sexta-feira, 24 de julho de 2026

João Felgueiras e José Alves Martins e as memórias de Timor (2)

 


Ler Nossas Memórias de Vida em Timor, de João Felgueiras e de José Alves Martins, é o mergulho nos tempos de terror que os timorenses viveram sob a ocupação indonésia, durante muito tempo a sós, sem que se soubesse no exterior, porquanto a passagem de informação era escassa e rara, sempre condicionada pela clandestinidade e pelas denúncias e prisões. A ambos os autores iam chegando muitos documentos com o objectivo de que os mesmos fossem passados para o exterior, tarefa difícil e demorada, pois, por vezes, tinham de esperar “2 ou 3 meses para encontrar um portador de absoluta confiança”.

A facilidade com que muitos timorenses foram feitos prisioneiros contraria quaisquer direitos humanos — “Não existia qualquer instância judiciária, prisões preventivas, julgamentos... o que existia era a arbitrariedade, a lei do mais forte e o ódio contra simpatizantes da FRETILIN ou acusadas por alguém, por vingança ou para adquirir uma quantia irrisória de dinheiro”. As práticas de tortura sofridas tornam-se indescritíveis devido à violência que as caracterizava — “A tortura consistia, entre outros modos de sofrimento, em choques eléctricos, pontas de cigarro, arrancar unhas, fazer as necessidades no prato com a comida, pisar os pés com as cadeiras com um militar sentado em cima, espancamentos até as vítimas ficarem destroçadas, passar dias inteiros dentro de bidões cheios de água, horas contínuas de interrogatórios, ameaças de todo o género, e o serem submetidos a todo o tipo de sevícias morais, sobretudo as raparigas e as mulheres.” Referem os autores que, “por respeito à sensibilidade de quem já sofreu tanto”, omitiram “contar mais pormenores”. No entanto, alguns casos mais são apontados: “Recordemos o famoso lugar de morte, Builico, perto de Ainaro, onde as vítimas eram atiradas por um precipício abaixo de mais de cem metros de altura”.

A pressão dos invasores contra a denúncia do que acontecia era notória pelas ameaças, ao mesmo tempo que entravam “milhares de cidadãos indonésios em Timor, todos afectos e defensores da integração de Timor na Indonésia”. Na prática, a população timorense, desde a invasão em Dezembro de 1975 até 1980, desceu de 600 mil para 400 mil habitantes, consequência de “um genocídio causado pela fome, doenças, bombardeamentos, fuzilamentos indiscriminados, mortes devido a prolongadas prisões, desaparecimentos fantasmas e outros”, acção que pretendeu apagar a história do povo mesmo no plano da vida escolar — “o curriculum escolar era totalmente em indonésio. Para levar por diante esta mudança de curriculum e língua, Timor foi invadido por professores vindos de todas as províncias da Indonésia. O português foi completamente banido, excepto no Externato de S. José e no Seminário de Nossa Senhora de Fátima. O povo nem sequer podia saudar em português e a língua indonésia ia sendo imposta pelas escolas, pela administração e pelos militares.”

Para Felgueiras e Martins, não há dúvidas de que Timor lutou sozinho na resistência, tendo eles próprios sido presenças indesejadas pelos invasores, posição notada pelas ameaças ou pelos impedimentos de regresso ao território — quando, em Novembro de 1986, João Felgueiras veio a Portugal, catorze anos depois da sua chegada a Timor, teve contactos com Deus Pinheiro (Ministro dos Negócios Estrangeiros), D. António Ribeiro (Patriarca de Lisboa) e D. Manuel Martins (Bispo de Setúbal), entre outros, dando-lhes conta do que se estava a passar naquele território, mas, para regressar, como era sua vontade, teve de esperar até Setembro de 1987 por um visto para regressar a Jacarta, onde teve de permanecer oito meses antes de entrar em Timor.

Ponto forte na cronologia da resistência timorense é o massacre de Santa Cruz, perpetrado em 12 de Novembro de 1991: só por volta das 4 da tarde os dois jesuítas tiveram acesso ao cemitério onde ocorreu o massacre — “manchas de sangue no terreno, roupas e calçado dispersos e um silêncio sepulcral (...). Teriam sido mortos ou feridos centenas de jovens. Quantos ao certo? Ninguém o sabe. (...) Muitos dos que foram levados ainda vivos para o hospital, ali acabaram de os matar.” Estas mortes no hospital, causadas por injecções letais e por torturas, são designadas como “segundo massacre de Santa Cruz” pelos autores, que enaltecem o papel corajoso desempenhado pelo jornalista Max Stahl ao filmar os acontecimentos e relatam a forma como as imagens conseguiram passar para o exterior via Japão.

A visibilidade do sofrimento trazida para o mundo pela atribuição, em 1996, do Nobel a Ximenes Belo e a Ramos Horta não impediu que, três anos depois, ainda antes do referendo quanto à independência, acontecesse novo massacre, em Liquiçá, em que foram atacadas centenas de pessoas, ou que, depois do referendo em que ganhou a independência, em Agosto de 1999, as milícias tenham começado um plano de destruição e de incêndios, levado a cabo até Setembro, quando as forças internacionais chegaram a Timor.

Ao longo destas memórias, vai sendo acentuado o papel desempenhado pela Igreja no apoio aos timorenses, bem como as represálias exercidas pelo invasor sobre os religiosos de várias ordens. No final, os autores celebram a experiência humana vivida pelo que aprenderam com a resiliência dos timorenses. Quer na redação das memórias quer nos excertos de cartas que acompanham o livro, o leitor pode ver a tentativa de contar pormenores da história vivida, sem que haja o alheamento das emoções e do sentido nesse tempo de sofrimento. A prova do compromisso dos dois padres com o povo com quem viveram muitos anos surge no final da oração que fecha o livro: “Senhor, dá força ao vosso Povo de Timor de ser digno, no presente e no futuro, do seu passado de heroísmo, sendo fiel aos valores humanos e cristãos dos seus maiores, muitos dos quais deram o seu sangue pela justiça, a fé e a liberdade.”

 

OBS: Em memória do padre João Felgueiras, falecido em Timor no início deste Julho, com 105 anos, de quem fui aluno, e que se nos impôs pela sua serenidade e humildade, pela sua disponibilidade e bonomia.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1805, 2026-07-22, pg. 10.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

João Felgueiras e José Alves Martins e as memórias de Timor (1)

 


Em 8 de Março de 2006, o jesuíta Manuel Morujão enviava carta para Timor, destinada ao também jesuíta João Felgueiras, congratulando-se: “Muito me alegro com a notícia de que o Padre Felgueiras e Padre Martins vão redigir ‘Umas memórias de Timor’. Acho que será um serviço apostólico muito importante, pois ajudará a ‘pôr os pontos nos is’, de muita meia verdade ou mesmo falsidade.” Um mês depois, a 7 de Abril, em nova missiva, Manuel Morujão dirigia-se aos dois jesuítas que estavam em missão em Timor, referindo-se ao livro que ambos preparavam: “Uma empresa muito meritória, directamente missionária, porque a missão também passa pela verdade histórica.”

A obra seria publicada nesse mesmo ano sob o título Nossas Memórias de Vida em Timor (Editorial Apostolado da Oração), assinada por João Felgueiras (1921-2026) e por José Alves Martins (1941-2022), e teria nova edição em 2010, apresentando-se organizada em três partes: o texto memorialístico do que os dois padres viveram em Timor entre 1974 e 2002; um conjunto de excertos de 44 cartas trocadas entre Timor e Portugal, datadas, mas com destinatários não indicados por razões de “discrição”; um capítulo final, “Via-Sacra do Povo de Timor Leste”, meditação em quinze estações lembrando o sofrimento dos timorenses (“O Povo de Timor sentiu a vossa Paixão durante 25 longos anos de violenta ocupação estrangeira. A vossa flagelação foi experimentada em milhares de timorenses, espancados e torturados da maneira mais atroz. Foram açoitados com paus, com cordas; foram torturados com choques eléctricos, com pontas de cigarro acesas, com as mais vis sevícias que os algozes inventavam para fazer sofrer”, primeira estação) e a esperança na construção do futuro (“Foi na esperança da vitória que o vosso povo de Timor lutou. Vitória pela liberdade, pela independência. Começa uma nova era de esperança e luz.”, décima quinta estação). 

O propósito dos dois autores é claro desde início — “Acompanhamos e vivemos os acontecimentos que se desenrolaram a partir de 1974 até 2006 em Timor Leste. Queremos deixar por escrito este testemunho vivido durante 32 anos.” Não é, assim, uma história vista de fora, mas um relato do vivido, muitas vezes tendo os próprios autores como protagonistas, ainda que a escrita insista no uso da terceira pessoa para se referir à acção dos dois padres, dando a ideia de um certo distanciamento de análise e de memória, embora, por vezes, em situações mais emotivas, surja a primeira pessoa do plural para se referir aos mesmos protagonistas. Umas linhas adiante, a insistência na vivência: “O depoimento que vamos iniciar refere-se à nossa experiência vivida durante 32 anos em Timor Leste. Não é uma narração dos acontecimentos com uma preocupação histórica, mas uma narração de quem viveu e acompanhou o drama do povo de Timor.” Este aspecto vivencial e testemunhal é depois valorizado, justificando possíveis lapsos: “Não nos valemos de documentação histórica, embora a possuíssemos abundantemente, mas a nossa preocupação não é fazer história, mas simplesmente transmitir a nossa experiência”, pois “pretendemos comunicar o que vivemos, ouvimos e sentimos, fazendo ao mesmo tempo uma reflexão pessoal.”

Assiste o leitor à confusão política em Timor a partir de Agosto de 1975 (mês de golpe e de contra-golpe em busca do poder), à crescente entrada da Indonésia no território, numa marcha prenunciadora da invasão como “acontecimento inevitável”, que viria a acontecer em 7 de Dezembro desse ano, depois de, em 28 de Novembro, ter sido proclamada a independência timorense. “Vivíamos juntamente com o povo uma ansiedade pela incerteza das ameaças que sentíamos, prevendo que a guerra se aproximava de nós”, confessam os autores.

O dia da invasão, 7 de Dezembro, é apresentado com as pinceladas da guerra: “Pelas cinco horas da madrugada, passavam pelos céus de Díli, a baixa altitude, vários aviões indonésios que lançavam vagas de paraquedistas (...). A baía de Díli, naquela manhã contava cerca de 22 navios de guerra e transportes de barcos de apoio. Frente à praia dos coqueiros, começaram a desembarcar das barcaças tanques anfíbios, disparando canhões à medida que se aproximavam da terra (...). Vários batalhões de marines invadiam Díli. Foi a partir deste momento que começou a grande carnificina, matando quase indiscriminadamente membros da população que não eram rapidamente identificados, ou simplesmente mortos à rajada.”

A partir daqui, foi a fuga das populações para a montanha, o início de um tempo que não foi só de êxodo, mas também de genocídio, em que nada foi poupado, incluindo os edifícios religiosos, onde diversas congregações, designadamente os jesuítas, davam apoio à população, e onde havia o propósito de fazer desaparecer a língua portuguesa — um dia, os militares visitaram a residência onde os jesuítas ficaram após a destruição parcial do seminário e, ao verem já ordenado o que sobrara da biblioteca, “sugeriram que queimássemos os livros. Na verdade, eram livros em língua portuguesa. Nós sorrimos em sinal de que não o faríamos. Acabar com a língua portuguesa era a palavra de ordem.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1800, 2026-07-15, pg. 10.


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Alice Brito: um romance entre a memória e a liberdade (3)

 


O romance Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito, tem, como um dos lugares de acção, Setúbal, por ter sido aqui que, em Agosto de 1922, nasceu uma das personagens da história, Beatriz. “Um mês depois, começou a epopeia grevista. Epopeia, sim senhor. Até Homero, se fosse vivo, teria contado esta odisseia setubalense. Há nesta greve uma épica de sofrimento, justeza de propósito e persistência. E derrota.”

A chamada do clássico épico para a história é um bom recurso para caucionar o que a narradora já tinha dito sobre a caracterização do local, numa perspectiva de contextualização histórica e social do ambiente então vivido na margem do Sado, cidade abalada pela fome, a sofrer os efeitos da peste suína, da falta de farinha, da dificuldade no abastecimento de água, do encerramento de fábricas de conservas e de um conflito laboral que, em Setembro desse ano, conduziu à greve, passando por momentos de estado de sítio, de prisões, até ao estancamento, no final de Novembro, do período grevista, com muito poucos ganhos para o operariado. “O movimento operário sofreu que nem um desalmado este fracasso, a tristeza a revelar-se a cada dia em que de novo se entrava na fábrica. Tinha caído em si, vendo agora a insensatez dos mais de noventa dias de luta falhada.”

O leitor acompanha a evolução de Beatriz, na Escola Comercial e a trabalhar no balcão de uma loja de louças, com o retrato social do pequeno comércio, não esquecendo as regras de funcionamento da escola — aulas separadas para rapazes e raparigas — ou as da conveniência social (a conquista de um emprego melhor para Beatriz a troco de esta namorar com o sobrinho da empregadora). Marcas do que era a cidade surgem aqui e ali: a descrição do Bairro Baptista, a menção de espaços como a Avenida dos Combatentes ou a rua “a que deram o nome de General Daniel de Sousa” (antes, a “antiga estrada para Lisboa”); referência a instituições como o quartel, a Associação de Socorros Mútuos, o Clube de Campismo, o hospital do Outão, o café Central, o Esperança, o Tribunal de Setúbal ou a Sociedade Capricho Setubalense; os momentos da vida social na Praça de Bocage, do ambiente vivido na sessão do MUD sadino (Outubro de 1945), dos passeios de namorados no Parque do Bonfim. A história vai vivendo com as tensões entre homem e mulher, perpassando as situações de exercício de autoridade na casa e sobre o outro, de violência doméstica, de relações extra-conjugais, de desregramento devido ao jogo, a par com as questões emotivas trazidas pela morte ou por separações, não faltando ainda o condimento potencialmente explosivo dos dizeres da vizinhança nas apreciações sobre a conduta de cada um — “No dia seguinte todo o bairro falava, comentava, salivava, avaliava a relação entre o major e a sua protegida. As especulações sucederam-se. O sargento (...) suicidara-se ao descobrir que o filho não era dele. Era do major. O bairro, invejoso, relembrava agora o montão de coisas que Beatriz recebia, vindas do quartel. Parece que até um queijo. Daqueles de casca encarnada. Aquilo era uma pouca vergonha. A vizinhança começou a fazer vista grossa. Algumas mulheres continuaram a falar com ela, mas às escondidas umas das outras e, sobretudo, de alguns maridos.”, afinal o ambiente numa cidade ocupada pela “geografia da má-língua”.

Também o trajecto da personagem Benvinda, de São João da Madeira, é pretexto para referências à Setúbal dos anos 60, quando veio para a beira-Sado acompanhada por Dinis Évora, ambos militantes comunistas na clandestinidade. A procura de casa no recém-criado Bairro do Liceu (Rua Jean Raymond) é oportunidade para que se fale das condições de habitação reinantes, mostrando o que nestes novos prédios havia e que não existia nos outros, como casas de banho, cozinha ou elevadores, zona que era “coisa nova e coisa boa, mesmo chique”. O aparente paradoxo entre a militância em favor dos mais desprotegidos e a habitação num sítio mais refinado é explicado pelas razões de segurança na clandestinidade — “O Partido apostava agora no arrendamento de casa em sítios bons. Foi entendido que os habitantes clandestinos estariam mais protegidos entre a população menos miserável do que em casas ou casebres isolados edificados em paisagens ignotas.” A vida de vizinhança neste bairro é bem caracterizada em “Perdeu-se relógio de senhora”, mesmo porque, coincidentemente, também a personagem Beatriz passará a viver na mesma rua que Benvinda (agora chamada Ana Maria), chegando ambas a cruzarem-se na rua, na mercearia, nas dores e na descoberta.

A história acontece também noutros espaços, decorrentes das mudanças de residência ou das condições de vida das personagens — ou porque há a decisão de viver noutro lado (Lisboa, por exemplo) ou porque, no caminho, os pides interrompem a vida. No final, as três figuras femininas encontram-se e convivem, os tempos são outros. A narradora acompanha-as independentemente do espaço e vai dando notas da prisão, da vida, da guerra colonial, das mudanças (por vezes lentas, outras vezes em crescendo), frequentemente identificando-se com elas, pelo menos nos pontos de vista (para o que muito serve o discurso indirecto livre, em que, muitas vezes, as vozes das personagens e da narradora se misturam).

Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito, entra pelo romance histórico, na medida em que os contextos geográficos e sociais em que a acção decorre são retratos epocais, sociais e locais fácil e propositadamente identificáveis, razões que fazem com que esta obra seja também memória, além de ser literatura.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1795, 2026-07-08, pg. 10.


terça-feira, 7 de julho de 2026

Obrigado, Padre João Felgueiras!



As cerimónias fúnebres do jesuíta João Felgueiras (9.Jun.1921-3.Jul.2026) aconteceram hoje em Díli. Conheci o Padre João Felgueiras em Cernache, no Colégio Apostólico da Imaculada Conceição, no final dos anos 60. Tive-o como professor e como educador. A sua serenidade e a sua humildade, a sua disponibilidade e bonomia marcaram-me, bem como a muitos dos meus colegas. Fui tendo notícias sobre ele através de amigos que com ele se cruzaram em Timor e a partir do livro Nossas Memórias de Vida em Timor, que redigiu em co-autoria com o jesuíta José Alves Martins (1941-2022). Ainda há poucos dias me regozijava com os seus 105 anos. Hoje, é um dia triste. Obrigado pelo que nos ensinou e pelo seu compromisso com a Humanidade, Padre Felgueiras.


Alice Brito: um romance entre a memória e a liberdade (2)

 


A história de Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito, é-nos contada por uma narradora que vai partilhando com o leitor muitos esgares de dúvida sobre a construção da narrativa e sobre o papel de quem narra. Vale a pena determo-nos em três parágrafos repletos de reflexão sobre o gesto de escrever ou de narrar: “Quem narra seja o que for, quando conta qualquer coisa, só pode falar daquilo que supõe, ou imagina. A maior parte das vezes, a dita narrativa é uma grandessíssima impostura porque, não tendo sido testemunhada, mais não é do que uma descrição de coisas inexistentes e, portanto, não provadas. / Escrever é soltar a indecisão e a insegurança e depois tourear as duas. O toureio aqui não é lide marialva. É fazer pega de caras aos perigos de registo do pensamento, que são muitíssimos. O autor ou autora por vezes vigariza um texto que está à espera de ser escrito. E também por ele é vigarizado vezes sem conta. / Quem escreve julga-se todo-poderoso. Será? E quando as palavras se recusam a aparecer? E quando aparecem moles e se queriam rijas? E quando se quer falar de amor e se acaba a falar em tremoços ou favas com chouriço?”

Fica claro que a narradora permanentemente assume a responsabilidade de conduzir a história, mesmo nos momentos em que parece divagar, como acentua quando evoca a inauguração da linha do Vouga por D. Manuel II, em Novembro de 1908 — “É claro que os factos são estes. Lá o que o rei sentiu ou deixou de sentir, se tinha frio ou calor, calor não devia ter, se tinha pressa ou vagar, é mera especulação da narradora. Os factos são estes. O resto é conversa.” Noutros momentos, necessita de chamar a atenção da leitura para a dureza da realidade, como ocorre quando menciona que, na década de 1930, o trabalho não tinha horários — “Quando aqui se fala em muitas horas, não se está a romancear, inventar ou dar uma patine de neo-realismo ao texto. Fala-se de jornadas que podiam ir até às catorze horas.” Essa responsabilidade da narradora perante o narrado leva-a mesmo a dirigir-se ao leitor com o objectivo de lhe garantir a autenticidade do que conta, como sucede quando comenta um episódio: “Ai, senhores, que isto parece cena de filme. Parece, mas não é. Tudo isto é verdade.”; para garantir essa mesma autenticidade, noutro momento, quando tenta denunciar os recursos que o poder utiliza para se manter, depois de elaborar uma lista, anuncia: “Basta de panfleto”.

As reflexões da narradora passam também pela ponderação quanto à palavra utilizada na narração, por vezes para encontrar a melhor forma de expressão (“as palavras deixam marcas, impressões digitais, rastos, pegadas. Deixam, sobretudo, o grande vício de pensar.”), outras vezes para ironizar com o próprio processo de escrita (“Estava já calor e o rio parecia repleto de lantejoulas. (...) Um rio repleto de lantejoulas. A frase é um bocado pirosa, mas era assim que ela via aquela superfície muito azul a namorar a cidade, namoro, aliás, correspondido. Uma superfície muito azul a namorar a cidade integra também paleio menor. Paciência!”), outras ainda para reforçar a razão da escolha — ao relembrar o ambiente de contestação crescente à política vigente no ano anterior à Revolução, a narradora explica: “Que a gente não se esqueça de que estamos em 73. 1973. (...) Um regime toureado. Uma tourada. Só que era o touro que, mano a mano, ia toureando os cavaleiros sinistros do regime. É melhor deixar este paleio. Aqui não se gosta de tauromaquias. Algum poder o autor ou autora há-de ter sobre o texto, não é verdade?”, uma reflexão a que não é alheio o facto de esse ter sido o ano em que Fernando Tordo ganhou o Festival da Canção com a interpretação de “Tourada”, um poema de Ary dos Santos...

A necessidade de mostrar que a escrita é um acto de construção e de pensamento e que a própria palavra se afigura muitas vezes como insuficiente para revelar as emoções, mostra-a Alice Brito no momento em que descreve a euforia sentida no dia 25 de Abril: “Um rosário de palavras de ordem surgia espontâneo, voraz, imediato, intenso, abaixo isto, viva aquilo, o vendaval emotivo da tarde a dar lugar à grande planície do gáudio. Da vitória. A palavra à solta, aos pulos, em gingados retóricos, tem grande tendência para a alegria.” Contudo, perante todo esse jorrar de sentimentos, “contar o que as gentes sentiam é tarefa difícil. Qual a cor daquela manhã, que brilho tinha uma gota de chuva, qual a norma do sentir...? Contar o susto de toda a fascistada é um acto de folia literária.”

A história chega ao fim quando a narradora também descobre que “é no pacto com as palavras que o pensamento se esmera”, a última frase do romance, uma chave que explica o regozijo do dizer em tempos de liberdade e também o silêncio imposto pelo medo da denúncia, da tortura ou da prisão em tempos de repressão, dois tempos que as personagens desta história conheceram e povoaram.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1790, 2026-07-01, pg. 10.