Em 8 de Março de 2006, o jesuíta Manuel Morujão enviava carta para Timor, destinada ao também jesuíta João Felgueiras, congratulando-se: “Muito me alegro com a notícia de que o Padre Felgueiras e Padre Martins vão redigir ‘Umas memórias de Timor’. Acho que será um serviço apostólico muito importante, pois ajudará a ‘pôr os pontos nos is’, de muita meia verdade ou mesmo falsidade.” Um mês depois, a 7 de Abril, em nova missiva, Manuel Morujão dirigia-se aos dois jesuítas que estavam em missão em Timor, referindo-se ao livro que ambos preparavam: “Uma empresa muito meritória, directamente missionária, porque a missão também passa pela verdade histórica.”
A obra seria publicada nesse mesmo ano sob o título Nossas Memórias de Vida em Timor (Editorial Apostolado da Oração), assinada por João Felgueiras (1921-2026) e por José Alves Martins (1941-2022), e teria nova edição em 2010, apresentando-se organizada em três partes: o texto memorialístico do que os dois padres viveram em Timor entre 1974 e 2002; um conjunto de excertos de 44 cartas trocadas entre Timor e Portugal, datadas, mas com destinatários não indicados por razões de “discrição”; um capítulo final, “Via-Sacra do Povo de Timor Leste”, meditação em quinze estações lembrando o sofrimento dos timorenses (“O Povo de Timor sentiu a vossa Paixão durante 25 longos anos de violenta ocupação estrangeira. A vossa flagelação foi experimentada em milhares de timorenses, espancados e torturados da maneira mais atroz. Foram açoitados com paus, com cordas; foram torturados com choques eléctricos, com pontas de cigarro acesas, com as mais vis sevícias que os algozes inventavam para fazer sofrer”, primeira estação) e a esperança na construção do futuro (“Foi na esperança da vitória que o vosso povo de Timor lutou. Vitória pela liberdade, pela independência. Começa uma nova era de esperança e luz.”, décima quinta estação).
O propósito dos dois autores é claro desde início — “Acompanhamos e vivemos os acontecimentos que se desenrolaram a partir de 1974 até 2006 em Timor Leste. Queremos deixar por escrito este testemunho vivido durante 32 anos.” Não é, assim, uma história vista de fora, mas um relato do vivido, muitas vezes tendo os próprios autores como protagonistas, ainda que a escrita insista no uso da terceira pessoa para se referir à acção dos dois padres, dando a ideia de um certo distanciamento de análise e de memória, embora, por vezes, em situações mais emotivas, surja a primeira pessoa do plural para se referir aos mesmos protagonistas. Umas linhas adiante, a insistência na vivência: “O depoimento que vamos iniciar refere-se à nossa experiência vivida durante 32 anos em Timor Leste. Não é uma narração dos acontecimentos com uma preocupação histórica, mas uma narração de quem viveu e acompanhou o drama do povo de Timor.” Este aspecto vivencial e testemunhal é depois valorizado, justificando possíveis lapsos: “Não nos valemos de documentação histórica, embora a possuíssemos abundantemente, mas a nossa preocupação não é fazer história, mas simplesmente transmitir a nossa experiência”, pois “pretendemos comunicar o que vivemos, ouvimos e sentimos, fazendo ao mesmo tempo uma reflexão pessoal.”
Assiste o leitor à confusão política em Timor a partir de Agosto de 1975 (mês de golpe e de contra-golpe em busca do poder), à crescente entrada da Indonésia no território, numa marcha prenunciadora da invasão como “acontecimento inevitável”, que viria a acontecer em 7 de Dezembro desse ano, depois de, em 28 de Novembro, ter sido proclamada a independência timorense. “Vivíamos juntamente com o povo uma ansiedade pela incerteza das ameaças que sentíamos, prevendo que a guerra se aproximava de nós”, confessam os autores.
O dia da invasão, 7 de Dezembro, é apresentado com as pinceladas da guerra: “Pelas cinco horas da madrugada, passavam pelos céus de Díli, a baixa altitude, vários aviões indonésios que lançavam vagas de paraquedistas (...). A baía de Díli, naquela manhã contava cerca de 22 navios de guerra e transportes de barcos de apoio. Frente à praia dos coqueiros, começaram a desembarcar das barcaças tanques anfíbios, disparando canhões à medida que se aproximavam da terra (...). Vários batalhões de marines invadiam Díli. Foi a partir deste momento que começou a grande carnificina, matando quase indiscriminadamente membros da população que não eram rapidamente identificados, ou simplesmente mortos à rajada.”
A partir daqui, foi a fuga das populações para a montanha, o início de um tempo que não foi só de êxodo, mas também de genocídio, em que nada foi poupado, incluindo os edifícios religiosos, onde diversas congregações, designadamente os jesuítas, davam apoio à população, e onde havia o propósito de fazer desaparecer a língua portuguesa — um dia, os militares visitaram a residência onde os jesuítas ficaram após a destruição parcial do seminário e, ao verem já ordenado o que sobrara da biblioteca, “sugeriram que queimássemos os livros. Na verdade, eram livros em língua portuguesa. Nós sorrimos em sinal de que não o faríamos. Acabar com a língua portuguesa era a palavra de ordem.”
* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1800, 2026-07-15, pg. 10.



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