sábado, 29 de abril de 2017

A propósito da "gorda" que é a "Menina da Mala", de João Duarte, em Setúbal, e de outras possíveis esculturas



As celebrações do 25 de Abril em Setúbal foram a oportunidade para a inauguração de uma escultura na Avenida Luísa Todi da autoria de João Duarte, “Menina com Mala”, de uma série de três, conhecidas como “as gordas” (outra escultura, “Menina com Cadeira”, no Largo Francisco Soveral, de 2016, e uma outra, "Dolce Vita", no Largo da Misericórdia, de 2015).
Esta, que transporta a mala, tem também a máquina fotográfica. Turista à procura da identidade dos outros ou apenas curiosa por ver a sua congénere que está no largo mesmo em frente, depois de passado o túnel que lhe dá acesso?
Quanto à máquina fotográfica, não podemos esquecer a cada vez mais presente prática de os visitantes quererem registar o visto (incluo-me no rol). Mesmo quando nos deixamos ofuscar pela prática dos turistas orientais que bombardeiam a paisagem e os museus com disparos de máquinas fotográficas!... A este propósito, não posso deixar de me lembrar de António Ferro, que, a propósito de uma visita aos Estados Unidos no final da década de 1920, registava a seguinte nota de viagem: “O ‘Overland Limited’ vai passar o Great Salt Lake. É uma linha férrea construída milagrosamente, sobre um lago imenso, um lago que sonha com o mar. Uma travessia de mais de duas horas. O ‘Observation Car’ tem uma enchente. Todos os passageiros querem ver o espectáculo único. Os japoneses, na plataforma da carruagem, apontam kodaks, como pistolas, para todos os lados.” (Novo Mundo Mundo Novo. Lisboa: Portugal-Brasil Sociedade Editora, 1930, pg. 158). Já nessa altura os disparos das máquinas fotográficas dos japoneses eram o que se vê... só não haveria os “sticks”!
Mas vamos às esculturas “gordas”. Por mim, gosto! É uma forma de o transeunte, turista ou não, parar, contemplar e rir. Ainda ontem, quando fui ver a escultura, me entretive a ouvir os comentários de alguns passantes. E não fomos em grupo nem combinámos, cruzámo-nos lá. Bem divertido! E todos ríamos com gosto, como se a escultura estivesse ali para suscitar os comentários, para nos interpelar... E estava!
Nas redes sociais, a discussão tem sido acalorada. Normal, num espaço onde se discute tudo, mesmo que não se saiba o quê. Com concordâncias e discordâncias fundamentadas, mas também com apreciações a fazer o jeito à ideologia... Por mim, gosto das esculturas, insisto!
Recordo o momento em que, há uns anos, em Monchique, me cruzei com estátuas nos passeios ou em que elas se cruzaram comigo. E o passeio parava por momentos, como se fôssemos convidados a parar. E gostei.
Por mim, insisto outra vez, gosto. E divirto-me a olhar as esculturas e a ver os outros a olharem-nas e a comentarem-nas. Como gosto das manifestações de “street art” que têm animado a cidade. Ainda bem que, em Setúbal, se está a dar importância à arte pública! Aliás, estamos a dar importância! E digo isto sem qualquer compromisso com o poder, que não o tenho.
É claro que podemos propor a quem de direito outros monumentos. Sobretudo num tempo em que as rotundas vão ganhando espaço. E, por mim, avanço com três propostas: José Afonso, Vasco Mouzinho de Quebedo e Hans Christian Andersen. Discutíveis, eu sei, sobretudo se pensarmos que poderiam ser outras três e outros três os motivos e os homenageados. Mas dou a cara por estas: a do José Afonso, por ser um símbolo de Abril, por ser uma marca dos cantautores e da música de intervenção, por ser um poeta-músico e ter ligação intensa às terras de Setúbal; a de Quebedo, por ter sido o autor da segunda maior epopeia em língua portuguesa, assim considerado pela cultura, e pela sua filiação setubalense; a de Andersen, por ter sido um estrangeiro que visitou Setúbal e de Setúbal disse e escreveu muito bem, justificada ainda porque seria uma forma de honrarmos quem nos visita com a dedicação ao outro, neste caso um estrangeiro (Málaga, em Espanha, que ele visitou e sobre a qual escreveu, erigiu-lhe monumento em lugar nobre da cidade, com cerimónia que envolveu o reino da Dinamarca; Nova Iorque - que ele não conheceu e sobre a qual não escreveu, mas que tem dinheiro - ergueu-lhe estátua grandiosa no Central Park).
Haja espaços e patrocinadores e a identidade de Setúbal continuará a passar também por estas manifestações!

5 comentários:

Francisco Borba disse...

Bravo João. Subscrevo com muito gosto

rui farinho disse...

Não posso deixar passar João Ribeiro. Se comentar opiniões ou ideias, não é a minha zona de prazer, este texto tão completo merece-me um forte aplauso. Da primeira à última linha. Deixe-me driblar a sua notável modéstia e confessar uma secreta inveja,por quem, com naturalidade, fala(escreve)tão bem. Será que poderemos, todos os de boa vontade, tornar essas palavras molas de impulsão, para que esses notáveis que nomeou, e outros que os há, recebam dos mecenas e das instâncias oficiais a atenção que merecem.?
Solidariamente,
R.F.

João Reis Ribeiro disse...

Obrigado, Francisco Borba e Rui Farinho! Vamos fazer por que alguns anseios (meus e de outros) se tornam realidade!

luisa maria disse...

Passei por aqui li o seu comentário e agradeço tão agradável texto.

João Reis Ribeiro disse...

Obrigado, Luísa Maria, pela sua nota.