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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Helena Marques: a vida, como a ilha, é um cais

 

Sobre o final da sua carreira jornalística no Diário de Notícias, publicou o primeiro romance, O último cais, obra premiada nesse 1992. Até 2010, mais quatro romances e um livro de contos constituíram a obra literária de Helena Marques (1935-2020, falecida há dias), que, na obra inaugural, trouxe um retrato da Madeira (a que estava ligada por razões familiares e por lá ter vivido) e da condição da mulher numa narrativa em que o amor e a morte caminham lado a lado.

O último cais conta uma história balizada entre 4 de Setembro de 1879 e 1904, iniciando-se com uma transcrição do diário de bordo da personagem Marcos, na costa de Moçambique em “fiscalização e repressão do tráfico de escravos” (como Raquel, a esposa, o apresentará mais tarde, ao defender o abolicionismo). O derradeiro capítulo, o décimo-terceiro, tem o título da obra, conjugação que implica um contacto próximo com o mar, com a viagem (real ou metafórica), ajudando na definição do que será viver numa ilha. Oito dos capítulos titulam-se com nomes femininos, cedidos por personagens da história, havendo três que tomam os nomes masculinos de outras tantas personagens, aspectos que valorizam a presença da mulher, por um lado, e o relacionamento entre personagens, por outro - surgindo uma família grande, com figuras modeladas exaustivamente, vincando-se a condição da mulher (na recusa de uma personalidade de Penélope) a partir do contributo de cada uma das personagens femininas do enredo.

Pelo romance passam o quotidiano (a vida nas quintas, as festas, o ambiente familiar, a relação com as criadas, a importância da casa) e as marcas dos tempos (a chegada do telégrafo, o aparecimento do fonógrafo, a presença estrangeira na ilha), a política (a libertação dos escravos em África, o tricentenário camoniano e os republicanos, o sufragismo) e a noção do que é a vida da família, nas suas aproximações e desencontros, “tecendo-se com o amor e a morte”.

As muitas referências literárias participam na definição das ideias e na caracterização das personagens: a garrettiana Maria, de Frei Luís de Sousa, ecoa na jovem Benedita, quando, aos quinze anos, expõe aos pais o seu “raciocinar como uma pessoa mais velha”; a relação amorosa de Maria dos Anjos e Xavier lembra  Paulo e Virgínia, de Bernardin de Saint-Pierre; Raquel recebeu formação italiana, eternizando o afecto pela Divina Comédia, de Dante; a Bíblia é lida e interpretada criticamente; Luciana cruza-se com a flaubertiana Bovary, que a influencia; João de Deus é enaltecido pelo contributo da Cartilha Maternal; Clara aprende o inglês com as obras de  Lewis Carroll, não esquecendo as aventuras de Alice; o americano John dos Passos entra na história por uma relação familiar, merecendo um comentário irónico pelo seu quase esquecimento das memórias da Madeira; Marcos recorda-se de quando leu Guerra Junqueiro e das discussões sobre anticlericalismo com o cónego Nicolau.

A história, contada um século depois do diário de bordo que abre o livro, exige da narradora, herdeira de Carlota, frequentes recuos na narrativa, conciliadores dos tempos e das personagens. No final, Marcos está no “último cais”, como espectador, à espera da entrada no Paraíso. Assim, O último cais é o itinerário de uma viagem em múltiplos sentidos: no tempo, indo até aos ambientes do final oitocentista; na acção, em que se reconstitui a identidade de uma família; no “eu”, que busca permanentemente um sentido para a vida. Um romance em que a vida, como a ilha, é um cais.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 500, 2020-11-04, pg. 9.


terça-feira, 6 de outubro de 2020

Os dias de Emília Bravo, aliás, Maria Judite de Carvalho



Entre 13 de Janeiro de 1971 e 19 de Junho de 1974, Emília Bravo foi assídua no suplemento “Mulher” do Diário de Lisboa, colaboração que passou por três fases: a primeira, sob o título “Diário de uma dona de casa”, até 29 de Setembro de 1971, espaço semanal com anotações de cada um dos dias da semana; a segunda, entre 6 de Outubro de 1971 e 6 de Fevereiro de 1972, “Diário”, registos publicados ao ritmo de um por dia; a terceira, a partir 7 de Fevereiro de 1972, que, não abandonando o tom dos textos anteriores, passou, contudo, a atribuir título próprio a cada um deles.

Emília Bravo, pseudónimo criado por Maria Judite de Carvalho (1921-1998),  personifica a autoria destas notas do quotidiano, reunidas desde 2002 no volume Diários de Emília Bravo, organizado por Ruth Navas (com reedição em 2019).

A forma diarística que estas crónicas apresentam desde logo se deixa marcar pelo problema do eu que escreve, um eu ficcional. Por outro lado, a autora não fala de si, mas dos outros, do mundo, o que anula a marca do diarismo que é o relato do eu. Assim, o livro é um miradouro de onde se vê o mundo, particularmente a cidade (Lisboa) e as personagens que a fazem, mulheres e homens inseridos numa vida urbana, onde ganha espaço a “dona de casa”, mulher que luta (pela vida), que caminha na sua solidão, cabendo a Emília Bravo reflectir e questionar o observado.

Os motivos chegam à cronista através de três fontes importantes: o que observa nas suas caminhadas pela cidade, o que recebe via televisão, o que apreende nos jornais e revistas que lê. O discurso gira em torno das situações do quotidiano, aquelas que fazem parte de todas as vidas - a casa, o estatuto da mulher e do homem, a moda, a sobrevivência, os saldos, as prestações, a confusão, o supérfluo, o consumo, o tempo, os piropos, o sonho. Frequentemente, as considerações feitas surgem a partir de vozes de pessoas com quem Emília se cruza (amigas, conhecidas, anónimas), normalmente num tom pessimista, mas também de denúncia de ocorrências menos boas numa sociedade de que ela mesma faz parte.

O leitor assiste a um progressivo construir da imagem da mulher interventiva e autónoma, independentemente das razões que o provocaram: quase no final, em crónica de 23 de Janeiro de 1974 intitulada “Como vai ser?” (pergunta indicadora da alteração), a sociedade confronta-se com a mudança - “é que as senhoras de sua casa, as donas de casa e mais nada têm vindo a desaparecer, e não só por causa da emancipação da mulher, mas também (mas principalmente) devido ao custo de vida.”

Sobre o início da década de 1970, tempo destas crónicas, passou meio século. Contudo, muitas das observações poderiam ser transpostas para hoje, prova de que outras tantas questões não tiveram resolução nestes 50 anos. Um exemplo? Este, de Junho de 1971: “Poluição é uma palavra que está na ordem do dia em todo o mundo. Muito se fala de poluição. Mas dar-nos-emos nós conta do seu valor de ameaça? Não pensaremos para connosco, encolhendo os ombros, que se trata de uma coisa vaga, mais um papão que, decerto, não é no fundo tão mau como o pintam ou talvez nem exista? Alguém há de dar um jeito, pensamos. Há sempre alguém que dá um jeito, não é verdade? Pois esperemos que haja esse alguém, porque ela caminha a passos largos.”

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: 476, 2020-09-30, p. 5.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Máximas em mínimas - Almada Negreiros

Depois de reler Almada Negreiros, em Nome de guerra (escrito em 1925 e só publicado em 1938)...

Amar – “Quando se gosta de alguém, gostar, gostar a valer, a gente não sabe mais nada neste mundo senão que gosta dessa pessoa. (…) Vão os dois para toda a parte, com ou sem dinheiro, andam juntos. Gostar é gostar.”
Autobiografia – “O trabalho para a autobiografia não é mais do que evitar aquilo a que outros nos quiseram forçar.”
Família – “Temos todos as nossas árvores genealógicas do mesmo tamanho. Lá no tamanho das árvores somos todos iguais. Mas é precisamente nas árvores que está a nossa diferença. Vê-se perfeitamente que a cada um aconteceu qualquer coisa que não se passou com mais ninguém. E aconteceu-nos antes ainda de nós termos nascido. É a árvore genealógica. Esse segredo do nosso segredo. Esse mistério do nosso mistério. Nós somos hoje o último fruto dessa árvore secular, secularmente secular!”
Lealdade – “Quando os inimigos se igualam, e igualadas as forças dos adversários, já não há outras esperanças senão as que ficam fora do terreno da lealdade.”
Mulher – “A mulher sabe perfeitamente melhor o efeito que produz nos homens do que o homem nas mulheres.”
Palavra – “O número de palavras não é infinito, mas é infinito o número de efeitos, conforme a disposição das palavras. Com vinte e seis letras do alfabeto escrevem-se todos os idiomas e não ficam escritas todas as palavras nem definitivos os dicionários.”
Realidade – “Não há mestre mais categórico do que a realidade a seco.”
Separação – “Quando duas pessoas separam as suas coisas que estiveram juntas, o que é de cada um é tão pouco que ainda é menos do que antes de conhecer aquele de quem se separa.”
Sinceridade – “Ninguém no mundo se pode queixar de ter sido vítima da sua sinceridade. O que pode é cada um ficar surpreendido com o facto de a sua sinceridade o ter levado mais longe do que lho permite a sociedade.”
Solidão – “O horror de estar só no mundo apenas o podem sentir aqueles que já perderam o melhor que tinham e não conseguem a certeza de nada.”
Verdade – “Aqueles que pretendem ver a verdade e não tiram os olhos de cima dela acabam por esquecer-se que a querem ver e ficam só a olhar para ela; mas os que fazem por esquecê-la, quanto mais se esforçam por distrair-se mais a verdade os agarra pelos pulsos e lhes fala cara a cara.”
Verdade – “Quem pensa sozinho não quer senão a verdade, as justificações são por causa dos outros.”
Vida – “Há vidas que é preciso encher com qualquer coisa de vez em quando.”
Vida – “São tão diferentes as idades da vida de cada um que quem não vai por essa diferença é porque parou numa delas. As idades da vida não se passam por alto; ou se vivem ou ficam por viver.”

sábado, 27 de julho de 2013

Anita Vilar: mulheres da história de Setúbal



Oito anos foi o tempo que Anita Vilar levou a preparar a obra recentemente apresentada, Panorama de uma história local no feminino (Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2013), livro organizado em jeito de dicionário, biografando 74 mulheres que estiveram ligadas à história de Setúbal.
O trabalho não terá sido fácil, referindo a autora a sua principal dificuldade: “os arquivos, desvalorizando os contributos femininos, não registavam dados pessoais tais como o local e data de nascimento e a profissão (…), sendo muitas vezes a mulher, a mãe de”. Daí também a cautela com que a autora apresenta este trabalho, afirmando não estar concluído, pois, além de ser o primeiro levantamento exaustivo do género, ressaltou também a dificuldade da impossibilidade de “obter todos os dados biográficos referentes a algumas mulheres”, obstáculo que não condicionou a decisão de, mesmo assim, no livro constarem nomes com uma biografia de conjectura ou de dúvidas, honestamente assinaladas.
As biografadas abrangem um longo período da história sadina, desde o século XV até à actualidade, e foi critério referir apenas nomes que já tivessem concluído o seu ciclo de vida: no século XV, contam-se os percursos de Justa Rodrigues Pereira e de Maria da Pipa; no século XVI, visita-se Margarida Dias e Leonor de S. João; no século XVII, conhece-se Beatriz Gonçalves, Maria Guadalupe de Lencastre e Ângela Maria; no século XVIII, é o encontro com Mariana du Bocage, Cecília Rosa de Aguiar, Isabel Ifigénia de Aguiar, Ana Maria do Amor Divino e Luísa Todi; no século XIX, o que mais nomes conta,  cruza-se o leitor com Gertrudes Angélica de Andrade, Ana de Almeida, Maria Emília da Mota Negrão Barradas, Maria Henriqueta de Campos Valdez, Maria Adelaide Vieira, Maria de Jesus Almeida do Soveral, Maria Angélica de Andrade, Maria Amália, Hermínia Augusta Marreiros Borges Campos, Maria Baptista, Maria Amélia de Orleães, Maria Júdice da Costa, Joaquina Aurélia Baptista Guerreiro, Ana de Castro Osório, Francisca Romana Lino da Silva, Angelina Paula Mota Quintas, Ana de Broughton de Meneses Ferro Gamito, Ema Garcia Peres Grill, Raquel Elvas Mascarenhas, Maria Felicidade de Ferreira Miranda, Maria Cândida de Oliveira Parreira, Maria Augusta Ferreira de Sousa Fialho, Joaquina Rosa de Lima, Luísa Eduarda Gonçalves, Olga de Morais Sarmento, Maria Bárbara Falcão, Falcão Mercês, Mariana Torres, Laura de Jesus de Almeida, Benedita Maria, Carlota Rosa Ramos, Maria Ilda da Conceição de Oliveira, Lúcia da Encarnação Maracoto, Amélia Azevedo, Albertina Aldegundes de Moura Benício, Ária Amazonense Ferreira Ramos, Pátria Amazonense Ferreira Ramos, Alda Machado Santos, Ernestina Esteves Vieira Abreu, Cândida Marques Pascoal, Marta de Jesus da Silva Lebre, Deolinda Macedo, Eufrásia Lino da Silva, Bárbara Marques Pascoal, Ilda Stichini, Teresa Lino da Silva, Irene Augusta Faria Costa do Nascimento e Maria Campos; do século XX, são figuras como Maria Arminda Cândido Graça, Madalena da Costa Claro, Emília Rosa Colaço, Margarida Caineta, Arlete Soares Silva de Oliveira Guimarães, Oceana Rosa de Sousa Zarco, Clarinda Silva Carvalho, Maria Adelaide Miguéns Rosado Pinto, Maria Clementina da Conceição Coelho Amália, Maria Inácia Simão Godinho, Lygia Messodi Toledano Ezaguy, Susana Soveral Gomes, Maria do Rosário Fátima Almeida Santos e Maria Cecília Pereira Anjo.
Por estas cerca de sete dezenas de fichas desfilam figuras ligadas à política, à intervenção social, ao desporto, à educação, ao mundo do trabalho, às artes, algumas constando na toponímia sadina mas a maioria delas tendo uma biografia de lacunas. O trabalho que Anita Vilar nos apresenta refere essas mesmas adversidades, mas tem a vantagem histórica de ser uma primeira abordagem de conjunto, diversificada, mostrando o peso que a mulher tem tido na história local, apesar de, habitualmente, ser relegada para um plano mínimo ou para a omissão. Trata-se de uma obra útil, indispensável para a bibliografia local, a merecer consulta ou mesmo leitura integral, assim se descobrindo uma faceta importante da identidade setubalense.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Maria Barroso: "Cartas a Mário Soares" e uma biografia



Aos 87 anos, Maria Barroso resolveu partilhar a narrativa da sua vida com os leitores através da publicação das suas memórias e da correspondência mantida com o marido, Mário Soares, entre 1961 e 1974, num projecto co-editado pelo semanário Sol e pela Fundação Pro-Dignitate. É um conjunto de 18 volumes, publicados a ritmo semanal, em que a epistolografia ocupará 8 deles (Cartas a Mário Soares 1961-1974) e a biografia os restantes (Álbum de memórias). O trabalho foi coordenado pelo jornalista Vladimiro Nunes, que anotou as cartas e redigiu os volumes de cunho biográfico. Até ao momento, foram publicados cinco volumes deste projecto [o próximo sai amanhã, com o jornal Sol], sendo quatro deles da correspondência.
O primeiro volume da biografia ocupa-se sobretudo da história da ascendência de Maria Barroso, incidindo bastante sobre a actividade do pai, militar e republicano, alvo de perseguições e de prisões graças aos compromissos assumidos. O final do volume encontra Maria Barroso na sua infância em Setúbal, aos dezasseis meses (em Setembro de 1927).
Preocupação de Vladimiro Nunes é de contextualizar a narrativa no Portugal da época, com referências adequadas à vida política, cultural e social do país, com indicações cronológicas sobre acontecimentos e sobre outras personalidades que viriam a ser referências para o século XX português e que viriam a cruzar-se também com o percurso de Maria Barroso e de Mário Soares em muitos casos. Para a elaboração deste trajecto biográfico, Vladimiro Nunes teve como fontes a própria Maria Barroso, um vasto leque de amigos e de familiares da biografada e o arquivo de família, assim se justificando o título, que alia a capacidade da memória e a característica antológica dos eventos, das histórias e das personagens que fazem uma vida.
Quanto aos quatro volumes de correspondência já publicados, o leitor entra nos tempos de ausência de Mário Soares relativamente à família, fosse por estadias longas no estrangeiro, fosse pelos tempos de cárcere ou de desterro. As cartas de Maria Barroso para o marido são um ritual diário nesses tempos de ausência, muito próximas da escrita diarística, relatando o acontecido naquele dia, com considerações a propósito, por onde passam os registos da vida do Colégio Moderno (sobre os professores, sobre a gestão e organização, sobre as inscrições, sobre as obras, sobre as colónias de férias), o acompanhamento dos filhos João e Isabel (nos estudos, nas relações sociais, na educação), o cuidado prestado a familiares (sobretudo ao sogro, João Soares, na vigilância da sua saúde, no acompanhamento, na gestão das relações familiares), a gestão do património familiar (acompanhamento das obras na casa de Nafarros, da actividade no escritório de advocacia de Mário Soares e manutenção da casa de Cortes), as relações sociais (manutenção das amizades e presenças em eventos, muitas vezes em representação do casal ou do marido), a preocupação em minimizar os efeitos do afastamento (fazendo chegar à prisão livros, refeições por si confeccionadas, marcando presença nos escassos tempos de visita), as emoções (provas de afecto, considerações sobre a vida do casal, incentivo contra a solidão e a humilhação do estatuto de preso), a vida cultural em que estava envolvida (leituras, filmagens, sessões de poesia e de teatro).
Percebe o leitor que a intenção de Maria Barroso era a de tornar o mundo familiar presente a Mário Soares, assim impedindo que as interrupções da vida em comum equivalessem a descontinuidades e possibilitando que os projectos em que estavam envolvidos pudessem continuar a ser gizados a dois.
As cartas de Maria Barroso assumem também essa perspectiva de luta contra a solidão, passeando pelos relatos do quotidiano, mas demonstrando ainda as angústias e as dúvidas de quem não quer vacilar, de quem quer ser presente e vencer a distância, muitas vezes confessando o exercício de aprendizagem que aqueles afastamentos lhe proporcionam à medida que cresce a admiração pela forma como o marido enfrenta a adversidade da perseguição política.
No fundo, estas cartas são o retrato, a fixação do tempo comum possível naquelas circunstâncias, uma prova de cumplicidade efectiva na forma de fazer a vida com sentido, sempre com horizontes de esperança, muitas vezes matizados com as cores das plantas do jardim ou com os tons do dia, a evocarem momentos passados ou recortados por alusões a versos e à memória. São cartas que apaziguam quem as escreve e que pretendem idêntico efeito no destinatário, que se alicerçam na partilha e na comunhão para que o sofrimento das lonjuras seja, pelo menos, esbatido. Um belo documento humano e cultural, um bom testemunho de sinceridade e do que pode ser a vida de pessoas que caminham na mesma direcção!

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Homem (e mulher) – “Chego a pensar se de facto os homens merecem tanta ternura, tanta dedicação como aquela que algumas mulheres sabem dar. Afinal de nada serve a amizade, a dedicação, a profunda ternura de anos e anos lado a lado. A mulher chega a certa altura e está velha, gasta e já não serve – há que substituí-la por outra mais jovem, mais válida. Esta confusão, esta inversão de valores ou nos conduzem a uma atitude cínica e egoísta ou nos levam ao desespero. Sinto-me verdadeiramente atordoada com tudo isto!” [Cartas a Mário Soares 1961-1974 (vol. 2) – a propósito do divórcio previsto de um casal amigo, em carta de 19-08-1966]
Esperança – “A esperança é a mais linda flor que eu conheço mas a terra dela é o coração dos homens.” [Cartas a Mário Soares 1961-1974 (vol. 3) – em carta de 29-02-1968]
Olhar em frente – “O voltarmo-nos excessivamente para dentro de nós próprios é que nos conduz muitas vezes a situações de angústia e de nervosismo. Se olharmos para a frente, para o que é jovem e espontâneo, por muito duro que seja o que nos rodeia, por muito violenta e injusta que seja a realidade que tenta esmagar-nos, há sempre maneira de encontrarmos dentro de nós a força e a coragem de seguirmos o nosso caminho, que é o caminho da dignidade e da compreensão humana.” [Cartas a Mário Soares 1961-1974 (vol. 4) – em carta de 11-06-1968]
Palavra – “Duas pequenas palavras, repassadas de ternura e saudade, bastam, por vezes, para animar um coração desolado, para reanimar uma pessoa fatigada.” [Cartas a Mário Soares 1961-1974 (vol. 4) – em carta de 08-07-1968]

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Máximas em mínimas (87) - Júlio César Machado


Amor – “O primeiro amor é muito cantado, mas não lhe fazem nisso favor nenhum, porque realmente o merece; basta ser o único tão isento de amor próprio quanto o amor pode chegar a sê-lo!”
Casamento – “Se quase toda a gente se casa moça, muito moça, é provavelmente por ser essa a idade da audácia, da coragem – estavam com medo que eu dissesse ‘das loucuras’? Nunca!”
Inveja – “A inveja é talvez o único sentimento engenhoso dos portugueses: frouxos de imaginação para tudo mais, são, nesse ramo da sagacidade humana, vivos, espertos e intrépidos.”
Observação – “O espírito de observação desenvolve-se visitando alternadamente as diversas camadas sociais; é necessário ter um pé nas salas e outro nas caixas de teatro: de uma vez na sociedade, de outra na folia; hoje pintores, amanhã burgueses; e principalmente, indispensavelmente, mulheres; quantas mais se conhecerem, melhores auspícios para o observador; a observação vem sobretudo delas, por elas.”
Júlio César Machado. “Prefácio”.
Álbum de caricaturas – Frases e anexins da língua portuguesa (de Rafael Bordalo Pinheiro), 1876.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Antonio Tabucchi, «Mulher de Porto Pim»

Mulher de Porto Pim é um livro de Antonio Tabucchi (Lisboa: Difel, 1986) que tem como motivo os Açores, escrita que surge como resultado de uma estadia no arquipélago, ainda que não se trate de um diário de viagem (“género que pressupõe tempestividade de escrita ou uma memória impermeável à imaginação que a memória produz”).
Aqui se fala de naufrágios, dos baleeiros, da caça à baleia (valendo a pena comparar a narração de Tabucchi com a que Brandão também nos legou em As Ilhas Desconhecidas, da década de 1920), de conversas ouvidas, de histórias contadas e de Antero, essa figura que “sofria de infinito”.
Há história e impressões, há experiência de viajante e de curioso. E há anúncios que passam pela história das baleias e dos açorianos – a baleia como arquétipo e a premonição do fim dos baleeiros (no final do episódio da caça, quando o velho Carlos Eugénio quer saber o motivo de o visitante ter querido participar na saga, há a hesitação e o desabafo: “talvez porque ambos estão em extinção, digo-lhe por fim em voz baixa, vocês e as baleias, penso que foi por isso.”) E há uma narrativa, confiada pelo narrador Lucas Eduíno, que toma para título o homónimo do livro – “Mulher de Porto Pim”, história de Yeborath, cume de beleza, morta com um arpão, narrativa a que não falta a intriga amorosa, a prisão, a morte, o sentimento da traição, o triângulo amoroso, numa acção algo ao gosto camiliano. E há, no final, como “post scriptum”, a personificação num texto como “A baleia que vê os homens”, algo irónico, que deixa o cetáceo a pensar sobre os homens: “percebe-se que são tristes”.

Marcadores

Histórias - «Todas as histórias são banais, o importante é o ponto de vista.»
Curiosidade - «A curiosidade é sempre um óptimo guia.»
Vida - «Por vezes, os passos da nossa vida podem ser guiados pela combinação de poucas palavras.»
Livros - «Todos os livros são estúpidos, há sempre pouco de verdadeiro neles, e contudo li muitos nos últimos trinta anos.»
Mulher - «Uma casa sem uma mulher não é uma verdadeira casa.»
Traição - «A traição verdadeira é quando sentes vergonha e desejarias ser outro.»

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto IX

* “No exacto momento em que estão concentrados a roubar, os ladrões são mais facilmente assaltados que uma velhinha de vista imóvel e passo retrógrado.” (est. 8)
* “Nenhuma descoberta da ciência modifica tão fortemente o rosto de um homem como os momentos de prazer.” (est. 24)
* “A única velharia que chegou intacta ao estúpido século XXI é a do amor.” (est. 32)
* “Certas mulheres bem treinadas são capazes de acariciar com os seus seios mãos desprevenidas e ingénuas. Quem toca em quem, eis a questão.” (est. 68)
* “Fora do trabalho os homens descarregam para o solo a educação (como um peso) e mais leves ficam então preparados para a maldade ou para a diversão. No ócio o rosto desembaraça-se e sozinho ganha um estilo individual; portanto: perigoso.” (est. 70)
* “Quando não há líquidos como o vinho, homens e mulheres comportam-se de modo sério, discutem símbolos e não são abandonados pela inteligência e pela necessidade de a exibir.” (est. 71)
* “Os homens quando têm medo fogem e nessa fuga pisam o chão ou outros animais.” (est. 89)
Gonçalo M. Tavares. Uma Viagem à Índia. Alfragide: Leya / Caminho, 2010.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto IV

* “Como a estaca de madeira que marca um limite importante, a lucidez é uma qualidade que modera os movimentos.” (est. 3)
* “O desespero vê, no metro quadrado onde está, o metro quadrado que tem ao seu dispor; o de olhos optimistas vê, do metro quadrado onde está, o restante mundo, o vasto mundo.” (est. 14)
* “Um fracasso excelente produz inumeráveis formas de um homem se levantar.” (est. 22)
* “A mulher é certamente um elemento humano fora do comum: as casas só não envelhecem porque ela existe. Um cuidado feminino suporta a construção (como o cimento). Uma casa só não cai, se dentro dela existir alguma delicadeza.” (est. 27)
* “Os caixões existem porque são requisitados, e em tempo de guerra o número de pedidos transforma a própria terra num caixão natural.” (est. 36)
* “Todos os vencidos amaldiçoam a guerra, mas os vencedores sensatos também. (…) A conclusão é evidente: a guerra foi inventada por insensatos ou distraídos.” (est. 44)
* “A vida é um objecto rudimentar, tosco, disforme, que nunca os homens entenderam como agarrar. Ainda nem sequer perceberam qual o lado de cima desse estranho objecto. Ainda mal pousaste as mãos sobre a vida e já a vida pousou fortemente as mãos sobre ti.” (est. 50)
* “As folhas caem das árvores altas mais lentamente que um avião, de bem mais alto, num desastre.” (est. 53)
* “Um homem quando dorme está mais próximo da astronomia que da sua cama propriamente dita.” (est. 67)
* “Em qualquer ponto do mundo a velhice mete dó, mas a compaixão provocada nos outros varia de acordo com o hemisfério.” (est. 71)
* “Para deixar de sentir frio não basta olhar para o céu ou para a fotografia de um incêndio: o Inverno prossegue e é independente do local para onde direccionamos os olhos.” (est. 75)
* “Deve chegar-se cansado ao sítio onde se quer envelhecer, pois se chegarmos fortes ainda, e impacientes, arrancaremos de novo. E falharemos o destino.” (est. 80)
* “Um homem não conhece a sua verdadeira ambição até passar por uma tragédia forte, uma tragédia individual. Só se sabe olhar, depois de se aprender.” (est. 97)
Gonçalo M. Tavares. Uma Viagem à Índia. Alfragide: Leya / Caminho, 2010.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto III

* “Antigamente, uma grande cidade era o sítio onde vivia um excelente filósofo, agora uma grande cidade é aquela que tem muitos cidadãos em idade de votar e, pelo menos, um edifício com 140 andares. Se no meio dos 15 milhões existir um homem que pensa: excelente, sim, é certo, mas não indispensável.” (est. 16)
* “As mulheres sempre foram mais minuciosas na vingança. Folheiam-na sem saltar uma página. E tratam das unhas antes de pegar no machado. Pelo contrário, um homem com raiva e ressentimento é atabalhoado, desastrado, incapaz de encontrar a pronúncia perfeita da violência, como se pegasse em ferramentas despropositadas: a charrua para arrancar uma flor, o martelo para ver mais perto.” (est. 27-28)
* “O homem pensa a Natureza como se esta fosse uma mesa a que pode cortar uma das pernas para a endireitar.” (est. 36)
* “O ódio não necessita de grande tecnologia de suporte: bastam duas mulheres para um único homem, ou dois homens para um único território.” (est. 48)
* “Tantos se espantam com o facto de o amor ocorrer em seres vivos de idades muito diferentes, e nenhum assombro perante a bem maior diferença da idade que o ódio liga.” (est. 50)
* “Fazer e desfazer: as duas rectas mais paralelas da espécie humana. Nunca se cruzam.” (est. 64)
* “Ninguém é capaz de se acorrentar a um dia de sucesso como um cão a um poste. Os dias são, em geral, móveis, um autocarro que não pára.” (est. 73)
* “As derrotas devem surgir enquanto somos novos e fortes, pois aí os insucessos fortalecem, enquanto mais tarde poderão enfraquecer.” (est 74)
* “Agir é coisa longa que começa quando aprendemos a caminhar e termina apenas quando morremos ou quando já não temos inimigos.” (est. 79)
* “Bomba subtil e lentíssima, a velhice, a mais primitiva guerra que a Natureza nos declarou.” (est. 85)
* “Uma flor encolhe os ombros quer seja cheirada por uma linda menina de seis anos ou pela fealdade absoluta. Para a bela flor a beleza é insignificante.” (est. 88)
* “Vigiai os crápulas e vigiai os homens que falam manso; há no excesso de fragilidade exibida a preparação de uma maldade.” (est. 99)
* “A legislação de um país é um tratado de paz entre os seus habitantes, mas o ódio entre os homens é bem mais estável do que as leis que os homens estabelecem. Porque o ódio é uma lei da natureza.” (est. 110)
* “A vida é isto: a lua está mais próxima de alguns homens que treinam para astronautas que um prato quente da boca de outros homens. É aquilo a que podemos chamar: distâncias relativas.” (est 114)
* “O amor será útil internamente, mas externamente não carrega um tijolo.” (est. 137)
Gonçalo M. Tavares. Uma Viagem à Índia. Alfragide: Leya / Caminho, 2010.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O "Dicionário Imperfeito", de Agustina Bessa-Luís

O mais recente título de Agustina Bessa-Luís é Dicionário Imperfeito (Lisboa: Guimarães Editores), obra organizada por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira, constituído por “ideias-chave, figuras, trechos significativos na obra de Agustina”, conjunto saído da obra não ficcional da escritora. Com esta obra, a editora inicia também a publicação da “opera omnia” agustiniana, seguindo-se os volumes da edição “ne varietur”.
Com quase meio milhar de entradas, entre “adaptação” e “vocação”, este conjunto de citações percorre os fundamentos e as crenças que constituem a trama da obra de Agustina, contributo importante para se perceber a forma como são urdidas as suas histórias e construídas as suas personagens, além de conter reflexões e ensinamentos sobre a identidade do tempo em que se está.
Por este livro perpassam ainda afirmações sobre pessoas (a começar na própria Agustina, em jeito de auto-retrato, e a continuar em Amadeo de Souza-Cardoso, Aquilino, Ingmar Bergman, Mário Botas, Camilo, Camões, Pascoaes, Dostoievski, Erasmo, Ferreira de Castro, Florbela Espanca, Freud, Greta Garbo, Garrett, Inês de Castro, Richter, Kirkegaard, Miguéis, Manoel de Oliveira, Pessoa, Marquês de Pombal, Régio, Francisco Sá Carneiro, Salazar, Santo António, D. Sebastião, Sidónio Pais, Mariana Alcoforado, Van Gogh, Vieira da Silva, Villon, Conde de Vimioso, Virgílio), sobre sítios (desde a “alma dos lugares” e passando por Barral, Brasil, Coimbra, Espanha, Porto, Foz do Douro, Hiroshima, Lisboa, Nova Iorque, Póvoa de Varzim, Rio de Janeiro, Roma, Sintra, Veneza), sobre sentimentos (amar, amizade, gratidão, sinceridade, simulação), sobre arte (artes plásticas, arquitectura, criação, escrita, literatura, poesia), sobre coisas (automóvel, computadores, guarda-chuvas, livros), sobre política (candidato, CEE, democracia, eleitor, governo, governantes, marcelismo, revolução de Abril), sobre personagens (Moby Dick, Tristão, Isolda, José do Telhado).
Na realidade, o que perpassa por este livro é a obra de Agustina e a sua visão do mundo, do tempo, da história e do país. Define a sua obra como “portuguesa, constituída por sentimentos e gente portugueses até à medula” e, se dúvidas houvesse quanto à importância deste livro para o conhecimento da obra da autora, bastaria ler citações como as encontradas para mulher (“O homem faz tentativas duma obra, a mulher opera sem necessidade de completar alguma coisa. Ela é um ser completo, princípio e fim, lugar, caso, dispersão do conflito em que a própria morte se descreve, se anuncia.”), pátria (“Eu amo a minha pátria para além dum comovido aldeanismo; amo-a como símbolo de todos os mundos de que somos parte. Acho que ela está reduzida a um cadáver de ideias e de actividades; a notícia política é como uma poeira que não deixa ver a cara das pessoas e as suas verdadeiras expressões.”), infância (“A infância vive a realidade da única maneira honesta, que é tomando-a como uma fantasia. Não tentem explicar o mundo a uma criança, que ela saberá despistar as provas oferecidas. Não lhe interessam provas, mas sim mistérios. Os adultos desempenham o papel de desmancha-prazeres: porque vigiam, porque ensinam, porque desprezam a imaturidade.”), fama (“Não há mal em não ter muita importância. Todo o calendário do comportamento humano está traçado para mentirmos a respeito dos nossos desejos e dos nossos humores. O homem não quer ser famoso; quando o é, isso resultou da sua harmonia com as suas aptidões e as necessidades colectivas. Mas é coisa que não se força, que não se ordena, apesar de as leis do marketing dizerem o contrário.”) ou educação sexual (“Fala-se do sexo como da colheita do chá em Tabriz, para usar linguagem do Eça. Mas do desejo ninguém fala. O desejo é temível porque nasce do impreciso e da ambiguidade. Todos os programas escolares que versam a educação sexual são duma perfeita boçalidade. O homem não se explica pelo que nele se regista, mas sobretudo pelo que nele se contempla. O desejo escapa à prática. É um espírito e, portanto, volátil. No olhar nublado dum adolescente vereis que ele entende isso, e cala.”).
Útil, pois, esta obra, que pode constituir uma iniciação a Agustina ou uma conclusão de Agustina. Pena, no entanto, que não sejam indicadas as fontes das citações. Ainda que a fonte seja a própria Agustina, certo é que, se houvesse indicações bibliográficas, por mínimas que fossem, seria interessante contextualizar as citações e ficar um repositório de bibliografia sobre a autora.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Rostos (55)

Monumento à mulher da Nazaré, na Nazaré