domingo, 5 de dezembro de 2010

Francisco Moniz Borba põe o Museu de Setúbal em livro

“Pela minha parte, sinto-me feliz por, de algum modo, me ter sido dado contribuir para essa realidade e poder dizer à terra onde nasci: Aqui está o Museu!” Foi com estas palavras que, em Janeiro de 1961, João Botelho Moniz Borba concluiu o seu discurso na inauguração do Museu de Setúbal, velha aspiração local. A partir de 21 de Junho desse ano, este homem, autodidacta em museologia, dirigiu o Museu por um período de quase 17 anos, até ao seu falecimento, em 12 de Dezembro de 1977.
A história surge contada pelo filho deste fundador, Francisco Moniz Borba, na obra recentemente apresentada ao público Museu de Setúbal e o seu fundador João Botelho Moniz Borba (Setúbal: ed. Autor, 2010), álbum que traz para a memória o que foi o Museu de Setúbal durante esse tempo.
O volume, de quase três centenas de páginas, passa por uma biografia de João Borba (de onde não anda arredada a memória do seu autor, como quando lembra que o pai “contava em casa as pequenas descobertas” que ia fazendo), pela apresentação das instalações que o Museu utilizou (minuciosamente pensadas e esquematizadas pelo fundador), pela evocação da actividade do Museu (que, no período entre a sua abertura, em 1961, e 1977 – descontando cinco meses para obras –, teve uma média de 7187 visitantes anuais e uma assinalável diversidade de acções, entre as exposições – em que se contaram artistas como Fernando Santos, Álvaro Perdigão, Celestino Alves, Morgado de Setúbal, Lima de Freitas, entre muitos outros –, os concertos e as conferências), por divulgação de correspondência com João Borba, pela reprodução de quatro textos escritos por João Borba ("Fragmento de vitral da Igreja de Jesus de Setúbal", 1975; "Pequena notícia sobre o Museu de Setúbal e a conservação das suas obras de arte"; "A utilidade das gipsotecas – A gipsoteca do Museu de Setúbal", 1974; "Os sinos medievos da Igreja de Jesus de Setúbal", 1976) e por dados relativos ao património do Museu (incluindo a reprodução fotográfica das fichas individuais de cada peça de pintura religiosa, ourivesaria e gipsoteca, registos meticulosos de João Borba, com as características das obras, referências bibliográficas e história respectiva – proveniência e trânsito por exposições, restauros, etc.)
A obra contém ainda um dvd, em que, além da reprodução das fichas que figuram no livro, divulga o espólio para as áreas da escultura, pintura, desenho e gravura, reproduzindo as respectivas fichas elaboradas por João Borba. De fora ficaram as indicações do suporte livro, apesar de constar o registo da quantidade de items de cada uma das bibliotecas existentes no Museu – arquivo histórico da Misericórdia (1294 volumes), biblioteca Olga Moraes Sarmento (1654 volumes), biblioteca Garcia Perez (4629 volumes), biblioteca Correia da Costa (4264 volumes) e biblioteca do Museu (64 volumes).
A utilidade desta obra não se discute, tão oportuna ela é pelo que traz de volta aos setubalenses e aos estudiosos (haja em vista que o Museu de Setúbal tem, desde há anos, um reduzidíssimo espaço aberto ao público) e pelo contributo que constitui para a memória (seja pelas informações relativas a João Moniz Borba, seja pelos dados alusivos ao Museu, às pessoas que o ergueram e às peças que o constituíam).
Aos setubalenses (e aos visitantes da região) resta esperar que o Museu se reafirme e que a sua menção deixe de ser um eufemismo, ainda que explicado a partir do que (não) tem sido a conservação do Convento de Jesus que o alberga. A propósito, referindo-se à recuperação do Convento de Jesus, na edição do mensário sadino O Sul, de Outubro, o Secretário de Estado da Cultura Elísio Summavielle admitiu que, "dentro de dois a três anos, o monumento esteja utilizável"

3 comentários:

Anónimo disse...

Obra essencial para a cultura setubalense e não só !
João Botelho Moniz Borba, uma figura inesquecivel que bem merece a homenagem que este livro lhe presta.

Cidadã interessada disse...

João Botelho Borba foi uma figura importante e incontornável para o início do museu e para os seus primeiros anos, sem dúvida, mas o Museu não parou em 1977 como este livro erradamente fará pensar. As colecções estão muito maiores e não se resumem, nem por sombras, às fichas feitas pelo homenageado. Essas colecções continuaram a ser estudadas e o Museu tem ao dispor dos investigadores muito mais informação do que teria em 1977. Foram já muitas as contribuições para a educação cultural dos estudantes da cidade e para a história espositiva da cidade, isso tudo após 1977, como aliás qualquer pessoa minimamente informada, ou que se interesse de facto por o ser, sabe. O investimento de trabalho e meios na conservação e resturo dos bens desse Museu, que se efectua desde os primeiros anos da década de 90, tem tido um crescendo e uma intensificação na última década, não apenas nos bens que são propriedade do Estado ou da CÂmara, mas também nos bens depositados e da propriedade da Santa Casa. A falta de salas abertas não é sinónimo de Museu fechado e parado.

JRR disse...

Cara "cidadã interessada",
No texto que escrevi, surge claro que o livro pretenderá contar o que foi o Museu durante o tempo em que João Botelho Borba o dirigiu. Só. Visará, portanto, uma parte da história do Museu...
Obrigado pelas informações que acrescenta, relativas ao pós-1977.
No entanto, a "falta de salas abertas", perante o público, torna o Museu num eufemismo... ainda que não se duvide do trabalho que lá possa ser feito. A "falta de salas abertas" não será, porventura, uma boa marca de um museu...
Uma outra coisa é o conjunto das causas que levaram a tão pouco espaço aberto desde há anos, história que eu não sei contar.