quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O Palacete da Comenda e uma dormida de Raul Lino ao luar

Na sua edição de 18 de Março de 1877, o jornal Gazeta Setubalense informava: “Esteve quinta-feira nesta cidade o sr. Conde Armand, distinto diplomata, ministro da França em Lisboa. S. Exª foi visitar a pitoresca propriedade que possui no sítio da Comenda.” A dita propriedade estava na posse do francês Armand desde o início de Março de 1872 por compra que este fizera a Henrique Maria Albino, morador em Beja. Ernest Armand, viúvo, era o representante do governo francês em Lisboa. Em 1870, alugara o Palácio de Santos para aí instalar a Legação francesa, imóvel que o governo francês acabaria por comprar em 1909, aí mantendo a sua representação, mesmo depois que a Legação foi elevada ao nível de Embaixada em 1948.


Comenda e Sado vistos por Américo Ribeiro

[a partir da obra Américo Ribeiro Todos os Dias (Madureira Lopes, coord. Setúbal: Livraria Hemus, 2006)]

Duas décadas depois da notícia da Gazeta Setubalense, em Março de 1898, o Conde fez uma doação ao filho, Abel Henri George, Visconde Armand, residente em Paris, aí incluindo o terreno da Comenda. Passaram cinco anos e o jornal A Construção Moderna, de 10 de Agosto de 1903, publicou o texto “Casa do Exmo. Sr. Conde de Armand na Quinta da Comenda em Setúbal – Arquitecto sr. Raul Lino”, aí dando a conhecer o projecto da obra que viria a erguer-se: “A construção é feita num pequeno promontório, de luxuriante vegetação, sobranceiro ao rio Sado, em Setúbal, posição extremamente pitoresca, como podem atestá-lo aqueles que têm visto as ridentes margens do belo rio, junto à lida cidade de Bocage. No citado promontório existe actualmente uma velha casa, cujas paredes, em parte, se aproveitam pois foram levantadas sobre as muralhas de um antigo forte. As grandes varandas da nova construção deitam para sobre o rio.” Em anexo ao texto de apresentação vinham os desenhos da casa, com as quatro fachadas e as plantas do subsolo, do rés-do-chão e do primeiro andar.

Comenda: rés-de-chão , em desenho de Raul Lino (in A Arquitectura Portuguesa, 1908)
Conta-se que o Conde Armand pedira a Raul Lino (1879-1974) para desenhar a casa, convite acompanhado de uma sugestão singular: que, antes de começar a projectar a construção, o arquitecto dormisse no sítio uma noite ao luar. O repto foi aceite e o resultado foi o palacete da Comenda, que teve a responsabilidade da construção civil nas mãos de Augusto Vitorino da Rosa. Na edição de Junho de 1908, a revista A Arquitectura Portuguesa publicava um texto assinado por Henrique das Neves, em cujas três páginas (mais duas com estampas devidas ao fotógrafo sadino Manuel Rodrigues Aldegalega) era feita a apologia das linhas: “Eis uma casa de habitação em cujo traçado colaboraram não somente o intento do seu destino, como também a região, o clima e a paisagem”.
A apreciação do autor resultou de um passeio que ele fizera até ao Outão na companhia de Ana de Castro Osório, tendo o enquadramento suscitado o espanto: “Na curva da estrada que decorre sobre um outeiro e oferece o melhor ponto de vista sobre o chateau do sr. Conde, estacionou o trem; e ali nos demorámos, absortos, a ver, a admirar e a… invejar. Ele ergue-se aprumado airosamente como a Torre de Belém, mas sobranceiro ao rio Sado, destacando a sua alvura contra os tons: verde-bronze da vegetação, sanguíneo da argila do solo e azul das águas do rio. Como o olhar se me absorvia naquelas varandas! E o gozo espiritual que acordavam em mim!” Depois de algumas considerações sobre arquitectura em Portugal, o autor acentua as características que foram desejadas pelo proprietário do solar e da quinta: sujeição a muralhas e paredes que já lá existiam, cobertura com “telha nacional, em forma de canal” e linhas simples de forma a ser exaltado o enquadramento natural.
Comenda: 1º andar, em desenho de Raul Lino (A Arquitectura Portuguesa, 1908)
O texto de Henrique das Neves serve ainda para dar umas pinceladas sobre o que seria a personagem Conde de Armand, que passava na Comenda alguns meses afastado da buliçosa Paris, através do retrato que lhe foi traçado por um amigo setubalense: “De chapéu de grandes abas, uma vara na mão e botas altas é assim que encontramos o sr. Conde, fidalgo de primorosa educação, percorrendo esta sua propriedade, que ele ama. Considero-o um artista-filósofo. Nas horas de calor, enquanto descansa, tira da algibeira o seu Virgílio e assim se deleita sub tegmine fagi, imaginando ter diante de si, quando ergue o olhar do livro, as verdadeiras paisagens que acaba de ver tracejadas naquelas églogas”. E não é sem uma ponta de ironia que o texto termina: “Do sr. Conde de Armand direi ainda de minha lavra: foi uma homenagem que prestou à classe dos arquitectos portugueses, confiando a um deles a dispendiosa edificação da sua nova casa da Comenda. Suspeito que não terá de arrepender-se. Algum português talvez haja que, no seu caso, tivesse mandado vir… arquitecto francês”.
O Conde Armand, Abel Henri George, faleceu no final de Abril de 1919, passando a propriedade para os herdeiros – a esposa, Condessa de Armand, Françoise de Brantes, e cinco filhos. Mais tarde, em 1952, o registo da propriedade era feito em nome da Sociedade Agrícola da Quinta da Comenda de Mouguelas, constituída pelos descendentes de Abel George. Nos anos 80, a Quinta da Comenda seria adquirida por António Xavier de Lima, que, em conversa com o jornal O Setubalense, publicada na edição de 17 de Abril de 1989, dizia: “Enquanto a Comenda for minha, nenhuma árvore será derrubada”. Com efeito, uma das apostas levadas a cabo pelo Conde Armand no início do século XX foi o da riqueza da flora, quer pela preservação das espécies existentes, quer pela plantação de outras – Henrique das Neves chamava a atenção no seu artigo para o parque que o Conde pretendia construir e para uma plantação “de cerca de 1000 pés de palmeira” que tinha visto a cerca de um quilómetro da residência da Comenda.

Palacete da Comenda (Agosto de 2005)

O palacete que Raul Lino projectou para a Comenda inseria já algumas das linhas que viriam a definir a arte do arquitecto: o respeito pela Natureza e o equilíbrio entre a construção e o lugar. O solar da Comenda foi um dos seus primeiros projectos, mas também um marco para um percurso que assinou obras como o Cine-Teatro Tivoli (Lisboa, 1919-1924), a Casa dos Patudos (Alpiarça, 1905) e muitas outras construções, sobretudo na zona de Sintra e Estoril. Em Setúbal, o nome de Raul Lino esteve também ligado ao projecto de reconstrução do edifício dos Paços do Concelho, na Praça de Bocage (destruído por um incêndio na noite de 5 de Outubro de 1910, a reconstrução, que Raul Lino foi convidado para projectar em 1927, foi concluída em 1939).

5 comentários:

Pedro disse...

gostei, depois de ouvir tanta crendice, foi um prazer sentir algo de verdade.

Anónimo disse...

tenho pena que o palacete esteja ao abandono,ainda esta semana estive na praia da comenda e andavam la uns jovens no palacete e ouviram se vidros a partir o que e uma pena a propriedade estar a merce de vandalismo assim como do tempo pois ve se que tanto as janelas como o telhado estao danificadas...so mesmo num pais cmo este!!!

maria luisa delgado Duarte disse...

Gostaria de acrescentar ao que foi dito, num país onde as pessoas não conseguem resguardar o que tem um passado, destruindo e deixando para trás um lugar magnífico, ficando ao abandono da sua sorte, pena tenho de não poder erguer novamente dando luz e vida a um lugar tão bonito.

maria luisa delgado Duarte disse...

Uma pena estar abandono sem rumo.

Francisco disse...

Tenho imensa pena deste palacio se encontrar no estado lastimavel como se pode ver,pois em criança brinquei por la e comi algumas vezes,uma vez que os condes D´Armand eram os meus padrinhos.