sábado, 10 de agosto de 2013

Memória: Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013))



Confronto-me com a notícia da morte de Urbano Tavares Rodrigues e sinto a tristeza de uma despedida ao mesmo tempo que a felicidade por o ter conhecido. A última vez que falei com ele foi na edição da Feira do Livro de Lisboa deste ano, numa tarde quente de domingo. Relembrou episódios das aulas na Faculdade de Letras, recordou os amigos setubalenses da livraria Culsete Fátima e Manuel Medeiros (para quem enviou um abraço, que transmiti), falou-me do filho mais novo (que por acaso não estava ali naquele momento), contou-me que estava a escrever o seu último romance. Perguntei-lhe se não escreveria memórias. Que não, que em muitas das suas obras havia o cunho da memória e da autobiografia, que não era isso que o interessava mais. Toda a conversa foi de paixão, de gentileza, de suavidade e de sensibilidade, tal como sempre nos habituou. Houve ainda tempo para uma fotografia conjunta que a minha filha disparou. E fiquei com vontade de nos voltarmos a encontrar… onde quer que fosse: na Feira do Livro (onde falámos várias vezes), na Culsete, em Lisboa… ao mesmo tempo que relembrei as aulas de há cerca de três décadas, a apresentação que fiz do seu livro Violeta e a noite em Setúbal, o testemunho que sobre ele dei em 2003, em Setúbal, quando a Culsete quis também assinalar os 50 anos de vida literária de Urbano Tavares Rodrigues.
É por isso tudo que abaixo reproduzo tal testemunho, datado de 25 de Janeiro de há dez anos, que continua a conter o essencial do que o professor Urbano foi para mim, do que o professor Urbano me deu. Para ficar na memória!

Não sei de quando vem o meu contacto com Urbano Tavares Rodrigues, mas sei que vem de muito longe, desde quando ainda nem pensava que viria a licenciar-me em Letras, muito menos imaginando que o iria ter como professor. Também não sei qual foi o primeiro livro que dele li – talvez A Noite Roxa, que me lembro de me ter sido emprestado por um amigo e que, mais tarde, adquiri para nele reler uma interessantíssima narrativa como “Escombros”, quase retrato de uma geração, e para nele fazer uns sublinhados que me tinham impressionado nessa leitura sobre a vida e a arte... Talvez o primeiro livro que li de Urbano não tenha sido este, mas tenha sido uma recolha literária sobre Estremadura, nessa quase indispensável colecção que é a “Antologia da Terra Portuguesa”, testemunho da indispensabilidade que a literatura se torna para dizer a terra, para dizer o homem, antologia, aliás, onde creio que tive um dos primeiros contactos com Sebastião da Gama, que topou e mostrou a alma arrábida em toda a sua maravilha... Ou talvez a minha primeira leitura de Urbano Tavares Rodrigues tenha sido outra. Recordo, no entanto, estas duas como as mais antigas que dele conheço.
Em 1979, entrei para uma licenciatura na Faculdade de Letras, ingresso já tardio porque me era necessário trabalhar, mas atempado porque pôde ser no curso que queria e na Faculdade que me ficava mais à mão, em horário cumprido depois das 17 horas. Lembro-me de várias pessoas que tive como professores e pelas quais senti uma admiração grande desde logo, que, em alguns casos, virou amizade, já em tempos posteriores ao curso (em jeito de aparte ou de excurso, vou apenas referir o António Vilhena, hoje professor em Setúbal [entretanto aposentado], poço de cultura e de disponibilidade, que conheci como professor de Latim na Faculdade e cujas aulas eram autênticos tratados – ainda que sem o peso que os caracteriza – sobre cultura portuguesa, com especial incidência na literatura, e sobre as marcas clássicas que a enformam).
Mas voltemos a Urbano Tavares Rodrigues, que tive como professor de Literatura Francesa. Uma das coisas que me fascinou na minha licenciatura foi o facto de ter conhecido escritores enquanto professores, podendo assim usufruir da sua experiência enquanto artistas e criadores e do seu estatuto enquanto professores, intelectuais e cidadãos intervenientes, que eram vários. O professor Urbano Tavares Rodrigues não fugiu a este quadro. E, se foi apaixonante a forma como nos fez ouvir a solidariedade e o social presentes em Germinal, se foi suave a maneira como nos fez entrar nos domínios do erotismo de La Motocyclette, se foi a tocar o fascínio que nos falou de uma obra como Le Ravissement de Lol V. Stein, certo é que todos estes predicados se construíram como metáforas dele próprio, isto é, a delicadeza do discurso, a singeleza das práticas, a simpatia da disponibilidade, o aprofundar permanente no cruzamento da literatura estudada com as múltiplas e incansáveis referências advindas da sua experiência de escritor, o sorriso disponível numa atitude de quem parecia tudo oferecer fazendo passar o universo literário numa relação constante de tu-cá-tu-lá para um degrau de contínua admiração pela arte... enfim, tudo isto nos foi transmitindo, tudo isto foi partilhando, porque o todo das suas aulas se nos afigurava também como uma partilha de reflexões e de angústias da estética e do sentir.
A permanente abertura do professor Urbano Tavares Rodrigues nunca lhe deixou escorregar um “não”. Recordo que, mesmo perante trabalhos ou observações de qualidade menos desejada, a sua atitude era de tentar dar a volta de forma subtil, não negando a pouca pertinência do resultado (ou, muitas vezes, a sua impertinência) e incluindo no seu comentário as pistas de orientação que o estudante deveria aproveitar ou explorar.
Habituei-me, assim, a olhar o professor Urbano Tavares Rodrigues como uma personagem dedicada, disponível e atenta (mesmo quando parecia que dormitava perante algumas apresentações de trabalhos, fazendo, no final, o seu comentário acertado e límpido), como uma personagem participante (frequentemente trocando opinião connosco sobre posições públicas a propósito de questões culturais e de ensino), como alguém sempre pronto a incentivar os voos de quem quisesse ir mais longe ou de quem precisasse da sua ajuda. Recordo que, no último ano da licenciatura, estudei a autobiografia em José Gomes Ferreira, a propósito do seu livro A Memória das Palavras, para a cadeira de Teoria da Literatura, leccionada por Lucília Gonçalves Pires. Ser-me-ia útil falar com Gomes Ferreira, mas ele estava a passar um mau momento de saúde, pela sua debilidade de 80 anos. Foi, aliás, o professor Urbano que me pôs ao corrente do estado de saúde de Gomes Ferreira, mas, logo que soube das suas melhoras temporárias, falou-lhe e pôs-nos em contacto, assim me tendo sido proporcionado um encontro de cerca de três horas com esse “poeta militante”, na sua casa da rua Rio de Janeiro, em que quase me limitei a ouvi-lo e em que grande parte da sua conversa não foi sobre poesia, mas foi poesia. Passadas cerca de duas semanas, o professor Urbano encontrou-me na Faculdade, perguntou-me pelo andamento do trabalho, tendo-lhe eu dito que o mesmo já tinha sido apresentado e avaliado. Quis vê-lo, porque, argumentou, “acho que tenho alguma responsabilidade nesse trabalho”. Dei-lhe uma cópia e, volvidos uns dias, propôs-me que o texto fosse publicado no “Suplemento Cultural” do Diário. Respondi que sim, meio sem jeito. Soube depois que era sua prática corrente incentivar os alunos à publicação de trabalhos e mesmo à edição.
Concluída a licenciatura, abandonei também o trabalho que tinha e passei para o ensino. Em 1985, estando em Beja – onde confesso que aprendi a gostar do Alentejo –, ao rebuscar numas prateleiras já esquecidas e poeirentas de uma livraria da cidade, encontrei um livro sobre Urbano Tavares Rodrigues, intitulado Escritor da Fraternidade, da autoria de Pires Campaniço. Já não contactava o professor havia cerca de dois anos, depois que saíra da Faculdade. Comprei o exemplar por uma bagatela e li as suas 130 páginas – fortemente ideologizadas – nesse mesmo dia, mais no sentido de ter um ponto de contacto com alguém que me impressionara fortemente. O livro lembrou-me o professor, sobretudo, e pareceu-me que o título escolhido, ao eleger a fraternidade para caracterizar o escritor, tinha acertado no ponto. Fraternidade, como quem diz solidariedade, como quem afirma disponibilidade... são lógicas de atributos que resultam bem se aplicados a Urbano Tavares Rodrigues.
Fui, entretanto, descobrindo também a sua faceta de ensaísta na área da literatura e de escritor de viagens, sempre encostando as obras abordadas a referentes culturais importantes ou as viagens a itinerários não menos sentidos (talvez sentimentais), como descobri num relato seu sobre Santiago de Compostela, publicado em 1949, verdadeira peregrinação no espaço e no eu, na busca de outras artes e do conhecimento do mundo.
Encontrámo-nos depois em diversas situações mais ligadas à literatura (por exemplo, na sua defesa da tese de doutoramento sobre Teixeira-Gomes, ou na apresentação de Violeta e a Noite aqui neste mesmo espaço da Culsete), sempre relembrando tempos da minha vida de estudante. Mas quando andei ocupado com um mestrado sobre a revista portuguesa dos anos 50, Távola Redonda, em que Urbano Tavares Rodrigues colaborou com uma tradução a partir do italiano – coisa que não é novidade, depois de se ter visto a tradução por si feita do Decameron, de Bocaccio, que também terá sido um dos meus contactos antigos com ele –, voltei a poder certificar a disponibilidade, a atenção, o saber, o testemunho, a delicadeza... Na noite de um dia 22 de Abril, passantes que eram já as dez da noite, Urbano Tavares Rodrigues recebeu-me em casa, ali na Tomás Ribeiro, para uma conversa sobre a revista, que acabou por ser também sobre a literatura portuguesa dos anos 50, que acabou por ser também sobre a sua obra, que acabou por ser o prolongamento de um fio de disponibilidade sempre demonstrada.
A mais recente vez em que nos encontrámos foi há bem pouco tempo, no mês passado, na apresentação do último livro de poesia de Teresa Rita Lopes. E o que nos uniu? Para lá de tudo, o professor Urbano Tavares Rodrigues falou-me, de imediato, do tempo da Faculdade e da lembrança das suas aulas. Ao fim e ao cabo, um tempo marcante, de aprendizagem e também de conhecimento, lados ambos de uma mesma estrada. Mantenho o gosto por Urbano Tavares Rodrigues enquanto escritor múltiplo e multifacetado, mas quero preservar também esta recordação feliz de um Urbano Tavares Rodrigues professor e mestre, dedicado, sabedor, atento, delicado e prestável, fazendo da literatura uma forma de criação e do ensino uma via de reflexão... ou talvez, e sobretudo, conjugando os dois percursos no rumo da disponibilidade para uma vivência de transformar a arte em cidadania. Não resisto sem ler quatro linhas de um seu escrito de cunho autobiográfico, publicado sob o título de “Apontamentos e Confissões”, no livro de ensaios sobre O Tema da Morte: “Já na minha adolescência desejava ser escritor, embora outras profissões me seduzissem, tais a de médico e a de professor: no fundo, aquelas que me permitissem ancorar e sentir-me útil.” É uma justificação simples, claro. Mas testemunho que, na sua simplicidade, a senti. E vivo bem com essa lembrança e exemplo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Para a agenda: Ruas Floridas, em Redondo - imperdível!



A fotografia não é a melhor, eu sei. Foi tirada a um pacote de açúcar da Delta, quando pedi o café, no restaurante. E fui ao Redondo.
Imperdível esta Festa das Ruas Floridas! Com papel se fazem maravilhas. Gostei de ver as ruas decoradas segundo temas: os monumentos de Redondo; as janelas do Alentejo; os bordados; a calçada portuguesa; as imagens da Walt Disney; as história da Cinderela, da Branca de Neve, da Heidi; os trabalhos com o vinho; a divulgação de hábitos e cores de outros países (como a China, a Holanda, a Moldávia, Angola, Cabo Verde, Ucrânia ou o Brasil); os motivos portugueses do galo e do coração; as guloseimas... e muito mais! Tudo em papel, mesmo em papel, feito por mãos finas e sensíveis, numa dádiva e partilha que espantam. Como S. Tomé, muitos visitantes acariciavam os objectos para testar se era mesmo em papel que as coisas eram feitas... E era, para espanto, gáudio, admiração!
No percurso pelas ruas pode-se ainda visitar a torre de menagem (com uma exposição de pintura e magnífica vista até terras de Espanha, donde "se pode ver quase metade de Portugal", dizia um bairrista), o Museu do Vinho (moderno, leve, convidativo), as igrejas (da Misericórdia, paroquial). E pode-se ainda ver os naturais na confecção das flores de papel, em gesto brilhante, ou mesmo o atelier (em casa) de Diamantina Pereira, artista de horas vagas e de paciência em trabalhos de minúcia e de apreço.
Até ao dia 11, ao dispor dos visitantes de Redondo! Bonito, soberbo, refinado! Para a agenda...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Máximas em mínimas (101) - Rosa Lobato de Faria


Depois de ler Os três casamentos de Camilla S., de Rosa Lobato de Faria (1997), seis máximas que dizem muito sobre o que somos.

Prazer - "Os prazeres e a capacidade de os apreciar acontecem desencontrados no tempo. Não se conjugam no momento certo o acto perfeito e a sabedoria da fruição."
Juventude - "Na juventude, com toda a vida pela frente, nunca há tempo. A cabeça foge, ligeira, para outros lugares, os pés partem, ágeis, para outros caminhos. Nunca se está onde se está, nunca se tem o que se tem."
Raiz - "A raiz é o que te está no sangue, o que sentes para lá de tudo o que aprendeste, aquilo que te vem do chão, aquilo que vem das estrelas que te viram nascer." 
Errar - "Porque é que não percebemos que erramos quando estamos a errar e só mais tarde o remorso nos cai em cima com uma força esmagadora e nos amargura o resto da existência?"
Amor - "O amor tardio é o melhor."
Autobiografia - "Nenhuma autobiografia verdadeiramente o é: alindam-se os pecados próprios, ensombram-se os dos outros, corrige-se ou contorna-se a verdade, procura-se uma lógica de crime e castigo que a vida não tem. Não fica claro à luz de que moral nos penitenciamos (...). E, acima de tudo, permitimo-nos apontar o comportamento dos outros, avaliar as suas consequências, julgar."

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Marcas dos libertários em Setúbal vistas por João Freire e Maria Alexandre Lousada



Pelo trabalho de João Freire e de Maria Alexandre Lousada, Setúbal vê reconhecidos os seus pontos de contacto (e de acção) que a integram num pólo importante do “movimento social crítico e alternativo”, entendido como “identificação analítica de movimentos de acção colectiva (ou para isso tendentes) que tinham por objectivo transformar de maneira profunda, estrutural, a sociedade em que viviam, agindo essencialmente no plano social (e forçosamente também no terreno económico), com rejeição da possibilidade de concorrerem no plano das instituições políticas e do poder estatal”. Movimentos deste género serão o anarquismo, o sindicalismo, o cooperativismo e “outras manifestações públicas de sentido humanitarista”.
Na obra Roteiros da memória urbana – Setúbal: Marcas deixadas por libertários e afins ao longo do século XX (Lisboa: Edições Colibri, 2013), os autores deixam a garantia de que Setúbal foi uma das cidades em que este movimento “foi particularmente intenso e actuante”, haja em vista o crescimento de Setúbal no final do século XIX e início do século XX devido à actividade marítima e à indústria conserveira.
A obra surge dividida em seis partes: “Sítios com história”, “Militantes”, “Sindicatos de trabalhadores”, “Jornais”, “Grupos e associações” e “Bairros operários, piscatórios e populares”.
Relativamente ao primeiro grupo, são apresentados três trajectos, dominados pela parte mais antiga de Setúbal ou “os três núcleos tradicionais”, estruturantes que foram na construção da cidade e mesmo na organização social – o centro da cidade, Troino e Palhais-Fontainhas. Nesses três percursos são identificados 48 sítios com interesse para o “movimento social crítico e alternativo”, nem todos de igual importância, alguns já alterados na arquitectura, respeitando sedes de organizações e de jornais, de oficinas, residências de personalidades militantes, locais de trabalho, informações sobre as quais é fornecido algum contexto histórico.
Se os percursos são completos, diversificados e bem orientados, há, no entanto ressalvas. Assim, na terceira proposta, aquando da chegada ao Largo da Fonte Nova, é dito que o topónimo deriva do facto de tal fonte ter sido trazida “do Largo do Sapalinho após a implantação da República”. Ora, a designação “Fonte Nova” para este local existe já desde o século XIV, ainda que não se saiba exactamente a sua origem. Uma segunda observação decorre do facto de ser considerado “sítio” visitável (e identitário) uma pintura mural existente na rua Fran Paxeco alusiva a Jaime Rebelo, na fachada de um prédio abandonado. Ora, integrar uma manifestação de arte efémera num roteiro faz correr o risco da sua rápida desactualização, uma vez que tal pintura pode desaparecer – neste momento, tal prédio está entaipado, com o mural invisível ao visitante e em degradação…
O capítulo consagrado aos “Militantes” biografa muito sumariamente 53 nomes, considerados dos “mais destacados” (Afonso do Nascimento Ventura, Álvaro Figueiredo Simões, Aniceto, António Augusto das Neves, António Augusto Quaresma, António Casimiro da Silva, António Costa, António Francisco de Sousa, António Luís, António Mendes, Bruno Palhares, Carlos Alberto, David Augusto Correia, Emílio Freitas e Silva, Etelvina, Francisco José de Brito, Francisco Rodrigues Franco, Jaime Rebelo, Januário da Conceição Sabino, João Atanásio, João da boa-Viagem, João Maria Major, Joaquim Correia, Jorge José Silva, Jorge Quaresma, José Alves, José Artur Quaresma, José Benedy, José Bernardo, José Carlos Rates, José Franco, José Luís Martins dos Santos, José Maria Canoa, José dos Reis Couto, José Viegas Samurrinha, Júlio da Purificação Tavares, Justino Gomes, Laura Arrábida de Sousa, Leonardo, Leonídio Rodrigues, Libânio Leal, Lino de Andrade, Luís Branco, Luís Matias, Luísa do Carmo Franco, Manuel dos Santos Quintas, Manuel de Sousa, Mariana do Carmo Torres, Norberto Valido, Raul Elias Adão, Sabina Lopes Condeça, Valentim Adolfo João e Xavier Correia). Compreendem-se as limitações no traçar de uma biografia quando faltam elementos, mas, relativamente a alguns casos, poderia haver mais precisão – quem reconhecerá que Carlos Alberto, assim designado e com uma biografia escassa, é o azeitonense Carlos Alberto Ferreira Júnior, que teve intensa actividade profissional, política, cívica e cultural?
No capítulo “Sindicatos de Trabalhadores”, são indicadas quase 30 organizações para o período das primeiras três décadas do século XX, número impressionante e que bem atesta o papel interventivo de Setúbal neste movimento crítico e social, e, na parte respeitante aos “Jornais”, marcam presença os emblemáticos Germinal e Voz Sindical, ainda hoje de consulta obrigatória para conhecer a Setúbal de início do século XX e os seus movimentos sociais. Quanto aos “Grupos e Associações”, também brevemente apresentados, o número ascende a 22, um deles ainda com existência nos dias de hoje – Associação Operária de Socorros Mútuos Setubalense, Grupo Anarquista Avante, Sociedade de Instrução e Beneficência Germinal, Escola Liberal de Setúbal, Grupo de Propaganda Livre, Grupo Germinal, Grupo Anarquista Rebeldes, Federação Internacional de Regeneração Humana, Grupo Anarquista Os Cosmopolitas, Núcleo das Juventudes Sindicalistas, Centro de Recreio e Propaganda Livre, Grupo Acção Anarquista, Grupo Artístico Alma Nova, Grupo Esperantista Operário Nova Espero, Grupo Anarquista Os Intransigentes, Grupo Solidariedade Humana, Universidade Popular Portuguesa, Sociedade Promotora de Educação Popular, Ateneu de Estudos Sociais, Grupo Esperantista Disvastiga Stelaro, Grupo Anarquista Os Activos e Grupo Libertário de Setúbal. No capítulo dos “Bairros Operários, Piscatórios e Populares”, pode o leitor ver como tais aglomerados criaram identidades ainda hoje visíveis – Bairro de Troino, Bairro Libertário, Bairro dos Varinos, Bairros de Palhais-Quevedo-Fontainhas, Bairro da Monarquina e Bairro Baptista.
A obra encerra com uma cronologia que permite ao leitor seguir a vida política em Portugal e no Estrangeiro em paralelo com o desenvolvimento do movimento social, num período entre 1864 e 1998, e com a “Lista de militantes libertários de Setúbal”, em que constam 136 nomes, aí incluindo os já mencionados no capítulo “Militantes”.
Título produzido no âmbito do projecto MOSCA (“Movimento Social Crítico e Alternativo”), este contributo de João Freire e de Maria Alexandre Lousada revela-se interessante para a identidade de Setúbal, embora pudesse ser mais completo. O leitor poderá obter mais informação sobre este projecto e sobre outras localidades já em roteiro no sítio http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Arrábida - O livro da candidatura a património da Humanidade



O livro da candidatura da Arrábida a património da Humanidade está, desde há dias, ao dispor do público, em edição da Associação de Municípios da Região de Setúbal (Arrábida. Setúbal: AMRS, 2013). Em cerca de 230 páginas, recheadas com muitas fotografias, a obra alberga o processo de candidatura da Arrábida, assente em variadas facetas, porque, como é dito logo a abrir, “o espírito deste lugar, a sua alma, reside nesta união orgânica, reflectida na sua paisagem, de geologia e clima, de paleontologia e iconografia, de flora e fauna, de espeleologia e religiosidade, de património edificado e imaterial, de lendas e tradições”, tudo fazendo dele “um lugar de fronteira e de mistério, de memória e de herança”.
Se outra vantagem não existisse, esta chamada de atenção sobre a Arrábida bastaria para um olhar atento sobre o património que nos rodeia e de que somos feitos. É essa ideia que Alfredo Monteiro, Presidente do Conselho Directivo da AMRS, defende na nota de abertura: “o nosso conhecimento do Bem é hoje mais profundo e actualizado, mais rigoroso e ajustado, fazendo jus à excepcionalidade dos valores que a Arrábida contém”.
A obra organiza-se em três partes: “identificação do Bem”, “Património Natural” (paisagem, geologia, clima, vegetação, fauna terrestre, parque marinho) e “Património Cultural” (património arqueológico, património edificado, património imaterial). Na prática, num complexo que ocupa uma extensão de 35 km por uma largura de 6 km, entre Setúbal e o Espichel, a Arrábida revela-se em 85 valores encontrados (42 do património natural, 38 do património cultural e 5 do património imaterial) e a fundamentação para o seu elevado valor para a Humanidade vive com as justificações de textos científicos, como os de Orlando Ribeiro ou José Gomes Pedro, e de textos literários, como os de Torga, Arronches Junqueiro, Sebastião da Gama, Camões ou Saramago, entre outros.
Apesar de esta obra ser a apresentação de um projecto, ela constitui uma mais-valia no conhecimento da Arrábida, indispensável para a bibliografia e para o saber sobre a serra que nos fascina e nos convoca, essa “varanda de ver o mundo”, como lhe chamou o poeta setubalense Miguel de Castro.
A propósito do lançamento desta obra, feito no Convento da Arrábida, em 18 de Julho, é de toda a justiça louvar o grupo de teatro “O Bando” pela representação com que este acto foi ilustrado. “Al-Rabita” se intitulava a dramatização que, em torno da figura feminina da Arrábida, mostrou o quão importante do ponto de vista cultural a serra é, navegando sobre textos vários de carácter científico e de cunho literário, em que marcaram presença nomes tão diversos como Alexandre Herculano, Sebastião da Gama ou José Saramago. Excelente este trabalho, a merecer também divulgação, devido à encenação de João Brites, à música de Jorge Salgueiro e aos actores Guilherme Noronha, João Neca, Paula Só, Raul Atalaia e Sara de Castro e a toda a equipa do “Bando” que para “Al-Rabita” trabalhou.