sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Francisco de Francisco

 


Em 14 de Abril de 2025, o cardeal Marcello Semeraro (n. 1947), prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, teve o seu último encontro com o Papa Francisco. Na conversa, disse-lhe que já estavam prontas as provas do livro e perguntou-lhe se as queria ver, tendo Francisco respondido: “Tens de ser tu a corrigi-las.” Uma semana depois, acontecia o falecimento do Papa e Semeraro ficava com a incumbência redobrada de rever as provas. O livro em causa, editado em Itália em 2025 e publicado em Portugal neste ano (Paulinas), é O Meu São Francisco, obra póstuma do Papa Francisco, que apresenta como subtítulo a informação “Colóquio com o Cardeal Marcello Semeraro”.

Quando, em 13 de Março de 2013, o jesuíta Jorge Bergoglio (1936-2025) escolheu o nome de Francisco, pairou por momentos a dúvida se esta opção não se relacionaria com S. Francisco Xavier (1506-1552), co-fundador da Companhia de Jesus, logo desfeita pela explicação que deu, lembrando que o seu amigo, cardeal Claudio Hummes (1934-2022), arcebispo emérito de São Paulo e membro do conclave, ao saber o resultado da votação, o abraçou e lhe recomendou “não se esqueça dos pobres”, razão maior para, de imediato, se lembrar de São Francisco de Assis (1181-1226), arauto da pobreza e da paz. Esta preocupação tornou-se prática do quotidiano, que levaria o Papa, a dado passo desta entrevista, a dizer: “tive o dom de encontrar muitos pobres, que me indicaram claramente qual é o lugar a que o Senhor dá preferência, onde o podemos procurar e encontrar”.

O conjunto de quinze perguntas e respectivas respostas é antecedido de uma mensagem do Papa Leão XIV dirigida ao responsável pela entrevista, agradecendo esta iniciativa e afirmando que o seu antecessor “não só assumiu o nome de Francisco como também se quis identificar com este santo para fazer dele o rosto da sua nova missão”.

As perguntas que orientam o testemunho do Papa Francisco abrangem assuntos como: a pobreza (“pensar a economia inspirando-se em São Francisco significa empenhar-se em colocar no centro os pobres e olhar para a economia e para o mundo precisamente a partir deles”); o olhar sobre a Igreja (“amar a Igreja significa não a abandonar na ilusão de poder passar sem ela ou de podermos encontrar alguma coisa melhor, e também significa dizer claramente as coisas que não estão bem, empenhando-nos em dar um testemunho que saiba a Evangelho”); a prática da oração (“há duas modalidades de oração, que travam entre si uma espécie de diálogo: são necessários momentos de solidão e retiro, de intimidade; ao mesmo tempo, porém, temos necessidade de momentos de partilha, de convivência”, pois “fazem parte da nossa humanidade solidão e comunhão”); o diálogo com a contemporaneidade (“a liberdade que nos torna capazes de nos encontrarmos com todos e de dialogarmos com qualquer um nasce da alegria de sentirmos que a vida coloca sempre à nossa frente algo capaz de nos unir, de fazer que nos respeitemos, de intuir o grande valor mútuo de cada um”); o espírito de fraternidade (“a fraternidade, por vezes, é incómoda porque é diferente da amizade, é um dom que devemos acolher com gratidão, é uma realidade sempre ‘a caminho’, em construção, e que, por conseguinte, requer o contributo de todos, sem que ninguém se exclua ou seja excluído”); o valor da misericórdia (“um homem só deve olhar outro homem a partir de cima para o ajudar a levantar-se”, pois “a misericórdia não é uma coisa ao lado das outras, mas como que traça os contornos do crente, do cristão”); a ecologia (“a atenção à ecologia nasce de um sentido de responsabilidade para com os outros; os que vierem depois de nós esperam poder viver numa Terra ‘limpa’, não só limpa no sentido de ecologicamente habitável, mas limpa do ponto de vista das relações, das relações entre nações, entre pessoas culturalmente diferentes”); a esperança (“a esperança não pode ser vivida por uma pessoa sozinha, porque precisa de sinais” que “não nos vêm das coisas, mas das pessoas que caminham connosco, que nos encorajam, que nos ajudam a levantar quando caímos, que partilham connosco as maiores dificuldades”); a falta de resposta aos apelos em favor da paz (“muitas vezes falamos em prol dos direitos dos outros, do respeito ambiental, dos pobres indefesos, da paz, e a maior parte das vezes as nossas palavras parecem-nos inúteis”, mas “é importante continuarmos a gastar-nos com a maior generosidade em favor da paz, inclusive continuando a lançar apelos para que a guerra e a violência acabem”); a morte (“na minha idade não tenho muito medo de morrer; quando somos velhos, damo-nos conta de que já não falta muito para o fim e também sentimos como uma graça o podermos preparar-nos para a morte, o podermos reler o nosso passado”); a família (“as famílias ensinaram-me a importância da vida em comum, da vida quotidiana”); a relação entre homens e mulheres (“uma das maiores dificuldades para todos nós é sempre a de aceitar que precisamos de alguém” e “quando a realidade concreta nos faz experimentar as nossas limitações, por vezes voltamo-nos contra nós mesmos e contra os outros”, mas “nenhum de nós se basta a si mesmo, nenhum de nós tem, em si mesmo, aquilo de que precisa para viver bem”).

Um livro de reflexão e de pensamentos que são orientações para a vida, sendo fácil, a todo o momento, pararmos perante uma máxima cheia de significado — pormenores que também nos podem ajudar a ver este livro como um possível testamento espiritual do Papa Francisco.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1825, 2026-09-09, pg. 2.


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Carlos Cardoso: notas para pensar

 


No romance Nove mil dias e uma só noite (tradução portuguesa de 2014 da obra Letters from Skie, publicada no ano anterior), Jessica Brockmole põe uma das personagens a dizer: “Pensar é bom. É o que distingue os seres humanos das baratas.” Quem assim falou foi a mãe de Margaret, em resposta à filha, quando esta a informou de que tinha respondido a um pretendente que, antes de aceitar o pedido de casamento, teria de pensar no assunto... A consideração desta personagem em torno do acto de pensar é simples e pragmática e não necessita de explicações, resultando a sua eficácia de um saber experimentado e amadurecido. Pensar exige tempo, mais do que emoção ou pressa.

Data de Maio a edição da obra Momentos, do setubalense Carlos Cardoso, que tem como subtítulo “Notas para pensar, discordar e dialogar”, logo surgindo, pela associação de título e subtítulo, a presença do factor tempo para o acto de pensar, sendo a origem do livro explicada no prefácio, quando é dito que esta obra “nasce da necessidade de pensar”, “de parar um pouco”, “de olhar para o que somos, para o que fazemos e para a forma como escolhemos viver em sociedade”.

Baseado na sua experiência de professor, de gestor e de cidadão, Carlos Cardoso colige uma centena de textos, todos sob o título de “O meu momento de reflexão”, seguido da recomendação “Nunca se esqueçam...”, prevendo o leitor que vai estar perante um conjunto de reflexões que podem virar recomendações para a vida, marca que pode inserir esta obra na lista do livro prático, muito embora o seu objectivo não seja o de ensinar estratégias de resolução de questões práticas, antes o de sugerir pistas de reflexão para o indivíduo e para a sociedade.

No final do livro, as reflexões apresentadas são organizadas em três grupos: valores e carácter, relações humanas e desenvolvimento pessoal. Esta divisão poderá valorizar três intenções fundamentais presentes na obra, mas é demasiadamente restritiva e generalista, impossibilitando de ver a variedade dos assuntos abordados. Com efeito, por estas reflexões, muitas vezes inspiradas em princípios proverbiais (como “Quem sobe sem respeito desce sem amparo”) ou partindo da linguagem metafórica (como se pode ver nos exemplos “Não adiante numa encruzilhada perguntarem para onde é o caminho se não souberem qual o caminho que querem seguir” ou “Os tristes acham que o vento geme, os alegres acham que o vento canta”), passa uma diversidade de temas (muitos deles ligados à ética e à deontologia) como: o papel do acto de ensinar; a necessidade de alimentar o saber; a pertinência do questionar; a utilização adequada do silêncio; a valorização do outro e de si; a sorte como desafio; a confiança no que se faz como acto de realização; as condições que fazem a liderança; a força para encarar as situações e trabalhar com o erro; a valorização do que é bom; a luta contra o boato e contra a ignorância (caminhos fomentadores da mentira); a honra e a verdade como valores; a valorização da empresa garantida pelos seus funcionários; o assumir a idade como forma de viver cada dia e de aumentar as memórias; o papel da amizade; a força do exemplo; a procura de soluções em vez da alimentação dos problemas; a defesa das convicções; a atenção ao outro; a gestão da capacidade de reacção; a disponibilidade para ajudar e pedir ajuda; o valor da vida saboreada; o saber quando dizer “não” ou “sim”; a necessidade de pensamento crítico; a utilização do pensar, do querer e do sentir de forma a não contribuírem para magoar o outro; a gestão da desculpa para o que não se consegue; o poder da leitura para a construção de caminhos e descoberta de verdades.

A lista poderia ser mais extensa, mas correr-se-ia o risco de cair em algumas repetições ou proximidades — aliás, a leitura deste livro não deve visar a imediata totalidade, sob pena de haver a sensação da repetição, antes deve ser lido fazendo justiça ao título, em “momentos” (assim mesmo, no plural), sem ter de ser respeitada a sequencialidade do livro, que pode ser aberto ao acaso para que o leitor se encontre com um conselho ou uma reflexão (a dimensão dos textos oscila entre uma e três páginas), instante de abrigo do curso do pensamento.

Obviamente, muitos dos princípios enunciados nestas reflexões passam pelos caminhos da educação (sobretudo em ambiente familiar) ou da formação, apenas absorvidos por quem se predisponha para os mesmos, já que, nestas coisas, o verbo “querer” não tem imperativo... Importante é não aceitarmos a situação que José Gomes Ferreira (1900-1985) descreveu na obra Aventuras de João Sem Medo (1963): “A maioria das pessoas já nem pensa! Fala. Isto é: limita-se a pôr o aparelho em acção, a acertar a agulha no sulco respectivo e a deixar tocar o disco… Sempre igual, aliás.” A alternativa é só uma: a vida, e tudo o que por ela fazemos, tem de ser espaço do pensamento... e este livro ajuda nesse caminho.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1820, 2026-09-02, pg. 2.