sexta-feira, 13 de março de 2009

Hoje, no "Correio de Setúbal"

Diário da Auto-Estima – 96
Internet tem tudo? – O rapaz só gosta de futebol. A propósito de tudo e de nada, o futebol, especialmente o seu clube, é base para todas as sustentações. Com isto, distrai-se do essencial. Ler? Difícil para o que esteja para lá dos jornais desportivos… Recomendei-lhe um livro com uma história passada no universo do futebol: Desporto Rei, de Romeu Correia. Que o procurasse em biblioteca, porque já há muito tempo que não era reeditado. “Não faz mal, vou à net e faço uma cópia…”, disse-me orgulhoso com a solução. E lá está como se generalizou a ideia de que a net é a salvação de todas as almas! Não é, não. Absolutamente. Não tem tudo, não ensina tudo, não informa tudo. Expliquei-lhe e admirou-se. Ficou mesmo decepcionado com a revelação… Paciência!
Solidariedade – Aproximam-se no intervalo, dizendo que me querem falar. Era por causa de um amigo, colega de turma, que, argumentando querer curtir a vida, estava a transitar em caminhos um pouco esconsos: tabaco e outros fumos, agressividade nas respostas, descida na qualidade de trabalhos realizados na escola, um ar estranho e de solidão e álcool à mistura. Era a minha vez de demonstrar estupefacção… ou de comprovar aquilo de que suspeitava… “Mas tem que se fazer alguma coisa por ele, professor!” “Pois é, somos amigos e amigas dele e não gostamos de o ver assim.” “Lembrámo-nos de vir ter consigo, embora muitas coisas se passem fora da escola…” “Os pais dele não sabem, mas era melhor o professor fazer alguma coisa…” “Connosco, ele também já não liga e quer que o deixemos em paz…” E lá se parte para mais uma história em pedaços, engrenando na solidariedade e amizade dos colegas de turma. É o mínimo a fazer.
Língua Portuguesa – O tratamento que lhe foi dado pelo computador “Magalhães” é inacreditável. Não porque fosse impossível (não foi); não porque seja caso único. O semanário Expresso descobriu-lhe, nas instruções de actividades, 80 erros de ortografia, de acentuação, de sintaxe. Estas instruções eram para ser lidas por alunos. Não houve nenhuma tarefa de revisão linguística, que era o mínimo que devia ter sido feito. Incompetência a vários níveis, claro!
Vida – “A vida dos homens, a sua transformação, é rápida, vertiginosa; a da terra, a das coisas, leva séculos e dá-nos por isso uma impressão de eternidade.” (Américo Olavo, Na Grande Guerra, 1919).

Lendo a "Autobiografia" de Charles Darwin

Na aula de hoje (melhor: de ontem), leitura de Darwin e da sua Autobiografia. Nos seus 12-13 anos, os jovens seguiram com atenção a escrita do velho cientista, produzida quando tinha 67 anos, texto com que pretendeu passar a sua história para os filhos e, depois, para os filhos dos filhos, segundo diz no capítulo de abertura. Esta intenção foi contrariada em 1958, ano em que a neta Nora Barlow resolveu publicar a edição total da Autobiografia, cuja tradução portuguesa data de 2004 (Charles Darwin. Autobiografia. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2004).
A leitura foi apenas da parte respeitante à infância e juventude de Darwin, com algumas chamadas de atenção para pormenores da sua formação. Afinal, Darwin fez coisas que seriam comuns a qualquer jovem, delas falou não escondendo o seu entusiasmo e bem podem constituir alternativas para a educação. Bem vi, aliás, pelo entusiasmo que a miudagem revelava…
Recordações de Darwin? Com pouco mais de 8 anos, o coleccionismo cativava-o. Quando entrou para o externato de Shrewsbury, o seu gosto “pela história natural, e especialmente por coleccionar objectos, estava bem desenvolvido”. Coleccionar o quê? “Toda a espécie de coisas: conchas, carimbos, sobrescritos, moedas e minerais.” E os riscos. “A paixão por coleccionar, que leva uma pessoa a ser um naturalista sistemático, um antiquário ou um avarento, era muito forte em mim”. Aqui chegados, um intervalo para que todos falem das suas colecções.
Darwin foi também uma criança a quem o pai, um dia, zangado, disse que era a vergonha da família. Já passaram 200 anos… e, depois, vêm os ensinamentos: “Olhando para o meu passado e considerando do melhor modo possível o meu carácter durante os anos de liceu, as únicas qualidades que tinham qualquer promessa para o futuro eram os meus gostos intensos e diversificados, muito zelo relativamente ao que me interessava, e um grande prazer em compreender qualquer assunto ou objecto complexo.”
Muito a aprender nas biografias, pois. E, quando nem todos sabiam quem era Darwin, a vida desta personagem suscitou-lhes questões, dúvidas e querer saber. Sintetizaram mesmo o que tinha sido a infância do cientista e conseguiram captar o essencial da mensagem que o homem das longas barbas brancas quis transmitir aos netos. Fiquei com a ideia de que gostaram. Pelo menos, a maioria. Não só pelo tempo de leitura (que entusiasma muitos), mas sobretudo porque, por um bocado, eles pareceram iguais a Darwin…

terça-feira, 10 de março de 2009

Máximas em mínimas (44)

O homem, esse conhecido
Os homens são iguais em todas as épocas, com os seus defeitos, contradições, crueldades, mentiras e algumas qualidades laboriosamente construídas e aperfeiçoadas à sombra do que se convencionou chamar civilização, e se algo mudou, até ao nosso tempo, foram as artimanhas, as justificações e os meios disponíveis para produzir o mal.
Mário Ventura. O reino encantado. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2005.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Rostos (112) [nos 150 anos de João Vaz]

"Grupo do Leão", por Columbano Bordalo Pinheiro (1885)
No "Grupo do Leão", podemos ver: em pé, da esquerda para a direita - João Ribeiro Cristino, um dos proprietários do estabelecimento, o empregado de mesa Manuel Fidalgo, Columbano Bordalo Pinheiro, outro dos proprietários e Cipriano Martins; sentados, da esquerda para a direita - Henrique Pinto, José Malhoa, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Moura Girão, Rafael Bordalo Pinheiro e José Rodrigues Vieira.

O pintor setubalense João Vaz nasceu há 150 anos (2)

Na manhã de hoje, junto ao busto de João Vaz, em Setúbal, houve homenagem ao pintor sadino, patrocinada pela Câmara Municipal de Setúbal (vereador Rui Higino, à direita) e pela LASA - Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (Carlos Silveira, presidente da Direcção, à esquerda).
[foto de Quaresma Rosa]

Política caseira (5) - Jorge Santana escolhido pelo PSD de Setúbal

O Setubalense: 9.Março.2009

João Vaz nasceu há 150 anos

O Largo do Carmo, que abre para a sadina Avenida Todi ali nas imediações da igreja do Carmo, alberga o busto de uma das mais importantes figuras da cultura setubalense, o pintor João Vaz, voltado para o Sado, o rio que constituiu pretexto para muitas das suas telas.
O pintor sadino, nascido em 1859, foi discípulo de Tomás da Anunciação e de Silva Porto e fundador do designado "Grupo do Leão", criado na cervejaria de Lisboa "Leão de Ouro", que durou até 1889 (constituído por nomes da cultura da época, o Grupo foi retratado por Columbano em 1885 numa tela em que se podem ver, entre outros, José Malhoa, João Vaz, Silva Porto, Rafael Bordalo Pinheiro e o próprio Columbano). Professor e director da Escola Afonso Domingues, expôs em Portugal e no estrangeiro e recebeu vários títulos, entre os quais o de Oficial da Ordem de Sant'Iago. Além de ter sido responsável pela decoração da representação portuguesa na Exposição Universal de Paris de 1900 e nas exposições internacional de St. Louis (1904) e nacional do Brasil (1908), João Vaz colaborou também na decoração de uma sala da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, da sala dos "Passos Perdidos" da Assembleia da República, do Hotel do Buçaco, dos Teatros Luísa Todi (então, D. Amélia, em Setúbal) e Garcia de Resende (Évora), entre outras obras.
Após o seu falecimento em 1931 (que O Setubalense, de 18 de Fevereiro desse ano, noticiou de forma discreta, ainda que traçando um curto percurso biográfico e considerando-o "insigne pintor, setubalense ilustre" e "um dos mais lídimos e distintos representantes de artistas notáveis"), logo no ano seguinte a Sociedade Nacional de Belas Artes e os familiares do pintor organizaram uma exposição em Janeiro, reunindo mais de uma centena de peças da obra de João Vaz. No catálogo, escreveu António Arroyo, considerando o pintor setubalense o "mais ilustre pintor de marinhas", com "paleta de perene e jovial mocidade" e uma obra "consoladoramente luminosa".
O tom poético da pintura de João Vaz foi assinalado em texto não assinado do catálogo de exposição efectuada em Setúbal em 1949, que regista o facto de a sua obra não ter marcas de "feitura amaneirada, rebusca vã de efeitos estranhos e de falsos contrastes", antes as evidências de uma "arte, sobretudo, emotiva e lírica".
Para além de motivos ligados a Setúbal (preponderantes na sua obra) e ao Tejo, João Vaz retratou também outras regiões do país (Algarve, Buarcos, Vila do Conde, Funchal) e do estrangeiro (Rio de Janeiro, Roma, Florença).
O espólio do Museu de Setúbal tem algumas obras de João Vaz, mas, um pouco por todo o país, podem ser encontradas obras suas noutros museus e em várias colecções particulares.
Busto de João Vaz tem 60 anos
Inaugurado em 18 de Setembro de 1949 por iniciativa da Câmara Municipal de Setúbal, o busto é reprodução de um outro que foi erigido em Lisboa, na Escola Afonso Domingues, em 1926, da autoria do escultor José Pereira.
Nesse Setembro de 1949, quando já passavam dezoito anos sobre o falecimento de João Vaz, Setúbal decidiu prestar a homenagem que nunca fizera ao pintor, promovendo ainda uma exposição retrospectiva no Salão Nobre dos Paços do Concelho, que reuniu 48 quadros.
Segundo o periódico local O Setubalense, de 19 desse mês, as celebrações em honra de João Vaz iniciaram-se com uma missa na igreja de S.Julião presidida pelo beneditino Fr. Vicente Morais Vaz, filho do pintor, que teve a assistência de familiares, das entidades oficiais e de figuras gradas do mundo da cultura como Diogo de Macedo (a representar a Academia das Belas Artes) e os pintores Celestino Alves e Álvaro Perdigão. Depois, pelas cinco da tarde, "no Largo do Carmo, cujas janelas ostentavam colgaduras, procedeu-se à inauguração do monumento perante numerosa assistência", tendo o busto sido descerrado por Maria José, uma neta do pintor. Os discursos da praxe enalteceram, segundo o mesmo jornal, "o significado espiritual do acto e realçaram apologeticamente a figura de João Vaz e o seu sentido artístico". No final da cerimónia, Rui Carlos de Morais Vaz, neto do homenageado, agradeceu em nome da família.
O repórter finaliza o relato com a informação de que, "durante a noite, o pequeno jardim do Largo do Carmo, onde se ostenta a memória e que se encontrava artisticamente iluminado, foi visitado por vários milhares de pessoas".
No dia anterior à inauguração do monumento, em 17 de Setembro, a edição de O Setubalense publicava em primeira página um artigo do pintor Álvaro Perdigão intitulado "Um Rio, Uma Cidade, Um Pintor", que preparava os caminhos para o reconhecimento que a população de Setúbal devia a João Vaz. Invocando elementos ligados à vida do rio e à agitação do mar, Perdigão apelava: "Pescadores do Sado! Homens de rija epiderme e mimoso coração, homens que tratam por tu o Mar e os perigos do Mar, homens que veneram muito especialmente a Senhora do Cais e a Senhora da Arrábida, não procureis, desta vez, na prestimosa Rosa dos Ventos, a causa de tão insólita, desusada agitação. O mesmo sopro invisível, estranho aos pontos cardeais, passou alguma vez pelo coração dum pintor setubalense, aquele que será recordado, duradouramente, por um monumento singelo mas devidamente justo no tranquilo recanto do Largo do Carmo".
Quanto à retrospectiva, Perdigão anunciava que "o Salão Nobre vai ser pequeno para conter a surpresa, a admiração, o orgulho de todos os setubalenses, seja qual for a sua posição social, a sua formação mental". Desta forma, João Vaz era catapultado para figura cimeira da vida setubalense, quer pelo papel que atingiu no domínio da pintura, quer pela intervenção que teve no universo da educação, designadamente no ensino técnico, assim se justificando perante a cidade a imponência do vulto que tinha dado nome à sua Escola Industrial e Comercial (a actual Escola Secundária Sebastião da Gama). Uns anos mais tarde, em 1957, Luciano Santos prestar-lhe-ia também a sua homenagem, integrando-o no tríptico dos notáveis de Setúbal, exposto no Salão Nobre da Câmara Municipal sadina.
A grande retrospectiva da obra de João Vaz havia de surgir bem mais tarde, em 2005, em Lisboa, na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, com edição de catálogo intitulado João Vaz (1859-1931) – Um pintor do Naturalismo. Setúbal vai homenagear o seu pintor neste ano de 2009 com uma conferência a ter lugar na noite de hoje, pelas 21h30, no Salão Nobre da Câmara, por Fernando António Baptista Pereira, e com uma palestra, amanhã, pelas 22h00, no café-galeria La Bohème, por António Galrinho. Segundo a edição de Março do Guia de Eventos (Setúbal: Câmara Municipal, nº 51), no final do ano, haverá “uma exposição de pintura do artista setubalense”.
[fotos: quadros "Fragatas no Tejo junto a Alcochete", "A praia", "Setúbal - Doca de pesca", "Torre das Freiras - Mosteiro de Jesus (Setúbal)" e "Póvoa de Varzim"; busto em Setúbal fotografado por Quaresma Rosa]

domingo, 8 de março de 2009

Entre a honestidade e a legalidade

"O direito à honestidade" é o título da crónica que António Barreto assina no Público de hoje e cujo final transcrevo.
«(...) Os recentes episódios que colocaram em crise a política e as finanças mostraram bem esta nova concepção dos valores sociais. Toda a gente pensa hoje que algo não está certo no que a Caixa Geral de Depósitos tem feito. Perdas de rendimentos. Empréstimos para especulação e manipulação do mercado e de outras empresas, nomeadamente de bancos. Criação de grupos de controlo de outros bancos. Encobrimento de negócios de amigos. Ajuda especial a amigos e favoritos. E operações discutíveis seguidas de transferência de administradores. Estas são apenas algumas acusações que se fazem, aqui e ali. No BPN, os casos são ainda mais flagrantes. No BPP, mais misteriosos. Nos cimentos e nos petróleos, mais estranhos. Nas obras públicas, mais esquisitos. Por cima de todos eles, voa a acusação de interferência dos partidos PS e PSD, assim como dos últimos quatro ou cinco governos. Nenhuma das acusações ou suspeitas acima referidas está provada. Mas os mais visados defendem-se mal. Governantes e magistrados têm o dever de ajudar a população a compreender, mas fazem-no mal ou não o fazem. Comentadores e especialistas desdobram-se em desculpas e justificações, invocando a lei e o mercado. Mas a verdade é que nem aquela nem este se deveriam sobrepor à honestidade. Mas, infelizmente, a honestidade e a lei não casam bem no nosso país. Aposto que muito do que referi, em particular relativamente à Caixa, é legal. Mas não tenho a certeza de que seja honesto. Aliás, com os exemplos recentes da distinção entre corrupção para fins lícitos e para fins ilícitos, percebe-se bem que a honestidade não está protegida pela lei. Tanto não exijo. Como não quero ser ingénuo nem parvo, não espero que a lei promova a honestidade ou a virtude. Mas creio ser razoável que a lei proíba, condene e castigue a desonestidade, o favor e a corrupção. É o que não temos.»

As consequências dos erros do "Magalhães" vistas por Luís Afonso

Luís Afonso. Público: 08.Março.2009.

Máximas (asneiras) do "Magalhães"

O Expresso de ontem transcrevia algumas das cerca de 80 "pérolas" da língua portuguesa utilizada no "Magalhães":
1. "Neste processador podes escrever o texto que quiseres, gravar-lo e continuar-lo mais tarde.”
2. “Dirije o guindaste e copía o modelo.”
3. “Quando acabas-te, carrega no botão OK”
4. “Quando o tangram for dito frequentemente ser antigo, sua existência foi somente verificada em 1800.”
5. “Este processador é especial em que obriga o uso de estilos”
6. “Se os jogadores se acordam no facto que o jogo está num ciclo…”
O Público de hoje revela mais algumas:
7. "Ao princípio do jogo 4 sementes são metidas em cada casa. Os jogadores movem as sementes por vês."
8. "A cada torno o jogador escolhe uma das seis casas que controla. Pega todas as sementes nela e as distribui (...)."
9. "Se a penúltima semente também fês um total de 2 ou 3 (...)."
10. "Carrega outra vês no chapéu para as fechares."
11. "Com o teclado, escreve o número de pontos que vês nos dados que caêm."
12. "Carrega em cada elemento que tem uma zona livre ao lado dele. Ele vai ir para ela."
13. "O objectivo do quebra-cabeças é o de entrar cifres entre 1 e 9 em cada quadrado da grelha, frequentemente grelhas de 9 X 9 que conteêm grelhas."