sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (7)



Ainda em 1945, quase no findar do ano, o livro Serra-Mãe foi objecto de apreciação por António Quadros (1923-1993) no jornal lisboeta Victoria (28.Dez.1945), que assim iniciava a sua crónica: “Sebastião da Gama - jovem poeta que se estreia - escreveu estes poemas na bela serra da Arrábida. Um temperamento sensível em contacto com a grandeza de um quadro natural como aquele, não podia deixar de originar um poeta.” Defendendo que “a poesia de Sebastião da Gama está profundamente impregnada de misticismo, filho do ambiente, filho da Serra-Mãe”, António Quadros considerava estar este livro repleto de poesia que “não é descritiva, nem simbólica, porque é, principalmente, oração”. Embora Serra-Mãe esteja dividido em seis partes, o articulista organizava a temática de Gama em três áreas, motivadas, respectivamente, pela serra, por Deus e pela “vida de todos os dias”. A crónica finalizava com um comentário que apontava para um bom início — “os poemas de Sebastião da Gama possuem qualquer coisa de superior à técnica e à própria imaginação: poesia. O que é mais do que suficiente como ponto de partida” —, depois de ter reparado que o “principal defeito” do jovem poeta “é ter pouca imaginação poética”, pois “repisa os mesmos temas” e “canta muitas vezes os mesmos ideais”.        

A recepção crítica de que Serra-Mãe foi objecto prolongou-se por quase todo o ano de 1946. Logo em 6 de Janeiro, eram publicados dois artigos, ambos assinados por A. Pinto de Carvalho: no jornal O Sesimbrense e no jornal Novidades. No primeiro, o autor associava esta obra do poeta azeitonense à de Frei Agostinho da Cruz pela motivação comum da Arrábida, afirmando que “a poesia de Sebastião da Gama reflecte uma ânsia insatisfeita à procura dum complemento” e que “a monotonia silenciosa e imponente da serra” lhe “afinou as cordas da lira”; no segundo, eram apresentadas as características da Arrábida que podiam constituir motivos poéticos (“os segredos dos seus recantos escarpados, das suas bouças e arvoredo”, o “convívio íntimo da Serra e do Mar” e “a serra com os seus encantos e surpresas, com a sua tristeza rude e monótona, com a sua amplidão a um tempo dolente e grandiosa”), era retomada a aproximação a Frei Agostinho da Cruz e surgia uma apreciação global sobre o livro “de versos, singelos, sim, os mais deles, daquela singeleza peculiar da vegetação serrana, mas esmaltados de onde em onde por fulgurações de imaginação criadora que deixam entrever no foco donde irradiam o estofo de um verdadeiro poeta.”

David Mourão-Ferreira (1927-1996), um dos primeiros leitores do amigo Sebastião da Gama, fez a sua apreciação no dia em que o livro apareceu na montra, mas o texto só foi publicado em 7 de Janeiro, no Jornal de Elvas: “O estilo de Sebastião da Gama é muito pessoal e tem um curioso cunho de originalidade. Aproveita-se das liberdades métricas introduzidas pela poesia moderna, mas sem as exagerar. (…) Podemos notar em muitos versos de Sebastião da Gama a sombra de Pascoaes e de Régio, mas especialmente deste último.”

Do final do mês é o comentário de João Pedro de Andrade (1902-1974), que assinava no Diário de Lisboa de 30 de Janeiro: “A poesia é, principalmente, uma atitude perante a vida. (…) Serra-Mãe é o testemunho iniludível duma individualidade pujantemente poética. (…) Afirma, na sua linguagem poética, uma segurança no tom, no estilo, nas imagens, que me parecem as manifestações sinceras da tal atitude perante a vida que revela o poeta.”

No número 18 de Universitárias - Revista de Cultura, de Janeiro de 1946 (abrangendo os meses de Janeiro a Abril), Maria de Lourdes Belchior (1923-1998) escrevia artigo de duas páginas sobre Serra-Mãe, a primeira obra do seu amigo Sebastião, teorizando, numa primeira parte, sobre o valor da palavra poética e sobre a sinceridade e originalidade em poesia, para, depois, afirmar que “estes poemas de S. Gama são poemas de um homem que a Serra gerou” e que “a palavra e o homem são apenas o eco da voz que Deus pôs nas coisas criadas”, razão por que, “também nas coisas pequenas, nos nadas que não têm em si aparentemente uma estrutura de grandeza, S. Gama descobre o poético que transforma, ao captar a ressonância misteriosa que as sublima.” Lourdes Belchior concluía o seu artigo afirmando esperar “ainda mais de um poeta que procura os seus caminhos” e, a propósito das marcas regianas presentes em alguns poemas de Serra-Mãe, aconselhando que o jovem poeta “se liberte de influências” e procure “caminhos numa conquista serena e forte.”

A opinião de Vitorino Nemésio (1901-1978) apareceria ainda em Fevereiro, em 13, no Diário Popular: “Em Serra-Mãe, palpita todo o autêntico alvoroço de uma consciência que desperta sob o duplo signo da Mística e da Poesia. (…) Sebastião da Gama, inebriado pelas cores da sua Serra, aproveita-as apenas como matéria para compor a sua própria aparência; as formas são nele puro pretexto de exultação. (…) A Poesia exprime-se por si; o poeta é seu lugar-onde. (…) A sua fraseologia é livremente agostiniana e pascoalesca.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1699, 2026-02-18, pg. 20.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Quando os versos dizem a Cidade

 


Perante a cidade, o nosso olhar corre sempre sobre uma construção, um artifício, que muito nos diz sobre o tempo e sobre a história, sobre as pessoas e a sua relação com o mundo. Descobrimos a cidade, criamos relações com ela. Tentamos desenhá-la, dizê-la ou mostrá-la de acordo com as cores e as linhas que nos tocam e, muitas vezes, deixamos que aquele corpo urbano nos surpreenda, nos faça pensar e nos ensine, mesmo que nem sempre a cidade corresponda à utopia que idealizámos. São de Luís Filipe Castro Mendes, viajante e poeta, os versos “De todas as cidades que atravessámos / nenhuma nos deu o mágico elixir, / mas todas nos ensinaram alguma coisa / daquilo que cresce ainda dentro de nós.” (in A misericórdia dos mercados, 2014).

A cidade como motivo poético foi o desafio que a Associação Casa da Poesia de Setúbal propôs aos seus membros como tema para a antologia A Cidade e Outros Poemas (2025), a nona desde que este projecto começou e que, em anteriores edições, já abarcou: homenagem a figuras como Bocage, Calafate, Frei Agostinho da Cruz, Maria Adelaide Rosado Pinto ou Sebastião da Gama; defesa de valores identitários como o significado do 25 de Abril ou os Direitos Humanos; momentos de surpresa e de aprendizagem com que a vida nos contempla, como foram a pandemia ou a guerra. Desta vez, a cidade, como tela para que as palavras a pintem, como janela por onde vemos o mundo e a vida, como espelho de histórias, impõe-se e alimenta os versos de 31 autores, acrescentando-se ainda neste livro um grupo de poemas de tema livre (onde há espaço para a evocação do amor, o olhar por vezes crítico sobre a sociedade, o sentimento perante a ausência do outro, o sonho como construtor do futuro, o valor da poesia, a sensibilidade do eu, a afirmação de valores e de referências ou retratos de identidade) assinados por 19 nomes, grande parte deles colaborando nas duas partes da antologia. 

As emoções perante a cidade são, muitas vezes, contraditórias, o que não espanta, porquanto a cidade é uma construção, um artifício, com todas as vicissitudes e qualidades que lhe possamos adivinhar.

Por este mapa urbano passam cidades várias — Setúbal, obviamente, mas também Lisboa, Reguengos, Porto — como estão presentes recantos específicos de algumas delas — Praça de Bocage, Sado, Arrábida, Fontainhas, no caso de Setúbal, ou Alfama e a Rua dos Fanqueiros, relativamente a Lisboa, ou o Bolhão, na geografia do Porto. Há ainda marcas simbólicas destes espaços, como o rio, os eléctricos, a tipologia das casas, os monumentos, as chaminés das fábricas, os sons das ruas, as figuras características, a mancha urbana... sempre numa tentativa de se misturarem as cores, os ecos, a paisagem e os sentimentos de quem escreve, fórmula que permite, muitas vezes, que resulte uma sobreposição da imagem da cidade com o percurso autobiográfico do autor, sobretudo quando ocorre a comparação da cidade que existiu com a cidade que está ou quando se recorda a cidade da infância com o olhar sobre a cidade de agora, formas, afinal, de garantir a vida, independentemente dos sentidos em que ela corra.

Quando o retrato da cidade se cola ao percurso da vida, à memória, o sentimento é o do refúgio na cidade da infância, gerando-se alguma estranheza na cidade de agora, por vezes até um sentimento de rejeição e de tristeza relativamente às imagens do presente, de desenraizamento — seja pela paisagem urbana, pelo barulho, pelo anonimato e pelo distanciamento entre tantos, pelo desaparecimento do verde e das flores ou pelo tom excessivo do artificial. Por outro lado, há a procura das sensações da cidade quando tudo adormece, quase como sendo necessário invocar o silêncio da noite para que a cidade se permita entender.

As sonoridades da cidade surgem, normalmente, associadas ao ruído, o que dificulta a sua aceitação; no entanto, em alguns poemas, é notória a necessidade de este espaço ser povoado pelo sussurrar das conversas e dos becos e pelos sons das crianças, anúncios de felicidade e de futuro. Surge, por vezes, a imagem da cidade como o palco ou cenário ideal onde tudo pode acontecer, incluindo a cidade feliz, o espaço da alegria ou a cidade como o reino da utopia. E, aspecto importante, as visões apresentadas da cidade resultam dos passos acontecidos pelas ruas e em tempos diversos, num evidente olhar pensado, em que as palavras acompanham também o deambular desses passos, porque... só podemos falar da cidade se a percorrermos.

Assim, estes olhares de A Cidade e Outros Poemas apresentam-se como uma re-invenção ou uma forma de apropriação dos espaços. Que o digam as vozes que por esta antologia ecoam — textos que se deixam enredar pela cidade, por vezes nomeando-a, por vezes iluminando os seus símbolos, por vezes laborando na cidade que gostariam que fosse... Palavra a palavra, verso a verso, são bairros de poemas que avistamos, lemos, imaginamos. A cidade fica mais humana com o tom da voz e das emoções, sorridente porque a paleta das palavras a ajudou a mostrar-se.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1695, 2026-02-11, pg. 9.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Visitar a Arrábida em 1903 (3)

 


O comentário de Sousa Gonçalves aos divulgados guias Baedeker quanto à importância que davam às localidades (mencionado na crónica anterior) e à necessidade de cada visitante fazer a sua própria exploração do lugar visitado pode partir de uma observação tão simples quanto esta: na terceira edição do Spain and Portugal Handbook for Travellers, de Karl Baedeker, datada de 1908 (cinco anos depois do escrito de Sousa Gonçalves), a referência a Setúbal ocupa um parágrafo que menciona o Hotel Esperança, o sal, o moscatel, o facto de ter servido de residência régia, os efeitos do terramoto de 1755, a Igreja de Jesus, a Avenida Todi, o porto, o Campo do Bonfim, a igreja de S. Julião, a estátua de Bocage, Tróia e a Arrábida — “Uma excursão pode ser feita em carruagem, ao longo da costa, até ao sanatório do Outão. De barco, pode ser alcançado o Portinho, a partir de onde um trajecto de meia hora nos leva ao Convento da Arrábida, e perto do qual existe a Rocha de Santa Margarida, gruta com estalactites e uma capela”; o Estoril, valorizado pela imagem de Cascais, ocupa dois parágrafos, referindo o Hotel de Paris e o Hotel do Monte Estoril, a praia, o restaurante do Casino, a Boca do Inferno, e aliciando os turistas ingleses — “Cascais, conhecida como a Riviera de Portugal, é o local favorito para as férias das famílias no verão e no outono, embora a época de banhos mais apropriada seja Agosto. (...) Mais recentemente, esta região tem sido também local de férias de inverno, sobretudo frequentada por visitantes ingleses. (...) Ao longo das colinas há numerosos palácios e ‘villas’ com jardins repletos de uma luxuriante vegetação subtropical”. Como referiu Sousa Gonçalves, o guia estava muito mais voltado para orientar turistas, cabendo ao visitante a argúcia para ir muito além daquilo que o guia refere...

O livro Uma Excursão à Serra da Arrábida fica completo com as colaborações de Francisco Luís Pereira de Sousa e de Guilherme A. Vidal Júnior, muito mais curtas do que a de J. Cardoso de Sousa Gonçalves, que apresenta a serra de um ponto de vista histórico-cultural, cruzando no seu texto informações de múltiplas áreas do saber, enquanto estes dois autores se limitam a áreas específicas nos seus escritos — a geologia, no caso de Pereira de Sousa, e o roteiro de barco entre Lisboa e Setúbal, no texto de Vidal Júnior.

No escrito de Pereira de Sousa, “Ideia muito geral da geologia da Serra da Arrábida”, parte-se dos “terrenos jurássicos”, enunciam-se as várias “camadas geológicas” que compõem a serra e é comparado o desgaste geológico — “na parte sul da serra da Arrábida, houve uma destruição mais intensa do que ao norte. Desapareceram em grande parte as camadas superiores e existem as que vemos no alto das montanhas e que, depois, descem abruptamente até serem banhadas pelo oceano”. Enaltecidos são os seus calcários — “A serra da Arrábida, maciço escalvado, notável pela arrogância das suas linhas perante a virente planície que ao norte se desenrola e pelo modo aprumado como ao sul as suas escarpas se erguem no oceano, encerra no seu seio preciosos calcários com que se podia edificar faustosamente uma bela cidade.” A brecha da Arrábida, a utilização dos calcários de Casais das Pedreiras e do Zambujal para cantarias, assim como o uso dos calcários junto à Torre do Outão para cimento numa “fábrica na quinta da Rasca” merecem referências breves. A finalizar o seu texto, Pereira de Sousa traça o retrato de uma serra despida de vegetação, apesar de ser “provável que, como muitas outras serras do país, fosse noutros tempos coberta de frondosos arvoredos”.

Igualmente motivado por uma descrição mais técnica é o texto de Vidal Júnior, “De Lisboa a Setúbal”, que traça o itinerário entre os porto da capital e o cais de desembarque em Setúbal, numa viagem por mar, preocupando-se sobretudo com a enunciação das edificações (fortalezas e faróis) que auxiliavam a navegação e seus anos de construção — S. Julião e Bugio (1775), Porto Covo e Caxias (1877), Guia (1775) e Santa Marta, Cabo Espichel (1790), Fortim da Arrábida, fortaleza do Outão (1775) — e com o reconhecimento geográfico da costa — Monte Córdova, Monte Formosinho, Mar da Lage, Moinho da Chibata, Albufeira, Casa do Infantado, Cabo Espichel, Sesimbra, Sanatório do Outão, Forte de Albarquel, Forte de S. Filipe — até ao desembarque em Setúbal: “A uma milha para Este do Forte de Albarquel, vê-se o Cais de Nossa Senhora da Conceição que dá magnífico acesso e desembarque à cidade de Setúbal. Foi importante antigamente o movimento comercial do porto de Setúbal, feito em grande parte por navegação portuguesa. Actualmente o seu movimento comercial está reduzido à exportação de sal, conservas, cortiça, arroz, etc.”

Eram estes os registos que os excursionistas da Academia de Estudos Livres (origem das Universidades Populares) levavam, em 1903, do seu passeio à Arrábida, num roteiro de informação muito plural, enriquecido com elementos da história cultural, das ciências dedicadas à Natureza e da arte de navegar, assim se cumprindo o estatuto da organização: “desenvolver o gosto pelo estudo e pela ciência” e “proporcionar aos sócios o conhecimento das ciências”.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1690, 2026-02-04, pg. 2


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Visitar a Arrábida em 1903 (2)

 

            

A “Notícia Histórica” com que Sousa Gonçalves abre o livro Uma Excursão à Serra da Arrábida prossegue com o elogio a Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), figura indispensável neste trajecto, porquanto a montanha “está tão cheia de recordações do inspirado vate que é de justiça esboçar o seu perfil de asceta, cheio de talento”. Tendo a consciência da importância do frade arrábido, o texto é enriquecido com a transcrição de um artigo datado de 1872 assinado por Bulhão Pato (1828-1912), centrado nas vivências do místico franciscano na Arrábida e nas suas composições poéticas, figura aureolada de santidade — “Catorze anos durou o seu voluntário exílio. A serra, o mar, a lua, as estrelas e as carregadas nuvens, os relâmpagos e as tormentas, foram alternadamente testemunhas das suas dores, das suas santas alegrias, dos seus desalentos e dos seus êxtases místicos! A morte recebeu-o nos braços meiga, risonha e solícita, como um anjo de redenção. O povo, numa piedosa lenda, contava que, ao tirarem o retrato, depois de morto, sorrira alegremente o bem-aventurado monge, concluindo, deste suposto facto, que não era só um bom padre o eremita da serra, mas um inspirado e um santo.” Para Sousa Gonçalves, imperativo se torna visitar a cela que o frade habitou, conforme explica numa rápida justificação em que não estão alheias as suas próprias descobertas e emoções — “O excursionista da Academia de Estudos Livres que chegar até estas paragens por certo relembrará a vida do grande poeta, tão cheio da delicadeza do verdadeiro artista como despido de todos os preconceitos que a vaidade humana acaricia! Um instante de recolhimento, dedicado à memória do asceta retemperará o nosso espírito fortalecendo-o para as lutas da vida. É sempre consoladora a contemplação duma vida pura e desinteressada.”

Sugere depois a “Notícia Histórica” uma visita à Lapa de Santa Margarida, “uma das maiores curiosidades” da Arrábida, com as suas duas entradas (pelo lado da serra e pelo lado do mar), à época, ponto de devoção dos pescadores do Cabo, espaço que alojaria meio milhar de pessoas. Também neste ponto a emoção do narrador se evidencia: “Na hora do maior calor goza-se ali uma frescura deliciosa, ouvindo-se apenas o quebrar monótono das ondas, que, através da boca voltada para o oceano, vêm espraiar-se quase até ao pé do altar. Sentimos então um bem-estar indefinível, acodem-nos ao espírito lembranças acariciadoras da vida passada. É a natureza na manifestação pacífica da sua força, como a incutir-nos pensamentos de paz e amor. Estamos bem longe, então, dos desenganos da vida, embalados pela música das ondas, que maestro algum ainda soube fixar em página genial.” Neste divagar, há ainda espaço para uma nota de cunho científico, ao dar ao leitor “uma ligeira ideia do que são e como se formam essas singulares incrustações calcárias” que são as estalactites e as estalagmites presentes na gruta, umas e outras “produzindo efeitos tão surpreendentes como característicos”.

O final do texto de Sousa Gonçalves para este roteiro de 1903 enuncia os objectivos da apresentação: “despertar o gosto pelas excursões na famosa serra”. Referindo que os muito populares guias Baedeker (existentes desde final da década de 1820) não devem ser “servilmente” seguidos por quem os consulte e goste de “percorrer caminhos novos”, conclui com dois desafios: o primeiro, exigindo a colaboração do leitor excursionista ao dar-lhe “a liberdade de seguir o itinerário que bem lhe aprouver” e incumbindo-o de preencher “as lacunas do presente artigo”; o segundo, apelando ao equilíbrio que o ser humano deve fomentar na sua relação com a Natureza, num repto que, no essencial, faz ainda sentido no tempo em que vivemos, tanto mais surpreendente quanto tem já mais de 120 anos de idade: “Por último, seja-nos permitido desejar que, se alguma vez o progresso invadir a serra da Arrábida, venha pela mão da verdadeira e pura arte. Respeitem-se as ruínas do passado como documentos de sinceridade e respeitem-se não lhes levantando a par, por exemplo, esses horrendos ‘chalets’ de cartão com que qualquer burguês da Baixa se presenteia para gozar os ócios e para digerir a farta pitança. Mandem-nos, a uns e a outros, para os famosos Estoris, que aí é o seu lugar. A serra da Arrábida é uma flor agreste de rara beleza. Se lhe mexem muito, estragam-na.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1685, 2026-01-28, pg. 10.