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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Direito ao copianço

Na disciplina de Investigação Criminal e Gestão do Inquérito ministrada no Centro de Estudos Judiciários, terá havido copianço no teste e houve a decisão de a todos os candidatos ser atribuída a nota 10, segundo os jornais de ontem.
Depois disto, vemos as justificações: “não fazer nada e branquear a situação não era razoável”, “repetir o teste era praticamente impossível”, “houve um conjunto extenso de alunos que não copiou”, “excluir toda a gente do curso era inimaginável”. Quatro razões para a atribuição de 10, devidas a um responsável do CEJ, reproduzidas no Jornal de Notícias.
A decisão colheu adeptos. E um representante da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, ainda segundo o mesmo jornal, explicou que esta opção “equivaleu a anular a função classificativa do teste e não deixou de obrigar as pessoas a prepararem-se para o teste.”
Com estes argumentos, nem valeria a pena haver testes! Só pelo facto de os formandos estarem inscritos e irem às sessões já deviam ter, no mínimo, 15 (na escala de 0-20), imagina-se! É por argumentos destes que apetece não insistir na honestidade ou na verticalidade, sob pena de sermos considerados retrógrados… e é o convite a este facilitismo que domina a sociedade, ainda que, paradoxalmente, depois se não acredite em quem se formou à custa destes esquemas…
Afinal, copiar num teste ou num exame é ou não é fraudulento? E a fraude é ou não é punível?
O mais curioso é isto passar-se justamente no âmbito da justiça, onde nem devia ser imaginado! Com tais exemplos, qualquer aluno de 9º ou de 12º ano que, a partir do dia 20, esteja em exames tem direito a reclamar o direito ao copianço a troco da positiva mínima. É a lei da analogia… Ah, mas esses não podem, porque a norma dos Exames Nacionais diz que…
Por outro lado, o argumento do representante da ASJP, segundo o qual “pode ter havido algum equívoco, da parte [dos candidatos], sobre a natureza individual do teste”, também não colhe – é que até os jovens do 9º e do 12º anos têm de saber que os testes são individuais (tenham ou não cruzinhas) e não se confundem com trabalhos de pares ou de grupo!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Entre o copianço e a ética

De vez em quando surgem as notícias sobre o plágio ou sobre o "copianço" e, por vezes, a explicação para tais casos - um texto que estava no computador, a sobreposição com as fontes, etc. Há bem pouco tempo, foi o caso de uma tese de doutoramento que terá sido decalcada a partir de uma outra defendida no estrangeiro; há dias, um investigador debruçava-se sobre o acto de copiar, puxando o assunto para trabalho académico e apresentando resultados avassaladores; há uns anos, foi o caso de uma colunista que, num artigo para uma revista, inseriu, sem indicar a proveniência, parte de um texto de outro autor publicado no estrangeiro... No quotidiano, na escola, vamos assistindo ao confronto entre o copianço e a seriedade, nem sempre saindo a última como vencedora. A net tem dado uma ajudinha nesta tentação, mas também tem servido para pôr a descoberto as quedas... Na última edição do Correio da Educação (da editorial ASA), o seu director, J. Esteves Rei, docente universitário, aborda o assunto de uma forma que merece a nossa atenção. De lá transcrevo.

«(…) É estranho que os alunos cheguem às universidades sem conhecerem claramente a dimensão ética da aprendizagem ou a relação entre o aprendente e aprendizado, tal como entre a fonte e a recepção da informação e do conhecimento.
Olhada a situação do lado do docente, também se estranha que, à primeira falta de clareza dessa relação, o professor não alerte o aluno dessa falha ética, apontando-lhe os riscos que corre perante a lei.
Do lado dos princípios, há que considerar os pressupostos e as grandes linhas de acção. Entre os primeiros, tenhamos presente que não há comportamento humano, individual ou colectivo, sem uma dimensão ética a envolvê-lo. Daqui decorre que cada indivíduo deverá identificar os princípios lógicos ou a razão ética, subjacentes às suas decisões, condutas ou comportamentos.
Na constituição desse conjunto de princípios há quem tome como ideia central o dever, ou o uso da razão, que no momento de agir se transforma em dever moral. As dificuldades na aceitação desta perspectiva nascem da impossibilidade de hierarquizar princípios quando surge o conflito entre dois deveres. Exige-se, então, ao indivíduo que saiba ponderar a importância de optar por um ou pelo outro.
Há, porém, quem escolha os princípios em função da utilidade das acções, em ordem a satisfazer o bem-estar dos agentes envolvidos e da sociedade, hoje ou no futuro. Neste caso, as reservas perante um princípio advêm da dificuldade em quantificar os riscos, danos e prejuízos, ao determinar a sua aceitação ou rejeição.
Como princípios gerais de uma ética aplicável a estudantes e professores, destacam-se os seguintes. A exigência de formação humana, intelectual e profissional deve ser timbre de qualquer escola, confrontando com ela o jovem, de qualquer idade. Por outro lado, não é possível crescer e agir humanamente sem pautar a sua vida por valores, assumidos pelo próprio e reconhecidos pela sociedade.
Num segundo patamar, situa-se a responsabilidade de aprender, pelo aluno e pela escola. Sem ela, não existem, nem esta nem aquele. A escola foi sempre uma zona franca para o espírito, um lugar amigável de encontro e descoberta do saber. Mas para isso exigem-se tolerância, abertura de espírito e respeito perante as dúvidas, as diferentes apreciações, os interesses e os ritmos de aprendizagem do outro, cujos limites se situam no dogmatismo, parcialidade, violência e falso consenso.
Por último, é indispensável a liberdade de opinião, método e pensamento. Tal atitude, a valorizar pedagogicamente, é propiciadora de soluções positivas para a resolução da maior parte dos problemas da sociedade. Todavia, a sua plena actualização tem como verso de medalha a solidariedade perante o outro e as regras aceites e sempre em reavaliação.»
J. Esteves Rei. “Quando copiar é uma fraude - Ética no ensino e na aprendizagem”. Correio da Educação. ASA: 17.Junho.2010.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Exames: Três em cada quatro alunos copiam na universidade

Este texto, que pode ser lido no Diário Digital de hoje, só surpreenderá os incautos ou quem viva num mundo tão virtual que não tenha qualquer semelhança com aquele em que vivemos. E quem diz "copianço" pode ainda dizer outras situações de favor para serem obtidos resultados positivos nos estudos, ainda que ambos comunguem da mesma característica - a fraude.
O que espanta é o ar de que tudo isto é normal. Aliás, na continuação da peça, é dito que os alunos não reconhecem o "copianço" como acto ilícito...
Há dias, tive uma prova disso: quando uma aluna tentava obter uma resposta para o teste, perguntando a solução a uma amiga, chamei-lhe a atenção. No final, veio falar comigo, dizendo: "Ó professor, vou ser sincera consigo. Só copiei a resposta X... Pode perguntar a Y..." Apenas comentei: "Porque queres ser sincera se já mentiste, pondo como tua uma resposta que não te pertence?" Ficou a olhar, embasbacada, porque nunca tinha pensado nisso... e eu fiquei a pensar que a sua prática irá continuar!...