segunda-feira, 23 de junho de 2008

Patrimónios do nosso brincar

Patrimónios do nosso brincar – Brinquedos e jogos das 4 cidades é uma monografia que dá a conhecer brinquedos e brincadeiras de antigamente de quatro cidades portuguesas que estão geminadas e através de cujas Câmaras Municipais se tornaram co-editoras deste livro – Fundão, Marinha Grande, Montemor-o-Novo e Vila Real de Santo António.
Ao longo de uma centena e meia de páginas, o leitor pode ver alguns brinquedos antigos e ler a sua história, bem como confrontar-se com alguns testemunhos de brincadeiras antigas, num trabalho que resultou do empenhamento de cerca de 400 alunos de oito escolas (100 alunos de duas escolas de cada um dos municípios participantes). O projecto, que englobou os quatro municípios, decorreu entre 2005 e 2007.
A par com as descrições dos jogos e dos brinquedos e com os testemunhos de muitas pessoas, que vão contando os seus brincares, há também fotografias documentais e poemas de Miguel Torga, Fernando Pessoa, Francisco Bugalho, António Gonçalves, Terezinha Tavares e Sebastião da Gama.
João Amado, da Universidade de Coimbra, prefacia o livro, escrevendo, a dada altura, que “falar de brinquedos, tal como construí-los, é uma forma de fazer poesia”. E é através dessa poesia que o leitor (depois dos participantes no projecto) viaja até à infância (a sua ou a de outros tempos), às memórias, à sociedade, ao tempo, num percurso balizado pela recordação e pela inovação e experiência.
Apresentado em três capítulos – “A infância, o brincar e o brinquedo popular”, “Brinquedos populares” e “Jogos tradicionais infantis” –, o livro vale pelo prazer de ver um bonito objecto gráfico e de olhar o registo de uma infância que se constrói e inventa a partir de coisas tão simples como subir às árvores, ir aos ninhos ou tomar banho no rio… Sobre essa capacidade de invenção fala a informante Célia Domingues, por exemplo (n. 1969, na Marinha Grande): “Os brinquedos eram poucos! Nós brincávamos mais era na rua com terra, com água, com lama… Era a brincar com a lama, era a apanhar flores. Fazia barcos de cascas de pinheiro e brincávamos assim… entretínhamo-nos assim…” Há ainda a conotação da escola com o tempo feliz por ser aquele em que se podia brincar – “Mas eu brincava muito era na escola, era uma judia… Jogava à malha, ao calhau, que é com cinco pedrinhas…”, rememora Maria José Brito (n. 1933, em Tavira). Pelo meio, há também descrições e lembranças mais atrevidas, tal como recorda António Sousa Carvalho (n. 1939, Fundão): no jogo do cântaro, “às vezes, os rapazes faziam de propósito para partir o cântaro, a rapariga aventava-o para o apanharem, o rapaz desviava-se…” Brincadeira com malandrice à mistura, traz Ramiro Mosca (n. 1937, Marinha Grande) a propósito do jogo da cabra-cega: “À cabra-cega arranjávamos sempre raparigas para brincar com a gente e a gente aproveitava e também apalpava um bocadinho”.
E vale a pena terminar relendo parte do poema que de Sebastião da Gama é transcrito – em “O menino grande” (poema de Fevereiro de 1946, publicado pela primeira vez na obra Itinerário paralelo), relembra: “Nem tudo se foi: / Ficou-me, dos tempos de menino, / Esta alegria ingénua / Perante as coisas novas / E esta vontade de brincar.”

1 comentário:

Anónimo disse...

Tema deveras interessante!
Quanto de nós será devedor dos brinquedos e brincadeiras de que pode usufruir? Será que nos revelamos precocemente quando brincamos? Eu já dava aulas às minhas bonecas muito antes de sonhar vir a ser professora!
Relembro aqui uma àrea-Escola (de há cerca de seis anos) cujo tema foi «Jogos e brinquedos ao longo dos tempos». Todos, professores e alunos, descobrimos coisas, aprendemos coisas e relembrámos o que parecia esquecido: «esta vontade de brincar»! E brincámos! Sendo que também aprendemos ...
MCT