quinta-feira, 31 de julho de 2008

Minudências (27)

Dia Mundial... de quê?
Desconhecia que havia um Dia Mundial do Orgasmo. Soube-o a propósito da data de hoje na wikipedia. É uma data como qualquer outra, neste tempo em que se está de haver um dia especial para tudo. Pesquisei e encontrei um artigo na edição online de Isto é – Gente, datado de Agosto de 2003, assinado por Carmita Abdo. A ideia terá surgido em Inglaterra em 1999 a partir de redes de sex-shops, que terão concluído que “80% das mulheres inglesas não atingem o clímax em suas relações”. O artigo de Abdo, psiquiatra e professora da Universidade de São Paulo, abre, dizendo que esta data “tem o objectivo de manter acesa a discussão sobre a libido e as disfunções sexuais que afectam pessoas em todo o mundo”. Podem ser invocadas mil razões, mas… não será este um “dia” publicitário?
Descobri depois que há “sítios” que indicam uma data de Dezembro, bem próxima do Natal, para Dia Mundial do Orgasmo. E, num blogue brasileiro, era dito, em Maio de 2005, que “uma pesquisa com 80 mulheres entre 14 e 51 anos na cidade de Esperantina, no Piauí revelou que 71,25% das esperantinenses nunca atingiram o orgasmo. Considerando a gravidade da situação, os vereadores instituíram o dia 09 de Maio, o Dia do Orgasmo, tornando-se assim, a única cidade do mundo a celebrar esse evento.” Bom, a verdade é que, afinal, não há dia certo e combinado para o orgasmo. Mas isso já a gente sabia…

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Rostos (77)

Inês de Castro, sobre uma varanda, em Alcobaça

Minudências (26)

E depois das massagens?
«Marinha proíbe massagens nas praias algarvias pois 'todos sabem como começam mas ninguém sabe como acabam'». A notícia é do Público de hoje, que continua: «Qualquer gesto que possa ser interpretado como uma "situação mais íntima" nas praias algarvias está proibido, por ordem do Comando Marítimo do Sul (CMS). Pedir ajuda para espalhar protector solar nas costas, ainda vá que não vá, mas se o movimento deslizar para uma prática que possa ser interpretada como massagem, a Polícia Marítima avança para aplicar uma coima, não vá algum turista queixar-se de atentado ao pudor.» Tudo terá a ver com a massagem enquanto prestação de serviços…. Mas não deixa de ser preocupante. Como é que num país com febre regulamentadora as massagens tinham ficado de lado? Ainda bem que há uns puristas dos costumes que olham para esta coisas com olhos de poder!!! Não sei se percebi, mas... o problema não é com as massagens, é com o que pode vir depois, não é? Ah, o depois...
Daqui a 50 anos alguém terá que explicar estes pruridos. Ocorre-me agora uma citação do Mário Zambujal no seu último romance - Já não se escrevem cartas de amor (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008): a história passa-se na Lisboa dos anos 50 do século passado e o narrador relembra o prazer dos chás dançantes de final de tarde, logo acrescentando (para os leitores mais novos, evidentemente) que "quem não viveu essa época, ignora que apalpar a namorada na rua ou dar beijos glutões na boquinha dela era caso de polícia, por atentado ao pudor e à moralidade pública". Daqui a meio século, alguém terá de escrever coisa semelhante sobre o verão de 2008 nas praias do Algarve...

Minudências (25)

Notas & notas (II)
«A média da segunda fase do exame nacional de Matemática A do 12º ano não atingiu os nove valores, registando um resultado pior que o do ano passado (9,3) e contrariando, assim, a tendência positiva da primeira época em que a média foi de 12,5 valores – a melhor dos últimos anos.» O texto é do Público, mas a notícia já começou a ser divulgada ontem. Questiono-me quanto à validade dos argumentos usados pela tutela do Ministério da Educação para explicar a subida dos resultados em Matemática na 1ª fase, quando dizia que esses bons resultados se deviam ao "efeito combinado de três factores": "mais tempo de trabalho e estudo por parte dos alunos acompanhado pelos professores no âmbito do Plano de Acção para a Matemática", "provas de exame correctamente elaboradas, sem erros e com mais tempo de realização" e um "maior alinhamento entre o exame, o programa e o trabalho desenvolvido pelos professores". Aqui temos como as notas dos exames do Ensino Secundário podem ser transformadas num hino de propaganda. Aqui temos como é utópico, por exemplo, avaliar um professor tomando como uma referência o desvio entre as notas que o professor atribuiu e as que os seus alunos obtiveram no exame nacional. Quem garante que as provas de exame são melhores referências do que as provas feitas ao longo de um ano lectivo? Quem garante que os alunos que vão à 1ª fase são melhores do que os que vão à 2ª fase? A análise dos resultados dos alunos não pode resultar de uma precipitação de conveniência temporal, tem que ser estudada e pensada. Só assim terá interesse para melhorar processos e resultados. O resto…

terça-feira, 29 de julho de 2008

Rostos (76)

S. Francisco, em Pavia (Ermida de S. Francisco)

Para uma antologia da região de Setúbal (6): "Nossa Senhora da Anunciada", por Carlos Fernando Russo

Nossa Senhora da Anunciada, em Setúbal, é paróquia desde 1553, instituída pelo mesmo diploma que criou a paróquia de S. Sebastião. O nome da freguesia anda associado a lenda desde o século XIII, mas revela o fervor que ali despontou, ao longo de uma história que nem sempre foi pacífica. O espaço que constituiu a primitiva igreja da Anunciada e o hospital que lhe foi anexo são hoje serviços diocesanos, com estrutura remodelada recentemente, pretexto que levou ao aparecimento do livro Nossa Senhora da Anunciada – Devoção e História no Povo de Setúbal, de Carlos Fernando Russo (Prior Velho: Paulinas, 2008).
Ao longo de meia centena de páginas, Carlos Russo traça a história dos dois edifícios: a igreja, desde o que seria a ermida fora de muralhas em honra da Senhora da Anunciada, passando pela criação da Confraria respectiva, pela protecção régia, pelos desastres provocados pelos terramotos de 1531 e de 1755, pela criação da paróquia, pela igreja que foi dos jesuítas, pelas vicissitudes das misturas de momentos políticos conturbados (implantação da República), pelas utilizações do espaço que foi da igreja para fins absolutamente diferentes dos religiosos; por outro lado, o hospital, desde a sua função de aplicação dos princípios da caridade e das obras de misericórdia até à passagem para a Santa Casa da Misericórdia, com referências à enfermaria dos frades (onde morreu Frei Agostinho da Cruz). O autor confessa a dificuldade na obtenção de documentos que contem a história, mas insere alguns que se revelam importantes para demonstrar a importância deste espaço e deste serviço para Setúbal ao longo dos tempos, seja através de crónicas e testemunhos, seja por meio de diplomas régios.
O livro é ainda constituído por mais três textos, que surgem como “apêndices” – José Luís Neto, arqueólogo, escreve sobre “A intervenção arqueológica no Hospital da Confraria de Nossa Senhora da Anunciada – Dados Preliminares”, tarefa exigida pelo facto de este espaço se situar no centro histórico de Setúbal e ter carecido de movimentações de terras, em que historia a arqueologia urbana em Setúbal e dá conta das sondagens que ali efectuou em 2006; Nathalie Antunes-Ferreira assina “Os indivíduos exumados na Igreja de Nossa Senhora da Anunciada”, a partir da quase centena de inumações, concluindo sobre doenças várias que afectaram os indivíduos (85 adultos, 10 não-adultos, sendo os de sexo feminino mais do dobro relativamente ao masculino); Angelino Gomes, arquitecto, subscreve “Memórias do Projecto de Remodelação da Cúria de Setúbal, Novos Tempos”, apresentando uma memória descritiva das obras de adaptação levadas a cabo, que constituíram tarefa “de difícil génese devido à ocupação de numerosos espaços com paredes anteriores ao terramoto de 1755, o que dificultou a leitura do espaço na sua integralidade”.
Torna-se útil esta obra pelos recuos que faz na memória e na história e por congregar um interessante conjunto de informação pluridisciplinar sobre um espaço importante para a consolidação da cidade de Setúbal.
Carlos Fernando Russo (n. 1961), setubalense, é pároco de Alcochete e é ainda autor de A Ordem de Santiago e o Papado no tempo de D. Jorge: De Inocêncio VIII a Paulo III (Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2007), que constituiu a sua tese de mestrado.

domingo, 27 de julho de 2008

João Ubaldo Ribeiro, o "Camões" de 2008

João Ubaldo Ribeiro (n. 1941) foi o vencedor do Prémio Camões. O que aprecio na sua escrita é o tom de ironia e de coerência, de frontalidade e de conhecimento do homem. E dizer que o seu livro A casa dos Budas ditosos teve venda interdita em Portugal em supermercados por causa da linguagem, corria o final do século XX! É justamente dessa obra, a cujo lançamento assisti no Estoril e em que Ubaldo Ribeiro me ensinou o significado da palavra “xará” ao escrever uma dedicatória, que transcrevo um excerto sobre deuses e religião:
“Os católicos são politeístas, botaram os santos no lugar dos deuses especializados. Os gregos e os romanos tinham um deus menor para cada coisa, regras atrasadas, artistas falidos, transações impossíveis, dívidas falimentares, casamentos, músicos bêbedos, agricultores, criadores de cabra, tudo, tudo, tudo. Os católicos substituíram os deuses pelos santos. Os músicos? Santa Cecília. Os ruins da vista? Santa Luzia. As solteironas? Santo António. E por aí, como você sabe. Até lugares. São José de Não Sei Onde? Diana de Éfeso, a mesmíssima coisa. Os deuses não foram derrotados ou eliminados, continuam imortais como sempre foram e somente mudaram de nome, se adaptaram às mudanças.” (A casa dos Budas ditosos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999).
O Prémio Camões, criado ao abrigo do Acordo Cultural Luso-Brasileiro em 1988 por iniciativa de Mário Soares e José Sarney, teve como primeiro vencedor Miguel Torga (1989) e foi já atribuído a outros escritores brasileiros – João Cabral de Melo Neto (1990), Rachel Queirós (1993), Jorge Amado (1994), António Cândido (1998), Autran Dourado (2000), Rubem Fonseca (2003) e Lygia Fagundes Telles (2005).
[foto a partir de www.focojornalistico.com.br]

sábado, 26 de julho de 2008

Rostos (75)

Figura feminina, de Henri Laurens, em Humlebæk (Museu de Arte Moderna Louisiana)

Tróia: até ver...

É um texto de Alice Brito, editado ontem, sobre assunto que anda na ordem do dia em Setúbal: o tarifário da travessia do Sado de barco.
«Se as tarifas de todos os barcos duplicarem no futuro, Tróia, aquela língua de areia, ali mesmo ao alcance dos olhos e das mãos, passará a ser um território tão distante como qualquer outra estância balnear naqueles paraísos improváveis, que a publicidade nos vende, longínquos e inacessíveis.
Na memória difusa desta cidade, de alma calejada por muitas e variadas malfeitorias, há um espaço de alegres afectos, espaço eleito, traçado a preceito pelo instinto do lazer - a praia.
Gerações sucessivas das suas gentes, durante os meses de muito verão, se encaminharam determinadas para os areais de sol de que a cidade era proprietária legítima.
Muita praia tem Setúbal a rendilhar-lhe a orla marítima em bilros líquidos e sedosos, desde a Arrábida, onde um mar de memórias esmeraldas descansa íntimo da serra, até à Figueirinha, cais onde atracam autocarros empanturrados de criançada de chapéu e balde, para não falar de Albarquel, ali à mão de semear, a dispensar transportes. E tantas outras. Galapos, Galapinhos, a Praia dos Coelhos, sucessões felizes de areia luminosa a deixar-se pisar pelos pés descalços dos habitantes da cidade.
Finalmente, Tróia, a península. (...)
»

Caboverdianidade em “Sodade de Cabo Verde”

“No dia seguinte, não havendo calma no Tarrafal, montaríamos o Ilhéu do Boi. Depois abria-se o mar largo. Com rumo de nornoroeste, a proa era a América.” Assim termina a história de Chiquinho, de Baltasar Lopes (com primeira edição em 1947), história em torno de uma personagem que viveu no espaço entre S. Nicolau e S. Vicente e que, depois, rumou através do oceano.
Vem isto a propósito da antologia de entrevistas Sodade de Cabo Verde (ed. Autor, 2008), de Gabriel Raimundo (n. Covilhã, 1945), obra que viaja pela comunidade cabo-verdiana em Portugal, na sua maioria emigrante, em cerca de oitenta conversas passadas a escrito, de retratados que exercem as mais diversas profissões em Portugal (depois de alguns deles já terem andado por outras geografias) – artistas, desportistas, políticos, causídicos, educadores, empresários, agentes da saúde, condutores de autocarros, etc.
A abrir, uma nota do autor das entrevistas não esconde a paixão pelo arquipélago, o que pode ser a motivação forte para este conjunto de vidas visitadas – “Pudesse eu escolher o local de nascimento perante o mapa do mundo e não hesitaria em assinalar as dez estrelinhas que emergem do Atlântico e que brilham como país-arquipélago, baptizado de Cabo Verde”.
Independentemente do tempo que têm de residência em Portugal, alguns mesmo cá nascidos de pais cabo-verdianos, a caboverdianidade passa-lhes pelo sentir e pelo discurso, sobretudo quando justificam o seu afecto por essa pátria – “Primeiro, por pertencer ao povo do país da morabeza, cheio de amizade, de alegria, dotado de uma maneira invulgar de estar na vida. Segundo, é a terra onde eu nasci, dos meus pais. Embora exista pobreza, há uma beleza muito grande em Cabo Verde, a começar pelas pessoas…” (Titina), “Eu tenho muito orgulho em ser cabo-verdiano, mas, se calhar, há em mim um orgulho ainda maior, que é o de querer ser boa pessoa e tentar ser prestativo, duma dimensão humana, partindo do sítio onde eu nasci.” (Corsa Fortes), “Um genuíno cabo-verdiano jamais se desvincula do próprio país! Pelo contrário, deve procurar dar o contributo possível para consolidarmos o nosso orgulho de cidadãos do país independente.” (Antero Ramos), “Cabo Verde é sempre a nossa casa! Eu vim para cá de pequenina, mas fui criada pensando nas coisas de lá, não deixando de falar o crioulo em casa… E é reconfortante sabermos que temos o nosso cantinho, um espaço de acolhimento.” (Elisabeth Tavares), “Nunca me posso esquecer do meu país de origem! Tanto mais que vim de lá com quase 23 anos, ou seja, com uma ideia formada de Cabo Verde. Nunca perdi as raízes, apesar de a minha família se ter espalhado pelos tradicionais países da Diáspora.” (André Moreira)
Nas entrevistas, não são escondidas as dificuldades (racismo, por exemplo), mas está sempre presente uma forte ligação ao espaço de origem, ou porque queiram para lá voltar, ou porque lá vão frequentemente, seja em trabalho, seja por altura de férias. Na mente, estão sempre votos de desenvolvimento para o país, enraizado na sua identidade cultural – “Acho que um dos erros da independência foi a africanização demasiada de Cabo Verde e o esquecer de uma das raízes do país que é a Europa e Portugal.” (Eugénio Tavares Sena), “O que eu gostaria, ao ir lá, (…) era que pudéssemos preservar uma parte ainda selvagem, onde fosse possível usufruir de uma certa tranquilidade, um sítio onde se possa estar calmo, reflectir na vida. Isto, porque ao fim e ao cabo, o que nós temos de bom, a nossa indizível riqueza é o povo cabo-verdiano.” (Neno). A vontade de reencontrar o país melhor mas ainda original é um traço que já vem de longe na expressão cabo-verdiana, tal como o referiu Jorge Barbosa num poema intitulado “Emigrante”: “Quando eu puser os pés no vapor que me levará / quando deitar os olhos para trás / em derradeiro gesto de desprendimento, / não chorem por mim. // Levarei numa pequena mala / entre a minha roupa amarrotada de emigrante / todos os meus poemas / todos os meus sonhos! // (…) // E se eu voltar / se voltar para a pobreza da nossa terra, / tal como fui, / humilde e sem riquezas, / também não chorem por mim / não tenham pena de mim. // Mas se eu trouxer esse ar de felicidade / que fica a arder na chama de charutos caros / que cintila em pedrarias de anéis vistosos / se anuncia em risadas ruidosas / e se garante na abundância das cifras bancárias, / então chorem por mim / tenham pena de mim, / porque a pequena mala do emigrante que fui, / com os meus poemas – os meus sonhos! - // ficou esquecida como coisa inútil, / como peso inútil, / não sei em que parte do mundo!” (in Claridade. S. Vicente: nº 6, Julho.1948, pp. 9-10).
Este Sodade de Cabo Verde constitui um bom documento para conhecer o outro, personificado na comunidade cabo-verdiana, estando nele presentes sugestões, comentários, críticas, desgostos, histórias e esperanças, contributo também válido para nos conhecermos um pouco mais.