sábado, 7 de novembro de 2026

Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória

 


De significar “vela grande de cera, usada em igrejas, procissões, funerais”, a palavra “círio” passou também a designar a “procissão ou festa religiosa com romaria que se dirige de um lugar para outro, levando uma ou mais dessas velas”, conforme indica o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa (2001). Enquanto manifestações de carácter religioso, os círios têm estado muito ligados à serra da Arrábida, particularmente a espaços como o Convento da Arrábida, a Capela d’El Carmen, a Lapa de Santa Margarida ou o Santuário do Cabo Espichel.

Dando continuidade ao trabalho iniciado em 2023, ano em que publicou estudo sobre o Círio de Nossa Senhora da Tróia, José António Carvalho editou agora a obra Círios da Serra da Arrábida, em que, além das três “narrativas fotográficas” e de textos de contextualização de sua autoria sobre o Círio de Azeitão, o Novo Círio de Setúbal (ambos ao Convento da Arrábida) e o Círio das Pedreiras (à Capela d’El Carmen), apresenta também estudos de âmbito histórico e social assinados por Joaquina Soares, Ruy Ventura, Rodrigo Manuel Ribeiro e Rui Manuel Mesquita Mendes, recorrendo ainda à ilustração de Helena Mancelos.

Logo no texto de abertura, José António Carvalho, recorrendo a bibliografia específica de Heitor Baptista Pato, menciona as cinco características destas romarias estremenhas: “o epicentro do culto situa-se nas freguesias, tanto quanto no santuário; as freguesias combinam por vezes uma ordem de giro entre si; celebram-se em datas próprias; representam um voto comunitário, não individual; são organizadas pelo povo, à margem do clero”. Estas marcas, sobretudo a da organização, ajudam a perceber a vivência popular, com sentido religioso, manifestada pelas populações, vincada nos tempos, no compromisso e na adesão local, como explicam as interrupções feitas na história de alguns círios e até a existência de dois círios em simultâneo (como aconteceu na história dos Círios de Setúbal, em que o Antigo, criado em 1839, foi interrompido entre 1884 e 1891, tendo surgido o Novo em 1892, ano em que o Velho Círio também reanimou, tendo funcionado os dois em simultâneo até 1929, sendo oportuna a citação do estudo de Artur Alberto Pereira a dar conta da razão social de tal coexistência — “Enquanto o Antigo Círio terminava e recomeçava por vontade de uma elite, o Novo Círio, radicado no Bairro de Troino, fazia-se e faz-se pela espontaneidade popular.”)

No capítulo “Arrábida, uma montanha mágica”, Joaquina Soares contextualiza as características biofísicas da cadeia montanhosa, associadas às modalidades de ocupação, conferindo à Arrábida o papel de “coluna vertebral da Península de Setúbal”. Depois de mencionar as formações geológicas, a riqueza da vegetação e da fauna, a autora chama a atenção para a ligação entre a espiritualidade e a Natureza, recuando até à explicação da origem provável do nome (“al-Rabita”), relacionado com um espaço de “retiro para oração e preparação de monges guerreiros”, passando pelo Oráculo da Arrábida (possível origem do culto a Nossa Senhora da Arrábida), constante na relação de construções religiosas enviada por D. Dinis ao Papa, e mostrando a persistência das marcas religiosas na cadeia arrábida desde o Cabo Espichel, o que realça “a evidente sacralização deste território, especialmente a partir das antigas sociedades camponesas”.

Ruy Ventura, no capítulo intitulado “O Mosteiro de Santa Maria da Arrábida”, recua aos primeiros tempos do século XIII, até ao Oráculo da Arrábida, passa pelo efeito da Ordem de Santiago ao criar a Comenda de Santa Maria da Arrábida, chegando à construção do eremitério por Frei Martinho de Santa Maria e por S. Pedro de Alcântara, no século XVI, e relatando ainda as inovações que foram sendo criadas no espaço pelos proprietários e protectores. Aspecto importante desta abordagem é o de indicar nomes dos autores das obras escultóricas e de mencionar a sua importância, permitindo-se chamar a atenção para o estado actual da imagem do Senhor dos Aflitos, numa das capelas do Convento Velho, de autoria desconhecida (mas, por certo, de “um dos melhores escultores portugueses” da época) — “Infelizmente, esta obra de arte, uma das mais fortes de todo o Convento, foi completamente vandalizada por um repinte sem ética, que é urgente remover, para lhe devolver a dignidade perdida.” O texto relembra a antiguidade dos Círios, talvez desde a Idade Média, percurso sujeito a reforma ou retoma no século XIX, e conclui com as observações de três poetas ligados à espiritualidade arrábida — Frei Paulino da Estrela, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama —, considerando Ruy Ventura sobre essa mesma dimensão: “Quem sobe à Arrábida e fita o seu entorno com olhos de ver tem, de facto, a sensação forte de entender melhor o mundo, com outra clarividência, despojando-se do que nenhuma falta lhe faz. A natureza envolvente e o carácter artístico do seu edificado e do seu recheio, belo sem deixar a pobreza franciscana, falam-nos de uma essência que é preciso encarar e fazer nossa.”

 

Na obra Círios da Serra da Arrábida, além das três “narrativas fotográficas” dos círios de Azeitão, de Setúbal e das Pedreiras que têm a assinatura de José António Carvalho, há mais seis textos que lhe são devidos (o primeiro deles já referido anteriormente), que têm o objectivo de aprofundar o historial em torno dos círios, bem como narrar as suas realizações.

Assim, a abordagem que José António Carvalho faz recua até às lendas que lhes estão associadas, narrativas de origens desconhecidas mas que pretendem ser explicação para designações ou para vivências de determinados momentos históricos, como podemos verificar pelas transcrições das lendas da Senhora da Arrábida (em torno da história de Haildebrant) ou da Senhora da Pinha (associada à capela El Carmen). Quanto à primeira, a transcrição feita é originária da obra Santuário Mariano (tomo II, 1707), do estremocense Frei Agostinho de Santa Maria (1642-1728), sendo Haildebrant um frade agostinho (há versões em que esta figura seria um comerciante) que, na primeira metade do século XIII, integrando um grupo de viajantes que acompanhava um mercador, se viu salvo de forte tormenta ao largo da Arrábida, tendo desejado ali ficar como homenagem à imagem da Senhora que os protegeu e tendo ali construído uma ermida. Relativamente à segunda, a versão apresentada é também a relatada na mesma obra de Frei Agostinho de Santa Maria (tomo VII, 1721), referindo-se ao milagre operado por Nossa Senhora através da queda de uma pinha que impediu um homem de assassinar a esposa, de cuja seriedade duvidava, acrescentando o autor ter ouvido contada versão mais simples desta lenda, cujos protagonistas seriam um pastor e a sua esposa (foi também publicada versão desta lenda no jornal O Sesimbrense, nas edições de 16 e de 23 de Janeiro de 1944, em narração de J. Preto Guerra).

Ao relatar a festa do Círio de Azeitão ao Convento da Arrábida, José António Carvalho recorre a narrações a partir dos jornais O Azeitonense (1920) e Diário de Notícias (1906), bem como a testemunhos de Carlos Alberto Ferreira Júnior (1906-1997) e de Jaime Pinho. Documentalmente, este Círio teve início em Maio de 1845, mas a sua história teve alguns percalços, como a mudança de datas de realização ou o facto de, no século passado, ter havido a sua suspensão por mais de três décadas ou ainda o desencontro entre as partes religiosas celebradas na Arrábida e em Azeitão. A festa é descrita desde a partida de Azeitão até às celebrações no Convento da Arrábida, com transcrição das loas, texto que se repete de há anos, devidas ao poeta popular Miguel Caleiro (1876-1935) e a Maria Cândida Parreira (1877-1942).

Quanto ao Círio de Setúbal, também do seu historial não estiveram ausentes questões sensíveis — o Antigo Círio, fundado em 1839, interrompeu a actividade em 1884, intervalo que se manteve até 1891; em 1892, foi fundado o Novo Círio, ano em que também ressurgiu o Antigo Círio, tendo, até final da década de 1920, existido os dois Círios em simultâneo — episódio lembrado pelas décimas do poeta popular António Maria Eusébio, o “Calafate” (1819-1911) —, fenómeno que poderá ter a sua explicação em factores sociais. Relembra o autor que o acesso era feito por mar, a partir de Setúbal, até ao Portinho da Arrábida, costume que foi interrompido a partir de 1974 (com transporte de autocarro), mas retomado em 2015.

Para contar a história do Círio das Pedreiras à Capela de El Carmen, José António Carvalho lembra as descrições das festas realizadas nesta capela desde os relatos constantes nas Memórias Paroquiais de 1758, passando por notícias de O Azeitonense (1920) e por testemunhos mais recentes, podendo o leitor assistir à relação desta festa com a Casa de Palmela (na Quinta do Calhariz), ao papel desempenhado pelo Juiz da festa (a primeira vez em que a realização teve uma Juíza, Ana Fernandes, foi em 2020), à maneira como funcionavam as promessas (com bandeiras e quadros), ao significado das medalhas de acordo com os donativos, ao papel dos gaiteiros de Sesimbra.

 

A diversidade de abordagens dos círios da Arrábida nesta obra fica completa com os textos de Rodrigo Manuel Ribeiro e de Rui Manuel Mesquita Mendes, o primeiro incidindo sobre as “Contradanças no Círio da Arrábida” e o segundo sobre a Capela de Nossa Senhora do Carmo (El Carmen).

Relativamente à participação musical, Rodrigo Ribeiro considera que “o Círio da Arrábida foi, desde sempre, acompanhado por músicos e que, após a fundação da Perpétua, estes passaram a integrar esta celebração”, com contradanças “compostas especificamente para o Círio”, pelo menos “duas novas em cada ano”, “tocadas nas aldeias por onde o Círio passava”. Desde a mais antiga contradança constante nos arquivos da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, datada de 1912, de autor desconhecido,  Rodrigo Ribeiro menciona vários nomes que ficaram ligados àquela associação e ao Círio pelo seu contributo musical, como Silva Paranhos, Santos Tavares, Alfredo Caineta, Agostinho Caineta, Joaquim Caineta, Diamantino Perdigão, Pedro Marquês de Sousa, Duarte Zacarias e António Alface. Na bibliografia indicada neste capítulo, valerá a pena considerar, além da mencionada, a tese de doutoramento de Pedro Marquês de Sousa (disponível no repositório da UNL), datada de 2013, As Bandas de Música no Distrito de Lisboa entre a Regeneração e a República: 1850-1910, que contém referências à importância do contributo musical para os círios (registe-se que o concelho de Setúbal pertenceu ao distrito de Lisboa até 1926, ano em que foi criado o distrito de Setúbal).

O contributo de Rui Mesquita Mendes para a obra Círios da Serra da Arrábida assenta no historial documentado da Capela de El Carmen desde o século XVI, edificação que teve ajudas à conservação e à reconstrução oriundas da “devoção popular”, da “protecção senhorial” e do “apoio da Coroa”. Desde um dos possíveis fundadores, Álvaro de Mascarenhas (comendador da Arrábida no período de 1489 a 1502), até à aquisição do terreno com a ermida, em Janeiro de 1840, em hasta pública, por D. Pedro de Sousa Holstein (da Casa de Palmela, que garantiu a conservação da estrutura e permitiu a continuidade das celebrações tradicionais), o leitor segue o historial do santuário, que se tornou, “simultaneamente, centro de peregrinação e apoio às estadias senhoriais na serra, harmoniosamente integrado numa das paisagens mais marcantes da Arrábida”. Destaca o autor que “poucas ermidas portuguesas dispõem de um percurso documental que permita acompanhar, quase sem interrupções, a sua evolução entre o final da Idade Média e o século XIX, como a Ermida de Nossa Senhora de El Carmen” (frequência visível, inclusivamente, nas referências bibliográficas apresentadas), circunstância que Mesquita Mendes atribui a vários factores: a “implantação da Ordem de Santiago na Arrábida”, a “acção dos comendadores e dos Duques de Aveiro”, a “intervenção régia da Casa do Infantado”, a “organização das confrarias”, a “religiosidade popular” e a “própria evolução da paisagem histórica da serra”.

Círios da Serra da Arrábida, que se apresenta em edição bilingue (português e inglês), coordenado e editado por José António de Carvalho, é um título que se revela indispensável para o conhecimento destas manifestações de religiosidade popular que ocorrem na região de Setúbal, um trabalho cuidado, assente numa abordagem de diversos ângulos, garantida por uma dezena de textos (assinados por cinco autores, com mais de meia centena de referências bibliográficas, além das constantes nas notas de rodapé), por três “narrativas fotográficas” (reportagens de pormenor sobre a vivência dos círios, ao longo de cerca de 190 fotografias, produzidas entre 2011 e 2025) e por algumas ilustrações devidas a Helena de Mancelos (a que não escapa o ambiente religioso).

A vivência dos círios, designadamente os da Arrábida, foi desde sempre um momento alto para os participantes e para os visitantes e esta obra demonstra a razão que assistia a João-Fernandes, quando, em 1896, quis lembrar em “duas palavras” o historial e o propósito destas manifestações, no livro Arrábida - Publicação Comemorativa da Festividade Celebrada pelo Antigo Círio de Setúbal: “os círios e as romarias, se não são a mais genuína expressão do espírito religioso, na sua acepção elevada, não excluem o sentimento da crença na sua intenção sincera e aliam na forma festival e expansiva os preitos do culto à diversão inofensiva, na sua feição poética, tradicionalmente querida do nosso povo.”

 

João Reis Ribeiro. “500 Palavras”. O Setubalense:

n.º 1854 (2026-10-21, pg. 10), 1859 (2026-10-28, pg. 2) e 1864 (2026-11-04, pg. 10).

domingo, 25 de outubro de 2026

Ana Cristina Silva: verdades de Caxias feitas literatura

 


“Enquanto caminhava, Laura pensava em si como uma personagem de um livro, cujas falas deveriam permanecer em branco.” Está o leitor a acompanhar a personagem principal do romance As Longas Noites de Caxias, de Ana Cristina Silva (Planeta, 2019), logo no capítulo inicial, “Caxias, Maio de 1973”, no dia em que é levada para o Reduto Sul da prisão de Caxias para ser interrogada sobre a sua acção política, tempo em que vai conhecer outra mulher, Leninha, agente da PIDE, que a vai marcar pela brutalidade do trato. Este pensamento atribuído a Laura justifica que se converta em literatura a história do que foi a perseguição política, resultado de pesquisa e de recolha de testemunhos sobre o tratamento dado aos presos em Caxias.

Esta obra (que teve adaptação dramática em 2022 pelo Teatro do Noroeste, de Viana do Castelo, com texto de Ricardo Simões) traz-nos uma história absolutamente perturbante na luta entre as ideias e a repressão, mostrando que devem ser a liberdade e a consciência a singrar nos caminhos da vida.

O romance, dedicado “a todos os resistentes anti-fascistas”, constrói-se sobre 23 capítulos, constando em todos os títulos dois tipos de referências — um local e uma data. A acção vai sendo contada com recuos no tempo, que vão intervalando entre presente e passado a partir do momento em que as duas personagens, Laura e Leninha, se encontraram, em Maio de 1973, na prisão de Caxias.

A primeira história de personagem que vamos acompanhando é a de Laura, desde meados dos anos 50, com início em Mértola, criança “que gostava de dar voz às suas dúvidas” e que, na década seguinte, estará a estudar em Beja, passos de um percurso que a levará a Lisboa no início dos anos 70 para estudar Direito, apaixonando-se pelo estudante José António e assumindo um compromisso político de contestação. A morte deste estudante, em Outubro de 1972, provocada por tiros de um agente da PIDE durante uma reunião de estudantes no Instituto de Ciências Económicas e Financeiras, levará Laura a denunciar ter havido um assassinato, acusação que vai motivar a sua prisão.

A segunda história de personagem diz respeito a Leninha, de seu nome próprio Maria Helena, que recua até aos anos 40, em Setúbal, terra onde nasceu e onde, desde cedo, no dia em que foi com o pai até à Avenida Luísa Todi ver o desfile de recepção a Salazar, sentiu o destino traçado graças a um pequeno acontecimento: “Maria Helena e o pai pararam à frente de uma fila de gente no preciso momento em que o carro de Salazar estacionou. A rapariga sentiu o coração na garganta ao ver aquele homem já idoso dirigir-se a ela. Ele perguntou-lhe o nome, sussurrando-lhe ao ouvido. Como se a sua voz pudesse estilhaçá-la, Maria Helena respondeu num murmúrio. A seguir, quando Salazar lhe beijou a testa e a multidão aplaudiu, soube que aquele era um momento único e que o iria recordar para toda a vida.” O percurso de Leninha seguirá até Lisboa, onde trabalhou na década de 60 como administrativa na Rua António Maria Cardoso e, depois, como agente da PIDE em Caxias, passando a viver em Oeiras.

A última vez em que Laura e Helena se encontram é no Tribunal Militar, em 1977. No fim do julgamento, “passou-lhe pela cabeça a ideia fugaz de lhe dar um murro no estômago, mas quando se cruzou com Leninha esboçou um sorriso ambíguo e fez-lhe um manguito com os dedos, um gesto de silenciosa vingança” e “uma súbita serenidade nasceu daquela bofetada sem mão”. No derradeiro encontro que tem com a amiga Maria José, em 2003, Helena recorda as prisioneiras que castigou, lembrando-se “do prazer sentido ao espancar aquelas mulheres”, e, quando a amiga lhe pergunta se tem remorsos, a resposta é contundente: “Não, nunca me arrependi de nada. Os tempos na PIDE foram os mais felizes da minha vida.”

Algumas personagens que agem neste romance carregam marcas históricas na medida em que as conseguimos reconhecer a partir de acontecimentos no país, como no caso de José António Ribeiro dos Santos (1946-1972), o namorado morto, ou de Leninha, que, mesmo aparecendo com o nome próprio de Helena, se refere à agente da polícia política, a setubalense Maria Madalena Oliveira (1934-2003), ou ainda dos inspectores Óscar Cardoso, Silva Carvalho e Adelino Tinoco, que também integram a história narrada. A autora regista, aliás, numa nota inicial: “esta obra baseia-se em factos verídicos”, sabendo-se, contudo, que alguns “nomes e situações foram ficcionadas”.

As Longas Noites de Caxias, de Ana Cristina Silva, é um romance em que predomina o ambiente psicológico, com uma caracterização de personagens intensa, numa luta contra o medo ou a favor da imposição do medo, não pretendendo nenhuma das personagens convencer a outra, antes mantendo cada uma delas o seu pensar e as suas marcas pessoais até ao fim da narração, em 2003. O ambiente de terror, provocado pela perseguição da polícia política e pelos informadores anónimos, surge caracterizado logo no capítulo inicial: “O medo era pior do que o mar; era um sentimento que se insinuava nas meias palavras, mas também nas pausas entre as palavras.”

Apesar dessa pressão exercida pelo pavor e pelas barbaridades que Helena executou para a fazer falar, Laura é a personagem que vence a agente pelo silêncio quanto ao comprometimento dos outros — “Maria Helena havia sempre de conservar na memória aquela rapariga franzina chamada Laura Branco. Essa presa resistira dezoito dias sem dormir. Nunca dissera nada de comprometedor, pelo contrário, desafiara todos os dias os agentes com as suas provocações. (...) Representara um desafio, tendo suplantado todas as outras detidas.” Uma agente policial derrotada perante a consciência e a convicção da importância de se ser livre...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1849, 2026-10-14, pg. 2.


domingo, 18 de outubro de 2026

João de Melo: escavar a vida com palavras

 


“O diário? Trata-se de um exercício exigente, nada avulso. Precaver-nos continuamente contra a repetição, a rotina, o banal associado à ideia de quotidiano. O meu perde-se na origem da própria fugacidade, mais até do que na fuga para diante — contra o queixume, o lirismo sentimental, o deserto das ideias. Fosse eu filósofo, teria matéria de sobra para outra linguagem. Não o sendo, limito-me a escavar a terra das palavras e das ideias (com as mãos), na busca de uma razão para o que me afronta e me rodeia, perto e longe. É entre as ideias de proximidade e distância que procuro a luz da escrita do meu diário.” O registo é de 20 de Junho de 2024 e consta na obra diarística Novas Fases da Lua (Dom Quixote, 2025), de João de Melo (n. 1949), nome habitualmente associado ao romance e ao conto.

Abrangendo os anos de 2017 a 2024, embora nenhum registo conste de 2020 e de 2022, o título é explicado em nota prévia: a escrita de diário, iniciou-a o autor em 1993, embora sujeita a interrupções, estando o período entre esse ano e 2007 em volume ainda inédito sob o título de Fases da Lua. O propósito desta publicação foi o de assinalar o cinquentenário sobre o aparecimento do primeiro livro do autor, Histórias da Resistência, em 1975 (Prelo Editora).

Pretende-se então com este diário o trabalho da escrita em torno do que rodeia e constitui a vida, deixando marcas, fazendo pensar o mundo, num trabalho de descoberta, de definição e de tomada de posição.

Ao longo destes seis anos de recolha de momentos de reflexão sobre os dias, o tema da escrita como universo pessoal vai surgindo, ora em jeito de balanço ou de reparação, ora com a preocupação do sentido que a escrita dá à vida (motivação de alguns textos; hipóteses de temas e circunstâncias para outras obras; descoberta da escrita infanto-juvenil; sensação resultante das leituras, comentários ou adaptações da própria obra a partir dos outros; momentos de hesitação e eventuais soluções para narrativas iniciadas; angústia perante o ter podido “ir mais além e mais acima” na própria escrita). A leitura, forma de completar um livro, está também presente em muitas páginas, seja pelas notas de leitura de algumas obras específicas (títulos de João Pinto Coelho, Tolstoi, Mário Cláudio, Dimas Simas Lopes, Sérgio Mendes, Fernando Aramburu, Rui Couceiro, Gonçalo M. Tavares ou J. H. Santos Barros, por exemplo), seja por referências a autores, estas resultantes de coincidências na vida ou de cruzamentos com a análise e reflexão sobre os dias (com entradas para nomes como Vitorino Nemésio, José Correia Tavares, Raul Brandão, Urbano Tavares Rodrigues, Tolentino Mendonça, Chico Buarque, Aquilino Ribeiro, Agustina Bessa-Luís, Fernando Namora, José Saramago, Antero de Quental, Cristóvão de Aguiar, Mário de Carvalho ou Nuno Júdice, entre outros).

A presença de tão diversos nomes e obras acaba por ser também o reconhecimento do caminho e do poder da literatura, assumidamente expresso em registo de 25 de Setembro de 2018: “A literatura perderá sempre os seus confrontos com a tecnologia: mas não a sua razão de ser no interior das sociedades, tenham elas o modelo que tiverem. O mundo passa todo pela sua escrita, apontada ao futuro e ao triunfo da luz sobre as trevas do nosso tempo. Enquanto houver linguagem e criação, a literatura será a razão de ser, o degrau, o corrimão que a todos levanta do chão e os leva a subir para o alto.”

 

Em Novas Fases da Lua, o diarista João de Melo valoriza muito o rodar do mundo, assumindo a posição de cidadão atento e com opinião, dando razão ao seu preceito de registar “o que me afronta e me rodeia, perto e longe”. 

As figuras e os acontecimentos marcantes dos anos abrangidos suscitam o comentário atento no diário: o Papa Francisco (“figura despojada de esplendores”, com uma “mensagem de paz dos gestos desprendidos e naturais”, conforme registo de 12.Mai.2017); Donald Trump (o homem que lida com “lume na palha, pólvora em chama acesa, gasolina em jacto sobre as labaredas”, um “incendiário a brincar com o fogo e com o mundo”, 7.Dez.2017); conflito israelo-palestiniano (“Israel não move apenas a guerra total contra os palestinianos; move a vingança à solta, a punição cega e pela morte avulsa, o chamado terrorismo de Estado”, 24.Jan.2017); o movimento “Me too” (“o chamado assédio sexual masculino dá a volta ao planeta, denunciado por mulheres que dizem ter sido vítimas da alarvidade dos homens”, acusação que provocará “que as relações encolham e em nós se instale um puritanismo duplamente falso no seu incómodo”, 22.Jan.2018); a segunda onda da covid (“um vírus, a pandemia, esta nova lepra que nos obriga a ficar em casa, manhã, tarde e noite, ou a sair por um carreirinho clandestino, de máscara e sem nos chegarmos a ninguém”, 10.Fev.2021); os efeitos das alterações climáticas (“as imagens aí estão: vogam na enxurrada, água abaixo, casas e carros e outros bens, morre gente de todas as idades, e nada move à responsabilidade os poderes do mundo”, 3.Ago.2021); a guerra entre a Rússia e a Ucrânia (“Esta passou a ser uma guerra entre blocos político-militares”, em que “deixou de haver inocentes”, enquanto “nós, pobres diabos do humanismo e da paz, somos os únicos a ouvir o choro das mulheres e das crianças e a recordar o silêncio dos mortos vivos e dos vivos mortos”, 20.Jul.2023); a Jornada Mundial da Juventude (movimento que “veio instalar em nós uma espécie de trégua, a da paz e da fé, por aqueles que peregrinaram e têm demonstrado ser possível crer numa outra ordem no nosso quotidiano”, 5.Ago.2023); os atentados em Estocolmo e em Barcelona (Abril e Agosto de 2017), a “tragédia incendiária” em Portugal (Outubro de 2017) ou os tumultos na África do Sul (Julho de 2021) ou em Maputo (Dezembro de 2024).

No registo de 8 de Janeiro de 2024, João de Melo tem necessidade de exprimir as suas preocupações num resumo rápido: “O que me inquieta e desassossega:  as guerras que vão por esse mundo fora; as mortes e as vidas dos imigrantes que atravessam o mar Mediterrâneo, em fuga da miséria, para chegarem à Europa e serem depois repatriados; a perdição do planeta, anos atrás de anos, sem que lhe acudam a tempo de o salvar; o desmatamento sistemático da Amazónia; o sorriso alarve de Putin, a cara de bolacha gorda do presidente chinês e o enigma constante do seu pensamento; a hipótese cada vez mais provável de reelegerem Trump para a presidência da América; e a minha doença encoberta.” 

A questão da saúde merece várias referências ao longo deste volume, a começar logo pelo primeiro registo: “Dívidas de gratidão para com o meu corpo”, que, apesar de tudo, lhe trouxe sobressalto em 2014, mas, “sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo”, pois “nele, corpo, mora a minha vida” e “nada há mais saudável do que estarmos vivos” (21.Jan.2017).

A literatura (como visto na crónica anterior) constitui factor de estabilidade, mas esta chega também através das referências à família (“foi e é única no meu mundo”, 28.Ago.2017), particularizada na esposa, na neta, nos filhos, ou dos amigos (“sem eles, ficamos não apenas mais tristes, mas mais sós”, 2.Nov.2019), como chega através da ligação a dois pontos geográficos como a Espanha (particularmente Madrid, onde exerceu funções — “sinto-me nesta cidade-casa como se nela tivesse nascido para me ir embora”, 28.Nov.2019) ou a Achadinha (onde nasceu e onde hoje existe a Casa João de Melo, que foi casa de família e agora é espaço museológico sobre o escritor e sobre a região do Nordeste — “Não é pacífico em mim ser patrono de uma casa pública e ver o meu nome na sua frontaria. Sinto-me entre o júbilo íntimo e os seus contrários, ainda mais fundos.”, 23.Ago.2021).

Por este diário de João de Melo passam textos normalmente curtos, a chamarem a atenção para o essencial sentido naquele dia perante o andar do mundo, às vezes inserindo pequenas histórias do quotidiano (nem sempre sendo indicados os nomes dos protagonistas), salvando a forma própria de pensar e contestando o papel dos comentadores — “gente que tudo sabe” e “uma fórmula existencial de intrusão” (16.Fev.2017) —, comprometidos ideologicamente.

João de Melo sabe que a escrita é uma forma de exposição, tal como refere ao encerrar este diário, em 31 de Dezembro de 2024 — “Vivo e escrevo e sou aqui e agora. Sempre em mim.” —, não prometendo a sua continuação, mas admitindo-a, ao mesmo tempo que garante ser a escrita “o mais importante de tudo em mim”.

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1840 (2026-09-30) e 1844 (2026-10-07).


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Mar sofrido

 


Quando Camões (c. 1520-c. 1580) publicou Os Lusíadas (1572), a sua intenção não foi apenas a de glorificar os participantes na viagem inaugural da carreira da Índia, mas também dar voz aos que a contestaram (caso do Velho do Restelo) e às tragédias marítimas posteriormente surgidas (anunciadas pelo Adamastor). Se, através do Velho do Restelo, o leitor assiste à praga rogada — “Ó maldito o primeiro que no mundo / Nas ondas velas pôs em seco lenho!” (canto IV) —, as profecias trágicas da figura disforme assentam no que nos foi revelado pelas relações dos naufrágios acontecidos a partir de 1552 (até 1602), depois reunidas nessa obra fabulosa que é a História Trágico-Marítima (publicada em 1735 e em 1736), organizada por Bernardo Gomes de Brito (1688-1759) — de que também há versões adaptadas, como a organizada por António Sérgio em 1934, que tem tido sucessivas edições.

A vivência sofrida e assustadora do mar tem marcas universais e perdurou no tempo, tendo a literatura (e outras artes) tido um papel importante na expressão desse sentimento, como podemos ver em alguns exemplos que nos são cronologicamente mais próximos.

Em 12 de Setembro de 1948, Vergílio Ferreira (1916-1996), perante o mar da Nazaré, escrevia no seu diário: “Cá está o mar, o bruto. Estende-se ao comprido, esbarrondado, ronca e baba-se sobre a areia. Pequenos barcos, traquinas, sobem-lhe para o lombo, catam-lhe o peixe — ele dorme. Tem os olhos grandes cerrados, a arca do peito arfa. Não entende ninguém, ninguém o compreende. Estúpido, cavernoso, está para ali. Até que um dia, sem razão, firma-se nas quatro patas, urra temeroso e atira-se às marradas contra tudo. Depois, outra vez sem razão, abate amodorrado, torna a roncar e a dormir. De noite, a lua veio passar-lhe uma carícia de mãos pelo dorso. A besta, indiferente, rosnou sempre. Cava-lhe as entranhas uma boçalidade de pasmo. Anda a alegria em volta dele, crianças deitam-lhe quimeras de inocência — e o bruto só ronca. Sinto naquele monstro a trágica desgraça da força imerecida, da força que apenas se justifica no urro e na marrada.” (em Diário Inédito 1944-1949, publicado em 2008).

A marca de bestialidade usada para caracterizar o mar pelo escritor natural de Melo é intensa no seu exagero, demonstrando a incapacidade do humano para domar as águas com segurança absoluta, os medos que podem surgir e o fascínio perante tal perigo. Duas décadas depois, em 1968, em entrevista à inglesa Tyne Tees Television, o pintor Lawrence Stephen Lowry (1887-1976) referia o mesmo poder avassalador do mar, usando a emoção e a antecipação do espanto: “Sempre adorei o mar: como ele é maravilhoso e, ao mesmo tempo, tão terrível. Muitas vezes penso: ... e se, de repente, ele mudasse de ideia e a maré não recuasse? E se viesse na nossa direção? E, se não parasse e continuasse avançando, avançando, avançando, avançando, avançando... Seria o fim de tudo.”

Mais pragmático e de menos palavras perante a força do mar, demonstrando o respeito perante essa energia que pode ser desastrosa para o ser humano, é o discurso de Ti’ Bártolo, velho, experimentado e sábio lobo do mar, no romance Mar Santo (1952), história passada na Nazaré, de Branquinho da Fonseca (1905-1974), em que o mar reúne a ideia de traição e a marca do poder incomensurável: “O mar nã tem amigos... O mar!... Mata a gente e nã tem crime... O mar engana Cristo!... Sabes lá qu’ é o mar!... Ah, mar santo!...”

Este viver com o perigo e as dores do mar foi também cantado por Teixeira de Pascoaes (1877-1952), quando escreveu “Vida do Mar” (em Para a Luz, de 1904), lembrando o que sentia quando, à tarde, passeava ao longo do mar: “E vejo, ao cair do sol nas ondas abrasadas, / Entre as rochas que estão de espuma coroadas, / Tristes habitações de pobres pescadores... / Telhados pra abrigar soluços, ais e dores. / São choupanas onde há postigos e janelas, / Donde a Tristeza vê, ao longe, as brancas velas, / Navios onde vai ao leme a Saudade... / Sopra um vento que traz a viuvez e a orfandade...”

A expressão da dor trazida pelo mar, contrariando a ideia épica das viagens marítimas, tem expressão intensa no poema “Mar Português” que Fernando Pessoa (1888-1935) incluiu na sua Mensagem (única obra de poesia em português publicada em vida do poeta, no final de 1934), aí dando liberdade à emoção colectiva: “Ó Mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó Mar!” Esta metáfora das lágrimas seria também utilizada por Sebastião da Gama (1924-1952), ele próprio um leitor de Pessoa, no poema “Contribuição”, de 28 de Outubro de 1942 (apenas publicado em 2024, no volume de poesia reunida, O inquieto verbo do mar): “O Mar Oceano / anda a rolar, pela Praia, / as pragas dos pescadores... / E é cada gota de espuma / uma lágrima que caia / nas faces angustiadas das mulheres...”

O mar, visto frequentemente como o espaço de aventura e de liberdade, tem sido também o cenário do sofrimento e da dor, algo que o poeta Alexandre O’Neill (1924-1986), numa frase do domínio do apelo à prevenção que se tornou um quase provérbio, bem expressou quando disse que “há mar e mar, há ir e voltar”... sugerindo a cautela e a minimização da aventura, ou... o respeito pelo mar.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1835, 2026-09-23, pg. 10.


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Francisco de Francisco

 


Em 14 de Abril de 2025, o cardeal Marcello Semeraro (n. 1947), prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, teve o seu último encontro com o Papa Francisco. Na conversa, disse-lhe que já estavam prontas as provas do livro e perguntou-lhe se as queria ver, tendo Francisco respondido: “Tens de ser tu a corrigi-las.” Uma semana depois, acontecia o falecimento do Papa e Semeraro ficava com a incumbência redobrada de rever as provas. O livro em causa, editado em Itália em 2025 e publicado em Portugal neste ano (Paulinas), é O Meu São Francisco, obra póstuma do Papa Francisco, que apresenta como subtítulo a informação “Colóquio com o Cardeal Marcello Semeraro”.

Quando, em 13 de Março de 2013, o jesuíta Jorge Bergoglio (1936-2025) escolheu o nome de Francisco, pairou por momentos a dúvida se esta opção não se relacionaria com S. Francisco Xavier (1506-1552), co-fundador da Companhia de Jesus, logo desfeita pela explicação que deu, lembrando que o seu amigo, cardeal Claudio Hummes (1934-2022), arcebispo emérito de São Paulo e membro do conclave, ao saber o resultado da votação, o abraçou e lhe recomendou “não se esqueça dos pobres”, razão maior para, de imediato, se lembrar de São Francisco de Assis (1181-1226), arauto da pobreza e da paz. Esta preocupação tornou-se prática do quotidiano, que levaria o Papa, a dado passo desta entrevista, a dizer: “tive o dom de encontrar muitos pobres, que me indicaram claramente qual é o lugar a que o Senhor dá preferência, onde o podemos procurar e encontrar”.

O conjunto de quinze perguntas e respectivas respostas é antecedido de uma mensagem do Papa Leão XIV dirigida ao responsável pela entrevista, agradecendo esta iniciativa e afirmando que o seu antecessor “não só assumiu o nome de Francisco como também se quis identificar com este santo para fazer dele o rosto da sua nova missão”.

As perguntas que orientam o testemunho do Papa Francisco abrangem assuntos como: a pobreza (“pensar a economia inspirando-se em São Francisco significa empenhar-se em colocar no centro os pobres e olhar para a economia e para o mundo precisamente a partir deles”); o olhar sobre a Igreja (“amar a Igreja significa não a abandonar na ilusão de poder passar sem ela ou de podermos encontrar alguma coisa melhor, e também significa dizer claramente as coisas que não estão bem, empenhando-nos em dar um testemunho que saiba a Evangelho”); a prática da oração (“há duas modalidades de oração, que travam entre si uma espécie de diálogo: são necessários momentos de solidão e retiro, de intimidade; ao mesmo tempo, porém, temos necessidade de momentos de partilha, de convivência”, pois “fazem parte da nossa humanidade solidão e comunhão”); o diálogo com a contemporaneidade (“a liberdade que nos torna capazes de nos encontrarmos com todos e de dialogarmos com qualquer um nasce da alegria de sentirmos que a vida coloca sempre à nossa frente algo capaz de nos unir, de fazer que nos respeitemos, de intuir o grande valor mútuo de cada um”); o espírito de fraternidade (“a fraternidade, por vezes, é incómoda porque é diferente da amizade, é um dom que devemos acolher com gratidão, é uma realidade sempre ‘a caminho’, em construção, e que, por conseguinte, requer o contributo de todos, sem que ninguém se exclua ou seja excluído”); o valor da misericórdia (“um homem só deve olhar outro homem a partir de cima para o ajudar a levantar-se”, pois “a misericórdia não é uma coisa ao lado das outras, mas como que traça os contornos do crente, do cristão”); a ecologia (“a atenção à ecologia nasce de um sentido de responsabilidade para com os outros; os que vierem depois de nós esperam poder viver numa Terra ‘limpa’, não só limpa no sentido de ecologicamente habitável, mas limpa do ponto de vista das relações, das relações entre nações, entre pessoas culturalmente diferentes”); a esperança (“a esperança não pode ser vivida por uma pessoa sozinha, porque precisa de sinais” que “não nos vêm das coisas, mas das pessoas que caminham connosco, que nos encorajam, que nos ajudam a levantar quando caímos, que partilham connosco as maiores dificuldades”); a falta de resposta aos apelos em favor da paz (“muitas vezes falamos em prol dos direitos dos outros, do respeito ambiental, dos pobres indefesos, da paz, e a maior parte das vezes as nossas palavras parecem-nos inúteis”, mas “é importante continuarmos a gastar-nos com a maior generosidade em favor da paz, inclusive continuando a lançar apelos para que a guerra e a violência acabem”); a morte (“na minha idade não tenho muito medo de morrer; quando somos velhos, damo-nos conta de que já não falta muito para o fim e também sentimos como uma graça o podermos preparar-nos para a morte, o podermos reler o nosso passado”); a família (“as famílias ensinaram-me a importância da vida em comum, da vida quotidiana”); a relação entre homens e mulheres (“uma das maiores dificuldades para todos nós é sempre a de aceitar que precisamos de alguém” e “quando a realidade concreta nos faz experimentar as nossas limitações, por vezes voltamo-nos contra nós mesmos e contra os outros”, mas “nenhum de nós se basta a si mesmo, nenhum de nós tem, em si mesmo, aquilo de que precisa para viver bem”).

Um livro de reflexão e de pensamentos que são orientações para a vida, sendo fácil, a todo o momento, pararmos perante uma máxima cheia de significado — pormenores que também nos podem ajudar a ver este livro como um possível testamento espiritual do Papa Francisco.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1825, 2026-09-09, pg. 2.


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Carlos Cardoso: notas para pensar

 


No romance Nove mil dias e uma só noite (tradução portuguesa de 2014 da obra Letters from Skie, publicada no ano anterior), Jessica Brockmole põe uma das personagens a dizer: “Pensar é bom. É o que distingue os seres humanos das baratas.” Quem assim falou foi a mãe de Margaret, em resposta à filha, quando esta a informou de que tinha respondido a um pretendente que, antes de aceitar o pedido de casamento, teria de pensar no assunto... A consideração desta personagem em torno do acto de pensar é simples e pragmática e não necessita de explicações, resultando a sua eficácia de um saber experimentado e amadurecido. Pensar exige tempo, mais do que emoção ou pressa.

Data de Maio a edição da obra Momentos, do setubalense Carlos Cardoso, que tem como subtítulo “Notas para pensar, discordar e dialogar”, logo surgindo, pela associação de título e subtítulo, a presença do factor tempo para o acto de pensar, sendo a origem do livro explicada no prefácio, quando é dito que esta obra “nasce da necessidade de pensar”, “de parar um pouco”, “de olhar para o que somos, para o que fazemos e para a forma como escolhemos viver em sociedade”.

Baseado na sua experiência de professor, de gestor e de cidadão, Carlos Cardoso colige uma centena de textos, todos sob o título de “O meu momento de reflexão”, seguido da recomendação “Nunca se esqueçam...”, prevendo o leitor que vai estar perante um conjunto de reflexões que podem virar recomendações para a vida, marca que pode inserir esta obra na lista do livro prático, muito embora o seu objectivo não seja o de ensinar estratégias de resolução de questões práticas, antes o de sugerir pistas de reflexão para o indivíduo e para a sociedade.

No final do livro, as reflexões apresentadas são organizadas em três grupos: valores e carácter, relações humanas e desenvolvimento pessoal. Esta divisão poderá valorizar três intenções fundamentais presentes na obra, mas é demasiadamente restritiva e generalista, impossibilitando de ver a variedade dos assuntos abordados. Com efeito, por estas reflexões, muitas vezes inspiradas em princípios proverbiais (como “Quem sobe sem respeito desce sem amparo”) ou partindo da linguagem metafórica (como se pode ver nos exemplos “Não adiante numa encruzilhada perguntarem para onde é o caminho se não souberem qual o caminho que querem seguir” ou “Os tristes acham que o vento geme, os alegres acham que o vento canta”), passa uma diversidade de temas (muitos deles ligados à ética e à deontologia) como: o papel do acto de ensinar; a necessidade de alimentar o saber; a pertinência do questionar; a utilização adequada do silêncio; a valorização do outro e de si; a sorte como desafio; a confiança no que se faz como acto de realização; as condições que fazem a liderança; a força para encarar as situações e trabalhar com o erro; a valorização do que é bom; a luta contra o boato e contra a ignorância (caminhos fomentadores da mentira); a honra e a verdade como valores; a valorização da empresa garantida pelos seus funcionários; o assumir a idade como forma de viver cada dia e de aumentar as memórias; o papel da amizade; a força do exemplo; a procura de soluções em vez da alimentação dos problemas; a defesa das convicções; a atenção ao outro; a gestão da capacidade de reacção; a disponibilidade para ajudar e pedir ajuda; o valor da vida saboreada; o saber quando dizer “não” ou “sim”; a necessidade de pensamento crítico; a utilização do pensar, do querer e do sentir de forma a não contribuírem para magoar o outro; a gestão da desculpa para o que não se consegue; o poder da leitura para a construção de caminhos e descoberta de verdades.

A lista poderia ser mais extensa, mas correr-se-ia o risco de cair em algumas repetições ou proximidades — aliás, a leitura deste livro não deve visar a imediata totalidade, sob pena de haver a sensação da repetição, antes deve ser lido fazendo justiça ao título, em “momentos” (assim mesmo, no plural), sem ter de ser respeitada a sequencialidade do livro, que pode ser aberto ao acaso para que o leitor se encontre com um conselho ou uma reflexão (a dimensão dos textos oscila entre uma e três páginas), instante de abrigo do curso do pensamento.

Obviamente, muitos dos princípios enunciados nestas reflexões passam pelos caminhos da educação (sobretudo em ambiente familiar) ou da formação, apenas absorvidos por quem se predisponha para os mesmos, já que, nestas coisas, o verbo “querer” não tem imperativo... Importante é não aceitarmos a situação que José Gomes Ferreira (1900-1985) descreveu na obra Aventuras de João Sem Medo (1963): “A maioria das pessoas já nem pensa! Fala. Isto é: limita-se a pôr o aparelho em acção, a acertar a agulha no sulco respectivo e a deixar tocar o disco… Sempre igual, aliás.” A alternativa é só uma: a vida, e tudo o que por ela fazemos, tem de ser espaço do pensamento... e este livro ajuda nesse caminho.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1820, 2026-09-02, pg. 2.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Eugénio Fonseca, o último livro

 




Eugénio Fonseca (1957-2026) deixou-nos quando estava prestes a assumir o cargo de responsável pela Fundação D. Manuel Martins, instituição dedicada ao legado do primeiro prelado sadino (1975-1998), com quem estabeleceu uma forte ligação de amizade e de testemunho.

Presença assídua na imprensa, impulsionador e dirigente de diversas instituições ligadas à supressão da pobreza, Eugénio Fonseca assinou obras como A Acção Caritativa da Igreja: Elementos de Reflexão Teológica e Pastoral a partir do Contexto Português (2011), Estende a tua Mão ao Pobre (2020), Jesus Representa todos os Pobres (2021) e Jesus Cristo Fez-se Pobre por Nós (2022); prefaciou outras, como Quando o Excluído se Torna o Eleito: Vida Partilhada com os Sem-Abrigo (2004, de Michel Collard e Colette Gambiez), Jesus antes do Cristianismo (2010, de Albert Nolan) e Voluntariado Católico com Misericórdia (2016, de Aires Gameiro); foi ainda organizador de Sinodalidade e as Ressonâncias de ‘Fratelli Tutti’ (2023). Mas, inevitável na sua bibliografia, seria a abordagem da obra e da mensagem de D. Manuel Martins (1927-2017), presente em Testemunho de Duas Vidas Compartilhadas (2020) e, na última obra que organizou (e publicou), recolhendo 98 testemunhos, Cinquentenário da Ordenação Episcopal de D. Manuel Martins (2025), inicialmente pensada para ser uma publicação digital, que se deveria manter “em contínuo crescimento”, mas que viria a ser impressa depois da quantidade de pedidos de leitores.

Por essa quase centena de depoimentos passam homens e mulheres, políticos e dirigentes, membros do clero e de ordens religiosas (masculinas e femininas), leigos e muitos setubalenses, desfilando memórias intensas (na maior parte dos casos) e assumindo a intervenção e postura de D. Manuel Martins como exemplo e inspiração. Ao coordenar esta obra, Eugénio Fonseca possibilitou, no cinquentenário da criação da diocese, “recordar aos que o conheceram e aos que não a pessoa que ele foi e as marcas que deixou pela defesa da dignidade humana de todos, mas, preferencialmente, dos que a tinham amachucada por causa de injustiças de variada natureza”. Mas a intenção do organizador assumiu também uma marca pessoal de reconhecimento, como fica patente na introdução ao livro - “entre mim e D. Manuel havia uma cumplicidade muito grande, pois também ele me ajudou a compreender melhor o Evangelho e a tentar viver em conformidade com as suas exigências.”

Entre aqueles que acederam ao convite para testemunhar, podemos lembrar Fernando Paiva (actual bispo de Beja), que relembra D. Manuel Martins desde a altura em que por ele foi crismado, passando pelos tempos do seminário (onde descobriu a afabilidade, a atenção, a cordialidade, o espírito conversador e o tom humorístico de D. Manuel), e relembrando o episódio de uma visita que lhe fez na Maia: “Referindo-se à proximidade do fim dos seus dias, e expressando o desejo de se encontrar com o Senhor, a quem sempre serviu com generosidade ao longo da vida, ele dizia, com um sorriso sereno e uma fé luminosa: ‘Estou mortinho por ver como vai ser.’” Outro testemunho, o de António Alves Fernandes, relembra que, sendo um bispo conhecedor dos pobres, D. Manuel “chegou a indicar a um político a morada de muitos pobres e suas famílias”. Destacarei ainda alguns mais, sabendo que as opções de escolha poderiam ser outras: Bruno de Santa Maria, o autor do mais extenso depoimento, relembra vários episódios e ligações ao bispo, recordando que aprendeu com ele “a ter unidade de vida, lidando simultaneamente com os bens mais espirituais e com os bens mais materiais e burocráticos da vida diocesana”; Conceição Lopes, filha da conhecida figura que foi João Sacristão, destaca a proximidade entre D. Manuel e seu pai, ambos compartilhando “inquietações, dores e soluções”, num tempo difícil de fome, de falta de trabalho, de exploração e de famílias “vivendo em barracas”; Clemência Funenga, professora e directora da Escola D. Manuel Martins, recorda a mensagem que o bispo lhe fez chegar depois de ler o Projecto Educativo de Escola para o ciclo 2003/2006, texto atento sobre o papel da escola e a importância da educação — “A Escola é exigência, espaço e exemplo de Democracia, isto é, de Cidadania. Sem uma Escola assim, preparamos uma sociedade sem futuro, uma sociedade perigosamente comprometida”; Constantino Alves, padre e operário, recua até ao tempo em que foi aluno de D. Manuel e passa pelos momentos em que por ele foi ordenado ou em que, de fato-macaco, ia falar com o seu bispo sobre o encerramento de empresas e suas consequências, traçando a imagem de uma pessoa cujo “coração batia forte” e que “recebia e acolhia, dialogava com trabalhadores e empresários, sindicatos, comissões de trabalhadores, administrações de empresas e responsáveis do poder político local e central”, sempre visando promover “gestos e dispositivos solidários com os pobres e vítimas da crise económica, financeira e social”; Maria Dulce Rocha, que presidiu ao Instituto de Apoio à Criança, chama a atenção para a “sensibilidade especial e coerência rara”, com “o desejo de solucionar, que mostra exigência e rigor”, presentes em D. Manuel.

Muitos mais testemunhos poderiam ser destacados, pelas suas peculiaridades e indicações. Em todos perpassam a coerência e a proximidade, a abertura e a vontade de acabar com as desigualdades. Entre as citações feitas de D. Manuel, a que mais vezes é mencionada é a que foi proferida aquando da sua entrada para prelado: “Nasci bispo em Setúbal. Agora sou de Setúbal. Aqui anunciarei o Evangelho da libertação, da justiça e do amor.” O trabalho que Eugénio Fonseca nos legou, organizando este conjunto de testemunhos, é notável, sobretudo por aquilo que poderia partir daqui para ser um conjunto de princípios inspiradores de um bispo próximo, preocupado, atento e empenhado. Na dedicatória que lavrou no exemplar que adquiri, Eugénio Fonseca termina-a, desejando que, “sempre por causas, mantenhamos vivo o legado de D. Manuel.” Uma boa maneira de homenagear os dois, por certo, num desafio lançado para todos, neste que foi o último livro que Eugénio Fonseca publicou...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1815, 2026-08-26, pg. 2.