domingo, 9 de março de 2008

Memória: António Matos Fortuna (1930-2008) - 3

Para uma bibliografia de António Matos Fortuna
  • Memórias Paroquiais de 1758. Col. "Monografia de Palmela" (1). Palmela: Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela, 1982.

  • "O Castelo de Palmela - Charneira dos Sete Castelos da Região dos Três Castelos" e "A Exploração Didáctica de Velhos Monumentos - Um Exemplo Concreto: O Castelo de Palmela". Livro do Congresso - Primeiro Congresso Sobre Monumentos Militares Portugueses - 1982. Lisboa: Património XXI - Associação Portuguesa para a Protecção e Desenvolvimento da Cultura, 1982, pp. 34-38 e 39-43.

  • Alguém que "Agarrou" o Evangelho - Evocando Carmita Fortuna. Quinta do Anjo: Comunidade Cristã de Quinta do Anjo, 1983.

  • Reflexões sobre a História Social de Palmela. Palmela: ed. policopiada, 1984.

  • Aspectos da Linguagem Popular de Palmela. Palmela: Direcção-Geral de Apoio e Extensão Educativa / Coordenação Concelhia de Palmela, 1987.

  • "Digressões à Volta do Nome de Palmela". História de Palmela ou Palmela na História - Jornadas de Divulgação e Análise do Passado de Palmela – 1987. Col. "Estudos Locais" (1). Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1988, pp. 37-49.

  • "Recordando Três Páginas da História Esquecida do Castelo de Palmela". O Castelo de Palmela - Emissão de Selos. Lisboa: Correios e Telecomunicações de Portugal, 1988, pp. 5-8.

  • Quinta do Anjo - Capital da "Ovelharia" Entre Tejo e Sado. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1988.

  • Contava-se em Terras de Palmela... - As Lendas Perdidas do Concelho de Palmela. Col. "Estudos Locais" (2). Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1989.

  • "O Castelo de Palmela". A Ordem de Sant'Iago - História e Arte - Catálogo da Exposição. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1990, pp. 41-46.

  • Da Uva Por Nascer ao Vinho Pronto a Beber - Catálogo da Exposição - Vindimas 90. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1990.

  • Misericórdia de Palmela - Vida e Factos. Palmela: Santa Casa da Misericórdia de Palmela, 1990.

  • "Um Inventário da Ordem de Sant'Iago ou Caderno de Problemas de Múltiplas Incógnitas". As Ordens Militares em Portugal - Actas do 1º Encontro sobre Ordens Militares – 1989. Col. "Estudos Locais" (3). Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1991, pp. 131-139.

  • A Igreja de S.Pedro de Palmela. Palmela: Igreja Paroquial de S.Pedro, 1991.

  • "História Vitivinícola da Península de Setúbal - Breves Apontamentos". Vinhos da Costa Azul. Setúbal: Região de Turismo da Costa Azul, 1992.

  • Chafariz D.Maria I - Bicentenário - 1792 / 1992. Palmela: ed. policopiada, 1992.

  • Priores-Mores do Real Convento Provedores da Santa Casa da Misericórdia de Palmela. Palmela: Santa Casa da Misericórdia de Palmela, 1994.

  • Roteiro do Cortejo Evocativo "Portugal e o Vinho". Palmela: Festa das Vindimas, 1994.

  • Quando se Levantou o Chafariz - Reinado de D.Maria I. Col. "Monografia de Palmela" (2). Palmela: Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela, 1994.

  • Extinção e Restauração do Concelho - Um Combate Singularmente Duro. Col. "Monografia de Palmela" (3). Palmela: Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela, 1995.

  • Ordem Enófila de Sant'Iago - Primeiras Parras - Volume-Arquivo de Documentos Iniciais. Palmela: Ordem Enófila de Sant'Iago, 1996.

  • "A Riqueza Fundiária da Ordem de Sant'Iago no Distrito de Setúbal em 1834". As Ordens Militares em Portugal e no Sul da Europa - Actas do II Encontro sobre Ordens Militares – 1992. Col. "Actas & Colóquios" (10). Lisboa: Edições Colibri / Câmara Municipal de Palmela, 1997, pp. 231-268.

  • Memórias da Agricultura e Ruralidade do Concelho de Palmela. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1997.
  • "A Ordem de Sant'Iago - Perspectivas Vitivinícolas Ontem e Hoje". Ordens Militares - Guerra, Religião, Poder e Cultura - Actas do III Encontro Sobre Ordens Militares – 1998 (vol. 1). Col. "Actas & Colóquios" (17). Lisboa: Edições Colibri / Câmara Municipal de Palmela, 1999, pp. 185-192.
  • "Jogo do Pau". Actas da 1ª Eira Folclórica da Região Caramela – 1999. Pinhal Novo: Rancho Folclórico da Casa do Povo de Pinhal Novo, 2000, pp. 27-32.

  • 8º Centenário do Foral de Palmela – Memorial das Comemorações. Palmela: Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela, 2001.

  • Palmela – Sobre Todas, Mais Alta e Formosa. Lisboa: Elo, 2001.

  • Os Vinhos da Península de Setúbal. Col. “Enciclopédia dos Vinhos de Portugal” (7). Lisboa: Chaves Ferreira, 2001 (em co-autoria com Vasco Penha Garcia e António Homem-Cardoso).

  • Marateca Que Já Foi. Col. “Estudos Locais” (5). Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 2002.

  • “Um Castelo em Sucessiva Destruição e Reconstrução”. Actas do III Congresso “Monumentos Militares Portugueses” – Junho de 1985. Lisboa: Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, 2002, pp. 69-77.

  • Roteiro do Cortejo Evocativo “Portugal Vinícola” – Festa das Vindimas – 2002. Palmela: Festa das Vindimas, 2002.

  • Um Distrito sob o Signo do Futebol. Setúbal: Associação de Futebol de Setúbal, 2002.

  • Outros Tempos. Col. “Monografia de Palmela” (4).Palmela: Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela, 2002 (com desenhos de Duarte Fortuna).

  • Quinta do Anjo – Terra singular. Col. “Estudos Locais” (6). Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 2005.

Memória: António Matos Fortuna (1930-2008) - 2

O HISTORIADOR LOCAL
ANTÓNIO MATOS FORTUNA
A casa mostra a legenda "Casal dos Cantos" e a personagem que a habita honra a inscrição, tal é o acervo de estórias pessoais que se confundem com as histórias de Palmela, a mostrarem a sua presença constante pelos cantos da casa e da conversa. À entrada da freguesia de Quinta do Anjo, para quem vá do lado de Palmela, sobre o lado esquerdo, em casa térrea, vive António Matos Fortuna, o mais conhecido historiador local da região, "em serviço permanente, nas 24 horas do dia".
O mês de Dezembro de 1930 começou com o desaparecimento, no seu quinto dia, de Raúl Brandão, nome maior das letras portuguesas deste século, e findou com o nascimento de António Matos Fortuna, numa casa situada na actual Rua Afonso de Albuquerque, em Quinta do Anjo, hoje já recuperada. Os dois anos do início da década de 30 disputaram-lhe o nascimento, mas foi na invernosa tarde do dia 31 que o pequeno António fez ecoar o seu primeiro choro. Iniciava-se assim o percurso de "uma vida banalíssima, igual à de toda a gente", confessa a tentar esconder a notoriedade.
Com estudos na Escola João Vaz, em Setúbal, feitos à custa de um trajecto a pé entre a sua freguesia e a cidade sadina (cerca de dezena e meia de quilómetros para cada lado), aos 22 anos era fiscal de impostos na Câmara de Setúbal, trabalhando depois no Sanatório do Outão, na editora lisboeta “Logos” como revisor, na Casa de Pessoal da “Sacor” e leccionando na Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos de Palmela, a partir de 1977 até à aposentação como docente, ocorrida em Setembro de 2000.
Entretanto, a escrita e o gosto pela História foram companhia constante. Na década de 50, por volta de 1953, foi um dos componentes da "Arcádia da Fonte do Anjo", tertúlia constituída à maneira das academias literárias setecentistas onde teve o pseudónimo de Louro da Serra, acompanhado por nomes conhecidos na região de Setúbal e de Palmela como o médico e escritor Cabral Adão, a poetisa Maria Helena Soares Horta e a mestre de música Maria Adelaide Rosado Pinto. Tal associação, integrada no espírito da época, teve página regular no jornal O Setubalense e fez apresentações de poesia no sul do país e em Setúbal e pretendia o ressurgimento da poesia lírica, tal como se podia perceber pela sua declaração de intenções: "Nós não temos estatutos nem regulamentos, apenas temos uma missão: combater a poesia moderna, a poesia-disparate, que pode ser muito interessante no preenchimento da ficha clínica do manicómio, mas que não é suficiente para entreter um espírito medianamente culto".
O jornalismo foi outra das áreas de intervenção de Matos Fortuna, tal como comprova a vasta colaboração em periódicos regionais e nacionais que tem mantido e mesmo a frequência do primeiro Curso de Jornalismo, da responsabilidade do Sindicato Nacional de Jornalistas, ocorrido no ano lectivo de 1968/69, onde teve como professores Francisco Pinto Balsemão e José Júlio Gonçalves, figuras bem conhecidas.
Mas a História, com um exercício profundo de investigação e de descoberta, à maneira de "trabalho de galinha, porque se trata de esgravatar para trás, recuando no tempo", tem constituído a paixão de António Fortuna. Em 1970, com 40 anos, matriculou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para cursar História, tempo de que relembra professores como o jesuíta Manuel Antunes e os historiadores Veríssimo Serrão e Borges de Macedo. O termo do curso ocorreu em 1975, tendo depois iniciado a sua carreira de professor e a escrita da história local. Para lá de muitas colaborações avulsas e de comunicações dispersas, a sua obra abrange mais de dezena e meia de volumes, obras publicadas pela Câmara Municipal, pelo Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela, pela Misericórida e pela Paróquia palmelenses, maioritariamente.
"Escrever a história de Palmela é aliciante porque é tudo original", desabafa. "Não tenho antecedentes em que me apoiar". Na verdade, grande parte da documentação histórica sobre Palmela perdeu-se em dois incêndios, um no século XVII, nos Paços de Concelho locais, e outro na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910, no edifício da Câmara de Setúbal, concelho em que Palmela estava integrada na época. Estas duas ocorrências têm constituído o desafio permanente de Matos Fortuna, aliado a um grande afecto pela sua terra e ao sacrifício familiar que ele mesmo exige a si próprio, pormenor que deixou registado na dedicatória do último livro, ao escrever: "à Maria Jorge, minha mulher, a maior, ou única vítima do amor que consagro às terras de Palmela".
A actividade de Matos Fortuna tem sido ramificada ainda pela organização de passeios eminentemente culturais, em visita a sítios por onde as agências de viagens não passam, que rapidamente esgotam a lotação entre os associados do Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela (de que é sócio-fundador), entre os irmãos da Misericórdia palmelense ou entre os paroquianos de Quinta do Anjo, tal é a dose de seriedade e de interesse postos na sua organização. "Uma outra forma de mostrar a história às pessoas", diz, ao mesmo tempo que sublinha o seu grande apreço pelo contacto, pela conversa com as gentes, consequências de uma experiência muito sentida ao longo dos quinze anos em que esteve ligado à Acção Católica Rural, onde encontrou "a melhor gente".
Considera que o seu “grande trabalho foram os 800 anos do foral”, celebrados em 1985, quando preparou a rigor um torneio medieval “que teve honras de televisão e de que toda a gente falou”. Depois, “os torneios medievais entraram na moda e começaram a andar por aí…” A romagem de todos os concelhos a que Afonso Henriques deu foral ao túmulo do primeiro rei português, em Santa Cruz de Coimbra, na passagem dos 800 anos sobre a sua morte, com discurso de Henrique Barrilaro Ruas, foi outra das iniciativas promovidas por Fortuna, em 1985, através do Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela. “Nunca Afonso Henriques teve tanta flor…”, recorda com satisfação.
No seu gesto largo e rápido de falar e de contar as muitas histórias que sabe, encadeia narrativas num fio que nunca mais acaba. "Sabe que o primeiro acidente de automóvel em Portugal ocorreu em Palmela? E que o primeiro barco a vapor no nosso país se chamou Palmela? E sabe que a maior vinha do mundo pertencente a um só indivíduo existiu no concelho de Palmela?" São perguntas de outras tantas histórias que vai divulgando. Uma curiosidade sem limites orienta este homem que tem sido chamado para todas as actividades culturais locais, incluindo a de assessor cultural da autarquia, consequência reconhecida das mais de duas mil páginas publicadas em livro sobre a história de Palmela e seu termo.
João Reis Ribeiro. Histórias e cantinhos da região de Palmela. Col. "Cadernos Locais" (3).
Palmela: Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela, 2002, pp. 99-104.

Memória: António Matos Fortuna (1930-2008) - 1

Quando, há cerca de três semanas, parei o carro fora da casa de António Matos Fortuna e o visitei de surpresa, estava longe de pensar que aquele seria o nosso último encontro. Coisas da vida, eu sei. Mas, apesar de notar que, ao longo do último ano e meio, em cada vez que o via o achava mais decaído, mantive sempre a expectativa de um encontro a seguir. Combinámos mesmo um encontro para um almoço e conversa… Ficou pela combinação, assim brutalmente, com o telefonema recebido hoje, de um amigo comum, a comunicar o falecimento, na manhã de hoje, de António Matos Fortuna.
De repente, passou-me pela memória um conjunto de vivências que ele me proporcionou, para lá de, claro está, ter consentido na nossa amizade. A curiosidade pela história local, a boa disposição para falar das gentes da região, a cultura longa quando se entrava pelos domínios da história e da literatura clássica, o apego à terra que o viu nascer e que sempre distinguiu, o prazer de se dizer “montanhão” (natural da Quinta do Anjo, da encosta da serra), a labuta incansável em prol da descoberta de elementos para a história de Palmela (sobretudo numa altura em que nada ou quase nada existia a descoberto), o prazer que me deu ao convidar-me para prefaciar dois dos seus livros e para apresentar publicamente dois outros, as longas horas de conversa que mantivemos, os votos de “boas festas” arranjados de maneira original (com garrafa de vinho regional e rótulo pessoal, este da lavra de Matos Fortuna), o tom crítico perante os acontecimentos e relativamente aos textos, a desconfiança relativamente aos “cágados” (nisso me fazendo lembrar a mesma desconfiança que Luiz Pacheco tinha quanto aos “urubus”), os telefonemas súbitos por causa de dúvidas… enfim, difícil me é, de imediato, fazer um retrato de todas as vivências com Matos Fortuna, uma personagem a quem a história de Palmela sempre ficará a dever muito, a quem as ideias corriam mais depressa do que a vida e do que as palavras, para quem a amizade e uma formação humanista eram essenciais.
No último encontro que tivemos, ainda o ajudei a pôr em ordem os cadernos de um texto que publicara há anos, intitulado O drama da Quinta da Torre, saído no jornal O Distrito de Setúbal e, depois, preparado para livro que nunca terá chegado a circular encadernado. Mas, também nesse último encontro, fiquei com pena de já não o ver entusiasmado com um projecto que tivera em mãos (ainda uns meses antes com ele andava), que era o de reunir os textos de João Carlos Almeida Carvalho sobre Palmela, publicando-os em livro anotado.
Sinto-me privilegiado por me ter cruzado com António Matos Fortuna. Sobretudo pelo que com ele aprendi. E quero que essas imagens se mantenham na minha memória.

Sublinhados de hoje (no "Público")

1. Nuno Pacheco, “A ministra uniu os professores mas não aprendeu a lição”. Público.
"Os professores tinham prometido concentrar 60 mil até Lisboa. Foram mais: 100 mil, segundo as contas dos sindicatos e também da polícia, que ontem à noite, corrigia a estimativa inicial de 80 mil. Ou seja: um número superior a dois terços do total dos (140 mil) professores do ensino público, básico e secundário, do continente. Porquê? Porque o descontentamento é de tal modo profundo que gerou uma mobilização nunca antes vista entre docentes, trazendo à rua muita gente não sindicalizada, apartidária (quando não mesmo avessa a partidos) e até estreantes absolutos em manifestações. A ministra uniu os professores, dizia-se nas ruas. E uniu-os inabilmente contra ela, numa estratégia que lhe pode custar, se não a permanência na pasta, pelo menos a margem de manobra para as reformas em que cegamente insiste, mesmo sabendo que não tem condições para vir a aplicá-las. (...)"
2. António Barreto, “Avaliações”. Público.
"(...) O movimento dos professores tem muitos objectivos: o director da escola, o conceito de autonomia, o estatuto da carreira docente e outros. Além da parcela de poder sindical. Acontece que os professores têm algumas razões. E a ministra também. O facto de se ter declarado guerra entre aqueles e esta é infeliz, pois impede detectar as razões que assistem uns e outra. Infelizmente, é assim a luta das classes e das instituições. É frequente perder-se a semente no meio do joio. (...) Sublinhe-se um erro decisivo na estratégia do Governo, não se sabe se da autoria da ministra, mulher tranquila, se da responsabilidade do primeiro-ministro, homem crispado. A ausência de vontade experimental, ou de estratégia empírica, esteve evidente desde o início. O Governo queria organizar uma cruzada, fazer tudo ou nada, agir por enxurrada e realizar tudo ao mesmo tempo, em todo o sítio e para toda a gente. Com este método, os erros tomam uma dimensão colossal e torna-se impossível corrigir o que quer que seja. (...) Criado por burocratas e tecnocratas, os defensores da avaliação acreditam que um sistema destes promove a boa educação, melhora o ensino, castiga os maus profissionais, detecta os talentos, permite corrigir erros e combate o desperdício. Na verdade, o sistema e a sua ideologia, que infestaram o Ministério da Educação, são próprios de uma educação centralizada, integrada e uniforme. Na impossibilidade humana de "gerir" milhares de escolas e centenas de milhares de professores, os esclarecidos especialistas construíram uma teoria "científica" e um método "objectivo" com a finalidade de medir desempenhos e apurar a qualidade dos profissionais. Daí os patéticos esquemas, gráficos e grelhas com os quais se pretende humilhar, controlar, medir, poupar recursos, ocupar os professores e tornar a vida de toda a gente num inferno. O que na verdade se passa é que este sistema implica a abdicação de princípios fundamentais, como sejam os da autoridade da direcção, a responsabilidade do director e dos dirigentes e a autonomia da escola. O sistema de avaliação é a dissolução da autoridade e da hierarquia, assim como um obstáculo ao trabalho em equipa e ao diálogo entre profissionais. É um programa de desumanização da escola e da profissão docente. Este sistema burocrático é incapaz de avaliar a qualidade das pessoas e de perceber o que os professores realmente fazem. É uma cortina de fumo atrás da qual se escondem burocratas e covardes, incapazes de criticar e elogiar cara a cara um profissional. Este sistema, copiado de outros países e recriado nas alfurjas do ministério, é mais um sinal de crise da educação. (...)"
3. José Madureira Pinto. “Política educativa: uma estranha coerência”. Público.
"(...) Numa altura em que os teóricos da organização e gestão empresarial defendem cada vez mais a importância do envolvimento e participação criativa dos trabalhadores (encarados como actores "reflexivos"), desconfiando dos que teimam em racionalizar e controlar os comportamentos no espaço do trabalho sem ter em conta a pluralidade e riqueza das suas dimensões humanas, a obsessão "gestionária" do Governo no modo de conceber a actividade docente (actividade relacional por excelência) tem o seu quê de anacrónico - e pode vir a ter consequências muito negativas, se não forem revistos alguns dos seus fundamentos e modos de concretização."
4. João Henriques. Público (primeira página)

5. Paulo Moura, "Marcha gigante vê na escola o último reduto da liberdade". Público.
"(...) Conhecêmo-los. Ninguém pode dizer que nunca se cruzou com um professor. Os habituées das esplanadas do Rossio olham-nos com alguma complacência. Não são metalúrgicos, não são mineiros, nem camponeses. Não são os explorados, os oprimidos: são os professores. Não mudaram muito desde o tempo em que foram os nossos professores. São reconhecíveis por todos, porque vêm de todo o país e vêm em três gerações: a de jeans e blusão, a de pulôver com camisa por baixo, a de barbas, casaco pingão e cachimbo. Não diferem muito dos clichés que temos deles e por isso simbolizam a educação que tivemos - ou não tivemos. Simbolizam o que somos. Todos os professores falam da avaliação, que não se pode fazer desta maneira, "porque as escolas não são empresas". Falam da "burocracia", da linguagem "simplista, dos números, das estatísticas". Dizem que "assim não se pode ensinar". Riem-se dos "tecnocratas da educação". Declaram, como se fosse uma evidência: "Uma escola não é uma empresa." E: "O ensino não é um produto. Os seres humanos não são produtos." Como se o país já fosse uma empresa e nós já fôssemos produtos, por fora. Mas, por dentro, humanos e livres. E os professores fossem a vanguarda dessa liberdade interior. Os habitués do Nicola olham-nos com alguma estranheza. Algum temor. Isto não é uma manifestação de operários, mas, se na sociedade moderna o conhecimento é o novo capital, estes são o novo operariado. O proletariado do espírito. (...)"

sábado, 8 de março de 2008

Fábula (útil para os tempos de hoje)

"Era uma vez um granjeiro que criava galinhas. Era um granjeiro incomum, intelectual e progressista. Estudou administração para que a sua granja funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutoramento em criação de galinhas. No curso de administração, aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado.
Aplicado à criação de galinhas esse princípio traduz-se assim: galinha que não põe ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.
Com o propósito de garantir a qualidade total da sua granja, o granjeiro estabeleceu um rigoroso sistema de controlo da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos postos pela unidade de tempo escolhida. As galinhas cujo índice de produtividade fossem iguais ou superiores a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na granja como galinhas poedeiras. O granjeiro estabeleceu, inclusive, um sistema de 'mérito galináceo': as galinhas que punham mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que punham menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.
Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, acto contínuo, subiam para as costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico e obrigavam-nas a agacharem-se. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o granjeiro que isso era tudo o que os galos - esse era o nome daquelas aves - faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da granja, nenhum deles tinha posto. Lembrou-se o granjeiro, então, das lições que aprendera na escola e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha.
As galinhas continuaram a pôr ovos como sempre haviam posto: os números escritos nos relatórios não deixavam margens para dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, quebravam-se e de dentro deles saíam pintainhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintinhos. E se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.
Aí o granjeiro científico aprendeu duas coisas:
Primeiro: o que importa não é a quantidade de ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.
Dois: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas."
Ruben Alves. Gaiolas ou asas (Porto: Edições ASA, 2004)

Minudências (22)

Uns... e os outros (ou desfocagens)
Lusa, 11h12 - «Ontem à noite, em Chaves, Augusto Santos Silva acusa professores manifestantes de não distinguirem "entre Salazar e os democratas" - O ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva acusou, ontem à noite, em Chaves, à entrada para uma reunião sobre os três anos de Governo, os manifestantes de estarem a levar a cabo uma intimidação anti-democrática e atribuiu o combate pela liberdade apenas a "históricos" do PS. O ministro acusou ainda os manifestantes de "nem sequer saberem distinguir entre Salazar e os democratas" e de nem terem "lutado contra o fascismo"."A liberdade é algo que o País deve a Mário Soares, a Salgado Zenha, a Manuel Alegre... Não deve a Álvaro Cunhal nem a Mário Nogueira" (...).»

Sublinhados de hoje

1. José Carlos Vasconcelos, “Avaliações”. Visão. 06.Março.2008, pg. 40 – “(…) O que aconteceu foi que, a partir de certa altura: a) a necessária e luva vel determinação do Governo, que deve pressupor o diálogo, parece tê-lo tornado ineficaz; b) foi-se generalizando a imagem de que o ministério desvalorizava, ou era mesmo contra, os professores; c) a quantidade e o ritmo das mudanças passaram a ser excessivos, porventura com a expectativa de anular ou minimizar focos de contestação anteriores com a criação de outros novos; d) houve, enfim, uma pressa desmedida de fazer entrar em vigor numerosas inovações, medidas de fundo que, sendo em geral certas, mesmo indispensáveis, impunham, algumas delas, mais debate, se possível consenso, pelo menos tempo para serem aplicadas. E é este o caso da essencial avaliação dos professores. (…)”
2. Miguel Sousa Tavares, “A rua e o beco”. Expresso. 08.Mar.2008, pg. 7 – “(…) Infelizmente, Maria de Lurdes Rodrigues não tentou ou não conseguiu cativar para o seu lado e para as suas reformas os bons professores, que seriam os maiores interessados e beneficiários delas. Deixou queParte inferior do formulário ficassem isolados (…).”
3. Daniel Oliveira, “O engenheiro no seu labirinto”. Expresso. 08.Março.2008, pg. 45 – “(…) Uma ministra da Educação que consegue juntar todos os professores contra si é inútil. Das suas propostas não ficará nada a não ser mais ressentimento. Claro que não faltarão articulistas a elogiar-lhe a coragem e a desancar nas corporações. Mas não me parece que a reforma do nosso sistema educativo dependa de elogios fúnebres à ministra. (…) A reacção de Sócrates foi marcar, para o próximo fim-de-semana, uym comício partidário de apoio ao governo. Não se trata apenas de um disparate táctico, que cola todos os professores descontentes à oposição (…). Um primeiro-ministro que à indignação de professores responde com um pedido de comparência de militantes é um primeiro-ministro só e à deriva.”
4. Carlos Tavares, “Professores”. Expresso. 08.Março.2008, pg. 46 – “É com algum sentimento de tristeza e de revolta que vejo uma associação que fala em nome dos pais deste país colocar-se ‘contra’ os protestos dos professores. Os professores são cerca de 150 mil indivíduos. Ora, deste grande número, o mais natural é que a grande maioria seja também pai ou mãe de filhos, filhos esses que são, ou hão-de ser, alunos. (…)”
5. Manuel Carvalho, “A polícia e os professores”. Público. 08.Março.2008 – “A polícia identificou por mais de uma vez professores que gritavam palavras de ordem contra José Sócrates. A polícia foi em Outubro à delegação na Covilhã do Sindicato dos Professores da Zona Centro para recolher cartazes que seriam usados numa acção de protesto contra José Sócrates e para dar conselhos aos sindicalistas sobre a linguagem a utilizar. A polícia, de acordo com várias queixas não desmentidas, andou pelas manifestações que os professores organizaram nas últimas semanas a pedir os bilhetes de identidade aos que gritavam contra a política educativa do Governo. A polícia andou em dias recentes por várias escolas do país a perguntar quantos professores iriam à manifestação de hoje em Lisboa. A polícia está a abusar da sua autoridade e não o está a fazer de forma isolada. As intromissões na vaga de protesto dos professores e dos sindicatos têm-se repetido sem que os dirigentes da PSP ou o Governo que os tutela façam mais do que o banal anúncio de um pedido de inquérito. (…)”

"Pelos Professores", por Vasco Pulido Valente

Hoje, 70.000 professores vêm a Lisboa protestar contra o Governo e a ministra da "Educação". Não posso simpatizar mais com eles. Mas não me parece que tenham percebido bem o fundo da questão: nem eles, nem a generalidade do público. Toda a gente parte do princípio que os professores devem ser avaliados; mesmo os próprios professores, que só criticam o método proposto pela 5 de Outubro. Ninguém ainda disse que os professores, pura e simplesmente, não devem ser avaliados, nem que a avaliação demonstra a (incurável?) deformidade do sistema de ensino. Em cada manifestação aparecem professores furiosos proclamando que não temem a avaliação. Acredito que sim. Infelizmente, não se trata disso.
Uma avaliação pressupõe critérios: parece que neste caso à volta de catorze (e pressupõe avaliadores, muitos dos quais sem qualquer competência científica ou pedagógica ou interesses de uma total irrelevância para a matéria em juízo). Os critérios medem, peço desculpa pelo truísmo, o que é mensurável como, por exemplo, a assiduidade ou notas de uma exactidão discutível, como perfeitamente sabe quem alguma vez deu notas. Não medem nem a "moral", nem o "ambiente", nem os valores da escola ou a contribuição de cada professor para a sobrevivência e a força dessa "moral", desse "ambiente" e desses valores. Numa palavra, não medem a qualidade, de que depende, em última análise, o sucesso ou o fracasso do acto de ensinar. Criam uma trapalhada burocrática que esteriliza e que massacra e acaba sempre por promover a mediocridade, o oportunismo e a rotina. A sra. Thatcher ia matando assim a universidade inglesa.
Os professores não precisam de uma vigilância vexatória e nociva por "avaliações". Precisam de um ethos, que estabeleça uma noção clara e unívoca de excelência. Se o ensino superior for de facto excelente (e não o travesti que por aí vegeta) e se tiver inteira liberdade de seleccionar alunos (como agora não tem), os professores ficarão com um objectivo, o de preparar as crianças para o ensino superior, que os distinguirá entre si, sem regras de espécie alguma; e que tornará o seu trabalho pessoalmente mais compensador, interessante e útil. Desde o princípio que o Estado democrático não compreendeu esta evidência. Começou as reformas por baixo e não por cima. Aturou sem vergonha os mercenários que exploravam a universidade. E de repente quer que os professores paguem a conta do desastre. Não é admissível.
Público, 08.Março.2008

sexta-feira, 7 de março de 2008

A "questão central"

É um excerto de texto com o mesmo título, publicado por José Manuel Silva (que foi Director Regional de Educação do Centro), publicado há três dias:
«(...) A "questão central" como gosta de dizer Valter Lemos é a forma completamente inábil para não dizer despudoradamente acintosa como os professores têm sido tratados desde o início do mandato desta equipa do ME
Jamais esquecerei uma das primeiras reuniões em que participei enquanto DREC, com todo o estado maior do Ministério, em que logo os professores foram o "bombo da festa" e tendo eu chamado a atenção para a necessidade de a Ministra dar uma palavra de incentivo aos colegas a Sr.ª me ter respondido que os "professores queriam era que andassem com eles ao colo", o que me levou a ripostar em tom de brincadeira se ela às vezes não gostava também de um "colinho". A gargalhada geral não disfarçou o tom de crítica severa aos professores, apesar de quase todos à volta da mesa serem, ou terem sido, professores.
O que neste momento está em causa não é a obra do ME, é o grito de revolta de uma classe farta de ser ofendida e humilhada e como disse outro dia Marcelo Rebelo de Sousa se há coisas positivas para mostrar, o que não teria sido possível fazer se em vez de se estar contra os professores, se tivessem os professores como aliados. Esta é que é a verdadeira "questão central".»

Manuel Alegre, a segurança das manifestações... e um hábito que se vai instituindo?

Escreve Manuel Alegre hoje no seu blogue: "A ida da polícia a várias escolas em vésperas de uma manifestação nacional de professores tem de ser rapida e cabalmente esclarecida. É preciso saber quem foi, quem mandou e para quê. Não bastam explicações administrativas, exige-se uma resposta política de acordo com a tradição democrática do Partido Socialista e sem transferência de responsabilidades de cima para baixo. Caso contrário, algo não estará certo nesta democracia, pela qual somos todos responsáveis. Sobretudo aqueles que por ela lutaram e aqueles a quem, como aos órgãos de soberania e, em especial, ao senhor Presidente da República, cabe garantir os direitos e liberdades dos cidadãos."
De acordo com notícias divulgadas no Público, «a PSP visitou anteontem várias escolas do país perguntando quantos professores iriam aderir à manifestação de amanhã. (...) Ontem, ao início da noite, a PSP sustentou que quis apenas “garantir a segurança dos manifestantes” e, pouco tempo depois, o próprio Rui Pereira anunciava a abertura de um processo de averiguações.»
Já há tempos tinha havido uma situação parecida por causa de uma manifestação que iria ter lugar em local que o Primeiro-Ministro iria visitar. O argumento foi também o da segurança. Nesse caso, poder-se-ia perceber... era local, as forças de segurança estavam preocupadas...
Mas agora? Andar pelo país, aqui e ali, sabendo junto das escolas quantos irão participar numa manifestação em Lisboa, com base nas garantias da segurança dos manifestantes? Sempre foi assim?