No romance Nove mil dias e uma só noite (tradução portuguesa de 2014 da obra Letters from Skie, publicada no ano anterior), Jessica Brockmole põe uma das personagens a dizer: “Pensar é bom. É o que distingue os seres humanos das baratas.” Quem assim falou foi a mãe de Margaret, em resposta à filha, quando esta a informou de que tinha respondido a um pretendente que, antes de aceitar o pedido de casamento, teria de pensar no assunto... A consideração desta personagem em torno do acto de pensar é simples e pragmática e não necessita de explicações, resultando a sua eficácia de um saber experimentado e amadurecido. Pensar exige tempo, mais do que emoção ou pressa.
Data de Maio a edição da obra Momentos, do setubalense Carlos Cardoso, que tem como subtítulo “Notas para pensar, discordar e dialogar”, logo surgindo, pela associação de título e subtítulo, a presença do factor tempo para o acto de pensar, sendo a origem do livro explicada no prefácio, quando é dito que esta obra “nasce da necessidade de pensar”, “de parar um pouco”, “de olhar para o que somos, para o que fazemos e para a forma como escolhemos viver em sociedade”.
Baseado na sua experiência de professor, de gestor e de cidadão, Carlos Cardoso colige uma centena de textos, todos sob o título de “O meu momento de reflexão”, seguido da recomendação “Nunca se esqueçam...”, prevendo o leitor que vai estar perante um conjunto de reflexões que podem virar recomendações para a vida, marca que pode inserir esta obra na lista do livro prático, muito embora o seu objectivo não seja o de ensinar estratégias de resolução de questões práticas, antes o de sugerir pistas de reflexão para o indivíduo e para a sociedade.
No final do livro, as reflexões apresentadas são organizadas em três grupos: valores e carácter, relações humanas e desenvolvimento pessoal. Esta divisão poderá valorizar três intenções fundamentais presentes na obra, mas é demasiadamente restritiva e generalista, impossibilitando de ver a variedade dos assuntos abordados. Com efeito, por estas reflexões, muitas vezes inspiradas em princípios proverbiais (como “Quem sobe sem respeito desce sem amparo”) ou partindo da linguagem metafórica (como se pode ver nos exemplos “Não adiante numa encruzilhada perguntarem para onde é o caminho se não souberem qual o caminho que querem seguir” ou “Os tristes acham que o vento geme, os alegres acham que o vento canta”), passa uma diversidade de temas (muitos deles ligados à ética e à deontologia) como: o papel do acto de ensinar; a necessidade de alimentar o saber; a pertinência do questionar; a utilização adequada do silêncio; a valorização do outro e de si; a sorte como desafio; a confiança no que se faz como acto de realização; as condições que fazem a liderança; a força para encarar as situações e trabalhar com o erro; a valorização do que é bom; a luta contra o boato e contra a ignorância (caminhos fomentadores da mentira); a honra e a verdade como valores; a valorização da empresa garantida pelos seus funcionários; o assumir a idade como forma de viver cada dia e de aumentar as memórias; o papel da amizade; a força do exemplo; a procura de soluções em vez da alimentação dos problemas; a defesa das convicções; a atenção ao outro; a gestão da capacidade de reacção; a disponibilidade para ajudar e pedir ajuda; o valor da vida saboreada; o saber quando dizer “não” ou “sim”; a necessidade de pensamento crítico; a utilização do pensar, do querer e do sentir de forma a não contribuírem para magoar o outro; a gestão da desculpa para o que não se consegue; o poder da leitura para a construção de caminhos e descoberta de verdades.
A lista poderia ser mais extensa, mas correr-se-ia o risco de cair em algumas repetições ou proximidades — aliás, a leitura deste livro não deve visar a imediata totalidade, sob pena de haver a sensação da repetição, antes deve ser lido fazendo justiça ao título, em “momentos” (assim mesmo, no plural), sem ter de ser respeitada a sequencialidade do livro, que pode ser aberto ao acaso para que o leitor se encontre com um conselho ou uma reflexão (a dimensão dos textos oscila entre uma e três páginas), instante de abrigo do curso do pensamento.
Obviamente, muitos dos princípios enunciados nestas reflexões passam pelos caminhos da educação (sobretudo em ambiente familiar) ou da formação, apenas absorvidos por quem se predisponha para os mesmos, já que, nestas coisas, o verbo “querer” não tem imperativo... Importante é não aceitarmos a situação que José Gomes Ferreira (1900-1985) descreveu na obra Aventuras de João Sem Medo (1963): “A maioria das pessoas já nem pensa! Fala. Isto é: limita-se a pôr o aparelho em acção, a acertar a agulha no sulco respectivo e a deixar tocar o disco… Sempre igual, aliás.” A alternativa é só uma: a vida, e tudo o que por ela fazemos, tem de ser espaço do pensamento... e este livro ajuda nesse caminho.
* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1820, 2026-09-02, pg. 2.
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