segunda-feira, 22 de junho de 2009

domingo, 21 de junho de 2009

Rostos (120)

Monumento à Liberdade, por Camarro (2003), em Pinhal Novo

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Que conversão à humildade!

O discurso da e sobre a humildade de José Sócrates é algo que corre o risco de se fazer equivaler a teatro. Imagine-se a distância que vai entre o “animal feroz” de há uns anos e a desadjectivada “humildade” de agora! No fundo, o que parece é que se está perante uma questão de “papéis”, sendo cada um assumido conforme as circunstâncias. Pode ser arranque de campanha, pode! Pode ser vertigem por causa dos resultados (havidos ou a haver), pode! Mas o que é mesmo é o atirar à cara dos portugueses a possibilidade de jogar com os sentimentos em função das conveniências eleitorais. Não, isto não pode ser verdade; se calhar, nunca foi verdade! Qualquer dia, teremos a regulamentação da “humildade” com força de lei ou de decreto, sem que a Humanidade fique melhor. E seria bem pouco interessante ver todo um coro de “humildes” convertidos (alguns políticos, alguns governantes, alguns opinadores e outros alguns, por certo) em construção de três meses para ganhar as eleições que se seguem. Já não faltaria tudo para a tragédia!... Mas seria um péssimo serviço para a memória acreditar-se em tudo isto como se fosse a maior das verdades! Há palavras que são superiores à habilidade que com elas possa ser feita!

Bocage: uma história para jovens leitores

A colecção “Chamo-me…” (Lisboa: Didáctica Editora), destinada a leitores a partir dos 9 anos, apresenta biografias de personalidades célebres, contadas na primeira pessoa. Recentemente, surgiu o título Bocage, com texto de J. M. Castro Pinto e ilustrações de Jorge Miguel.
A vantagem deste livrinho (para o seu público) é a de contextualizar o tempo de Bocage, assim sendo contada outra história para lá da que relata a vida da personagem. No entanto, sendo Bocage de Setúbal, onde viveu a infância e parte da adolescência, natural seria que houvesse alguma contextualização alusiva ao sítio, o que não acontece. O que é caracterizado é o ambiente de Lisboa, restando para a pátria sadina do poeta uma escassa e lacónica apresentação que informa ter sido Setúbal “um próspero porto de pesca e também importante pela exportação de sal e fruta que produzia”. Por outro lado, para caracterizar o ambiente do tempo, também poderia haver uma alusão a Luísa Todi, figura sadina da época, adolescente à data em que Bocage nasceu. E, já agora, na referência à Nova Arcádia, tertúlia frequentada pelo poeta, sendo feita referência a vários dos seus componentes, também teria sido útil que fosse mencionado o nome de Tomás António Santos Silva, árcade (com o pseudónimo de Tomino Sadino) e amigo de Bocage, setubalense como ele.
O percurso biográfico de Bocage é escasso neste livro, sendo possível um pouco mais de informação (mesmo tendo em conta o público a que se destina) e sendo imperioso que o capítulo “Ditos e anedotas” não tivesse sido integrado na biografia como se as anedotas contadas tivessem real fundamento… apesar de, na última página, constar a informação de que “é preciso ter cuidado (…) porque atribuíram-se a Bocage muitas anedotas ou poemas de mau gosto”.

Máximas em mínimas (47) - Sobre a humildade

“Tendo deixado de ver as estrelas, os homens perderam a humildade, e com a humildade perderam a razão.”
José Eduardo Agualusa. “Dos perigos do riso”. Fronteiras perdidas (1999).

Humildade: mais uma moda para o dicionário do politiquês

«Sem tempo para mudar de políticas, o primeiro-ministro quer ser em quatro meses o contrário do que foi em quatro anos.
As eleições europeias, com o resultado que tiveram, ocorreram num calendário ingrato para o Governo. Os escassos quatro meses que as separam das legislativas tornam ineficazes as fórmulas clássicas utilizadas pelos governos quando recebem um cartão amarelo do eleitorado: a remodelação do governo e a desistência ou alteração radical das políticas mais impopulares - como aconteceu na Saúde, por exemplo.
Sem estas opções disponíveis, resta a José Sócrates a tentativa da mudança daquilo que é mais difícil: o seu estilo.
Ontem, no debate parlamentar de uma moção de censura sem história, Sócrates apontou a manutenção do rumo - naturalmente, se já não há tempo para corrigir as políticas, então os resultados da sua aplicação durante quatro anos de governação também não podem enjeitados e resta assumi--los. Mas isso vai ser feito "ouvindo as pessoas" e "explicando melhor as políticas". O mesmo, mas servido de outra forma, com outro embrulho.
Mais significativa é a chegada da palavra "humildade" ao vocabulário corrente do primeiro-ministro. "Compreendo, com humildade democrática, os sinais de insatisfação e dúvida. Procuro interpretá-los e corresponder-lhes", disse ontem no Parlamento.
Já antes, na noite de segunda-feira, tinha por duas vezes dito a palavra "humildade" aos microfones dos jornalistas. Os relatos sobre o que se passou dentro da sala onde se reuniu a comissão política do PS falam de uma noite de diálogo como há anos não se via por ali e muito longe dos ralhetes que o secretário-geral dava a quem ousava criticar medidas do Governo.
E, certamente de forma mais genuína, Sócrates prometeu que ia "fazer um esforço para ser mais humilde", mas alertou que não lhe pedissem para ser quem não é.
Esta é a questão essencial. Conseguirá o primeiro-ministro ser quem não é? Até que ponto irá esta tardia versão de um Sócrates que é humilde, dialogante, distendida, paciente, disponível para ouvir, convencer os eleitores que não é postiça, que não é mais uma fabricação da máquina de comunicação partidária, que não é mais do que um artifício para garantir uma vitória eleitoral que de repente ficou em risco?
Durante quatro anos Sócrates foi para os eleitores o oposto daquilo que agora pretende ser em quatro meses. Foi um "animal feroz", como o próprio se autodefiniu numa entrevista antes das eleições de 2005 e a sua popularidade e aceitação beneficiaram muito com isso na primeira metade do mandato. Parecem tempos já muito distantes, mas este Governo teve, de forma generalizada, boa imprensa e boa opinião muito para além do tradicional período de estado de graça. O esforço reformista, o combate a grupos de interesse e classes profissionais tidas como privilegiadas, o esforço de consolidação orçamental, a tentativa de mudar o funcionamento da função pública foram genericamente aplaudidos. Até a subida de impostos contra a promessa eleitoral foi aceite como uma medida corajosa, tomada por um governo que não tem medo de tomar medidas impopulares. Determinação, firmeza, autoridade, empenho foram, durante muito tempo, características atribuídas de forma positiva ao primeiro-ministro e ao seu estilo de governação.
Agora, em vez de determinação e firmeza fala-se em arrogância, a autoridade passou a ser autoritarismo e o empenho passou a ser teimosia.
A forma como se perdeu aquele capital político, ao ponto de se chegar a um divórcio com uma parte do eleitorado, como indicia a votação das europeias, é um dos temas de análise mais interessantes destes tempos.
Para o PS, é fácil substituir Vitalino Canas, claramente uma parte do problema da arrogância, por João Tiago Silveira. Também não será difícil pedir a Augusto Santos Silva, outro problema, para aparecer pouco, ou mesmo nada, nos próximos tempos.
Mas não se muda de líder assim. Resta então que seja o líder a mudar. Se conseguir.»
Paulo Ferreira. "Sócrates e a dificuldade da humildade". Público: 18.06.2009.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Carta de Compromisso de Cidadania Rodoviária

«Durante o século XX morreram milhões de seres humanos em desastres rodoviários, tantos quantos morreram na 2ª Guerra Mundial. Nos últimos catorze anos do final do século XX morreram, no nosso país, mais portugueses que durante a Guerra Colonial. Actualmente (dados de 2007): em cada mês que passa, 8 pessoas morrem nas estradas do Distrito de Setúbal e cerca de 297 ficam feridas; em cada dia que passa, 2 pessoas morrem, em média, nas estradas portuguesas e mais de 125 ficam feridas; em cada dia que passa, 120 pessoas morrem, em média, nas estradas do território da União Europeia e mais de 4.400 ficam feridas.
É certo que, nos últimos anos, a segurança rodoviária tem vindo, continuamente, a combater estes números, diminuindo, significativamente, as vítimas mortais e os feridos.
É positivo. Dá alento! Mas...
Quero MAIS! Quero CONTRIBUIR para atingir o Programa de Acção Europeu de Segurança Rodoviária, lançado pela Comissão Europeia, para 2010, e que tem a participação do Estado Português.
Quero MAIS! Quero que este seja um DESAFIO COMUM, onde com acções concretas, sejamos capazes de influenciar positivamente a segurança rodoviária e beneficiar a comunidade onde nos integramos e a sociedade no seu todo.
Por isso, ASSUMO, aqui e agora, o COMPROMISSO de:
Sensibilizar as minhas e os meus amigos, familiares, colegas de trabalho e todas e todos os concidadãos com quem, dia a dia, me relaciono, para que fiquem mais cientes dos riscos da condução e do atravessamento indisciplinado de vias, enquanto peões.
Estimular o conhecimento e o exercício de boas práticas de cidadania rodoviária.
Garantir a minha participação em acções de sensibilização e prevenção rodoviárias e contribuir para que outras pessoas se mobilizem para o efeito, bem como a assinatura da Carta de Compromisso de Cidadania Rodoviária, promovida pelo Governo Civil do Distrito de Setúbal.
Unir esforços para estimular o reforço da responsabilidade social das empresas, nesta área de interesse público, nomeadamente na persuasão da adesão à "Carta Europeia da Segurança Rodoviária — 25 000 Vidas a Salvar".
Respeitar e ajudar a respeitar o código da estrada e da circulação rodoviária, promovendo o seu conhecimento e reconhecimento, particularmente nas camadas mais jovens, especialmente vulneráveis.
Orientar um novo caminho no palco rodoviário com vista ao próximo objectivo colectivo: 100% VIDA NA ESTRADA.»
OBS: Este documento pode ser subscrito pelos visitantes da exposição "Arte para uma cultura de segurança", patente no Museu de Arqueologia e Etnografia, em Setúbal; o texto consta também no catálogo da exposição.]

Dos insectos e dos olhares em José Costa

Habituados que andamos a ver a formiguinha a labutar, sempre gregariamente, assim dando nas vistas, pouco reparamos nos outros insectos, mesmo porque desde há muito nos ensinaram que neste mundo mais vale ser formiga do que cigarra, ainda que talvez não tenha que ser sempre assim. A acrescer a este hábito, há ainda aquele sentido da palavra “insecto” que pode ser para designar uma “pessoa insignificante”, que outra prova não é senão a do humano desprezo por esses seres a que a entomologia se dedica. E até nos podemos lembrar da narrativa em que Kafka transforma o caixeiro-viajante Samsa num “gigantesco insecto”, processo de metamorfose (é esse o título da história, datada de 1913) com irreversibilidade, que leva Samsa à morte, por rejeição e para alívio da restante família… E ainda podemos avocar as expressões que inserem os insectos, usadas nem sempre por boas razões… tudo a provar que a relação do humano com o insecto pode ter sido muitas coisas menos pacífica!
E os insectos, seres minúsculos e misteriosos, não andarão longe da fantasia, assim a queiramos ver e descobrir um mundo novo, assim tentemos reparar no mundo que frequentamos. Reparar, com a carga repetitiva sobre o “parar”, para podermos ver o que óbvio não é. De outra metamorfose precisamos nós, algo próximo daquilo que Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida (quase tão arrábido como ela), cantou, quando revelou: “Minha alma abriu-se… / Que linda janela / que é a minha alma! / Não!, linda não é ela: / lindas são as vistas / que se avistam dela. // (…) // Como são tão belas / as coisas lá por fora! / Minha alma em tudo, / em tudo se demora.”
As fotografias de José Costa são pinceladas da paisagem que se avista dessa janela, ponto de ver o mundo, tornando-nos próximas coisas que desconhecemos ou rejeitamos, anulando a distância que vai entre o observador e o minúsculo observado, ampliando a proximidade, mas também a figura, quase nos parecendo aqueles seres de uma grandeza desmesurada, que nos fitam e que passam no seu caminho de sobrevivência, certos da sua continuidade, alguns quase nos remetendo para a fantasia do desenho animado, revestidos de cores muitas, muitas mais do que a paleta das conjugações permite.
Há nestas fotografias momentos de fixação e segmentos de vida. E todas estas criaturas sustentam incólumes a Natureza, transformando-a, dando-lhe corpo, voz e movimento. Maravilhado e a ver os homens através dos animais, Sebastião da Gama fazia ecoar noutro passo, em jeito de elegia, que “de Amor cantavam todos os rios, / todas as serras, todas as flores, / todos os bichos, todas as árvores, / todos os pássaros, todos os pássaros, / todos os homens, todos os homens.” Harmonia perfeita, acordes sublimes, comunhão conseguida.
E a labuta prossegue. Com insectos que acordam flores, que posam, que amam. E nos surpreendem no fundo de um olhar atento, num gesto de acrobacia, num acto de elegância, num equilíbrio indispensável, num ensimesmar de alheamento. Maneiras positivas de ser Universo. Como não há-de a fantasia revestir-se de beleza?
[conjunto de fotografias e texto a partir do catálogo da exposição "Arte para uma cultura de segurança",
presente no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, em Setúbal.]

"Arte para uma cultura de segurança", em Setúbal

“Arte para uma cultura de segurança” – Assim se chama a exposição que, desde terça-feira, está patente no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), em Setúbal, organizada pelo próprio Museu e pelo Governo Civil de Setúbal.
Nas palavras de Eurídice Pereira, Governadora Civil, que abrem o catálogo da exposição, pretende-se que sejam alteradas “práticas menos consonantes com as exigências da salutar convivência colectiva e alertar a população para temáticas que exigem a mobilização de esforços colectivos, como é o caso da sinistralidade rodoviária e do combate e prevenção dos fogos florestais.” E uma e outra situações são sentidas, de forma contundente, na nossa região: só em 2008, nas estradas do distrito, morreram 77 pessoas; por outro lado, se pusermos os olhos da memória sobre o que foi o incêndio na Arrábida em 2005, talvez fiquemos com o ar de preocupação acentuado, tanto mais que, ao que parece, cerca de 80% dos incêndios que nos amedrontam têm origem humana não criminosa… Números para pensarmos, claro!
A exposição passa por quatro núcleos: “Imagens para um álbum do desassossego”, uma foto-reportagem assinada por António Marques sobre o incêndio na Arrábida, com momentos fortes de destruição e de restauro da Natureza, de paisagem soturna e de paisagem vivida; “Arrábida: a vida secreta da serra”, com fotografia de José Costa, na variedade macro, captando insectos que fazem a vida da Arrábida e nos surpreendem vindos dessa labuta silenciosa, minimizada, mas constante e perturbadora; “Escalas”, em fotografias de Rosa Nunes, em que o corpo feminino e o relevo da serra se medem, num roteiro que começa com a música do silêncio e acaba com o restolho que alberga hipóteses de vida, depois de o olhar passar também pelos estados de agressão à serra; “Morte ou vida na estrada: a escolha é sua”, com pintura de Ana Isa Férias, Luís Valente e Rita Melo, três manifestações que outro grito podem ser contra a morte facilitada e em favor da vida preservada.
Diga-se ainda que esta exposição, que vai estar até Setembro, surge também na sequência de parcerias e do compromisso estabelecido aquando da assinatura, em 2008, da Carta de Europeia de Segurança Rodoviária. Ao visitante é oferecida também a possibilidade de se comprometer com a cidadania rodoviária ao assinar um documento em que assume contribuir para a segurança e entender esse projecto como “desafio comum”.
Como as mensagens são fortes nesta exposição, por onde passa ainda a palavra, junto o texto de Fernando Gandra, intenso na sua verdade:

[reproduções a partir do catálogo da exposição: duas fotografias de António Marques; "E agora...", de Luís Valente (2009); "Promessa" (excerto), de Rosa Nunes (2009)]

terça-feira, 16 de junho de 2009

Discurso político (2) – O jeito das consequências da “humildade”…

«(…) A seguir, apontou as três prioridades para os próximos meses, que antecedem as eleições legislativas: defender a obra feita na educação, na energia e no plano tecnológico; explicar melhor as reformas; e construir a tal "solução política que enfrente a crise", abrindo uma nesga para coligações pós-eleitorais. (…)»
Público: 16.Junho.2009.