quinta-feira, 2 de julho de 2015

Sobre "Os últimos marinheiros", de Filipa Melo



Magnífica reportagem, é o mínimo que se pode dizer do livro Os últimos marinheiros, de Filipa Melo (Col. “Retratos da Fundação”. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015), uma reportagem que mistura o retrato, a informação, o sentimento, as vozes, a opinião, em que não se apagam os afectos de quem narra. Lê-se o título e percorre-nos uma sensação de fim de ciclo ou de final de história, não porque um ou outra se cumpram, antes porque os tempos são o que são, antes porque a relação de Portugal com o mar, sendo geográfica, tradicional e histórica, é também paradoxal. É assim que sucede com Os últimos marinheiros, título a cheirar a nostalgia, a barcos no cais, a contemplação do mar e das vidas.
O contado resulta de duas viagens a bordo: uma, em 2009, no “Port Douro”, navio de carga da Portline Bulk International, em circuito entre Lisboa, Leixões, Caniçal e volta; outra, em 2015, no “Neptuno”, navio de pesca de arrasto, ao largo da Figueira da Foz. Ao longo das duas viagens, Filipa Melo conta as especificidades de cada um dos navios, esclarece muito do vocabulário náutico, ouve as personagens reais com quem viajou, conta-lhes e deixa que elas contem as suas histórias, dá nota das dificuldades e da camaradagem na companha, enquanto o leitor vai entrando nesse universo, quase integrando a tripulação ou, pelo menos, com ela confraternizando também.
São retratos de descrição do estado das coisas ou que favorecem uma leitura quanto a esse estado das coisas, essa (suposta, talvez obrigatória, talvez frágil) ligação de Portugal com o mar. Logo no início do livro, uma verdade que nos flagela os sonhos: “Em Portugal, os homens do mar estão em vias de extinção, ou quase”. E, dois parágrafos adiante, a crueza: “Inclinados perante a Europa, virámos as costas ao mar. País de marinheiros? A actualidade do nosso imaginário mítico marítimo dissolve-se no desprezo colectivo pelo mar. Estendidos nas praias, vemos passar navios, ao longe, cada vez mais ao longe. O mar não existe nem sequer como conceito do poder da nação.” Fortes estas imagens! Logo associo ao nome de um restaurante lisboeta que, perante a vista que se esparrama sobre o Tejo, não foi baptizado de forma estranha: “A ver navios”. Afinal, a poesia da saudade e dos longes que uma frase contém também pode esconder a face do desprezo… Quarenta páginas andadas, depois de relatos e de vivências, a mesma conclusão: “O declínio do nosso sector das pescas acompanha a tendência da maioria dos países com tradições piscatórias. Mas a falta de interesse dos portugueses pelo mar como activo nacional importante diz mais da difícil gestão dos nossos imaginário simbólico-poético e herança histórica e da ainda mais difícil distribuição de estatuto social. Se a nação fosse de marinheiros, com certeza a mais-valia das pescas ficaria no sector. Não é de todo o que acontece por cá.” Que dura conclusão para António Nobre, que, hoje, não poderia convidar Georges a vir visitar o seu “país de marinheiros”!
Ao longo de setenta páginas, vamos convivendo com portugueses “cuja principal fonte de sustento ainda é a navegação no mar”, homens e mulheres que “estão acostumados ao horizonte que se eleva, permanece em cima por segundo e volta a mergulhar. Uma vez, outra, outra, outra. Alguns, mesmo nos momentos mais difíceis, mantêm a placidez da gaivota, pousada sobre a imensidão da água como se de um banco de jardim se tratasse.”
Pelas histórias reais que Filipa Melo vai registando vai passeando também a literatura, com incursões de Conrad, de Pierre Loti, de Fernão Mendes Pinto, de Hemingway, de Camões, de Antero de Quental, de Sérgio Godinho, de Raul Brandão, de Baudelaire, de António Vieira, de Álvaro de Campos, de Yukio Mishima, de Ternazi, de Jorge Amado e de Júlio Verne, havendo ainda lugar para o romanceiro chegado através da “Nau Catrineta”, segmentos de obras de ficção, de poesia ou de relatos, que sustentam a grandeza do que é a relação do homem com o mar (com pena de que não tenha sido trazido também o nome de Bernardo Santareno a partir das suas crónicas de Nos mares do fim do mundo). Nessas histórias reais, os entrevistados falam do que sabem – da família, do mar, dos seus sonhos e de como chegaram ao mar, das aventuras e perigos passados, das suas leituras, das epopeias de que eles são heróis. E dão-se-nos, entre muitas, as experiências de Cristina Alves, a mulher que tem histórias bem dispostas para se inserir numa comunidade que era apenas masculina, ou a do sesimbrense António Rocha, cozinheiro de bordo, com uma história de vida que dava um livro…
Viajando num navio de carga ou num navio de pesca de arrasto, Filipa Melo é sobretudo sensível à experiência humana perante os oceanos – “O denominador comum das histórias e casos de vida que reproduzo ao longo deste livro é a necessidade de ajuste, mais ou menos voluntário, mais ou menos violento, do homem ao ritmo do mar.” E, mesmo depois de realizadas as viagens, a vida das personagens foi seguida, havendo a preocupação de localizar no presente mesmo aqueles com quem viajou em 2009.
Neptuno, o deus romano dos mares que dá nome ao navio da experiência de 2015, terá recebido bem este retrato em que o mar se destaca não só pela matemática da lonjura e do infinito, mas também por ser respeitado, pois, como confidencia Telma Cunha (que era oficial-imediato em 2009 e agora é capitã e também tem o hábito de frequentar o festival poveiro “Correntes d’Escrita”) sobre o mar: “Pode estar num momento muito calmo e, logo a seguir, ficar todo trapalhão. Dentro do navio, sente-se sempre, a toda a hora, a imensidão dele à nossa volta. É esmagador, não nos podemos fiar.”

Sublinhados
Mar – “O mar tanto oferece, tanto ruge, segundo leis desconhecidas. Despreza mitificações e romantismos, faz pagar caro os despiques, exige submissão absoluta. Se ele é a religião da Natureza, a poucos homens é concedida a verdadeira graça do culto.”
Descobrir – “Só se descobre aquilo que já existe.”
Olhar – “Cada um olha para o mar da maneira como olha para dentro de si mesmo.”

2 comentários:

Helena Pedroso disse...

Também gostei muito deste livro. Outros sublinhados - "Aqui, o trabalho parece sempre igual, mas não é. Somos testados todos os dias. O poss´velestá feito, o impossível vai-se fazer. Milagres? Demora mais um bocadinho... mas também fazemos", afiança Victor Ângelo Borges, primeiro de máquinas. páginas 59/60.
"Estamos sempre à espera de descobrir alguma coisa do lado de lá do que é evidente. É uma mística vinda de tempos antigos, provávelmente desde o primeiro momento em que o homem se confrontou com o espectáculo do céu e do mar, juntos na mesma linha. O mar ensina os marítimos a estarem sós e a pensarem por si mesmos. É uma escola de vida. Dá-lhes, ao mesmo tempo uma sensação de liberdade e uma sensação de prisão." Comandante Luís Chula Viana, página 62.

sesimbra disse...

Sesimbra, 5 de Novembro de 2015
Boa tarde, FILIPA MELO.
Fiquei curioso com a reportagem num dos canais, pois não me passava pela cabeça que houvessem na marinha mercante, oficiais do sexo feminino, o que eu aprovo e estou de acordo. Também sei que a vida no mar não é fácil, apesar de saber pelos relatos que me são divulgados, só pessoas de fibra é que abraçam este tipo de profissão.
Certamente irei adquirir a obra em questão, pois tenho grande interesse pois toda a minha vida foi em contacto direto foi sempre como mar, e atualmente mais do nunca, por razões da minha vida pessoal. Como já deve ter reparado resido atualmente na vila de SESIMBRA, sobejamente conhecida não só pela qualidade da sua beleza, mas também pela qualidade quase única do peixe que aqui é pescado. No entanto e por ter nascido na vila da TRAFARIA, estive sempre ligado à arte da pesca, embora nunca tenha feito desta profissão, nunca tenha deixado de estar em contacto permanente com esta atividade. Mas este comentário poderá, como tantos outros, deverão incluir histórias, com algum fundo de verdade, pois são episódios antigos, e este foi contato pelo meu pai, numa altura em que foi visitar um tio de nome PAULO CANUTO, comandante de um cargueiro inglês, que em determinada altura, provavelmente nos anos de 1937/1939,o navio de carga, transportava carvão da Inglaterra para a Austrália, de que este meu tio avô comandava, aproou em Lisboa, e o meu pai foi visitar, esse familiar, e reparou que estava um gabardine suja de tinta de escrever.
Ao interpolar esse tio do meu pai, este, fez-lhe a seguinte pergunta: Oh tio, como é que isto aconteceu, ter a gabardine suja de tinta de escrever? Ao que lhe foi respondido que numa das travessias entre, Inglaterra e a Austrália, já no Atlântico, uma onda de grandes dimensões, que provocou um balanço do navio de tal forma que fez com o tinteiro da tinta de escrever fosse projetado de encontro à gabardine que estava pendurado, num bengaleiro, e acrescentou que se as escotilhas dos porões não estivessem tão bem firmes que o navio poderia ter-se afundado. Bom, isto são narrações de situações de homens, em cuja profissão, tanto como comandantes como marinheiros, passam ao longo da vida que abraçaram e que merecem o nosso respeito e admiração.
Pois é, isto que foi aqui narrado, é mais um daqueles episódios, passados em alto mar, que a juntar a tantos outros, dariam um livro sem fim à vista.
Espero que esta minha alocução e as minha palavras, possam enriquecer, de alguma forma tantos outros episódios que possam contar histórias verdadeiras, que possam a despertar do público em geral, porque quando vemos um navio entrar num porto seguro ,não nos passa pela cabeça as dificuldades que aqueles homens que o trouxeram, até essa porto, em segurança.
Penso que foi um narração aceitável, de tudo aquilo que se me ofereceu dizer, apresento desde já os meus cumprimentos. JOÃO CANUTO.