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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Sebastião da Gama e Luís Amaro: Uma amizade para sempre



Por meados da década de 1990, estava com alunos numa visita de estudo em Monsaraz. A dada altura, três pessoas aproximavam-se do restaurante. Uma dessas pessoas era Luís Amaro. Reconheci-o por uma fotografia que vira pouco antes, sabia do seu trabalho em favor da literatura portuguesa, tinha alguma informação sobre a sua amizade com Sebastião da Gama. Tendo ao alcance a oportunidade de o conhecer, meti conversa. Ficou admirado por o ter reconhecido, pois não era dado a publicitações e cultivava a sua discrição. Lá contei como o conhecia e falei-lhe de Sebastião da Gama, da “Colóquio-Letras” e de literatura. Mantivemos um bom bocado de conversa. E, à despedida, voltou a manifestar a sua admiração por o ter reconhecido...
Passaram uns anos e, por 2007, voltei a contactá-lo, agora por carta. Fomos mantendo diálogo, ora por telefone, ora epistolarmente. Deu-me informações sobre Sebastião da Gama, fez-me chegar indicações bibliográficas, enviou-me anotações sobre a edição do “Diário” de Sebastião da Gama que preparei no sentido de melhorar uma próxima edição, ofereceu-me o seu livro com dedicatória a propósito, usando sempre uma afabilidade e disponibilidade que me impressionaram. Em duas das cartas referiu a lembrança daquele encontro em que nos conhecemos em Monsaraz, num gesto de memória extraordinário.
Senti perder um amigo e uma grande oportunidade de mais saber quando fui informado do seu falecimento em finais de Agosto.
Inevitavelmente, na rubrica “Evocar Sebastião da Gama”, teria de lembrar a extraordinária relação de amizade e essa aproximação fraternal que envolveu Luís Amaro e Sebastião da Gama (Jornal de Azeitão: nº 265, 2018-10, pg. 15).

domingo, 11 de março de 2018

Bocage: A primeira edição em livro em italiano




Intitula-se Importuna Ragione e é uma antologia de 40 poemas bocagianos (Bergamo: Edizioni Lemma Press, 2017). O título é tomado do primeiro verso do soneto “Importuna Razão, não me persigas” e o conjunto de poemas resulta de escolha de Daniel Pires na obra editada em e-book Da Inquietude à Transgressão: Eis Bocage (Biblioteca Nacional de Portugal, 2016).
Daniel Pires, estudioso e divulgador da obra de Bocage e diretor do Centro de Estudos Bocageanos, é também autor do prefácio, em que considera ser a poesia o “elemento vital do quotidiano de Bocage”, poeta que cultivou uma pluralidade de géneros e se assumiu como revolucionário, sendo “autenticidade e originalidade dois atributos” do poeta setubalense.
A antologia está dividida em dez partes: “Poemas autobiográficos” (cinco textos, em que não falta o “Magro, occhi azzurri, faccia scura”), “Poemas líricos” (quatro, aí constando o soneto que dá título ao livro), “Poemas de intervenção política” (seis, incluindo o soneto “Libertà, dove sei? Chi ti trattiene?”), “Poemas de intervenção social” (quatro), “Poemas do cárcere” (quatro), “Poemas eróticos” (quatro), “Poemas satíricos” (três), “As sete partidas do mundo” (quatro, com o inesquecível “Io mi assento da te, mio patrio Sado”), “A religião” (três) e “Doença e morte” (três).
Ada Milani teve a seu cargo uma nota biográfica sobre o poeta, bem como a tradução, que pretendeu ser coerente não só nas linhas de sentido, mas também no plano da sonoridade, do ritmo, da rima e do espírito. A obra contém ainda um texto posfacial devido a Vincenzo Russo, que considera Bocage “um poeta de transição, um poeta em trânsito”, afirmando, a propósito da designação de “pré-romântico” normalmente associada ao poeta sadino, tratar-se de uma “etiqueta” que permite “encontrar na obra de Bocage mais elementos do ‘novo’ que do ‘velho’”, assim salientando o carácter inovador da poesia bocagiana.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Bocage celebrado durante um ano no seu 250º aniversário



O ano em que se celebraram os 250 anos do nascimento de Bocage merecerá, com certeza, um balanço por parte das entidades envolvidas nas realizações. Mas, independentemente das conclusões a que cheguem, devemos reconhecer o quão importante foi assinalar a efeméride e o facto de o conjunto de realizações ter sido muito rico e de qualidade.
Aos setubalenses e aos visitantes de Setúbal, aos académicos e aos estudantes, no país e no estrangeiro, mostrou-se Bocage, falou-se de Bocage. De forma séria, de forma divertida, de forma humorística. Através das conferências, por meio da música, usando a expressão dramática, pelo olhar das telas e dos desenhos. Não terá sido um ano de celebrações perfeitas, mas foi um ano de boas realizações, que devemos reconhecer e aprofundar.
Em jeito de memória rápida, assinalo algumas iniciativas, de envolvimento muito diverso: as exposições sobre Bocage no coleccionismo, sobre Júlio Pomar e a sua leitura de Bocage, sobre Bocage visto por artistas contemporâneos, sobre Bocage visto por alunos e interpretado por Nuno Saraiva (na Festa da Ilustração 2016), sobre Bocage na revista “Ilustração Portuguesa”, sobre documentos bocagianos no Arquivo Distrital de Setúbal; ainda no campo da estética do desenho e do traço, a inserção de Bocage no painel azulejar sobre quatro poetas de Setúbal, da autoria de Andreas Stocklein, no Túnel do Quebedo; as conferências espalhadas ao longo do ano, em Setúbal, em Portugal e no estrangeiro, culminando com um congresso realizado em Setúbal (“Bocage e as Luzes do Século XVIII”); a dramatização de Bocage nas sessões “40 anos, 40 minutos”, animadas por José Nobre ou no musical levado a cabo pelo TAS da autoria de Miguel Assis; as incursões pela música no Encontro Musical com Bocage (obras de compositores setubalenses), na iniciativa “Bocage Sounds” ou na interpretação pela Orquestra Metropolitana de Lisboa do conjunto das nove sinfonias de Beethoven, contemporâneo de Bocage, excelente culminar do ano celebrativo; as entradas pelo cinema, na exposição sobre o filme “Bocage”, no visionamento da série televisiva sobre o poeta ou nas curtas “Bocage no bolso”; a produção editorial levada a cabo pelo Centro de Estudos Bocageanos (com várias publicações de temática bocagiana devidas a Daniel Pires e a Ana Chora), pela Imprensa Nacional (com um álbum sobre imagens e palavras ligadas a Bocage, de Daniel Pires), pela Associação Cultural Sebastião da Gama (com a reedição do ensaio sobre Bocage devido ao poeta de Azeitão), a colecção de marcadores de livros levada a cabo pela autarquia; e mais um conjunto de realizações várias, como a emissão da lotaria clássica (Outubro de 2015), o roteiro pedonal com 30 poemas de Bocage (incentivado pelo Grupo de Teatro Fontenova), a edição de rótulos bocagianos para uma produção de moscatel pela Associação Casa da Poesia e Casa Ermelinda Freitas, a disponibilização “on line” de um índice dos títulos bocagianos da Biblioteca Municipal de Setúbal, a introdução da temática bocagiana nas Marchas de Setúbal...
O interesse e o envolvimento com Bocage foram grandes e valerá a pena acreditar que, mais do que ficar um ano com muitas actividades, este foi um tempo que despertou os leitores, os estudiosos, os curiosos e toda a gente para a importância de Bocage na cultura portuguesa.

Setúbal conduziu este plano de divulgação e atenção bocagianas com esforço e empenho, numa realização em que não podemos esquecer a intervenção da Câmara Municipal, da LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão) e do CEB (Centro de Estudos Bocageanos), e em que também será justo mencionar, como o fez a Presidente da Câmara em intervenção que antecedeu a execução das sinfonias de Beethoven, os nomes de dois importantes obreiros destes eventos, como foram Daniel Pires e António Cunha Bento.
Foto:Bocage (Guia de Eventos. Câmara Municipal de Setúbal: nº 104, Set.2015)
(actualizado  às 18h15)