terça-feira, 7 de abril de 2026

Os “Fuzilados de Setúbal” lembrados por Diogo Ferreira (2)

 


Todo o trabalho levado a cabo por Álvaro Arranja ao longo dos anos em torno dos acontecimentos ocorridos em Setúbal nas greves do início da República justifica que Diogo Ferreira abra esta obra, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia), com uma saudação “em memória do professor Álvaro Arranja”, justificando que foi o “historiador que contribuiu para que os trágicos acontecimentos narrados nesta obra fossem preservados na memória coletiva”.

Neste trabalho, a investigação vai até ao ponto de quase nos fazer a reportagem circunstanciada do que aconteceu naquele 13 de Março, bem como nos fornece uma completa identificação das vítimas, trabalho possível pela consulta atenta de arquivos, pela leitura comparada dos relatos e opiniões transmitidos pela imprensa da época, fosse ela local ou nacional, e pela procura de documentos relacionados com os eventos, por vezes com interpretações divergentes. Para o leitor, fica a fita do tempo, mais ou menos circunstanciada, ilustrada com recortes jornalísticos e com documentação fotográfica diversa, além do recurso ao traço do pintor Nuno David, que idealiza o cenário do acontecimento e faz corresponder a imagem aos retratos escritos então feitos. 

O leitor conhece os antecedentes, dados pelo ambiente vivido no seio da indústria conserveira, assim como contacta com o ambiente político na cidade — greve iniciada em 21 de Fevereiro, reclamando aumentos salariais, denunciando abusos sexuais sobre as jovens trabalhadoras e dando a conhecer as duras condições de trabalho; polémica que envolveu Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira na condenação desta greve e no esvaziamento do seu sentido, mesmo por interesses particulares, pois uma das fábricas pertencia a uma irmã de Paulino de Oliveira; descontentamento com a nomeação para administrador do concelho de alguém que ocupara o mesmo cargo na fase final da Monarquia; intensa acção dos representantes sindicais e da imprensa sindicalista. Depois, é apresentada a reconstrução dos acontecimentos, possibilitada pelo cruzamento das diversas informações publicadas, bem como são identificados os feridos e fornecidas informações biográficas sobre os mortos. Finalmente, o leitor contacta com os acontecimentos dos dias seguintes, sobretudo as manifestações de protesto “contra as fatalidades ocorridas à beira do Sado”, lê o relatório da sindicância realizada para averiguar as responsabilidades envolvidas nos trágicos acontecimentos, conhece a opinião complacente do Ministro do Interior António José de Almeida e as consequências resultantes do apuramento de responsabilidades.

Com este trabalho, divulgado quando passam 115 anos sobre os acontecimentos relatados, Diogo Ferreira vai mostrando como fez a investigação, não só porque indica as referências de que partiu, mas também porque mapeia os caminhos que percorreu, quer nas perguntas que motivaram a investigação, quer nas dúvidas que se mantiveram ao longo desse caminho, assumindo a descoberta de algumas respostas e a falta de algumas explicações. Aspecto notável é o cruzamento das informações, venham elas da imprensa (seja generalista ou politicamente comprometida, seja local ou nacional), partindo dos textos noticiosos (ora cautelosos, ora pormenorizados) ou dos artigos de opinião, ou venham dos documentos oficiais ou de relatos de memórias entretanto publicados ou recolhidos. Fica o leitor com a sensação de estar perante a reportagem que faltava, trabalho que noticia, questiona, comenta, lança pistas de interpretação e deixa espaço para a formulação de opinião, sendo-lhe ainda permitido conviver com algumas das fontes, visitando documentos importantes do processo, que ajudam a contar toda esta história.

A história, sobretudo a história local, muito se enriquece com esta investigação, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres, de Diogo Ferreira, um útil contributo para o avivar da memória, quer pela dimensão pedagógica sobre o método no trabalho do investigador, não escondendo as dificuldades do caminho e as pequenas descobertas que vão fazendo um todo, convidando mesmo o leitor a participar na investigação pelas perguntas que vai pondo, quer pelo conhecimento que traz e partilha. Uma boa forma, também, de assinalar os 115 anos!

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1729, 2026-04-01, pg. 10.


Os “Fuzilados de Setúbal” lembrados por Diogo Ferreira (1)

 


Se houvesse “palavra do ano” em 1911, a designação “fuzilamento” poderia constar no leque das palavras a concurso, de tal forma os jornais contaram o que se passou em Setúbal nesse 13 de Março de 1911 — a expressão “Fuzilamentos de Setúbal” circulou, de resto, na altura, na imprensa, escolhida não por acaso, mas para assinalar a brutalidade da repressão sobre os movimentos grevistas, que levou à morte de António Mendes e de Mariana Torres. A opção pela palavra “fuzilamento” não foi ingénua, pois pressupõe execução sumária ou eliminação do opositor quase sem defesa, não sendo de estranhar, por isso, que esta prática esteja ligada a períodos históricos de conflitos armados, de revoluções e de regimes autoritários, momentos em que a instabilidade social dita as regras. A história do que se passou foi agora reavivada por Diogo Ferreira no livro Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 - A História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia).

Se recorrermos à edição de 16 de Março de 1911 do jornal Germinal, que se publicava em Setúbal, percebemos bem o que significou para o movimento operário da altura a morte destas duas figuras, mortas à luz do dia, à vista de todos, e enterradas de madrugada, para evitar a agitação popular: “O sangue que em Setúbal correu impetuoso, saindo em borbotões dos corpos de filhos do povo, não se perdeu. As suas gotas lançadas à terra, vermelhas e fortes, fecundarão heróis sublimes, de alma revolta e corações simples, com o espírito erguido para o futuro numa evocação à aurora de justiça que vai despontar.” Este tom metafórico, visando transformar as duas vítimas em heróis reconhecidos, desaparecia no final do artigo, quando se referiam os “instigadores” da acção — “os que feriram, como os soldados, e os que provocaram, como os industriais e o administrador” do concelho —, desafiando-os a suicidarem-se, com uma explicação provocatória: “o suicídio não os reabilitaria, mas tornava-os esquecidos, a terra consumiria os seus corpos e da sua memória ficava apenas uma vaga lembrança. Só assim provariam que eram homens, criaturas normais, moralmente completas.”

O caso foi muito comentado e marcou intensamente o debate, sobretudo porque a República fora instituída cinco meses antes e era uma esperança para as mudanças, e Setúbal, tendo sido um dos primeiros locais a acompanhar a revolta, viu, naquele momento, o regime republicano a virar-se contra o desejo de melhoria de vida do operariado, contra a prática da greve e contra o direito de manifestação. De tal forma foi significativo o acontecimento das mortes em Setúbal nesse 13 de Março que, pouco mais de três décadas depois, em 1945, Alves Redol mencionava o assunto na conversa entre personagens do seu romance Os Reinegros, obra que o autor esteve impedido de publicar durante quase trinta anos, pois só foi dada a ler ao público, já como obra póstuma, em 1972 (Redol falecera em 1969), narrativa que gira entre 1907 e 1918,  em torno do desmoronamento das esperanças que a República poderá ter significado — numa loja, no Bairro Alto, vários amigos conversavam sobre os acontecimentos, perguntando um, ironicamente: “Quando se pede pão, dão-se balas? Está certo? Duas mortes e não sei quantos feridos...” Logo a seguir, outro acrescentava: “A República já foi. Durou dois dias na Rotunda e pouco mais.” Este último comentário expressava bem a decepção que chegara com a falta de cumprimento das promessas dos revolucionários...

Na história local, o caso das mortes de António Mendes e Mariana Torres mereceu durante muito tempo referência fugaz, mas tornou-se objecto de investigação mais aprofundada a partir do momento em que o historiador Álvaro Arranja (1960-2025) publicou, em 2009, a obra Anarco-Sindicalistas e Republicanos — Setúbal na I República, ou o ensaio com que contribuiu, em 2010, para o livro Setúbal — Roteiros Republicanos, coordenado por Albérico Afonso, e, sobretudo, quando, em 2011, divulgou o estudo Mataram Mariana... — Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911, um título que sintetiza o divórcio entre a política e os populares, na sequência da insatisfação resultante da repressão sobre as formas de manifestação levadas a cabo pedindo melhorias nas condições de vida e de trabalho. Álvaro Arranja iniciava, de resto, este seu estudo, chamando a atenção para a importância que esse facto teve, apesar de pouco se saber: “Quase nada sabemos sobre Mariana Torres e António Mendes, os dois operários mortos em 13 de Março de 1911, em Setúbal, pelas balas da recém-criada Guarda Republicana. Porém, essas mortes (cinco meses após o 5 de Outubro) e a imagem das indefesas operárias conserveiras baleadas na Avenida Luísa Todi (...) foram um acontecimento marcante para a relação entre a República e o operariado e a própria evolução histórica da Primeira República.”

A investigação de Álvaro Arranja constituiu um importante contributo para a memória desse tempo e várias manifestações se sucederam a partir daí para alimentação da memória, designadamente, a construção da escultura que evoca Mariana Torres, da autoria de Jorge Pé-Curto, inaugurada no Largo da Fonte Nova há uma década, em Março de 2016.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1724, 1016-03-25, pg. 10.