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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (5)

 


Quando Serra-Mãe saiu, Sebastião da Gama empenhou-se na sua divulgação, quer nas ofertas aos amigos e aos mais próximos, quer no envio para quem pudesse ser o seu leitor crítico. Uma das primeiras dedicatórias (talvez a primeira) terá sido para Joana Luísa da Gama, quando, tendo como data o Natal de 1945, o poeta autografou: “Para Ti, Amor, porque sabes ler os meus versos com uma voz que já se não distingue da minha.” Outras dedicatórias autógrafas existem, mas não datadas, ainda que se pense que serão do tempo entre a saída do livro e o ano seguinte — Mário Beirão (1890-1965) recebeu exemplar dedicado com traços da serra (“Para Mário Beirão, alma inquieta provida de clarões, a quem, na Arrábida, desceu a sombra de Agostinho a dar as boas-vindas”); no exemplar que seguiu para Miguel Torga (1907-1995), era manifestada a admiração pela obra já publicada do escritor e médico (“Ao Poeta admirável das Odes e de tudo o mais que me faz ser seu”); Luís Amaro (1923-2018), o amigo que conhecera no espaço da editora, teve o valor da amizade a iluminar a dedicatória (“Para o Luís Amaro: Nada mais me trouxera a Serra-Mãe do que a tua amizade e já tinha valido a pena”).

No mesmo dia 18 de Dezembro de 1945 (data em que o livro apareceu na montra da livraria, em Lisboa), Sebastião da Gama fez seguir um exemplar para José Régio (1901-1969), mas não terá havido resposta imediata, pelo que, em 7 de Fevereiro de 1946, o poeta azeitonense escrevia de novo para Portalegre: “É tão grande o interesse em que leia os meus versos e me diga, sem receio de melindrar-me se lhe não agradarem, o que pensa deles que me atrevi a vir pedir-lhe isso mesmo, contando com a sua benevolência.” Três meses depois, em 25 de Maio, era Teixeira de Pascoaes (1877-1952) o destinatário de uma carta em que o jovem poeta se apresentava: “Deixe-me dizer-lhe quem sou, para me perdoar um pouco a sem-cerimónia que tomei: sou um rapazola de vinte e dois anos que aprendeu a ser Poeta na Serra da Arrábida. Ali fui medrando entre moitas de alecrim e rochas penduradas sobre o Mar – e no Dezembro passado dei ao público o meu primeiro livro – Serra-Mãe. (...) Agora gostaria que lesse os meus versos com um bocadinho de carinho. E, se eles o merecessem, que me mandasse algumas palavras, que hão-de ser sinceras como as árvores, sobre o que sente da Serra-Mãe.”

Em data que não se consegue precisar, Régio respondeu, em jeito de explicação e de apreciação: “Devo dizer que terá tido influência em tal demora a perplexidade que me tolhe ao ter de pronunciar qualquer juízo sobre uma obra como a sua. Claro que esse juízo pode enganar-se ou errar — mas nunca deixar de ser sincero. Perante o meu Amigo, perante as gentilezas que me tem dirigido, e sobretudo pela influência que sinto das minhas coisas literárias no seu livro, a minha situação é ainda mais delicada. Creio que o seu livro é uma obra de hesitação e promessa, na qual o talento literário se torna incontestavelmente visível, como visíveis se tornam as influências várias. (…) É um livro que já promete muito e nos deixa à espera.” De Coimbra, Miguel Torga responderia, em 18 de Maio de 1946: “Nem posso medir o feito nem adivinhar o que está por fazer, louvo o que entendo e espero o porvir de boa-fé. Ora é isso o que me acontece agora com o seu livro. Não gosto de muita coisa que lá vem, e tenho dificuldade em vislumbrar os seus caminhos futuros. Mas estou em presença de um Poeta que escreveu: ‘Pequeno Poema’, ‘Nós’, etc. Resta-me, pois, festejar o que me parece conseguido, que é muito, e dar tempo ao tempo.”

De Amarante, Pascoaes não terá enviado resposta, mesmo apesar de nova insistência saída do Portinho da Arrábida em 6 de Agosto de 1946 — “Há talvez três meses mandei-lhe uma carta e o meu livro Serra-Mãe; sei que não é o senhor desses poetas que se calafetam dentro das suas torres de louros e não abrem a mínima frincha para falarem por ela a um camarada mais novo: por isso mesmo, lhe mandei o livro; e por isso mesmo tenho estranhado o seu silêncio. (...) Gostaria de saber qual o eco, se o tiveram, que os meus versos tiveram nuns e noutros.” Mesmo com esta persistência, parece não ter havido reacção de Pascoaes, uma opinião tanto mais importante para Sebastião da Gama quanto o poeta do Marão tinha já escrito sobre a Arrábida e sobre Frei Agostinho da Cruz. Aquando da sua viagem ao Norte, em meados de Setembro de 1951, acompanhado por Joana Luísa (sua esposa desde Maio desse ano), Sebastião da Gama marcou encontro com Pascoaes, relatado em crónica que publicou no Jornal do Barreiro, em 11 de Outubro de 1951 — da leitura de tal texto se conclui, como apontou António Mateus Vilhena (em ensaio sobre a correspondência de Gama para Pascoaes publicado em 2019), que “um dos assuntos que polarizou o diálogo (...) foi seguramente a Arrábida”. E, de toda a conversa, uma frase de Pascoaes impressionou o visitante: “A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.” Não contendo estas afirmações uma apreciação ao livro inaugural do jovem, reforçam, pelo menos, o sentido de oportunidade da obra Serra-Mãe como um momento importante para o canto e para o louvor da Arrábida, pelo que terá sido, talvez, a melhor apreciação que Pascoaes poderia ter feito à obra...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1670, 2026-01-07, pg. 9.


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Contributo de Daniel Pires para a bibliografia setubalense (1)



Começarei por duas citações, uma de um poeta, outra de um editor, ambas de quem escreve e vive os livros — a primeira, de José Tolentino Mendonça, que nos lembra que “em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada”; a segunda, de Serafim Ferreira, a considerar que “o livro será o melhor instrumento para decifrar todos os códigos e desvendar os paraísos artificiais (ou não) que pela eternidade hão de alimentar a aventura do homem”.

A razão destas escolhas cruza-se com o papel que Daniel Pires tem tido no enriquecimento do que podemos chamar uma bibliografia setubalense, não só pelo contributo que tem trazido desde há muitos anos para os estudos bocagianos —editando a obra de Bocage (nas Edições Caixotim, entre 2004 e 2007, e na Imprensa Nacional, entre 2017 e 2018) ou contribuindo para o seu estudo (Bocage e o Livro na Época do Iluminismo e Bocage - A Imagem e o Verbo, ambos de 2015, Bocage ou o Elogio da Inquietude, de 2019, O Essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage, de 2023, além de outras obras em que colaborou), títulos necessariamente relacionados com Setúbal, quer pelas circunstâncias biográficas, quer por algumas alusões, ainda que escassas, de Bocage à sua região de origem —, mas também pelo que tem posto a descoberto no domínio do conhecimento sobre Setúbal, fazendo ressurgir textos do pó dos tempos e construindo outros a partir das suas investigações e demandas por arquivos e bibliotecas várias, todos eles iluminando o que tem sido a aventura da identidade na região dominada pela Arrábida.

E será justamente pela serra que entramos, uma vez que, como tema, ela consta já na tradição literária portuguesa, desde, pelo menos, o século XVI. Durante muito tempo, referências literárias da Arrábida foram dominadas por uns poucos nomes, a começar em Frei Agostinho da Cruz, passando por Alexandre Herculano e desaguando em Sebastião da Gama. No entanto, a persistência de Daniel Pires e de António Mateus Vilhena possibilitaram ao leitor a pluralidade dos muitos olhares que sobre a Arrábida têm surgido na literatura lusa, desde que, em 2002, publicaram a obra A Serra da Arrábida na Literatura Portuguesa. Se, nessa edição, nos mostraram cerca de meia centena de poetas que versejaram sobre a serra que Pascoaes confessou ser o verdadeiro “altar da Saudade”, como nos contou Sebastião da Gama depois da visita que lhe fez em Setembro de 1951, quando saiu a segunda edição, em 2014, o número de autores subia já para cerca de oito dezenas, com textos escritos num período temporal entre o século XVI e 2014, valendo a pena atentar na justificação que os antologistas apresentam nos prefácios de ambas as edições: a pretensão foi a de “dedicar especial atenção ao património cultural da cidade de Setúbal, contribuindo, desta forma, para a sua valorização e para a preservação de uma memória que faz parte integrante da nossa identidade”, tarefa resultante de investigação “metódica em vários arquivos e bibliotecas nacionais”, partilhando textos que estavam “dispersos por livros ou periódicos de muito difícil acesso”, assim contrariando “a impossibilidade da sua fruição pela maioria das pessoas”.

No mesmo ano de 2014, os dois investigadores avançaram também na publicação da obra Descrição da Arrábida, a partir de manuscrito guardado na Biblioteca Nacional, contendo o texto do franciscano madeirense Inácio Monteiro, assim pondo a descoberto uma obra de referência no domínio da literatura de viagens em Portugal, simultaneamente um bom exemplo da “estética literária barroca”, que descreve “a paisagem envolvente” e os dois conventos arrábidos, dá “informações relevantes no domínio arquitectónico” e apresenta “ampla visão da natureza em estado puro e uma panorâmica de resultado da acção humana sobre ela exercida.” Este trabalho, construído no confronto de dois manuscritos e de uma versão publicada no jornal O Azeitonense (em 1920), trouxe ainda luz sobre o seu autor, que, até esta edição, se supunha ser um jesuíta oriundo do Norte do país, com vida feita em Roma e falecido em Ferrara...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1412, 2024-11-13, pg. 10.

 

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Olhar a Galiza com Ramón Villares



O título, foi Ramón Villares (n. 1951) buscá-lo ao verso de Teixeira de Pascoaes que abre o livro Marânus - “Galiza, terra irmã de Portugal” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2022), ensaio sobre a identidade do noroeste espanhol e sobre as suas relações com Portugal, estendido por onze capítulos. O recurso à literatura portuguesa passará além do título, pois, em diversas ocasiões, são invocados autores lusos, tal tem sido a aproximação cultural, reconhecendo Villares que a obra foi redigida “em diálogo com a história portuguesa e com as suas principais linhas de força”.

O propósito da monografia torna-se claro logo desde a introdução - “explicar aos leitores portugueses que a Galiza não é portuguesa e que, inversamente, atravessar a fronteira para o Norte não significa entrar em Espanha, mas sim numa ‘terra irmã’ muito diferente de Castela”.

A designação “Galiza”, antiga no tempo, referia inicialmente o espaço ocupado pelos “habitantes das terras mais distantes do conjunto da Hispânia na época da conquista”. Apesar dos sucessivos movimentos históricos, a região é apresentada pelo autor como dotada de “uniformidade cultural” e de “marcada humanização da paisagem”, dando razão a Miguel de Unamuno (1864-1936), que a classificara como “natureza humanizada, feita mansão do homem” (em Por tierras de Portugal y de España). Factor importante para essa unidade tem sido a língua, o galego, durante muito tempo mantida pelo campesinato e considerada desde 1978 como uma das “demais línguas espanholas”, advinda do galaico-português, recordando Villares as razões da separação por um rio entre o galego e o português: “a língua falada e escrita a sul do Minho alcançou um grande desenvolvimento com o apoio institucional da corte de Lisboa, enquanto a língua a norte do Minho careceu de referências políticas e institucionais e começou a ser satelizada pela língua castelhana a partir do final do século XIV”. Outro factor de identidade apontado para a Galiza é o da cultura cristã, com particular enfoque em Compostela, pólo religioso intenso de construção consensual, constituindo um dos vértices da geografia espiritual europeia.

Questões determinantes para a Galiza de hoje foram, no século XX, a progressiva alteração de propriedade no mundo rural, a emigração para a América do Sul e a influência que os emigrantes tiveram na preservação da identidade e a afirmação cultural galega (através de nomes incontornáveis como Rosalía de Castro, Eduardo Pondal, Curros Enríquez, Alfonso Castelao ou Otero Pedrayo, ou por via de movimentos como as Irmandades da Fala, em 1916, a geração da revista Nós, em 1920 - título simbolicamente curioso e forte de afirmação identitária -, ou o Seminário de Estudos Galegos, de 1923).

O derradeiro capítulo, significativamente intitulado “Fronteira, irmandade e cooperação”, remete para as relações entre as margens norte e sul do rio Minho. Caberá aqui lembrar o monçanense João Verde (1866-1934), na oitava que abre o livro Ares da Raia (1902) - “Vendo-os assim tão pertinho, / A Galiza mail’o Minho, / São como dois namorados / Que o rio traz separados / Quasi desde o nascimento. / Deixá-los, pois, namorar, / Já que os pais para casar / Lhes não dão consentimento.” - versos que ecoaram Galiza fora, tendo Amador Saavedra (1864-1932) respondido: “Con ou sin consentimento / D’os pais o tempo há chegar / Em que teñam que pensar / Em facer o casamento”.  As relações entre o Norte de Portugal e a Galiza, se bem que tendentes a esbaterem o distanciamento, denotam, segundo Villares, ainda os “muros simbólicos que não cairão, a menos que haja uma forte vontade política e cívica”, que pode ser um caminho de futuro.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 869, 2022-06-15, p. 9.


domingo, 2 de abril de 2017

Sebastião da Gama não está nesta fotografia


O Público de hoje, a propósito do congresso sobre Teixeira de Pascoais realizado em Amarante, traz o texto a duas páginas "Teixeira de Pascoais: O mago do Marão regressa ao cânone" (Público: 2017-04-02, pp. 18-19), assinado por Luís Miguel Queirós. Uma fotografia de arquivo de Teixeira Pascoais ilustra o artigo com a seguinte legenda "Teixeira de Pascoais com Sebastião da Gama, em Gatão", também ela ocupando parte das duas páginas.


Com efeito, a figura da esquerda é o poeta amarantino; contudo, à direita, não é Sebastião da Gama quem aparece. Também não sei dizer quem é o retratado amigo do poeta do Marão. De facto, Sebastião da Gama visitou Pascoais na sua casa em Gatão em 14 de Setembro de 1951, num encontro que comoveu o poeta de Azeitão e em que a conversa girou, entre outras coisas, em torno da simbólica do Marão e da Arrábida, como Gama viria a testemunhar numa crónica que depois publicou na imprensa e está reproduzida na obra O Segredo é amar.
Há registo fotográfico desse encontro, conforme se documenta, vendo-se um Teixeira de Pascoais já mais velho (um e outro acabariam por falecer no mesmo ano, em 1952):


Não é esta primeira vez que Sebastião da Gama surge associado a uma legenda errada. Já na obra O Grande Livro dos Portugueses (Lisboa: Círculo de Leitores, 1990), registo enciclopédico sobre individualidades portuguesas, a ficha sobre Sebastião da Gama reproduz uma sua suposta fotografia, mas que não passa disso mesmo, pois o retratado é alguém que não consigo identificar, mas que não é Sebastião da Gama. Certo é que essa mesma fotografia povoa muitas páginas da net como sendo a figura do poeta, quando, na verdade, não passa de uma suposição errada.
Compreende-se a razão de ser do lapso: em grande parte das fotografias dos arquivos não surge a data nem a referência aos fotografados e, num esforço de interpretação ou por testemunhos incertos ou traídos pela memória, há a tendência (e o risco) de identificar. Compreende-se o esforço, da mesma forma que se compreende o erro...

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Para a agenda: Dos poetas da Arrábida



Onde se vai falar da Arrábida e dos seus poetas. Uma perspectiva cultural sobre a Arrábida. Com temas interessantes a cargo de quem deles sabe. Em 22 de Janeiro, na Casa da Cultura, em Setúbal. Para a agenda.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Raul Brandão: de que cor são os Açores?

Em 13 de Maio de 1924, Raul Brandão escrevia a Teixeira de Pascoaes carta em que dizia: “Vou partir para Lisboa dentro de alguns dias e no dia 5 de Junho para os Açores (…). Conto demorar-me por lá dois meses e trazer notas para Os Pescadores e Os Lavradores e naturalmente um volume As Ilhas Desconhecidas sobre o Corvo, as Flores e o Pico.” Quando regressou, já datada da casa do Alto, de 7 de Setembro, Brandão enviava missiva ao amigo, rejubilando: “A viagem aos Açores foi esplêndida. Deve dar um livro interessante – quando eu o puder escrever.” (Raul Brandão – Teixeira de Pascoaes: Correspondência. Org.: António Mateus Vilhena e Maria Emília Marques Mano. Lisboa: Quetzal, 1994).
Dois anos depois saía, com efeito, As Ilhas Desconhecidas, conjunto de momentos e de retratos dessa viagem noticiada a Pascoaes, com registos datados do período entre 8 de Junho (a bordo do “S. Miguel”, rumo ao Corvo) e 29 de Agosto de 1924 (embarcado na Madeira para regressar ao continente). Na abertura, “em três linhas”, Brandão explica: “Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões. (…) Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nos leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos!...”
As notas reunidas por Brandão assinalam as emoções do viajante, mesmo aquelas que dão para reflexão sobre os mais caros temas ao homem, como a vida e a morte e a fronteira que as une – logo no primeiro capítulo, para descrever a fragilidade do barco, refere: “Toda a noite esta coisa complicada que é um transporte a vapor range pavorosamente como se fosse desconjuntar-se; toda a noite sinto a água bater no costado e a máquina pulsar contra o meu peito. A ideia da morte não nos larga: separa-nos do caos um tabique de não sei quantas polegadas.” O título do livro deixa adivinhar o que era o conhecimento destas ilhas na década de 1920 e todos os registos brandonianos caminham no sentido de anular esse desconhecimento, seja pelo tempo lá passado (longo, ainda que por causa dos transportes, cheio de minúcia e de descobertas), seja pela observação e chegada ao interior das pessoas e traçado dos elos que as ligam à paisagem.
As imagens das ilhas são surpreendentes – sobre S. Jorge: “Esta ilha esguia, que parece um grande bicho à tona de água, mostra-me no focinho penedos aguçados como dentes”; sobre o Pico: “uma nuvem branca e esguia cortou o Pico pelo meio e o cone sai da nuvem suspenso no ar por milagre” ou “está ali presente como um vagalhão que vai desabar sobre o Faial”; sobre as Sete Cidades: “as Sete Cidades é também a alma duma paisagem. As grandes paisagens que morrem a alguma parte hão-de ir ter… Deus colocou-a aqui, delicada e virgem, no fundo desta cratera tremenda, entre o fogo e o caos; rodeou-a de solidão e de montes; pôs-lhe à volta, para a defender, o mar”; sobre o Corvo: “O Corvo é uma democracia cristão de lavradores”; sobre as ilhas: “o espectáculo imenso que se desenrola diante de meus olhos atónitos dá-me impressão de que as ilhas nascem do mar e se vão formando à nossa vista pela mão do criador”.
As figuras humanas merecem um tratamento de proximidade, quer pelo relato das histórias de vida ouvidas, quer pelo tratamento das personagens pelo seu nome real, quase dando a impressão de que o narrador-viajante se integrara na família e se apropriara dos seus segredos. Outra coisa não seria de esperar de quem, a dada altura, estipula como princípio seu: “Aqui só uma coisa a fazer: não é olhar para fora, é olhar para as almas”. E é o mundo do trabalho, a dificuldade de viver, a comunidade, a solidão, a ligação da homem ao território, um conjunto de recursos da paleta humana ao dispor do observador.
Da paisagem açoriana sobressaem a cor, os campos, as quintas e jardins. Circulando no Faial, deixa-se cativar pela tonalidade das hortênsias para desabafar: “O homem que teve a ideia de bordar as estradas com estas plantas devia ter uma estátua na ilha”. Aliás, esta preponderância das hortênsias e do seu azul-ferrete levá-lo-á a definir a cor açoriana – “o azul que enche a terra e nunca mais acaba e que é talvez o verdadeiro céu dos Açores”.
É um viajante sequioso de conhecimento e de contemplação que se vai conhecendo a si próprio até ao ponto de dizer, inebriado pela maravilha e sensibilizado: “Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente”. Esta ideia de infinito, de resto, perpassa várias vezes e, conjugada com o deslumbramento que sente pela riqueza dos caracteres humanos – haja em vista o capítulo sobre a caça à baleia ou aqueloutro em que fala dos pescadores, por exemplo – o viajante nestas ilhas deixa-se arrebatar: “Oh! Quem me dera ser patrão dum barco e ir de ilha em ilha abicar aos portos, de barrete azul adebruado de vermelho na cabeça e a mão no leme”…
À Madeira dedica Brandão capítulo curto, em que, apesar de apreciar a cor, mais quente, lhe fica a sensação dominante de algum desconforto – “Esta ilha é um cenário e pouco mais – cenário deslumbrante com pretensões a vida sem realidade e desprezo absoluto por tudo o que lhe não cheira a inglês. Letreiros em inglês, tabuletas em inglês e tudo preparado para inglês ver e abrir a bolsa.” Esta conclusão servir-lhe-á para um retrato social impiedoso dos madeirenses: “Cada vez se cava mais funda a separação entre as classes chamadas superiores e as outras. O que se faz neste país é um crime que havemos de pagar muito caro”. Em causa estavam também conceitos de turismo, entre a familiaridade e a indústria que começava a ser: “Detesto o turismo e adoro a hospitalidade. (…) Uma nação não deve ser um hotel – e Deus nos livre que o seja!”
Apesar desta sensibilidade na apresentação do que eram as “desconhecidas” ilhas, Brandão não se consegue desviar do seu estatuto de visitante. Ainda em S. Miguel, no início desse Agosto, escreverá: “Devo dizer que já me cansa um pouco e que anseio por outra luz… Começo a ter saudades do velho muro do meu quintal, tostado do sol, onde se criam as sardónicas, os líquenes amarelos e rosados, e até mesmo as pedras amadurecem como as uvas!...” E o relato desta viagem terminará com essa homenagem à luz, quando, já na bacia de Cascais, fotografa: “a luz irrompe, uma luz alegre, uma luz que vibra toda, uma luz em que cada átomo tem asas e vem direito a mim como uma flecha de oiro. No céu imenso e livre, o sol bóia como num grande fluido. Portugal!...”
O que entusiasma na escrita de Brandão é essa multiplicidade da cor, fortemente matizada, intensamente definida, algo que decorre de uma escrita que navega sobre a sensibilidade. Como António M. B. Machado Pires referiu no prefácio de As Ilhas Desconhecidas (Col. “Obras Completas de Raul Brandão”. Lisboa: Editorial Comunicação, 1987), “Raul Brandão era um emotivo, no que esta palavra, de semântica vaga, quer significar de predomínio das primeiras impressões e sentimentos sobre a elaboração cerebral, uma espécie de ‘matéria-prima’ de sentimento, ‘em bruto’, passada ao papel: assim escrevia principalmente Brandão.”

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“As figuras horríveis da vida e do inferno não são as atormentadas – são aquelas cujos traços se esquecem.”
“Nenhum sonho se chega a concluir – o sonho não cabe no mundo.”
“A exuberância, quando é impetuosa, fica a dois dedos da destruição.”
“O mar é a vida – mas o mar é também a imagem da realidade ou do inferno, que é tudo a mesma coisa.”
“Quem pode acreditar na morte, no frio horrível e eterno, diante da natureza que nos estende os braços cheia de flores e de perfumes em pleno inverno?”

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sobre as maravilhas naturais

Vista do Portinho da Arrábida (em 2004)

As “Sete Maravilhas Naturais de Portugal” foram conhecidas na noite de ontem: Lagoa das Sete Cidades (Zonas aquáticas não marinhas), Portinho da Arrábida (Praias e falésias), Floresta Laurissilva da Madeira (Florestas e matas), Paisagem Vulcânica da Ilha do Pico (Grandes relevos), grutas de Mira de Aire (Grutas e cavernas), ria Formosa (Zonas marinhas) e o Parque Nacional da Peneda-Gerês (Zonas protegidas).
Aqui pela nossa zona ficou o Portinho da Arrábida, praia absolutamente bela, que não valerá a pena descrever, sob pena de tudo o que se diga saber a pouco. Obviamente, fico contente, porque acredito na beleza do Portinho da Arrábida desde que o visitei pela primeira vez, há cerca de quatro décadas.
Pelo caminho ficou a Arrábida, que era também uma das candidatas, o que não admira sendo a Arrábida um conjunto de paradoxos onde se misturam a beleza natural – fascinante, reconheça-se – e o aproveitamento industrial – triste, mas bem mais antigo do que a criação do Parque Natural, reconheça-se também.
A propósito da Arrábida, quando, na semana passada, o Expresso publicou uma reportagem fotográfica intitulada “Arrábida esventrada”, repleta de cenários dantescos e destruidores da paisagem da serra, achei-a tão demagógica quanto seria apenas artística uma reportagem de sinal contrário, apresentando apenas as belezas arrabidinas.
Não sei se é possível haver conciliação da Natureza com a utilização que o homem dela faz. Acredito que sim. E, no caso da Arrábida, essa será uma opção a seguir, a ser pe(n)sada. A Arrábida não foi uma das “Sete Maravilhas” em termos de concurso, é verdade; mas bem sabemos que a Arrábida é uma das maravilhas, com ou sem concurso. Não foi por acaso que Teixeira de Pascoais disse a Sebastião da Gama, num encontro havido em 1951, algo como (cito de cor): “A Arrábida é o altar do mundo; eu pu-lo no Marão porque sou daqui.” E já nessa altura havia indústria à conta da serra… noutras doses, é certo, mas havia.
Queiramos ou não, as maravilhas naturais não são o resultado de um concurso, mas a consequência da beleza que sentimos num determinado espaço, num dado momento, algo próximo do paraíso, afinal.

Portinho da Arrábida, visto por Hélène Beauvoir (in Panorama, 1941)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rostos (145) - Teixeira de Pascoaes

Monumento a Teixeira de Pascoaes, em Amarante (António Duarte, 1978)

domingo, 18 de outubro de 2009

A "Nova Águia" em torno de Pascoaes, com a sua voz

O quarto número da revista Nova Águia (Sintra: Zéfiro, nº 4, 2º semestre 2009), sob a direcção de Paulo Borges, Celeste Natário e Renato Epifânio, já está na rua. O tema de capa é “Pascoaes, Portugal e a Europa”, que reúne abundante e diversificada colaboração, podendo considerar-se conjunto de bibliografia indispensável para o entendimento do pensar de Pascoaes.
Outro contributo importante deste número da revista para o conhecimento do poeta do Marão é a inclusão de um cd reproduzindo a leitura do texto “A alma ibérica” pelo próprio autor, Teixeira de Pascoaes, boa oportunidade para conhecer a voz do poeta que faleceu há mais de meio século (1952) e para ouvir um texto bonito sobre a Ibéria, onde, a dada altura, é dito: “A Ibéria é um corpo e uma alma. (…) O osso ibérico deu o esqueleto de Cervantes; a carne lusitana deu o coração de Mariana e o misticismo panteísta de Fr. Agostinho da Cruz, uma espécie de Francisco de Assis, em ingénua miniatura ou do tamanho da Arrábida.” E, quase no final da gravação, a Arrábida e o poeta de Ponte da Barca (que faleceu em Setúbal) voltam à voz de Pascoaes, depois de falar do sentimento de Unamuno relativamente a Portugal e à identidade ibérica, dizendo que “a expressão elegíaca da Ibéria, a mesma que recebemos na leitura de Fr. Agostinho” é a Arrábida, “olimpo místico e saudoso”.
Deste fascínio de Pascoaes pela Arrábida já nos testemunhara Sebastião da Gama em texto publicado no Jornal do Barreiro (nº 73, 11.Outubro.1951), sob o título “Carta de Setembro – Visita a Teixeira de Pascoaes” (depois incluído na obra O segredo é amar). Em 14 de Setembro desse ano, com Joana Luísa, sua mulher, Sebastião da Gama viajara até Amarante com a intenção de visitar Pascoaes, a quem ia oferecer os seus livros. Regressado desse encontro, em 23 de Setembro, ainda com a memória fresca, Sebastião da Gama redigiu a crónica para o periódico barreirense, testemunhando: “Na semana passada fui ver o Tâmega e o Marão. Fui ver S. Gonçalo de Amarante (…) Ali a dois passos ficava Pascoaes, o cantor do Marão e do Tâmega. Quis conhecê-lo. Tinha obrigação de conhecê-lo. (…) Era a gratidão pela sua poesia. Era mais: que eu fui à sua casa como um peregrino (…). E Pascoaes apareceu. (…) De repente, estávamos a conversar como velhos amigos. (…) Eu levava só a credencial de vir da Arrábida. Mas tanto bastava para aquele homem simples me receber de braços abertos. (…) E mais ainda ouvi-lo dizer: A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte. Foi quando tive pena que Pascoaes não tivesse nascido na Arrábida. (…)”
Em torno do tema que a revista escolheu para este número, estão presentes os seguintes autores: Pinharanda Gomes (“Pascoaes e a alma da Europa”), Pedro Teixeira da Mota (“Da actualidade de alguns ensinamentos de Teixeira de Pascoaes”), Pedro Martins (“Da Terceira Idade à Segunda Vinda: Algumas notas sobre o Messianismo de Pascoaes”), Paulo Borges (“Índias espirituais e ilusão em Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa”), Miguel Real (“O perfil de Portugal segundo Teixeira de Pascoaes”), Maria Luísa de Castro Soares (“Ser Português e Ser Universal na obra de Teixeira de Pascoaes”), Manuel Ferreira Patrício (“A saudade e a pátria no Livro de Memórias de Teixeira de Pascoaes”), Luís Loia (“A arte de ser Português e a necessidade da educação para a Portugalidade”), Luís G. Soto (“A metade da vida na estrada de Europa”), José Lança-Coelho (“Teixeira de Pascoaes no Diário de Torga”), Fátima Valverde (“Teixeira de Pascoaes e René Char face à grandeza universal do teatro”), Dirk Hennrich (“A terra tardinha em Teixeira de Pascoaes”), César António Molina (“Teixeira de Pascoaes, poeta filósofo”), Celeste Natário (“Teixeira de Pascoaes: Uma metafísica da saudade”), António Telmo (“O passeio que ficou por contar”), António José Borges (“Idealismo e ética: Saudades futuras da nova arte de ser português”), António Cândido Franco (“Nota corrida sobre o pensamento geo-estratégico de Teixeira de Pascoaes”), Samuel Dimas (“Regresso ao paraíso celestial”), Rui Martins (“Pascoaes: Um testemunho vivo das maleitas e dos tormentos do Portugal de ontem e de hoje”), Risoleta C. Pinto Pedro (“A Europa como reflexo da imagem verdadeira”), Renato Epifânio (“Entre Portugal e a Europa: Cinco notas e uma interrogação”), Paulo Feitais (“Portugal, o rosto da Europa? Para uma ética do encontro e da perdição”), José Eduardo Franco (“Polónia, país gémeo de Portugal na Europa”), José Telles de Menezes (“Muros e sebes: Da cidade murada às aldeias a oeste do éden”), Joaquim Miguel Patrício (“Portugal e a Europa numa era global”), João Bigotte Chorão (“Europa, Europas”) e Adriano Moreira (“Europa, a matriz do Ocidente”).
[Fotos: capa do nº 4 da revista Nova Águia e encontro de Sebastião da Gama com Pascoaes em Setembro de 1951.]

sábado, 21 de março de 2009

Em louvor da poesia, no seu dia

Em meados de Setembro de 1951, Sebastião da Gama estava no Norte de Portugal. Um dos objectivos dessa viagem, feita na companhia de Joana Luísa, sua mulher, era visitar Teixeira de Pascoaes e assim conhecê-lo, por fim, pessoalmente. Esse encontro realizou-se e é público, por testemunho publicado pelo poeta da Arrábida, que entusiasmou os dois escritores.
Chegado desse périplo nortenho, Sebastião da Gama escrevia, em 22 desse mês, uma carta a Manuel Breda Simões, director da revista Sísifo, respondendo a uma missiva chegada de Coimbra. O teor era um conjunto de respostas a quatro perguntas, que Breda Simões tinha enviado, em jeito de questionário, esclarecimentos que constariam, segundo o seu autor, numa antologia da poesia portuguesa a publicar.
A quarta (e última) pergunta era: "Que pensa da Poesia em geral e da sua própria Poesia?". Sebastião da Gama respondeu-lhe desta forma: "Minhas ideias acerca da poesia. Vide: 'Louvor da Poesia', in Campo Aberto. Será tudo? Olhe que a resposta ao nº 4 não é para posar. É que só nos versos sei o que penso da Poesia."
Sebastião da Gama já não chegou a ver as suas respostas impressas. Elas saíram no nº 4 da Sísifo, número que abria com a notícia da morte de Sebastião da Gama, entretanto ocorrida (7 de Fevereiro de 1952). Além dessa notícia e da carta de Sebastião da Gama, a revista publicava ainda o poema "Anunciação", até aí inédito (integrado no livro póstumo Pelo sonho é que vamos, publicado em 1953), e o referido "Louvor da Poesia" (que fora publicado em Campo aberto, em 1951).
Este poema ficou, então, como um testamento poético, quase. Mais recentemente, aquando da construção do Parque dos Poetas, em Oeiras, em 2003, esse poema foi escolhido para ser gravado no chão do Parque, numa das entradas, a chamar a atenção para a defesa da poesia.
Foi também esse o texto que escolhi para assinalar o Dia Mundial da Poesia que hoje se celebra.


Louvor da Poesia


Dá-se aos que têm sede,
não exige pureza.
Ah!, se fôssemos puros,
p'ra melhor merecê-la...


Sabe a terra, a montanhas,
caules tenros, raízes,
e no entanto desce
da floresta dos mitos.


Água tão generosa
como a gente que a bebe,
fuja dela Narciso
e quem não tenha sede.
[Foto: Parque dos Poetas, em Oeiras]

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Sobre heróis (de ontem e não de hoje...)

Na habitual rubrica “Viagens na história” que assina na revista Tempo Livre, João Aguiar escolheu para título deste mês “Como o tempo passa!” (Tempo Livre. Lisboa: INATEL, nº 195, Julho/Agosto.2008, pg. 54). O texto foi escrito em época das euforias do Euro 2008 e pretende falar de heróis…
Nuno Álvares Pereira (séc. XIV), Luís de Camões (séc. XVI), Luís da Câmara Pestana (1863-1899), Aníbal Augusto Milhais (mais conhecido por “soldado Milhões”, 1895-1970) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952) são os cinco heróis portugueses escolhidos por João Aguiar, homens que, “nos seus diversos domínios, conseguiram realizar obras verdadeiramente importantes que marcaram o rumo da nossa História”, cada um deles por uma boa razão – pela genialidade estratégica e pelo misticismo, pela poesia e pelo aventureirismo, pela luta contra a peste bubónica, pela acção na 1ª Grande Guerra e pelo prestígio na cultura, respectivamente.
E que tem isto tudo a ver com o Euro 2008? Eis a conclusão, de necessária leitura para rejeitarmos os excessos que nos foram impingidos, com a ajudinha costumeira da comunicação social, em tempo de simultaneidade de crise e de construção de heróis:

Poderá já vir um pouco fora de tempo, porque a época do Euro 2008 já passou… Mas esta opinião ajuda a perceber a grandeza dos desgostos assim como os excessos a que aderimos!

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Sebastião da Gama e a Arrábida

A Arrábida desde cedo se revelou a Sebastião da Gama. Nascido em Azeitão, vila mesmo encostada à serra, para lá ele ia passear ainda em criança. A mãe registou e passou o testemunho de uma primeira quadra que o infante terá feito depois de um desses passeios, marcada pela linguagem infantil, mas contendo logo a que seria a principal linha temática do que viria a ser a sua poesia: “Fui passear / à serra da Arrábia / e encontrei / uma mulher grávia”.
A partir dos 14 anos, por razões de saúde, a sua vida teve de se concentrar na zona do Portinho da Arrábida. Ali, entre mar, céu e serra, Sebastião da Gama irá continuar a demandar e a desvendar os segredos da Arrábida, que passará por muitos dos seus poemas, que será calcorreada até à exaustão e que ocupará o título do primeiro dos seus livros, Serra-Mãe, saído em 1945.
Dois anos depois, em finais de Agosto de 1947 (tinha ele 23 anos), perante a provável destruição da Mata do Solitário, escreveu a jornais e a individualidades, clamando contra a degradação da serra e… teve eco. Já antes, em finais de 1942, aquando da construção da estrada pelo alto da serra, trouxera a defesa daquela paisagem para um dos seus poemas, “Tradição”, curiosamente nunca publicado em livro, mas que percorreu já revistas, e programas de divulgação de temática ecológica:

Os engenheiros vieram, mediram, olharam…
Havia árvores velhas…
Mandaram deitar abaixo
e os homens deitaram.

Sem lamentos, sem ais,
as árvores caíram…
Mas os engenheiros não puseram mais;
em seu lugar apenas
três cardos enfezados refloriram.

E os cardos vis são gritos de revolta
das sombras errantes pelo Ar;
das sombras que tinham por abrigos
aqueles freixos antigos
que o machado foi matar.

As sombras gritam, mas os engenheiros
Não põem freixos novos no lugar.


Para a Arrábida convidará muitos dos seus amigos de Lisboa, estudantes universitários como ele – David Mourão-Ferreira e Luís Filipe Lindley Cintra mergulharão também nos segredos e nas belezas da serra, levados pelo sentir de Sebastião da Gama. Ali conhecerá muita gente, a pretexto das suas deambulações pela serra e pelas praias e por causa da frequência da estalagem que a família instalara no forte, no Portinho. Entre outros, citem-se os encontros com Miguel Torga e com o rei Umberto de Itália.
Pela poesia de Sebastião da Gama passam muitas imagens da serra e do mar, como os exemplos demonstram:
“tudo fala verdade ao pé do mar…” (in “Canção Inútil”)
“rendas de Som o Mar foi levantando…” (in “Nocturno Primeiro”)
“eu gosto de te ouvir, ó Vento!...” (in "Baixinho”)
“a poesia da Serra adormecida…” (in “Serra-Mãe”)
“vi / os poucos metros que vão / da minha Serra às Estrelas…” (in “Vida”)
“a Serra é catedral / onde o órgão-Silêncio salmodia” (in “Oração da Tarde”)
“Ó Serra (…) aonde a Primavera, quando chega, / já se encontra a si própria a esperar-se!” (in “Versos para eu dizer de joelhos”)
“O mato cheira como dantes… Fala / comigo como dantes, reza, escuta…/ E o perfil da Montanha, como dantes, / adoça-se no escuro…” (in “Regresso à Montanha”)
Em 1949, produziu um dos mais lindos textos até hoje publicados sobre as terras em volta da Arrábida, A região dos três castelos, destinado a roteiro turístico por conta da Transportadora Setubalense, em que o leitor faz a viagem saindo de Cacilhas e passando por Sesimbra, Arrábida, Setúbal e Palmela, vivendo o deslumbramento das paisagens. Ainda nesse mesmo ano, a revista Flama publicou um texto seu que revelava aos leitores qual o fascínio que a serra sobre ele exercia: “O mais difícil não é ir à Arrábida (…). Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte (…); o que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido.” Foi, aliás, esta sacralização que constituiu tema de conversa entre Sebastião da Gama e Teixeira de Pascoaes no encontro que, em Amarante, ambos tiveram em meados de Setembro de 1951 – segundo registo memorialístico do poeta azeitonense, publicado no Jornal do Barreiro nesse mesmo ano, Pascoaes ter-lhe-á dito: “A Arrábida é que é o altar da saudade; eu pu-lo no Marão, porque sou do Norte…” Depois, Sebastião da Gama conclui: “Tive pena que Pascoaes não tivesse nascido na Arrábida.”
[fotos: Glória Dias]