sábado, 14 de julho de 2007

Cinco livros - o terceiro

Há um livro de Sebastião da Gama (1924-1952) que sempre me fascinou e de que nem sempre se fala – é O Segredo é Amar, publicação póstuma organizada por Matilde Rosa Araújo que teve estreia editorial em 1969. É um livro onde cabem textos em prosa multifacetados e de interesses diversos: o leitor ora se confronta com histórias, ora com páginas diarísticas, ora com notas de viagem (bem interessante o relato da visita a França, ainda que não narre toda a viagem, e, igualmente belo, “A Região dos Três Castelos”, o melhor que até hoje se escreveu sobre esta zona da Península de Setúbal em termos de divulgação e de proposta turística, ainda com actualidade), ora com artigos de jornal (aí havendo talvez dos mais afectuosos dizeres sobre Estremoz…), ora com textos de apreciação literária (agradável e de grande sensibilidade é o que se intitula “Lugar de Bocage na nossa Poesia de Amor”, que constituiu uma conferência, e não menos interessante é o texto “Apontamentos sobre a Poesia Social no Século XIX”, que constituiu a sua dissertação de licenciatura). Por aqui surgem experiências, estudo da poesia, capacidade de invento, simplicidade de escrita. E a gente percebe que Sebastião da Gama não era o poeta repentino e de acaso, mas um poeta em formação, sustentado no conhecimento das teorias e da tradição literária portuguesa.
O Segredo é Amar contém ainda aquele que foi o último texto que Sebastião da Gama escreveu – uma pequena crónica intitulada “Encarcerar a Asa”, datada de 25 de Janeiro de 1952 (o poeta faleceria 13 dias depois), de Estremoz. Apesar da doença que já o dominava, Sebastião da Gama não desperdiçou a oportunidade de louvar a Vida e os homens – “Os meus vizinhos têm um bicho numa gaiola. Um pintassilgo. Pois se eu andasse zangado com a Vida, que não ando (apesar de tanto mal que me tem feito, há tantas coisas boas que a Vida dá e me dá!), era por causa do pintassilgo que me reconciliaria com ela. Com ela e com os homens – se eu andasse zangado com os homens…

4 comentários:

José António Cabrita disse...

Meu caro João,

vim ao teu blog e ficarei visita assídua. E, já agora, desculpando tu e os teus parceiros boguistas esta pontinha de oportunismo, será que este livro de Sebastião da Gama, com as virtudes que lhe são apontadas, contém, um arzinho que seja, sobre o mirante da Quinta da Azeda?

Com um abraço do
José António Cabrita

Teresa Lopes disse...

Conheci a obra de Sebastião da Gama em 1978/79, quando fazia estágio, por indicação dos meus orientadores. Bem hajam. Devorávamos o seu "Diário" e o nosso grupo de seis acabados-de-sair-da-universidade adoptou uma filosofia: "Tens muito que fazer? Não, tenho muito que amar!"
Tinha apenas uma turma, que me enchia de flores campestres mal a Primavera despontou. E eu, grávida da minha filha Sara, tinha sempre aquela intuição de lhes querer o perfume. "Não cheire, professora! Olhe que o bebé nasce com flores na corpo!..."
Não mais parei de o ler. E, cada vez que o faço, descubro sempre algo de novo.
Ainda bem que a vossa Associação está em força.
Um abraço

João Reis Ribeiro disse...

Caro José António,
Não, este livro de Sebastião da Gama não faz referência à Quinta da Azeda. A descrição da "viagem" entre Setúbal e Palmela é, de resto, rápida - depois de recomendar a compra de doce de laranja, diz: "E depois de um ameno passeio entre laranjais e de uma subidazinha que há-de ter cansado muito homem de armas de outrora, aparece, a fechar o triângulo, o Castelo de Palmela." Para os mais curiosos, o José António está a fazer investigação sobre a dita Quinta. Alguém pode dar umas achegas? É que a história da Quinta da Azeda terá muito para contar, mas ainda não está feita...
Abraço.

João Reis Ribeiro disse...

Teresa,
É essa qualidade do "Diário" que vai alimentando o fascínio. De cada vez que se lê, há coisas que não tínhamos visto antes... E este "Diário" não é apenas o registo do dia-a-dia de um professor; é também a vida de um homem de cultura.
Quanto à Associação (para quem não sabe, trata-se da Associação Cultural Sebastião da Gama), num destes dias escreverei sobre. Obrigado pelos seus votos! Abraço.