quarta-feira, 3 de junho de 2026

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (2)



No volume da Obra de Bartolomeu de Gusmão, Daniel Pires, depois dos textos alusivos aos inventos do sacerdote brasileiro, incluiu um escrito jurídico, produzido por Gusmão a pedido de D. João V para contestar a sentença que atribuíra o pecúlio da Casa de Aveiro a Gabriel de Lencastre, Duque de Banhos, em vez de ser a D. Maria de Lencastre, Marquesa de Unhão. Das quase quatro centenas de artigos constantes nas alegações o leitor fica a conhecer uma dúzia (aqueles que estão mais despojados de conceitos jurídicos), conjunto de princípios em que se cruzam os acontecimentos históricos do relacionamento entre Portugal e Espanha com o respeito pela Coroa portuguesa fortemente fundamentados.

O grupo dedicado aos textos de cunho histórico é ocupado com as transcrições das intervenções que Bartolomeu de Gusmão teve nas sessões da Academia Real da História Portuguesa, sobretudo dando conta do andamento do seu trabalho Memórias para a História do Bispado do Porto, registadas nas respectivas actas. Das notas efectuadas em tais relatos, fica no leitor a ideia da ponderação, do espírito crítico, da inovação e do rigor como apanágio do trabalho de Gusmão, visível nas observações feitas à metodologia seguida pelos seus antecessores e nas dúvidas perante certas informações e perante alguns documentos — na sessão de 27 de Agosto de 1722, ao anunciar que estava quase pronta a parte respeitante aos dez primeiros séculos das Memórias, disse que “brevemente entregaria esta primeira parte da sua obra, em que protestava que não procurara seguir mais que a luz da verdade quanto lhe permitisse a escuridão em que aqueles tempos estão envoltos, e que, com a mesma sinceridade, a todo o tempo que reconhecer o contrário seria o primeiro que confessasse que errara.”

Dois poemas e dois textos de carácter filosófico integram um outro grupo. Os primeiros, dirigidos a figuras conhecidas de Gusmão, valorizam o discurso da jurisprudência e da verdade; os segundos giram em torno de valores — o papel do louvor no contributo que pode ter para a virtude ou para a vaidade, num (“o verdadeiro louvor é um testemunho da opinião que tem de nós um varão prudente, que se não deixa enganar com as aparências. A vaidade é quando se estima mais o ser louvado que merecê-lo ser. Logo, se o sujeito é capaz de vaidade, não é capaz de louvor; pois não pode ser capaz de louvor quem ama mais o louvor que o merecimento.”); a utilidade da prudência e da temperança, noutro (“a prudência ilustra o entendimento e a temperança aperfeiçoa a vontade, e bem pode ter ilustrado o entendimento quem tiver muitas imperfeições na vontade. A prudência ensina a conhecer as paixões alheias, a temperança a vencer as próprias e não se segue que saiba sujeitar as paixões próprias quem sabe conhecer as alheias.”). 

Relativamente à bibliofilia, o contributo que Daniel Pires (responsável pela obra) aponta é o da importante lista de livros indicados por Bartolomeu de Gusmão para a biblioteca régia, a serem adquiridos em França, em que constam títulos relacionados com áreas como a política, a economia, a geografia, a navegação, entre outros.

Os textos parenéticos ocupam parte significativa desta obra, constituída por quatro sermões, que, segundo o organizador, demonstram “capacidade argumentativa, convicção e um pensamento lógico linear”. Num primeiro grupo, situam-se o Sermão da Virgem Maria Nossa Senhora (Salvaterra, 26 de Abril de 1712), o Sermão a Nossa Senhora do Desterro (São João de Almedina, 9 de Janeiro de 1718) e o Sermão do Corpo de Deus (freguesia de S. Nicolau, 1721), todos eles eivados de uma coerência forte, longos e muito preocupados com o acompanhamento da reflexão pelo auditório, sempre desafiado através de perguntas e de orientação do pensamento, repletos de ensinamentos — “nunca foi seguro ajuizar de pensamentos alheios, principalmente quando se põe de parte da sua natural escuridade o tempo”, “fazer um benefício e estar à vista é ofender o benefício”, no primeiro; “nada no mundo está isento de velhice, os viventes e os que o não são; as cidades, as repúblicas, os impérios; a mesma terra, e até os mesmos céus envelhecem”, “o mais agradável património que a natureza nos deixou é a pátria e os pais”, no segundo; “quando queremos infundir a alguém pensamentos grandes, lembramos-lhe quem é e as obrigações com que nasceu”, “ninguém é grande senão comparado com quem é menos”, no terceiro.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1767, 2026-05-27, pg. 10.