sexta-feira, 14 de março de 2008
Cansaços (i)merecidos
quinta-feira, 13 de março de 2008
A escola e 4 vozes do "Público" de hoje
2. Nuno Pacheco, "A festa de Sócrates, os foguetes de Vitalino e o azul de Menezes" - «Portugal não se leva a sério. O Governo auto-elogia-se e não "perde tempo" com coisas más. A educação move-se a birras. E o PSD iludea crise interna com um pano azul. Na manhã do dia em que 100 mil professores desfilaram em Lisboa, o porta-voz do Partido Socialista, Vitalino Canas, afirmou publicamente que "o PS olhará com atenção para os sinais que vêm da manifestação". Parecia uma afirmação sensata. Mas Vitalino avisava já que não haveria mudanças de rumo. Para quê, então, olhar "os sinais"? Por simples deleite contemplativo? Anteontem, ficou tudo mais claro. No final de uma reunião no ministério, o secretário de Estado Jorge Pedreira disse que poderia haver "soluções flexíveis"; e ontem, no Parlamento, a deputada do PS Isabel Coutinho, dizendo que essas tais "soluções flexíveis" já estavam previstas (coisa em que ninguém deve ter reparado), garantiu que "não há recuo do Ministério da Educação, nem do Governo". Ou seja: não há recuo porque as "soluções flexíveis" já faziam parte dos planos do Governo. Já a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, decerto furiosa com os jornais que lhe apontavam recuos, garantia depois, em conferência de imprensa, que as avaliações prosseguem. Tudo o que era para ser feito será. Com umas simplificações, claro, contornando algumas regras, sim, mas cumprindo o calendário. Vão-se os anéis, ficam os dedos. E nos dedos ficam avaliações que até podem não sê-lo, de facto, mas sempre são as tais 7 mil do plano. É o que tem de ser. Simplificadas ou flexibilizadas, lá as teremos. E o Governo pode dar por cumprida mais uma meta dos seus planos, mesmo que sirva apenas para isso: para dizer que foi cumprida e para a ministra não perder a face. O país, esse, vai perdendo tempo. (...)»
3. Idalina Jorge, "Cartas ao Director" - «(...) O sr. Presidente da República e o sr. primeiro-ministro haviam de ir à televisão fazer um aviso sério aos pais para que ponham os meninos a estudar. O país não se pode dar ao luxo de ter as crianças convencidas de que não precisam de estudar para passarem de ano.»
4. Rui Silvares, "Cartas ao Director" - «(...) O ministério da 5 de Outubro deve estar convencido que, produzindo constantemente páginas imensas de uma legislação enigmática, está a contribuir para solucionar os problemas da educação. Quem trabalha nas escolas sabe que as ordens e contra-ordens com que têm sido bombardeadas nos últimos meses apenas têm servido para lhes complicar o trabalho. É tempo de explicar a todos os que circulam nos gabinetes ministeriais que na quantidade é possivelmente mais difícil encontrar alguma qualidade e que a aparente complexidade de um problema não obriga a uma resposta igualmente confusa. (...)»
quarta-feira, 12 de março de 2008
Intervalo (5)
Cliente: Boa noite, quero encomendar Pizzas...
Telefonista: Pode-me dar o seu NIN?
Cliente: Sim, o meu Número de Identificação Nacional é o 6102 1993 8456 5463 2107.
Telefonista: Obrigada, Sr. Lacerda. O seu endereço é na Avenida Pais de Barros, 19, Apartamento 11, e o número do seu telefone é o 21 549 42 36, certo? O telefone do seu escritório na Lincoln Seguros, é o 21 574 52 30 e o seu telemóvel é o 96 266 25 66, correcto?
Cliente: Como é que conseguiu todas essas informações?
Telefonista: Porque estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
Cliente: Ah, sim, é verdade! Quero encomendar duas Pizzas: uma Quatro Queijos e outra Calabresa...
Telefonista: Talvez não seja boa ideia...
Cliente: O quê...?
Telefonista: Consta na sua ficha médica que o senhor sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a saúde.
Cliente: Claro! Tem razão! O que é que sugere?
Telefonista: Por que é que não experimenta a nossa Pizza Superlight, com Tofu e Rabanetes? O senhor vai adorar!
Cliente: Como é que sabe que vou adorar?
Telefonista: O senhor consultou a página 'Receitas Gulosas com Soja' da Biblioteca Municipal, no dia 15 de Janeiro, às 14:27 e permaneceu ligado à rede durante 39 minutos. Daí a minha sugestão...
Cliente: Okay, está bem! Mande-me então duas Pizzas tamanho familiar!
Telefonista: É a escolha certa para o senhor, a sua esposa e os vossos quatro filhos, pode ter a certeza.
Cliente: Quanto é?
Telefonista: São 49,99.
Cliente: Quer o número do meu Cartão de Crédito?
Telefonista: Lamento, mas o senhor vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu Cartão de Crédito foi ultrapassado.
Cliente: Tudo bem. Posso ir ao Multibanco levantar dinheiro antes que chegue a Pizza.
Telefonista: Duvido que consiga. A sua Conta de Depósito à Ordem está com o saldo negativo.
Cliente: Meta-se na sua vida! Mande-me as Pizzas que eu arranjo o dinheiro. Quando é que entregam?
Telefonista: Estamos um pouco atrasados. Serão entregues em 45 minutos. Se estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto, não é lá muito aconselhável. Além de ser perigoso...
Cliente: Mas que história é essa? Como é que sabe que eu vou de moto?
Telefonista: Peço desculpa, mas reparei aqui que não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga e então, pensei que fosse utilizá-la.
Cliente: Foooooo.......!!!!!!!!!
Telefonista: Gostaria de pedir-lhe para não ser mal-educado... Não se esqueça de que já foi condenado em Julho de 2006 por desacato em público a um Agente Regional.
Cliente: (Silêncio).
Telefonista: Mais alguma coisa?
Cliente: Não. É só isso... Não. Espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.
Telefonista: O regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 095423/12, proibe a venda de bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...
Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou atirar-me pela janela!!!!!
Telefonista: E torcer um pé? O senhor mora no rés-do-chão...!
Escolas: sobre o processo em curso...
Reflexão sobre a "rua" - 2
As impressionantes manifestações registadas nas últimas semanas, e continuadas um pouco por toda a parte, assumem a forma e o conteúdo de um severo depoimento contra o Governo. Não se trata de turbulências comunistas, como já o disse José Sócrates e, iradamente, o repetiu Augusto Santos Silva, cujas "verdades" surgem cada vez mais avariadas. A "rua" foi a demonstração categórica do desequilíbrio entre quem pensa em termos estatísticos e quem é vítima desse equívoco. E uma vigorosa afirmação de civismo. Há dias, conversei com Raul Solnado sobre a natureza do Estado e o domínio pelo domínio exercido, repetidamente, pelo Governo, esquecido de que a força da República é a virtude, e a sua fraqueza a soberba. Sobre ser um amigo de há mais de 40 anos, Solnado é homem sábio, de frase pensada e advertida inteligência, com quem apetece discretear. Disse: "Gostaríamos de sentir que este Governo tem vontade de transformar e de modernizar o País. Por outro lado, a sua arrogância e autismo quer arrastá-lo para uma democracia musculada, o que é assustador. Eles distanciaram-se de nós."
A tentação de se construir contra o outro destrói o laço social, fonte e apoio do tecido colectivo, assinalado por Solnado como silogismo. E essas regras perturbadoras têm por objectivo limitar a interferência cívica e proteger o autoritarismo governamental. O facto de este Governo dispor de maioria absoluta não significa que actue em absolutismo. Há, manifestamente, ausência de diálogo e um poderoso dispositivo autoritário que liquidam a coexistência de duas sinalizações fundamentais em democracia: a dos governantes e a dos governados.
Perdeu-se de vista o reconhecimento da igualdade, do direito de protesto e do dever de memória. Este Governo criou uma tensão dramática de tal ordem e um destempero de tal jaez que levaram o primeiro-ministro a afirmar-se indiferente para com a imponente manifestação dos professores, invocando uma "razão" cuja natureza só poderá ser explicada através da nebulosa em que ele parece viver.
A arrogância é uma deformação moral; o preconceito, uma doença de educação; o desdém, uma chaga de quem se presume superior. Sócrates criou uma criatura que escapou ao seu controlo. Não pode mudar: de contrário, deixa de ser quem julga ser. E, sendo-o, na obstinação de quem não tem dúvidas, perde o respeito daqueles para os quais a democracia não existe sem comunicação.
Ao contrário de alguns preopinantes, suponho que, se a ministra da Educação fosse embora, abrir-se-iam as portas ao diálogo. Porque (é inevitável) irão aparecer novas regras de jogo e outras instâncias de organização que terão em conta as específicas oscilações históricas. Nascidas, não o esqueçamos, da "rua".
Reflexão sobre a "rua" - 1
Intitula-se "Pelas ruas da amargura", é assinado por Rui Ramos e vem no Público de hoje.
Quase ninguém resistiu ao apelo da rua - nem o Governo.
Há uns meses, a CGTP fez uma coisa em Lisboa a que, a título póstumo, se chamou "a maior manifestação de todos os tempos". Ninguém reparou. Talvez por isso, toda a gente resolveu reparar na "marcha da indignação" de sábado passado. Como seria de prever, poucos souberam dosear o esforço. Na ânsia de compensar a primeira desatenção, quase todos trataram agora, não de meter o Rossio na rua da Betesga, mas Portugal inteiro numas quantas ruas de Lisboa.
Houve quem, sugestionado pelos números prometidos na véspera, descobrisse na "rua" a verdadeira "realidade" do país. E ainda quem, a partir daí, não hesitasse em dar o passo de uma espécie de revisão constitucional imaginária. Vimos assim a rua promovida a órgão de soberania e quarto poder do Estado. Democracia? Mas quem precisa de democracia com ruas como as nossas, ainda para mais sob este abençoado clima, tão apropriado para a vida ao ar livre? Enfim, quase ninguém resistiu ao apelo da rua. Nem o Governo, que logo fez constar que também ia sair, numa manifestação depois reformada em comício. Que dizer perante isto? O actual Governo conta com uma maioria absoluta no Parlamento, a colaboração do Presidente da República, sondagens de opinião favoráveis e até, segundo gosta de reclamar, toda a razão do mundo. Mas não lhe chega: quer ser avaliado na rua. Eis um dado significativo para o debate nacional em curso sobre a caracterização dos nossos governantes. A questão de saber se Sócrates é como Salazar está longe de resolvida, apesar da intervenção de pensadores tão subtis como Mendes Bota. Em contrapartida, a comparação com Marcello Caetano ficou definitivamente comprometida. Na tarde de 25 de Abril de 1974, Caetano chamou um general para o "poder não cair na rua". É uma cautela que os actuais ministros decidiram dispensar: são eles próprios a quererem pôr o poder na rua.
Não nos devemos surpreender com este desvario geral. Perante o mais prolongado impasse económico desde a década de 1930 e quando a oposição, por intermédio do impagável Luís Filipe Menezes, confirma não ter alternativa, que fazer, senão perder a cabeça? Mas antes de descermos todos à rua, não valeria a pena pensar bem sobre que tipo de vida política é possível assentar na ocupação temporária do espaço entre dois prédios?
A rua não é um sítio para ter razão. Na rua não valem os argumentos, valem os números, vale a presença física. Na rua, o adversário não se ouve, não existe, não conta: é referido apenas para ser assobiado, insultado, queimado em efígie. Na rua, a multidão torna-se uniforme: não se divide, não discute - não é real. A rua das manifestações é um espaço privatizado, ocupado e delimitado pelos "organizadores", onde não se ouvem outras vozes - é a negação do espaço público democrático, que é por definição aberto e plural. Que regime se pode fundar na rua, a não ser o da guerra civil, aberta ou latente? Foi assim em Portugal no ano de 1975, durante o "período revolucionário", quando a rua de um lado se confrontou e mediu com a rua do outro. As democracias podem nascer na rua - mas também lá podem morrer.
Está a "realidade" na rua, como a verdade estava no vinho? Curiosamente, a marcha de sábado foi como a pescada: um dia antes de ser realizada, já era a "maior de sempre", com o número de antemão registado de 70.000 participantes. A ninguém pareceu necessário dar uma chance à realidade para confirmar o recorde. A rua é, como sempre foi, uma questão de "organização" e "relações públicas". Com 600 autocarros preenche-se uma avenida. Mas não basta. É preciso depois discutir os números com a polícia e fazer pressão sobre as televisões e os jornais para darem as "imagens" certas. A rua, hoje, é um espectáculo tão fabricado como qualquer outra cerimónia de Estado. Não é a realidade. A realidade é a vida de um país, que se não cabe numa assembleia, ainda menos cabe numa rua.
Onde irão dar estas ruas? Menezes parece convencido de que o levarão ao governo. Perante a marcha de sábado, roubou uns preciosos minutos à operação de mudança de ramo do PSD (de maior partido da oposição para o que promete ser, segundo um seu antigo secretário-geral, a maior rede de lavandarias do país) para saudar com emoção a "ponte 25 de Abril" de Sócrates. Não lhe ocorreu que nunca poderia governar, se por acaso Sócrates caísse assim. Com esta direcção, o PSD aderiu de vez ao clube do PCP e do BE. Quanto ao Governo, fica esta dúvida: os marchantes de sábado pediram a demissão de um ministro; e o Governo, no seu comício, vai pedir o quê? A demissão do país? Por estas ruas não iremos certamente a lado nenhum.
O momento da educação e dos professores em análise episcopal
Reunido esta Terça-feira (11 de Março), em Fátima, o Conselho Permanente preparou também Assembleia Plenária da CEP a realizar de 31 de Março a 3 de Abril.
“Sendo os agentes mais responsáveis pelo futuro de Portugal – os alunos são a razão de ser do seu trabalho -, este mal-estar pode reflectir-se numa crise emergente na educação” – referiu D. Carlos Azevedo. No futuro próximo, os bispos irão pronunciar-se sobre a questão da educação em Portugal. “Há um documento sobre a escola, mas deixaremos para mais tarde uma tomada de posição”. E adianta: “é um assunto muito complicado, Bento XVI publicou, recentemente, um documento pequeno, mas sugestivo sobre a crise emergente da educação”.
A “cultura de exigência” é fundamental na educação. Por outro lado – refere o Secretário da CEP – “deve existir um respeito grande por aqueles que são os mais directos agentes desse trabalho educativo que são os professores”.
O Cardeal Patriarca de Lisboa afirmou que “os professores e educadores neste país são um grupo decisivo para o futuro, porventura mais decisivo que os políticos, financeiros ou técnicos”.
A educação foi um dos temas discutidos na reunião do Conselho Permanente da CEP que ontem decorreu em Fátima.
D. José Policarpo afirmou que apesar de "não estarmos por dentro de todos os pormenores", a CEP acompanha com “interesse e solicitude”, manifestando “muita compreensão pelas dificuldades sentidas”.
O Cardeal Patriarca de Lisboa admitiu que a CEP poderá voltar a “este assunto, com uma reflexão mais profunda” e que “todos estão à procura do melhor”, apesar dos conflitos.
D. José Policarpo deixou uma palavra de “estima por todos aqueles que no nosso país se dedicam a esta tarefa fundamental, inventiva e árdua de educar”.
terça-feira, 11 de março de 2008
segunda-feira, 10 de março de 2008
E não se pode ignorá-los? Pode, porque a educação e ser professor é assunto sério...
Obviamente, sabemos que há quem não apoie as causas que os professores têm apontado, seja por fidelidade à estrutura partidária (ou a quem a dirige), seja por convicção, seja mesmo por ter traumas acumulados quanto a professores e à escola, seja por alinhar sempre no grupo dos que protestam contra a parte social do Estado e a sua organização. Mas isso não determina o universo, sabemo-lo. E aceitarmos que uma prosa de fel e vinagre pretenda condicionar a moral, a consciência e o profissionalismo docentes… é dar demasiado crédito a quem o não merece.
A manifestação dos professores e os ângulos da democracia
"(…) Apesar de regularmente se lamentar a fraqueza da sociedade civil e se exortarem os cidadãos a fortalecê-la, nomeadamente para todos termos uma melhor governação, temos assistido recentemente a uma demonização dos sindicatos, que estão entre as maiores organizações da sociedade civil. Ou será que só os empresários representam a sociedade civil?
(…) Seria muito empobrecedor considerar o mecanismo eleitoral como o único veículo das funções de representação e de responsabilização. (…) Temos que concluir que a maioria absoluta tem levado o presente Governo não só a uma enorme arrogância na sua relação com os cidadãos, mas também a uma grande incapacidade de diálogo social. (…) Se algumas tendências de mudança na governação democrática europeia existem, nomeadamente dos anos 1960 para cá, elas vão no sentido de se defender e estimular uma crescente participação dos cidadãos nos processos de tomada de decisão, muito para além do voto. (…) O uso de formas não convencionais será tanto maior quanto menos bem funcionarem os mecanismos tradicionais de concertação. Passando ao caso português, é imperioso concluir que a gigantesca manifestação de cerca de 100 mil professores não só demonstra uma enorme insatisfação de cerca de dois terços desta classe profissional, como evidencia que os mecanismos de concertação não têm funcionado, dando razão aos sindicatos. Mas esta manifestação, com pessoas de todos os partidos e quadrantes ideológicos (nomeadamente muitíssimos votantes PS, em 2005...), foi também uma grande lição de participação cívica. (...)"



