quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Mário Balseiro Dias e a republicanização de Montijo

A história da implantação da República não se pode dissociar da história política de Montijo, como bem demonstra Mário Balseiro Dias na sua obra A Republicanização do Concelho de Aldeia Galega do Ribatejo (1881-1910) (Montijo: ed. Autor, 2010), que constituiu a sua tese de mestrado em História Regional e Local.
Com efeito, o ideário republicano alastrou em Aldeia Galega do Ribatejo (nome que, até 7 de Junho de 1930, foi dado a Montijo) desde cedo, pelo menos desde que, em 1870, José de Sousa Rama o começou a proclamar localmente. Não admira assim que o primeiro Centro Eleitoral Republicano criado na Margem Sul tenha sido o de Aldeia Galega do Ribatejo, em Março de 1881, e que, logo no ano seguinte, duas importantes figuras republicanas como Manuel de Arriaga e Magalhães Lima o tenham visitado.
Este Centro não teve longa duração, pois desapareceu em 1884, mas, na segunda onda da criação dos Centros Republicanos, novamente Aldeia Galega do Ribatejo levou a dianteira na Margem Sul, criando-o em Setembro de 1906 (em Palmela, surgiria apenas em 1908; em Setúbal, em 1909), para, em 1907, merecer a visita de outro republicano insigne, António José de Almeida. Os republicanos locais viriam, de resto, a ter visitas e presenças em comícios dos mais importantes nomes ligados ao republicanismo em Portugal, como aconteceu com, além dos citados, Afonso Costa, Bernardino Machado, João Chagas ou Miguel Bombarda.
A implantação da ideologia republicana em terras de Montijo não passou ao lado das querelas com as outras forças (como os monárquicos), nem deixou de parte a corrida à ocupação dos órgãos dirigentes de instituições como a Santa Casa da Misericórdia de Canha ou de outras associações locais. Certo é que, nas eleições de 5 de Abril de 1908, o Partido Republicano venceu em Aldeia Galega do Ribatejo por margem considerável, devido às razões que Balseiro Dias aponta: “o triunfo do PRP no município de Aldeia Galega resultou da sua propaganda, força e tenacidade, consequência da sua organização e disciplina, sem paralelo nos partidos monárquicos.”
Por estas e por outras histórias ligadas à republicanização de Montijo passa o livro de Mário Balseiro Dias, não esquecendo de registar que foi aquela “a primeira terra portuguesa a hastear, com carácter definitivo, a nova bandeira, após as vinte e três horas do dia 3 de Outubro de 1910” ou a circunstância da antecipação sentida em Aldeia Galega, Barreiro, Seixal e Almada ter sido crucial para o sucesso dos republicanos em Lisboa, em 5 de Outubro de 1910, uma vez que estas localidades permitiram o “controlo das comunicações e a dissuasão de eventuais tentativas de socorro à cidade por parte de tropas monárquicas vindas de outras regiões do país”.
O reconhecimento do papel desempenhado pela sociedade montijense na propagação do ideário republicano foi desde cedo reconhecido por um tribuno como António José de Almeida, que, na Câmara dos Deputados, disse, em Agosto de 1909: “Aldeia Galega é, talvez, a terra mais maciçamente republicana de Portugal”, um epíteto que o mesmo político sublinharia em visita ao Montijo, em Março de 1911, quando já estava instalado o novo regime: “Já no tempo da Monarquia Aldeia Galega era como que uma pequena República.”
É assim que o trabalho de Mário Balseiro Dias se revela escrupuloso na investigação e no relato, em linguagem acessível, fazendo emergir muitas figuras públicas locais que contribuíram para a construção do regime republicano. Esta obra, com amplas referências bibliográficas e fontes consultadas, é um bom caminho para se perceber o que foi a luta pelo controlo local (ou regional) que viria a dar a vitória aos republicanos, ao mesmo tempo que se constitui como elemento imprescindível para o conhecimento e estudo da republicanização da Margem Sul.

1 comentário:

Aníbal de Sousa disse...

Um trabalho oportuno e muito interessante. Com ele, Mário Balseiro Dias torna-se um dos mais prolixos e laboriosos investigadores da nossa região. Saúdo o Dr. João Ribeiro pelo destaque dado a este trabalho.

Aníbal de Sousa