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quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Lucien Descaves e as andorinhas numa sociedade em guerra

 


“A guerra não dizima apenas os combatentes e os feridos, ou os doentes, a quem a paz pôs fim rapidamente. Também têm de constar nos boletins informativos de perdas os pais e as mães que respiraram esses gases asfixiantes, a angústia e a saudade, e que morreram obscuramente.” A citação surge a poucas páginas do final do romance Uma Andorinha no Telhado, de Lucien Descaves (E-Primatur, 2024), uma narrativa que ocorre num tempo entre Dezembro de 1914 e Julho de 1919, algures no Norte de França, numa vila designada pelos topónimos fictícios de Bourg-en-Thimerais ou Bourg-en-Forêt, que ganha protagonismo por acolher refugiados vindos da região francesa do Aisne durante a Primeira Grande Guerra.

Descaves (1861-1949) teve uma vida que lhe permitiu assistir a três grandes conflitos bélicos — a guerra franco-alemã de 1879, a Primeira Grande Guerra (1914-1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) —, experiências que o tornaram crítico da vida militar e da actividade política. Tendo publicado desde cedo, a sua última obra, de cunho autobiográfico, data de 1946, mas o derradeiro romance que publicou, Uma Andorinha no Telhado, é de 1924 (a edição portuguesa ocorreu no centenário da obra), originariamente divulgado em 41 folhetins diários no periódico Le Journal, entre 11 de Junho e 21 de Julho de 1923. Logo que a narrativa saiu em livro, o crítico Georges Le Cardonnel escrevia no mesmo jornal (28.Abr.1924) que se estava perante uma obra importante no domínio do romance histórico, pois seria possível, numa leitura mais tardia, “encontrar a atmosfera e a cor de uma pequena cidade durante a Grande Guerra”, considerando-a, sobretudo, “um romance de costumes” em torno de figuras, “com os seus defeitos, qualidades, virtudes e baixezas”, que caracterizam “o formigueiro humano”.

A história revela-nos características da sociedade de província, espaço em que todos se conhecem (nas coisas boas e menos boas), em que as divergências políticas acentuam os julgamentos sobre as atitudes de uns e de outros, em que a maledicência entre adversários ou produzida pela coscuvilhice se alimenta da perfídia (que “adora o mistério e as subtilezas”), em que se adoptam rivalidades silenciadoras do contacto e do bom relacionamento, em que se jogam opiniões fabricadas para desmerecer o outro. Simultaneamente, o leitor acompanha o percurso de uma personalidade romântica que morre por amor (amava e julgava-se amada, optando pelo suicídio quando soube que o homem por quem se apaixonara tinha morrido na frente de batalha), assim como entra na vida de outra personagem que, à boa maneira naturalista, gira em torno dos cogumelos, procurando-os e explicando tudo o que a ciência sobre eles sabe, bem como se confronta, ao modo realista, com uma sociedade alicerçada sobre problemas resultantes da chegada de outros (migração interna de mulheres e de crianças, motivada pela fuga dos locais em que a guerra mais atingia os mais frágeis, ou espaço de refúgio para feridos em recuperação).

O título deste romance assenta na simbologia associada à andorinha, mensageira da Primavera ou boa companhia temporária, metáfora da esperança, personificada na presença de duas crianças refugiadas, oriundas da mesma região, uma em cada família de acolhimento, que vão sendo o garante da crença que essas famílias têm de que os seus filhos (um de cada) regressem da frente de guerra sãos e salvos — as crianças funcionam assim como substitutos de outros jovens (ainda que mais velhos) que regressarão às suas origens quando estes chegarem do campo de batalha (se o ciclo não se quebrar), processo não alheio ao fenómeno da superstição, que o próprio narrador teoriza: “Uma crença não é imune a superstições, pelo contrário. As superstições são as plantas parasitas do jardim religioso. Não as arrancamos; deixamo-las invadir as áleas que não embelezam, mas consideramo-las medicinais, e é isso que as salva.”

Constituído por 22 capítulos, o ritmo deste romance não é alheio àquilo que se exige da publicação em folhetim, um constante apelo à atenção do leitor para o cativar. As descrições não são longas, o diálogo e a acção são intensos, os comentários críticos (muitas vezes, irónicos) aos contextos são expressivos pelo que retratam ou pelo que fazem pensar, o desfecho de algumas situações surpreende o leitor. Não sendo um romance sobre a frente de combate (tema em que a literatura francesa sobre a Grande Guerra é rica, seja no domínio do autobiográfico, seja no da ficção), é, sem dúvida, como dizia o crítico já mencionado, Georges Le Cardonnel, “um pequeno estudo sobre a humanidade e sobre a sociedade, num terrível período em que o país se teve de reorganizar na guerra”.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1592, 2025-09-03, pg. 10


sexta-feira, 13 de outubro de 2023

O aluno Camus e o professor Germain (1)

 


Em 17 de Outubro de 1957, o Diário de Lisboa noticiava o nome do Prémio Nobel da Literatura desse ano, que a Academia Sueca revelara no dia anterior: “o escritor francês Albert Camus, pela sua importante obra literária que põe em relevo os problemas que hoje se apresentam à consciência dos homens.” Cerca de um mês depois, em 19 de Novembro, o laureado escrevia uma carta a Louis Germain (1884-1966), que fora seu professor no ensino primário: “Caro Professor Germain, Deixei que acalmasse um pouco todo o ruído que me envolveu nos últimos dias, antes de vir falar-lhe um pouco e de coração aberto. Acabam de me conceder uma grande honra, que não busquei nem pedi. Mas, quando soube da notícia, o meu primeiro pensamento, depois da minha mãe, foi para si. Sem o senhor, sem essa mão afectuosa que estendeu à pequena criança pobre que eu era, sem o seu ensinamento e exemplo, nada disto me teria acontecido.”

Esta é uma das vinte cartas trocadas entre Albert Camus (1913-1960) e o seu mestre, que integram a obra Caro Professor Germain - Cartas e Excertos, acabada de publicar (Livros do Brasil, 2023), pela primeira vez editadas em França no ano passado, embora algumas delas fossem já conhecidas.

Com a publicação desta correspondência, facilmente se percebe o significado do professor para o escritor franco-argelino. Já no seu romance A peste (1947), era feita uma referência ao papel do professor - “Não se felicita um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Felicitar-se-á talvez por ter escolhido essa bela profissão.” E talvez não possamos ler esta citação sem saber que, dois anos antes, se dera o reencontro entre o ex-aluno Camus e o professor Germain, adiado desde que se tinham conhecido na Escola Comunal de Belcourt, em Argel, no início da década de 1920. 

Se Camus só contactou o professor cerca de um mês depois de ser conhecida a atribuição do Nobel, a resposta do mestre demorou apenas três dias - em 22 de Novembro, desde Argel, Germain congratulava-se com a honra do discípulo e com o reconhecimento que este expressara e desabafava: “São muitos os alunos que tenho encontrado ao longo da vida e que me dizem conservar de mim uma boa recordação, apesar da minha severidade quando era preciso. A razão é muito simples: amava os meus alunos e, de todos eles, um pouco mais aqueles que a vida desfavorecera.” Esta explicação servia para Albert Camus, cujo pai, combatente na Grande Guerra, falecera na batalha do Marne, em 1914, e servia também para Germain, que combatera na mesma guerra até ao final (embora tenha sido ferido na batalha de Nieuport), se justificar: “Quando me vieste parar às mãos, ainda estava sob o golpe da guerra, da ameaça de morte que, durante cinco anos, ela fez pesar sobre nós. Eu consegui voltar, mas outros, com menos sorte, sucumbiram. Vi-os como camaradas infelizes, tombando e confiando-nos os que cá deixavam. Foi pensando no teu pai, meu caro rapaz, que me interessei por ti, como me interessei por outros órfãos de guerra. Amei-te um pouco por ele, o melhor que pude, não tive outro mérito. Cumpri um dever sagrado a meus olhos.”

Camus nunca esqueceu os ensinamentos do professor Germain. Quando, num acidente de automóvel, faleceu, em 4 de Janeiro de 1960, estava a escrever um romance, que ficou inacabado e só foi publicado em 1994, O primeiro homem, obra repleta de referências autobiográficas em que são intervenientes as personagens Jacques Cormery, um possível alter-ego de Camus, e “Monsieur” Bernard, professor que deixa perpassar a imagem de Germain - aliás, em dado passo do manuscrito, Camus deixa escapar a verdadeira identidade da personagem, escrevendo: “Dans la classe de M. Germain, pour la première fois, ils sentaient qu’ils existaient et qu’ils étaient l’objet de la plus haute considération” (“Na aula do Senhor Germain, pela primeira vez, eles sentiam que existiam e que eram objecto da mais alta consideração”).

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1163, 2023-10-11, p. 8.


quarta-feira, 2 de março de 2022

Einstein, Freud e a guerra



Entre 1933 e 1935, o Instituto Internacional de Cooperação Intelectual (surgido em Paris, em 1925, dependente da Sociedade das Nações), antecessor da UNESCO, publicou quatro volumes de correspondência entre reconhecidos pensadores sobre questões prementes para a civilização. O segundo, Porquê a guerra?, reuniu duas cartas trocadas entre Albert Einstein (1879-1955) e Sigmund Freud (1856-1939), de que há diversas traduções portuguesas (Publicações Europa-América, em 2007; Cultura Editora, em 2017; revista Visão - Biografia dedicada a Einstein, de Novembro de 2021).

Ambas as cartas (datadas de 1932), com a brutalidade da Grande Guerra (1914-1918) no horizonte, foram publicadas em 1933, ano em que Hitler ascendeu a chanceler na Alemanha e iniciou a perseguição aos judeus naquele país, contexto que levará os dois subscritores, pelas suas origens, a conhecerem o exílio.

De Potsdam, em 30 de Julho, a missiva de Einstein questiona: “existe alguma forma de libertar a Humanidade da ameaça da guerra?” A pergunta surge porque “aqueles cujo dever é abordar o problema de forma profissional e prática estão apenas a tornar-se mais conscientes da sua impotência para lidar com ele”. Defensor dos direitos humanos e pacifista, Einstein advoga a “constituição, por consenso internacional, de um organismo legislativo e judiciário para ajuizar cada conflito que surja entre as nações”, embora mantendo as reticências, pois “um tribunal é uma instituição humana”, com veredictos que podem ser limitados “por pressões extrajudiciais”. Consciente da “ânsia pelo poder que caracteriza a classe governante”, interroga-se sobre as razões por que esta minoria consegue “dobrar a vontade da maioria”, vulnerável e sofredora, concluindo que escolas, imprensa e igreja ao lado da minoria favorecem o estado de coisas. Outras questões: como levam estes órgãos os seres humanos a sacrificarem as suas vidas? Terá o homem dentro de si, latente, o sentimento do ódio e da destruição? E será possível controlar este sentimento destrutivo? Einstein acreditava que Freud sugeriria “métodos educativos, situados mais ou menos fora do âmbito das políticas”, eliminadores destas incongruências, abordando “o problema da paz mundial à luz das suas descobertas mais recentes”.

Em Setembro, Freud respondia de Viena, explicando o problema a partir da sua especialidade. Primeiro: “os conflitos de interesses entre homens são resolvidos pelo uso da violência”, seguindo o que “é uma verdade em todo o reino animal”, apenas se substituindo a força muscular pelas armas. Segundo: uma das facções tem de ser inutilizada, seja pela morte ou pela intimidação. Depois, a violência pode encontrar resistência na união da comunidade, na lei, mas as leis passam a ser feitas pelos mais fortes e, consequentemente, podem “determinados governantes colocar-se acima das proibições que se aplicam a todos os outros”, passando da esfera da lei para a da violência, levando os “oprimidos” a “constantes esforços para obterem mais poder” e alterações. Quanto ao conflito entre comunidades, quase sempre resolvido pelas armas, acaba no saque ou “pela completa deposição e pela conquista de uma das partes”. Dada a explicação, Freud concorda com Einstein, defendendo “a criação de uma instância suprema e a necessidade de a empossar do poder necessário” como construtores da paz.

Freud conclui aproximando-se de Einstein - “a principal razão pela qual nos rebelamos contra a guerra é porque não o conseguimos evitar fazer”, crendo que “a atitude cultural e o medo justificado das consequências de uma futura guerra” determinarão “um fim à ameaça da guerra”. A única certeza é aquela com que fecha a mensagem: “o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra”.

Infelizmente, a barbárie tem prosseguido, quase um século depois. E a civilização continua a perder...

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 797, 2022-03-02, pg. 9.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

Grande Guerra - Saudação aos combatentes palmelenses


Os deputados da coligação PSD/CDS da Assembleia Municipal de Palmela apresentaram voto de saudação aos combatentes palmelenses que participaram no Corpo Expedicionário Português (CEP), na Primeira Guerra Mundial, iniciativa que teve unanimidade.
O concelho de Palmela já anteriormente homenageou os seus combatentes e aqueles que tombaram na Grande Guerra, como, por exemplo: na exposição “Quadros da Guerra 2015” (entre Setembro e Dezembro de 2011); na exposição bibliográfica “Quando os Portugueses andaram na Grande Guerra”, na Biblioteca Municipal de Palmela, entre 14 de Janeiro e 11 de Fevereiro de 2012; na inauguração de memorial a propósito, em 1 de Novembro de 2012; na “newsletter” do Arquivo Municipal de Palmela de Setembro de 2013, em que foi dado destaque aos combatentes palmelenses mortos durante o conflito. Abaixo se reproduz notícia sobre a moção apresentada pela coligação PSD/CDS, saída em O Setubalensede hoje.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Para a agenda: "Tudo se desmorona - Impactos culturais da Grande Guerra em Portugal"


Elemento central do tríptico "Tropa de África", de José Joaquim Ramos

“Tudo se desmorona - Impactos Culturais da Grande Guerra em Portugal” é o título de uma exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian desde 30 de Junho, com curadoria de Pedro Aires de Oliveira, Carlos Silveira e Ana Vasconcelos, que pode ainda ser visitada até 4 de Setembro, segunda-feira.
A exposição, inaugurada no segundo dia do colóquio internacional “Ninguém Sabe que Coisa Quer - A Grande Guerra e a Crise dos Cânones Culturais Portugueses” que teve lugar na Fundação entre 28 e 30 de Junho, pode ser acompanhada pelo jornal-catálogo intitulado O Mundo Derrubado, que integra os textos-roteiro da exposição (pena que não inclua a cronologia que vai sendo mostrada ao longo da exposição) e os estudos “Semear ventos, colher tempestades: a República e a Grande Guerra” (de Pedro Aires de Oliveira), “A Guerra nas letras” (de Luís Augusto Costa Dias) e “Memória da I Guerra Mundial: um projecto republicano” (de Sílvia Correia).
Muito mais do que pretender mostrar o que foi a Guerra, esta exposição debruça-se sobre as repercussões dessa mesma Guerra na vida portuguesa em diversos sectores: na arte, nas relações e nas tensões sociais, na política, na imagem dos militares, nos hábitos de consumo. E possibilita ver algumas peças raras e outras que nunca terão sido expostas ao público (como o tríptico “Tropa de África”, de José Joaquim Ramos).
O visitante pode cruzar-se com fotografias da época, com primeiras edições de obras de relatos da Guerra, com páginas jornalísticas do tempo, com alguns objectos, sons, músicas e filmes que retratam o momento. Pode ainda encontrar-se com a memória e não é em vão que a última secção aborda a memória construída sobre esse período, seja assinalando o papel da Liga dos Combatentes e as campanhas de apoio aos regressados da Guerra, seja com os desenhos e maquetas de monumentos que ficaram para a perpetuação da memória da participação portuguesa.
A não perder!

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Filatelia evoca participação portuguesa na Grande Guerra



A participação portuguesa na Grande Guerra (1914-1918) é tema de uma emissão filatélica promovida pelos CTT com data de hoje.
Esta evocação é constituída por três selos, cada um deles homenageando um dos ramos das forças armadas que, em nome de Portugal, intervieram nas operações: um, de 0,50 €, evocando a força aérea, em que se destacam a figura do tenente Lello Portela (que participou no maior número de missões de combate e teve maior tempo de permanência no "front") e a imagem do aeroplano SPAD VII; um, de 0,63 €, lembrando a participação da marinha, mostrando o comandante Afonso de Cerqueira (que chefiou o Batalhão Expedicionário da Marinha do Sul de Angola) e o NRP Adamastor; um, de 0,85 €, destacando o exército, pondo em relevo a figura do soldado Aníbal Milhais (conhecido por "Milhões", herói do 9 de Abril) e um momento da instrução do CEP.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Para a agenda - Quando Azeitão foi à Grande Guerra



De Azeitão também partiram homens para a Grande Guerra, indo ao encontro de cenários como os de África e da Flandres. Quem foram? Num tempo em que, a propósito do centenário, se lembra a dor, o sofrimento e as implicações, há também tempo para evocar e conhecer os protagonistas sem decisão, os anónimos que ajudaram a fazer a História, ainda que não fosse esse o caminho por eles escolhido. Uma abordagem da Grande Guerra de um ponto de vista local, regional. No Museu Sebastião da Gama, em Azeitão, com a colaboração de Pedro Marquês de Sousa, estudioso desta época e deste evento. Para a agenda!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Meneses Ferreira: "À luz do lampadário"



Em 4 de Agosto de 1918, o capitão Humberto de Ataíde suicidava-se em Moçambique para evitar a humilhação de ter de entregar ao inimigo o posto que comandava. O gesto valeu-lhe o reconhecimento e o louvor, chegando Meneses Ferreira a dedicar-lhe o livro À luz do lampadário (Lisboa: Ed. Autor, 1927) nos seguintes termos: “À sagrada memória do Capitão Humberto de Athayde, ferido cinco vezes em combate e que, na Grande Guerra em Moçambique, pelo orgulho da sua farda, se suicidou em frente das tropas inglesas”.
O livro é composto por dezoito quadras (que usam o decassílabo e a rima alternada) e ilustrações do próprio autor, mas é antecedido por uma nota em prosa contra as intromissões estrangeiras na administração das colónias, como era, na altura, o caso do porto da Beira. Já em 30 de Abril de 1925, em crónica publicada no Diário de Lisboa sob o título “Carta a um colonial do Chiado sobre a influência inglesa na cidade da Beira”, Norberto Lopes se queixava  do ambiente inglês que dominava a cidade, chegando mesmo ao ponto de dizer que os caixeiros se dirigiam aos clientes das lojas em inglês antes de usarem a língua portuguesa, que o jornal ali existente era em inglês, que ele próprio se sentia “estrangeiro em território nacional”, para concluir de forma quase apocalíptica: “Se o dinheiro inglês fomenta e desenvolve este pedaço da nossa África Oriental, nem por isso ele deixa de constituir amanhã um perigo para a soberania portuguesa.” Revoltado com um certo estado de subserviência relativamente ao estrangeiro, o poeta de À luz do lampadário refugia-se na Batalha para ouvir a voz “d’Aquele que, pela integridade dos territórios de Além-Mar, caiu para sempre, mordendo a terra conquistada pelos nossos Maiores”.
Logo na primeira quadra, o poeta ilustra o cenário em que lhe foi dado ouvir a mensagem, um ambiente de silêncio e de luz, ingredientes necessários para a meditação e para que a voz do Soldado Desconhecido se tornasse audível, ou, por outras palavras, para que a memória aflorasse – “À doce claridade que se espalha / nas naves do Mosteiro adormecido, / à luz do lampadário da Batalha / Assim falou o Herói Desconhecido”. A segunda quadra, sendo o início do discurso do Herói, é uma acusação (contra a interferência estrangeira) e uma justificação para o que se vai seguir (uma chamada de atenção): “Voltam de novo à terra apetecida / as aves de rapina em hora incerta… / Acorda, sentinela adormecida! / Soldado português, alerta! Alerta!”
A mensagem envereda depois pela lembrança de vários heróis portugueses, todos considerados exemplares – o Fundador, o Príncipe Perfeito, o Infante Santo, descobridores, Salvador Correia, Mousinho, coronel Galhardo e João Coutinho (“heróis de Marraquene”, em finais do séc. XIX), Martins de Lima, capitão Roçadas, Leopoldo da Silva e os mortos de Nevala e, finalmente, Humberto de Ataíde, trazido para o poema como último herói, mas com uma acção diversa da que cometeu – “Humberto de Ataíde, o teu exemplo / Não deve ser seguido desta vez…”. O nome é invocado pelo que simboliza de patriótico, mas é usado para apelar à energia do soldado português – “Vamos! Sacode os vendilhões do Templo! / Levanta-te, soldado português!...” O que vai sendo valorizado em todos estes nomes, individuais ou símbolos do colectivo, são traços como a humildade, o valor, o sangue vertido, o tormento, a coragem, chegando esta voz a manifestar-se contra a perda da memória (“Recorda a pouco e pouco a minha história, / vencendo o esquecimento em que mergulho”) e a chamar a atenção para os padrões e monumentos, provas absolutas desse heroísmo necessário.
A intenção apelativa e imperativa sobre o soldado português aparece várias vezes ao longo do poema com o objectivo de impelir este destinatário para a acção, que, surge claramente expressa nas duas últimas quadras: “Erguei-vos todos já para acusar / aqueles que, por ódio e por traição, / queiram vender, trocar, alienar / o santo património da Nação!... // Contra o Porto da Beira apetecida / a trama vil, enfim, foi descoberta! / Acorda, sentinela adormecida! / Soldado português, alerta! Alerta!”
O texto é, sem dúvida, de teor panfletário, jogando com símbolos fortes para os combatentes – o poder do desafio feito pela memória, o sofrimento do soldado desconhecido e heróico, as referências de personalidades históricas que se destacaram na vida militar. Uma década depois do termo da Grande Guerra, este texto era um toque a reunir para a defesa do património histórico e do território e para a reafirmação da soberania, vindo de um autor, João Guilherme de Meneses Ferreira (1889-1936), que, sendo também ele militar (embarcou para Angola em Setembro de 1914, comandado pelo general Roçadas, e esteve em França, integrando o CEP), pautou a sua obra pelo anti-belicismo e por um sentir humanitário como bem o provam os títulos João Ninguém – Soldado da Grande Guerra (1921), texto de onde não está arredio o humor aplicado à participação portuguesa, e O Fuzilado (1923), novela em torno de um combatente louvado que um dia resolve deixar de combater. Com tal sentir humanitário, o refúgio do poeta só podia ser junto de um dos símbolos intensos para os combatentes portugueses da Grande Guerra: na Batalha, onde, seis anos antes, em 10 de Abril de 1921, se inaugurara o túmulo do Soldado Desconhecido, para ali tendo sido transladados os corpos de dois soldados, um falecido em África (Moçambique) e outro em França, escolha espacial que acaba por dominar a mensagem…

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Vincent Bernard: Uma cronologia da Grande Guerra



São 120 páginas de referências cronológicas relacionadas com a Primeira Grande Guerra, umas telegráficas, outras com algum desenvolvimento, aquilo que Vincent Bernard apresenta em Petite Chronologie de la Grande Guerre (Col. “Repères d’Histoire”. Bordeaux: Éditions du Sud Ouest, 2014), num horizonte que se inicia em 28 de Junho de 1914 (“pelas 10 horas da manhã, em Sarajevo… primeiros tiros”, referindo o atentado ao arquiduque Francisco Fernando) e se conclui em 10 de Novembro de 1920, com o “soldado desconhecido” depositado no Arco de Triunfo. Apesar deste limite temporal, a cronologia tem ainda uma entrada alusiva a 3 de Setembro de 1939, data em que “a França e a Inglaterra declaram guerra à Alemanha nazi”, o que estabelece a ponte entre as duas Guerras Mundiais que marcaram o século XX…
O tempo passa por este livro num registo do dia a dia, sobretudo organizado para o leitor francês, com apontamentos em que entram as operações militares terrestres, marítimas e aéreas, a tecnologia e o armamento, a intervenção política e a diplomacia, a economia e a sociedade, a vida na retaguarda e a cultura. Tão amplo espectro de informação trazido para uma cronologia é justificado pelo autor nos seguintes termos: “Si le monde de 1918 n’est plus celui de 1914, ce n’est pas seulement parce que les poilus français, landser allemands, tommies anglais, diggers australiens ou autres doughboys américains ont combattu et souffert dans un véritable enfer, c’est aussi parce que la guerre même, en tant qu’événement, en tant que rupture historique, a orienté en profondeur la marche du monde, l’a fait entrer véritablement dans le XXe siècle, ce siècle si proche mais que, déjà, s’enfuit tout doucement de nos mémoires.” Assim, em jeito de preservar e de ajudar a memória, Bernard pretende que esta obra ajude “à la découverte des jalons essentiels de cette Grande Guerre mondiale de quatre ans dans toutes ses dimensions”.
Para cada ano do conflito é escolhido um título interpretativo que ajuda a uma leitura dos acontecimentos: “1914 – La fin d’un monde”, “1915 – L’épouvantable enlisement des tranchées”, “1916 – L’année des batailles titanesques”, “1917 – Année charnière ou année de trop?”, “1918 – D’une nouvelle guerre à l’amère victoire” e, finalmente, “Épilogue, 1919-1920 – Paix européenne ou règlement provisoire?”. O leitor vai avançando nas datas e assiste à construção do puzzle que levou ao recrudescimento do conflito, às intrigas, à movimentação, à paragem, às implicações, à destruição, à morte, à movimentação política e militar, ao sofrimento, ao desfazer dos impérios, ao nascimento de um novo mapa europeu, passo a passo, como quem acompanha o trajecto em todas as frentes. Assiste a execução de prisioneiros, à morte de artistas e de outras personalidades participantes (Charles Péguy, Alain Fournier, Alfred Lichtenstein, Henry Moseley, Charles de Foucauld, von Richtoffen, Roland Garros, Guillaume Apollinaire), ao sofrimento que não poupou ninguém (Georges Braque, Blaise Cendrars, Henri Barbusse), ao episódio dos táxis do Marne e à destruição conhecida pelo “Chemin des Dames”, ao primeiro apelo à paz entre os beligerantes lançado pelo Papa Bento XV, à confraternização natalícia entre soldados inimigos, à primeira utilização do gaz de combate, ao aparecimento dos tanques, aos bombardeamentos sobre Paris, aos raids sobre Londres e sobre Colónia, à violência de Verdun e de Somme e às várias (doze) ofensivas sobre Isonzo, à mudança do papel da mulher, à queda e ascensão de políticos e… em 13 de Outubro de 1918, ao gazeamento e evacuação do cabo Adolfo Hitler.
Relativamente a Portugal, há uma dezena de referências que acompanham o que se passou nas colónias em África e o que foi o Corpo Expedicionário Português, tais como: em 26 de Outubro de 1914 (“Les Allemands pénètrent en Angola portugais, et donc théoriquement neutre”), em 23 de Novembro de 1914 (“Le gouvernement portugais annonce une coopération accrue avec le Royaume-Uni”), em 23 de Fevereiro de 1916 (“Les autorités portugaises saisissent les navires allemands sur le Tage”), em 9 de Março de 1916 (“Le Portugal rejoint l’Entente – Après des mois de collaboration militaire anglo-portugaise, de nombreux incidentes dans les colonies et la réquisition par Lisbonne des navires allemands sur le Tage, Berlin régularise une situation diplomatique exécrable en déclarant la guerre au Portugal. Le Portugal prépare un petit corps expéditionnaire pour la France et entreprend de renforcer ses positions dans les colonies d’Afrique”), em 15 de Março de 1916 (“L’Autriche-Hongrie déclare à son tour la guerre au Portugal”), em 8 de Agosto de 1916 (“Le gouvernement portugais étend sa coopération avec l’Entente au front européen”), em 3 de Janeiro de 1917 (“Les premières unités du corps expéditionnaire portugais, qui doit comprendre deux divisions et se battre au sein de l’armée britanique, débarquent en France”), em 17 de Junho de 1917 (“Le corps expéditionnaire portugais est engagé pour la première fois sur le front de l’Ouest”), em 9 de Abril de 1918 (no âmbito da operação Georgette, uma ofensiva alemã que pretendia fazer recuar os britânicos até à Mancha, “le corps expéditionnaire portugais, en particulier, est presque anéanti par la violence de l’assaut allemand”), em 1 de Julho de 1918 (“Les petites forces allemandes du colonel von Lettow-Vorbeck, poursuivant leur petite guerre face à des forces de l’Entente infiniment supérieures, atteignent Namyakura, en Afrique portugaise (Mozambique actuel)”).
A obra carece da indicação da bibliografia consultada, sobretudo quanto à origem ou fontes de datas de outros países que não a França. Quanto a índices, parte importante neste tipo de obras, existe apenas um “de personalidades” quando poderia haver também um geográfico.
Apesar das deficiências que uma obra deste tipo possa conter, obrigados somos a reconhecer tratar-se de um bom contributo de condensação da História que fez crescer a Europa como ela é, que permite consulta e informação rápidas, ainda que limitada ao estilo de uma cronologia (sublinhada no título com o adjectivo “petite”).

domingo, 7 de dezembro de 2014

O Natal de 1914 e a confraternização dos dois lados da "terra de ninguém"


Recordação de um Natal... em 1914, na fúria das trincheiras. Ou de como o homem pode construir a paz! Na "Revista" do Expresso de ontem (nº 2197, pg. 114), a memória assinada por Luís Pedro Nunes sobre o Natal em que soldados dos dois lados da trincheira confraternizaram, umas tréguas decididas por eles mesmos, sem a concordância ou a autorização das chefias. Já era sabido, como o autor lembra, que "a humanização do inimigo é o pior que um general pode desejar às suas tropas"...


sábado, 2 de novembro de 2013

Primeira Grande Guerra com o "Expresso" de hoje



A colecção “Grandes Batalhas da História de Portugal”, que o semanário Expresso tem vindo a oferecer aos leitores desde há sete semanas, chega hoje ao fim, com a obra Grande Guerra 1914-1918, assinada por Aniceto Afonso.
Quando estamos a pouco tempo de começar a assinalar o centenário do início dessa hecatombe, em que Portugal participou, é bom relembrar e contextualizar o que foi a entrada do nosso país no conflito mundial e Aniceto Afonso tem sido um estudioso da questão desde há muito.
Em 120 páginas, temos o essencial, não faltando a notícia do envolvimento de Portugal em África e na Flandres, a história militar, a estratégia, o quotidiano na frente de guerra, as memórias de quem por lá andou, os olhares da política da altura, a história do último fuzilado português, a inevitável batalha do Lys e uma cronologia orientadora no final do volume.
Um bom pretexto para o leitor se encontrar com uma fatia da memória de Portugal.