quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (5)

 


Quando Serra-Mãe saiu, Sebastião da Gama empenhou-se na sua divulgação, quer nas ofertas aos amigos e aos mais próximos, quer no envio para quem pudesse ser o seu leitor crítico. Uma das primeiras dedicatórias (talvez a primeira) terá sido para Joana Luísa da Gama, quando, tendo como data o Natal de 1945, o poeta autografou: “Para Ti, Amor, porque sabes ler os meus versos com uma voz que já se não distingue da minha.” Outras dedicatórias autógrafas existem, mas não datadas, ainda que se pense que serão do tempo entre a saída do livro e o ano seguinte — Mário Beirão (1890-1965) recebeu exemplar dedicado com traços da serra (“Para Mário Beirão, alma inquieta provida de clarões, a quem, na Arrábida, desceu a sombra de Agostinho a dar as boas-vindas”); no exemplar que seguiu para Miguel Torga (1907-1995), era manifestada a admiração pela obra já publicada do escritor e médico (“Ao Poeta admirável das Odes e de tudo o mais que me faz ser seu”); Luís Amaro (1923-2018), o amigo que conhecera no espaço da editora, teve o valor da amizade a iluminar a dedicatória (“Para o Luís Amaro: Nada mais me trouxera a Serra-Mãe do que a tua amizade e já tinha valido a pena”).

No mesmo dia 18 de Dezembro de 1945 (data em que o livro apareceu na montra da livraria, em Lisboa), Sebastião da Gama fez seguir um exemplar para José Régio (1901-1969), mas não terá havido resposta imediata, pelo que, em 7 de Fevereiro de 1946, o poeta azeitonense escrevia de novo para Portalegre: “É tão grande o interesse em que leia os meus versos e me diga, sem receio de melindrar-me se lhe não agradarem, o que pensa deles que me atrevi a vir pedir-lhe isso mesmo, contando com a sua benevolência.” Três meses depois, em 25 de Maio, era Teixeira de Pascoaes (1877-1952) o destinatário de uma carta em que o jovem poeta se apresentava: “Deixe-me dizer-lhe quem sou, para me perdoar um pouco a sem-cerimónia que tomei: sou um rapazola de vinte e dois anos que aprendeu a ser Poeta na Serra da Arrábida. Ali fui medrando entre moitas de alecrim e rochas penduradas sobre o Mar – e no Dezembro passado dei ao público o meu primeiro livro – Serra-Mãe. (...) Agora gostaria que lesse os meus versos com um bocadinho de carinho. E, se eles o merecessem, que me mandasse algumas palavras, que hão-de ser sinceras como as árvores, sobre o que sente da Serra-Mãe.”

Em data que não se consegue precisar, Régio respondeu, em jeito de explicação e de apreciação: “Devo dizer que terá tido influência em tal demora a perplexidade que me tolhe ao ter de pronunciar qualquer juízo sobre uma obra como a sua. Claro que esse juízo pode enganar-se ou errar — mas nunca deixar de ser sincero. Perante o meu Amigo, perante as gentilezas que me tem dirigido, e sobretudo pela influência que sinto das minhas coisas literárias no seu livro, a minha situação é ainda mais delicada. Creio que o seu livro é uma obra de hesitação e promessa, na qual o talento literário se torna incontestavelmente visível, como visíveis se tornam as influências várias. (…) É um livro que já promete muito e nos deixa à espera.” De Coimbra, Miguel Torga responderia, em 18 de Maio de 1946: “Nem posso medir o feito nem adivinhar o que está por fazer, louvo o que entendo e espero o porvir de boa-fé. Ora é isso o que me acontece agora com o seu livro. Não gosto de muita coisa que lá vem, e tenho dificuldade em vislumbrar os seus caminhos futuros. Mas estou em presença de um Poeta que escreveu: ‘Pequeno Poema’, ‘Nós’, etc. Resta-me, pois, festejar o que me parece conseguido, que é muito, e dar tempo ao tempo.”

De Amarante, Pascoaes não terá enviado resposta, mesmo apesar de nova insistência saída do Portinho da Arrábida em 6 de Agosto de 1946 — “Há talvez três meses mandei-lhe uma carta e o meu livro Serra-Mãe; sei que não é o senhor desses poetas que se calafetam dentro das suas torres de louros e não abrem a mínima frincha para falarem por ela a um camarada mais novo: por isso mesmo, lhe mandei o livro; e por isso mesmo tenho estranhado o seu silêncio. (...) Gostaria de saber qual o eco, se o tiveram, que os meus versos tiveram nuns e noutros.” Mesmo com esta persistência, parece não ter havido reacção de Pascoaes, uma opinião tanto mais importante para Sebastião da Gama quanto o poeta do Marão tinha já escrito sobre a Arrábida e sobre Frei Agostinho da Cruz. Aquando da sua viagem ao Norte, em meados de Setembro de 1951, acompanhado por Joana Luísa (sua esposa desde Maio desse ano), Sebastião da Gama marcou encontro com Pascoaes, relatado em crónica que publicou no Jornal do Barreiro, em 11 de Outubro de 1951 — da leitura de tal texto se conclui, como apontou António Mateus Vilhena (em ensaio sobre a correspondência de Gama para Pascoaes publicado em 2019), que “um dos assuntos que polarizou o diálogo (...) foi seguramente a Arrábida”. E, de toda a conversa, uma frase de Pascoaes impressionou o visitante: “A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.” Não contendo estas afirmações uma apreciação ao livro inaugural do jovem, reforçam, pelo menos, o sentido de oportunidade da obra Serra-Mãe como um momento importante para o canto e para o louvor da Arrábida, pelo que terá sido, talvez, a melhor apreciação que Pascoaes poderia ter feito à obra...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1670, 2026-01-07, pg. 9.