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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (4)

 


Por meados de Setembro de 1945, Sebastião da Gama era apresentado ao crítico João Gaspar Simões (1903-1987), a quem foi entregue o esboço de Serra-Mãe para apreciação, conforme o poeta relatava à amiga Matilde Rosa Araújo, em carta de 20 desse mês: “Fui ontem apresentado ao Gaspar Simões. Simpático, gordo, baixo. Cabelos à Bocage. O Pedro de Andrade quis que ele lesse o livro. A edição é caríssima e quer ter quem o anime a arriscar. Espero que Sua Excelência não torça o nariz.”

Não conhecemos a opinião de Simões sobre o que poderia ser a estreia de Gama; mas podemos imaginá-la se lermos o que, em 1951, o mesmo Gaspar Simões escreveu sobre a publicação do terceiro livro de Sebastião, não apresentando opinião muito favorável sobre a anterior obra do poeta de Azeitão: “o autor de Campo Aberto, que, antes de escrever e publicar os versos deste livro escrevera e publicara versos muito diferentes, (...) procurando ser inspiradamente moderno, confundia a inspiração com a retórica, a ênfase com a adivinhação e o galimatias com a analogia” (crónica reproduzida em Crítica - II, 1962). Se não conhecemos em absoluto a opinião emitida pelo crítico em 1945, o que sabemos é que, datada de 24 de Outubro desse ano, a resposta de Pedro de Andrade (já referida na anterior crónica), co-proprietário da Portugália, excluiu o livro Serra-Mãe do plano editorial da casa editora. No entanto, o sonho da publicação persistiu e, se a decisão tomada pela administração da Portugália abalou Sebastião da Gama, a vontade de publicar ultrapassou o esmorecimento e o cuidado na organização e no conteúdo do livro ocuparam bastante do tempo do poeta.

Em 25 de Julho de 1945, anunciara a estrutura do livro a Matilde Rosa Araújo: “PRESENÇA - Os de tom místico (‘Presença’, ‘Remoinho’, ‘Eternidade’, ‘Rebentação’, etc.). Abrirá por ‘Vibração’ e terá no fim ‘Cortina’. SERRA-MÃE - ‘Harpa’, ‘vida’, etc. - Os em que falo da Serra. Porei talvez ‘Céu’ e ‘Versos ao Mar’. Achas que sim? POEMAS DE AMOR - ‘Pequeno Amor’ (em 1º lugar), ‘A meus Irmãos’, do meu Amor, ‘Para que tu não chores’, ‘Crepuscular’. JESUS - ‘Ressurreição’, ‘Oração de todas as horas’, etc. APONTAMENTOS - ‘Versos da Menina Morta’ (1º), ‘Pasmo’, ‘Apontamento’, ‘Tradição’, ‘Paisagem’, etc. ÚLTIMO LIVRO - A começar, a ‘Elegia desta manhã’. Depois ‘Canção’, ‘Poesia’, ‘Excesso’, ‘Quem me quiser amar’, ‘As rosas’, etc. E quero fechar o livro com ‘Alegria’ e ‘Claridade’. Como se tivesse atingido aquele estado que procuro com a minha poesia.” A amiga responder-lhe-ia em 2 de Agosto, a partir de Peso (Melgaço), em tom fortemente exclamativo: “Viva o Poeta, o grande Poeta 1945! Serra-Mãe é um bocado de sonho, de altura, que vai enluarar os escaparates de Portugal neste inverno próximo futuro!”

A estrutura seguida na obra não foi aquela que o poeta anunciara à amiga, tendo a opção ficado decidida com a ordem “Serra-Mãe, Apontamentos, Jesus, Presença, Poemas de Amor e Último Livro”. O grupo “Presença” abre com o poema “Presença” e conclui com o poema “Cortina”; o poema “Vibração”, que só tem esse título nos manuscritos, foi escolhido para iniciar o volume, ficando conhecido pelo seu primeiro verso - “A corda tensa que eu sou”. No grupo “Poemas de Amor”, constam todos os poemas indicados, embora “Pequeno Amor” tenha tido o título alterado para “Pequeno Poema”. No grupo “Apontamentos”, não constaram os poemas “Tradição” nem “Paisagem” — “Tradição”, datado de Novembro de 1942, só foi divulgado postumamente em obras como O Desafio da Arrábida, organizada por Eduardo Carqueijeiro (edição do Parque Natural da Arrábida / Instituto de Conservação da Natureza, 1996, em artigo assinado por Joana Luísa da Gama), no jornal informativo Cidadãos pela Arrábida (Agosto.2000) e na antologia A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa, organizada por António Mateus Vilhena e Daniel Pires (Centro de Estudos Bocageanos, 2002); “Paisagem”, datado de 13 de Junho de 1944, também não entrou neste volume, só tendo sido divulgado aquando da publicação da poesia reunida de Sebastião da Gama no volume O Inquieto Verbo do Mar (Assírio & Alvim, 2024). No grupo “Último livro”, a alteração resultou de o poema “Excesso” ter passado para o conjunto “Poemas de Amor”.

Lembra Joana Luísa da Gama, no livro Estala de saudade o coração (2013), que, “durante o ano de 1945 é normal encontrar nas cartas o assunto Serra-Mãe. Ou é mais um poema que nasce, ou mais um conselho de um amigo. É o nervosismo de procurar editor”, depois de a publicação ter sido recusada pela Ática e pela Portugália, situação ultrapassada porque os pais lhe disponibilizaram os 4800$00 necessários para uma edição de mil exemplares. E continua Joana Luísa: “as cartas que se seguem são de loucura: as idas à tipografia a acompanhar a impressão das folhas do seu livro, a revisão de provas porque não tinha dinheiro para pagar a um revisor, etc.”

Finalmente, Serra-Mãe, chancelado pela Portugália Editora, apareceria na montra em 18 de Dezembro de 1945, dedicado “à memória de meu tio, Alexandre Cardoso”, tendo na capa uma vinheta concebida pelo artista Lino António (1898-1974), constituído por 62 poemas compostos em 1943 (4), 1944 (39) e 1945 (19), datando o mais antigo de 15 de Agosto de 1943 (“Céu”) e o mais recente de 21 de Agosto de 1945 (“A um crucifixo”). 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1665, 2025-12-17, pg. 14.


domingo, 14 de dezembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (3)

 


Ao mesmo tempo que Sebastião da Gama partilhava a sua descoberta da Arrábida e a sua construção da “serra-mãe” com quem lhe era próximo, corria na sua imaginação o título do que viria a ser o seu primeiro livro — é de 1943 um caderno manuscrito, em cuja capa escreveu Serra-Mãi - Versos de Sebastião da Gama, datando a sua conclusão de 18 de Outubro desse ano. Constituído por 34 poemas, escritos entre 1942 e 1943, este conjunto viria a ficar de parte, pois nenhum deles integrou o livro Serra-Mãe publicado em 1945 — sete destes poemas viriam a ser publicados pelo autor na imprensa periódica (recurso que usou intensamente), em títulos como TurismoGazeta do SulJornal de Sintra e O Castelovidense; um integrou a obra póstuma Itinerário Paralelo (1967) e outro foi inserido no volume Cartas - I, que Joana Luísa da Gama organizou e publicou em 1994; os restantes só foram publicados no volume de poesia reunida O Inquieto Verbo do Mar, em 2024, ano do centenário do nascimento do poeta.

Existe um segundo conjunto de poemas sob o título Serra-Mãe integrando um dossiê de dactiloscritos, em cuja capa está registado Sebastião da Gama - Serra-Mãi - Cópia dos originais feita por Elisabeth Lindley Cintra (1942-1944). Sabendo-se da boa relação entre Sebastião da Gama e os irmãos Lindley Cintra — Luís Filipe (1925-1991), Elisabeth (1926-2019) e Graziela (1932-2006) —, não admira esta partilha de poemas, conferindo-lhes mesmo o estatuto de primeiros leitores. Este segundo conjunto não repete poemas do anterior, sendo constituído por 68 poemas, dos quais 37 vieram a integrar o livro Serra-Mãe (1945), 29 foram incluídos na obra póstuma Itinerário Paralelo (1967) e 2 ficaram inéditos.

Se pensarmos que Serra-Mãe é construído sobre 62 poemas, podemos considerar o trabalho de selecção e de organização que Sebastião da Gama exerceu na construção do seu primeiro livro, uma tarefa que ele próprio reconheceu e assumiu em diversas ocasiões, como ficou registado numa carta que dirigiu a Joana Luísa, em Setembro de 1944, ao dizer “Quando olho para a Serra-Mãe, vejo 75% do que lá está coisa reles; e até me dá vontade de a queimar. Preciso de chicotadas; de alguém, de um público”, ou, como confessou a Taborda de Vasconcelos, em carta de Dezembro de 1946, um ano depois de o livro ter sido publicado, quando este lhe pediu colaboração poética para o jornal Correio do Minho: “Não gosto de publicar demais. A não ser que escolha entre os 120 poemas que rejeitei para a elaboração da Serra-Mãi dois ou três menos detestáveis. Desde que levem a data, não me importo de publicá-los.”

Foi neste contexto de preparação do livro e de criteriosa escolha que Sebastião da Gama deu os seus originais a ler a vários amigos, depois de os ter partilhado com Joana Luísa — além de Luís Filipe Lindley Cintra, Matilde Rosa Araújo foi outra confidente da construção do livro, como podemos ler na carta que do Portinho da Arrábida lhe foi dirigida, em 25 de Julho de 1945, referindo-se à edição: “Falei já com o Cintra sobre a coisa e em Agosto vou ver o que poderei fazer: não sei ainda se o livro estará maduro; e vai custar-me a arrumação dos poemas. Manda-me dizer o teu conselho sempre bem-vindo.” O entusiasmo era crescente, pois havia já mesmo a promessa de uma editora — nessa mesma carta para Matilde Rosa Araújo, mas com a data de 23 de Julho, Sebastião da Gama explicava: “Ora escuta: ‘Portugália Editora’ prometeu-me publicar o meu livro. Estão aqui o Pedro de Andrade e a mulher, que são as pessoas mais amáveis deste mundo.”

A promessa parecia ser consistente, já que vinha de Pedro de Andrade, sócio e gerente da Portugália Editora, naquela altura em visita à Estalagem pertença dos pais de Sebastião da Gama, no Portinho. Do dia seguinte, 26 de Julho, é um curtíssimo poema intitulado “Instante”, mais parecendo um desabafo para uma página de diário: “’Mãe! / vou publicar o meu primeiro livro...’ // (A minha Mãe não chorou, / nem eu chorei, também.)”

O entusiasmo da promessa do editor esfriou dois meses depois, quando o poeta azeitonense recebeu uma carta de Pedro de Andrade, datada de 24 de Outubro, a contrariar a promessa feita: “Recebi o orçamento para o seu livro, que aqui junto. Depois de falar com os meus sócios sobre a possibilidade da edição, comunico-lhe com desgosto que, neste momento, à Portugália não interessam as publicações que não estejam integradas no nosso Plano. Temos o encargo de cerca de uma centena de originais por imprimir, e que já pagámos aos autores e tradutores, não sabendo ainda como lhes poderemos dar vazão. Como vê, o meu Amigo veio numa oportunidade de muitos trabalhos, que nem nos permite o prazer de lançar um jovem poeta e amigo, que nos merece toda a simpatia e apreço.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1660, 2025-12-10, pg. 10.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (2)

 


A Arrábida representou para Sebastião da Gama o espaço de eleição e de descoberta, o tempo do encontro consigo e com o mundo, a motivação para a sentir poético. Data de 6 de Novembro de 1943 uma carta em que ele confidenciava a Joana Luísa: “No desenrolar da minha Poesia, cheguei à conclusão de que a missão do Poeta é, não só explicar aos outros a Grandeza da Criação Divina, mas tentar o aperfeiçoamento do Homem.” Os amigos que o acompanharam não esqueceram nunca essa busca que animava o jovem azeitonense — em 24 de Fevereiro de 1962, num texto sobre o amigo, Maria de Lourdes Belchior escrevia no Diário de Lisboa que “a sua vida recôndita, a que trazia nas entranhas da alma, enriqueceu-se e configurou-se nos contactos com a Serra-Mãe, nos longos silêncios de vagabundagem pelos caminhos da Arrábida” e, trinta anos depois, em Evocação de Sebastião da Gama (1993), David Mourão-Ferreira testemunhava que “na memória de alguns de nós, ei-lo ainda (...) aguardando-nos, à chegada da trôpega camioneta que nos tinha levado até Vila Nogueira de Azeitão, para logo a seguir nos arrastar a pé, serra acima, serra abaixo, por veredas de que só ele detinha o segredo, a fim de melhor nos fazer ver ou rever todos os recantos, todos os encantos da sua Arrábida.”

Esta ligação do poeta azeitonense à Serra, de que os amigos foram dando testemunho, exprimiu-a ele em muitas e variadas ocasiões. Em primeiro lugar, com Joana Luísa, a namorada, a quem dizia, em carta do início de Agosto de 1944: “A Arrábida ocupa, como sabes, um dos bocados deste meu coração enorme e bem repartido: dizia eu há dias a um amigo, em carta, que ela é para mim como que uma mulher; que é para mim uma presença humana; e tenho saudades dela, se longe, como de uma namorada.” No final do mês, em 29, reafirmava-lhe, em jeito de declaração de amor, em curta frase, plena de emoção: “Tu e a Serra, as minhas duas noivas.” E, no final desse ano, em Dezembro, relatava-lhe um passeio dado na praia do Portinho: “Fui quase até ao fim da praia. E a Serra era uma coisa que não podia dizer-se. Parecia coberta pela cinza, que o Sol aloirava, de um veludo azul. Projecção de mim, a Serra, naquela hora calma e feliz!... E com os olhos nela, cantei a ‘vida’, numa toada que inventei. Eu hoje, se tivesse um piano, tinha composto mais que qualquer Beethoven. Parece que só a música seria hoje expressão conveniente de mim.”

A consolidação desta construção poética em torno da Serra aconteceu sobretudo ao longo do ano de 1945 — foi em Junho que, em nova carta para a namorada descreveu o ambiente matinal que vivia na Arrábida: “A manhã está como um verso. Parece que, sempre que vou sair, a minha Serra — a minha Amante, e minha Mãe, e minha Irmã, e minha Senhora, se veste do mais bonito, arrulha mais com a boca do Vento e com a boca do Mar, para me deter ou para começarem ainda nela as minhas saudades.” E, no mês seguinte, em 23 de Julho, nova carta saía do Portinho, dirigida a Matilde Rosa Araújo (1921-2010), a contar o diálogo com a Serra: “Espero, no entanto, que este Luar magnífico (que eu te não conto por compaixão) me faça bem. Dá-me cabo dos nervos estar para aqui mudo, quando todas as coisas falam pelos cotovelos aqui na Serra.”

O ano de 1945 traria, contudo, uma contrariedade à vida da Arrábida: em Agosto, um incêndio castigou o Monte Abraão e parte da serra próximo do Convento. O poeta azeitonense sentiu a dor com muita violência, como se fica a saber pela carta que, em 26 de Agosto, dirigiu à amiga Maria de Jesus Barroso (1925-2015): “Estou-te escrevendo, com a alma cortada... Deves ter sabido do incêndio que anda a chagar a minha Serra — a minha outra Mãe. Cada queimadura ressente-se em mim. Se eu tivesse a lágrima pronta a todas as chamadas, ontem teria chorado (...). Agora tenho os braços arranhados, a roupa cheira a carvão, porque em vez de chorar peguei numa pá e durante duas horas e meia fui bombeiro. Espero que a Vida tenha dó da Serra e de mim — e faça rebentar de novo as matas. Mas até lá, estou como à cabeceira de um doente muito querido.”

O louvor poético da Arrábida, naquela que foi a primeira obra de Sebastião da Gama, estava para breve, uma forma de declarar tudo o que com a Serra aprendera, tudo o que com ela descobrira.

Foto: "Serra-Mãe" - pintura do grupo Synapsis, em Abril de 2016

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1656, 2025-12-03, pg. 10.


quinta-feira, 13 de março de 2025

Joana Luísa da Gama: a mulher ao lado do Poeta (3)

 


Se há marca que ficou nesta relação entre Joana Luísa e Sebastião da Gama, essa foi a da dimensão da alegria, um traço fundamental na personalidade do poeta, como Joana Luísa fez sentir numa acção formativa para educadores em 1982, ao dizer que “a sua alegria transbordava”, cunho que ela também alimentava e que se lhes ajustava. Mesmo nos momentos mais dramáticos, marcados pela doença do marido, o papel que Joana desempenhou junto dele foi de lembrança dessa mesma alegria, valendo a pena relembrar a história a propósito do poema “Fé”, datado de finais de 1951, o último poema que ele escreveu: “Estávamos na Arrábida naquele 8 de Dezembro de 1951. O Sebastião tinha andado todo o dia um tanto misterioso: poucas falas, o olhar muito distante. Não se sentia muito bem de saúde mas não aludia ao facto. Depois do jantar, saímos (...) para ouvir o Mar, a Serra, o Vento... (...) Deitámo-nos cedo. (...) Sobre a madrugada, acordei com o soluçar do Sebastião, que me abraçava estremecendo com os fortes soluços que não conseguia conter. (...) Entre soluços e lágrimas, disse-me: ‘Se um de nós agora morrer, aquele que ficar vai sofrer muito, não vai, querida?’ Nunca soube explicar o que senti naquele momento, mas tive a ideia de que foi Nossa Senhora que me ensinou aquele recado tão bonito: ‘Ó filho, somos os dois tão novos! Quem vai pensar na morte com esta idade? Vamos dormir, sim?’ ‘Tens, razão, desculpa...’ Abraçou-me e não chorou mais. Passado pouco tempo, acordou o dia com o Sol brilhando sobre o Mar, lindo, luminoso. E, baixinho, com voz meiga como de costume quando me dizia um poema acabado de nascer, disse-me o poema ‘Fé’.”

Na véspera do Natal de 1955, Matilde Rosa Araújo recebeu carta de Joana Luísa, noticiando o seu regresso a Azeitão e o abandono da congregação religiosa a que se ligara após o falecimento de Sebastião da Gama, comunicação eivada de amor e de poesia: “Voltei, Tilde. (...) Não poderás calcular quanto me custou tomar esta resolução e até onde vai ou irá o sofrimento de sentir, mais que nunca, se é possível, a falta do Bastião, do meu querido Bastião que eu espero encontrar em todos os cantos da casa e nunca encontro.” Era o ponto de partida para uma viagem de absoluta preservação da memória, afinal o itinerário que assumiu.

O livro Estala de Saudade o Coração, de Joana Luísa da Gama, contém ainda mais duas partes: uma, constituída por crónicas versando memórias da infância em Azeitão, por onde passam situações e figuras familiares, pessoas que povoaram a terra com maior ou menor popularidade, eventos habituais no calendário local (a chegada do circo ou as marchas, por exemplo), personalidades e instituições que fizeram a história local (Frei Martinho ou o juiz de fora Machado de Faria, a quinta da Bacalhoa ou a Perpétua Azeitonense), havendo ainda espaço para momentos de reflexão, como o texto em que é valorizado o papel das mães e do esforço que lhes estava atribuído quando ainda não era celebrado o seu “dia”, por todos estes textos perpassando um sentimento de ternura e de afecto às experiências vividas ou testemunhadas.

O último grupo de textos alberga poemas de Joana Luísa da Gama produzidos entre Março de 1942 e Novembro de 1944, neles surgindo a dimensão religiosa, a expressão lírica de um “eu” dominado pela luta interior e por um certo sentimento nostálgico, imagens da infância e a influência da Natureza, em vários passos surgindo evidente alguma abordagem comum a Sebastião da Gama, como no poema “A Serra vestiu-se de noiva”, que é ao mesmo tempo um poema de amor, ou “Ouve, mar, que vens bramindo”, em que o sujeito poético, feminino, desabafa com o mar, perguntando-lhe pelo amado, seguindo a pista das cantigas de amigo.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1487, 2025-03-12, pg. 9.

 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Sebastião da Gama e as vivências de Estremoz (4)

 


Acilda Fragoso, a aluna, teve no professor-poeta um amigo e também ela foi motivo de apresentação a Joana Luísa através de carta, em 1951 — em 11 de Fevereiro: “Ontem, (...) encontrei a Acilda e a Maria Emília. Tão bonitas ambas, sob a chuva! Comprei-lhes violetas.”; em 7 de Março: “A Acilda faz anos na sexta. Disse-me o Banha. E eu combinei oferecer-lhe três ou quatro dos poemas deste ano dentro de uma capa feita pelo Banha. Na capa: somos assim aos 17.” Cerca de 60 anos depois da morte de Sebastião da Gama, em 13 de Abril de 2013, Acilda Fragoso evocava-o em Azeitão, mantendo viva a imagem, tal como a senhora que indicou ao visitante onde era o Largo do Espírito Santo: “O pedagogo, o professor amigo e poeta, deixou-nos em 7 de Fevereiro de 1952; no entanto, a sua presença persiste indelével na memória de todos os que tiveram o privilégio de com ele conviver, especialmente dos seus alunos. O Poeta-Professor ou Professor-Poeta, único no seu todo, sabia como nos fazer sentir únicos e como buscar o melhor de cada um dos seus alunos, deixando-nos perplexos com a descoberta de nós próprios. (...) Nesta cidade, de gente pacata, todos conheciam aquele homem barulhento, e que até era o novo professor, sempre de boina na cabeça, trazendo às vezes flores nas mãos, além de livros, porque, falando alto com a sua voz rouca, com todos metia conversa.”

Desde que chegou a Estremoz, Sebastião da Gama (a viver inicialmente na então Rua das Areias) insistiu na procura de casa para viver com Joana Luísa após o casamento (que se realizou em 4 de Maio de 1951). É numa carta de meados de Março, que, depois de ter desistido de várias propostas e de ter encontrado uma do seu agrado, escreve para Azeitão: “Estou doido com a casa. Vê-se toda a cidade e metade do Alentejo. A praça é engraçada — em frente de duas torres, de um chafariz, de uma capela. A cozinha, triangular, é grande e engraçada. Da janela vê-se quase tanto como do terraço, que é no terceiro andar (no telhado). É inclinado, não serve para lá comer ou trabalhar. Mas para o banho de sol é excelente.” Poucos dias depois, nova longa carta faz nova descrição da casa, terminando com uma promessa: “Vamos gostar tanto da nossa casa e do repouso que tenho cá que não nos apetecerá sair, pois não?” Estava escolhida a morada futura e os preparativos foram acontecendo com a ajuda de várias pessoas, entre as quais, Acilda Fragoso e Guiomar Ávila. Em vista, estava o segundo andar do número 2 do Largo do Espírito Santo, endereço que daria título a poema em 9 de Junho de 1951, registando como local de escrita “Nossa casa”, oito quadras que a apresentam a partir do sonho de quem a habita, do interior do lar e de um “nós” que alimenta todo o poema, talvez um dos mais belos poemas de amor. Publicado pela primeira vez na revista Árvore, o título suscitou divergências com a direcção, pois havia quem não aceitasse que uma morada figurasse como título de um poema... Foi preciso que Sebastião da Gama se impusesse e escrevesse ao seu amigo Luís Amaro a não deixar alternativas para o título ou, de outra forma, não aceitaria publicar na revista.

As imagens de Estremoz perpassam também na correspondência que Sebastião da Gama vai trocando com amigos como Virgílio Couto (o seu professor metodólogo), Cristovam Pavia e Luís Amaro (ambos alentejanos, ambos poetas), António Manuel Couto Viana (poeta), Matilde Rosa Araújo e Lindley Cintra (colegas da Faculdade e professores), José Régio (escritor), António Sampaio (pintor), Pedro Lisboa (médico) ou Albano Ferreira (que fora seu aluno em Lisboa). Nestas missivas, há frequentemente notas sobre a vida em Estremoz, em pequenos apontamentos que constituem recortes interessantes sobre o quotidiano, como se pode verificar na carta enviada a Matilde Rosa Araújo em 13 de Outubro de 1951, relatando um episódio vivido num sábado: “Hoje, logo pela manhã, uma coisa de nada cheia de ternura: no lugar do mercado onde se vende loiça de barro, um prato (não é bem um prato: é fundo e ondulado na beira) com este nome no fundo: MATILDES ROSA! Ó Matilde: o que nós rimos e nos comovemos ao mesmo tempo! Matildes Rosa! Que lindo vai no ‘seu erro de ortografia’ - diria o António Nobre. Comprámo-lo, está à tua espera. Se aparecer outro ficará entre os que têm (esses encomendados) os nomes dos nossos sobrinhos. Para te lembrarmos e eu te lembrar um pouco mais ainda.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1463, 2025-02-105, pg. 10.

 

terça-feira, 30 de julho de 2024

Palavra de escritor nas entrevistas de Luís Souta

 


Uma dezena e meia de escritores surgem reunidos, trazidos pela persistência e curiosidade de Luís Souta, na obra Vozes da Escrita - 15 Entrevistas a Escritores Portugueses (Edições Ex-Libris, 2024), sob o pretexto inicial de descoberta do “olhar que emergia do campo literário sobre o processo educativo”.

As entrevistas, maioritariamente realizadas entre 2001 e 2002 (distância que leva a que já só cinco dos entrevistados estejam entre nós), trazem-nos nomes bem conhecidos como: Matilde Rosa Araújo e Natália Nunes (nascidas em 1921), Fernando Miguel Bernardes (n. 1929), Maria Rosa Colaço (n. 1935), Júlio Conrado e Mário Ventura (n. 1936), Altino do Tojal (n. 1939), Cristóvão de Aguiar (n. 1940), António Damião (que usou o pseudónimo de Henrique Nicolau para as obras policiais, n. 1941), Fernando Venâncio e Mário de Carvalho (n. 1944), Fernando Dacosta (n. 1945) e Alice Vieira, Eduarda Dionísio e Ricardo França Jardim (n. 1946).

A anteceder as entrevistas, Luís Souta explica os critérios de escolha, de que se destacam: as referências mais ou menos autobiográficas nos retratos e episódios que as respectivas obras mostram sobre a escola; a perspectiva da vida escolar a partir dos pontos de vista do aluno ou do professor (uma vez que vários dos entrevistados tiveram o ensino como profissão e muitos dos relatos literários assentam no olhar e nas marcas que ficaram do tempo de alunos) e do romancista ou do pedagogo; a acção dialogante entre os escritores e a escola.

No entanto, não são apenas essas as pistas deixadas nas conversas — os escritores acabaram também por falar do mundo que tem entrado nas suas obras e das próprias condições de edição e do universo da leitura, em segmentos tão diversos como a crítica literária, os movimentos culturais e artísticos, o papel do professor, o valor da memória para a criação escrita, entre outros, chegando, muitas vezes, a conversa a revelar aspectos menos conhecidos do viver de cada um, fornecendo apontamentos de enriquecimento das respectivas biografias.

Pelo caminho, ficam-nos retratos de muita humanidade, coloridos com a experiência da vida e com o gosto de (re)construir ambientes e personagens. É assim que nos tocam observações sobre o que é ser professor, como a de Cristóvão de Aguiar (que também foi professor), ao dizer: “Não acredito que um professor, para ser bom, tenha de estudar muita pedagogia. Ela ajuda quem já possui vocação. Ser professor é uma arte, como a de actor. Não se aprende, nasce connosco, pode apenas aperfeiçoar-se. A pedagogia não constrói um professor. Aperfeiçoa-lhe o talento.” Ou ainda a de Maria Rosa Colaço (a escritora alcacerense, autora desse ainda hoje inovador livro que foi A Criança e a Vida): “Cabe ao professor (...) a semente destes valores essenciais à Paz, à Fraternidade, ao Entendimento dos Povos que devia ser preocupação primordial de todos os agentes de ensino.” É assim que nos entusiasmam reflexões tão pertinentes quanto as de Eduarda Dionísio (professora e filha de professores) sobre a distância que vai entre a certeza e a dúvida: “O meu itinerário foi sempre o da dúvida, ao contrário da geração do meu pai que precisava de certezas e por isso era um grande drama quando a certeza desaparecia... (...) O drama vem quando deixa de haver um número significativo de pessoas (...) que não acha que a dúvida faz avançar o mundo.” É assim que também a postura cívica do leitor fica preparada para falhas da sociedade, como no momento em que Júlio Conrado (que enaltece o papel exercido na sua formação por professores como Virgílio Couto e Xavier Roberto, mestres que também o foram de Sebastião da Gama e de Matilde Rosa Araújo), falando de um dos seus romances, revela: “A corrupção é um fenómeno permanente na vida das sociedades que não é propriedade exclusiva deste ou daquele grupo social. A arte de furtar é de sempre e as suas denúncia e crítica também.” É assim que uma verdade essencial sobre a função da literatura nos impressiona, trazida pela voz de Mário Ventura (escritor que viveu em Setúbal e que, na conversa, relembra também a origem do Festival de Cinema de Tróia por si proposto): “Sem uma literatura não há um povo culto. (...) Hoje em dia, é a literatura, e não só a portuguesa, que discute o Mundo, que o analisa e teoriza sobre ele. Os políticos são incompetentes, impróprios para consumo intelectual. Os filósofos também não são de consumo fácil. Por isso, penso que a literatura é o melhor (senão o único) veículo para compreender o Mundo.” É assim que nos deixamos enternecer por uma entrevistada como Matilde Rosa Araújo, que faz das suas respostas um prolongamento dos seus poemas e das suas histórias.

Luís Souta soube ser a possibilidade equilibrada de fazer chegar estas vozes, sem condicionamentos, sem imposição do seu intuito, mostrando que a vida não prescinde do pensamento e que há verdades que passam além do tempo em que são proferidas. Só assim se compreende como entrevistas com mais de vinte anos mantêm a sua pertinência na actualidade...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1352, 2024-07-30, pg. 10.

 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Bocage pelo olhar de Sebastião da Gama



Em 15 de Setembro de 1950, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, coube a Sebastião da Gama falar sobre o aniversariante do dia, escolhendo para título “Lugar de Bocage na nossa poesia de amor”, texto que germinava desde finais de 1948 - com efeito, nos seus apontamentos, consta que o esquema da palestra datava de 15 de Dezembro de 1948 e que a sua redacção ocorreu entre Maio e Junho de 1950 na Arrábida. Felizmente, o conteúdo dessa apresentação foi escrito, permitindo que ela fosse repetida em mais duas ocasiões - em Estremoz, em 13 de Abril de 1951, e em Vila Viçosa, em 1 de Junho do mesmo ano. Outra vantagem de a palestra ter sido lida foi a sua publicação em 1953 na Revista da Faculdade de Letras como forma de homenagear Sebastião da Gama, que falecera no ano anterior. O texto dessa conferência foi depois incluído numa antologia de estudos bocagianos devida à Junta Distrital de Setúbal, em 1965, e na obra do poeta azeitonense O segredo é amar (1969), recolha de textos em prosa a cargo de Matilde Rosa Araújo. A mais recente edição, em volume autónomo, esteve a cargo da Associação Cultural Sebastião da Gama, em 2016.

“Uma palestra sobre um poeta é afinal um pretextozinho para conviver com ele, uma ocasião de melhor o entender”. Assim justificava o jovem Sebastião da Gama, então com 26 anos, a sua presença perante o auditório. E continuava: “Bocage, a cada nova leitura, impõe-se-me mais vivo, mais avultado, mais poeta”. Esta confissão de leitor leva o orador a desconfiar daqueles que muito teorizam sobre Bocage, quando, afinal, o necessário é que a sua obra seja lida. E a ocasião para um convite à leitura é aproveitada de forma apelativa: “Ó leitores possíveis que me escutais, abri o Bocage, lede serenamente o Bocage, lede-o atentamente, honestamente, e logo vereis que não era preciso vir aqui.” Sebastião da Gama acentuará em toda a conferência o seu estatuto de leitor - veja-se o que diz, quando começa a falar de Camões, início da abordagem do tema do amor na obra bocagiana: “Apetece-me juntar aos lugares-comuns desta conversa mais um; e um enormíssimo, um comuníssimo lugar-comum: Luís de Camões foi o maior poeta português. Sabem lá os senhores com que prazer digo esta verdade?... Digo-a com o prazer que me vem de a não ter apanhado no ar, de a ter bebido na fonte. Foi lendo e relendo Camões que ganhei o direito de proclamá-la.”

A temática do amor na literatura portuguesa leva Sebastião da Gama a um percurso que vem desde a lírica galego-portuguesa até ao século XX, num total de dezoito autores, com referências a alguns estrangeiros, revelando-se Bocage, na poesia amorosa, como o mais conseguido amante - “Eis o que o opõe terminantemente a Camões: o contentamento de amar. E daí o ar festivo de tantos dos seus versos de amor.” E, a rematar: “Não há pose na poesia de Bocage: aquilo que ali está é aquilo que foi. (...) Bocage é aquele poeta que diz de frente o que tem a dizer. (...) Seria um amante como Bocage o que encontraríamos, a descermos à essência de cada um.”

Lugar de Bocage na nossa poesia de amor, de Sebastião da Gama, mantém ainda hoje a densidade crítica e a frescura do leitor compulsivo que ele era. A aproximação ao ouvinte-leitor afirma-se também pelo que o conferencista põe de si mesmo na abordagem, levando-nos a olhar Bocage de uma forma artística, mas sobretudo humana.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 693, 2021-09-15, p. 10.


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Matilde Rosa Araújo entre a verdade e a redenção (3)



O conto foi a tipologia literária que Matilde Rosa Araújo preferiu para o seu percurso de escritora, marcando todo o seu trajecto literário, opção justificada desde cedo: em 18 de Julho de 1944, Sebastião da Gama era o destinatário de uma carta de Matilde, que incluía alguns poemas anunciados como partes integrantes de um futuro livro, “Mar Alto” (que não viria a ser publicado), em que a preferência pelas histórias era registada - “Creio bem que o Mar Alto há-de ficar sempre numa gaveta à espera de maré. Prefiro publicar novelas que são menos eu. Tenho medo de que digam mal do mar alto porque dizem mal de mim.” E, uns meses depois, em Março de 1945, o poeta da Arrábida recebia nova carta, acompanhada de páginas do diário de Matilde, que proclamava, em 24 desse mês: “Eu vou fazer um conto quando tudo grita poesia. Mas a poesia não conta, fala sem dizer. E o conto conta, diz. (...) Eu tenho que dizer.”
Depois de se ter estreado com A Garrana em 1943, Matilde Rosa Araújo foi publicando contos em revistas diversas. Pela Páscoa de 1947, publicava Estrada sem Nome (Portugália), reunindo vários deles, depois de uma hesitação entre a conhecida editora da capital e a Coimbra Editora. Por todos passam vidas, num desejo grande de as contar, povoadas por crianças muitas vezes, mas sobretudo por personagens femininas - a solidão de uma professora (“Raquel, Raquel, Raquel”), o ciúme a atiçar o contrabandista e a faina dura de uma mulher que trabalhava para alimentar sete filhos de sete pais (“Papoila vermelha”), uma história de amor inventada entre solidão (“Catarina”), a viuvez de uma mulher que vira “barco sem vela” (“O marido que Deus tem”), a angústia perante o silêncio (“Atlântico”), a mistura dos sentidos e dos sentimentos (“Sala de espera”), a consciência do crescimento a partir do olhar sobre o corpo (“A menina das pernas grandes”), a ocupação do tempo e as distâncias sociais (“O aquário”).
A mais extensa narrativa assume o título do livro e surge pela voz de um narrador masculino, Manuel, em catorze partes. História contada em jeito de memórias ou de autobiografia, o relato de Nelo é uma entrada pela sobrevivência e pela descoberta do amor, redigida num momento de doença vivida em seis meses de hospital, forma que a personagem assume para se despedir de histórias do seu passado numa aldeia da zona monçanense e para encetar nova vivência do amor na capital, seduzido pela insistência da enfermeira que lhe vai lendo esses escritos um pouco às escondidas.
As vidas que perpassam por estes contos são marcadas pelo sofrimento e pela tristeza, pela doença e pelas dificuldades da vida, pela desprotecção e pela miséria, pelo trabalho infantil e pela solidão, numa permanente insatisfação medida na distância que vai entre a realidade e o sonho, muitas vezes com refúgio num imaginário salvífico, conjunto favorecedor de retratos de denúncia, intensos na estética neo-realista.
A aceitação do destino é bem descrita por Nelo: “A gente não sabe como as coisas começam, não. Primeiro são as folhas que caíram, a fazer remoinho. Depois sem mais começa o vento que até arranca as árvores. E nós somos o canavial que vai ficando moído sem se quebrar...” Quando Matilde Rosa Araújo dizia, na entrevista ao Século Ilustrado, que a literatura seria “verdade e redenção”, estaria, com certeza, a defender esta personagem, que, para tentar dar a volta ao destino, optou pela escrita para se libertar, para encontrar a redenção...
* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 658, 2021-07-07, p. 9.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Matilde Rosa Araújo entre a verdade e a redenção (2)

 


O conto “História de um Cão” impressionou Sebastião da Gama, que, em 29 de Agosto de 1944, escreveu a Matilde Rosa Araújo a partir da Arrábida: “Vamos ao muito importante: ao que poderia encher dez folhas, se eu fosse exuberante e soubesse mais que ficar mudo e ajoelhado diante de uma coisa bela ou grande. Isto tudo é a propósito do Amor; do seu cão. Digo-lhe cá muito do fundo que o seu conto é simplesmente admirável; que me agradou tanto como um bom poema; e que deve fazer mais assim (...). Mais do que elogios, que em mim, por deficiência de expressão, ficam sempre curtos, lhe diria o ter eu chegado ao fim e ter voltado logo à primeira linha. É lindo, lindo, lindo...”

Este conto, protagonizado por um cão chamado “Amor”, em que a autora navega filosoficamente entre a subjugação e a liberdade, abriu o volume Estrada sem Nome com uma nota entre parênteses - “à maneira de prefácio”. Estranha forma de prefaciar um livro usando uma narrativa sem quaisquer outras considerações! Mas também subtil forma de chamar a atenção para o estatuto de genuinidade, de autenticidade e de humanidade que as personagens das várias histórias vão assumir!...

A gestação de Estrada sem Nome foi sendo acompanhada por Sebastião da Gama, que, em 3 de Abril de 1947, na proximidade da sua publicação, serenava a amiga Matilde: “Podes ter a certeza, mesmo contra a opinião dos senhores críticos que vão ler o teu livro, de que fizeste alguma coisa digna da tua alegria, e da minha como teu Amigo, e da minha como teu camarada de geração. (...) Esta carta, escrita à beira de o teu livro sair, é a minha saudação de Irmão, de Camarada, de Amigo, pela publicação do teu livro. É a minha alegria comovida por esse milagre: porque um primeiro livro, quando nele pusemos toda a nossa generosidade e toda a nossa alma, é um milagre. Fica a ser um marco da nossa vida, tão importante como dia do nosso nascimento, ou mais importante ainda. Irá regular, embora ultrapassado, toda a tua actividade futura. Que o público o acarinhe, se quiser, a esse irmão da Serra-Mãe. Por mim, abraço-o em ti, e desejo-lhe boa viagem.”

Duas semanas depois, em 19 de Abril, na entrevista ao Século Ilustrado, o subtítulo “Pequenas Histórias”, que acompanhava o livro, era justificado por Matilde Rosa Araújo: “São pequenas histórias que me vieram sem eu saber como e têm um aspecto quebradiço, que vai desiludir muita gente habituada a espinhas dorsais. (...) Histórias fortes? Não. Deixei a tendência das histórias fortes...” Com efeito, nove das dez histórias do livro são marcadas pela curta dimensão, exceptuando-se a que recebe título homónimo do livro, novela de 60 páginas premiada nos Jogos Florais Universitários de 1945.

A crítica publicada recebeu estas histórias de uma forma em que o entusiasmo e a reserva coabitavam - houve quem gostasse e quem não apreciasse a história do cão Amor, houve quem preferisse uns a outros contos, mas sobressaiu o reconhecimento de se estar perante uma autora de valor, ainda que no início do trajecto de escritora - “possui verdadeiro talento de composição de quadros humanos ou episódios e sabe infiltrar neles um veio lírico, emocionado, por vezes tocantemente simples, que revela o melhor da sua sensibilidade de mulher e de escritora”, dizia, na edição de Mundo Literário, de 1 de Maio de 1948, Álvaro Salema, crítico a quem o livro fora oferecido dias antes da recensão, em Abril.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 653, 2021-06-30, p. 9.


quinta-feira, 24 de junho de 2021

Matilde Rosa Araújo entre a verdade e a redenção (1)



Em 1943, surgia A Garrana, título de Matilde Rosa Araújo (1921-2010), primeiro prémio do concurso “Procura-se Novelista!”, organizado pelo “Século Ilustrado” e pelo Rádio Club Português, sob patrocínio do Grémio Nacional dos Editores e Livreiros. A história conta a vida solitária e desprezada de Garrana, mulher de um contrabandista, a quem retiraram os filhos depois de ter matado o marido, que, desesperado, quis morrer após ter levado um tiro na acção de contrabando a que se dedicava na zona raiana. Depois de cumprir a pena, voltou à aldeia, vivendo sozinha e ouvindo o insulto da criançada apelidando-a de “bruxa”, justamente a ela, que fora “a moça mais linda da terra”.

Matilde Rosa Araújo pensava na escrita jornalística para contar vidas, lá onde a narrativa literária e a reportagem se deixam contaminar. Com efeito, em 1946, concluía a tese de licenciatura em Letras sob o título A reportagem como género - Génese do jornalismo através do constante histórico-literário, trabalho que rompeu o horizonte de expectativas no meio jornalístico, como denotava o entusiasmo da primeira página do jornal República, em 28 de Julho de 1946, no seu longo título: “Caso raro - Pela primeira vez na nossa Faculdade de Letras se defende uma tese sobre reportagem e jornalismo e foi uma senhora que a defendeu, obtendo alta classificação”.

No ano seguinte, em 1947, Matilde publicaria Estrada sem nome (Portugália), conjunto de uma dezena de contos, em alguns deles retomando a vida da raia e do contrabando, em todos eles perpassando vidas difíceis resultantes de alterações das vidas das personagens.

O aparecimento de Estrada sem nome teve a necessária repercussão na imprensa, com Matilde Rosa Araújo a dizer o que entendia como sendo a missão da literatura. Foi no Século Ilustrado, de 19 de Abril de 1947, que o assunto veio à tona, naturalmente com referência ao tempo que se vivia, o pós-guerra, situação que passava por uma reaprendizagem do que era viver e para a qual a literatura deveria contribuir - “Neste rescaldo trágico da guerra, a literatura vai tomar o único rumo possível em arte: o da verdade! Verdade e redenção! E, para dar a verdade, não é preciso dizer: olhai! Basta estremecer com a brisa como a folha cansada.”

Na entrevista, Matilde avança com a sua (curta) experiência de escritora, assumindo-se como uma contadora de vidas: “O que me interessa é o lado fluido da vida no desejo intenso de a viver.” E, mais adiante: “Às vezes, vou na rua e uma vida toca-me como um chamamento. Passa um dia, depois esqueço. Mas outro dia vem em que a mesma vida fala dentro de mim e me faz contar.”

Logo após a conclusão da licenciatura, Matilde Rosa Araújo trabalhava já na organização de Estrada sem nome, que vinha a ser construído havia dois anos. Redacção de novos contos, publicação de alguns em revistas e hesitações na escolha de editor foram ocupando a jovem escritora de 25 anos.

Na Arrábida, Sebastião da Gama lia-a e aconselhava - foi ele um dos primeiros leitores dos contos deste livro, tal como percebemos em carta de 14 de Agosto de 1944 que Matilde escreve para a Arrábida - tinha acabado de publicar o conto “História de um cão”, o texto que abre Estrada sem nome, envia-o para Sebastião e pede: “Que acha? Seja sincero pois não há nada para nos ajudar a formar a nossa auto-opinião e formação como o juízo de pessoas literariamente conscientes. (...) Tenho mais novelas para publicar e não me esquecerei de si.”

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 648, 2021-06-23, p. 9.