A história de Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito, é-nos contada por uma narradora que vai partilhando com o leitor muitos esgares de dúvida sobre a construção da narrativa e sobre o papel de quem narra. Vale a pena determo-nos em três parágrafos repletos de reflexão sobre o gesto de escrever ou de narrar: “Quem narra seja o que for, quando conta qualquer coisa, só pode falar daquilo que supõe, ou imagina. A maior parte das vezes, a dita narrativa é uma grandessíssima impostura porque, não tendo sido testemunhada, mais não é do que uma descrição de coisas inexistentes e, portanto, não provadas. / Escrever é soltar a indecisão e a insegurança e depois tourear as duas. O toureio aqui não é lide marialva. É fazer pega de caras aos perigos de registo do pensamento, que são muitíssimos. O autor ou autora por vezes vigariza um texto que está à espera de ser escrito. E também por ele é vigarizado vezes sem conta. / Quem escreve julga-se todo-poderoso. Será? E quando as palavras se recusam a aparecer? E quando aparecem moles e se queriam rijas? E quando se quer falar de amor e se acaba a falar em tremoços ou favas com chouriço?”
Fica claro que a narradora permanentemente assume a responsabilidade de conduzir a história, mesmo nos momentos em que parece divagar, como acentua quando evoca a inauguração da linha do Vouga por D. Manuel II, em Novembro de 1908 — “É claro que os factos são estes. Lá o que o rei sentiu ou deixou de sentir, se tinha frio ou calor, calor não devia ter, se tinha pressa ou vagar, é mera especulação da narradora. Os factos são estes. O resto é conversa.” Noutros momentos, necessita de chamar a atenção da leitura para a dureza da realidade, como ocorre quando menciona que, na década de 1930, o trabalho não tinha horários — “Quando aqui se fala em muitas horas, não se está a romancear, inventar ou dar uma patine de neo-realismo ao texto. Fala-se de jornadas que podiam ir até às catorze horas.” Essa responsabilidade da narradora perante o narrado leva-a mesmo a dirigir-se ao leitor com o objectivo de lhe garantir a autenticidade do que conta, como sucede quando comenta um episódio: “Ai, senhores, que isto parece cena de filme. Parece, mas não é. Tudo isto é verdade.”; para garantir essa mesma autenticidade, noutro momento, quando tenta denunciar os recursos que o poder utiliza para se manter, depois de elaborar uma lista, anuncia: “Basta de panfleto”.
As reflexões da narradora passam também pela ponderação quanto à palavra utilizada na narração, por vezes para encontrar a melhor forma de expressão (“as palavras deixam marcas, impressões digitais, rastos, pegadas. Deixam, sobretudo, o grande vício de pensar.”), outras vezes para ironizar com o próprio processo de escrita (“Estava já calor e o rio parecia repleto de lantejoulas. (...) Um rio repleto de lantejoulas. A frase é um bocado pirosa, mas era assim que ela via aquela superfície muito azul a namorar a cidade, namoro, aliás, correspondido. Uma superfície muito azul a namorar a cidade integra também paleio menor. Paciência!”), outras ainda para reforçar a razão da escolha — ao relembrar o ambiente de contestação crescente à política vigente no ano anterior à Revolução, a narradora explica: “Que a gente não se esqueça de que estamos em 73. 1973. (...) Um regime toureado. Uma tourada. Só que era o touro que, mano a mano, ia toureando os cavaleiros sinistros do regime. É melhor deixar este paleio. Aqui não se gosta de tauromaquias. Algum poder o autor ou autora há-de ter sobre o texto, não é verdade?”, uma reflexão a que não é alheio o facto de esse ter sido o ano em que Fernando Tordo ganhou o Festival da Canção com a interpretação de “Tourada”, um poema de Ary dos Santos...
A necessidade de mostrar que a escrita é um acto de construção e de pensamento e que a própria palavra se afigura muitas vezes como insuficiente para revelar as emoções, mostra-a Alice Brito no momento em que descreve a euforia sentida no dia 25 de Abril: “Um rosário de palavras de ordem surgia espontâneo, voraz, imediato, intenso, abaixo isto, viva aquilo, o vendaval emotivo da tarde a dar lugar à grande planície do gáudio. Da vitória. A palavra à solta, aos pulos, em gingados retóricos, tem grande tendência para a alegria.” Contudo, perante todo esse jorrar de sentimentos, “contar o que as gentes sentiam é tarefa difícil. Qual a cor daquela manhã, que brilho tinha uma gota de chuva, qual a norma do sentir...? Contar o susto de toda a fascistada é um acto de folia literária.”
A história chega ao fim quando a narradora também descobre que “é no pacto com as palavras que o pensamento se esmera”, a última frase do romance, uma chave que explica o regozijo do dizer em tempos de liberdade e também o silêncio imposto pelo medo da denúncia, da tortura ou da prisão em tempos de repressão, dois tempos que as personagens desta história conheceram e povoaram.
* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1790, 2026-07-01, pg. 10.



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