez na crista das vagas e na dança das tempestades, suspensa da luz do Setestrelo, a empurrar a morte com a esperança. E sonho muito. Sonho desde sempre que vou comandar uma grande armada, naus e caravelas guiadas pelo Senhor Cristo nas rotas do Atlântico e do Índico, com peixes descomunais saltando das ondas, feras a saírem-nos ao caminho à beira das selvas, hordas de cafres, cáfilas de mouros e outras estranhas criaturas vestidas de ouro, sedas raras e pedrarias, como parece que são essas do Oriente, e a todos terei de vergar, menos com as bombardas dos meus navios do que com o poder da palavra.” A citação é longa, mas logo o leitor se convence de que o trabalho apresentado passa pelos meandros da História, de tal forma a linguagem se cruza com o pensar da época retratada, seja na ânsia de chegar ao Oriente, seja na imagem que do outro se constrói.
Decorre a viagem por longas horas e o discurso dos amigos aborda outras temáticas, como a religião ou o poder de Deus, como a figura do soberano (D. João II), sendo também interrompido pelas cenas a que assistem, outra forma de a época ganhar tonalidades e de contextualizar o tempo: o frade “rotundo, gozando, muito quieto, a presença de Deus” junto de humilde capela; os escravos que ajudavam na lavoura lá para os lados do Torrão; um encontro inesperado com um lobo atacante; as “silhuetas andrajosas de um grupo de infelizes”, leprosos que circulavam “ao Deus dará”; a paisagem de pastorícia, em que ambos ouvem as queixas de um pastor, pesaroso com “o mal da cobiça” (a quem Vasco da Gama promete que, em breve, no reino, haverá tal abundância que a todos fartará); o encarar com um louco, “homem silvestre”, que levará Mendonça a especular sobre as profundezas da loucura; as raparigas de um povoado que parecia abandonado, de tal forma os moradores estavam assustados com a ladroagem que os ameaçava; enfim, uma viagem que Mendonça resumiria no meio de uma conversa na pousada de Alcáçovas, depois de mostrar o seu ar poético num vilancete – “tudo o que vimos durante esta nossa viagem – a miséria, o roubo, a solidão, o sofrimento, a desgraça dos mais pequenos, vilões, vagabundos, doentes, leprosos, quereis que vos diga?, o mundo parece-me cruel e mal governado”.
Na cerimónia dos esponsais, será a vez de Vasco da Gama se cruzar com D. Manuel, “duque de Beja, primo do rei, e grande de Portugal”, momento de revelação, que contribui para o fechamento da narrativa – anunciando-lhe que, no seu rosto, “está escrito um grande destino” e assegurando-lhe a solidariedade (“Contai comigo, Vasco”), D. Manuel permite que o Gama fique a pensar no que lhe reserva o futuro.
E assim se faz a união da narrativa com o título: os campos do Alentejo e a promessa de D. Manuel. Uma história em que não falta a manifestação de um grande apreço pelo Alentejo (marca sempre presente na escrita de Urbano Tavares Rodrigues), uma paisagem em que decorre uma quase sinfonia de calma e de apaziguamento – “oscila, vagarosa, a linha do horizonte; sol e vento abrasam as estevas, sibilam, crepitam no mato alto; e o concerto das rolas, dos insectos, de algum grilo rente ao solo acompanha a caravana ao longo do percurso”. Uma história em que não falta uma quase declaração de amor a Évora, uma “cidade toda branca e jubilosa, sobrepujada por uma infinidade de campanários”. Uma história em que, não estando ausente o perfil da historiografia, tem também os ingredientes da criação literária, como acontece no momento de prolepse em que se anuncia o destino do noivo, a ocorrer dali a um ano – “Como que adivinha o Gama, ao vê-lo assim animoso e evanescente, que, cerca de um ano após o casamento, D. Afonso vai morrer de uma queda absurda, ao galopar de mão dada com um nobre seu amigo, D. João de Meneses, segundo uso da época, à beira do Tejo”. Com efeito, a História comprovou-o, um acidente vitimou D. Afonso em meados de 1491, quando cavalgava na zona de Santarém.
A narrativa conclui-se com a personagem Vasco da Gama a acalentar o sonho de ir até à Índia, sobretudo depois de ter recebido a promessa incentivadora de D. Manuel – “Irá surgir a minha hora? Benvinda hora.” E o futuro almirante abandona a festa, perseguindo a sua ideia, “pretextando cansaço, mas com a face banhada de esperança”, enquanto a paisagem se sintoniza com ele, pois “as laranjeiras, sob o luar, naquele largo branco de cal e absoluto, estão cobertas de ouro.” Entretanto, já Vasco da Gama tinha também a promessa da companhia do amigo poeta Luís de Mendonça, que, sofrendo a dor da morte de sua mulher, pondera seguir o herói “lá para as Índias, para o Oriente, para o desconhecido”.
Não sendo um conto extenso, Os campos da promessa foi uma forma de comemorar Vasco da Gama no ano em que se assinalava o quinto centenário da chegada dos Portugueses à Índia por mar. A história deixa um retrato de Vasco da Gama a querer integrar o futuro de Portugal, animado de um espírito de descoberta, sensível, todos ingredientes necessários à construção do herói que a História receberia no final daquela década, por incumbência de D. Manuel I (que subira ao trono em 1495) e que Camões iria glorificar literariamente três quartos de século depois.

Sublinhados
Loucura – “Será a loucura uma perda de faculdades ou uma outra forma de saber, tumulto da alma em que o mais fundo do nosso ser vem à tona?”
Dirigir – “Os homens não prestam e ao mesmo tempo são capazes de grandes feitos. Há que saber levá-los e dirigi-los com rigor, sendo preciso.” 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O mês de Bocage


Bocage volta a ser protagonista neste Setembro, em que passam 249 anos sobre o seu nascimento, uma acção acentuada pelo facto de o feriado de Setúbal se fundar sobre o dia em que Bocage viu a luz e por, a propósito da data e da efeméride, o nome de Bocage ser condimento indispensável para uma série de actividades.
Setúbal tem o condão de fazer coincidir o seu feriado municipal com uma data ligada a um poeta, tal como acontece, de resto, com o país, ao celebrar o seu dia numa data ligada a outro poeta. Destino ou mera coincidência, o facto é que Camões e Bocage se tornam inesquecíveis mesmo por essa coisa tão simples que é a de terem uma data sua no calendário dos eventos deste mundo, ainda que isso só por si não seja garantia de glória, uma vez que as obras dos poetas são para ser lidas, num gesto de construção da memória e numa atitude de contemplação da arte e de conhecimento.
Bocage é um monumento da cultura portuguesa e, comemorações à parte, bem merecia ser mais lido, mais falado, mais citado, mais conhecido. Obviamente, há textos difíceis na produção bocagiana; mas nem todos o são. E, depois, há um pormenor de graça: é que, recorrendo mesmo às traduções que o ajudaram a viver (e que ultrapassam em muito o “mero” acto de traduzir, pois que Bocage lhes associou criação), também encontramos poemas que podem ter público de todas as idades. Assim, lógico seria que pelas escolas, pelas colectividades, pelas instituições, se invocasse a obra de Bocage não só em Setembro. Creio que a elaboração de uma antologia acessível, equilibrada em termos de prazer da leitura, diversificada quanto a modalidades poéticas que Bocage deixou, deveria ser um objectivo de Setúbal, com divulgação dessa obra pelos setubalenses e pelos seus convidados ou visitantes, distribuição a começar a ser feita logo entre os alunos do primeiro ciclo (que até podiam ilustrar poemas de Bocage, acredito). A tarefa não seria complicada, assim houvesse vontade das instituições (autarquias, Centro de Estudos Bocageanos, LASA, associações e outros parceiros) em colaborarem conjuntamente num projecto destes.
Mas, porque Bocage é mesmo um monumento da cultura portuguesa, ele poderia ser também a motivação e a designação de um roteiro sadino, que passasse pelas coisas interessantes que fizeram a Setúbal do século XVIII, quer em termos de personagens, quer em termos de obra e de história. E, já agora, esse poderia ser um bom pretexto para a recolocação da lápide no exterior da Escola de Hotelaria, onde funcionou o designado “Quartel do 11”, que foi o Regimento de Infantaria de Setúbal, em que Bocage ingressou quando tinha 16 anos, como consta no “Registo do Regimento de Infantaria de Setúbal – livro 3º”, sob o número de matrícula 84, associando ao nome do poeta o castanho do cabelo e os olhos “pardos”. Ora, a lápide foi retirada aquando das obras que o edifício teve e, a partir daí, deixou de estar visível a inscrição que dava notícia da passagem de Bocage por aquele sítio. Não sei a causa da omissão; apenas sinto que este gesto é um lapso contra a memória – não só de quem é evocado, mas também de quem teve a ideia de ali registar o feito para memória futura. A única consideração que faço a este propósito é a de que é um dever dos responsáveis reimplantarem ali a lápide que inscrevia a passagem de Bocage num momento da história do edifício, da organização, da cidade.
E, para voltar a Setembro, recordo o teor da conferência sobre Bocage, pronunciada em 15 de Setembro de há 64 anos, dessa vez tendo sido convidado outro poeta para falar de Bocage: Sebastião da Gama, que escolheu o título “Lugar de Bocage na nossa poesia de amor” para dissertar sobre o poeta e sobre o amor, num percurso absolutamente simples e transparente em que enalteceu a “originalidade de Bocage”. Deixo algumas citações: “O que dá nome e novidade à poesia amorosa de Bocage é o desejo que a percorre toda, sequioso mas terno. (…) Alegre como o campo, claro como a manhã, o amor de Bocage. (…) Era a paixão em carne viva; nenhum romântico foi com tanta violência empós o coração, nenhum romântico foi tão romântico. (…) Poesia feita de impulsos, de momentos, de estados de alma. Não há pose na poesia de Bocage: aquilo que ali está é aquilo que foi; aquilo que não fora, se Bocage tem sido o poeta burguês que certos críticos desejariam.” O texto está disponível na colectânea O segredo é amar, um dos mais belos livros do poeta azeitonense, e, já agora que estamos a falar dos dois poetas maiores da nossa região, esse bem deveria ser outro texto a ter ampla divulgação, pois que é uma óptima iniciação à arte de Bocage!
Enfim: pretextos para que se prepare o ano de 2015, em que passarão os 250 anos sobre o nascimento de Bocage, idade que merece ser assinalada de acordo com o que o número representa…

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Bocage também ajuda a que se beba...



Bocage, entre outras não menos conhecidas figuras, como Camões e Garrett, por exemplo, a consumir a bebida que nunca lhe terá sido associada... não fosse a ideia da publicidade ao leite "Vigor" num mural de "street art", em Lisboa, na Rua José Gomes Ferreira, ali bem perto das Amoreiras. Original! E literário...

domingo, 13 de outubro de 2013

Edições facsimiladas da Biblioteca da Universidade de Coimbra



O diário Público começou a editar a colecção "Primeiras edições facsimiladas" a propósito da passagem dos 500 anos da Biblioteca da Universidade de Coimbra. O primeiro número da colecção foi essa obra que é fundacional em termos de identidade e que continua a obra magna da cultura e da literatura portuguesa que é Os Lusíadas, de Camões, pela primeira vez editada em 1572, saída na 3ª feira passada. Para 15 de Outubro, 3ª feira (dia em que saem os vários títulos da colecção), será a vez do Padre António Vieira e do seu livro "anteprimeiro" da História do Futuro, que teve primeira edição em 1718.
Uma colecção simpática e importante, que a todos mostrará também a história do livro em Portugal, além de fazer um percurso por obras identitárias da cultura portuguesa, tal como se pode ver pela lista dos títulos que se seguem aos dois já enunciados: Mau tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio (22 de Outubro); O crime do padre Amaro (1876), de Eça de Queirós (29 de Outubro); Portugal na balança da Europa (1830), de Almeida Garrett (5 de Novembro); Esteiros (1941), de Soeiro Pereira Gomes (12 de Novembro); Nome de guerra (1938), de Almada Negreiros (19 de Novembro); A confissão de Lúcio (1914), de Mário de Sá-Carneiro (26 de Novembro); Portugal pequenino (1930), de Maria Angelina e Raul Brandão (3 de Dezembro); As praias de Portugal (1876), de Ramalho Ortigão (10 de Dezembro); Fado (1941), de José Régio (17 de Dezembro); (1892), de António Nobre (24 de Dezembro); Contarelos (1942), de Irene Lisboa (31 de Dezembro); Grandes aventuras de um pequeno herói (1946), de Natália Correia (7 de Janeiro); Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (14 de Janeiro) e Coração, cabeça e estômago (1862), de Camilo Castelo Branco (21 de Janeiro). A não perder!

terça-feira, 15 de maio de 2012

Vasco Graça Moura apresenta "Os Lusíadas" a "gente nova"


Imaginemos a explicação da estrutura externa do poema épico de Camões apresentada da seguinte forma: “Para o fazer, Camões usou a oitava / Que é feita de oito versos a rimar. / Até ao sexto as rimas alternava, / Nos dois finais a rima vai a par. / Com oitavas assim, organizava / Essa história que tinha de contar / Em cantos que são dez e a nós, ao lê-los, / Espanta como pôde ele escrevê-los.” Fácil é ver que essa estrutura é explicada numa oitava, com versos decassílabos, seguindo o esquema rimático que nela explicado – os seis versos em rima alternada e os dois últimos em rima emparelhada. Mais acrescenta que a obra se apresenta em dez cantos, associando o espanto perante tal maravilha artística, operação estética de engenharia da palavra.
Quem apresenta Os Lusíadas desta maneira não pode ser poeta menor, sobretudo se se souber que, em centena e meia de páginas, ao longo de 383 estâncias, numa estrutura que compreende dez cantos e uma introdução, aquilo com que o leitor se confronta é com uma apresentação adaptada da epopeia camoniana. Seu autor é Vasco Graça Moura e a obra intitula-se ‘Os Lusíadas’ para gente nova (Lisboa: Gradiva, 2012).
Mais uma adaptação do épico? Sim, mais uma adaptação do épico, sem dúvida. Mas uma adaptação diferente, que dialoga com o poema camoniano permanentemente, que não esconde a voz do poeta renascentista nem se lhe sobrepõe, que não a distorce num exagero de simplificação, que não lhe retira nem belisca o ritmo em que o verso se embala, uma edição a pensar na “gente nova”, seja o destinatário definido pelo escalão etário ou por uma outra predisposição para embarcar na viagem a ver o que Camões dá.
Em nota introdutória, Vasco Graça Moura expõe as intenções, depois de dedicar o escrito aos netos: como motivação para este trabalho, “a confrangedora desvalorização dos clássicos”, “a impreparação de muitos professores”, a complexidade da “matéria verbal do poema”, a extensão da epopeia e uma certa “renitência enfadada” para com os autores portugueses; como trabalho sobre Camões, “a ideia de preparar ‘uns’ Lusíadas para os mais novos, reduzindo-lhes a extensão em cerca de dois terços, estruturando os episódios mais conhecidos em termos bastante simplificados, enfim procurando explicar, comentar, interpretar em termos muito acessíveis as passagens principais da epopeia, mas fazendo-o também em oitava rima de matriz camoniana, de modo a que os leitores mais novos, digamos entre os 12 e os 15 anos, possam ‘entrar’ mais fácil e amenamente na matéria do poema.”
Logo as primeiras dezoito estrofes, sob o título de “Sabemos muito pouco de Camões”, brotam como uma introdução ao poema e ao próprio poeta, abordando itens como a escassez biográfica de Camões e o destaque merecido pela sua obra, o conteúdo histórico do poema, o conceito de epopeia e de herói colectivo, a estrutura externa do poema, a apresentação das partes que constituem um poema épico, os planos narrativos, a contextualização histórica, a justificação do uso da mitologia, o contributo camoniano para o enriquecimento da língua portuguesa, as influências clássicas e o assunto que vai dominar o poema. Interessante é a aproximação feita aos tempos de hoje para se explicar o conceito de herói ou esse enlaçar entre os humanos e os deuses ou as ninfas – “Parece hoje uma banda desenhada / E afinal a gente não estranha / Que o Super-Homem voe, e nos agrada / O Senhor dos Anéis, o Homem-Aranha, / E tantos divertindo a criançada / Com repentina e mágica façanha, / Usando seus poderes sensacionais, / Batman, Harry Potter, muitos mais…” [Quando os meus alunos passearam nesta série das dezoito estrofes iniciais, o resultado foi interessante – afinal, em verso também se pode falar de coisas mais prosaicas, a linguagem é acessível, é preciso ser um grande artista para escrever isto! Palavras deles…]
Depois, o leitor entra nos cantos, oscilando esta adaptação entre versos e estrofes camonianos (impressos em itálico) e outros da lavra de Graça Moura, em redondo. Actualização e simplificação da linguagem, adequação da fraseologia, mas também explicação e remissões para outros saberes que associam a história e outras artes – repare-se na chamada de atenção para a descrição de Tritão, no canto sexto: “Notai como Camões logo o retrata / Juntando várias criaturas / Marinhas cujas formas ele engata, / Umas mais pegajosas, outras duras; / Arcimboldo, o pintor, andava à cata / Desse processo de pintar figuras, / E é nesse estilo que Camões desenha / Dando a Tritão uma aparência estranha.” Bastará ler a adaptação de Graça Moura, tomando palavras de Camões para a apresentação de Tritão nas estrofes que sucedem a esta ou, então, recorrer a Os Lusíadas (VI, 17-19) para se ver um retrato digno da pintura de Arcimboldo construído a partir da tela em que se oferecem as palavras de Camões!
Os versos de Graça Moura surgem frequentemente como a ponte para um acesso fácil à genialidade do épico – atente-se, por exemplo, nos sublinhados que surgem no final do episódio dos Doze de Inglaterra (onde até se recorre ao nascimento do futebol), afirmando-se que “Camões descreve a luta e dá-lhe cor, / E som, e movimento e um certo humor”, ou ao longo do episódio da tempestade, quando se diz que “São versos geniais: o movimento / Dos vagalhões e o rasgar das velas, / Os rugidos do mar, a chuva, o vento, / Os mastros a quebrar, mais as cautelas / Dos homens num esforço violento”; atente-se ainda no ambiente de sensualidade sugerido pelo episódio da Ilha dos Amores, convenientemente explicado como imaginado, onde as ninfas desfilam num jogo de atracções e de desnudamento, já que “Iam deixando então cair as suas / Roupagens pelo chão, aqui, ali, / E ao fazerem assim ficavam nuas / Ou quase, descuidando-se de si, / Maminhas a saltar duas a duas, / Belos rabinhos, bocas de rubi, / Cabelos de oiro, a pele como cetim / E grinaldas de rosas e jasmim.”
Da mesma forma que o início desta adaptação recorre às duas estrofes que abrem Os Lusíadas também os dois últimos versos desta adaptação são de Camões – “De sorte que Alexandre em vós se veja, / Sem à dita de Aquiles ter inveja.” Uma forma respeitosa de subordinar esta apresentação do épico à sua própria palavra, ao seu próprio dizer, dando-lhe a primazia na abertura e no encerramento do poema narrativo!
Mas o gesto de Vasco Graça Moura na admiração pelo pulsar da palavra camoniana vai mais longe ao ter escolhido este título para assinalar o seu 50º aniversário como autor (desde que, em 1963, publicou o volume de poesia Modo mudando), justa homenagem a um outro poeta, à obra maior da literatura portuguesa e à língua portuguesa. Se a adaptação d’Os Lusíadas feita por João de Barros nos anos 30 do século passado tem sido vista como a grande divulgadora da epopeia camoniana até hoje, não me custa admitir que este arranjo de Vasco Graça Moura alcance idêntico patamar, tal é o engenho com que foi concebido, tal é a sensibilidade que apresenta Camões como trunfo para o convívio com os leitores do século XXI!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Máximas em mínimas (76)

Descobrir
“Sempre que um povo ou um homem tenta desvendar e conhecer paragens até então ignotas, ou realizar um acto nobre e grande, parece que as forças da Natureza, ou a inveja dos outros homens tudo fazem para os não deixar vencer.”
João de Barros. “Os Lusíadas” contados às crianças e lembrados ao povo. 23ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1989, pg. 17.

domingo, 14 de agosto de 2011

Urbano Bettencourt - uma escrita fina...

... de ironia inteligente, com humor quanto baste, divertida, que mexe com o leitor.
Um exemplo?
Este, retirado de Que Paisagem Apagarás? (Ponta Delgada: Publiçor, 2010), que, em boa hora, foi apresentado em Setúbal pelo Manuel Medeiros há uns meses. Ei-lo:

Vida Social
Ele frequentava muito a literatura.
Para falar de gastronomia, citava o lascivo e doce passarinho de Camões. Os transportes marítimos não passavam sem dois ou três versos do poeta Alegre. A ecologia vinha, por norma, acompanhada de uns excertos de Sophia. O boletim meteorológico pendia sempre para umas frases de Nemésio. E até os problemas oftalmológicos desembocavam fatalmente em Saramago.
Era o perfeito socialite da literatura.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Duarte Ivo Cruz e a Índia no teatro português

Apesar de a Índia ser o grande motivo da epopeia camoniana, a verdade é que ela não constitui uma temática forte na dramaturgia portuguesa, sendo ultrapassada por outros momentos históricos. No entanto, os textos dramáticos portugueses que abordam a Índia pautam-se pela qualidade, ainda que tendo como motivação comemorações ou figuras e com uma visão a partir de Portugal. Este é o ponto de partida de Duarte Ivo Cruz na obra O Tema da Índia no Teatro Português (Col. “Essencial”. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2011).
Facilmente nos recordamos de Gil Vicente, o pai do teatro português e também o responsável pela inserção desta temática no texto representado, haja em vista o Auto da Índia, representado em 1509, em tom crítico e até contundente, “politicamente incorrecto”, dirá Duarte Ivo Cruz. No entanto, o rumo alterar-se-á e o teatro dará primazia às terras de África no que ao fenómeno da Expansão diz respeito.
Ivo Cruz faz a revisão essencial – correspondendo ao desígnio que norteia a colecção, de resto – da dramaturgia ligada à Índia, passando por nomes como Camões (mesmo porque o seu Filodemo foi lá estreado em 1555), António Ferreira (Fanchono, 1554) ou Simão Machado (Comédia do Cerco de Diu, 1601), entre outros, mencionando também o teatro que era feito a bordo ou o que tinha propósitos missionários.
A época romântica, mesmo pela dinâmica que ao teatro incutiu Garrett, dará alguma importância à Índia, mas sem elevado compromisso. Marco importante para o temário da Índia no teatro português é o final do século XIX, aquando da comemoração do quarto centenário da viagem do Gama, com direito a concurso nacional, tendo-se falado das obras de Marcelino Mesquita, Silva Gaio, Lobo de Ávila ou Júlio de Castilho, entre outros nomes. No entanto, algumas das obras não chegaram a ser representadas e outras nem foram publicadas.
Apesar de nesta temática terem investido nomes importantes, como Lopes de Mendonça, Carlos Selvagem ou Ramada Curto, a verdade é que outros dramaturgos de relevo do século XX e mais recentes, como Romeu Correia, Natália Correia, Helder Costa ou Luzia Maria Martins, procuram a Índia apenas através de personagens que por lá passaram, o que leva Ivo Cruz a considerar que “o século XX, e já agora, esta primeira década do século XXI, deixa cair em parte o temário indiano”.
A conclusão só pode ser uma: “A Índia, como realidade concreta e quotidiana, mas sobretudo como expressão histórica, constitui de facto um dos temas centrais da dramaturgia portuguesa: mas (…) fica muito aquém, pelo menos em quantidade, do grande tema da Expansão e da colonização africana”.
A retrospectiva sobre este tema é rápida, mas elucidativa. As obras referidas não são analisadas com delongas, mas ficam as referências para mais aturada leitura. Ivo Cruz consegue provar o essencial da sua tese – a da riqueza do tema, em simultâneo com a pobreza quantitativa da produção. Questão genuína de Portugal? O autor não o diz, mas conclui o seu percurso com uma citação de Luís António de Araújo, de 1779, que, ao analisar as causas da decadência do gosto no teatro, escrevia: “Ah! E de que prejuízos não enchem o público aqueles que só se ocupam em lisonjear-lhes as suas paixões! Por isso vemos mais sujeitos inclinados a ler a história de Carlos e Rosaura do que a de Vasco da Gama!” Será que esta pergunta não tem actualidade, nesta como noutras áreas?

sábado, 16 de julho de 2011

Rostos (153)

Peça escultórica, em Constância, na Casa de Camões

terça-feira, 21 de junho de 2011

Do exame de Língua Portuguesa de 9º ano

No exame de Língua Portuguesa de 9º ano, que ontem aconteceu, Camões e a sua epopeia foram metidos de forma inteligente no enunciado, através de um excerto de José Saramago, de Que Farei com este Livro?.
Houve, no entanto, duas questões que poderiam ter sido mais pensadas, talvez retiradas: uma, que, remetendo para o óbvio, destoa um pouco do nível da prova – a nº 6, da Parte B, do I Grupo: “Relê as linhas 17 a 20. Indica a razão pela qual Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o pedido de protecção.” Ora, nas linhas 17 a 20, a personagem Camões diz ao Conde: “A carta pedia a vossa protecção para as oitavas que por cópia estão em vossas mãos e para as irmãs delas que em minha casa ficaram. Disse-vos que é uma obra composta sobre os feitos dos portugueses e a navegação para a Índia, em que esteve vosso avô como capitão-mor.” Resposta óbvia, com tão reduzido grau de dificuldade que dá (terá dado) para os alunos desconfiarem… De acordo com o cenário de resposta constante nos critérios de correcção, a solução é: “Indica que Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o seu pedido, uma vez que há uma relação de parentesco entre o conde e Vasco da Gama, personagem da obra para a qual Camões pede protecção.”
A segunda observação relaciona-se com o último item da pergunta 9 da Parte C do I grupo, em que é solicitado um texto expositivo, que deverá seguir vários pontos, designadamente o de referir uma “semelhança entre [o episódio da partida das naus de Lisboa] e o episódio do Adamastor”. A gente pensa e lá vai encontrando umas aproximações, quais sejam as advindas de algum aventureirismo que se confronta com o desconhecido e com o perigo, por exemplo. Fica a sensação de que só se perceberá o que quer o autor da prova quando os critérios de correcção forem lidos. E eles aí estão: “Refere uma semelhança. Por exemplo: tanto «Despedidas em Belém» como «O Adamastor» são episódios da viagem para a Índia.”
Com tão banal semelhança, que dizer deste tipo de critérios?
Quanto ao resto, uma prova equilibrada, abrangente, valorizando a competência da leitura, mas também a cultura geral, ainda que podendo ter um grau de dificuldade mais considerável!...

sábado, 2 de abril de 2011

Faltas minhas e compensações pela voz dos alunos

Na tarde de hoje, bem me apetecia ter estado presente num de dois acontecimentos (ou até nos dois, ainda que dividindo o tempo): na entrega do prémio de poesia que o Rotary Club de Palmela promoveu e está a acontecer na Biblioteca de Palmela (mesmo porque integrei o júri) ou na tarde que a livraria Culsete está a promover para celebrar o Dia Internacional do Livro Infantil. Por razões de trabalho, não pude estar presente em nenhuma das iniciativas, ambas louváveis.
Tenho estado a avaliar trabalhos dos meus alunos – testes, adaptações de um conto de Mário de Carvalho e fichas de leitura. Estas últimas tiveram como objecto a obra de Maria Alberta Menéres Camões, o Super-Herói da Língua Portuguesa (Alfragide: ASA, 2010).
Tive de parar quando acabei de ler a do D.A., que, a dado passo, diz sobre este livro: «Este foi um livro que apreciei bastante, porque nos mostra uma vida mesmo muito difícil que Camões conseguiu superar, embora muito difícil de o fazer por vezes, e ainda escrever uma das melhores obras alguma vez feita. Também me surpreendeu muito o facto de nunca ter deixado de amar a sua Pátria: “morro com a Pátria”, depois de ter sido preso, mandado para a Índia para combater e de ter ficado na miséria.» E, como se isto não chegasse, um pouco adiante, torna-se mais evidente: «Este foi um livro de que realmente gostei, porque mostrou-me um verdadeiro patriota português, que sofre pelo seu país, que torna o seu legado na divulgação do grande feito do seu País e que perdoa o seu País depois de o ter deixado passar por tanto sofrimento. Este é um livro que recomendo definitivamente para quem acha que Portugal nunca fez grandes feitos ou nunca teve ninguém que fosse importante para a história do mundo. Ao lermos este livro tornamo-nos verdadeiros patriotas.»
A gente lê isto e tem de parar. Os jovens apreciam os grandes exemplos. E, além disso, as situações de justiça e de serviço ao próximo.
Já num teste feito ontem, um aluno do 9º ano, o M.C., na parte final, em que sugeri que cada qual escrevesse uma carta ao herói que Camões foi (temos andado a ler e a estudar Os Lusíadas), registava: «Acho interessante a forma como você valoriza os Portugueses, pois hoje em dia já ninguém se valoriza assim e você valoriza os Portugueses como um pai valoriza um filho». Mais à frente, a propósito da opinião de Júpiter sobre os Portugueses, o mesmo M.C. considerava: «a maneira como Júpiter nos valoriza é inspiradora pois isso faz um verdadeiro português sentir orgulho no seu país e não desprezo, que é o que se sente hoje».
Repito: a gente lê isto e tem de parar. Estes pequenos comentadores sentem o que vai acontecendo, sentem a nossa actualidade e são capazes de pensar. Isto é óbvio, mas nem sempre é tido em consideração…
Estas reflexões compensam-me das ausências que cometi.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia” dez cantos depois

A obra de Gonçalo M. Tavares Uma Viagem à Índia (Alfragide: Leya / Caminho, 2010) é daquelas que se começa a ler e não se descansa enquanto se não chega ao fim (aí incluindo o prefácio de Eduardo Lourenço), apesar de o seu autor, há dias, ter dito em Palmela que não seria necessário ler esta obra continuada, antes se podia começar num qualquer dos cantos que a alimentam.
O livro conclui com o verso “Bloom, o nosso herói”, em jeito de síntese do que foi toda a narrativa, uma apresentação das vivências de Bloom no seu itinerário pela vida e na sua viagem à Índia. Herói do século XXI, Bloom ruma para a Índia em busca da purificação. E, quando se pensa que tudo vai ser grandioso, vemos o herói a concluir a sua viagem em Lisboa, ofertando a sua mala com um exemplar raro do Mahabarata a um idoso desconhecido, na rua, e sabendo que é procurado pela polícia devido a dois crimes cometidos – assassínio do pai (imagem edipiana), que tinha assassinado Mary (mulher que Bloom amava, qual história de Pedro e Inês), e assassínio de uma prostituta em Paris.
O percurso de Bloom, numa narrativa várias vezes apelidada como epopeia, tem dois momentos importantes: a crença na perfeição e na purificação, buscada algures na Índia, depois de sentir a culpa do primeiro assassinato, e a desilusão trazida, depois de verificar que o mestre supostamente purificador era feito da matéria de todos os homens, roubava e conspirava. A decepção é forte, pois foi o resultado inesperado num destino onde era desejado o paraíso ou a utopia.
Bloom acaba perto do suicídio, impedido pela intervenção de uma mulher, aparente anjo salvador, apesar de ficar dito que “nada que aconteça poderá impedir o definitivo tédio de Bloom”. Com ele, apenas dele, só o velho rádio que pertencera ao pai, que “nem com a viagem voltou a funcionar”, imagem de uma purificação e de uma comunicação impossível, ironia sobre a solidão e a falta de companhia.
Neste trajecto sobre o homem só, há espaço para a reflexão sobre o mal e a maldade, numa viagem frequentemente pelo escabroso, pelas pedras que salpicam a vida. Se o texto se conclui com o termo “herói”, algo que rivaliza com a “inveja” que finaliza Os Lusíadas, certo é que, na lista de palavras que surge no final da obra como “Melancolia contemporânea – um itinerário”, a partir de pistas lançadas nas várias partes da história, a primeira é “razão”, mas a última é “tédio”, termo que, juntamente com “natureza”, tem o maior número de ocorrências nesse itinerário. Irónico, como o destino.
A epopeia de Bloom lembra a epopeia de Os Lusíadas, não apenas pela organização em dez cantos, em que cada um deles tem o mesmo número de estrofes que o poema camoniano, mas também porque o leitor consegue associar passos entre os dois poemas narrativos: os enganos e conspirações para atingir o herói, a ilha dos Amores parisiense, a existência de aliados, o feito “épico” várias vezes assinalado, as reflexões sobre o homem, a viagem, a história de Pedro e Inês (ou de Bloom e Mary), as reflexões sobre a guerra…
Livro de aprendizagem, num percurso repleto de máximas, bem se pode dele dizer que acaba por ser a epopeia do homem do século XXI, que não corre por grandes feitos, que sobrevive no meio de agressividades várias, que se desorienta por falta de pontos de ancoragem.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Rostos (143) - No Dia de Camões (e de Portugal e das Comunidades)

Camões, por Euclides Vaz (1969), na Biblioteca Nacional (Lisboa)

Vasco Graça Moura e a língua de Camões

No 10 de Junho comemora-se, entre outras coisas, a obra de Luís de Camões. Não cabe duvidar de que esse seja o propósito formal de Estado e das entidades oficiais envolvidas nos actos comemorativos, nem de que o nome, a figura e a obra do épico sejam automaticamente associados à simples menção daquela data.
Mas o que parece preocupante é o facto de cada vez menos haver em Portugal qualquer espécie de interesse por Camões e por aquilo que ele representa. O nome do autor de Os Lusíadas tende a ser apenas a marca distintiva de um feriado, ambíguo luxo nos tempos que correm, e pouco mais.
As questões da identidade começam por estar relacionadas com a língua materna e esta deve a Camões a sua dimensão moderna. Mas estão à vista as consequências que, para a identidade, decorrem do actual estado de coisas: a língua materna está cada vez mais deteriorada, tornou-se uma espécie de caixote do lixo onde cabem todos os dejectos e, tal como é utilizada e falada, um dia destes mal conseguirá distinguir-se de um mero conjunto de grunhidos comunicacionais.
Nem sabemos pronunciá-la, nem sabemos escrevê-la ou falá-la com um mínimo de correcção. E nem vale a pena falar da situação catastrófica que virá a ser gerada pelo Acordo Ortográfico se este algum dia se aplicar (para já, não está em vigor: o que acontece é que se começa a macaquear nalgumas publicações uma forma aberrante de grafar a língua).
A escola pouco ou nada tem feito para melhorar a situação. Pelo contrário: durante anos e anos, degradada por teorias pedagógicas e linguísticas absurdas, permissiva e frouxa de saberes, autoridade e disciplina, a escola tratou de substituir o trato com os grandes testemunhos da língua, indispensável para ela ser bem falada e bem escrita, por relatórios, bulas de medicamentos e outras coisas assim.
Vivemos numa época de apoucamento da língua, de empobrecimento do vocabulário, de aviltamento de todas as regras de gramática. É também um tempo em que toda a gama de valores que ela transporta consigo (intelectuais, cognitivos, estéticos, expressivos, afectivos...) deixou de contar. Vêmo-la subordinar-se servilmente ao facilitismo e à tecnologia, quando devia contribuir para uma estabilização dos seus paradigmas próprios, procurando equilíbrios permanentes com as tendências que são sinal dos tempos.
É por essas e por outras que os resultados escolares do nosso país, no confronto com as tabelas internacionais, costumam ficar no último lugar de todas as escalas. E em consequência a deficientíssima formação proporcionada por uma escolaridade leviana reflecte-se no geral atraso do país e na sua trágica incapacidade para fazer face aos problemas que tem de enfrentar.
Camões não podia imaginar que a geral incapacidade de aprender e falar correctamente a língua portuguesa explica em grande parte, tanto o insucesso escolar em todas as disciplinas como as restantes maleitas crónicas que nos afectam tão gravemente e não foram erradicadas pela generalização e democratização do ensino. Como explica a terrível ignorância com que os jovens concluem os seus cursos secundários e entram nos cursos superiores. E permite ainda compreender por que razão somos um país que não consegue sair da cepa torta.
Na comunicação intergeracional, também já parece não ocorrer aquela transmissão de um conjunto de princípios, de saberes e de tradições, entre eles os relativos à língua materna, que são elementos integradores da chamada cultura geral e de uma imprescindível visão do mundo transportada e transmitida ao longo do tempo.
Nada disto é novo. Há anos e anos que se discute o que se passa e não se consegue instaurar um conjunto de medidas, a começar pelos programas, que possam reputar-se de eficazes.
Basta trocar umas palavras com qualquer professor universitário para se ver que é assim e que não se sabe de que remédios lançar mão. A doença é muito funda e prolifera desreguladamente. Contribuiu para nos lançar na crise e, o que é pior, não abre perspectivas optimistas para sairmos dela.
O poeta dizia não lhe faltar na vida honesto estudo com uma longa experiência misturado. Hoje, muito poucos podem repetir esta afirmação em causa própria.
A língua de Camões está irreconhecível. Se ele voltasse ao mundo, decerto pensaria em rasgar a sua obra. Deixámos de ser dignos dela.
Vasco Graça Moura. "A língua de Camões?". Diário de Notícias: 09.Junho.2010

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Camões e a actualidade, segundo Luís Afonso

Luís Afonso. Público: 10.Junho.2009.

Tributo a Camões

A admiração por Camões tem sido expressa nas letras ao longo dos tempos, independentemente das nacionalidades dos seus autores ou das línguas em que se exprimam. Testemunho disso é a antologia de tributo a Camões editada há pouco mais de meia dúzia de anos, tomando para título o conhecido verso bocagiano, Camões, grande Camões… (Porto: UNICEPE, 2002), em que se reúnem quase duas centenas de nomes para cantar o épico português.
De todos, falemos do primeiro: António Ruivo Mouzinho, hoje professor aposentado, autor desta tarefa de recolha feita ao longo dos anos. Conta ele, em texto introdutório, que o projecto nasceu no início da década de 80, quando o Conselho Directivo da Escola Secundária Soares dos Reis, no Porto, lhe pediu que preparasse uma edição de homenagem a Camões, que seria ilustrada pelos alunos, visando assinalar o quarto centenário da morte do poeta. A tarefa tem bom final, porque, em 10 de Junho de 1980, era publicada a pretendida obra.
Mas Ruivo Mouzinho não se ficou por aí. E, já na situação de aposentado, continuou recolhendo os tributos a Camões, em jeito de puzzle a montar. E, assim, cerca de duas décadas depois da primeira iniciativa, a Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto (Unicepe) meteu-se a publicar a recolha de Ruivo Mouzinho.
O que tem Camões para atrair gente de tantas épocas, de várias latitudes, de diversas culturas? O antologiador no-lo explica: “O que faz a perenidade da poesia de Camões é que não há colete epocal que o cinja perfeitamente, pois o seu génio faz estalar as costuras de todas as vestes com que se pretenda dar-lhe figurino mais consentâneo com a arrumação em qualquer cabide definitivo. Por isso, ele pôde ser caro aos conceptistas, aos árcades, aos românticos, aos parnasianos, aos simbolistas, aos modernistas, aos surrealistas. Assim, o culto de Camões não conheceu até hoje soluções de continuidade nem mostra sinais de abrandamento (…). Transcendeu as fronteiras do seu próprio país, tem tantos devotos no Brasil como em Portugal e foi celebrado por Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses. Unânime é, porém, a humildade com que todos lhe reconhecem a dimensão ímpar: Camões é o paradigma do Português (povo e língua).”
Mencionemos, depois, os outros que o cantaram e que Ruivo Mouzinho acolheu. São 184 poetas como: Abade de Jazente, Acácio Antunes, Adriano Espínola, Afonso Celso, Afonso Duarte, Afonso Lopes Vieira, Agostinho da Silva, Alberto de Lacerda, Alberto de Oliveira (Portugal), Alberto d'Oliveira (Brasil), Alcides Werke, Alexandre da Conceição, Alfredo Carvalhais, Alice Gomes, Almada Negreiros, Almeida Braga, Almeida Garrett, Alphonsus de Guimaraens F°, André Falcão de Resende, Álvaro Pacheco, Ángel Crespo, Antero de Quental, António Barahona, António Correia d'Oliveira, António Feijó, António Feliciano de Castilho, António José Henriques, António José Viale, António Lopes Ribeiro, António Nobre, António Osório, António Tomás, Araújo Porto Alegre, Armindo Rodrigues, Arnaldo Gama, Artur Eduardo Benevides, Ary dos Santos, Assis Brasil, Augusto Casimiro, Augusto de Castro, Augusto Frederico Schmidt, Augusto Meyer, Austro Costa, Baltasar Estaço, Barbosa du Bocage, Bernardo Braga, Bernardo Guimarães, Camilo Castelo Branco, Carlos de Laet, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Filipe Moisés, Carlos Gondim, Carlos Nejar, Casimiro de Abreu, Castro Gil, Cesário Verde, Conde de Sabugosa, Conrad Ferdinand Meyer, Couto Viana, Cristóvão Aires, Dante Milano, David Mourão-Ferreira, Dias Freitas, Diogo Bernardes, Diogo Taborda Leitão, Duarte de Viveiros, Eduardo Coimbra, Eduardo Marquina, Eduardo Vidal, Eno Theodoro Wanke, Enrique de Resende, Ernesto Pires, Ernesto Viana, Eugénio de Andrade, Eugénio de Castro, Fernando Caldeira, Ferreira de Araújo, Filinto Elísio, Francisco Carvalho, Francisco Lopes, Francisco Palha, Franklin Távora, Friedrich Von Schlegel, Gaspar Frutuoso, Gastão Cruz, Gerardo Mello Mourão, Gomes de Amorim, Gomes Leal, Gonçalves Crespo, Gonçalves de Magalhães, Guilherme Braga, Hamilton de Araújo, Herman Melville, Jáder de Carvalho, Jayme de Séguier, Jerónimo Bahia, João Calceteiro, João de Barros, João de Deus, João de Lemos, João Lopes Leitão, João Xavier de Matos, Joaquim de Araújo, Joaquim dos Anjos, Joaquim Nabuco, Jonathan Griffin, Jorge de Lima, Jorge de Sena, Jorge Luís Borges, José Albano, José Alcides Pinto, José Augusto Seabra, José Blanc de Portugal, José Bonifácio (O Moço), José Carlos González, José Coutinho e Castro, José Facó, José Gomes Ferreira, José Jorge Letria, José Madeira, José Saramago, Josef Wilms, Keith Bosley, Leite de Vasconcelos, Lope de Vega, Lord Byron, Louis de Rienzi, Luís Augusto Palmeirim, Luís Carlos, Luís de Magalhães, Luís Delfino, Luís Soares, Luiz Guimarães Jr, Luz Soriano, Machado de Assis, Manuel Alegre, Manuel Bandeira, Manuel de Sousa Coutinho, Marcus Accioly, Mário Beirão, Maximiano Ricca, Melo e Castro, Mendes Leal, Menotti del Picchia, Miguel Torga, Murilo Mendes, Neide Archanjo, Nicolau Tolentino, Nicolaus Delius, Ofélia Bomba, Olavo Bilac, Pablo Neruda, Paulo Brito e Abreu, Pedro Tamen, Pereira Caldas, Pinheiro Caldas, Raimundo Correia, Ramos Coelho, Rangel de Quadros, Reinhold Schneider, Ribeiro Couto, Ricarda Huch, Rodrigues Cordeiro, Rosalía de Castro, Roy Campbell, Rui Knopfli, Ruy Proença, Saul Dias, Sérgio de Castro Pinto, Serpa Pimentel, Silva Ferraz, Simões Dias, Soares de Passos, Sophia Andresen, Teixeira de Pascoaes, Teófilo Braga, Teófilo Dias, Tomás Ribeiro, Torquato Tasso, Valentim Magalhães, Vasco Graça Moura, Visconti Coaracy, Wilhelm Storck e Xavier da Cunha.
Finalmente, refiram-se os nomes dos tradutores (ainda que alguns constem também como autores de poemas na lista acima): Elviro Rocha Gomes, Ernesto Guerra da Cal, Eugénio Lisboa, Gondin da Fonseca, João Barrento, Jorge de Sena, José Bento, José Coutinho e Castro, J. Leite de Vasconcelos e Tomaz de Figueiredo.
A obra contém ainda ilustrações de Fernando Gomes, António Augusto Menano e Roberto Merino.

Camões e "Os Lusíadas" para os mais novos

Com a edição do Público de ontem foi vendido, como opção, o livro Os Lusíadas – Episódios fabulosos, com selecção e adaptação do texto feita por Elsa Pestana de Magalhães e ilustrações de Jesús Gabán (Sintra: Girassol Edições).
Em nota introdutória, a autora da adaptação dirige-se ao “pequeno grande leitor” para curta biografia de Camões e para justificar a obra – “Ao adaptarmos esta obra para ti, quisemos que começasses a ter contacto com Os Lusíadas e a conhecer o seu conteúdo. Foi por isso que seleccionámos apenas alguns episódios e lhes demos uma forma reduzida e simplificada, procurando, porém, ser fiel ao sentimento de Camões.”
A intenção é a melhor e o livro afigura-se agradável. As ilustrações são elucidativas e equilibradas e acompanham a história. A selecção dos episódios é adequada, com excertos de todos os cantos e inserindo, por vezes, versos camonianos sem dificultar a compreensão e sem forçar o conjunto do texto. Frequentemente, o discurso não se distancia do registo de Camões, utilizando até as mesmas imagens ou palavras, mas com simplificação e explicação a propósito. O leitor ora se julga perante o texto original, ora se confronta com a adaptação, sem que haja cortes abruptos.
Há, no entanto, algumas dificuldades que seriam bem escusadas, tais como: nem sempre ser evidente quem é o narrador do que está a ser contado; o discurso directo assumir vários parágrafos sem que se perceba no imediato que se continua a "ouvir" a mesma personagem; frequência de mistura de formas verbais no tempo pretérito e no tempo presente no mesmo parágrafo, respeitando a mesma acção; manutenção no texto de alguns termos não usuais que poderiam ter sido substituídos, sem necessidade de recorrer aos significados em rodapé.
Esta é mais uma das obras que vem juntar-se à fortuna editorial em torno de Camões e da adaptação da sua vida e obra visando um público juvenil. Deixo aqui, sem exaustiva preocupação, alguns exemplos, nem todos recentes, mas em que vale a pena manter a aposta: Aventuras do Trinca-Fortes – Pequena história de Camões e do seu poema, de Adolfo Simões Müller (Porto: Livraria Tavares Martins, 1946), com ilustrações de Júlio Resende (em 1980, houve nova edição a cargo do Círculo de Leitores, com ilustrações de Antunes); Os Lusíadas contados aos jovens, de Adolfo Simões Müller (Mem Martins: Publicações Europa-América, 1980), com ilustrações de Fernando Bento; Os Lusíadas de Luís de Camões contados às crianças e lembrados ao povo, de João de Barros (Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1930), com ilustrações por Martins Barata (em 2008, houve nova edição, com ilustrações de André Letria); Camões, poeta mancebo e pobre, de Matilde Rosa Araújo (Lisboa: Prelo, 1980), com ilustrações de Maria Keil; Chamo-me… Luís de Camões, de Zacarias Nascimento (Lisboa: Didáctica Editora, 2007), com ilustrações de Ernesto Neves; Barbi-Ruivo – O meu primeiro Camões, de Manuel Alegre (Lisboa: Dom Quixote, 2007), com ilustrações de André Letria; "Os Lusíadas" para os mais pequenos, de Alexandre Honrado (Porto: Âmbar, 2008), com ilustrações de Maria João Lopes; Era uma Vez um Rei que Teve um Sonho: Os Lusíadas Contado às Crianças, de Leonoreta Leitão (Lisboa: Dinalivro, 2007). Quanto a adaptações em bd, lembro: Os Lusíadas em banda desenhada, por José Ruy (Lisboa: Editorial Notícias, 1983); Camões aos quadradinhos, por Rui Pimentel e Jorge Serrão (Lisboa: Aguiar & Dias, s/d) e Camões, por Carlos Alberto Santos (Porto: Edições ASA, 1990).
[A ordem por que se reproduzem as capas dos livros segue a da entrada dos mesmos no texto.]