sexta-feira, 14 de março de 2008

Cansaços (i)merecidos

Um colega (e amigo) enviou-me hoje uma mensagem por e-mail que me fez pena. Não porque dela me distancie, mas porque estamos cada vez mais perto desta situação. Transcrevo uma parte, que deve ser o retrato do sentimento de muitos...
«(...) Estou (estão a fazer-me!) a chegar aos limites... Ontem o CE teve de chamar a Polícia de Intervenção para distribuir uns "mimos" a "malta infiltrada na Escola". Um dos envolvidos na "provocação" é meu aluno! Uma vergonha para todos! ... mas viva a ministra e abaixo os professores que são uns "madraços"! Enfim, ao fim 35 anos de serviço estou "saturado" com isto tudo... Estou a pensar "abandonar" mesmo com penalização... Ao fim e ao cabo é isso mesmo que eles querem. É convicção da ministra e dos seus acólitos que os professores da minha geração são "forças de bloqueio". ... Eu quero ver, se a partir de Outubro, deixo de "bloquear". Já perguntei, superiormente, se é possível devolver o "titular" a que ingenuamente (reconheço-o hoje) concorri..., pois quero reformar-me só como professor, pois foi para isso que eu "nasci". ... e, enquanto não chega o dia, "vou-me dando sem limites", embora já muito "limitado". (...)»

quinta-feira, 13 de março de 2008

A escola e 4 vozes do "Público" de hoje

1. Esther Mucznik, "Ainda acabas a dar aulas!" - «(…) O próprio sistema foi minando o papel dos professores, desprestigiando-o aos olhos dos pais e dos próprios alunos que, pouco a pouco, passaram a considerar como "bonzinhos" os pouco exigentes e "maus" os que tentavam ensinar alguma coisa. Contrariamente ao que afirma um leitor em carta ao PÚBLICO, não me parece que os professores gozem "de enorme capital de prestígio perante a opinião pública em Portugal". Basta ouvir as exclamações que se sucedem à escolha de alguns cursos: "Assim ainda "acabas" a dar aulas". E a verdade é que há cada vez mais pessoas "a dar aulas" e cada vez menos professores... (…) Seria bom lembrar, embora este aspecto esteja arredado do actual debate, que esta visão pedagógica "lúdica" tem uma correspondência ideológica, "progressista" e bem pensante, que se reflecte nos programas e manuais escolares, veiculando uma visão "politicamente correcta", em detrimento de uma reflexão crítica, que é ou deveria ser uma das finalidades de qualquer sistema educativo. (…) O mal-estar dos professores não é de hoje. Nem sequer de há três anos, com o início das reformas da actual ministra da Educação. Vem de muito mais longe, produto precisamente da política educacional das últimas décadas, de um sistema simultaneamente complacente e desvalorizante. (…) Nenhuma reforma é bem sucedida sem o apoio, a colaboração e a participação de, pelo menos, uma parte dos seus principais agentes. O ministério está a lidar com seres humanos, muitos dos quais dão o seu melhor num universo cada vez mais adverso. Não está a lidar com números, critérios ou estatísticas. Professores e pais têm de sentir que estas reformas são feitas para melhorar o ensino e devem ser feitas com eles e não contra eles. É por vezes, mais uma questão de clima de confiança do que do próprio conteúdo das reformas. A sua aplicação exige tempo, experimentação e acima de tudo a colaboração dos alvos dessas reformas. Esta é a primeira condição de sucesso. A segunda é que qualquer reforma de fundo só será bem sucedida num quadro de descentralização e desburocratização, o único que permite uma adaptação à diversidade e pluralidade de situações. Porque é evidente que não é possível avaliar da mesma forma aquilo que é diferente e o melhor sistema de avaliação é a livre escolha de pais e alunos de mudar ou não de escola, são os resultados dos alunos, é a própria gestão escolar. (...)»
2. Nuno Pacheco, "A festa de Sócrates, os foguetes de Vitalino e o azul de Menezes" - «Portugal não se leva a sério. O Governo auto-elogia-se e não "perde tempo" com coisas más. A educação move-se a birras. E o PSD iludea crise interna com um pano azul. Na manhã do dia em que 100 mil professores desfilaram em Lisboa, o porta-voz do Partido Socialista, Vitalino Canas, afirmou publicamente que "o PS olhará com atenção para os sinais que vêm da manifestação". Parecia uma afirmação sensata. Mas Vitalino avisava já que não haveria mudanças de rumo. Para quê, então, olhar "os sinais"? Por simples deleite contemplativo? Anteontem, ficou tudo mais claro. No final de uma reunião no ministério, o secretário de Estado Jorge Pedreira disse que poderia haver "soluções flexíveis"; e ontem, no Parlamento, a deputada do PS Isabel Coutinho, dizendo que essas tais "soluções flexíveis" já estavam previstas (coisa em que ninguém deve ter reparado), garantiu que "não há recuo do Ministério da Educação, nem do Governo". Ou seja: não há recuo porque as "soluções flexíveis" já faziam parte dos planos do Governo. Já a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, decerto furiosa com os jornais que lhe apontavam recuos, garantia depois, em conferência de imprensa, que as avaliações prosseguem. Tudo o que era para ser feito será. Com umas simplificações, claro, contornando algumas regras, sim, mas cumprindo o calendário. Vão-se os anéis, ficam os dedos. E nos dedos ficam avaliações que até podem não sê-lo, de facto, mas sempre são as tais 7 mil do plano. É o que tem de ser. Simplificadas ou flexibilizadas, lá as teremos. E o Governo pode dar por cumprida mais uma meta dos seus planos, mesmo que sirva apenas para isso: para dizer que foi cumprida e para a ministra não perder a face. O país, esse, vai perdendo tempo. (...)»
3. Idalina Jorge, "Cartas ao Director" - «(...) O sr. Presidente da República e o sr. primeiro-ministro haviam de ir à televisão fazer um aviso sério aos pais para que ponham os meninos a estudar. O país não se pode dar ao luxo de ter as crianças convencidas de que não precisam de estudar para passarem de ano.»
4. Rui Silvares, "Cartas ao Director" - «(...) O ministério da 5 de Outubro deve estar convencido que, produzindo constantemente páginas imensas de uma legislação enigmática, está a contribuir para solucionar os problemas da educação. Quem trabalha nas escolas sabe que as ordens e contra-ordens com que têm sido bombardeadas nos últimos meses apenas têm servido para lhes complicar o trabalho. É tempo de explicar a todos os que circulam nos gabinetes ministeriais que na quantidade é possivelmente mais difícil encontrar alguma qualidade e que a aparente complexidade de um problema não obriga a uma resposta igualmente confusa. (...)»

quarta-feira, 12 de março de 2008

Intervalo (5)

Acabadinha de receber...
Depois do choque tecnológico, no Portugal de 2019
Telefonista: Pizza Hot, boa noite!
Cliente: Boa noite, quero encomendar Pizzas...
Telefonista: Pode-me dar o seu NIN?
Cliente: Sim, o meu Número de Identificação Nacional é o 6102 1993 8456 5463 2107.
Telefonista: Obrigada, Sr. Lacerda. O seu endereço é na Avenida Pais de Barros, 19, Apartamento 11, e o número do seu telefone é o 21 549 42 36, certo? O telefone do seu escritório na Lincoln Seguros, é o 21 574 52 30 e o seu telemóvel é o 96 266 25 66, correcto?
Cliente: Como é que conseguiu todas essas informações?
Telefonista: Porque estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
Cliente: Ah, sim, é verdade! Quero encomendar duas Pizzas: uma Quatro Queijos e outra Calabresa...
Telefonista: Talvez não seja boa ideia...
Cliente: O quê...?
Telefonista: Consta na sua ficha médica que o senhor sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a saúde.
Cliente: Claro! Tem razão! O que é que sugere?
Telefonista: Por que é que não experimenta a nossa Pizza Superlight, com Tofu e Rabanetes? O senhor vai adorar!
Cliente: Como é que sabe que vou adorar?
Telefonista: O senhor consultou a página 'Receitas Gulosas com Soja' da Biblioteca Municipal, no dia 15 de Janeiro, às 14:27 e permaneceu ligado à rede durante 39 minutos. Daí a minha sugestão...
Cliente: Okay, está bem! Mande-me então duas Pizzas tamanho familiar!
Telefonista: É a escolha certa para o senhor, a sua esposa e os vossos quatro filhos, pode ter a certeza.
Cliente: Quanto é?
Telefonista: São 49,99.
Cliente: Quer o número do meu Cartão de Crédito?
Telefonista: Lamento, mas o senhor vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu Cartão de Crédito foi ultrapassado.
Cliente: Tudo bem. Posso ir ao Multibanco levantar dinheiro antes que chegue a Pizza.
Telefonista: Duvido que consiga. A sua Conta de Depósito à Ordem está com o saldo negativo.
Cliente: Meta-se na sua vida! Mande-me as Pizzas que eu arranjo o dinheiro. Quando é que entregam?
Telefonista: Estamos um pouco atrasados. Serão entregues em 45 minutos. Se estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto, não é lá muito aconselhável. Além de ser perigoso...
Cliente: Mas que história é essa? Como é que sabe que eu vou de moto?
Telefonista: Peço desculpa, mas reparei aqui que não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga e então, pensei que fosse utilizá-la.
Cliente: Foooooo.......!!!!!!!!!
Telefonista: Gostaria de pedir-lhe para não ser mal-educado... Não se esqueça de que já foi condenado em Julho de 2006 por desacato em público a um Agente Regional.
Cliente: (Silêncio).
Telefonista: Mais alguma coisa?
Cliente: Não. É só isso... Não. Espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.
Telefonista: O regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 095423/12, proibe a venda de bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...
Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou atirar-me pela janela!!!!!
Telefonista: E torcer um pé? O senhor mora no rés-do-chão...!

Escolas: sobre o processo em curso...

A notícia é da edição online do Público (de hoje, às 19h35): «Maria de Lurdes Rodrigues garante que processo está em curso nas escolas - Ministra da Educação nega recuo na avaliação dos professores - O processo de avaliação dos professores não vai ser adiado nem suspenso, garantiu hoje a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, em conferência de imprensa. No entanto, ressalvou que as escolas poderão simplificar os procedimentos previstos no diploma, abdicando por exemplo da observação de aulas. “A avaliação de desempenho dos professores não está adiada nem suspensa, não será adiada nem suspensa, está em curso nas escolas”, afirmou a ministra, citada pela TSF.Apesar disso, a titular da pasta da educação garantiu que houve um avanço no entendimento com os sindicatos, ao se aceitar prolongar o prazo e dar maior autonomia às escolas, pelo que cada estabelecimento de ensino poderá definir o seu calendário de avaliação. (...)»

Reflexão sobre a "rua" - 2

Intitula-se "O poder da rua", é assinado por Baptista-Bastos e vem no Diário de Notícias de hoje.

As impressionantes manifestações registadas nas últimas semanas, e continuadas um pouco por toda a parte, assumem a forma e o conteúdo de um severo depoimento contra o Governo. Não se trata de turbulências comunistas, como já o disse José Sócrates e, iradamente, o repetiu Augusto Santos Silva, cujas "verdades" surgem cada vez mais avariadas. A "rua" foi a demonstração categórica do desequilíbrio entre quem pensa em termos estatísticos e quem é vítima desse equívoco. E uma vigorosa afirmação de civismo. Há dias, conversei com Raul Solnado sobre a natureza do Estado e o domínio pelo domínio exercido, repetidamente, pelo Governo, esquecido de que a força da República é a virtude, e a sua fraqueza a soberba. Sobre ser um amigo de há mais de 40 anos, Solnado é homem sábio, de frase pensada e advertida inteligência, com quem apetece discretear. Disse: "Gostaríamos de sentir que este Governo tem vontade de transformar e de modernizar o País. Por outro lado, a sua arrogância e autismo quer arrastá-lo para uma democracia musculada, o que é assustador. Eles distanciaram-se de nós."
A tentação de se construir contra o outro destrói o laço social, fonte e apoio do tecido colectivo, assinalado por Solnado como silogismo. E essas regras perturbadoras têm por objectivo limitar a interferência cívica e proteger o autoritarismo governamental. O facto de este Governo dispor de maioria absoluta não significa que actue em absolutismo. Há, manifestamente, ausência de diálogo e um poderoso dispositivo autoritário que liquidam a coexistência de duas sinalizações fundamentais em democracia: a dos governantes e a dos governados.
Perdeu-se de vista o reconhecimento da igualdade, do direito de protesto e do dever de memória. Este Governo criou uma tensão dramática de tal ordem e um destempero de tal jaez que levaram o primeiro-ministro a afirmar-se indiferente para com a imponente manifestação dos professores, invocando uma "razão" cuja natureza só poderá ser explicada através da nebulosa em que ele parece viver.
A arrogância é uma deformação moral; o preconceito, uma doença de educação; o desdém, uma chaga de quem se presume superior. Sócrates criou uma criatura que escapou ao seu controlo. Não pode mudar: de contrário, deixa de ser quem julga ser. E, sendo-o, na obstinação de quem não tem dúvidas, perde o respeito daqueles para os quais a democracia não existe sem comunicação.
Ao contrário de alguns preopinantes, suponho que, se a ministra da Educação fosse embora, abrir-se-iam as portas ao diálogo. Porque (é inevitável) irão aparecer novas regras de jogo e outras instâncias de organização que terão em conta as específicas oscilações históricas. Nascidas, não o esqueçamos, da "rua".

Reflexão sobre a "rua" - 1

Intitula-se "Pelas ruas da amargura", é assinado por Rui Ramos e vem no Público de hoje.

Quase ninguém resistiu ao apelo da rua - nem o Governo.
Há uns meses, a CGTP fez uma coisa em Lisboa a que, a título póstumo, se chamou "a maior manifestação de todos os tempos". Ninguém reparou. Talvez por isso, toda a gente resolveu reparar na "marcha da indignação" de sábado passado. Como seria de prever, poucos souberam dosear o esforço. Na ânsia de compensar a primeira desatenção, quase todos trataram agora, não de meter o Rossio na rua da Betesga, mas Portugal inteiro numas quantas ruas de Lisboa.
Houve quem, sugestionado pelos números prometidos na véspera, descobrisse na "rua" a verdadeira "realidade" do país. E ainda quem, a partir daí, não hesitasse em dar o passo de uma espécie de revisão constitucional imaginária. Vimos assim a rua promovida a órgão de soberania e quarto poder do Estado. Democracia? Mas quem precisa de democracia com ruas como as nossas, ainda para mais sob este abençoado clima, tão apropriado para a vida ao ar livre? Enfim, quase ninguém resistiu ao apelo da rua. Nem o Governo, que logo fez constar que também ia sair, numa manifestação depois reformada em comício. Que dizer perante isto? O actual Governo conta com uma maioria absoluta no Parlamento, a colaboração do Presidente da República, sondagens de opinião favoráveis e até, segundo gosta de reclamar, toda a razão do mundo. Mas não lhe chega: quer ser avaliado na rua. Eis um dado significativo para o debate nacional em curso sobre a caracterização dos nossos governantes. A questão de saber se Sócrates é como Salazar está longe de resolvida, apesar da intervenção de pensadores tão subtis como Mendes Bota. Em contrapartida, a comparação com Marcello Caetano ficou definitivamente comprometida. Na tarde de 25 de Abril de 1974, Caetano chamou um general para o "poder não cair na rua". É uma cautela que os actuais ministros decidiram dispensar: são eles próprios a quererem pôr o poder na rua.
Não nos devemos surpreender com este desvario geral. Perante o mais prolongado impasse económico desde a década de 1930 e quando a oposição, por intermédio do impagável Luís Filipe Menezes, confirma não ter alternativa, que fazer, senão perder a cabeça? Mas antes de descermos todos à rua, não valeria a pena pensar bem sobre que tipo de vida política é possível assentar na ocupação temporária do espaço entre dois prédios?
A rua não é um sítio para ter razão. Na rua não valem os argumentos, valem os números, vale a presença física. Na rua, o adversário não se ouve, não existe, não conta: é referido apenas para ser assobiado, insultado, queimado em efígie. Na rua, a multidão torna-se uniforme: não se divide, não discute - não é real. A rua das manifestações é um espaço privatizado, ocupado e delimitado pelos "organizadores", onde não se ouvem outras vozes - é a negação do espaço público democrático, que é por definição aberto e plural. Que regime se pode fundar na rua, a não ser o da guerra civil, aberta ou latente? Foi assim em Portugal no ano de 1975, durante o "período revolucionário", quando a rua de um lado se confrontou e mediu com a rua do outro. As democracias podem nascer na rua - mas também lá podem morrer.
Está a "realidade" na rua, como a verdade estava no vinho? Curiosamente, a marcha de sábado foi como a pescada: um dia antes de ser realizada, já era a "maior de sempre", com o número de antemão registado de 70.000 participantes. A ninguém pareceu necessário dar uma chance à realidade para confirmar o recorde. A rua é, como sempre foi, uma questão de "organização" e "relações públicas". Com 600 autocarros preenche-se uma avenida. Mas não basta. É preciso depois discutir os números com a polícia e fazer pressão sobre as televisões e os jornais para darem as "imagens" certas. A rua, hoje, é um espectáculo tão fabricado como qualquer outra cerimónia de Estado. Não é a realidade. A realidade é a vida de um país, que se não cabe numa assembleia, ainda menos cabe numa rua.
Onde irão dar estas ruas? Menezes parece convencido de que o levarão ao governo. Perante a marcha de sábado, roubou uns preciosos minutos à operação de mudança de ramo do PSD (de maior partido da oposição para o que promete ser, segundo um seu antigo secretário-geral, a maior rede de lavandarias do país) para saudar com emoção a "ponte 25 de Abril" de Sócrates. Não lhe ocorreu que nunca poderia governar, se por acaso Sócrates caísse assim. Com esta direcção, o PSD aderiu de vez ao clube do PCP e do BE. Quanto ao Governo, fica esta dúvida: os marchantes de sábado pediram a demissão de um ministro; e o Governo, no seu comício, vai pedir o quê? A demissão do país? Por estas ruas não iremos certamente a lado nenhum.

O momento da educação e dos professores em análise episcopal

O bispado português pronunciou-se sobre a situação que se está a viver na relação entre o Governo e os professores. Se ainda havia dúvidas, cai agora por terra a teoria dos "comunistas" a agitarem as águas... Mas o mais interessante desta posição é o ponto de vista humanista sobre a educação e sobre as profissões, numa dimensão que está muito distante do "economês" que tem minado todo o relacionamento. Transcrevo as duas notícias a partir da agência Ecclesia, uma a dar conta da opinião da Conferência Episcopal Portuguesa, outra a citar o Patriarca D. José Policarpo. Há uma coisa que convém não esquecer: é que a Igreja portuguesa também sabe do que fala quando fala de educação.

Bispos portugueses preocupados com a educação
Mal-estar pode reflectir-se numa crise emergente, alerta o secretário da Conferência Episcopal - O Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa está a acompanhar com “interesse e alguma preocupação a situação dos professores” – disse à Agência ECCLESIA D. Carlos Azevedo, secretário da Conferência Episcopal Portuguesa.
Reunido esta Terça-feira (11 de Março), em Fátima, o Conselho Permanente preparou também Assembleia Plenária da CEP a realizar de 31 de Março a 3 de Abril.
“Sendo os agentes mais responsáveis pelo futuro de Portugal – os alunos são a razão de ser do seu trabalho -, este mal-estar pode reflectir-se numa crise emergente na educação” – referiu D. Carlos Azevedo. No futuro próximo, os bispos irão pronunciar-se sobre a questão da educação em Portugal. “Há um documento sobre a escola, mas deixaremos para mais tarde uma tomada de posição”. E adianta: “é um assunto muito complicado, Bento XVI publicou, recentemente, um documento pequeno, mas sugestivo sobre a crise emergente da educação”.
A “cultura de exigência” é fundamental na educação. Por outro lado – refere o Secretário da CEP – “deve existir um respeito grande por aqueles que são os mais directos agentes desse trabalho educativo que são os professores”.
Professores são «decisivos» para o país, diz Cardeal-Patriarca
D. José Policarpo avançou à Agência ECCLESIA a preocupação que a Conferência Episcopal tem sobre a actual situação da educação.
O Cardeal Patriarca de Lisboa afirmou que “os professores e educadores neste país são um grupo decisivo para o futuro, porventura mais decisivo que os políticos, financeiros ou técnicos”.
A educação foi um dos temas discutidos na reunião do Conselho Permanente da CEP que ontem decorreu em Fátima.
D. José Policarpo afirmou que apesar de "não estarmos por dentro de todos os pormenores", a CEP acompanha com “interesse e solicitude”, manifestando “muita compreensão pelas dificuldades sentidas”.
O Cardeal Patriarca de Lisboa admitiu que a CEP poderá voltar a “este assunto, com uma reflexão mais profunda” e que “todos estão à procura do melhor”, apesar dos conflitos.
D. José Policarpo deixou uma palavra de “estima por todos aqueles que no nosso país se dedicam a esta tarefa fundamental, inventiva e árdua de educar”.

terça-feira, 11 de março de 2008

Rostos (36)


D. Sebastião no Algarve - em Pêra (escultura em areia, no FIESA 2006) e em Lagos (obra de João Cutileiro, 1972)

segunda-feira, 10 de março de 2008

E não se pode ignorá-los? Pode, porque a educação e ser professor é assunto sério...

Na sala de professores, o ambiente estava marcado pelo texto que alguém afixara num dos placards. Era fotocópia de um artigo vindo a lume recentemente num jornal diário, em que o cronista (?) despejava o seu fel sobre os professores, em linguagem caceteira e de malcriadez. Na verdade, a linguagem usada confirma o estatuto de criação e de respeito que o dito autor merece e mais comentários não são para aqui chamados, porque a prosa da dita fotocópia os não merece e porque, como diz o ditado… “o bom julgador por si se julga”.
Obviamente, sabemos que há quem não apoie as causas que os professores têm apontado, seja por fidelidade à estrutura partidária (ou a quem a dirige), seja por convicção, seja mesmo por ter traumas acumulados quanto a professores e à escola, seja por alinhar sempre no grupo dos que protestam contra a parte social do Estado e a sua organização. Mas isso não determina o universo, sabemo-lo. E aceitarmos que uma prosa de fel e vinagre pretenda condicionar a moral, a consciência e o profissionalismo docentes… é dar demasiado crédito a quem o não merece.
Na verdade, há que olhar para quem connosco reflecte sobre a causa da educação sem demagogia, mas com o espírito de dúvida, de análise e de respeito que a causa merece, mesmo que não estejam na nossa linha. Esses merecem ser divulgados por nós, merecem a nossa abertura, mesmo para que a conversa e a discussão enriqueçam, mesmo para que a educação vença, mesmo para que a cidadania saia valorizada. Já se viu que só assim se podem conseguir consensos e partilhas. O resto, o que passa pelo atirar contínuo de pedras, só serve para alargar o fosso em que há quem quer que a gente caia. E por aí não devemos ir. Deixe-se o canto de sereia da cacetada para quem com ela se coça!

A manifestação dos professores e os ângulos da democracia

Segundo o Público de hoje, o Primeiro-Ministro "disse compreender que os professores estejam a confrontar-se com muitas mudanças ao mesmo tempo, mas garantiu que não vai alterar o seu rumo". E o jornal continua, citando o discurso de José Sócrates: "As pessoas têm o direito de se manifestar. Mas era o que faltava se a acção governativa dependesse agora do nível das manifestações. (...) Quem determina a acção governativa são os portugueses quando escolhem o Governo. É bom que não nos esqueçamos disso".
Assumir estas coisas como verdade esconde uma outra verdade, que é a da demagogia assente no princípio das maiorias absolutas, porque se sabe muito bem que significativa parte dos eleitores não corre atrás dos programas eleitorais dos partidos mas atrás da fidelidade ao partido ou das circunstâncias histórico-políticas do momento.
A resposta ao Primeiro-Ministro surge, aliás, no próprio jornal pela pena de André Freire, na crónica "A democracia não se esgota no voto". De facto, para os ganhadores de eleições, a participação dos cidadãos parece esgotar-se no próprio acto eleitoral. Para os cidadãos, o desencanto quanto à participação mais passa por se confrontarem cada vez mais com a instrumentalização da participação, o que é um paradoxo, é claro. Ceda-se a palavra a André Freire, que escreve na sequência da manifestação de professores ocorrida no sábado, a mesma que, para o Primeiro-Ministro, parece resultar apenas de "um direito de se manifestar[em]" as pessoas:
"(…) Apesar de regularmente se lamentar a fraqueza da sociedade civil e se exortarem os cidadãos a fortalecê-la, nomeadamente para todos termos uma melhor governação, temos assistido recentemente a uma demonização dos sindicatos, que estão entre as maiores organizações da sociedade civil. Ou será que só os empresários representam a sociedade civil?
(…) Seria muito empobrecedor considerar o mecanismo eleitoral como o único veículo das funções de representação e de responsabilização. (…) Temos que concluir que a maioria absoluta tem levado o presente Governo não só a uma enorme arrogância na sua relação com os cidadãos, mas também a uma grande incapacidade de diálogo social. (…) Se algumas tendências de mudança na governação democrática europeia existem, nomeadamente dos anos 1960 para cá, elas vão no sentido de se defender e estimular uma crescente participação dos cidadãos nos processos de tomada de decisão, muito para além do voto. (…) O uso de formas não convencionais será tanto maior quanto menos bem funcionarem os mecanismos tradicionais de concertação. Passando ao caso português, é imperioso concluir que a gigantesca manifestação de cerca de 100 mil professores não só demonstra uma enorme insatisfação de cerca de dois terços desta classe profissional, como evidencia que os mecanismos de concertação não têm funcionado, dando razão aos sindicatos. Mas esta manifestação, com pessoas de todos os partidos e quadrantes ideológicos (nomeadamente muitíssimos votantes PS, em 2005...), foi também uma grande lição de participação cívica. (...)
"
E, ainda no Público de hoje, Rui Tavares traça as linhas do conceito de "reforma", que não pode ser apresentado como algo contra as pessoas, sejam elas quais forem. O que lhe serve de ponto de partida é também a questão dos professores, assunto que poderá servir para que os políticos recebam lições (apesar de muitos entenderem que... não têm que receber lições de ninguém, esquecendo-se de que... assim também as não podem dar a ningém):
"(...) Reformas impopulares, claro está, só se conseguem com maioria absoluta. Ninguém quis ver o lado perverso desta lógica: com maioria absoluta não é preciso que as reformas sejam boas, basta dizer que elas são impopulares e que quem se lhes opõe é contra as reformas. Funciona, pelo menos no início.E quando precisamos da colaboração dos seres humanos lá em baixo? O problema é mesmo esse: as reformas fazem-se com as pessoas que temos, não com as que fabricamos. Insistir numa reforma apenas porque é "impopular" é uma desculpa fácil. Difícil é fazer uma reforma compreensível e motivadora para quem vai ter de participar nela. Mas às vezes é possível, e nesses casos é essencial.Um discurso que nos diz que todo o ensino público está mal não é nem nunca será reformista. O verdadeiro reformismo é realista: quer concentrar as suas forças no que está mal e não disparar em todas as direcções. E no ideal, o reformismo é progressista: só funciona quando dá às pessoas um horizonte de expectativas atingível e honesto. Quem quer um governo reformista não pode consegui-lo aliando-se à opinião mais pessimista e destrutiva, ainda que tacticamente. Se o fizer, começa com demonstrações de autoridade vácuas e acaba batendo com a cabeça no muro. Que isto sirva de lição ao PS."