quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Eduardo Lourenço e o conhecimento dos Portugueses


Em 2002, Fernando Pinto do Amaral, ao pensar a exposição “100 Livros Portugueses do Século XX”, integrou na lista O Labirinto da Saudade - Psicanálise mítica do destino português, de Eduardo Lourenço (1923-2020), de 1978, conjunto de ensaios forte no convite à reflexão sobre nós, portugueses, sobre a nossa identidade, ainda hoje obra fundamental.

A ordem por que estão ordenados os nove ensaios, escritos entre 1968 e 1978, não obedece à cronologia: o primeiro texto do livro é o de produção mais recente (“Primavera de 78”) e o último é o mais antigo (Abril de 1968), ambos relacionados com a psicanálise de Portugal, chave do conhecimento que pode ser um “abre-te Sésamo” para a entrada no mundo lourenciano.

“Repensar Portugal” (1978), o segundo ensaio, contém um desafio e uma verificação – “o português médio conhece mal a sua terra - inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio - é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de ‘viver’mais a sua existência do que ‘compreendê-la’”. “Repensar” aparece como redefinição necessária para a autognose portuguesa, sobretudo depois do abalo da mudança de regime, de espaços e de práticas devido ao 25 de Abril. A imagem conseguida dos portugueses fora mais cáustica em “Somos um povo de pobres com mentalidade de ricos” (1976), apontando a ostentação crescente, no domínio individual ou público.

O mito do “português-emigrante”, que o 10 de Junho explorou, surge em “A Emigração como Mito e os Mitos da Emigração” (1977), construção de uma outra imagem do português associada a Camões, nome que ocorre ainda em “A Imagem Teofiliana de Camões” e “Camões no Presente”, ambos de 1972. Durante o século XIX, Camões foi pretexto para a imagem de Portugal dentro e fora do país, haja em vista a utilização que dele foi feita pelos românticos, vincando-se a questão das imagens do poeta que conferiu a Portugal existência épica, com uma epopeia sobre assunto histórico, a única que da literatura portuguesa passou para o cânone universal, mas acautelando-se Eduardo Lourenço quanto às imagens criadas em torno de Camões.

O domínio da literatura evidencia-se em “Sérgio como Mito Cultural” e “Da Literatura como Interpretação de Portugal”. No primeiro, de 1969, questiona-se o ensaísmo de Sérgio, oscilando entre o seu espírito de polemista e uma “retórica da dúvida” que o caracterizará. De 1975 é o segundo, cujo título expõe o laboratório lourenciano, adepto de uma visão da literatura como forma de descoberta da identidade, num percurso desde Garrett.

Quanto aos dois restantes ensaios, separados entre eles por uma década, em “Psicanálise de Portugal”, de 1968, a propósito da obra Diálogo em Setembro, de Fernando Namora, ressalta a relação dos portugueses com o estrangeiro, mostrando uma tentativa de definição de Portugal obtida por espelho, em que pesam as abundâncias dos outros, isto é, do estrangeiro. A necessidade da viagem surge para o confronto com o que somos, sendo “o encontro com os outros o verdadeiro encontro connosco”. O primeiro texto do livro, de 1978, “Psicanálise Mítica do Destino Português”, constitui viagem pela imagem dos Portugueses, que só foi questionada no seu interior quando já corria o século XIX, manteve um percurso que até 1978 teve curta imaginação e foi marcada pelos traumas advenientes de momentos históricos. Quando o texto termina, deixa uma questão: “Para quando a nova viagem para esse outro desconhecido que somos nós mesmos e Portugal connosco?”, forma que poderia ser de concluir este livro se a ordem fosse diferente da que lhe ordena o índice... Foi essa viagem que Eduardo Lourenço fez e nos ensinou a fazer!

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 519, 2020-12-02, pg. 9.


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Memória: Eduardo Lourenço (1923-2020)



De Eduardo Lourenço guardarei o saber do pensar pausado, questionador, burilador de caminhos novos. A inquietação perante aquilo que parece seguro. O muito que aprendi seguindo os seus textos, não esquecendo o deslumbramento com que li O Labirinto da Saudade. A simpatia com que me atendeu um dia. O despojamento e a modéstia com que falava, interrogava, partilhando momentos do pensar perante públicos que o ouviam, curiosos e atentos. Obrigado, Professor Eduardo Lourenço!

sábado, 28 de novembro de 2020

Papa Francisco: da pandemia para o futuro

 


Ao retomar as audiências gerais, em 2 de Setembro, falando sobre os efeitos e as mudanças provocadas pela pandemia, o Papa Francisco dizia: “Hoje a solidariedade é o caminho a percorrer rumo a um mundo pós-pandemia, para a cura das nossas doenças interpessoais e sociais. Não há outro. Ou seguimos o caminho da solidariedade ou a situação vai piorar. Quero repetir: não se sai de uma crise da mesma forma que antes. A pandemia é uma crise. De uma crise só se sai melhores ou piores. Temos que escolher.” Já passavam cinco meses desde que, naquele final de 27 de Março, o mundo assistiu a um Papa sozinho na Praça de S. Pedro, numa mensagem “urbi et orbi”, em jeito de oração pela Humanidade, que assim começava: “Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem.”

O forte peso metafórico da comunicação papal de Março serviu para mostrar a vulnerabilidade que dominava o mundo, num ritmo desajustado, ganhando terreno algumas verdades fundamentais: “ninguém se salva sozinho”, “não somos auto-suficientes” ou as necessárias “novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade”, três convicções expressas nessa comunicação.

Esta comunicação, bem como outras sete intervenções do Bispo de Roma produzidas até 22 de Abril, integram o livro Vida após a pandemia (Paulinas Editora), prefaciado pelo cardeal checo-canadiano Michael Czerny, que considera conterem estes textos “directrizes para a reconstrução de um mundo melhor”, numa perspectiva de reflexão sobre desafios para novas práticas nas áreas das actividades económicas, do trabalho, da assistência de saúde, uma vez que “a nossa vida, após a pandemia, não pode ser uma réplica do que se passou antes”.

Nas várias intervenções de Francisco aqui coligidas, é insistente o princípio da “preparação para o depois”, seguindo um caminho de onde não podem estar ausentes a vivência da solidariedade (“este não é tempo para a indiferença”) e a fraternidade (“este não é tempo para egoísmos”). Na homilia pascal, de 12 de Abril, o Pontífice punha a tónica nos decisores, lembrando-lhes que “este não é tempo para continuar a fabricar e a comercializar armas”, insistindo nas várias crises humanitárias que corriam em paralelo com a pandemia, aí incluindo já a vivida na região moçambicana de Cabo Delgado. No mesmo dia, em “Carta aos Movimentos Populares”, Francisco continuava directo: “Espero que este momento de perigo nos tire do piloto automático, sacuda as nossas consciências adormecidas e permita uma conversão humanística e ecológica que termine com a idolatria do dinheiro e coloque a dignidade e a vida no centro.”

Cinco dias depois, na revista espanhola Vida Nueva, o Papa enunciava dois princípios da “nova imaginação do possível” - o primeiro, “se agirmos como um só povo, até diante das outras pandemias que nos ameaçam, poderemos ter um impacto real”; o segundo, “a globalização da indiferença continuará a ameaçar e a tentar o nosso caminho”. Em 22 Abril, Dia Mundial da Terra, retomava o princípio já habitual neste Papa - “amar e apreciar o magnífico dom da Terra, nossa casa comum, e cuidar de todos os membros da família humana.”

Os discursos de Francisco em Vida após a pandemia acentuam a responsabilidade colectiva e são directos, entendíveis para todos, numa linha de insistência, com pistas para a reflexão e acção que se impõem a cada um.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 515, 2020-11-25, pg. 9.


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Emília e as memórias da conserveira

 


“As mulheres conserveiras protagonizaram uma das páginas mais brilhantes da história de Setúbal.” A afirmação, no ensaio “Indústria conserveira - Mosaico de um futuro anterior” devido a Vanessa Iglésias Amorim, João Pedro Santos e Jaime Pinho, serve de mapa sociológico para o texto dramático A Casa de Emília, de Luísa Monteiro, levado à cena recentemente pelo Teatro Estúdio Fontenova. Os dois textos complementam-se e integram o livro com o título da peça, editado pelo grupo de teatro setubalense.

O trabalho ensaístico parte de entrevistas e de histórias pessoais e percorre o quotidiano das mulheres nas fábricas de conserva, registado nas questões de género, condições de trabalho e retrato social. A participação feminina setubalense na indústria conserveira tem escasso estudo, reduzindo-se, frequentemente, a curto (sub-)capítulo nas publicações sobre o tema, mas, em 2000, foi mostrada em Alguns aspectos da indústria conserveira em Setúbal, trabalho muito apoiado nas entrevistas (34 mulheres em 40 entrevistados), promovido pelo Museu do Trabalho.

A força das operárias, a sua resistência, os abusos perpetrados ou insinuados a que foram sujeitas, o esgotamento físico, a inferioridade na hierarquia, a vida familiar condicionada pela fábrica (mesmo na educação dos filhos, que, desde muito cedo, acompanhavam a mãe, tornando-se também eles operários ou operárias), uma certa segregação social (em que desempenhava papel importante o cheiro do peixe), as diferenças salariais motivadas pelo género, tudo passa pelos testemunhos que permitem a primeira parte do livro e se ilustram na segunda.

A história de Emília (num tempo em que a indústria conserveira sadina já pertence ao passado) conta seis personagens, quatro delas vivendo sob o mesmo tecto. Emília, a conserveira, gere toda a narrativa no que é devido a memória, pondo a nu o que foi a sua vida na fábrica, estatuto que lhe dará o direito de, quase no final da peça, poder dizer à filha, Albertina, que “tudo quanto diz respeito àquilo que conserva, mulheres incluídas, são de grande bem para a humanidade”, uma outra forma de chamar sobre si a responsabilidade de personagem principal.

Pelo discurso de Emília passam os avisos a Albertina, e à neta, Amélia, bem como a autoridade e algum desprezo por Artur, o genro, filho do antigo encarregado da fábrica onde Emília trabalhou e actual amante da nora de João Rodrigues, que tivera uma relação com Emília. Numa curta história, o leitor / espectador acaba por ter presente o quotidiano da geração de Emília numa vida não suficientemente vencida, magoada pelo que foi e pelo que não pôde ser (no trabalho e no amor), dotada de um sofrido conhecimento do ser humano a partir da sua experiência, muito ajudada pelo coro nos pensamentos sobre esse passado; presente também está o tempo de Albertina, mulher de limpezas, aí incluindo um certo varrer do mal, em simultâneo com a protecção da casa; finalmente, os momentos de Amélia, a neta, baloiçando entre amores (de Zeca, ex-namorado, com final infeliz, e de Ruben, personagem apenas aludida), carinhosa para a avó, desprendida desse passado mais antigo. Entre Rodrigues, ex-amante de Emília quando já tinha um compromisso com Aurora, e Artur há uma quase relação em espelho, até chegarem a um encontro combinado no final, em torno da verdade ou da mentira, porque, como Rodrigues diz, há um “sono nebuloso e denso, violento e negro em cada um de nós”.

Luísa Monteiro conseguiu com esta obra aquilo que se propôs: “levar a vida intemporal para o palco, perpetuar as histórias dos outros e levá-las de regresso à pedra de nascença.” E as memórias das mulheres conserveiras saem fortificadas...

* J.R.R., in O Setubalense: nº 510, 2020-11-18, p. 9.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Alfredo da Silva, o engenh(eir)o da CUF



Sobre o provincianismo lusitano, Fernando Pessoa criticou o escol português por “incapacidade de concentração voluntária, espírito de imitação e ausência de espírito crítico”. A seguir, emendava a mão: “Faço uma leve reserva quanto ao escol industrial: não há entre os nossos intelectuais, artistas, jornalistas ou políticos alguém cuja iniciativa e poder de coordenação se compare com os de, por exemplo, o Sr. Alfredo da Silva no campo industrial.” E concluía: “Por desastre, porém, e para mal nosso, o escol industrial não tem, por natureza, influência intelectual alguma, e assim não serve de vivificar o escol em geral.”

O texto pessoano, recolhido em Ultimatum e Páginas de Sociologia Política (1980), serve para José Manuel Sardica abrir a obra Alfredo da Silva e a CUF: Liderança, Empreendedorismo e Compromisso (Cascais: Principia Editora, 2020, com apoio da Fundação Amélia de Mello), justificando mesmo os três valores enunciados no subtítulo, nesta que é uma das primeiras iniciativas da programação dos 150 anos do nascimento do industrial que pôs o Barreiro no centro dos seus investimentos. 

Além do percurso da vida e obra de Alfredo da Silva (1871-1942), o leitor inteira-se também sobre as tensões políticas e laborais que assolaram os empreendimentos do grupo CUF, sobre uma nova visão da responsabilidade social empresarial relativamente aos colaboradores (gesto em que Alfredo da Silva foi quase pioneiro, criando habitações, escola, serviços de saúde - a origem da rede hospitalar CUF que hoje conhecemos -, formas de lazer, cantinas, protecção social para os trabalhadores das suas empresas, dinamizando a ideia de uma “família cufista”), estendendo-se a narrativa até à actualidade (grupos Sovena e José de Mello), pois esta obra se assume também como a história de uma família. Os vectores apontados por Sardica assentam numa gestão intensa nas fábricas do grupo, num reinvestimento dinamizando o seu crescimento, num compromisso patriótico e social, configurados num homem de lemas como “mais e melhor”, “ganhar se possível e perder se necessário” ou “o que o país não tem a CUF cria”, assim se sintetizando os trunfos que conduziram Alfredo da Silva: “planificar a médio e longo prazo, ser original e inovador nas escolhas de investimentos, calcular muito bem riscos e benefícios e solidarizar a riqueza pessoal com a riqueza criada.”

Marcas como Carris, Totta, Tabaqueira, Império, SG (Sociedade Geral), CUF, ou áreas como os adubos, as oleaginosas ou a construção naval foram os principais degraus por que passou a acção deste homem que, em 1908, chamou o centro da sua actuação para a Margem Sul, chegando a desejar ser sepultado no Barreiro, “pois, mesmo morto, queria estar sempre a olhar para as suas fábricas”. Passou circunstancialmente pela política (deputado por Setúbal em 1906) e cruzou ideias com políticos (João Franco, Sidónio Pais, Oliveira Salazar), nem sempre convergindo; sofreu quatro atentados, a que sobreviveu por sorte; viveu exilado em Espanha; contornou a onda revolucionária e grevista do início da República, a acusação de germanofilia que lhe foi imputada na Primeira Guerra, os efeitos do “crash” de 1929 e as dificuldades trazidas pela Segunda Guerra. Os seus restos mortais seriam trasladados para mausoléu no Barreiro dois anos após o falecimento.

A leitura acessível e a informação essencial povoam este livro, na perspectiva de cativar (também) o público estudantil para a investigação sobre a vida, a obra e o tempo do biografado, visando concurso a acontecer ao longo deste ano lectivo. Estamos perante uma biografia muito bem tecida, repleta de informação actualizada (chega a estabelecer correspondência dos valores do dinheiro com o tempo de hoje numa sensibilização à história económica), que não omite as vulnerabilidades do tempo e das circunstâncias, deixando claro, sobre Alfredo da Silva, que “a história da sua CUF é a sua história de vida”.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 505, 2020-11-11, p. 9.


Memória: Gonçalo Ribeiro Teles (1922-2020)

Há um livro sobre o arquitecto Ribeiro Teles, publicado em 2003 na forma de catálogo, cujo título é A utopia e os pés na terra. Bem escolhido, é uma síntese extraordinária do que foi o contributo de Gonçalo Ribeiro Teles para a valorização do paisagismo.

A utopia e os pés na terra, pelo menos para este defensor da paisagem, não foram inconciliáveis e puderam co-existir. É por isso que, passados anos, os jardins da Gulbenkian continuam a ser lindos. É por isso que o contributo que nos legou continuará a ser importante, assim os decisores o queiram. Obrigado, arquitecto!

(Fotografado por: José Alex Gandum)


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Helena Marques: a vida, como a ilha, é um cais

 

Sobre o final da sua carreira jornalística no Diário de Notícias, publicou o primeiro romance, O último cais, obra premiada nesse 1992. Até 2010, mais quatro romances e um livro de contos constituíram a obra literária de Helena Marques (1935-2020, falecida há dias), que, na obra inaugural, trouxe um retrato da Madeira (a que estava ligada por razões familiares e por lá ter vivido) e da condição da mulher numa narrativa em que o amor e a morte caminham lado a lado.

O último cais conta uma história balizada entre 4 de Setembro de 1879 e 1904, iniciando-se com uma transcrição do diário de bordo da personagem Marcos, na costa de Moçambique em “fiscalização e repressão do tráfico de escravos” (como Raquel, a esposa, o apresentará mais tarde, ao defender o abolicionismo). O derradeiro capítulo, o décimo-terceiro, tem o título da obra, conjugação que implica um contacto próximo com o mar, com a viagem (real ou metafórica), ajudando na definição do que será viver numa ilha. Oito dos capítulos titulam-se com nomes femininos, cedidos por personagens da história, havendo três que tomam os nomes masculinos de outras tantas personagens, aspectos que valorizam a presença da mulher, por um lado, e o relacionamento entre personagens, por outro - surgindo uma família grande, com figuras modeladas exaustivamente, vincando-se a condição da mulher (na recusa de uma personalidade de Penélope) a partir do contributo de cada uma das personagens femininas do enredo.

Pelo romance passam o quotidiano (a vida nas quintas, as festas, o ambiente familiar, a relação com as criadas, a importância da casa) e as marcas dos tempos (a chegada do telégrafo, o aparecimento do fonógrafo, a presença estrangeira na ilha), a política (a libertação dos escravos em África, o tricentenário camoniano e os republicanos, o sufragismo) e a noção do que é a vida da família, nas suas aproximações e desencontros, “tecendo-se com o amor e a morte”.

As muitas referências literárias participam na definição das ideias e na caracterização das personagens: a garrettiana Maria, de Frei Luís de Sousa, ecoa na jovem Benedita, quando, aos quinze anos, expõe aos pais o seu “raciocinar como uma pessoa mais velha”; a relação amorosa de Maria dos Anjos e Xavier lembra  Paulo e Virgínia, de Bernardin de Saint-Pierre; Raquel recebeu formação italiana, eternizando o afecto pela Divina Comédia, de Dante; a Bíblia é lida e interpretada criticamente; Luciana cruza-se com a flaubertiana Bovary, que a influencia; João de Deus é enaltecido pelo contributo da Cartilha Maternal; Clara aprende o inglês com as obras de  Lewis Carroll, não esquecendo as aventuras de Alice; o americano John dos Passos entra na história por uma relação familiar, merecendo um comentário irónico pelo seu quase esquecimento das memórias da Madeira; Marcos recorda-se de quando leu Guerra Junqueiro e das discussões sobre anticlericalismo com o cónego Nicolau.

A história, contada um século depois do diário de bordo que abre o livro, exige da narradora, herdeira de Carlota, frequentes recuos na narrativa, conciliadores dos tempos e das personagens. No final, Marcos está no “último cais”, como espectador, à espera da entrada no Paraíso. Assim, O último cais é o itinerário de uma viagem em múltiplos sentidos: no tempo, indo até aos ambientes do final oitocentista; na acção, em que se reconstitui a identidade de uma família; no “eu”, que busca permanentemente um sentido para a vida. Um romance em que a vida, como a ilha, é um cais.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 500, 2020-11-04, pg. 9.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

História(s) do Bairro de Troino

 

Em 10 de Janeiro de 1867, no Distrito de Évora, Eça de Queirós escrevia: “Na história, o povo deve ser tudo; as individualidades, pouco.” E justificava: “O que nós queremos saber é o espírito das gerações. O que a nossa curiosidade pede é ver como o passado compreendeu as coisas vitais da humanidade: a família, o trabalho, a educação, as instituições.” A questão relacionava-se com aquilo que era (é) designado por “história oficial”, versão de que Eça convidava a desconfiar.

Vem esta evocação a propósito do mais recente livro de história local dedicado a Setúbal, O Bairro de Troino - Contributos para a sua História, assinado pelos historiadores Diogo Ferreira e João Pedro Santos e pelo “troineiro” Eduardo Silva, que também patrocinou a edição.

A obra, fortemente ilustrada e sobre um acervo bibliográfico vasto, assenta em dois vectores: o primeiro, de investigação histórica, em cinco capítulos, apresenta a narrativa do bairro desde a origem toponímica, passando pela sua ligação e inserção na urbe, pela estrutura social, por episódios da resistência política do século XX e pelo património construído, e tem a assinatura de Diogo Ferreira e de João Santos; o segundo, de cunho eminentemente memorialístico, assente numa visão emotiva e vivida, traz o testemunho de Eduardo Silva, nascido no bairro no final da década de 1930.

O leitor pode assistir à evolução e papel daquele território na construção da cidade, desde o tempo em que era considerado um espaço mais ou menos marginal, de arrabalde, até ao momento em que se impôs como espaço privilegiado de uma comunidade ligada à pesca, chegando à identidade administrativa de freguesia, desenvolvendo-se industrial e comercialmente. Interessante se torna visualizar o “caleidoscópio social”, abordando as áreas profissionais predominantes e a sua identidade: a indústria do mar (o pescador e a sua comunidade, condições de vida, operariado conserveiro, construção naval - havendo espaço para um dos autores homenagear um seu antepassado que na construção de embarcações se destacou), o pequeno comércio (com destaque para a mercearia “Confiança”, hoje recuperada e funcionando como mostra musealizada, ou para espaços de convívio como os cafés, alcançando particular interesse testemunhal e evocativo o texto sobre os matraquilhos na “Taberna do Luciano”, devido a Paulo Anjos), a religiosidade (presente no historial e registo de vivências da festa de Nossa Senhora da Arrábida). Igualmente importante é o capítulo dedicado àqueles que foram incomodados por defenderem mudanças e ideias, sempre com a perseguição policial no seu encalço: de grevistas ou libertários a revolucionários ou heróis, os seus nomes saltam de uma consciência de classe e de humanidade com a qual nem sempre o poder concordou. Sobre o património arquitectónico, percebe-se que a Anunciada (freguesia a que pertence Troino) é rica de história e detém marcos que configuram a identidade setubalense, haja em vista referências como a igreja da Anunciada, a Fonte Nova, o Convento de Jesus, a Casa dos Pescadores ou o Orfanato Municipal, entre outros, em descrições que englobam a história e as histórias que lhes estão associadas.

Finalmente, a escrita mais memorialística de Eduardo Silva percorre muitos dos aspectos que forjaram a infância e juventude do autor, indiciando forte ligação ao bairro - por ali passa um sentido de pertença muito visível, a informação toponímica, os jogos infantis, alguns naturais do bairro que se têm destacado em diversas áreas, bem como diversas profissões entretanto desaparecidas.

Esta obra consegue aliar o que existe em anteriores investigações a novas histórias e juntar o rigor pretendido na informação histórica e a emoção dos que a escrevem, regendo-se por uma leitura acessível, levando o leitor a estar muito próximo do mundo e da história de que se fala.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 496, 2020-10-29, pg. 10.


terça-feira, 27 de outubro de 2020

Rostos (206) - D. Manuel Martins, em Setúbal

 

D. Manuel Martins (1927-2017), em escultura de Maria José Brito, frente à Sé de Setúbal (Igreja de Santa Maria), descerrada ontem, quando passaram 45 anos sobre a sua tomada de posse como primeiro bispo de Setúbal (1975-1998), iniciativa da Câmara Municipal de Setúbal e da Diocese de Setúbal.


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Maria Cecília Correia: a felicidade pela escrita



Na revista Mulher - Modas e Bordados de 30 de Julho de 1975, Maria Cecília Correia (1919-1993) justificava “Porque escrevo para crianças”. A crónica relacionava-se com a escrita destinada ao público infanto-juvenil, por que a autora era mais conhecida, sobretudo a partir de 1953, ano do seu primeiro livro, Histórias da minha rua, ilustrado por Maria Keil.

Atribuindo uma parte da responsabilidade de ser escritora a “um dos poucos sobreviventes do Orpheu”, que se sabe ter sido o açoriano Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), confessa, quase no início do texto: “Escrever foi, para mim, sempre um prazer. Escrever-Comunicar. Falar para.” Se podemos ver este deleite nas pequenas narrativas que corporizam o livro de 1953 (por onde passam as plantas, os animais, as pessoas e a simplicidade da vida), não é menos verdade que esse “prazer” ressalta também em Pretérito Presente, publicado em 1976 (reeditado em 2019 pelo Grupo de Estudos Maria Cecília Correia, aquando da passagem do centenário de nascimento), que não tem como destinatário o público infantil.

De textos curtos, nele aparecem fragmentos de diário, retalhos de memórias, cartas, poemas, pequenas narrativas da vida, num enredo que entrelaça vivências, espaços, família e a própria narradora. Pretérito Presente é, aliás, um título que nos sugere essa mistura de momentos, encontrando-se o passado e o presente através da escrita. As histórias fazem-se a partir de coisas simples (um botão esquecido pode ser um pretexto), de passeios a pé, de viagens, de recordações familiares, de cenas presenciadas, de imaginação. O prazer da escrita surge em cada momento, sublinhado na notação dos sentidos - pelo tacto inebriante (“o vento ali era um companheiro agradável e os cabelos entraram logo no jogo, bailando com os empurrões”), pelos aromas recebidos (“este cheiro das ervas da Arrábida penetra-me como a saudade dos que comigo andaram e já aqui se não encontram”), pelo sabor apetecido (“espremo laranjas no velho cone de vidro, rodando, rodando, apertando as mãos, chupando o que fica”), pela musicalidade da natureza (“ouço o riso dos regatos”), pela emergência da visão (“como eu tenho fome de ver camélias na árvore!”).

A Arrábida marca presença na obra (Maria Cecília Correia adquiriu quinta em Azeitão em 1964, aí construindo casa de férias), ancoradouro feliz, tela de plantas variegadas (“paredes cobertas de folhas verdes, murta, alecrim, folhado”), ponto de partida para outras incursões - praia de Galapos, mercado de Setúbal, feira de Pinhal Novo, festa de Palmela, por exemplo - e charneira com o mundo dos outros - como foi o momento de fascínio quando ouviu o coveiro de Azeitão dizer, em frente da campa de Sebastião da Gama, “quero levar para minha casa uma poda da roseira do nosso Sebastiãozinho”.

A escrita de Maria Cecília Correia rejeita o esquecimento e valoriza uma vida com a Natureza. Só assim se compreende o desabafo que faz à sua amiga Maria Eulália de Macedo: “Pois o que é o envelhecer? Pensar que um dia tudo me pode ser indiferente! Que os cheiros não serão uma parte do amor, que o Vento me será aborrecido, que o Sol será sinónimo de espirros! Que coisa mais triste! Enquanto o meu corpo e qualquer parte da Terra formos um, a coisa não está mal.”

Um livro em que correm a sensibilidade e a beleza das coisas simples, numa escrita que é ponto de encontro com a felicidade.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 491, 2020-10-22, pg. 2.


domingo, 18 de outubro de 2020

Papa Francisco: a vida como “arte do encontro”

 

 

“Entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno, contam-se uma consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos, bem como o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas que divinizam o homem e colocam os valores mundanos e materiais no lugar dos princípios supremos e transcendentes.” A citação provém de documento assinado em Abu Dhabi em 4 de Fevereiro de 2019 pelo Papa Francisco e pelo Imã Ahmad Al-Tayyeb, e surge incluída quase no final da nova encíclica, Fratelli Tutti (Paulinas Editora, 2020), subscrita pelo Papa Francisco em Assis, junto do túmulo do fundador dos Franciscanos, em 3 de Outubro.

O subtítulo, “Sobre a fraternidade e a amizade social”, esclarece o conteúdo e o espírito da frase franciscana que titula a comunicação, “Todos irmãos”, e o facto de, nos oito capítulos que a compõem, várias serem as referências ao encontro de Abu Dhabi bem prova o desafio dessa “amizade social” indispensável para a aproximação das culturas e das religiões, em favor de uma humanidade outra. Este discurso refere numerosos documentos já divulgados por este e anteriores papados, forma de chamar a atenção para a pertinência que a questão assume cada vez mais e de lembrar que os princípios aqui defendidos já têm sido comunicados ao mundo.

Se dúvidas houvesse sobre a relevância desta mensagem, bastaria pensarmos no que a nível mundial se tem passado quanto à pandemia, aspecto acentuado logo no início: “Quando estava a redigir esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia da Covid-19, que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Por cima das várias respostas que deram os diferentes países, ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto.” Ora, esta dispersão num assunto de saúde pública a nível universal deveria constituir uma lição para todos e espoletar “um anseio mundial de fraternidade”.

Usando a primeira pessoa do singular, o Papa torna-se mais próximo de cada um dos leitores, desafiando-o a pensar com ele e a sentir a co-responsabilização na mudança, porque todos temos vindo a ser co-responsáveis no acontecido: a globalização que nos torna mais sozinhos, o mercado que nos domina, a perda do sentido de vizinhança, a colonização cultural, a política dependente do “marketing”, o racismo (um “vírus”) assumido ou dissimulado, os direitos humanos muito pouco universais, a desigualdade de direitos entre homens e mulheres, a cedência ao poder das tecnologias, o fascínio do virtual, a guerra que “deixa o mundo pior do que o encontrou”... num “mundo que corre sem um rumo comum”, desencontrando-se da realidade, não assumindo as migrações, destruindo a auto-estima, aniquilando a esperança.

A parábola do “bom samaritano” do evangelho de Lucas é mote, desafiando para um olhar sobre a realidade, incentivando a que não se passe ao lado, se preste atenção ao próximo, se olhe para o sofrimento, a que sejamos agentes da dignidade. O desafio provoca o nosso estatuto - “dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância.”

Citando Vinicius de Moraes, o Papa defende a vida como “arte do encontro”, obrigando-nos a pensar, a sermos criteriosos nas escolhas que fazemos e nos governantes que elegemos, a tornarmo-nos agentes do bem. Esta missiva não é só para uma facção, é ecuménica, é para todos (governantes e “media” incluídos), serve para todas as confissões. A questão é querer-se que o mundo seja outra coisa, um espaço onde mais sintamos a humanidade que temos de ajudar a construir.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 485, 2020-10-14, pg. 10.


domingo, 11 de outubro de 2020

Memória de António Maria Eusébio, o Calafate e Cantador de Setúbal

 


Em 1908, Henrique das Neves (1841-1915) publicava em Lisboa a obra O Cantador de Setúbal António Eusébio (Calafate) - Apreciações críticas da sua personalidade coligidas da imprensa e de cartas particulares, título indispensável para o conhecimento do poeta evocado, pela quantidade de testemunhos recolhidos, pela diversidade de abordagens, pelo facto de a maior parte dos contributos advirem de publicações periódicas, correspondência ou momentos circunstanciais, que correriam o risco de se perder se esta iniciativa não tivesse existido.

Henrique das Neves, que se reformou como general, esteve no exército em Setúbal, aqui tendo feito amizade com António Maria Eusébio (1819-1911), graças à qual o nome do poeta “Calafate” pôde ficar registado em adequada bibliografia. A mais antiga referência escrita ao “Cantador de Setúbal” é assinada por Henrique das Neves no periódico Jornal de Setúbal, em Fevereiro de 1868, aí se descrevendo as suas qualidades e reproduzindo um conjunto de sete décimas. Três décadas passariam e, em 1901, o mesmo signatário avançou com a publicação Versos do Cantador de Setúbal, que mereceu prefácio de Guerra Junqueiro. A partir daí, a obra do Calafate passou a ser publicada em folhetos para venda na rua e nas feiras, assim constituindo um contributo para a subsistência do poeta octogenário e de sua mulher até ao falecimento de ambos no mesmo ano.

Para assinalar o bicentenário do nascimento do poeta, Daniel Pires e Ana Margarida Chora organizaram a obra António Maria Eusébio, o Calafate - Uma evocação, recentemente dada à estampa pelo Centro de Estudos Bocageanos, trazendo para o leitor de hoje grande parte dos textos que Henrique das Neves coligiu em 1908 e acrescentando outros publicados após essa data, com passagem por diversos arquivos. A abrir esta recolha, Daniel Pires considera que a poesia do Calafate “reflecte valores éticos elevados, pugna pela justiça social, por direitos humanos inalienáveis, tantas vezes postergados, então, no país”, enquanto Ana Chora estabelece as diferenças entre a poesia tradicional e os poetas populares, sendo que a estes, na época de António Eusébio, “as elites prestaram particular atenção”, haja em vista “a espontaneidade, a filosofia popular e a ironia” ou, “na forma, uma musicalidade imperativa e um ritmo que se precipita em função da própria lógica do conteúdo” que os caracterizam.

Classificado como “herói do improviso” (Manuel Envia), um dos “Homeros da viola” (Afonso Lopes Vieira), próximo de Nicolau Tolentino (Henrique das Neves), o “último troveiro” (Augusto da Costa), o detentor da “beleza única, a beleza moral” (Guerra Junqueiro), um “repentista e improvisador extraordinário” (Fernando Cardoso), “um caso de inteligência poética” (Fialho de Almeida), o poeta António Maria Eusébio foi longe, com uma recepção transversal a toda a sociedade. Leite de Vasconcelos, que palmilhou o país na busca da cultura popular, leu-o e registou: “tem grande poder de observação - pinta tudo o que vê em volta de si, discute os assuntos que no momento preocupam a opinião pública, verbera, com mordaz ironia, o que na vida ou na sociedade lhe não agrada.” E estas são, de facto, algumas das marcas que a sua poesia revela notavelmente.

Esta obra organizada por Daniel Pires e Ana Margarida Chora colige cerca de oitenta contributos sobre o Calafate, da prosa à poesia, da memória à notícia, do ensaio à biografia, tornando-se (apesar de alguns descuidos nas referências bibliográficas apresentadas) um elemento indispensável para o conhecimento da importância do Cantador de Setúbal. Uma bela forma de o evocar, dando-o a conhecer!

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 481, 2020-10-08, pg. 10.